Domingo de Carnaval com Gosto de Chá de Galinha

 


Têm domingos que a vida resolve te presentear. Não com fogos de artifício nem com grandes epifania;  mas com pastel de vento, ipê amarelo e uma história de galinhas que faz chorar de ternura.

Comecei o dia com uma frustração digna de nota: a barraca do bode com inhame tinha ido para a praia. Carnaval é carnaval, e até o bode merece férias. Fiquei ali, babando em frente ao portão fechado, como alguém que chega na festa e descobre que a festa foi embora. Mas a vida tem esses desvios que, às vezes, são mais ricos que o destino original.

Foi o desvio que me levou ao Seu Nino.

Seis garrafinhas pet multicoloridas na frente de uma pastelaria não são exatamente um convite sofisticado. Mas algo me disse: entra. E entrei. O suco de manga já foi uma declaração de amor. Mas o pastel — meu Deus, o pastel. Daqueles que se come a massa inteira sem precisar de recheio, porque a massa já é o milagre. O famoso pastel de vento, que não precisa de nada por dentro porque por fora já é completo. Como certas pessoas.

Seu Nino faz a própria massa. Não economiza em manteiga. Abre ali, na frente dos clientes, como quem não tem segredo a esconder — só amor a mostrar. Aprendeu com a mãe, que também tem ponto na Feira da Prata. E tem mais oito parentes com seus pontos espalhados por aquele território de cheiros e histórias. Uma família que fincou raízes num lugar e dele fez reino. Há quanto tempo o Brasil é feito dessa gente que a gente não vê nas manchetes?

Levei um pastel de queijo do coalho pra mamãe. Ela adorou. Claro que adorou.

Depois me lancei em direção a Puxinanã, porque sempre amei esse nome. Tem cidades que parecem ter sido batizadas por poetas em dia de inspiração. O caminho foi presente: ipês amarelos florescendo às beiradas da estrada como se a natureza tivesse decidido decorar o salão antes dos convidados chegarem. O clima meio chuvoso, daquele jeito que só quem nasceu no Nordeste sabe apreciar como bênção — como água no deserto, como notícia boa, como cheiro de terra molhada que a infância guarda dentro da gente.

Voltei. Ajeitei o almoço de mamãe. E me dirigi ao Ô Bar da Fava, a menos de dois quilômetros de casa, para comer uma faça com bode — porque domingo sem bode, no meu vocabulário afetivo, é texto sem ponto final.

Enquanto esperava o arroz de leite com bode, o Instagram me trouxe uma história que aqueceu a alma inteira.

Uma senhora de Hidrolândia, em Goiás, perdeu mais de quarenta galinhas na véspera de Ano Novo. Morreram de infarto — literalmente — perseguidas por cães. Não eram só galinhas. Eram galinhas com nome. Daquelas que a gente cria e que viram família sem cerimônia, sem contrato, sem que ninguém perceba a hora exata em que o bicho deixou de ser animal e virou afeto com penas.

Ela ficou inconsolável. Como se perde alguém.

Os amigos souberam. E, sem ela saber, organizaram um Chá de Galinhas.

No último final de semana, mais de quinze carros foram estacionando na frente da casa dela. Cada pessoa desceu carregando pelo menos um galináceo vivo — galos, galinhas, patos, assemelhados — todos com vida, todos com destino certo. Ela olhou pela janela e achou que alguém tinha morrido. Porque quando muita gente chega ao mesmo tempo, a primeira hipótese do coração é a má notícia.

Mas era o contrário. Era a vida chegando de braços abertos e de galo na mão.

Ela não se conteve. Chorou. Não acreditava.

Fiquei ali, comendo minha faça, olhando para a tela do celular com os olhos marejados, e pensei: quanta gente boa existe nesse mundo que a gente não vê.

Quem organizou o Chá de Galinhas. Quem doou. Quem foi levar. Quem abriu o galinheiro de casa e disse leva, ela precisa mais. Uma corrente de solidariedade que não dá ibope, não vira manchete, não tem hashtag viral — mas que recompõe o que foi perdido e ainda acrescenta juros de humanidade.

Sei que muita gente anda desencantada. E entendo. O noticiário às vezes parece uma curadoria do pior de nós. Mas o pior de nós não é a totalidade de nós.

Ainda existe o Seu Nino que não economiza em manteiga e ensina o filho com a mesma mão que aprendeu da mãe. Ainda existe o ipê amarelo que floresce sem pedir permissão na beira da estrada de Puxinanã. Ainda existe o cheiro de chuva no Nordeste como benção antiga. Ainda existe a senhora de Hidrolândia que chora de alegria abraçada a uma galinha desconhecida que virou símbolo de que não estava sozinha.

E ainda existe domingo de carnaval em que a barraca do bode fecha, e a vida te desvia para um pastel de vento que dissolve na boca — e te lembra que os melhores momentos quase sempre chegam pelo atalho que a gente não planejou.

Bel Marques, Ainda Estamos Aqui


O mundo aqui em Campina Grande é um cobertor molhado. Chuva fina, daquelas que canta no telhado como um sussurro de segredo, e o silêncio da tarde — pesado, mas calmo. Minha mãe, recobrando-se de uma cirurgia, dormita no sofá, e eu, de olho na janela, sinto o tempo deslizar devagar, quase triste. Até que o celular vibra, e é uma chamda de vídeo. 

