A sineta dos três toques (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Ontem eu tinha uma programação. Iria visitar meu filho Rodrigo. Fui até a casa dele, mas Rodrigo não estava. A visita não aconteceu.

Voltei para casa e, na minha cabeça, já tinha reprogramado. Tudo bem. Hoje seria a segunda tentativa.

Até que apareceu no Instagram um convite para um show naquela noite. David Coelho, Tudo Vira MPB, no Teatro dos Bancários.

Olhei. Pensei por alguns segundos.

Por que não?

E comprei o ingresso.

Foi assim, meio sem cerimônia, que uma visita frustrada ao meu filho me levou, pela primeira vez, a um teatro que também é parte da minha própria história.

Eu poderia ter mantido a programação original e ido de novo à casa do Rodrigo. Mas alguma coisa em mim está em obra. E dessa vez apareceu uma possibilidade que era só minha.

Um show. Uma cadeira. Uma noite. Eu. Sozinho.

Venci o cansaço do pós-treino. Tomei banho e vim. Venci o trânsito do fim de tarde. E aqui estou.

No Teatro dos Bancários. Minha primeira vez aqui.

E isso tem uma graça especial. Fui bancário por muitos anos. Me aposentei em dezembro de 2016. A vida foi me levando para outros trabalhos, outras histórias, outros territórios. E esse teatro, que também era meu por direito, foi ficando guardado para um amanhã possível.

Hoje eu entrei. Sozinho. E estou adorando a experiência.

Já está pago. E muito bem pago.

Olho para o palco, a luz sobre ele, as cadeiras, o movimento de gente chegando, o burburinho dos meus vizinhos. Tudo me chama a atenção.

Parece que em minha vida eu sempre estive no palco. Palestrando. Gerenciando. Dando aulas. Sendo pai, esposo, filho. Resolvendo, explicando, cuidando, conduzindo.

Hoje não. Hoje eu posso apenas sentar na plateia. Não preciso fazer nada. Só curtir um show.

E tem uma coisa engraçada: quando comprei o ingresso, nem prestei atenção em quem era o cantor. Só depois, já aqui, fui olhar direito. David Coelho. Tudo Vira MPB.

Não fiz planejamento. Não procurei companhia. Não esperei alguém dizer vamos. Vi uma possibilidade e pensei: por que não? E fui.

Antes, eu provavelmente ficaria olhando para os casais, as famílias, os enamorados. Talvez procurasse, sem perceber, aquilo que eu tinha e aquilo que me faltava. Compararia. Mediria. Inventaria histórias para mim a partir da vida dos outros.

Hoje não. Hoje eu olho para o palco. Estou ansioso pelo espetáculo, sem tempo nem vontade de me comparar com meus vizinhos de plateia.

Cada um vive sua noite. Eu estou vivendo a minha. E isso me basta.

Pela primeira vez, talvez, não estou sentado numa plateia olhando para a vida dos outros. Estou sentado na minha própria vida.

E tem outra coisa que percebo esta noite: não quero que Ana fique narrando a vida dela para mim online, enquanto eu narro a minha para ela. Não quero ficar de sobreaviso, esperando mensagem, foto, notícia, reação. Não quero transformar esta noite num namoro à distância, cada um mandando boletim do próprio espetáculo.

Ela está no show dela. Eu estou no meu. E está tudo bem.

Não preciso saber a cada instante o que ela está fazendo. Também não preciso contar a cada instante o que estou fazendo.

Aqui, sou só mais um sujeito na plateia. Um cara que comprou seu ingresso, veio até o teatro e quer assistir a um belo show. Sem prontidão. Sem aquela sensação de que preciso estar disponível caso alguma coisa aconteça.

Hoje não estou esperando Ana voltar pra conversa. Ela pode viver a noite dela. Eu, a minha. Não é distância, não é frieza, não é desinteresse. É cada um podendo estar inteiro onde está.

Na Paraíba, em João Pessoa, Ana está, neste exato momento, no show do Peninha. Ela está lá. Eu estou aqui. E está tudo bem.

Passo o olho pela plateia e encontro outra pessoa sozinha, no meio de umas duzentas que estão por aqui. Pronto. Já não sou o único. Rsrs.

E percebo uma coisa simples, mas que para mim tem tamanho enorme: não existe placa na porta dizendo que só entra acompanhado. Não existe regra dizendo que uma pessoa sozinha precisa explicar por que está sozinha.

Esse medo de ser notado, de virar comentário, de que alguém vá reparar, é muito mais meu do que do mundo. Uma crença. Uma lente velha.

Hoje tirei os óculos do medo e coloquei os olhos da curiosidade.

Escuto a primeira sineta. Faltam dez minutos.

Meu Deus, há quanto tempo eu não ia a um teatro. Muito tempo. E que bom reencontrar esse som. Nem lembrava que sentia falta dele.

As pessoas se ajeitam, a conversa diminui, existe uma expectativa no ar. Daqui a pouco as luzes baixam e o palco, que até agora esperava, começa a acontecer.

