Do EPI ao EPE: Prevenção à Insalubridade Emocional. Autor Ricardo de Faria Barros


No final do ano passado, fui convidado pela CIPA - Comissão Interna de Prevenção de Acidentes para conduzir uma palestra na Semana Interna de Prevenção de Acidentes de Trabalho – SIPAT, realizada por uma grande empresa brasileira, com negócios na área de Tecnologia e Serviços, a BB Tecnologia e Serviços. A palestra foi num de seus Centros, em Goiânia-GO.
Em contato com os organizadores, descobri que haveria antes da minha palestra uma outra versando sobre a importância do uso dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI).

Então, tive um estalo inspirador - aquele breve instante de criação no qual tocamos o infinito e ficamos excitados. Pensei comigo, vou levar para aqueles trabalhadores o tema:

“Insalubridade Emocional no Trabalho e o uso dos EPE.”

Propositadamente, não revelei o que significava EPE para aumentar a expectativa e poder de “venda”. Os Cipeiros sofrem para mobilizar o pessoal para as atividades, e acreditei que a curiosidade iria contribuir com uma maior adesão.
E deu certo. Na hora da palestra a sala estava lotada, até botaram umas cadeiras extras nos corredores.
Comecei explicando o que EPE significaria na palestra: Equipamentos de Proteção Emocional, contextualizando o tema dentro das mutações comportamentais que venho percebendo na sociedade, e que explodem nas organizações do trabalho.
O mundo do trabalho não é um mundo à parte da sociedade. Nele desaguam valores, ou falta de valores; atitudes, ou falta de atitudes; ética, ou falta de ética que habitam o tecido social da coletividade.
E, convenhamos, amigo leitor, os tempos são áridos em se tratando de emoções positivas: aquelas que constroem espaços de convivência e harmonia entre os povos.
Esse ambiente insalubre, do ponto de vista comportamental, é agravado pela crise institucional, econômica e política pela qual passamos.
O mundo do trabalho sofre então com a ameaça do desemprego, rondando a cabeça do trabalhador todos os dias; com o enxugamento de quadros aumentando a sobrecarga laboral; e com a ampliação das metas de produtividade e desempenho profissional, conduzidas por uma gestão, muitas das vezes, que mais amedronta do que lidera
Em ambientes de muita pressão ficamos regidos por dois hormônios: cortisol e adrenalina. São hormônios da sobrevivência, que foram fundamentais na história da humanidade.
Contudo, em excesso, eles consomem energia emocional positiva e inviabilizam o cultivar dos valores/atitudes de paz, justiça, colaboração, esperança, bondade, mansidão, solidariedade, empatia, cooperação, amorosidade, flexibilidade cognitiva, perdão, respeito e gentileza
Em ambientes de insalubridade comportamental, nosso cérebro reptiliano ativa os modos comportamentais: atacar, defender ou fugir, e perdemos a capacidade de transcender, de fluir, de ver o que nos ocorre por uma perspectiva diferenciada, mais ampla e contextualizada.
Então, adoecemos emocionalmente, ou fazemos o outro adoecer.
Como resultado desse nefasto processo, os valores/atitudes acima descritos vão sendo postos à prova e se não tivermos cuidado, paulatinamente vão degradando, e vamos ficando iguais aos que recriminamos, aprendendo a ser como eles por osmose.
Os valores funcionam como nosso GPS comportamental que apontam caminhos possíveis, quando tudo lado são incertezas. Quando nos perdemos deles, nossa nau fica à deriva.
Na minha experiência profissional, clínica e em sala de aula, tenho ouvido relatos do mundo do trabalho que mais parecem um filme de terror. Daqueles de péssimo gosto.
De pessoas que estão convivendo com gente perversas, ruins, sádicas e medíocres emocionalmente.