Na tela, um caos colorido. Rodrigo e Andrezza, suados, sorridentes, com os olhos brilhando como se tivessem roubado um pedaço do sol de Salvador. O fundo é um mar de gente, um *vumbora* de cores, e a voz de Bell Marques ecoando: *“Que calor é esse?!”* Eles estão no bloco Vumbora, na Barra-Ondina, no sábado 14.
"Tá vendo, meu velho? Ainda estamos", grita Rodrigo, apertando o celular com uma mão, enquanto Andrezza, com o abadá roxo do bloco, acena com um "estamos vivos" que nem precisa de palavras. Na pequena janela do vídeo, minha cara — o sorriso de quem vê a vida fora do quarto — contrasta com a explosão da avenida. É como se o universo tivesse dividido a tela: um lado, a chuva de Campina; o outro, o fogo do Carnaval.  

Quem olha de fora, talvez diga: “Mas, cara, o início do ano é um caos! Dívidas, escola nova pro Laís, o Eduardo com dois anos… Eles tavam loucos?”. Talvez. Mas Rodrigo e Andrezza, há mais de dez anos, têm um ritual: ir pro Carnaval de Salvador. E em 2026, nada os pararia.  

A história é assim: contas apertadas, boletos da escola, a pressão de “serem pais de verdade” — como se isso significasse só trabalho e seriedade. Só que, no fundo, eles sabiam: se não forem, a vida vira um filme sem cor. Então, planejaram o impossível. Voo de madrugada, um dia só no bloco, e bate e volta: sem hotel, sem descanso. 

“É barril, meu irmão!”, escuto ao longe. A gente chicleteia a vida, ajusta as velas e vem!  

E é isso: *chicletear*. Não é só dançar, é segurar a vida com as duas mãos, mesmo quando ela escorrega.  

Naquela videochamada, o que mais me chamou? O olhar deles. Não era cansaço. Era triunfo. Enquanto eu, aqui, via a chuva cair, eles saboreavam cada segundo. O suor, o barulho, o “100% você” do Bell Marques — tudo virava combustível.  

É isso que a gente esquece: viver não é só sobreviver. A psicologia chama de savoring (saborear), mas, pra gente, é fazer do hoje um presente. Rodrigo, naquela multidão, não pensava no trabalho da segunda-feira. Andrezza, com o abadá colado no suor, não se punia por “deixar os filhos em casa”. Eles estavam ali. Só ali.  E sabe o que mais? Isso é resistência. Num mundo que quer que a gente viva desconexões, e maratonas de boletos, que sempre chegam, eles foram para o meio da rua e disseram: “Ainda estamos aqui”.  

E é verdade. Quanto mais a gente cuida da própria alegria, mais a gente ensina a família a viver. Porque, se os pais virarem fantasmas de somente de responsabilidades, os filhos aprendem que a vida é cinza. Mas, se os pais "chicletearem", mesmo com dificuldade, eles deixam um legado: “Nossa família não desiste”.  

Porque, no fundo, o Carnaval não é só folia. É resistência cultural. É dizer: “Apesar do mundo, eu vou dançar”.  

Hoje, naquela tarde cinzenta, eu entendi algo: a vida não espera a gente ficar pronto para ser feliz. Rodrigo e Andrezza não esperaram “melhorar as contas” pra ir pro bloco. Eles foram, mesmo com medo, mesmo com fadiga.  

E sabe o que isso traz? Energia. Cada acorde do Bell Marques, cada abraço na multidão, vai ser combustível para 2026. Porque, quando a gente saboreia, a alegria não some. Ela vira força.  

Agora, a chuva aqui em Campina Grande não parece mais triste. Pelo contrário: é até sonora, como um convite para dançar. Enquanto minha mãe dormita, penso naquela imagem: Rodrigo, com o abadá roxo, sorrindo pra câmera, e Andreza acomapanhando juntinho, gritando: Ainda estamos aqui!".  

A lição é simples: não deixe a vida virar um filme de quarto. Vá pro que faz seu coração acelerar. Mesmo que seja um bate e volta. Mesmo que chova.  

Porque, no fim, a gente não se lembra do que comprou. A gente se lembra do que viveu.  

E, como diz o Bell Marques: “Que calor é esse?”.  

É o calor de saber que, mesmo na lama, a gente ainda dança.  

Porque a vida é curta pra ser vivida só de boletos.

P.S.: A foto da videochamada? Guardo ela na memória. É a prova de que, mesmo na chuva, a gente pode ter um sol dentro do peito. E, se um dia você se sentir cansado, lembre-se: “Ainda estamos aqui”.  

A Traira, as Ovas e o Tufo de Cabelo Branco

 


Sábado tem cheiro diferente.

Não sei se é o ar, se é a luz que cai diferente sobre as coisas, ou se é só o coração que abre mais cedo. Mas sábado — especialmente sábado com feira — é um dia que já acorda com personalidade.

Saí cedinho. Campina Grande ainda estava sonolenta, mas o Mercado Central já fervia, do jeito que só lugar vivo ferve: aquele calor humano que não tem ar-condicionado que imite. Entrei pela rua das flores e fiz o que qualquer alma sensível faz — parei. Só parei. Deixei o perfume chegar antes de mim. Há um instante na vida que a beleza pede licença antes de entrar, e a rua das flores é assim: ela não grita, ela sussurra, e quem tem ouvido fino escuta.

