Vou te contar uma coisa que me aconteceu, e que ainda está me rendendo assunto.
Tenho 62 anos. Sou aposentado do Banco do Brasil. E lá pelo fim de maio me deu na telha de correr. Corrida de rua mesmo, com número pregado na camiseta e tudo. São seis meses nisso. Não vou mentir pra você: corro um pouco, ando uns poucos, corro mais um tiquinho, ando de novo (rsrs). Mas chego. Isso eu garanto. Chego.
Dias atrás fui correr a Corrida Abrace, aqui em Brasília. Pra quem não conhece, a Abrace cuida há 40 anos de crianças e jovens com câncer, e das famílias deles também. A corrida era a festa desses 40 anos. Manhã bonita, um mundo de camiseta laranja, criança na beira da pista batendo palma. Só por isso já tinha valido a pena acordar cedo.
Terminei acabado. Bofe de fora, como se diz lá em Campina. Me deram a medalha e aquela banana que entregam na chegada. Rapaz, que banana boa. Comi devagar, sentado, suado, feliz da vida. Tirei até foto com ela, acredita? Pra mim o prêmio era aquele: ter chegado inteiro e ganhar uma banana.
E fui embora pra casa. Resultado? Classificação? Nem passou pela minha cabeça. Eu sou o perna de pau da turma, pensei. Um 60+ teimoso que chega no final, e pronto.
Quem viu foi a Marciele. Foi ela, inclusive, que me meteu nessa de correr. Ela olhou a lista, achou meu nome lá em cima e me mandou um áudio rindo: se eu não fosse buscar o troféu, ela vinha a Brasília catar pra mim. E ainda puxou minha orelha. Da próxima vez, quando terminar, vê tua posição, pra não deixar o troféu pra trás.
Terceiro lugar na minha categoria.
Eu. O da banana.
Voltei lá pra buscar, meio sem graça, meio bobo de alegria. E aquela frase dela ficou zumbindo na minha cabeça a semana inteira. Pra não deixar o troféu pra trás.
Porque, pensando bem, a gente vive fazendo isso.
Pega a corrida de criar filho. Você lembra das noites em claro? Daquela febre de madrugada, do ouvido atento ao barulho do portão quando o menino saía de noite? Do sapato que você deixou de comprar pra você porque o deles estava apertado?
Aposto que lembra. Mas aposto também que lembra mais ainda daquele aniversário em que não pôde ir. Da bronca que passou do ponto. Da escolha que hoje faria diferente. É assim que a gente é: guarda o erro em cofre e deixa o acerto jogado no quintal, tomando chuva.
No banco foi igual, não foi? Quanto cliente você atendeu com paciência, quanta gente nova você ensinou, quanta segunda-feira de fila dobrando a esquina você segurou com um sorriso que nem sempre tinha vontade de dar. E quando pensa na carreira, vem o quê na cabeça? A meta que não bateu. A comissão que foi pra outro. O chefe que nunca disse obrigado.
E o troféu de ter sido honesto a vida inteira? De ter tratado bem o velhinho que ninguém tinha paciência de atender? Esse ficou lá na mesa. Ninguém foi buscar.
Tem troféu no amor também. De quem pediu desculpa primeiro, mesmo achando que tinha razão. De quem ficou do lado no hospital. Às vezes o casamento acabou, a história não terminou do jeito que a gente sonhou. Tudo bem. Mas não dá pra jogar fora o livro inteiro por causa dos últimos capítulos.
E tem os troféus que ninguém fotografa. Aquela vez que você engoliu a resposta atravessada pra não piorar a briga. A ajuda que você deu sem contar pra ninguém, do jeito que o Evangelho pede, com a mão esquerda sem saber o que fez a direita.
Muito troféu esquecido. Muito mesmo.
Eu fico pensando por que a gente é assim. Acho que a cabeça da gente foi feita pra reparar mais na cobra do que na flor. Antigamente isso salvava vidas, quem via a cobra primeiro sobrevivia. Hoje só serve pra gente fazer conta errada da própria história. E o mundo ajuda, né? Tudo é meta, tudo é comparação, sempre tem alguém no celular mostrando que correu mais, viajou mais, ganhou mais. Aí vem o perfeccionismo e completa o serviço: só pode comemorar se não tiver errado nada.