Talvez seja isso que esteja acontecendo comigo esta noite. Não estou apenas descobrindo um teatro. Estou reencontrando coisas pequenas que a vida foi deixando pelo caminho: uma sineta, uma cadeira de plateia, o burburinho antes do espetáculo, a luz sobre o palco, a música que ainda não começou.

E eu aqui. Sozinho. Muito bem acompanhado de mim.

Talvez eu esteja aprendendo a sair da toca. E sair da toca nem sempre significa correr para algum lugar. Às vezes é só atravessar uma porta.

Hoje atravessei a porta de um teatro que sempre esteve perto de mim. E descobri que ainda existem muitos lugares da minha própria cidade que eu nunca habitei. Parques, museus, cinemas, feiras, igrejas, shows, exposições, ruas, praças. Lugares onde ainda posso chegar sozinho ou acompanhado. Lugares onde posso simplesmente estar.

Talvez eu tenha passado tempo demais na plataforma de embarque, olhando para a próxima viagem, o próximo encontro, o próximo lugar. Mas existe uma cidade inteira acontecendo enquanto eu espero. E eu não quero mais esperar a vida começar em outro lugar.

Preciso desarrumar as malas. Descobrir o território daqui. Apropriar-me dos espaços. Neles também habitar.

O palco está iluminado. A sineta já tocou. A plateia se ajeita. E agora toca a campainha dos três toques.

Hora de parar de teclar. As luzes se apagam. Vai começar o espetáculo.

De repente não existe mais mensagem para responder, foto para mandar, notícia para acompanhar. Só o palco, a música prestes a começar, e eu, sentado aqui, inteiro na minha noite.

O tema da noite era o amor. Cada canção, um jeito diferente de amar. O que chega. O que dói. O que dura. O que se vai. Uma voz suave, um violão que sabia a hora de correr e a hora de esperar. Um passeio por todos os ritmos do amor.

Do meu lado, um senhor de uns setenta e poucos anos não estava ali para ver o show. Estava ali para contar a própria vida. Trouxera uma moça, uns quarenta e cinco. Antes de as luzes se apagarem, já tinha puxado um álbum de fotos e ficava mostrando, uma por uma, para ela. Não sei que relação os unia. Não estavam de mãos dadas.

A cada canção que tocava alguma lembrança nele, ele parava, respirava fundo e começava a discorrer, em voz grave, sobre o que aquele acorde tinha a ver com a sua história.

Ela olhava para a frente. Visivelmente sem jeito. Um olhar que dizia vamos assistir ao show, sem nunca dizer isso em voz alta. Não respondia enquanto ele cantava por dentro a própria vida. Só esperava.

A voz grave dele ia e vinha, intercalada por minutos exatos de silêncio, como se ele soubesse até onde podia invadir a canção antes de se calar de novo. Mas ele precisava falar. Alguma coisa naquelas letras estava batendo forte demais para ficar guardada.

Na minha frente, um casal que antes eram duas torres virou uma coisa só. Cabeças deitadas, uma sobre a outra, um amálgama tranquilo, sem pressa, sem palavra nenhuma.

Em um momento, o cantor perguntou quem ali já tinha sofrido de amor. Só uma mão se ergueu. Muita exposição para nós, de Brasília, assumirmos. Rsrs. Lá na minha Paraíba teria sido mão erguida em bloco. Aqui somos mais comedidos. Ele insistiu, tentou provocar de novo, e mais uma mãozinha tímida se levantou. Sua provocação não deu o mote que ele esperava. Ninguém quis assumir, em praça pública, o que todo mundo ali já tinha vivido. Inclusive eu. Ter um dia sofrido por amor. Quem nunca?

O cantor é dos bons. Canal no YouTube com milhões de seguidores, músicas próprias, um jeito de cantar que enche uma casa. E encheu. Teatro lotado, plateia atenta, quase reverente, todo mundo mergulhado no mesmo rio, cada um com sua própria correnteza por dentro.

Exceto a voz grave do meu lado.

Mas ele precisava falar.

E eu, sozinho na minha cadeira, olhando aquele senhor que não conseguia calar a própria história, aquele casal que virou um só, aquela moça constrangida entre o show e o silêncio que devia guardar, penso que cada um ali carregava um jeito diferente de amar ou de precisar ser ouvido. Ninguém igual a ninguém. E eu, no meio disso tudo, sem ninguém do meu lado, também carregando o meu.

Na penumbra do encantamento dos sons, começo a balançar sozinho. Primeiro quase sem perceber. Depois mais solto. Dançando sentado nessa cadeira. Meu corpo acompanha a música antes que eu consiga pensar sobre ela.

E eu sorrio. Sozinho. Sem medo de parecer estranho. Sem medo de ser visto. Sem medo do amanhã.

Talvez a felicidade também seja feita desses pequenos momentos em que a gente deixa de se vigiar.

A música toca. Eu balanço. A cadeira é minha pista de dança. O palco é meu horizonte.

Ana está no show dela. Eu estou no meu. E por alguns minutos não existe nada para resolver, nada para explicar, nada para esperar.

Só música. Só presença. Só esta noite.

E uma sensação boa, muito boa, de que ainda há tanta coisa para viver.

Sem medo do amanhã. E, principalmente, sem medo de ser feliz.


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