Depois das flores, as lojas de mangaio. Couro. Barro. Corda. Madeira. E aquela categoria filosófica que só a feira nordestina sabe criar: o "pra que isso?". Um objeto de função misteriosa, de origem duvidosa, de preço irresistível. A feira é o único lugar do mundo onde você compra coisas que não sabia que precisava e vai embora convencido de que salvou o orçamento doméstico.

Mas eu tinha missão. Missão séria.

Traira.

Não qualquer peixe — traira. O peixe do Tio Naldo. Aquele que a Tia Cleó, com suas mãos de fada e seus segredos de cozinha que ninguém anota porque se souberem demais param de depender dela, faz de um jeito que não existe explicação científica. Só existe a fé de quem prova.

Desembarquei na rua dos peixes. Ali a feira abandona qualquer pretensão de delicadeza e vai direto ao ponto: cheiro forte, gelo, escamas voando, e feirantes que vendem peixe como se estivessem vendendo a última oportunidade da sua vida. "É hoje, moço! Só hoje!" — como se o universo inteiro dependesse dessa decisão, agora, aqui, nessa banca.

Achei as trairas. Duas. Um quilo e meio cada — que é, para quem entende, um peso de respeito numa traira. Gordas, lustrosas, com aquela cara atravessada que o peixe tem, mas que a gente aprende a amar porque o sabor perdoa tudo. Missão cumprida.

Mas aí estava o tambaqui.

Enorme. Descomunal. O tipo de peixe que você olha e pensa: esse aí viveu. Esse aí nadou muito antes de chegar aqui. Fiquei olhando pra ele como quem olha para uma obra de arte que não vai poder comprar, mas precisa apreciar.

Dei uma volta pelo mercado. Passei no centro de eventos — porque feira boa tem cultura junto, não adianta — comprei caju, pano de chão dos grandes (os de vergonha, aqueles que você dobra três vezes e ainda cobre o quintal), amendoim e abacate pra mamãe. E então comecei o que eu chamo de brincar de me perder.

Há uma arte nisso. Escolher um destino conhecido e chegar até ele por um caminho que você nunca tomou antes. Campina Grande foi crescendo, virando cidade grande, e eu fui ficando com meus caminhos habituais, minhas rotas de sempre, como quem mora numa casa grande mas dorme sempre no mesmo quarto. Dobrei esquinas que não conhecia. Encontrei ruas com nomes que ninguém lembra por quê. Feirinhas de bairro que são miniaturas da feira grande, com o mesmo espírito, a mesma alma, só que em escala de calçada. Bodegas sortidas com aquela organização que só faz sentido pra quem montou. Gente — e isso me encheu de uma alegria que não sei nomear — gente que ainda bota cadeira na calçada pra ver a vida passar.

Cadeira na calçada. Que invenção mais brasileira, mais nordestina, mais humana. A televisão chegou, o celular chegou, o streaming chegou. E tem gente que ainda prefere a calçada. Que ainda escolhe a vida ao vivo, sem legenda, sem pausa, sem pular pro próximo episódio.

Pelas oito da manhã, tentei adivinhar se tinha acertado a rua do Tio Naldo.

Doblei a esquina.

E de longe — lá estava ele.

Um tufo de cabelo branco. Algodão puro. Um senhor sentado na calçada como se tivesse sentado ali desde sempre, como se a calçada tivesse sido feita pra ele, com o bastão na mão e aquela postura de quem não precisa mais provar nada pra ninguém. Tio Naldo.

Ele me viu. Abriu um sorriso que foi da calçada até o telhado. Chamou a Cleó. Avaliou a mercadoria com seriedade de especialista — levantou, olhou, aprovou. E aí, como quem revela um segredo de Estado, disse que eu tinha comprado a ova do peixe também, e que ova de traira no leite de coco fica uma coisa que não existe na literatura gastronômica mas deveria.

Fiquei ali parado na calçada, com o peixe na mão e quarenta anos de saudades, desde que um dia me mudei para aquele território, quando tinha 21 anos. 


A casa do Tio Naldo fazia divisa com a da Vovó pelos fundos. E a da Vovó era colada na nossa. Então a gente vivia numa espécie de república afetiva acessada pelos quintais, como se as paredes fossem só sugestão. Saía de casa, filava um petisco na cozinha da Vovó — que sempre tinha algo no fogo, porque Vovó acreditava que cozinha vazia é sinal de alguma coisa muito errada no mundo — chamava o Tio e formávamos o trio. Sentados na cozinha dela, ouvindo ela se alegrar com a gente ali.

Tio Naldo achava que eu não batia bem da cabeça. Dizia, rindo, que eu era agitado. Hoje eu sei que era. Mas naquela época, há quarenta anos, não tinha TDAH — era só "jeito de ser do menino". E no fundo era um jeito doce de me acolher, porque agitado ou não, eu era dele também.

Tinha dias que convocávamos a Vovó e invadíamos a cozinha da Tia Cleó. Que sempre tinha algo bacana. Cleó tem mãos de fada, já disse — mas mãos de fada com especialidade em pescados e carnes de molho, o que é uma bênção particular numa família de gente que come direito.

Pelas onze horas era meio-dia. E chegava meu pai.

