Pessoas-Passarinho


Tem gente que tem cheiro de terra molhada da chuva benfazeja. Cheiro de flores do campo num amanhecer orvalhado. Cheiro de cozinha da vovó.
Gente que exala otimismo. Que lida bem com a ansiedade dos problemas que lhes avizinham. Que ao seu lado nos acalmamos.
Hoje pela manhã convivi mais um pouco com uma delas, o Maurício.
Maurício pode o mundo estar se acabando, que ele continua calmo e sabendo o que precisa ser feito. E sempre tem uma piada sem graça pra contar, mesmo nas horas que o bicho tá pegando.
Foi assim hoje pela manhã quando cheguei ao Centro de Treinamento, no qual nossos 150 trainees em TI estudam.
Encontro-me com o Maurício na sala dos servidores.
Pergunto-lhe: “Está tudo bem?”.
Ele responde: “Tudo. Estamos sem a ADSL, mas acionamos os técnicos para tentarem consertarem o problema.”.
Digo: “Quer dizer que não estamos podendo acessar a rede?”.
Ele diz: “Sim!”.
Penso comigo, lascou! Lá se vão as aulas práticas no laboratório.
Maurício aparenta confiança. Mesmo sob a tormenta.
Escuto a voz ao longe do poeta: "Eles passarão, eu passarinho..."  A cara do Maurício.
Subo para a biblioteca com um monte de rugas de expressão, ansiedade a mil. Ele fica no CPD.
Mais tarde, ele vem à Biblioteca e diz que o problema fora sanado.
Mudando de assunto, dispara: “Meu orientador do doutorado disse que um dos membros da banca quer falar com ele hoje à tarde. Que tem umas dúvidas sobre a minha Tese”.
Eu digo: “Puxa vida Maurício, isto pode ser grave”.
Ele ri com uma calma que me deixa mais ainda nervoso.
Pergunto-lhe: “Quando é a defesa do seu doutorado”?
Ele diz: “Amanhã!”.
Aí quem surtou fui eu: “E você calmo assim!!!!”.
Ele diz: “Já depositei a versão final da Tese, que mais poderia fazer?”.
Não aparenta nervosismo, pessimismo. Confia que as coisas se resolverão.
Se fosse comigo, já teria feito mil posts no Facebook, dado dois mil telefonemas, e papeado sobre este assunto, maldizendo minha sina, junto a três mil amigos.
É que me curo da ansiedade pela palavra. Então, alugo todo mundo quando tenho, ou acho que tenho algum problema.
Maurício é leve tal qual beija-flor mirando água de recipiente em forma de florezinhas
Eu não. Ele tem o dom do otimismo.
Aprendeu a filtrar o que a vida lhe dá de melhor e a relativizar as coisas não tão boas.
Já vi Maurício preocupado. Até nervoso e ansioso. Mas foram raras vezes. No geral, esbanja confiança que tudo acabará a bom termo.
Ele é quem sabe das coisas. Sabe filtrar e lidar com o estresse de forma madura. Sinal de inteligência emocional.

Eu perdi esta lição.

E ainda estou nos bancos escolares da escola da vida, repetindo pela décima vez a disciplina controle do estresse e ansiedade.

Esta ansiedade revela-se também sobre forma de espera. De cobrança. De expectativa de posturas ou comportamentos.
Aí se revela, no meu entender, um dos mais graves problemas dos ansiosos.
Para nós, os ansiosos, nós não sabemos aguardar. Esperar.
Não damos um desconto. E, às vezes, nos levamos a sério demais.
Pior quando esta ânsia é de afeto.
É de ser querido, aceito, reconhecido.
Aí vira uma doença.
Na escola da vida ando cursando a disciplina Controle Emocional.
Descobri, nas suas aulas e com mestres como o Maurício, que ando fazendo uma contabilidade perigosa, manuseando uma espécie de calculadora interior-afetiva.
Ando contabilizando as expectativas de afeto não realizadas, lançando-as numa espécie de passivo a descoberto, na qual deposito as pessoas amadas.
Triste.
Anotando no caderninho as pisadas de bola que atribuo a estas pessoas, e passando a agir para com elas na justa medida em que percebo o que delas recebo.
Não paro para me perguntar se esta percepção é real. E o quanto de distorção está nela contida.
Simplesmente, afundo-me num mar de autoflagelação bobo e sem perspectivas de mudança.
Feio.
Não dou nem a outra pessoa uma chance de mudar, por meio do diálogo, visto que na minha vingança reajo na mesma medida e por muitas vezes calo.
Morto.
Quanta pobreza de espírito. Será que não vejo que agindo assim igualo a contabilidade do amor:
-----------------------------------------------------------------Ativo                                            
Emissão Gratuita de Afeto                        0   
-----------------------------------------------------------------
Passivo
Recepção Percebida de Afeto                   0
----------------------------------------------------------------
PL (Afetiva) = 0


