O Molho do Amor de Dona Moça (por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)

 


Trinta e três anos. É o número que se espelha. De um lado, o pai que eu fui. Do outro, o homem que eu sou. E no meio,  descobrindo gente.

E, voltei em Barra de Cunhaú, no Rio Grande do Norte.

Da última vez, meus filhos ainda eram pequenos. Tiago tinha 8 anos, Priscila, 6, Rodrigo, apenas 4. Eu tinha 28. Foram dias de férias, daqueles que a gente guarda sem saber que está guardando. Hoje eles têm 41, 39 e 37 anos, e eu tenho 61. O tempo passou ligeiro, como passa quando a gente está ocupado demais vivendo.

Para quem não conhece, Barra de Cunhaú fica entre João Pessoa e Natal. Uma dessas joias do litoral nordestino que parecem desenhadas com calma. E teve uma coisa que me pegou de jeito: a chegada. Ao passar pelo portal de entrada da praia, a paisagem era quase a mesma de trinta e três anos atrás. Eu não consegui simplesmente olhar. Senti. Foi como se aquele caminho tivesse aberto uma gaveta antiga dentro de mim.

Ali acontece o encontro do rio Curimataú com o mar. Cinco quilômetros adiante pela orla, outro encontro bonito, o do rio Catu com o mar, onde passei numa balsa rústica a caminho das falésias de Pipa. Cunhaú fica assim, entre duas barras de rio. Talvez seja isso que lhe dê parte do encanto. Água doce chegando ao mar, mangue, areia, vento, coqueiros, falésias, uma vila de pescadores onde a vida ainda conversa de perto com a natureza. É também terra de gente que acorda cedo nas fazendas de camarão e tira da simplicidade o sustento e a dignidade.

O nome carrega uma história bonita. Cunhaú vem do tupi, "água de mulher", "lugar onde as moças bebem água". Canguaretama, o município, remete ao peixe canguá.

Mas Cunhaú guarda também uma memória mais dolorosa. Em 1645, sob domínio holandês, aconteceu ali um dos episódios mais trágicos da história colonial brasileira. No dia 16 de julho, enquanto os moradores se reuniam para a missa na Igreja de Nossa Senhora das Candeias, o padre André de Soveral conduzia a eucaristia. Logo após a elevação do Corpo e Sangue de Cristo, fecharam as portas e começou o massacre ordenado por Jacob Rabbi. Dezenas de mortos.

É estranho pensar nisso estando ali. A mesma areia que hoje recebe famílias, crianças, pescadores, turistas e gente atrás de um pouco de paz foi testemunha de uma das páginas mais tristes da nossa história. Talvez seja isso que mais me fascina nas viagens. A gente pensa que está apenas conhecendo um lugar. Mas, quando olha com atenção, descobre que está pisando sobre muitas histórias.

Foi nesse cenário, entre lembranças antigas e descobertas novas, que chegamos à Pousada Ventoria, do Guilherme. O nome já diz quase tudo. Ventoria. Vento com cantoria. E era exatamente assim que a gente se sentia ali, o vento entrando por todo canto, mexendo nas folhas, balançando as redes, trazendo o cheiro do mar, cantando alguma coisa que a gente não precisava entender. Talvez porque, naquele momento, depois de tantos anos, eu também estivesse escutando outra cantoria. A da memória. A dos filhos pequenos correndo pela praia. A do pai que eu era. A do homem que sou hoje. E aquela paisagem, sem saber de nada disso, estava ali, esperando trinta e três anos para me devolver um pedaço de mim.

 O convite do Dedé

Foi no café da manhã que o passeio ganhou outro rumo. Dedé, nosso companheiro de viagem, fez o convite: vamos comer um espetinho de lagosta em Dona Moça, na beira mar do Sagi.

Minha primeira reação foi pensar na maré subir, e o carro não conseguir voltar. Aquele lugar só se alcança pela praia, de carro 4x4, e logo imaginei a maré subindo, a gente ficando ilhado, a caminhonete atolando. Eu também ainda tinha coisas para rever daquela Cunhaú de trinta e três anos atrás. Mas resolvi fazer uma coisa que sempre faço: relevar. Me deixar guiar pelo Dedé.