Aí o time estava completo. Um pai, um tio, uma tia, uma avó e muitas prosas. Era um tempo em que os boletos estavam nos vencendo — e quem não viveu isso que não jogue a primeira pedra — mas que naquele momento a gente conseguia botar os boletos de lado e sentar junto. Fortalecia, sabe? As pelejas que um tinha vencido alimentavam a coragem do outro pra vencer as suas.

Chegava o Marcelo, filho do Tio Naldo. Chegavam os meus, trazidos pela Joane — o Tiago, a Priscila, e o Rodrigo ainda na barriga da mãe. E acontecia aquele milagre que só casa de pobre conhece: brotavam lugares. Cadeiras de não sei onde, pratos que multiplicavam, espaço que se expandia. Casa de pobre é igual a fusquinha — cabe todo mundo e ainda sobra lugar pra quem chegar depois.

A Vovó então começava a contar as vezes que tinha acordado de noite pra tangir os gatos, que queriam pegar os pintinhos das galinhas que tinham acabado de ser mães também. E do quanto o galo dela estava bonito. Eu contava as aventuras do Sítio Samambaia — que a gente tocava com meu pai aqui pertinho —, da criação de abelhas que foi invadida por calangos, do dia que cacei umas rãs na beira de um charco e fiz a Joane tratar, sem contar que eram rãs, deixando ela imaginar que eram pássaros.

Ela só descobriu na hora que foi servir.

Me jurou de morte. Com toda razão. E com todo nojo.

O Tio Naldo ria desse jeito dele, de quem acha graça mas não quer perder a seriedade.


Daqui a uma hora volto pra lá.

Vou me sentar à mesa deles e me deixar acontecer. Vou olhar pro meu tio, que lembra tanto meu pai — os gestos, o sorriso, aquela forma de receber as pessoas que é quase uma oração. Vou comer traira com ovas no leite de coco, caju e amendoim. Vou ouvir histórias que já sei de cor mas que toda vez parecem novas, porque história boa é assim: envelhece bem, como vinho bom.

Uma pessoa tem que ter histórias pra contar. Mas pra isso precisa ter prestado atenção.

E prestar atenção é uma arte. Um exercício espiritual, quase. Num mundo que vive o amanhã da ansiedade ou o ontem das frustrações, parar no presente — no presente divino, que é o único lugar onde a vida de fato acontece — exige uma decisão que parece simples mas não é.

Mas quando você presta atenção, você vê. Você vê o tufo de cabelo branco do Tio Naldo de longe e já sabe que chegou em casa. Você sente o cheiro das flores antes de vê-las. Você ouve a senhora anunciando a galinha caipira e entende que ali está alguém que também tem uma história. Você olha pra um tambaqui enorme e pensa: esse aí viveu.

A luz da manhã descongelava as esperanças tardias da cidade. Eu andava pelas ruas novas que não sabia que existiam na minha própria cidade, e pensava: quantas coisas a gente não conhece do que é seu? Quantas ruas estão esperando que a gente dobte uma esquina diferente?

Aquele território onde eu cresci — eu, o Tio Naldo e a Vovó nas casas quase geminadas, acessadas pelos quintais como se tivéssemos combinado isso desde sempre — era um tesouro de afetos.

Todo dia a gente dizia, sem dizer, aquilo que talvez seja a coisa mais bonita que um ser humano pode dizer pro outro:

Ainda estou aqui.

Pode entrar.

A casa é sua.


E a traira? Estava ótima.
As ovas no leite de coco, então, não têm palavras.
Mas isso — isso você terá que acreditar em mim.





A Diretoria



A Diretoria

Tem um lugar, na casa de meus pais, em Campina Grande-PB, que guarda memórias ensombradas pela generosidade das bouganvílles.

A gente chamava aquele canto de Diretoria. Eu, meu pai e meu tio. Era sob as bouganvílles, que no Brasil não sabem ser discretas, que a gente resolvia o mundo, ou fingia que resolvia. Tinha petisco, tinha copo, tinha música baixa e história alta. Tinha riso que começa no peito e termina nos olhos.

A Diretoria não tinha pauta. Tinha presença.

Meu pai foi em 2021. Meu tio ficou, mas a coluna não deixa mais ele chegar até aqui com a mesma leveza de antes. Vim de Brasília passar dez dias com minha mãe, dona Denise, 87 anos, que se recupera de uma cirurgia com a delicadeza e a teimosia que só as matriarcas sabem ter. Tinha acabado de voltar da Feira da Prata, onde comprei seriguelas pra ela. E me sentei aqui, nessa cadeira, tomando um café que esfriou devagar, segurando uma fruta na mão como quem segura um pensamento que ainda não virou palavra.

A casa estava silenciosa. Mas a Diretoria ainda existe enquanto eu sentar aqui.


Aos 61 anos, a gente começa a perceber certas coisas que antes passavam despercebidas no corre da vida. Percebe, por exemplo, que o café esfria. Que ele esfria e a gente deixa esfriar, porque estava pensando em outra coisa, ou em ninguém, ou simplesmente existindo sem pressa, sem destino, sem a urgência que o mundo sempre cobrou da gente.

Isso antes me incomodava. Agora começo a entender que é um privilégio.

A vida toda somos tomados de barulhos. O barulho do trabalho, o dos filhos pequenos, o dos amores que chegam anunciando festa. A gente aprende a existir no meio do ruído, a se orientar por ele, a confundir movimento com direção. Passei a vida como Tarzan. De cipó em cipó, de amor em amor, de projeto em projeto, de cidade em cidade. No ar, a gente se sente livre, se sente vivo. O vento no rosto convence que está indo pra algum lugar. E enquanto tem o próximo cipó à vista, não tem medo.

