Paus de Escora


Vinha descendo pela Avenida do Sol e à minha frente um caminhão carregado com pau de escora. Para quem não conhece, o pau de escora exerce um papel fundamental na construção civil. Ele é quem apoia a armação de trilhos e isopor da laje, sobre os quais será depositado o concreto.
Depois de seco, de curado como se chama, o pau de escora é retirado e a laje fica solta no ar, suportada por colunas e vigas fincadas no alicerce, num lance genial de engenharia.
Aí, ele vai para o monte de madeira. Se der sorte, será revendido e continuará sua missão. Na maioria das vezes, o custo para vir buscá-lo não compensará o valor obtido com a revenda e ele acabará virando uma fogueira, servindo de lenha para fornos de padaria e cerâmicas, ou sendo simplesmente descartado em lixões urbanos.
Trafeguei uns 10 minutos atrás deles. Não tinha como cortar o caminhão naquela descida perigosa da Avenida do Sol, aqui no Jardim Botânico, em Brasília.
Durante aquele trajeto conversei com alguns deles.
Alguns eram mais tímidos, outros falantes e alegres. Eles não sabiam do que eu sabia. Sabiam que iriam servir e só.
E, não sabiam que após seu serviço, seriam descartados na maioria dos casos.
Naquele breve instante, refleti sobre o quanto podemos ter sido paus de escora para alguém, ou algo.
Ou o pior, tratarmos os outros como pau de escora, infelizmente muito comum.

a. Tem empresa e gestores que tratam seus funcionários como pau de escora. Na hora da precisão são valiosos, paparicados, “até de caminhão andam”.
São tratados com cuidado e valorizados. Alguns deles chegam a aparar arestas dos pau de escora, serrá-lo, prepara-lo para a missão que desempenharão. Depois de feita, após a laje secar, tchau e bença! Virão itens descartáveis, desprezados numa pilha de entulho humano qualquer.
Depois da obra pronta, bela e habitável, ninguém mais se lembra dos pau de escora que suportaram o peso da laje, até que o cimento, areia, concreto e brita adquirissem consistência e se firmasse. Não mais são lembrados. Na hora da premiação, sequer são citados. Eles estão ali, fazendo o melhor que podem para o serviço sair, mas são humildes, são simples, são de nível hierárquico inferior, por isso, para gestores ignóbeis: são sem valor.


b. Tem casal que um age para com o outro como o pessoal da construção civil age com os pau de escora. Na hora do sexo, meu benzinho pra lá, meu benzinho pra cá. Depois, tchau e bença.
Na hora de criar os filhos, preparar o lar, é só amor. Depois que engorda, fica cansada, com rugas... tchau e bença.
Na hora de tocar juntos projetos para o quais um precise do outro, só amor. Depois, um deles passa a tratar o outro como pau de escora usado e tchau e bença.
Tem relação pau de escora. Doentia. Relação que se mantém pelo o uso que um faz do outro, até que esse lhe sirva. Depois, tchau e bença.
Esquece o quanto um segurou a barra do outro. Um varou noites e dias esforçando-se para que o outro crescesse. Esquece num canto qualquer, numa pilha de madeira usada, aquele que um dia lhe deu tanto suporte.

c. Tem filhos que tratam seus pais como pau de escora. Na hora da precisão, só amor. Depois, tchau e bença. Passam séculos sem um telefonema, uma visita, e os pais agora os aborrecem.
Tem filhos que enquanto precisavam de roupa lavada, teto, comida, saúde estavam ali todos amiguinhos, ternos, afetuosos. Depois que crescem, pegam sua mãe-pau-de-escora e seu pai-pau-de-escora e os desprezam. Não os convidam para passeios, lazer, almoços ou outros itens de convivência. Não os ajudam financeiramente e, o mais importante, amorosamente. Os jogam no mesmo monte de madeira usada que fica no término de uma construção.
Filhos que acham que não devem respeito, gratidão, compaixão. Acham que os pais não precisam dele. Que os pais já não os entendem e não pertencem mais ao seu mundo. Envelheceram em seu coração.

d. Tem relações de amizade do tipo pau de escora. No momento que um precisa do outro, tudo corre bem. Tão logo satisfeita a necessidade, ou não mais seja importante, o amigo é desprezado ou trocado por outro, mais "útil".

São amizades pau-de-escora de construção. 

Tem relações de todos os tipos pau-de-escora. Um, só dá valor ao outro, enquanto enxerga nele uma fonte de serviço, poder, ter, prazer... Depois que isso acaba, ou quando não mais precisa disso, chutá-lhe a bunda e parte para explorar outros pau de escora, vida afora.

O caminhão freia. Volto à realidade e vejo um deles sorrindo para mim.
Pergunto-lhe por que ri.
Ele me responde que sorri, pois foi cortado de uma floresta de eucaliptos e que poderia ter virado carvão.  E que ri de minha visão negativa, essencialmente, de sua sina. Que nem todos são abandonados em pilhas de madeira velha.
Conta-me que na cadeia alimentar de seu destino, virar carvão precocemente é a pior sina. A melhor é virar um lápis da Faber-Castell. Mas, isso é para poucos.
O intermediário é virar pau de escora. Pois, da floresta até a loja de material de construção, e dali até a obra, ele prorrogará sua existência. E depois, ainda poderá ter a sorte de virar um novo pau de escora, caso revendido. Ou um trapiche. 