E que, quando estas colunas: Ativo e Passivo são iguais não há lucro ou prejuízo?
Pois o Patrimônio Líquido, fruto da diferença entre as duas contas, fica zerado.
E o zero de afeto é representado pela indiferença, o buraco negro dos relacionamentos.
Que devagarinho tira todas as oportunidades e possibilidades de crescimento.
De renovação.
Sou intenso e esta intensidade faz-me ansioso e emotivo ao extremo.
E, quando minha calculadora está distorcida viro um contabilista, um contador, de afeto contabilizando: amor percebido recebido x amor efetivamente doado, procurando uma razão para ser infeliz.
Por exemplo, ontem fiquei esperando um telefonema da esposa para saber dos resultados do exame que iria buscá-lo. Ela sabia que era um dia importante para mim. Ela não ligou. Fiquei triste. E também não liguei só de birra. Perderam os dois.
É com este “modus-operante” que funciona esta perversa contabilidade em todos os aspectos emocionais de seres imaturos: não receber atenção = não doar atenção
Outro dia, durante o lançamento de meu livro, por um momento, durante o evento, fiquei ansioso e triste. Pela ausência de minha esposa e JG, que estava com febre, mas que na minha ansiedade poderia ter passado e ela viria. Ou pela ausência de pessoas amadas, que a todo o momento. A todo instante, durante aquela crise de afeto, ficava olhando para a entrada do restaurante esperando vê-las chegando, ou aguardando um SMS qualquer de uma delas.
Quanta bobagem.
Humana bobagem, mas bobagem.
Ao assim fazê-lo, perdi por uns minutos de curtir minha celebração com os muitos que ali se fizeram presentes.

Desliguei-me e assumi um papel de vítima, de “ninguém me ama, ninguém me quer”. Papel estéril.

Feio. Muito feio.

O mundo alegre ao meu lado, e eu feito um abestado procurando uma razão para ficar infeliz.
Já levo para o pessoal e não vejo o mar de situações que levaram as pessoas a não poderem ter ido.
Que cara besta!
Como tenho o que aprender com o Maurício. A carregar menos bagagens interiores. A relativizar situações e a gostar mais de mim mesmo.

Fico parecendo com aquele famoso treinador, da seleção de vôlei brasileira, que mesmo quando vence importantes campeonatos, naquela hora em que está todo mundo comemorando, ele nem se dá ao direito de relaxar e celebrar com vigor, ficando de olho no próximo treinamento, ou dando declarações de onde os “fundamentos precisam melhorar”.

Esta postura de cobrança exacerbada, de aguçada, sensível e distorcida percepção é ruim.
Aprisiona o outro nas jaulas de nossa prisão emocional.
Não damos ao mesmo direito de defesa.
Comportamento que imobiliza ou obstrui a fluidez da vida.
Quando paro de doar amor, de ser quem sou, para “descontar” no outro o que percebo que foi desamor, desconsideração, para comigo mesmo, é o principio do fim.
Creio que o segredo do Maurício é continuar otimista, sendo quem ele é independentemente das realidades que o circundam.
Só se preocupando com coisas que realmente sob elas ele tenha controle de ação.
Talvez aí resida o segredo dos relacionamentos duradouros.

Menos cobrança de ambas as partes.

Tem relacionamentos interpessoais que são como jogos dramáticos.
Alternam-se as disputas por espaço, por afeto, por estima. Sempre um vive o papel de vítima o outro de vilão, mesmo que em murmúrios de resmungos incontidos.
Um sempre cobrando do outro, que ele seja aquilo que acharia que podia ser melhor, só que segundo sua própria ótica.
Falta paciência, aceitação ou até mesmo tolerância com o jeito dele ser, tal qual o Maurício com sua Tese de Doutorado, objeto de vistas horas antes da defesa.
Falta jogo de cintura para aceitar a autonomia do outro.
Sobram manipulação e relacionamentos do tipo esponja-molde que pretende sugar a essência do outro, ou moldá-lo à nossa imagem e semelhança.
Perdem todos neste palco afetivo, com suas personas pobres auto-quereres.