Mas o Tarzan nunca aprende o cheiro da terra.

Quando os barulhos silenciam, o do trabalho que diminuiu, o dos filhos que cresceram, o dos amores que partiram, resta ouvir os sons do próprio ser. Sons antes abafados para acolher tantos outros. E é exatamente isso que esse cantinho oferece: a possibilidade de entrar no deserto.

O deserto assusta. Mas é o lugar dos cinco Rs: redenção, remição, restauração, ressignificação e reinvenção. Sempre foi assim, desde os profetas que precisavam do silêncio árido para ouvir o que importava.


Tem uma coisa estranha e bonita que acontece quando a gente chega nessa fase da vida sem muita gente ao lado. A gente começa a andar diferente. Não porque está triste, embora às vezes esteja. Mas porque o passo fica mais lento e mais atento. A gente para na calçada pra olhar uma flor que sempre esteve ali. Nota o cheiro da terra molhada depois da chuva. Sente o peso do próprio corpo na cadeira como se fosse a primeira vez, e pensa: eu ainda estou aqui. Que coisa extraordinária.

Fui à Feira da Prata de manhã. Sozinho, como tenho feito muita coisa ultimamente. Comprei seriguelas pra mamãe porque ela ama, e comprei também o simples prazer de caminhar entre as bancas, de ouvir o vendedor que grita o preço como se fosse uma cantiga, de sentir o cheiro de coentro e de manga no ar quente de Campina Grande. Ninguém me esperava em nenhum lugar. E nisso havia uma liberdade estranha, quase assustadora, quase deliciosa.

O longevo que caminha sem muita gente ao lado não é necessariamente um homem abandonado. Às vezes é um homem que está, pela primeira vez, completamente disponível para si mesmo. Que está aprendendo, na prática, o que os filósofos tentaram explicar em livros: que existir, simplesmente existir, já é suficiente.


As bouganvílles continuam escandalosas e belas, como se não soubessem de nada. A parede que as sustenta é a quadra do Colégio Pingo de Mel, e eu mal sabia o que estava por vir. E lá em cima, num galho que vira ninho, duas rolinhas constroem juntas o lugar onde vão colocar vida no mundo.

Fiquei olhando pra elas mais tempo do que devia.

E o café esfriou de vez.

Foi quando mamãe me chamou da cozinha.

Voltei dos meus pensamentos devagar, como quem sobe à superfície depois de um mergulho fundo. Ela queria me dizer uma coisa urgente e importante: que amava seriguela. Que iria comer sozinha o saco inteiro que eu tinha comprado. Peralta e faceira, com seus 87 anos e sua cirurgia ainda fresca, ela estava ali em seu melhor momento, plena, cobiçando as seriguelas com a alegria desavergonhada de uma criança que ganhou o que queria e não vai dividir com ninguém.



Eu sorri.

E percebi que o deserto tinha, ali, uma fruta doce no meio.

Fiquei pensando em dona Denise enquanto voltava pra cadeira. Em como ela chegou aos 87 com essa chama acesa. Em como a gente às vezes confunde longevidade com resignação, com espera, com o modo quieto de ir deixando a vida passar. E ela ali, com o pote de seriguela na frente, era a prova viva de que envelhecer bem é uma decisão que se toma todos os dias. É acordar e escolher a seriguela. É ligar o celular e fotografar a própria fartura. É ser peralta mesmo quando o corpo pede sossego.


É carnaval lá fora. O mundo está em bloco.

Eu estou no bloco do eu e eu. Apenas.

Não é solidão, ou não é só isso. É o forasteiro que voltou à própria cidade e não se reconhece mais nela, nem ela nele, desde que partiu em 1999. É o homem que saiu dos galhos, do voo de amor em amor, de compromisso em compromisso, de barulho em barulho, e descobriu que o infinito não estava lá em cima, estava aqui embaixo, no chão firme, na terra que guarda raiz.

Aprendi hoje que caminhar sem muita gente ao lado não é o fim de nada. É o começo de uma conversa que a gente adiou por décadas: a conversa consigo mesmo. Aquela em que a gente pergunta, de verdade, sem pressa e sem medo: quem sou eu, agora que não preciso mais ser o que os outros esperavam?

E a resposta não vem em palavras. Vem no café que esfria e a gente deixa esfriar. Vem na seriguela que a mãe come sozinha e feliz. Vem no passo lento pela feira, sem destino, sem pressa, com todos os sentidos acordados para o milagre ordinário de estar vivo numa manhã de carnaval em Campina Grande.

E hoje, nessa cadeira que meu pai também sentou, eu não quero mais tanto cipó. Quero botar o meu bloco na rua. Carregar sozinho o meu estandarte. Me levar pra ver a vida. Acompanhar na pipoca a multidão em seus abadás, com a leveza de quem encontrou, no meio do deserto, a melhor versão de si mesmo.

Não o herói. O esboço.

E o esboço, às vezes, é o mais honesto que a gente já foi.


Então o Pingo de Mel soltou sua orquestra de frevo.

