Sextou, vamos jogar frescobol? ( Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Tenho pensado numa certa pessoa. Daquelas que não sabem mais falar com ninguém sem cortar.

É como se estivesse em guerra permanente com o mundo.

A conversa com ela parece uma partida de tênis de mesa. Você joga a bola e ela rebate. Só que não rebate para você conseguir devolver. Rebate para derrubar. Para colocar a bola num lugar impossível de alcançar. Para ganhar o ponto.

No frescobol é diferente.

A gente joga a bola para o outro conseguir devolver. Quanto melhor eu rebater, maior a chance de você continuar no jogo. Preciso prestar atenção em você. Na sua força. No seu jeito de jogar. Na distância. Preciso querer que a brincadeira continue.

Talvez seja assim que eu gostaria de entender o diálogo entre duas pessoas.

A bola é a interação. A palavra vai e volta. Uma pessoa fala, a outra recebe. A outra responde e a primeira recebe de volta.

Mas existem pessoas que desaprenderam o frescobol relacional.

Estão sempre certas. Têm uma verdade inabalável sobre tudo e sobre todos. Sabem como os outros deveriam viver, pensar, educar os filhos, cuidar dos netos, trabalhar, amar, gastar dinheiro, frequentar igreja, cuidar da saúde.

No tempo em que trabalhei no banco, convivi com gente assim. Perto delas o diálogo virava monólogo. Não aceitavam o contraditório. Não aceitavam pensamento divergente.

Ficavam numa postura agressiva, querendo mudar o outro. Alguma coisa nelas se incomodava com o diferente.

E partiam para o ataque. Querendo subjugar. Oprimir. Dominar o outro pela força dos argumentos.

E criticam. Criticam demais.

São capazes de cometer sincericídios com a tranquilidade de quem toma sorvete, languidamente, sentado num banco de praça.

Falam tudo que pensam. Na hora que pensam. Do jeito que pensam. E ainda acreditam que estão apenas sendo sinceras.

A palavra vira uma lâmina. Às vezes vem embrulhada num conselho. Às vezes vem acompanhada de uma preocupação. Às vezes vem com aquele velho "estou falando para o seu bem". Mas chega no outro como uma pancada. Como uma acusação. Como um julgamento. Como uma condenação.

E há palavras que arruínam a autoestima de uma pessoa.

O mais curioso é que quem falou pode esquecer cinco minutos depois. Vai tomar café. Vai dormir. Vai cuidar da própria vida. Só que quem ouviu pode carregar aquela frase durante anos.

Essa é uma das coisas que mais me impressionam nas relações humanas. Uma pessoa pode esquecer em minutos aquilo que disse como arma. A outra pode lembrar durante anos aquilo que recebeu como facada.

E quando isso acontece muitas vezes, a pessoa vai se afastando aos poucos, sem alarde.

O filho liga menos. O neto fica menos tempo. A nora pensa antes de falar. O genro muda de assunto. O amigo começa a aparecer menos.

E ninguém quer conversar sobre o motivo. Porque conversa difícil ninguém gosta de ter. Então todo mundo vai se afastando um pouquinho. Até que um dia aquela pessoa se pergunta por que está tão sozinha.

O tempo de vida dá mais leituras, mais estradas andadas, mais aquele "esse filme eu já vi" solto na ponta da língua.

Mas isso não é passaporte pra ninguém virar semideus. Não dá o direito de sentar num trono e sair distribuindo crítica ácida pra tudo e todos, como quem se acha superior.

A idade não nos dá o direito de dizer tudo que vem à cabeça.

Não é porque envelhecemos que ganhamos licença para ofender. Não é porque vivemos mais que sabemos mais sobre a vida dos outros. Não é porque temos experiência que precisamos dar opinião sobre tudo.

Isso não é sabedoria. Pode ser apenas uma velhice chata. Amarga. Rabugenta e espinhenta. Daquelas em que ninguém quer ficar muito perto porque sabe que, numa conversa de meia hora, alguma coisa vai sair machucada.

