Passo a passo em direção à vida! (Quase Ficção)

                                                                                                     
    Para Jucá e Carminda

Passo a passo em direção à vida!   By Ricardim 

                   (Para enamoramentos)

O sol batia a casa das 8 da manhã. Um azul anil, com cheiro de praia vadia, inebriava o ar.
Quase nenhum vento, ou ondas, fazia daquele mar um espelho, um espelho de nós mesmos.
Dava para ver, refletido em sua tela, os pescadores que se deslocavam em pé, sobre precárias "embarcações-taxi", para alcançarem à seco, seus não menos precários barcos-pesqueiros.
Os inovadores "taxistas" criaram pequenas chatas que se deslocavam mansamente, ao serem empurradas por uma enorme vara de madeira. Assim, a singela balsa-taxi ia avançando lentamente, quase sem balançar, conduzindo seus passageiros à salvo.
Gosto de observar. Aprendi desde criança, quando ganhei de um primo uma coleção Jovem Cientista. Ali, aprendi que sem observação não se faz ciência. Depois, enveredei pelo hobby de fotografia e, mais depois ainda, pela psicologia. Assim, observar tornou-me tão natural como respirar.
Na beira-mar, crianças brincavam com um colchão inflável, fazendo-o de boia. Que boia bacana!
Ao lado de nós, há uns 100 metros, um mestre de capoeira ensinava seus gingados a jovens aprendizes.
Era de emocionar sua dedicação, ao fazer da praia sua sala de aula. Quantas crianças estariam sendo tiradas do risco social, com a inclusão pelo esporte, naquele treino. A Capoeira ensina o respeito ao semelhante quando todos na roda cantam que ninguém é maior que ninguém, e que se deve esperar o momento certo para adentrar ao seu meio, e passar a compor um balé com o outro, sem agredi-lo, desviando-se para não se ferir e cuidando nos gestos para não machucar o outro. Quanta sabedoria. 
Mais à frente de nossa barraca de praia, um casal 70genário toma sol, acomodados em poltronas plásticas duplas. Cabelinhos brancos, de um deles, e pose formosa de ambos. Era encantador.
Lentamente, ele a levanta e vão seguido em direção ao mar.
Passo a passo. Ambos com dificuldades de locomoção. Andam um pouquinho, param. Sorriem um para o outro. Não sabiam que eu os observava.
No mar, deitam-se na beirinha e ficam como crianças, empapando-se na lama de beira mar, ali no rasinho, local das criança. 
Eles estavam qual elas, brincando de felicidade. Alegres e risonhos, aquilo para eles deveria ser muito especial.
Os observo voltando. A mesma dificuldade.
Passos firmes, resolutos e decididos, mas lentos.
Um apoiando o outro. Ela, com pernas que brigavam com o peso e coxas roliças. Ele, quase se encurvando para protegê-la e a si mesmo.
Voltei minha máquina para captar os meninos no colchão de praia, e vejo umas mãos acenando.
É o senhor gritando: "aqui, aqui...".
Olho pra eles, envergonhado. 
Ele diz, "tá bom, tá bom?" 
E, sorrindo me diz: "Tá bom de sair da sua frente da fotografia".  rsrs  Rimos todos.
Pego minha cadeira e convido a esposa para dividirmos uma sombrinha de praia, com aquele casal afetuoso.
Aproximamo-nos e fizemos nossos cumprimentos.

Agradeci ao contato visual, o da foto. Sem ele não teria tido coragem de me aproximar. 
Aquele humor genuíno criou pontes entre as pessoas,  conexões de sentido.

