Os sons do silêncio

Antes de ir para a cama, JG me perguntou sobre o que eu iria sonhar.
Não lhe respondi de pronto.
Desconversei.
Na verdade, eu não tinha um sonho na ponta da língua para oferecer-lhe, como uma resposta sabida.
É que fui pego de surpresa com a singular pergunta.
O que queria sonhar?
Fui dormir pensando nisso. 
Acordei com insônia de mim mesmo. Eram umas três da manhã. 
Algo me incomodara e acordei.
Recobrando a consciência descobri o que me incomodara era o profundo silêncio da madrugada.
Houvera chovido bastante, na entrada do novo dia. 
Agora a natureza como que adormecera.
Tudo era silêncio.
Não ouvia nenhum som. Não havia grilos piando, sapos coaxando.
Não havia vizinhos arrastando vidas.
Nem um som sequer de um distante motor de automóvel, ou o ronco de um avião na sua aerovia, que passa por cima aqui de casa.
Não havia nem o ressonar da parceira.
Um galozinho cantando, um cachorro latindo, um gato miando. Nada!
Tudo era silêncio.
Um silêncio que me apavorava.
O som do silêncio. O que houvera acontecido com todos os sons?
Até os imperceptíveis como o de uma flor desabrochando, ou o de um orvalho, orvalhando? 
Num movimento interior tentava contrair meus ouvidos, tentando extrair deles um som sequer, e nada.
Silêncio. Nada se movendo. Nada movendo a vida.
Silêncio. Temi todos meus sons interiores que agora se exasperavam em coro.
Ante tal sinfonia, até o vento calara.
Nem o tradicional som do pingo do chuveiro, sempre com folga ao fechar. 
Ou, o tique taque do relógio de mesa eu ouvira.
Silêncio total.
Nem uma moto fazendo a ronda sequer.
Só ouvia a mim mesmo.
Talvez, aí estivesse a razão da insônia. 
Ouvir minhas contradições.
Meus medos.
Meus não-ditos, desditos, malditos.
Ouvir minhas melecas interiores.
Minhas fraquezas.
No breu do quarto procurava um som ao longe, um som que me acalmasse.
Então, lembrei-me do sonho.
Este seria meu sonho.
Sonharia com sons.
De água correndo. De mar batendo em ondas na praia.
De palhas de coqueiro balançando. 
De uma velha cadeira de balanço.
De uma rede dolente.
De um pássaro-ferreiro grasnando ao longe.
De uma criança chorando.

De uma vitrola - de fim de feira, tocando uma seresta de qualidade duvidosa.
De um batidão Rave há quilômetros de distância.
De uma troca de marcha de um caminhão.
De camas rangendo com o calor de amantes.
Sonharia com sons.
Inebriado na fantasia, escuto o JG falando alto enquanto dorme.
Sua fala irrompe o silêncio, qual flecha amorosa.
Acalma-me.
Resgata-me.
Ao longe um galo canta.
Um grilo pia.
Um carro acelera.
A vida lentamente sai do modo pause.
Já não durmo. 
Num estado de semi-consciência, testemunho o acordar dos sons da vida que me cerca, um a um.
Vou colecionando-os: o galo; o grilo; a moto; o JG; o vento e meu coração.
De todos, os de meu coração, são os mais belos.

Sons do que fui, sou e serei!

Sons de compaixão, misericórdia e esperança!
Sons de luta e sobrevivência.
Sons de amizade. Sons de choro e riso. 
Sons de acalento, de doçura, de aconchego.
Sons de minha alma cansada, que agora embalada pelo meu viver, revigora-se para mais um dia de acontecenças, no arriscoso processo de amadurecer.

Uma antiga canção de ninar ouço ao longe. Estarei sonhando?

Sonhei JG...

Um comentário:

  1. O sonhar é um dom de Deus, aquele que sonha sabe como viver cada dia da sua vida de maneira mais simples, saudável e significante...

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