As bolas que não conseguimos pegar (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Alerta: Esta crônica não é sobre Vozinha. É sobre uma vozinha que fica falando em nossas cabeças. E que precisamos calar sua força: A de que já passamos do ponto, a de que já deu, a de querer sumir, ou dormir e acordar tempo depois...  Leia abaixo:
------------------------------------------------------------

Domingo, 13 de setembro, o goleiro Vozinha falhou. Colo-Colo e Deportes Concepción empatavam em 1 a 1, jogo válido pelo Campeonato Chileno. Veio a cobrança de escanteio, a bola subiu, e passou entre suas mãos. Foi um lance de dois segundos. Mas desses que ficam morando na cabeça de quem errou por horas, dias, às vezes anos.

Vozinha jogou por Cabo Verde numa Copa do Mundo. Fez defesas de tirar o fôlego. Foi aplaudido, carregado nos ombros da torcida, viveu seus momentos de grandeza dentro daquele campo. E, na mesma semana, teve seu nome anunciado entre os candidatos ao prêmio de melhor goleiro do mundo da temporada.

Domingo, a bola passou entre suas mãos. E pronto. As manchetes só falaram da falha.

É curioso como a vida faz isso com a gente. Passamos anos agarrando bolas difíceis, construindo uma história bonita, e basta uma escapar para começarmos a acreditar que somos aquela falha e mais nada.

Não somos.

Vozinha não é o gol que tomou no domingo. Assim como ninguém é o cargo que perdeu, o casamento que acabou, o negócio que não deu certo, o dinheiro que não juntou, a saúde que começou a reclamar, o amigo que foi embora, o sonho que não aconteceu.

Uma partida ruim não apaga as partidas bonitas que a gente já jogou.

E talvez isso pese mais quando envelhecemos.

Tem gente que passou décadas ocupando lugares importantes. Foi chefe, diretora, presidente, professor, autoridade. Gente acostumada a ser procurada, consultada, chamada pelo nome.

Um dia o cargo termina. E, sem avisar, parte dos telefonemas termina junto.

O convite diminui. O nome aparece menos. A mesa muda de lugar. Outros chegam.

E surge a pergunta que dói de verdade: e agora, quem sou eu?

Essa, acho, é uma das grandes partidas da longevidade. Descobrir que não somos só aquilo que fizemos. Não somos o cargo que ocupamos, nem a quantidade de gente que ainda nos procura, nem os aplausos que recebemos, nem a fotografia do nosso melhor momento. E, principalmente, não somos o erro que cometemos ontem.

Não podemos ficar reféns das narrativas negativas que construímos sobre nós, sobre os outros, sobre a própria vida. Mesmo quando elas são verdadeiras.

Sim, perdemos pessoas. Sim, alguns sonhos não vieram. Sim, erramos. Sim, tivemos derrotas. Sim, há coisas que a gente faria diferente.

Mas uma vida não cabe nas bolas que escaparam das nossas mãos.

Porque quando ficamos presos demais ao que deu errado, cada perda vira prova contra nós mesmos. E os pensamentos vão chegando, um atrás do outro: eu devia ter... se eu tivesse... por que comigo? Agora já é tarde. Eu não sou mais o que fui.

São como bolas que não conseguimos pegar. Continuam vindo, e a gente insiste em tentar agarrá-las de novo, mesmo sabendo que já passaram.

E aí mora o perigo. As bolas que já passaram não precisam continuar jogando contra nós.

Viktor Frankl, que sobreviveu ao que há de mais desumano num campo de concentração, dizia uma coisa simples e definitiva: não escolhemos o que a vida nos tira, mas escolhemos o sentido que damos ao que sobrou. Pensamento intrusivo, narrativa de fracasso, quando ganham espaço demais, drenam justamente esse sentido. Drenam a motivação, a esperança, a força para entrar em novas partidas.

Por isso, acolher nossas perdas não é negar o que aconteceu. É olhar para aquilo sem transformar o acontecimento numa sentença sobre quem somos.

Eu falhei, mas não sou um fracasso.
Eu perdi, mas não sou um perdedor.
Uma relação terminou, mas minha capacidade de amar não terminou.
Um cargo acabou, mas minha história não acabou.
Uma oportunidade passou, outras partidas ainda podem começar.

E isso vale também para o que a gente nunca teve.

Nem todo mundo tem dinheiro pra fazer um cruzeiro. Nem todo mundo tem um amor pra chamar de seu. Nem todo mundo tem saúde pra passar o dia sem reclamar de nada. Nem todo mundo tem filho presente, muitos amigos, gente que lembra, gente que valoriza, lugar reservado na mesa da vida.

E está tudo bem. Isso faz parte do pacote de estar vivo.