Então, para os que me leem e que funcionam assim também, um convite:

Vamos refazer nossos cursos de ação e jeito de ser.

Que tal? Sempre existe tempo para mudar.

Basta uma forte disposição interior e autoconhecimento.

E uma ajudinha dos amigos.

De minha parte, não quero deixar de ser intenso, amoroso, afetuoso e sensível.
Só vou me tocar quando pensamentos doentios começarem a cutucar minha cabeça, a voz interior da bruxa, soprando que ela “é má”.
Até por que, há maneiras e maneiras de se expressar amor.
Nem sempre a que espero é aquela que o outro consegue demostrar.
Mas, isso não significa que ele não tenha a dele para comigo.
Enquanto escrevia esta crônica meu celular tocou, era minha esposa perguntando se queria que ela comprasse um Tablet para mim, que vira numa promoção nestes sites de compras coletivas.
Talvez seja esta uma das formas dela expressar que gosta de mim.
Ou, trazendo as benditas camisas róseas a cada viagem que faz. Tenho umas cinquenta. rsrs
Faço um apelo, não limite sua expressão de amor ao que acha que recebe.
Você pode estar achando errado. Pode estar frágil, cansado, estressado, doente... E quando assim, tendemos a ver as coisas pelas lentes da emoção, distorcidas por natureza.
Precisamos de inveterados amorosos.
Precisamos de mais amorosidade.
Não se renda. Não se embruteça. Não nivele suas reações pelo que acha que recebe
Doe amor sem pudor e sem limites.
Doe por se sentir bem doando. Sem querer nada em troca.
Doe, pois não saberia ser diferente.
Despeço-me apelando para que aprendam e louvem ao bom Deus quando cruzarem suas vidas com pessoas-Maurício, estampado nesta crônica. Pessoas otimismo. Pessoas esperança. Pessoas, com cheiro de sementes em fecundação.
Lembre-se, por fim, que a Lei de Talião (“olho por olho; dente por dente”) foi revogada pelo Mestre do amor. “Um novo mandamento vos dou: Que vos ameis uns aos outros; como eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis”. João 13:34
Portanto, largue do pé do outro que cruza seu viver e você gosta dele.
Dê direito a ele ser do jeito que é.
Não desista ainda de sua relação.
Relacionamentos interpessoais não são self-service, exigem esforço, renúncia, aceitação do outro. Estão mais para refeições a La Carte.
Exigem maturação, levam tempo. Contudo mais saborosas.
Ame despudoradamente, só porque não saberia fazê-lo de outra forma.
E por que em assim fazendo, vai dá vazão ao fluxo do amor em ti contido, represado, que pede para ser compartilhado.
Que, ao fluir gera um outro dom, não menos importante do que o do Maurício, o do otimismo, um dom às vezes chamado de generosidade, outras de encantamento.
Não espere uma reciprocidade, do que entende que será uma resposta adequada de afeto.
Seu amor não pede isto. Seu amor simplesmente ama.
Quem pede isto é seu homem velho interior. Que vai ficando mesquinho e azedo, se não for combatido fortemente e desde sempre!
Use com moderação e bom senso a contabilidade do amor, com a sua calculadora do afeto, só em casos extremamente graves. Quando não tiver outro jeito.
Pois, ao usá-la você ficará por um tempo mais pobre como ser humano.
Usá-la é uma forma de autopreservação, de autoproteção das agressões gratuitas e sistemáticas que podemos vir a receber - nos encontros e desencontros do viver.
Nestes momentos críticos, responda à vida com luta, ação e renovação.
Assumindo o risco de novos amanheceres em seu existir.

Em tempo: Quero parabenizar o Mauricio Lyra, que agora é Doutor em TI. Ontem, 7/12/2012 defendeu novamente sua tese e foi aprovado com louvor. Ele criou um modelo do que pode vir a ser o ITIL V4. INÉDITO NO MUNDO TODO.   ORGULHO DE SER DITEC!!!!

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