Ainda bem.

Atravessamos de balsa o rio Curimataú, saindo de Cunhaú para a outra margem. Vieram as estradas de areia, as fazendas de coqueiros, a belíssima Baía Formosa. Seguimos até Sagi e descemos para a faixa de areia. Dali, cerca de três quilômetros pela beira mar, rumo ao encontro do rio Guaju com o oceano. Só se chega de 4x4, e talvez seja por isso que o lugar mantenha aquele gosto de descoberta. A cada trecho, uma pequena aventura. Cursos d'água, areia mais firme, a brisa entrando pela janela, aquela sensação boa de estar indo para algum lugar que ainda não conhecíamos.

Quando chegamos, entendi que o passeio não tinha sido apenas para comer um espetinho. Eu tinha chegado a um pedaço de paraíso. Dunas, mangue, rios de águas limpas e mornas se encontrando com o mar. Uma paisagem tão bonita que, por instantes, a gente fica sem saber se olha para a água, para a areia ou para o céu.

Mas ainda faltava conhecer a parte mais bonita daquele lugar. Dona Moça. E sua história.

Era segunda-feira de baixa temporada, quase ninguém por ali, os bugues e quadriciclos ainda não tinham tomado conta. Às 11h30, praticamente todas as mesas vazias. O paraíso era nosso. Dona Moça e o marido tinham tempo. E eu adoro uma história.

A história de Dona Moça

Ela começou contando que trabalhou como doméstica, numa casa cuja patroa morava em Natal. Um dia, sem muita explicação, a mulher mudou de planos e simplesmente a demitiu. Dona Moça ficou desempregada.

Depois, conseguiu trabalho nos viveiros de camarão. Até que veio outra tragédia, essa não provocada pela violência humana, como séculos antes em Cunhaú, mas pela natureza: em 2011, no início da primeira grande epidemia da síndrome da mancha branca, a doença dizimou a produção dos criatórios de camarão da região. Muita gente da vila dependia daqueles viveiros, e o desemprego se espalhou.

Dona Moça precisava de outro caminho. Começou a fazer dindins, sacolés, geladinhos, cada lugar chama de um jeito, e ia vender na foz do Guaju, apostando que os turistas de Natal e João Pessoa que passavam por ali gostariam de uma fruta bem geladinha.

Foi naquele mesmo ano de 2011 que apareceu Arthur. Ele tinha a loja Mundo 4x4 e organizava passeios de aventura, levando grupos pelas trilhas e praias da Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Anos depois fundaria a Alfa Confraternização, em 2017, mas naquele dia era só um sujeito que parou, provou o dindim de Dona Moça e gostou. Fez uma provocação: ela não ia crescer na vida vendendo só dindim. Aquele lugar tinha potencial para muito mais, petiscos, bebidas, mesas, gente parando para comer.

Preciso parar um pouco em Arthur, porque o que ele fez ali foi quase um absurdo. Jipeiro e bugueiro sempre levam cooler. Água, refrigerante, cerveja, isso resolve. Comida é outra história. Difícil de preparar antes de sair pra trilha, difícil de manusear no meio do caminho, difícil de manter quente sem virar risco de contaminação debaixo daquele sol. Arthur enxergou ali um buraco que ninguém tinha enxergado, e podia ter ficado só nisso, um homem de negócios encontrando uma lacuna de mercado. Mas não foi egoísta. Não quis o lucro sozinho. Olhou para aquela mulher vendendo dindim numa foz de rio sem infraestrutura nenhuma e viu mais que uma oportunidade. Viu uma pessoa séria. O que Arthur enxergou em Dona Moça, afinal, além de alguém que podia florescer? Não sei dizer ao certo. Só sei que ele olhou com os olhos do Molho do Amor. E só esses olhos, temperados, lambuzados de Molho do Amor, veem futuro onde os outros só enxergam fim. Veem possibilidade onde os outros só enxergam dificuldade. Veem cura onde os outros só enxergam doença. Veem solução onde os outros só enxergam problema. Veem beleza onde os outros só enxergam feiura. Veem o que sobra onde os outros só enxergam o que falta.

