Será anormal continuar existindo, apesar dos pesares?

Comecei meu sábado como sempre visitando a feira dos produtores do Jardim Botânico, e trocando um bom dedo de prosa com barraqueiros amigos. O dia estava frio e com muita neblina.
Após o café, saí em direção ao comércio local para comprar as luzinhas da árvore de natal e deixar o JG no futebol.
Gosto muito do dia que montamos a árvore, sinto que a casa fica no clima de natal. Natal antigamente me dava melancolia, agora me dá paz.
Cheguei no treino do JG e fui procurar Sr. Valdir, e o seu roçado de feijão e milho.
De longe ele me avistou, e já ficou todo garboso, como quem esperava minha reação ao ver surpreso o crescimento de seu canteiro - obra prima que o Criador, em forma de feijão, milho e abóbora.
Ele conversava com um morador do Condomínio Ouro Vermelho I, que também admirava o fecundo canteiro.
Logo, nós três entabulávamos uma conversa sobre plantas, natureza, coisas assim.
O senhor desconhecido apresentou-se: Márcio Claussen.
Foi um gostar à primeira vista. Ele perguntou-me o que eu fazia da vida e contei-lhe que nas horas vagas era bancário, e que de vocação sou psicólogo.
Sua expressão se iluminou.
Contou-me que pessoas amigas recomendaram que ele procurasse um psicólogo. Queriam o melhor para ele. Do alto de seus sessenta e oito anos, ele viera perdas expressivas e recentes..
Uma separação, de segundo matrimônio, após cinco anos de relacionamento, o que deixou-lhe deixando-lhe sozinho no Condomínio, uma vez que ela voltou para Aracaju-SE.
Um câncer de próstata de três anos atrás.
E os mais graves: no último ano perdeu uma neta e uma filha, no espaço de seis meses.
A neta de uma grave infecção que entre a febre e o óbito passaram-se somente três dias.
E, a filha mais nova, dos seis que teve, de um infarte fulminante, aos 30 anos de idade.
Eu tudo ouvia. Esperava um monte de mágoas, resmungos, murmurações, queixas, traumas...
Nada disso veio em seguida.
Ele contou-me que o pessoal recomendou-lhe um psicólogo, pois achavam que ele estava doente por ser forte, por não ter adoecido de tanto luto.
Esperavam ele ficar prostrado numa cama, ou refém de um monte de tarja preta, e para o resto da vida.
Ele percorreu outro caminho.
E causou a todos perplexidade.
Numa sociedade medicamentosa, e que adora procurar um farol para iluminar sua dor , anunciando-lhe aos quatro cantos, como quem a pedir cuidado e atenção,  reagir de forma diferente da tradicional pode chocar.
Suspeito que alguns acharam que ele não estava ruim da cabeça.

A conversa se estendia e ele convidou-me para conhecer a biblioteca ao ar livre que montou no Condomínio e o seu projeto de "Faculdade da Natureza" que estava desenvolvendo.
Mostrou-me a horta medicinal e o espaço de convivência fraterna, recém inaugurado ,fruto de seu empreendedorismo social.
Falava-me com olhos brilhando sobre os próximos passos do projeto de educação ambiental que será um curso gratuito para os funcionários do Condomínio, sobre agricultura sustentável.
"Com direito à Certificado. Já imaginou o Sr. Valdir mostrando em casa o Certificado de Jardineiro Ecológico que receberá, quando terminar o treinamento?"

Fiquei embevecido.

Falou-me do amor. Do amor às coisas simples, e do quanto carrega menos fardos em seu viver. Falou-me que chegou a postos altos na engenharia de química, à frente de grandes multinacionais e associações de classe.
E, que cansou da corrida pelos bens materiais. Que tirou a roupa de executivo, com todo status e pose com o que alguns a colocam, e a trocou pela de ser humano. Que conversa com um serviçal de igual para igual, ambos crescendo um com o outro.
Contou-me que não conseguiu chegar a tempo para o enterro da neta. Pois, pegou um trânsito infernal ao desembarcar no RJ, com fechamento da avenida por quatro horas. Horas passadas num táxi ao da filha caçula, e que foram usadas para ambos atualizarem os diálogos e crescerem em amorosidade. a. Não sabia ele que aquele engarrafamento era combinado, com as coisas do alto, afinal aquele foi o último encontro com a filha, pois seis meses depois ela partiria também, vítima de um infarte.

Eu fiquei profundamente agradecido por ter sido escolhido para conhecer tão preciosa vida.

Ele para um instante, e fitando-me com olhos bondosos, pergunta-me mais uma vez se ele é um anormal - por estar sobrevivendo ao luto.
Por continuar tomando banho, fazendo a barba e enfrentando a beleza e o desafio de viver um dia de cada vez - como se fora o último.
As pessoas insistem que ele deveria chorar mais, sofrer mais, vestir uma mortalha e sair demostrando pra todos o quanto é infeliz.

