Sábado à tarde. Sorvo um café passado na hora. A xícara esfria ao lado da camisa estendida sobre a mesa, enquanto travo uma pequena guerra com quatro alfinetes.
Não tem jeito. O número do peito sempre fica torto. 831, pelotão verde, 5K. Ricardo, em letras brancas sobre fundo preto. Endireito de um lado, entorta do outro. Desisto com a dignidade possível. Torto também chega.
No som toca "Aranjuez, mon amour". Não escolhi. Peguei o primeiro CD de uma pilha recém-juntada, entre os quase mil que moram aqui em casa. Quem já desconfia que certas coincidências têm lá suas intenções sabe como é. Às vezes, a vida escolhe a música e deixa a gente acreditar que foi por acaso.
E foi aí que me dei conta.
Dez anos depois de me aposentar do Banco do Brasil, estou aqui, preparando a farda de amanhã. Uma camisa rosa, um número preso com alfinetes e uma identificação do BB no peito.
Antes era o crachá de funcionário. Aquele danado que a gente precisava encontrar toda noite, de preferência antes de dormir, para não sair de casa atrasado no dia seguinte. Agora é uma inscrição com chip. Crachá de corredor. A mesma logomarca, outro propósito.
Fiquei olhando para o número 831. Minha matrícula no Banco começava com oito. O peito agora também. Achei graça. Um oito me devolvendo ao outro, como um velho colega de agência que a gente encontra por acaso na rua. Você por aqui, rapaz?
E tem mais. Deitado, o oito vira o símbolo do infinito. Um laço que não termina, apenas dá a volta e continua do outro lado.
Senti uma alegria besta, dessas que chegam sem pedir licença. Uma sensação boa de pertencer novamente. O Banco foi muito mais do que um emprego. Foi casa, escola, sustento, amizade. Foi chão nos tempos difíceis. Grande parte do homem que sou foi sendo construída ali, entre agências, colegas, desafios e aprendizados.
Amanhã, porém, não bato ponto na BBTS nem na DITEC. Bato no chão da Asa Norte, na corrida domingueira de 18 de outubro. O relógio de ponto agora é um tapete que apita quando a gente pisa nele.
Olha só a vida mudando as coisas de lugar!
A música continua. Aranjuez, mon amour. Fala de fontes, vento, pétalas, sol e chuva. Fala de soldados que partiram e de roseiras que voltam a florir onde ficaram gravados os nomes dos que não voltaram. A guerra acaba. A rosa insiste.
Olho para a camisa rosa, com seu lacinho do Outubro Rosa, e fico pensando nessa conversa que a música parece estar tendo comigo. De um lado, as rosas da canção. Do outro, a rosa que vou vestir amanhã.
Vai ver que o Maestro sabe das coisas.
A vida é uma partitura que ninguém consegue ler inteira. Só Deus sabe a música toda, os silêncios, as entradas e os instrumentos que ainda vão aparecer. A nós cabe tocar o pedaço que chega. Às vezes, uma pausa comprida, de dar agonia. Às vezes, um movimento novo que começa sem avisar.
Viktor Frankl dizia que não somos nós que perguntamos à vida qual é o seu sentido. É a vida que nos pergunta, e a resposta está no modo como vivemos.
Amanhã, a minha resposta vai ser dada com as pernas.
Se alguém tivesse me procurado em outubro de 2016, quando aderi ao PDI, e dissesse que, dez anos depois, eu estaria preparando uma camisa para correr cinco quilômetros, com um segundo crachá no peito, eu ia achar que a criatura tinha fumado um boró vencido, com fungo, comprado no Paraguai.
Mas aqui estou. Número torto na camisa rosa e aquele friozinho na barriga que aparece antes das estreias.
O mesmo frio do primeiro dia de Banco.
Junho de 1986. Eu tinha 21 anos e estava na agência de Poções, na Bahia. Mil e cem quilômetros me separavam de Campina Grande, da minha gente, dos amigos, das ruas conhecidas. Tudo era novo. A distância parecia uma eternidade.