E então Arthur deu a cartada. Disse que precisava de 150 espetos de camarão, embalados em papel alumínio, três em cada porção. No sábado seguinte chegaria com um grupo de jipeiros e compraria tudo. Não deixou dinheiro. Não fez pedido formal. Não assinou nada. Só acreditou nela.

Dona Moça ficou desconfiada. Contou ao marido, que achou que era golpe. Contou a outras pessoas, que também acharam que era golpe. Mas havia alguma coisa dentro dela dizendo que aquela talvez fosse a sua hora. Já tinha sido doméstica. Já tinha trabalhado com carteira assinada. Já tinha vendido dindim na praia. Talvez, agora fosse a vez de ser dona de uma barraca.

Foi até uma amiga, que tem um ponto de re camarão, e comprou a mercadoria, no fiado, pela confiança também.  Levou para casa uns dez quilos de camarões grandes, sem pagar um centavo, e começou a preparar os 150 espetinhos.

No sábado, bem cedinho, colocou os camarões na brasa, três a três, foi embalando tudo, carregou numa carroça de mão a churrasqueira, o carvão, a mercadoria, e partiu para o Guaju.

Só que o tempo passou. Onze horas. Ninguém. Onze e meia. Nada. E Dona Moça começou a pensar no camarão que precisava pagar. No dinheiro que não tinha. Na sua palavra, que era talvez o único patrimônio que possuía.

Até que apareceu o primeiro carro. Ela nem reconheceu Arthur. Ele só disse que quando os turistas chegassem, ela oferecesse um saquinho para cada pessoa, por conta dele.

E ela começou. Chegava um carro, ela dava bom dia, oferecia três espetinhos. Os turistas não entendiam, queriam pagar, ela dizia que era oferta da casa. Três carros se sucederam. Depois, quase ao meio dia, um comboio de uns dez veículos. De um deles desceu Arthur. Quando viu Dona Moça ali, com os 150 espetinhos que ele tinha encomendado, acreditando nele quando mais ninguém acreditava, os dois se abraçaram. Ela chorou. Ele também. Os camarões foram distribuídos entre os jipeiros.

Arthur disse que mandaria mesas, cadeiras, sombreiros, e voltaria no fim de semana seguinte com outro grupo, dessa vez ficando mais tempo.

Dona Moça voltou para casa. Pagou a feirante que tinha confiado nela. Comprou bebidas, mantimentos, mais camarões. E começou ali a vida de Dona Moça.

Esqueci de perguntar uma coisa. Por que Dona Moça? Mas isso já é outra história.

## O molho que ninguém consegue copiar

Com o tempo, ela foi aumentando o cardápio. Vieram o espetinho de lagosta, o espetinho de robalo, o ceviche de polvo, tantas outras invenções. E veio o Molho do Amor, esse ela não entrega a receita nem sob ameaça. Já apareceu até na televisão, no programa da Ana Maria Braga. Mas, depois de ouvir sua história, comecei a desconfiar que talvez eu tenha descoberto a receita. Não a dos ingredientes. A outra. A que não cabe em panela.

Dona Moça continua sorrindo, inventando coisas, criando caminhos. Até um buguezinho antigo conseguiu comprar, com a ajuda dos próprios clientes. O marido é a parte calma da relação, ela é a agitada, fica nas mesas, conversa, recebe, inventa. Ele fica na churrasqueira. E assim os dois vão tocando a vida.

Quando achei que já tinha conhecido uma parte do paraíso na geografia daquele lugar, descobri que o paraíso também pode morar em duas pessoas.

 O amor faz a volta

E ainda havia uma surpresa. Na conversa de despedida, ela contou que, quando a Mundo 4x4 encerrou, em 2016, e Arthur precisou repensar o próprio negócio, ela também lhe deu uma força. Faz dez anos agora. Mandou para ele a primeira leva de camarões, peixes e outros produtos, ajudando-o a olhar para outros tipos de negócio, até fundar, em 2017, a empresa de festas e confraternizações em João Pessoa, a Alfa Confraternizações (@alfaconfraternizacoes, para quem quiser conhecer).