Falou-me de pessoas que servem aos outros perante a vida e que não são largadas num canto qualquer. 
São paus-de-escora diferenciados. Possuem o sentido e propósito do que fazem, e eles próprios podem procurar novos trabalhos.
São conscientes e possuem elevado senso de autonomia.
São empreendedores e aproveitam todas as possibilidades que a vida oferece para crescerem.
Servem com dedicação. Mas, caso tratados com desprezo saber sser resilientes e aguardar o melhor momento para reagir.
E lutar por dias melhores, rompendo a cadeia de opressão.
Era disso que ele sorria.  Sorria, pois sabia que podia fazer com as mãos seu viver e destino. Um pau de escora mais rebelde gritou lá do fundo da carga:
é, mas são poucos!

Não me contive e sorri também. 

Um do meio da pilha falou que conhecia muitos amigos paus de escora que após a obra tinha sido valorizados ali mesmo. Só mudaram de vocação. Foram reconhecidos.

O do fundo gritou... É mas são poucos.

Um pau de escora rebelde, era esse do fundo, pessimista com a natureza humana como o início desse texto.

O da frente explicou que alguns deles continuarão sua missão: sendo um suporte para horta, um pergolado, um trapiche, ou até voltar a ser escora de laje, caso reaproveitado. 

Aprendi, então, que mesmo o sofrer de ter sido jogado para fora e desprezado, após ter sido usado, pode aniquilar a pessoa humana. Ainda assim ela poderá transcender e renascer das cinzas.
Tem paus de obra que não são desprezados por aqueles que serviu. São felizes, são prestativos a vida lhes fez bem. Continuam servindo, seja no que for. 

Tem pessoas que uma vez precisaram em suas vidas de paus de escora e souberam reconhecer sua ajuda.
E até hoje são amigos. Sabem que entre si há uma dívida nunca resgatada.  Meus pais e irmãos foram meus paus de escora, e em vários momentos souberam sustentar minha existência, como os paus de escora suportam o peso da laje. 
Tive amigos com esse status também.  Souberam me ajudar em momentos difíceis, relacionados com a vida a dois, por ex.
Sem eles, teria sido tudo tão mais difícil!
Até hoje sou agradecido a essas pessoas, pais, irmãos e amigos que tanto me ajudaram, e foram meus queridos paus de escora. 
Nunca os deixarei numa pilha de lenha, para um forno de padaria. 
Estarão sempre presentes em minha vida, e serei eternamente grato pelo que um dia fizeram por mim.

Voltei a olhar a montanha de paus de escora seguindo na carga do caminhão à minha frente.

Fiquei embevecido com o diálogo que rolava na carga e de tanta sabedoria que dali saia.
Fiquei pensando no copeiro de meu andar, no porteiro de meu condomínio, na mensalista que mora conosco, nas moças que limpam nossas estações de trabalho, nas telefonistas, nos vigilantes, no pessoal da portaria. Fiquei pensando nos colegas que não aparecem à frente dos grandes projetos, mas que nos bastidores ajudam – com o que podem e sabem, a fazê-lo acontecer. Fiquei pensando em quantas pessoas passaram na minha vida e ajudaram a construir a laje de meu ser existencial, e quantas delas foram por mim tratadas como pau de escora, ou seja, desprezadas após me servirem. Para elas peço desculpas.
Queridos amigos que se sentem um pau de escora, lembrem-se que vocês ainda poderão vir a ser um lápis Faber-Castell, ou um belo trapiche ou pergolado. Portanto, caiam fora de relações que só te exploram. Todos nós, em algum momento em nosso viver, fomos ou seremos pau-de-escora para alguém. Mas, resistir e transformar essa situação é crucial - e pode ser feito, muitos fizeram e venceram. São exemplos.
Mesmo que te causem segurança e conforto momentâneo, fuja de situações nas quais é usado como um pau de escora.
Mesmo que doa. Mudem enquanto é tempo.
A construção de tua laje existencial está acabando. Logo, caso se sinta assim e não mude, será tarde demais.

Lembrei aquela canção que dizia assim "Tá vendo aquele edifício moço...?"
Tudo a ver com a sina de muitos paus de escora humanos.

O desafio é reencontrar-se após o desprezo e a dor da indiferença!

Reencontrar-se após rupturas, quebra de vínculos, dependências. Achar a identidade perdida no meio de tanta subjugação e exploração.

Será esse nosso desafio vida a fora. 

Servir como pau de escora, mas romper para outros desafios, sempre que o desprezo se fizer presente.

E, tudo pode ser uma questão de voltar a gostar de si mesmo. 

Saber do valor que tem, mesmo que para engenheiros, arquitetos só vejam em você um pau d escora desprezível diante de tudo que acontece numa construção civil. 
Não se preocupe, o mestre de obra maior, nosso Deus, sabe de sua importância. Sabe que se não fosse sua ação no mundo, seu existir, pessoas ficariam infelizes, mudanças não teriam acontecidos, bênçãos não seriam distribuídas por suas mãos.

2 comentários:

  1. Ricardim meu irmão!
    Que prazer ler este seu texto, mais que isso,compartilhar a sua experiência quase mística com os PAUS DE ESCORA.
    Depois do breefing que fizemos sobre o perfil pessoal da Ditec, fiquei pensando que muitos devem se sentir como tal, pela falta de reconhecimento.
    Grande abraço,
    Júlio Machado

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  2. Querido Júlio, seus textos muito me tocaram. Recomendo fortemente a todos que acessam meu blog visitar tua página, um manacial de reflexões. http://site.juliomachado.com.br/

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