E isso acontece até quando a pessoa precisa de cuidados. Vai ao médico e briga. Vai ao hospital e reclama. Trata mal quem está trabalhando. Acha que está num hotel e que todos estão ali para servi-la. Esquece que do outro lado existe uma pessoa. Uma pessoa que também tem seus problemas, seu cansaço, suas dores e suas limitações.

Falta humildade. Falta respeito. Falta compaixão. Falta empatia. Falta um pouco de chá de semancol.

Se tem uma coisa de que eu me afasto, numa roda de amigos longevos, é esse tipo de 60+ que tem lição pronta pra tudo na vida. Que sabe tudo. Que não aceita outro ângulo de olhar. Que não conversa, discute, como se estivesse numa assembleia sindical.

Aí eu calo. E me afasto.

Não quero essa energia pro meu viver. Gente prepotente demais. Vaidosa demais. Arrogante demais. E sabida demais.

Deus me livre de ficar assim.

Eu quero ser um velhinho que as pessoas gostem de ter por perto. Quero que tenham vontade de chegar. De sentar. De conversar. De tomar um café comigo. Quero ter boa prosa. Quero rir. Quero ouvir histórias. Quero aprender coisas que ainda não sei.

E quero aprender uma coisa que considero cada vez mais importante: mesmo quando eu estiver certo, talvez não seja preciso dizer. Pode não ser a hora. Pode não ser o lugar. Pode não ser necessário.

E talvez essa seja uma das maiores sabedorias que podemos aprender com o tempo. Saber que nem toda verdade precisa sair da nossa boca.

Meu pai era assim.

Ele era do reino das delicadezas. Das gentilezas. Da mansidão. Era bom de coração e tinha uma paciência bonita com as desconformidades das relações. Não precisava ganhar todas as conversas. Não precisava corrigir todo mundo. Não precisava mostrar que sabia mais.

Eu queria ser como ele. Será que é pedir muito?

Também queria que me ajudassem. Se um dia perceberem que estou ficando amargo, chato, arrogante, cheio de uma verdade sobre tudo e incapaz de conviver com as verdades dos outros, me digam. Quero que me digam. Mesmo que eu não goste de ouvir. Quero ser ajudado a mudar de rota.

Porque talvez muita gente vá ficando assim simplesmente porque ninguém nunca parou para dizer. E ninguém diz. A família evita. Os amigos deixam para lá. Os filhos preferem não comprar briga. E a pessoa vai ficando cada vez mais convencida de que o problema está sempre nos outros.

Eu não quero ser catequista de ninguém. Não quero ser fiscal de crenças, atitudes, escolhas ou jeito de viver. Não quero passar a velhice tentando ensinar os outros a viverem dentro dos meus enquadramentos.

Cansei dessa disputa de egos. Dessa necessidade de provar que eu sou o mais certo e o outro é o mais errado.

Quero jogar frescobol relacional. Quero uma conversa em que a bola volte. Quero conseguir discordar sem transformar a discordância numa briga. Quero ouvir alguém pensando diferente de mim e ter curiosidade para entender como aquela pessoa chegou até ali. Quero aceitar que alguém pode fazer uma escolha que eu jamais faria. Pode pensar de um jeito que não cabe na minha cabeça. Pode enxergar a vida por outra janela. E está tudo bem.

Não preciso concordar para respeitar. Não preciso convencer para conviver. Não preciso ganhar para continuar jogando.

Talvez seja esse o tempo que quero para minha velhice. Um tempo de acolhimento. De paz. De boa prosa. De aprender com o diferente. De rir das minhas próprias certezas. De reconhecer que algumas coisas que eu achava tão importantes ontem hoje já não têm tanta importância assim.

Quero chegar lá mais leve. Sem carregar uma mala cheia de verdades sobre os outros. Quero carregar mais delicadezas. Mais paciência. Mais curiosidade. Mais vontade de estar junto.

E quando a bola vier até mim, quero me lembrar do frescobol. Não quero rebater para derrubar. Quero devolver para que o outro consiga continuar jogando comigo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário é uma honra.

Crônicas Anteriores