Nininha


Acordei, na manhã do primeiro domingo de março, bastante encharcado emocionalmente.

No dia anterior, fora o casamento de minha filha.
Entrar na igreja, levando-a ao altar, foi o cume de um monte de bênçãos que recebi na criação de meus filhos. Bênção maior ainda ver o amor de um para com o outro que contagiou a todos. Amor dos bons: simples, alegre e afetuoso. Eu estava um bagaço, esticado no sofá, rememorando com familiares as fortes emoções do dia anterior.

Era um dia especial em nossa família, estávamos os três irmãos juntos na casa de nossos pais. Eles nunca conseguiram essa proeza, ao terminarem de construírem-na.

É que todos foram casando e migrando para Brasília.

Ninguém mais teve agenda para que num único final de semana nos encontrássemos em nosso lar, todos juntos, em Campina Grande-PB.

Papai e mamãe não sabiam o que faziam com tanta felicidade. A todos papai dizia: "o maior presente com o casamento de Priscila Magalhães e Hugo Felinto foi juntar os filhos e netos todos ao mesmo tempo em nosso lar. Aí era que eu ficava um bagaço mesmo, aguenta coração. No dia anterior já tinha feito uma surpresa a ele, papai, paramos no meio da nave da igreja e o convidamos para dividir a "entrega da noiva!, segurando no outro lado do braço. Papai e mamãe foram fundamentais na criação de meus filhos, por uns 15 anos, até que terminasse seus estudos naquela cidade. Combinamos, eu e Priscila, na noite dos ensaios. Só nós sabíamos e a cerimonialista. Para papai, foi uma surpresa. E,toda a igreja chorou de emoção. Engraçado que sonhei na noite da quinta pedindo isso a Pri. E, foi ela na noite da sexta - durante o ensaio, quem me abordou toda envergonhada, com medo que ficasse chateado, e fez a proposta de divisão do cortejo. durante o ensaio, toda envergonhada, com essa proposta. Caímos juntos na risada, de tamanha coincidência, afinal Deus não joga dados.


Voltando à manha do domingo, escuto a campainha tocar. Eis que a porta se abre e entra uma senhora. Fragmentos de antigas lembranças desafiam meus neurônios.

Cego de tanta assombramento, em sinapses confusas, tal qual um desarranjo afetivo olho para ela e digo: "Nininha?"

Ela me abraça e diz que sim. Choramos os dois abraçados.

Do alto de seus 70 anos, estava diferente.
uns 12 anos. Ela foi vítima de um tumor no cérebro. À época meus pais cuidaram dela, e fizeram de tudo para salvá-la, conseguindo uma operação cara e rara num hospital escola. A operação foi um sucesso, mas ela não teve mais condições de trabalhar e aposentou-se por invalidez. 

Nininha foi nossa ama, babá, confidente, governanta, disciplinadora, educadora, amiga e companheira - de nosso nascimento até o início da juventude. Foi morar com meus pais quando tinha 18 anos, ficou com eles por uns 15 anos. Depois de seu adoecer, ela foi morar com seus parentes. E, cada um de nós foi se perdendo uns dos outros.
Há 35 anos que não a via.
Cada um de meus irmãos que adentrava a sala, ia passando pelo mesmo e intenso choque emocional que eu passei.

A casa ficou mais ainda em festa.

A chegada da Nininha era um reencontro com nossa infância.


O aroma de peraltice enebriou o ar. Encantamentos, sonhos, aventuras no fundo do quintal de uma casa tipo "tripa" de meus pais.

Ela era um arquivo ambulante da nossa infância.

Durante o almoço do JG, que luto colher a colher com ele para comer, ela nos contou que o Guga era do mesmo jeito.

Aproveitei a deixa e pedi que ela desse o almoço do JG, como ela sempre fez comigo. Era um revival de um gesto muito precioso ao meu existir.

A cozinha silenciou, em reverência, afinal naquela cena voltava-se 45 anos na fita de nossas vidas.

Era bênção demais para um pai que acabara de casar a filha.
Muito mais que mereço.

Nininha desafiou minha amnesia e me fez sentir-me novamente protegido.

Quantas vezes ela limpou minhas feridas, tomou comigo as tarefas, brigou para que eu não subisse nos móveis, ou sujasse a casa?

Quantas vezes ela acalentou meu choro de saudade de meus pais, ou de birra, ou de medo por qualquer coisa..., consolando-me que logo logo eles estariam de volta.

Quantas vezes fez nossa comida, deu-nos banho, botou-nos para esperar nossos pais na calçada de casa, todos penteados e cheirosos?

Quantas vezes ela ajudou em nossa criação, e até na superação de meus pais em busca de suas melhoras, dando o suporte no lar para que eles pudessem avançar em vida?

Obrigado Nininha. Obrigado...
Obrigado meus pais.
Obrigado por terem feito de tudo para Nininha sarar, cuidaram dela, e deram a ela condições dignas de existência.
Obrigado Jesus por ter possibilitado esse reencontro, 35 anos depois, ela agora com seus 70 e eu com meus 50.
Como seira bom se pudêssemos voltar o filme de nossa vida e dizer a todos que nos ajudaram um obrigado, o quanto somos gratos.
Que bom que para com Nininha eu pude dizer ainda em vida.
Como estou feliz!
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