O som veio pelo muro, tomou as bouganvílles, desceu pelo quintal e me encontrou na cadeira. Frevo de Olinda, do bom, daquele que não pede licença. Fechei os olhos e senti meu pai e meu tio ali, do lado, curtindo a orquestra como só eles sabiam curtir. Podia ver as crianças nos cordões, nas piruetas, vivendo um dia que vai ficar na memória de suas vidas. E na minha.

O carnaval não esperou que eu fosse até ele.

Ele veio até mim.

Então mamãe veio sentar na mesa que ela gosta, ao lado da porta da cozinha, de onde se vê o quintal e a Diretoria inteira. E ficou ali, cantarolando baixinho as músicas de frevo, lembrando dos antigos carnavais, com um sorriso que não precisava de explicação.

Ela que passou por duas cirurgias em janeiro, que ficou mais de oito dias na UTI depois de complicações, que chegou tão perto de um lugar de onde a gente não volta, estava ali, de preto, cantarolando frevo como se o corpo soubesse, antes da mente, que era hora de celebrar.

Fiquei olhando pra ela sem dizer nada.

Porque tem momentos em que a palavra seria pequena demais.

O carnaval entrou na vida dela também. Sem bloco, sem abadá, sem confete. Entrou pelo muro do Colégio Pingo de Mel, desceu pelo quintal, passou pelas bouganvílles e pousou mansinho no coração de uma mulher de 87 anos que decidiu, mais uma vez, ficar.

Obrigado, Pingo de Mel. Por trazer luz e paz nessa manhã de sexta-feira, véspera de carnaval, que eu não vou esquecer enquanto eu viver.

Há quem diga que eu dormi de touca. Que eu perdi a boca, que eu fugi da briga. Que eu caí do galho e que não vi saída. Mas..., eu quero é botar meu bloco na rua.



Botar o bloco na rua: três lições sobre a solidão na longevidade

1. O deserto não é o inimigo, é o começo

A solidão que dói não é a que a gente escolhe. É aquela que chega quando os barulhos da vida param e a gente percebe que não sabe mais ficar consigo mesmo. Mas o deserto, quando atravessado com coragem, oferece o que a agitação nunca deu: o reencontro com a própria voz. Combater a solidão na longevidade começa por não fugir do silêncio, mas por aprender a habitá-lo sem terror. É no deserto que a gente descobre que ainda tem companhia: a própria presença, que ficou esperando pacientemente enquanto a vida corria lá fora.

2. Botar o bloco na rua é um ato de coragem, não de desespero

Quem viveu de cipó em cipó, de relação em relação, de grupo em grupo, estranha profundamente o momento em que precisa dar o primeiro passo sozinho. Mas existe uma diferença enorme entre esperar que o carnaval bata à sua porta e decidir ir ao encontro da festa com o próprio estandarte. Na longevidade, cultivar presença social exige iniciativa ativa: ligar, aparecer, propor, criar. Não porque a solidão é fraqueza, mas porque pertencer é uma necessidade humana que não se satisfaz passivamente. O bloco não vem sempre até a gente. Às vezes a gente precisa ir até ele, descalço e sorrindo, com um copo na mão.

3. A festa mais próxima pode estar no quintal

Quando procuramos conexão apenas nos grandes gestos, nas viagens, nos grupos numerosos, nos relacionamentos intensos, esquecemos que a vida acontece também no miúdo: numa mãe de 87 anos que rouba seriguelas com olhos brilhando, num ninho de rolinhas sobre a cabeça, num frevo que vem pelo muro sem avisar. Combater a solidão na longevidade é também treinar o olhar para o que está perto e vivo. A Diretoria não precisa de quórum para existir. Às vezes ela funciona com uma cadeira, um café, uma memória e a disposição de estar presente no momento que a vida oferece, seja ele qual for.

Ass. Ricardo de Faria Barros

Sim, antes que me esqueça, ainda estou vivo! (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Era uma tarde de terça feira e a paciente, vamos chamá-la de Clarice, sentou-se  na ponta da poltrona, quase pedindo desculpas por ocupar espaço físico no mundo. Ela ajeitou a saia e disse, com a voz embargada de quem engoliu muitas palavras não ditas durante anos, Doutor Ricardo, eu sinto que me tornei um móvel da casa. Sabe aquele aparador no corredor que todo mundo usa para jogar as chaves, mas ninguém nunca repara se está empoeirado ou se a madeira está lascada? Sou eu. Falo, bom dia, e o som bate nas paredes e volta. Tenho a impressão de que se eu desaparecesse hoje, só notariam quando faltasse o café na garrafa térmica. Eu existo, mas não vivo nos olhos dos outros.

Enquanto meu café esfria na xícara de porcelana, criando aquela película fina e triste na superfície, olho pela janela e penso na humanidade que corre lá fora. Estamos em 21 de janeiro de 2026 e a ironia bate à minha porta com a sutileza de um elefante numa loja de cristais. Li hoje, num jornal digital, sobre a mais nova invenção para a nossa sociedade adoecida, um aplicativo que verifica se você ainda está respirando. É isso mesmo. A tecnologia agora serve de babá para a nossa solidão. Você instala, cadastra uns contatos e, todo dia, o software pergunta, E aí, tá vivo? Se você não responder em 48 horas, ele dispara o alarme para a família. Criamos um sistema automatizado para terceirizar a preocupação, um algoritmo que substitui o abraço, o telefonema, o cheiro de gente.