Meu primeiro desafio foi aprender a trabalhar com uma máquina de telex. Um trambolho barulhento, cheio de manhas, que eu encarava feito menino diante de bicho brabo. Não sabia direito por onde começar. Mas aprendi. A gente aprende quando tem vontade e encontra quem ensine com paciência.
E encontrei.
Alvina, nosso Antônio Carlos, Alcione, Pedro Nelson, Deraldo, Shirley... Não me deixaram sentir sozinho nem estrangeiro naquela terra. Teve jogo de bogue, conversa fiada, convite para almoçar. O Alcione e sua lady, por exemplo, não deixavam aquele paraibano de mala na mão passar o domingo comendo sardinha com ovo.
Viraram casa.
Nunca tinham precisado estudar o significado de pertencimento. Sabiam na prática. Às vezes, uma mesa posta, uma conversa sem pressa e alguém que se importa com a gente valem mais do que qualquer discurso sobre acolhimento.
Amanhã vou correr sozinho. Pelo menos é o que diz a ficha de inscrição.
Porque ninguém corre sozinho de verdade quando leva tanta gente consigo. No peito, um número. Por dentro, uma agência inteira, uma família, os amigos de Poções e as lembranças de uma vida que começou muito antes de eu imaginar que um dia estaria aqui, correndo atrás de outros cinco quilômetros.
Tem um adolescente morando dentro da gente. Às vezes ele fica quieto, escondido atrás das contas, dos compromissos, das perdas e das preocupações. Mas basta a gente se atrever a estrear alguma coisa para o danado acordar.
E acorda com medo mesmo. O medo e a vontade dividem a mesma camisa.
Essa nossa longelescência tem dessas coisas. O corpo acumula milhas, os cabelos embranquecem, os joelhos começam a dar opinião sobre os nossos planos, mas ainda existe um menino querendo saber o que vem depois da curva.
E eu gosto disso. Gosto de não saber tudo. De ter uma estreia pela frente. De me preparar para alguma coisa, mesmo sem garantia de que vou dar conta do recado.
Os crachás mudam. Os papéis também. O cenário troca. Mas a gente continua precisando de um motivo para levantar da cama, sair de casa e encontrar o mundo.
No Banco, eu me preparava para trabalhar. Agora, preparo a camisa para correr. Antes, precisava aprender a lidar com o telex. Hoje, preciso aprender a respeitar meu ritmo, administrar o fôlego e não sair feito um doido nos primeiros metros.
No fundo, não mudou tanto assim. Continuo sendo um aprendiz.
Confesso a vocês, cá entre nós, gostei muito mais desse segundo crachá.
Talvez porque ele me lembre que a vida não termina quando uma etapa acaba. Às vezes, a gente é que demora a perceber que ainda há outras portas abertas. E que não precisamos saber o que existe do outro lado para ter coragem de entrar.
Se avexe não. Nem eu nem você sabemos o que estaremos fazendo daqui a dez anos. Muito menos o que a vida terá aprontado até lá.
Amanhã, eu só sei de cinco quilômetros, de um número torto e de uma camisa rosa. O resto ainda não me contaram.
Que seja coisa boa.
E, se você que me lê está atravessando uma estação de chuva, com o vento batendo de frente e as pétalas caídas pelo chão, tenha um pouco de paciência consigo mesmo. Nem toda roseira floresce na mesma época. Há tempos em que a gente parece ter perdido a cor, mas está apenas juntando forças para outra primavera.
A canção continua tocando aqui em casa.
"Mon amour, le jour se lève..."
Meu amor, o dia acorda.
E eu quero lhe dizer uma coisa, você que talvez esteja achando que já passou da hora, que certas oportunidades ficaram para trás, que agora é tarde para começar de novo.
Olhe para a roseira. Ela não pergunta se ainda dá tempo. Quando chega a sua estação, floresce.
A chuva passa. O sol volta. E a roseira, que no inverno parecia apenas galho e espinho, floresce de novo, vermelha, no mesmo lugar onde a vida deixou marcas.

Muito poético, sensível e oportuno! GRATIDÃO!
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