A alegria das vésperas: não matem as borboletas! (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Quinta-feira, final da tarde. Estou caminhando pelo Parque da Cidade, aqui em Brasília, quando me vem uma pergunta à cabeça. Por que será que a gente fala tão pouco da alegria que sente antes de uma coisa boa acontecer?

Do dia da formatura, do casamento, do primeiro beijo, todo mundo fala. Eu quero falar do dia anterior. Daquela agonia gostosa, do friozinho na barriga, das borboletas fazendo carnaval dentro da gente porque amanhã pode ser um dia especial.

Eita, como é bom sentir isso!

Imagine que amanhã sai o resultado da prova que comeu seus fins de semana por meses. Ou é o primeiro dia no emprego novo. Ou o dia de conhecer o sexo do filho que está chegando. Ou, quem sabe, o dia de sair com aquela pessoa que você vem paquerando há séculos. A criatura finalmente aceitou o convite!

Pronto. Agora experimente dormir.

Você deita, apaga a luz, ajeita o travesseiro, e a cabeça resolve fazer hora extra. Ensaia o que vai dizer, adivinha como a pessoa vai chegar, troca de roupa umas cinco vezes sem sair da cama. Quando o dia amanhecer, de tanto que já aconteceu na imaginação, você vai estar pedindo intervalo.

Por fora, quietinho. Por dentro, escola de samba em plena avenida.

A gente conta como foi a formatura, mostra as fotos do casamento, descreve a viagem tim-tim por tim-tim. Da alegria que veio antes, quase ninguém fala. Lembramos da viagem e esquecemos o prazer de arrumar a mala. Lembramos do encontro e esquecemos os dias em que uma mensagem besta fazia o coração dar cambalhota.

E aqui mora uma coisa que me intriga. Por que costumamos sofrer as vésperas muito mais do que saboreá-las?

Basta uma consulta médica importante marcada para amanhã e a cabeça vira fábrica de cenários. E se o exame mostrar alguma coisa? Quem vai para entrevista de emprego perde o sono ensaiando perguntas difíceis. Quem gosta de alguém sofre de véspera por uma rejeição que nem aconteceu.

O amanhã nem chegou, e a gente já está pagando uma conta que talvez nem exista.

O povo sabe disso faz tempo. Tem até ditado: não sofra de véspera. Mas me diga uma coisa: cadê o ditado que manda a gente se alegrar de véspera? Procurei na memória, perguntei aos botões, e nada. Parece que a sabedoria popular só se preocupou em nos proteger da tristeza adiantada e esqueceu de nos dar licença para a alegria adiantada.

Pois, com o perdão dos mais velhos, deixo aqui o meu: quem se alegra de véspera faz a festa duas vezes.

Agora, quando a coisa é boa, dá até medo de se entusiasmar. Melhor não criar expectativa, melhor não comemorar antes da hora. Não se conta com o ovo antes de a galinha botar, ensinam os mais velhos.

Eu entendo. A vida ensina umas lições na base da pancada, e ninguém quer sofrer à toa. Mas fico desconfiado de que, de tanto nos protegermos das tristezas, a gente acaba se protegendo também das alegrias.

Tem gente que se prepara para o pior como quem cumpre dever de adulto. Ensaia frustração, antecipa perda e, quando vê, já sofreu uma história inteira que nem começou. Damos tanta realidade às tragédias imaginárias e tão pouca às alegrias possíveis.

Ninguém precisa jurar que tudo vai dar certo. O futuro também guarda coisa boa, e alegria não pede garantia com firma reconhecida em cartório.

Dá para ter os pés no chão e as borboletas voando.

Sigo andando. Cruzo com gente correndo, gente puxando cachorro, gente sozinha como eu. Aquela moça que passa correndo, quem sabe, está treinando para os primeiros dez quilômetros. Aquele rapaz no banco pode estar contando os dias para rever a namorada. Sei lá. Cada um carrega um mundo dentro de si.

O meu, nesta quinta-feira, tem nome e data marcada.

Uma crônica minha está entre as finalistas de um concurso nacional, e o resultado sai amanhã, sexta-feira. Sim, justamente o dia em que você está lendo este texto. Pronto, confessei. Desde que recebi a notícia, as borboletas aqui dentro não pedem licença. Acordo pensando nisso, tomo café pensando nisso, e agora estou aqui, dando voltas no parque como quem tenta cansar a ansiedade pelas pernas.

E tem graça. Eu, que passo a vida estudando as emoções, escrevendo sobre elas, ensinando sobre elas, estou vivendo na pele justamente o assunto desta crônica. Psicólogo também tem borboleta, minha gente.

Existe, claro, um aperreio que machuca, tira a paz e não deixa a gente viver. Esse pede cuidado e, quando for o caso, tratamento. Eu falo daquela inquietação gostosa de quem tem por que torcer. Daquela que bota a gente para andar.

E se, em vez de expulsar esse sentimento, a gente aprendesse a degustá-lo?

Degustar. Gosto dessa palavra.