Aprendi mais essa, alguém tem que tomar a decisão de aproximar.  
Logo estabelecemos um papo gostoso e nos conhecemos melhor.
Ele, diz-me diz que a cada aniversario da esposa a brinda com uma ida à praia. E que dia 22 ela completará mais um ano. É uma celebração que já faz parte da história do casal.
E, que sempre que conseguem chegar até o mar é como se não tivessem mais problemas em suas vidas.  Sentem-se vitoriosos e vivos ainda. Alcançar a praia é um desafio digno de por ele viver, e a cada ano repetem a cena.
Ela, diz-me que teria tudo para ficar numa cadeira de rodas, ou rede, ou até mesmo numa espreguiçadeira. Mas, locomover-se até o mar, dar-lhe a sensação de que ainda pode superar seus próprios limites físicos. E nada como ouvir o som do mar, e sentir suas ondas lavarem seus corpos e almas, preparando-lhes e rejuvenescendo lhes para novos amanhãs.
Fico bastante emocionado.
Que pessoas lindas. Ele, diz-me que chegar até o mar é vencer sua labirintite. E que até teve uma crise recente, com ida ao hospital.
Ele tem 76 anos, ela 74. Estão casados há 53 anos.
São de Cuiabá e vem à João Pessoa, "namorar", uma vez por ano, e já há muito tempo.
E, sempre vão tomar banho de mar. Embora estejam na suíte do Hotel Tambaú, um dos mais requintados da região, com um parque aquático digno de capa de revista, e que compete com o mar em atrações e conforto.
Para eles, nada como aquele contato com a mãe natureza, mesmo que de difícil acesso, para renovarem as esperanças na força de viver.
Passo a passo, em direção à superação de si mesmos e de todas as limitações, seguem confiantes para a beira mar, e dali voltam para suas cadeiras de praia.
Não ouvi uma palavra de mágoa, de culpa, de inveja, de doença, de vitimização, de dialetos oriundos do "gostoso falar do sofrer nosso de cada dia". Aquele que falamos para atrair pena dos outros para conosco mesmos.
No lugar disso, eles alternavam-se contando aventuras vividas. Falavam das boas memórias do passado como se fosse ontem. Aos poucos, eu ia me tornando o mais Cuiabano dos mortais.
De minha parte falava das idas ao MT e MS e do que lá tinha vivido de bom. Eles faziam muitas perguntas, estavam atentos e interessados, aliás nunca tive tanto prazer em falar dos meus recentes estudos de psicologia positiva como àquele casal.
À minha frente estava um daqueles casais dignos de um enredo de cinema, ou um livro de sobre a vida que vale a pena.
Sr. Pedro Jucá e Dona Carminda nos deram uma grande lição do que é o bom viver. De como é significativo aprimorar nossa percepção sobre a vida focando nossa jornada em tudo que é virtuoso, bom e belo.
Precioso demais aquele casal.
De cuidado e atenção um para com o outro.
De pequenos sonhos para o amanhã.
De uma relação com as perdas e frustrações, e até com as expectativas não realizadas, sem carregar nas tintas. Sem terem se tornado prisioneiros de suas desgraças, mas que delas fizeram graça.
Via os olhos brilhantes de Dona Carminda, escutando atentamente seu marido contar-me, talvez pela milésima vez, a sua saga com o Governador.
De quando o recebeu na redação do seu jornal, nos idos do Governo Militar, sendo intimidado; mas sem perder a pose e coragem. 
Sr. Jucá era jornalista e foi testemunha privilegiada da evolução político-social do Estado do Mato Grosso, e até de sua divisão.
Já conversávamos por umas duas horas, e parecia que o tempo parara.
Ela, o ouvia atenta e feliz, como se fosse a primeira vez.
E ele fazia gosto quando a escutava. Seu olhar para ela, contemplando-a quando nos falava, era um olhar de mar aberto. Acolhia cada sílaba, cada expressão.
Ela falava do quanto não se deixa desanimar, e não se deixa sentir-se doente, apesar de...
O sol foi ficando quente e fomos nos banhar.
Ela, de braço com minha esposa. Eu, vigiando Sr. Jucá. Ele, cheio de humor que me diz:: “de braços dados não...o que vão dizer?.” E sorri.
Na beira bar, ficamos proseando sobre a beleza da vida, mesmo que vez por outra ela apronte das suas.
De pessoas, como o Ivanildo (entregador de cadeira de praia) que faz do ofício um sentido maior, conhecendo e conversando com cada hóspede como se da família fosse.
Percebi que o sol levantara muito. Meu check-in seria às 14hrs. Acenei para o vendedor de cerveja, que ao me servir disse-me que têm dez anos que atende no local. O nomeei  meu cronometrista. Eu tinha mais 60 minutos. 
Passados aquele tempo, percebo acenando da praia o ambulante de cerveja. Mais pontual que a Guarda Inglesa. Assumindo uma responsabilidade que muitas das vezes nem os profissionais de grandes hotéis têm.
Coração apertado nos despedimos.
Senti a hora da partida, como quem deixa a presença de anjos de Deus.
Não queria ter saído dali. Existem pessoas-anjos por aí.
Hoje sou um garimpador delas.
Suas joias emocionais estão em todo lugar, mas para vê-las e recolhê-las precisa de tempo, entrega e um estilo de vida que não tema se aproximar dos outros.
Nossa geração face-azul-de-celular desaprende a cada dia a olhar para os lados e contemplar o que ali existe.
Seu foco é na telinha, no momento que lhe é dado. Não cria seus próprios momentos e infinitos particulares.
Aprendi a criar os meus. Aprendi a olhar de lado e ver vida em toda a parte.
Em aulas de capoeira, em crianças pobres divertindo-se numa "boia" de colchão inflável, em taxistas-balsas de mar... Num casal de idosos que se ajuda no trajeto ao mar. 
Em cada cena, tanta coisa boa emanando. 
Pequenos prazeres, os subversivos do cotidiano, ali fervilhavam.
É disto de que o sentido da vida se alimenta: humor, perdão recíproco, acolhimento, cuidado, atenção,  respeito, superação, paz e gratidão foi o que levei daquele casal, e compartilho com vocês.

