A camisa na máquina (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)

 


Hoje botei a camisa da seleção pra lavar.

Amarela, meio emboladinha, dormindo no chão da máquina ao lado da camisa do treino de ontem, os 5km que corri sem pressa de chegar, só de chegar. Duas camisas, um mesmo tambor. Uma revela o que não deu certo. A outra revela o que vem dando certo, dia após dia, sem manchete. Uma é o ontem que já passou. A outra é hoje, e amanhã de novo, se Deus quiser.

Fiquei olhando a água girar em volta das duas, misturando o suor de quem corre com a poeira de quem torce, e pensei: são as duas faces da mesma entrega. Só bota roupa suja pra lavar quem se sujou primeiro. Quem se lambuzou de paixão, torceu, se doou, apostou o peito numa camisa, ou suou correndo cedo, sozinho, sem plateia. Quem não se envolveu não tem o que lavar depois. Fica limpo por fora e vazio por dentro, e vazio não suja, mas também não vive.

Vi Lucas, Laís, Sofia e Dudu chorando na saída do Brasil dessa Copa de 2026. Netos entre dois e sete anos, cada um chorando do seu jeito, um alto, outro baixinho, um perguntando por quê, outro só sentindo sem precisar entender. Rosto molhado, soluço que criança não sabe segurar, e não devia aprender a segurar tão cedo. E me vi adulto, engolindo o mesmo choro só que mais calado, mais educado, como se idade desse o direito de não sentir. Não dá. A dor do "quase deu" não escolhe idade. Criança chora alto, sem vergonha, ensina sem querer. Devia ter mais avô aprendendo com neto nessa vida, e menos neto sendo calado por avô que já esqueceu como se chora direito.

Teve frustração encardida na manga da seleção, o "quase deu", o gol que não saiu. Doeu, porque só dói quem se entregou. Mas teve também a camisa suada na corrida, prova de que nem tudo precisa dar errado pra merecer ser lavado e guardado de novo. Tem decepção que se lava e se guarda na gaveta da memória, feito roupa de festa que não se usa toda hora mas também não se joga fora. E tem conquista miúda, do dia a dia, que também suja a roupa, só que de um jeito bom, do jeito que a terra suja a mão de quem planta.

Decepção não se lava direto. Primeiro decanta, feito água suja que precisa assentar antes de escoar. É o tempo do silêncio, de regar por dentro com lágrima, seja de neto de dois anos ou de avô de sessenta e um. Quem pula essa parte carrega mágoa encardida a vida inteira e chama isso de resiliência. Não é. Resiliência de verdade tem processo, tem etapa, tem gente que respeita o próprio tempo de decantar em vez de se cobrar pra já estar bem.

Frankl escreveu isso em condição que ninguém deveria conhecer: entre o que acontece com a gente e o que a gente faz com aquilo existe uma brecha, um espaço, e nesse espaço mora a única liberdade que realmente nos pertence. Lavar a roupa suja é isso, é usar essa brecha. É decidir que a dor não vai virar resposta automática, vai virar matéria decantada, depois esfregada, depois posta no sol até secar de verdade.

Chamo de longelescência essa dupla figura que mora dentro de quem envelhece direito: o adolescente que ainda quer aprender coisa nova, que tem medo mas participa assim mesmo, que precisa de gente ao redor pra se constituir gente, do jeito que Lucas, Laís, Sofia e Dudu ainda estão se constituindo agora. E o idoso que rompeu com aquele roteiro velho de ficar em casa esperando a morte chegar, de se aposentar também da vida, não só do trabalho. As duas figuras precisam da mesma coisa pra continuar existindo: roupa limpa. Mágoa guardada trava o adolescente antes mesmo de ele crescer, e trava o idoso antes mesmo de ele se permitir a segunda metade da vida que ainda tem pela frente.

