Cuidadores de Pessoas Sem Necessidades Especiais (Autor Ricardo de Faria Barros)

O motivador desta crônica foi o relato de Sr. Valdecir (76 anos).  De quando na sua casa cheguei, no momento em que regava seu jardim, em frente à sua casa (ver foto).
Após saudá-lo, fomos tomar um café na cozinha.
Hoje ele estava meio agitado. Contou-me um monte de coisas que andam preocupando a cabeça dele, tirando-lhe o sono, a vontade de comer e que o deixam infeliz: "Ricardo, ando com a vida cheia de tubulações (atribulações)...".
Todas elas, girando em torno de algumas situações-problema de pessoas da família. E, nenhuma delas, dizendo respeito exclusivamente a ele.  Então, contei-lhe a história de Dona Januária, a que embasará esta crônica, veja a seguir. 

Dona Januária, aparentando um certo nervosismo, lentamente ergueu as mãos, inscrevendo-se para compartilhar sua resposta à minha pergunta: "Qual a receita para uma vida feliz na envelhescência?"

Lentamente, um tanto vacilante, ela dirigiu-se à frente. Mas, ao tomar o microfone, já era outra pessoa.  Serena e confiante, ela foi irradiando luz em forma de letrinhas debulhadas ao vento.

Contou-nos que há 15 anos tinha sofrido um AVC, cuja recuperação de parte dos movimentos foi quase um milagre.

E que uma enfermeira de UTI ensinou-lhe uma receita para diminuir o risco de vir a ter um outro:

"Dona Januária, a senhora precisa parar de se preocupar tanto com os outros. Esvazie sua cabeça dos problemas dos filhos, noras, genros, netos e demais familiares, para que dentro dela possa caber sua própria vida. Deixe de viver sua vida pela ida dos outros, eles já estão crescidos."

Uauuu!!!

Ela falava com uma paz que contagiava a todos nós. E, sem rancor, sem mágoa, ou qualquer falsidade, ela disse que fez um propósito de vida, ali naquela UTI, de parar de deixar que a vida dela fosse a expressão da vida dos outros, nas suas alegrias, frustrações, e situações que lhes causava alguma dose de aflição.  Finalmente, aos 62, ela enxergou que passava todo o dia gravitando na vida de todos da família e amigos, e que não pensava nela mesma.

Se um filho tinha algum problemas aquilo era suficiente para acabar com toda a graça de seu dia.
Se um filho pedia para usar o cartão de crédito dela, e não pagava, ela não tinha coragem de cobrá-lo, provando-se de suas poucas economias para socorrer o filho.
Que, tempo depois, o filho comprava mais coisas, ou ia se divertir com os amigos, gastando tudo outra vez, e recorrendo mais uma vez a ela.
Que alguns chegavam na casa - sem combinarem, e só iam embora no domingo, tirando a liberdade dela de também fazer o que queria, para aquele final de semana. E fazendo-a ter que correr atrás de coisas para alimentá-los, corroendo a pouca renda mensal que tinha.  

Bem emocionada, com a voz embargada, ela contou ainda que descobriu que não tinha a vida dela mesma, que viúva que era,  poderia viajar, passear com as amigas da igreja, ou aprender algo novo de que gostasse de fazer.

Ela virou a provedora dos filhos, a dona da pensão, a cuidadora de jovens-velhos que não querem mais sair de casa, pela comodidade de que a casa dos pais lhes oferecem.

Encerrou dizendo que há uns dez anos passou a colocar barreiras, exigindo que respeitassem o espaço dela, suas economias, sua privacidade e desejos, e que nunca mais fez a rota de telefonemas diários que fazia antes, ligando pra umas oito pessoas da família, para absorver deles as preocupações, ou responsabilidades, que cabe a eles mesmos resolverem, ou com elas lidarem.

Fiquei tão mexido com aquele depoimento que só consegui expressá-lo nesta crônica, meses depois,  no dia de hoje.

Sou pai de quatro filhos e em breve terei neto. E não quero isto para mim. Não quero gravitar minha vida em função da vida deles. Quero ser que nem Dona Januária, e não preciso de um AVC para sacar que é chegada a minha hora de cuidar de mim.
O que não significa que não lhes amem, de montão, ou que não esteja disposto a ser um apoio, quando de mim necessitarem.

Mas, não podemos fazer isto com nossa vida. Viver nossa vida em função da vida dos outros. Ser permeável a todo problema que ocorre na vida deles, e que serão eles, com autonomia e responsabilidade quem deverá resolvê-los e beber daquele cálice.

Tenho visto um monte de jovens-velhos que não saem mais da casa de seus pais, e ainda exigem que seus pais sejam uma espécie de cuidadores deles. Roupa lavada, comida pronta, e - eventualmente, socorra-nos com empréstimos e compras no cartão - nunca devidamente ressarcidas.

Os "Novos Velhos" - expressão que caracteriza um movimento pela busca da qualidade de vida e plenitude na longevidade,  não podem renunciar à sua própria existência realizada, condicionando-a à existência realizada dos outros.

Isto não é empatia, isto é co-dependência afetiva, e do tipo asfixiante.  "Dai a César o que é de César". Pois, este negócio de achar ocupação na vida se ocupando da vida dos outros é muito pobre, enquanto realização pessoal na longevidade, esta vida é de "César". 
Sem falar nos aborrecimentos que podem causar, na própria dinâmica de vida dos outros, que passa a ser vigiada e cobrada, por esta pessoa que deixa de focar nas suas próprias necessidades e desejos, deslocando-os  para os outros.

Valeu Dona Januária, é preciso impor limites sobre todo aquele que quiser transferir sua própria vida para a nossa. 

Isto será educativo até para eles. E, fazendo assim, passaremos a perguntar-nos - com mais frequencia, o que de fato queremos para nós mesmos, do reino da plenitude, felicidade e satisfação.

Sem querer viver como cuidador familiar, de pessoas que não necessitam de cuidados especiais algum, só precisam assumir suas próprias escolhas, decisões e responsabilidades sobre a vida e o viver.


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