Essa notícia caiu no meu colo como um tijolo, justamente quando eu refletia sobre a invisibilidade que a Clarice descreveu. A vida moderna virou um grande saguão de aeroporto lotado onde ninguém se olha, cada um arrastando sua mala de ansiedades, com os olhos vidrados em telas luminosas, tropeçando na própria humanidade sem pedir licença. E é curioso notar como essa indiferença pode ser fatal, não apenas metaforicamente, mas literalmente.

Lembro-me de uma crônica antiga, que ecoa perfeitamente neste cenário gélido de 2026. Havia um encarregado de câmara fria, um homem simples, cuja jornada era marcada pelo frio industrial e pela repetição. Mas ele tinha um ritual sagrado, quase litúrgico. Ao final de cada turno, passava pela guarita e distribuía sua colcha de afetos em forma de palavras. Boa noite, fiquem na paz, bom plantão, dizia ele aos vigilantes. Era o único momento do dia em que ele deixava de ser uma função e voltava a ser um homem. Certa vez, o destino, esse roteirista que adora pregar peças, fez com que ele ficasse trancado acidentalmente dentro da câmara fria. O ar faltava, o frio queimava, e a hipotermia batia o ponto. Ele seria apenas mais um dado estatístico de acidente de trabalho se não fosse por um detalhe, o silêncio. Os vigilantes sentiram falta daquele boa noite. A ausência da gentileza foi o alarme. Eles não precisaram de um aplicativo de 2026 para notar que alguém faltava. A humanidade daquele homem o salvou porque ele se fez visível através do afeto.

Hoje, contudo, vivemos o inverso. Estamos trancados em nossas câmaras frias particulares, apartamentos de luxo ou quartos apertados, congelando emocionalmente enquanto o mundo lá fora ferve. Filhos não mandam mensagens para os pais porque estão ocupados demais protagonizando suas próprias vidas severinas, correndo atrás de ventos. Nos grupos de família ou amigos, lançamos uma mensagem como quem joga uma moeda num poço sem fundo. O vácuo. O silêncio absoluto. Nem um emoji, nem uma reação. A sensação é de que somos fantasmas gritando em uma sala à prova de som. A nossa esperança de conexão fica pendurada num varal de sentimentos que ninguém recolhe antes da chuva.

Eu mesmo, Ricardo, peregrina alma neste mundo estranho, sinto na pele essa invisibilidade. Há dois meses frequento uma igreja, sentando me religiosamente no segundo banco da frente, perto do altar, buscando o sagrado. E, no entanto, sou um forasteiro invisível. Nunca fui saudado. Os frequentadores antigos, que certamente notaram a presença deste corpo estranho, passam por mim como se eu fosse feito de vidro. Que planeta é este que estamos criando? Um lugar onde vizinhos dividem a parede, mas não dividem um bom dia? Onde precisamos de um aplicativo para garantir que não apodreceremos sozinhos em casa?

 


Precisamos ser subversivos. A verdadeira revolução hoje não é tecnológica, é humana. É preciso romper com esse narcisismo que nos coloca como o centro do universo e nos cega para o outro. A morte social não é apenas daquele que morre sozinho e é descoberto pelo cheiro dias depois. A morte social acontece agora, quando você lê isso e não se lembra da última vez que olhou nos olhos do porteiro, do colega de trabalho, ou da sua mãe. Precisamos sair das tocas, precisamos do oxigênio de pele humana, precisamos de rostos reais e não de interfaces digitais. Porque chegará o tempo, e talvez já tenha chegado, em que estaremos cercados por uma multidão e nos sentiremos os seres mais solitários da galáxia.

Enquanto escrevo, sinto uma pontada de angústia, mas também um chamado à responsabilidade. A Logoterapia nos ensina que o sentido da vida é encontrado no mundo, não dentro da nossa própria psique fechada. Ao nos tornarmos invisíveis para os outros, também perdemos a capacidade de ver o sentido da nossa própria existência. O homem da câmara fria sobreviveu porque transcendeu a si mesmo através de um simples cumprimento diário. Ele criou um laço. O aplicativo de estou vivo é a prova cabal de que falhamos como comunidade. Se precisamos de um software para lembrar que alguém existe, é porque já matamos essa pessoa socialmente muito antes do coração dela parar de bater. A cura para essa invisibilidade não está em mais notificações no celular, mas na coragem de ser inconvenientemente humano, de furar a bolha da indiferença com a agulha da presença.

O que aprendi. Primeiro, não baixe o aplicativo. Recuse se a ser monitorado por máquinas e comece a ser monitorado pelo afeto. Segundo, torne se um fiscal da vida alheia, mas no bom sentido. Envie hoje, agora, uma mensagem sem motivo para três pessoas que você não contata há tempos. Não pergunte se precisam de algo, apenas diga, lembrei de você e quis saber como está o seu mundo. Terceiro, pratique a cerimônia do porteiro. Cumprimente olhando nos olhos, pare por dez segundos, pergunte o nome se não souber. Quarto, no seu grupo de família ou amigos, seja aquele que responde, aquele que reage, aquele que valida a existência do outro. Não deixe ninguém no vácuo. E, por fim, se você frequenta uma igreja, um clube ou uma praça, procure o forasteiro. Aquele que se senta sozinho no segundo banco. Um simples olá pode ser a chave que abre a câmara fria onde ele está trancado.