Como diz um amigo meu, tornei-me um antropólogo de pessoas especiais. Saio à cata delas. E, sempre fico mais rico ao seu encontro. Assim aconteceu na noite anterior, a do casório, quando dividi a mesa com um casal quase octogenários, os Motta.
Mas, isso é outra crônica.  Voltando à praia percebo que 
Jucá e Carminda vivenciam práticas exitosas a uma vida com sentido. Eles descobriram muito mais do que os badalados 50 tons de cinza, os 50 tons de amor:  Abaixo resumo algum deles.

1. Viver Experiências - Eles poderiam ter ficado reféns dos seus destinos e saúde, em cadeiras de balanço monótonas. Esperando da vida uma resposta. Contudo não. Esforçam-se para continuarem ativos. E estimulam suas vidas pessoais, enchendo-as com experiências. Muitas das pesquisas sobre felicidade apontam que muito mais do que dinheiro, saúde, ou os status do poder, físico e/ou posição social, o que fica mesmo em termos de significado são as experiências que vamos nos permitindo viver.
Anualmente, eles se permitem viver uma experiência diferente, e ao assim fazê-lo, renovam-se mutuamente. Permita-se marcar sua vida a dois com experiências. Não precisam ser caras, luxuosas, do tipo Cruzeiro de luxo. Uma farofada de beira mar pode ser uma agradável experiência a dois. Uma fruta colhida das árvores, um banho de chuva, uma ida à feira livre. E, a mais importante, as oriundas das pessoas que vamos conhecendo ao longo do caminho. Elas, as pessoas, são a própria experiência.

2. Nutrir Amizades
Jucá e Carminda são amigos. Talvez a amizade seja o segredo desse casal que já passou das bodas de ouro. Uma amizade expressa em conversações infinitas entre eles. Quem têm amigos tem diálogo. Era perceptível que eles gostavam da presença um do outro. Não havia telinhas azuis de celulares, aparelhos de som, revistas ou outros distraidores entre eles. 
Um olhava para o outro, com um olhar doce, acolhedor, olhar de amigos que se respeitam e entre si nutrem pactos de cumplicidade. 
Eram muito mais que caras metades, eram caras inteiras que se complementam. Falavam de passeios, de sons, de suas histórias com vivacidade, como se nelas descrevessem belos filmes. Seja amigo de quem tu ama.   
Seja inteiro frente a ele(a). 