Café bom ninguém vira de uma vez, como quem toma remédio amargo. Sente o cheiro, demora no sabor, deixa descer devagar. Por que fazer diferente com as emoções boas?

Quem já planejou uma viagem muito desejada sabe do que falo. Juntou dinheiro, pesquisou, montou roteiro. Nas últimas horas, alguma coisa muda. A viagem já começou por dentro, e os pés ainda estão em Brasília. Tem até pesquisa mostrando que muita gente fica mais feliz arrumando a mala do que desfazendo. A Psicologia Positiva chama isso de saborear por antecipação. Eu chamo de felicidade adiantada.

A raposa do Pequeno Príncipe sabia disso muito bem. Explicando ao menino o que é cativar, ela diz: “Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz.” E vai ficando mais feliz à medida que a hora se aproxima. Para ela, o encontro já tinha começado às três.

Às vezes a felicidade chega antes do tiro de largada. Está na roupa separada em cima da cadeira, na mala aberta sobre a cama, na mensagem que confirmou o encontro. No meu caso, num e-mail dizendo que a crônica chegou à final.

Foi aí que me vieram as borboletas.

Borboleta, voando de flor em flor, carrega pólen e ajuda outras flores a frutificar. Olha que coisa bonita! Ela não fica parada se admirando no espelho. Vai, pousa, leva. Espalha vida sem nem saber que está espalhando.

Vai ver as borboletas do nosso estômago fazem o mesmo. Entusiasmado, a gente presta mais atenção. A música ganha outro gosto, a conversa fica mais saborosa, e qualquer caminhada vira descoberta. Olha só o que aconteceu comigo: saí para espairecer a ansiedade de um concurso de crônicas e voltei para casa com outra crônica no bolso.

Essas borboletas levam vida a cantinhos da alma meio esquecidos, onde a rotina, o cansaço e as decepções tinham posto tudo para dormir.

E a borboleta não sabe em qual flor o pólen vai dar fruto. Simplesmente voa.

A gente também não tem como garantir o amanhã. Minha crônica pode não ganhar. A viagem pode ser adiada. A paquera pode terminar num café sem beijo. A vida tem dessas coisas.

Mas isso torna inútil a alegria de antes?

Eu acho que não.

Enquanto imaginávamos, torcíamos e nos arrumávamos, estávamos vivendo. Aquele sentimento existiu de verdade, desse no que desse. Se o resultado não vier do jeito que eu sonho, esta semana de coração disparado já foi minha. Essa ninguém me tira.

Criança que vai passear amanhã não pede garantia para ficar feliz hoje. Escolhe a roupa, pergunta mil vezes a hora de sair, já brinca de véspera. Nós, adultos, complicamos tanto que esquecemos o gosto de simplesmente se entusiasmar. Voltar a ser criança ninguém volta. Mas dá para recuperar a liberdade de sentir alegria sem se achar bobo.

Eu quero continuar tendo vésperas.

Quero ter viagem para preparar, projeto para começar, texto para inscrever, gente para reencontrar. Pode dar errado, eu sei. Mesmo assim, não quero passar pela vida só cumprindo agenda.

Problema a gente já tem de sobra, e ninguém precisa fingir que está tudo bem. Só não precisa entregar a casa inteira às dificuldades. Deixa pelo menos um quartinho para a esperança.

De vez em quando é bom largar a pose de controlado. Ficar besta de alegria, rir sem motivo aparente, confessar que está ansioso porque quer muito que alguma coisa aconteça.

Pois confesso: estou.

Depois dos sessenta, com o coração aos pulos por causa de um concurso de crônicas, feito menino de quinze esperando resposta de bilhete. Talvez seja isso também a longelescência: envelhecer sem perder o direito ao frio na barriga. Cansar, às vezes, faz parte. Desistir de esperar, não.

A vida é feita dos dias em que as coisas acontecem, sim. E também das noites em que o sono demora, dos sorrisos que escapam sem a gente perceber e das quintas-feiras em que uma caminhada qualquer nos faz olhar para dentro.

Não matem as borboletas antes do voo, minha gente!

Deixem que façam a festa. Que carreguem seu pólen, visitem as flores, se percam um pouco pelo caminho. Vai que encontram justamente aquela flor que estava precisando frutificar.

Termino minha caminhada com uma pergunta para você, que me acompanhou até aqui: o que anda fazendo seu coração bater mais depressa?

Se nada vier à cabeça agora, quem sabe seja hora de arranjar alguma coisa. Um convite aceito, um curso, um reencontro, uma viagem curtinha. Não precisa ser grande coisa. Às vezes, uma pequena possibilidade basta para o coração voltar a se aquecer.

E quando ela aparecer, não tenha pressa de chegar ao fim. Deguste. Sinta as borboletas.

Escrevo estas últimas linhas na sexta-feira de manhã. O resultado sai hoje, daqui a algumas horas. As borboletas acordaram antes de mim e já estão de plantão.

Pode ser que venha a notícia que eu sonho. Pode ser que não. Seja como for, a primeira festa eu já fiz.

Porque tem felicidade que não espera o amanhã. Ela chega hoje, disfarçada de véspera.

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