 Veja a notícia aqui:

https://www.uol.com.br/universa/colunas/futuro-presente/2026/01/21/voce-ja-morreu-app-responde-e-prova-que-epidemia-de-solidao-virou-mercado.htm

Ricardo de Faria Barros, psicólogo da longevidade.

A Geometria do Vento e o Banquinho da Alma (Ricardo de Faria Barros, Psicólogo)



Era dois de janeiro de dois mil e vinte e seis. Eu estava na orla do Bessa, com a alma lavada de sal e as mãos entregues à arquitetura efêmera de uma piscina de areia para os pequenos. Enquanto levantava muros frágeis contra o avanço inevitável do mar, pensei que viver talvez seja exatamente isso: construir com cuidado absoluto, sabendo que tudo é provisório.


Meus olhos, por vezes exaustos da repetição de corpos em exibição e das queixas automáticas de uma humanidade que parece ter desaprendido o encanto, pousaram em uma cena que não pedia legenda, nem aplausos. Pedia apenas presença.


Se eu pudesse emoldurá-la, diria que o azul do céu de João Pessoa dialogava com uma sequência de guarda-sóis vermelhos ao fundo — como flores estendidas ao calor do verão. No centro dessa aquarela viva, um rapaz de camisa azul, da cor do mar profundo, estava ajoelhado. Não em oração, mas em ação inteira. A areia molhada devolvia sua imagem num reflexo límpido, como se o céu e o chão tivessem selado um acordo de silêncio.


O detalhe que costuma provocar o desvio do olhar ou aquela piedade ruidosa — que mais isola do que acolhe — era uma ausência. Faltava-lhe uma perna. Mas a vida, essa peregrina experiente, não trabalha com faltas; ela trabalha com rearranjos. Ele utilizava uma muleta adaptada e, para encontrar o eixo do mundo, apoiava o joelho em um banquinho simples de plástico. Sem drama. Sem heroísmo de vitrine. Apenas o recurso honesto para sustentar o seu estar no mundo.


Ali, naquele banquinho, residia uma lição silenciosa. Ele não desperdiçava energia combatendo o que era imutável. Usava o que tinha para dar suporte ao que lhe fazia sentido: ele empinava uma pipa. O pescoço inclinado para o alto, os olhos bebendo o azul, o corpo inteiro em conversa com o invisível. Não havia pressa, nem comparação, nem a tirania do desempenho. Havia entrega — daquelas em que o tempo afrouxa o nó e a vida passa a caber, inteira, dentro de um instante.


Ao lado dele, uma moça permanecia de pé. Não como cuidadora, nem como plateia vigilante. Ela estava ali como quem entende que presença não é controle, é confiança. Eles não estavam ali para "dar o exemplo". Estavam apenas se dando à vida. Ele oferecia sua disposição de brincar apesar dos limites; ela oferecia sua escolha de estar próxima sem invadir. Um oferecendo o corpo possível, o outro oferecendo o olhar atento.


Ela não o segurava, pois ele não precisava ser segurado. Mas também não se afastava. Seu sorriso não carregava pena, nem o orgulho de quem "suporta" uma carga. Era reconhecimento. E reconhecer o outro na sua integridade é uma das formas mais elevadas de amar. Amar, ali, não era consertar nada; era acompanhar o voo alheio, aceitando que, às vezes, é preciso sentar para tocar as nuvens.


Fiquei imaginando a cartografia dessa jornada. Quantas manhãs foram necessárias para que ele confiasse naquele banquinho? Quantas frustrações precisaram ser atravessadas até que o ato de sentar deixasse de ser derrota para virar estratégia? E quantas vezes ela conteve o impulso de "fazer por ele", aprendendo que o excesso de ajuda pode ser uma forma sutil de roubar a autonomia?


Pensei em meus pacientes. Em tantos que possuem o corpo intacto, mas a alma claudicante. Pensei em nós, essa humanidade ansiosa e barulhenta, econômica nos afetos e perdulária nas mágoas. Gente que corre maratonas sem sair do lugar, enquanto aquele rapaz, sentado, alcançava o horizonte.


Reparei, então, num detalhe final. Ao fundo, uma criança corria em direção ao mar. Corria com as duas pernas livres, rápidas, como quem ainda não conhece o medo. Naquele instante, algo se encaixou em mim: nem o jovem, nem a criança eram definidos pelo que tinham ou pelo que lhes faltava. Ambos eram definidos pelo mesmo verbo: Viver.


O banquinho foi a maior aula de psicologia que recebi naquele verão. Ele ensinava que o bem-estar não nasce da ausência de dificuldades, mas da capacidade de reorganizar os recursos internos. Que a resiliência não é endurecer, mas adaptar-se sem perder a ternura. A deficiência mais perigosa não era a física, mas a incapacidade de se encantar com o comum.


Aquele jovem não fez da sua dor uma identidade. Ele fez da limitação um pedestal. E ela, ao lado, não tentou clarear o céu por ele; apenas compartilhou a paisagem.


Obrigado, jovens desconhecidos. Vocês não quiseram aparecer, e exatamente por isso, permanecerão. A vida, às vezes, precisa sentar-se num banquinho para nos lembrar que o céu continua sendo um horizonte possível e que o verdadeiro voo acontece quando alguém nos olha sem pressa, sabendo que viver é uma construção, não uma competição.


Ricardo de Faria Barros Psicólogo e observador de vidas que ainda sabem se encantar.

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