3. Cuidar do Outro
Sem pudor, ou falsos constrangimentos, um ajudava o outro. Um apoiava o outro. Ela, tomando sol, preocupava-se com a sombra dele. Ele, tomando sombra, preocupava-se com o sol dela. Formavam uma unidade cuidadora e terapêutica.  Observá-los dirigindo-se ao mar era um convite à oração. 
Era presença de Deus. 
Acho que uma vida a dois pede esse tipo de cuidado. Pede sim. Pede preocupação para ver se o outro está coberto, numa noite fria. Pede telefonemas despretensiosos ao longo do dia, para ver se o outro está bem. Pede dica de trânsitos, de quem partiu na frente. Pede atenção, sem asfixiar o outro com superproteção. Pede alternância de cuidados, senão a balança fica desequilibrada. Ou seja, pede reciprocidade. 
Se tu a ama, cuida dela amigo! Cuide, mesmo que possa se sentir até descuidado. Cuide, não para receber algo em troca, mas por não saber agir diferente.

4. Cultivar Emoções Positivas
Em nossos pensamentos mora o divino e o mundano. O caos e a ordem. O mal e o bem. Saber onde conectar nossos pensamentos é arte e mistério, sinal de sabedoria em que assim faz. Pense o bom, belo e virtuoso, como aquele casal, que em três horas de gostosa prosa não ouvimos sair de suas bocas uma palavra sequer de queixa, ofensas, ranzice, mal-humor, pessimismo, falta de esperança.  Tudo que ouvíamos era doçura, bondade e gratidão, para com tudo.  Tem relações que vão ficando doente pelo excesso de negatividade, um vai secando a si mesmo e ao outro. Nada presta, tudo é olhado pela crítica, nada está bom o suficiente que não possa melhorar, tudo está em dívida para com eles.  Ninguém presta o suficiente, ou é bom, idem. Relações do tipo barril de pólvora, que o maior prazer de ambos é falarem mal de todos. Nutra o bom em seus pensamentos. Não dê abrigo a pensamentos ruins, de todos os seus tipos e estilos, por mais lógicos que pareçam. Escute-me quando falo, temos DNAs emocionais que curam e libertam, assim como os que prendem e adoecem. Opte pelo primeiro grupo. 

5. Saber recontar as histórias - Aquele casal revisitava as cenas de suas vidas, até as mais difíceis, trazendo delas aprendizados. Nunca ingratidões ou maldições. Tudo era visto pela prumada da bênção, da tolerância e aceitação de si mesmos, dos outros e das circunstâncias. Eles recontavam suas histórias de vida com 50 tons de rosas. Aprenderam a perceber as bênçãos e a publicá-las em seu viver. Conte suas bênçãos, e todos os dias. Olhe para o lado bom da vida que lhe acontece, para as possibilidades, para os pequenos prazeres e vitórias que tornam a vida uma experiência singular. Perdoe-se dos erros do passado. Das decisões que adiou, ou não tomou, ou se estrepou.  Zere saldos de culpa. Não fique refém de sua história de vida. Liberte-se dela. Conte suas histórias reescrevendo as cenas, com um olhar bondoso sobre si mesmo, o outro e a vida. Assim, vivam suas histórias de vida com menos tintas trágicas, e mais cômicas. Com menos intensidade toxica, e mais intensidade amorosa. 

Por fim, esteja atento. Ele percebeu-me fotografando as crianças. Esteja atento e 100% presente no viver. É tudo uma questão de escolhas. Acredite. Escolha desenvolver a visão periférica, holista e ampliada da vida e do viver.  

Jucá e Carminda, eu precisava escrever estes fragmentos de nosso contato, pois estavam explodindo de luzes cintilantes em meu interior. Não seria justo eu ficar só com elas. Tinha que compartilhá-las!

Obrigado por existirem.

5 comentários:

  1. Que lindo texto! Juca e Mindinha são primos distantes, mas sempre próximos do coração... Felicidade estar com eles através das suas palavras e do seu olhar! Gratidão

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    1. Obrigado, pelo estímulo. Eles, realmente, são belos e sábios.

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