Ou seja, nunca.
Então eu te peço uma coisa: olha pra trás com justiça. Lembra de onde você vinha, do que sabia naquela época, do dinheiro curto, das dores que carregava calado. Você de ontem fez o que dava com o que tinha. Não cobra dele o que só o você de hoje aprendeu.
Agora deixa eu falar com quem já passou dos 60, dos 70, dos 80. Com você, meu amigo, minha amiga do 70+.
É nessa idade que eu vejo mais troféu abandonado. Converso com muita gente boa que olha pra própria vida e só enxerga mágoa. A transferência que separou a família. A injustiça daquele gerente. O filho que se afastou. Parece que entram no passado como quem entra num quarto escuro, e vivem batendo a canela no mesmo móvel.
Falta acender a luz.
Acende aí comigo. Lembra da inflação que mudava o preço do arroz de manhã e de tarde. Dos planos econômicos que viravam a vida do avesso de um dia pro outro, e de você no balcão explicando pro povo o que nem você entendia direito. Da agência lá no interior, da mala feita e desfeita tantas vezes. Dos filhos criados. Dos pais que você enterrou. Das doenças que enfrentou de cabeça erguida sem ninguém bater palma.
E você está aqui. Lendo isso.
Pra mim, isso é pódio. Dos grandes.
São Paulo escreveu aos romanos, depois de falar de fome, de perigo, de perseguição, que em tudo isso somos mais que vencedores. Gosto de pensar que ele falava de gente como nós. Gente que caiu, ralou o joelho, levantou meio torta e seguiu andando. Uns poucos andando, outros poucos correndo. Mas seguiu.
Então faz igual a Marciele me ensinou. Para um pouco. Volta lá na mesa da premiação. Pega teus troféus, um por um. O do filho que virou gente boa. O do colega que você acolheu no primeiro dia de banco, perdido feito cachorro em dia de mudança. O do perdão que custou caro. O da fé que te segurou quando o chão sumiu. Bota tudo na estante da memória, num lugar onde dê pra ver da cadeira.
E come a banana, viu? Chegar inteiro já é uma alegria danada. Só não vai embora achando que ela é tudo o que você merece.
Tem mais uma coisa, e essa eu guardei pro fim.
A gente que já correu tanta prova sabe reconhecer um pódio de longe. Sabe quanto custa chegar. Sabe que tropeçar não desclassifica ninguém. Sabe que andar uns poucos no meio do caminho também conta.
Então usa esse olho treinado com quem vem atrás de você.
Seja a Marciele do teu neto, que acha que foi mal na prova e nem percebe o tanto que estudou. Do teu filho, que se cobra porque ainda não chegou onde queria. Da nora e do genro, que estão naquela corrida pesada de criar menino pequeno, pagar boleto e ainda dar conta do resto. Daquele amigo de banco que anda calado, achando que a vida passou e deixou ele pra trás.
Liga pra eles. Manda um áudio, com a voz sorrindo, que é o melhor jeito. Diz que você viu. Que reparou. Que achou bonito. Que tem troféu esperando por eles e que não vale ir pra casa antes da premiação.
Um “tô orgulhoso de você” dito por quem já viveu bastante pesa mais que medalha. E tem um bônus: quem aprende a enxergar o pódio dos outros acaba, sem perceber, enxergando o próprio.
Eu comecei a correr aos 62. A corrida não acabou pra mim, e não acabou pra você. Ainda tem muita largada pela frente. Pra correr do nosso jeito, e pra ficar na beira da pista torcendo por quem a gente ama.
E se tiver alguém perto de você se chamando de perna de pau, você já sabe o que fazer.
Não precisamos ser os melhores do mundo para reconhecer que fomos extraordinários dentro do mundo que nos coube viver.


Ahhhhh que incrível, Ricardinho quanto orgulho sinto de ti!
ResponderExcluirQue leveza de texto e ao mesmo tempo tão necessário, obrigada por compartilhar mais essa experiência conosco.
Senti muita emoção e vontade de praticar as orientações descritas. VALEU!
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