Muitas delas, ingressando nas organizações de trabalho já com esse aprendizado moldado em seu ser. Fruto da falência da disseminação de valores positivos na família, escola e outras Instituições de aprendizado para uma saudável coletivo-vivência social.
Aprende-se então a ser rabugento, crítico, negativo, mimado, perverso, sem limites, e um ser de ego hiper-inflado, que exige que o mundo gire em torno de si e lhe sirva, desde pequeno.
E, esse aprendizado quando se defronta com a nova realidade do mundo do trabalho, altamente competitivo e inseguro quanto ao futuro, encontra terreno fértil para seu desenvolvimento.
E o que mais escuto hoje, até em atendimentos na minha clínica, são trabalhadores infelizes e que perderam o encantamento com o outro, com a empresa e até com eles mesmos.
Estão adoecendo e perdendo o viço, ao habitarem nesse ecossistema comportamental com tantas feras à solta.
Ou, o pior, tornando-se mais uma dessa feras. De gente que não sabe conviver com gente, principalmente se ver nela algo diferente. De gente que passa o dia procurando razões para ser infeliz, e o pior é que acha mesmo. De gente extremamente negativa, rabugenta e reclamona. Gente que que tecla o modo de percepção negativo da vida, e não mais sabe viver de outra maneira senão nesse modo
Vendo em tudo, nele mesmo, e nos outros, fenômenos que justifiquem esse seu processar da vida, de forma reducionista e amargo. Afinal, nossa percepção é seletiva e é orientada pelos nossos esquemas de pensamento sobre nós mesmos, os outros e a realidade.
Na palestra, nas aulas e na clínica costumo prescrever três “equipamentos de proteção emocional”, úteis à prevenção da saúde emocional.

O primeiro deles é o da autoconsciência da pessoa que estamos nos tornando, do que realmente queremos ser, e do que de bom deixamos esquecidos no porão de nossas vidas. Crescer em valores e atitudes positivas é uma decisão que subverte a ordem reinante. A natureza das coisas e dos dias. Doerá. Crescer dói, mas liberta-nos de ser cópias de nós mesmos, dos outros e da realidade.
O segundo deles é reaprender a prestar atenção ao bom, belo e virtuoso que ocorre nas beiradas do viver. Lá na avenida do contorno de nossos corações. No modo defender, atacar ou fugir, concentramo-nos nas aflições do cotidiano e perdemos capacidades de ver às flores à beira do caminho. Apesar da estrada estressante pela qual passamos. Ao expandir as fronteiras de nossa consciência, de nossos pensamentos, ativando um modo de percepção seletiva das coisas boas que apesar dos pesares ainda nos ocorrem, mesmo que nas extremidades de nossa vida, acabamos por oxigenar nosso existir.

Por último, é aprender a vigiar os nossos pensamentos ruins, ficar de tocaia sobre eles, observando-lhes chegar e sobre eles agir. Tal qual faz o Olheiro, ficando acima dos montes e do alto anunciando aos pescadores, ancorados em terra, que vem entrando um cardume de tainhas (Prática como na pesca da tainha, em Santa Catarina-SC) e que eles podem lançar suas barcas e redes ao mar. Essa postura de anatomista de nossos pensamentos é fundamental para não “ficarmos como eles”, e eu diria, até piores. Ser vigia de pensamento ruim é aprender a debater consigo mesmo, colocando as coisas noutras perspectivas, mais amplas, menos doloridas, com menos vitimização ou visão negativa, volto a dizer: de nós mesmos, dos outros e ou da realidade.

Esses três equipamentos darão a força necessária para não adoecer no ambiente de trabalho, e até em promover mudanças que melhorem a qualidade de vida no trabalho, o clima organizacional, repercutindo positivamente na percepção dos sentidos e significado do trabalho.

Quanto às feras emocionais que contigo dividem a baia, caso elas não mudem, mude a si mesmo, e com um gostinho de coragem e um risinho no canto dos lábios, diga a si mesmo: “pelo menos não sou, não serei, não faço, não farei, como ele.”

Pois, ainda sinto que em mim e nele habita um ser humano, digno de respeito, misericórdia e atenção.






Se gostou do enfoque do texto, por aqui tem mais: http://silviaparreira.blogspot.com.br/2013/11/ambiente-de-trabalho-toxico.html#.WK4UhjvyvIU






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Ricardo de Faria Barros é aposentado do BB e proprietário da Ânimo Desenvolvimento Humano: Psicologia Positiva, Consultoria Cursos e Palestras Comportamentais, com sede em Brasília-DF.


Contatos: ricardodefariabarros@gmail.com

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