Neste mês em que tanto se fala em prevenção do suicídio, talvez seja hora de falar mais sobre isso também. Sobre as perdas. Sobre os danos. Sobre os gols que tomamos. Sobre o filho que não veio, o amor que não ficou, a amizade que se perdeu, o dinheiro que não deu, s saúde que não é mais a mesma, a aposentadoria que não era bem aquilo que a gente sonhou, a solidão que aparece mesmo com gente em volta.

Hoje, eu não pretendia caminhar no Parque da Cidade, aqui em Brasília. Mas alguma coisa me tirou de dentro de casa, câmera na mão, atrás das flores do cerrado que insistem em florescer por ali. E foi assim que encontrei o senhor Chico. Nome fictício, um senhor de 87 anos.

Ele estava tendo um dia mais cansado de viver. Era segunda-feira, 14 de setembro, um dia depois do lance do Vozinha. E ali estava o senhor Chico, contabilizando as próprias bolas que não conseguiu pegar no jogo da vida, do mesmo jeito que as manchetes contabilizavam a falha do goleiro. Olhava pra dentro de si como quem olha pra um estádio vazio, achando que o jogo da vida dele já estava mesmo na hora de acabar.

Eu poderia ter seguido em frente, fotografado minhas flores e ido embora. Fiquei.

E fui percebendo que aquele homem olhava pro próprio estádio só enxergando as arquibancadas vazias. Contava o que tinha perdido. O que não deu certo. Quem já tinha ido embora. As coisas que gostaria de ter feito e não fez. As bolas que não agarrou. Era como se assistisse só à fita dos gols que levou, nunca à das defesas que fez, nem aos jogos que ainda podia jogar.

Então conversamos sobre o presente. Sobre o cerrado florido em volta. Sobre o sol batendo no rosto. Sobre a chance de ainda encontrar alguma coisa boa no dia que estava acontecendo.

Ele foi sossegando o coração. Não porque os problemas somem. Mas porque, por alguns instantes, ele conseguiu olhar pra própria história por outra janela. E, se me permitem uma palavra de fé, foi como se ali, entre as flores do cerrado, alguém tivesse rezado sem saber que estava rezando: só o presente, só aquele instante de sol no rosto, já bastava para segurar mais um dia.

Trouxe até o Vozinha pra conversar com ele. E compartilhar também seu sentimento do jogo do Colo-Colo e ambos se ajudarem.

                 Obs: A foto, e o nome do senhor com quem me encontrei, estão alterados. 

Talvez seja isso que precisamos aprender. A vida não armou contra nós. Ela simplesmente acontece. Dá passes bonitos. Erra alguns. Toma outros. Às vezes nos coloca no alto, às vezes nos chama pra recomeçar mais embaixo.

E não precisamos transformar cada perda numa sentença contra nós mesmos, porque muitos dos nossos acusadores, juízes e avaliadores moram dentro da própria cabeça. São nossas cobranças, nossos preconceitos contra a velhice, nossa comparação com quem fomos, nossa dificuldade de aceitar que o corpo mudou, o mundo mudou, as pessoas mudaram e nós também.

Não podemos ficar presos à ideia de que nossa melhor parte ficou pra trás. Não somos só aquilo que fomos. Somos também aquilo que ainda está acontecendo.

Envelhecer é, entre tantas coisas, aprender a fazer as pazes com as bolas que passaram entre nossas mãos. Algumas agarramos, outras não. Algumas partidas vencemos, outras perdemos. Algumas pessoas ficaram, outras foram embora. Alguns sonhos aconteceram, outros não.

E está tudo bem.

Vozinha levou um gol. Mas fez belíssimas defesas também. E nós também fizemos as nossas.

Não podemos deixar que uma falha recente reescreva uma vida inteira. Nem que aquilo que perdemos nos impeça de enxergar aquilo que ainda temos.

A vida muda. Os papéis mudam. Os corpos mudam. Os relacionamentos mudam. Os lugares que ocupamos mudam. Quem está no alto precisa de humildade, porque a mesma escada que levou pra cima continua ali, esperando a hora de descer.

Tudo é provisório. O poder, a fama, a saúde, o dinheiro, os aplausos, tudo. E essa sensação de que o que temos hoje vai durar pra sempre é a maior cilada que existe.

Por isso: quando estiver por cima, seja humilde. Quando estiver por baixo, saiba que não vai ficar ali pra sempre. E quando a bola escapar das suas mãos, respire. Olhe pro campo. Não fique eternamente olhando pro lugar onde ela caiu.

A partida continua. Enquanto houver campo, ainda existe bola. Enquanto houver vida, ainda existe jogo.

Todo mundo têm problemas, e pode levar "frangos" no jogo da vida. E ninguém precisa deixar de jogar por causa disso. Nem ficar cobiçando ter as vidas editadas das redes sociais. Os gols que tomei também fazem parte de minha história. E está tudo bem! Inclusive em nem sempre se sentir bem.


P.S. Sim, marquei tomar sol com Seu Francisco amanhã. No mesmo local que o encontrei. Vou levar uma cadeirinha. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário é uma honra.

Crônicas Anteriores