Ele não quer viver esse papel.  Sente muito a perda de tudo.
Sente todas as dores dos últimos cinco anos.  Às vezes chora à noite, mas é choro pouco.
Ele tem mais netos e filhos para cuidar. Tem projetos para tocar e não quer desistir de viver.

Olho para ele, respondo-lhe que de fato ele é anormal.
Um ponto fora da curva. Um raro e precioso ser humano anormal.
Que ele recebeu o dom da vida. Que tem a coragem de sobreviventes e que, como um velho jequitibá, suporta todos os reveses ficando ainda mais forte ainda, ao enfrentá-los.
Dedico-lhe minha crônica Jequitibá, clique aqui -> Jequitibá
Digo-lhe que é um abençoado, pois tem em cada célula o genoma da resiliência.  E que ainda confortará e amparará a muitos, estrada afora.
Ele dá um suspiro e me diz: "finalmente alguém me entendeu. Não esmoreço por ser forte, só o faço por acreditar que a vida é maior do que a dor, do que a morte, e que a natureza se renova na esperança."

Contei-lhe das três colunas do bem-estar. Que basta que tenhamos um delas e já será suficiente para enfrentar a vida com coragem. As colunas das Emoções Positivas; dos Relacionamentos Significativos e dos Propósitos do Viver.

Fui inquerindo-o, coluna a coluna, e identifiquei nele a presença robusta das três.
Ou seja, é um abençoado.

Ele não guarda ressentimentos. Só nutre em seus pensamentos coisas boas. Gratidão; misericórdia e ternura para com todos. Ele aprendeu a repreender pensamentos incapacitantes, de mágoa ou culpa. Conta-me de um cartaz que botou na sala de aula improvisada de sua casa - Sim, Sr. Márcio dá aulas de reforço escolar em casa. O cartaz diz: "Dos pensamentos negativos eu saio à francesa".  Conta-me que não guarda nada ruim, nem dos casamentos desfeitos, nem da doença que o vitimou. Nem tampouco culpa Deus pela morte de seus entes queridos. Apenas acolhe, abraça e se conecta ao infinito procurando Nele o conforto de seu ser.  Parou um pouco de falar e ensinou-me os 5 Ds que prega aos alunos e pessoas amadas: Determinação; Desprendimento, Disciplina, Dedicação e Doação. E que esses 5Ds inspiram sua vida.   Coluna I, ok!

Depois, falou-me de como consegue criar vínculos com pessoas. Dos amigos que fez nos projetos de hortas que tocou como voluntário, e ao longo do exercício de sua profissão como químico, no eixo Rio-Aracaju. Mostrou-me menções honrosas que recebeu dessas pessoas, e que sem elas sua vida não teria sentido. Conhece cada um dos profissionais de limpeza e jardinagem do Condomínio e interessa-se por suas vidas. Falou-me dos seus filhos, netos, noras e genros com tanto carinho que os senti bem perto de mim. Nenhuma ponta de cobrança, de rabugice, de sentimento de desamparo,  tão comuns em idosos que moram longe dos filhos.  Coluna II, ok!

A última das colunas do bem-estar a do propósito, sentido ou realização ele tem e é das grandes. Em cinco minutos de conversa ele revela um monte de projetos. Sua Faculdade da Natureza, a expansão da horta medicinal. o parque dos ipês que cujo nome homenageará minha amiga Luíza e a da sua neta. Falou-me de projetos em Sto. Antônio do Descoberto de educação ambiental.  Coluna III - Ok!

Como uma pessoa dessa qualidade emocional adoecerá da alma?

Um ser humano que a vida tornou mais doce, mais encorpado e melhor para a humanidade a cada dia.

Sr. Márcio ensinou-me tanto. Eu que montava palestra sobre o Florescer e a Positividade, sai com o coração transbordando.

Não sem antes ele nos brindar com uma visita à sua casa. E, nela, não nos poupar de pequenos mimos.
JG ganhou uma caixinha com chocolates e eu ganhei um monte de acerolas.

Ele tem o dom de acolher. O dom de sobreviver saindo melhor a cada desastre emocional de que é vítima.

Sábio sr. Márcio, você não está doente.

Neste dia, como psicólogo, te dou alta de uma ida que não foi ainda.

Doente estamos nós...   e é sua coragem em enfrentar as dificuldades o que nos estranha e incomoda. Aí, queremos botar em você uma mortalha, para que também entre no coro dos desafinados e descontentes no qual vem se tornando a humanidade.

Ser alegre e esperançoso parece que virou um anormalidade.

Acredite em mim quando falo: sua "anormalidade" é o melhor diploma que a faculdade da natureza te concedeu.  Ensina essa competência aos que te rodeiam.
Garanto que eles serão mais felizes.