Olha só que coisa bonita. Arthur ajudou Dona Moça a acreditar que podia crescer. Anos depois, Dona Moça ajudou Arthur a recomeçar. Um deu a mão ao outro. Talvez seja aí que esteja o verdadeiro Molho do Amor. Não é camarão, não é lagosta, não é segredo de cozinha. É doação. É quando alguém rompe a ordem do cada um por si e resolve se aproximar do outro. É quando uma pessoa acredita na capacidade de outra antes mesmo que ela própria consiga acreditar. É quando se constrói uma ponte onde antes havia apenas distância.

Arthur fez isso com Dona Moça. Dona Moça fez isso com Arthur. E continuou fazendo com os outros barraqueiros que foram chegando depois, ajudando, ensinando, compartilhando o que sabia. Talvez seja essa a receita que ela não revela. Ou talvez revele, só que não com palavras. Ela revela vivendo.

O Molho do Amor é isso. É quando a gente deixa de perguntar o que o outro pode fazer por nós e começa a pensar no que podemos fazer por ele. Naquele pedaço de litoral entre o rio Guaju e o mar, com a brisa batendo no rosto, descobri que alguns paraísos não estão no mapa. Estão nas pessoas que encontramos pelo caminho.

Talvez tenha sido por isso que eu precisava voltar a Cunhaú depois de trinta e três anos. Não só para reencontrar a praia onde um dia estive com meus três filhos pequenos. Não só para reconhecer o portal, o rio, o mar, aquelas paisagens que o tempo quase não conseguiu mudar. Eu precisava voltar para descobrir que o lugar que eu procurava já não estava exatamente onde eu tinha deixado. A Cunhaú de trinta e três anos atrás estava guardada na minha memória. A de hoje estava diante dos meus olhos. E entre uma e outra havia uma coisa que o tempo não conseguiu levar: a capacidade de se emocionar com a vida.

Naquele dia reencontrei o menino que fui com meus filhos. Conheci histórias de gente que nunca tinha visto. Atravessei rios, passei por praias, comi lagosta, ri, me emocionei. E aprendi, com Dona Moça e Arthur, que às vezes a vida muda de direção quando alguém resolve confiar na gente. E que, muitas vezes, depois de receber essa confiança, o mais bonito que podemos fazer é passá-la adiante.

Talvez seja esse o verdadeiro sabor de uma viagem. A gente sai de casa pensando que vai conhecer lugares. E volta descobrindo pessoas. No fim das contas, são elas que fazem o lugar permanecer dentro da gente.

Abaixo, o Arthur, aquele que acreditou primeiro!


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Obs:  O nome da famosa Barraca de Dona Moça (ou Dona Mocinha), localizada na divisa entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba, na praia de Sagi, deve-se simplesmente ao apelido carinhoso da sua fundadora, uma moradora local extremamente gentil que abriu o espaço em 2005.  Embora o nome oficial e mais conhecido pelos turistas seja "Dona Moça", na região e entre os visitantes frequentes ela também é carinhosamente chamada e indicada como Dona Mocinha


Um comentário:

  1. O seu marido disse de repente que quer o divórcio e você quer que voltem a ser como eram antes, quando ainda havia amor na família? Por isso, não procure mais, porque o Dr. Ajayi, o grande lançador de feitiços, é a pessoa certa para si. Sou bancária e, quando o meu casamento de 7 anos acabou, fiquei devastada e isso afetou o meu trabalho, pois estava sempre a pensar e não me conseguia concentrar. Eu amo muito o meu marido, por isso procurei formas de o ter de volta depois de termos estado separados durante cerca de 5 meses. Encontrei o testemunho de um homem que disse ter conseguido uma promoção no trabalho com a ajuda do grande lançador de feitiços, o Dr. Ajayi. Obtive o contacto dele, entrei em contacto e expliquei os meus problemas conjugais. Assegurou-me que as coisas iriam melhorar, mas disse-me algumas coisas que eu precisava de fazer para alcançar o meu objetivo. Segui as suas instruções e hoje estou novamente a viver feliz com o meu marido. É realmente um homem maravilhoso e abençoado pelos deuses. Contacte o Dr. Ajayi para qualquer tipo de problema na vida através do Viber ou WhatsApp: +2347084887094 ou por e-mail: drajayi1990@gmail.com. Não se arrependerá de o conhecer.

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