As lavandeiras do passado usavam as beiras dos rios pra lavar roupa. Estendiam nos lajedos, deixavam a água correndo coar o sabão, ou recolhiam tudo em bacia pra secar no varal do terreiro. E aquele lavar não era solitário. Era coletivo, era roda, era corpo a corpo. Enquanto batiam a roupa na pedra, torciam, esfregavam uma a roupa da outra, elas conversavam. Cantavam. Rezavam. Contavam a vida umas às outras sem cerimônia, sem hora marcada, sem cobrar diploma de terapeuta. A beira do rio era divã, era grupo de apoio, era confessionário improvisado debaixo de árvore. A água lavava tecido, mas a conversa lavava alma. Hoje cada um lava sozinho, máquina fechada, fone de ouvido, ninguém do lado pra ouvir o que pesa. Perdemos rio, ganhamos silêncio. Por isso escrevo. Este texto é minha beira de rio.

Recolher a roupa suja não é o fim de nada. É o começo de novo, disfarçado de tarefa doméstica. Cada peça que a gente separa pra lavar é uma decisão de recomeçar, ainda que pequena, ainda que ninguém veja. A vida é feita desses recomeços miúdos, quase invisíveis, um cesto de roupa de cada vez. 

E se a roupa já decantou, mas falta coragem?

Tem gente que já fez a parte difícil, chorou, ficou quieto, deixou a água suja assentar, e mesmo assim continua parado, olhando pro cesto sem coragem de ligar a máquina. Fica remoendo a mancha, revisitando a dor como quem cutuca ferida só pra ver se ainda dói. Fica preso no papel de vítima. Isso também tem nome, e tem jeito. Deixo aqui alguns gestos pequenos, mais lúdicos do que solenes, pra quem está nessa apatia.

Escolha uma peça só, não o cesto inteiro. Ninguém lava a vida de uma vez. Escolha a mágoa mais leve, a mais fácil, e comece por ela. Sucesso pequeno destrava coragem grande.

Dê nome à mancha antes de lavar. Escreva numa folha o que ela representa, sem se policiar, sem caprichar na letra. Depois rasgue, ou queime com segurança, ou simplesmente amasse e jogue no lixo. O gesto físico avisa o corpo que aquilo mudou de lugar.

Marque um horário de lavar, do jeito que se marca hora de missa. Apatia adora o "depois eu vejo". Coragem gosta de compromisso marcado no calendário, mesmo que seja só com você mesmo.

Mexa o corpo antes de mexer na mágoa. Uma caminhada, um treino de cinco quilômetros, uma dança boba na sala. Corpo que se move destrava sentimento que travou.

Ache sua beira de rio. Um amigo, um filho, um neto que já entenda, alguém que escute sem pressa de resolver. Mágoa contada em voz alta perde metade do peso, porque deixa de ser só sua, vira também cuidado de quem ouve.

Faça uma oração curta, sem cobrança de resultado. Só um "Senhor, ajuda eu a lavar isso" já é começo de coragem, porque reconhece que sozinho a gente nem sempre dá conta.

E se mesmo assim a coragem não vier hoje, tudo bem. Bote a roupa suja de volta no cesto, sem culpa, e tente de novo amanhã. Coragem também tem processo, também decanta.

Amanhã calço o tênis de novo. Ponho a camisa amarela no armário, esperando 2030, junto com Lucas, Laís, Sofia e Dudu, já maiores, já torcendo do jeito deles. E entre um recomeço e outro, vou aprendendo que renascer não é virar outra pessoa. É lavar o que precisa ser lavado e seguir sendo eu, só que mais leve.



4 comentários:

  1. Semana passada, a leitura do seu texto sobre ter encontrado o pai na festa junina, virou anotação no diário do que é bom. Agora, você entra na árvore social. Gratidão pelo encontro e oportunidade de ler seus textos, que convidam à reflexão firme, com respeito e gentileza.

    ResponderExcluir
  2. Texto maravilhoso. Vou compartilhar

    ResponderExcluir

Seu comentário é uma honra.

Crônicas Anteriores