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Nota: Este texto foi escrito em 29/11/2014.   No final de ano, Sr. Márcio sofreu dois infartes no RJ, para onde tinha ido visitar os filhos e netos, vindo à óbito no dia 06/01/2015.  Abaixo texto homenagem postado de minha página no Facebook:

Todas estas fotos têm menos de um mês. Meu amigo Márcio fez a viagem definitiva hoje, após 68 anos bem vividos. Aqui em Brasília, sua cabeça era um caldeirão de sonhos e novos projetos. Queria alfabetizar os empregados mais simples do condomínio em que morava, chegou a montar a turma, com cinco deles, e pedir o material de treinamento. Liderou projeto de horta medicinal, e o de um novo bosque. Ficava ensandecido quando viam maltratarem as plantas, fez um protesto imenso para salvar um pé de Avelós e conseguiu. Tinha tempo e disponibilidade para todos. Era só doação e gratidão, nenhuma palavra má saia de sua boca. Márcio, era energia do bem em ação, e juntava pessoas para o bem comum. Leio as nossas trocas de mensagens do Zap Zap bem emocionado. Viramos bons amigos e estávamos sempre mandando divas reflexivas um para o outro. Estranhei o silêncio das mensagens após 20/12, contudo achei que deveria ser festanças de final de ano junto aos seus familiares no RJ.

"Bom dia Mestre Ricardim! Tudo Bem? Viajo para o Rio amanhã, 16/12. "Em 2014, ter lhe conhecido foi um destaque, com ações de amor, 2015 será um grande Florescer de alegria e felicidade. Abraços Márcio, 20/12."

Compartilho fragmentos de meu amigo-profeta: "Sou um grande sonhador e espero continuar sendo, acreditando nas pessoas e que as coisas possam mudar para melhor. Pulsa em mim muita energia e muito amor, que não pode ser apagado nunca. Como caixão não tem gaveta e minhoca não tem cérebro, procuro compartilhar três coisas que tenho de mais importante no momento que são: amor, energia e conhecimento.
Assim, quando a morte me chamar, ela levará somente meu corpo material e restará para as pessoas que convivi as três coisas: minha experiência que compartilhei, meu amor que transmiti e minha energia de ter vivido como espiritualista. Tenho uma receita para o bem viver que criei, os 5Ds:
1º D – Determinação, ao definir suas metas, objetivos, aonde quer chegar, quando e como fazer, levantamento de informações.
2º D – Desprendimento, aprender o novo, trabalhar JUNTO, ouvir, inovar, ter a mente aberta, buscar novas formas de atuar, suportar e conviver com as diferenças e principalmente muita humildade "para não querer inventar a roda”.
3º D – Disciplina, ter método, horários, conhecimento de como fazer, participar de reuniões, registro de ata.
4º D - Dedicação, afinal o sucesso é 1% de inspiração e 99% de trabalho; perseverança; regar diariamente seus sonhos; caminhada.
5º D - Doação, de um amor incondicional, compartilhar conhecimentos, envolvimento - é o mais importante 

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Vejam Nota do Sindicato dos Químicos e Engenheiros Químicos do Estado do Rio de Janeiro
Sentimos notificar o falecimento do Engenheiro Químico Marcio Landes Claussen, em 6 de janeiro de 2014. Historicamente um dos homenageados pelo SQEQRJ como Químico do Ano, Coordenador Geral do Instituto Brasileiro de Petróleo, Presidente do Conselho Regional de Química 3.a Região, Fundador do Instituto Jardim Botânico de Plantas Medicinais de Teresópolis, Coordenador do Movimento pelas Eleições Diretas no sistema CFQ-CRQ's, Editor das Revistas Petro&Gás e Instrumentação & Controle, e inúmeros livros técnicos em sua Editora McClaussen. Professor, amigo, visão política, expoente idealista pelas causas humanas, da ciência, química e meio ambiente, deixa saudades. Informações sobre o cerimonial, que deverá ocorrer amanhã, 7 de janeiro, no período da tarde, em Teresópolis, podem ser obtidas com a Sra. Glória através do telefone (21) 9-9353-6110.
O SQEQRJ encaminha as condolências aos familiares, amigos e instituições que fez parte.

Luiz Rodolfo de Aragão Ortiz

7 comentários:

  1. Tive o grande privilégio de viver e aprender ao lado de Márcio Claussen, como seu neto! Agradeço por eternizar os últimos anos dele, o que me permite sempre voltar aqui e relembrar um pouquinho do seu jeito. Escolheu muito bem suas palavras!
    Um forte abraço,
    Victor Orona Claussen Mancebo

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    1. Victor, seu avô me ensinou muito e fomos bons amigos, apesar do pouco tempo que passamos juntos. Creio que foi a mão de Deus quem preparou nosso encontro, havia um propósito. Ele amava a vida, amava vocês e estava sempre com a cabeça borbulhando com e ideias para ajudar ao próximo ou tornar o mundo melhor. Sinto muitas saudades de nossos papos cabeça, ele me ouvia, eu o ouvia. Fomos amigos.

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    2. Ele foi muito sábio, sempre me ensinava sobre a vida, o amor e a espiritualidade. De fato, foi um dos maiores mestres na arte da vida que pude conhecer. Sinto saudades também, mas gosto de pensar que ele está em um lugar melhor, aonde merece estar.

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