Quanto tempo vale um instante?


Antes da labuta, parei na padaria costumeira para tomar meu cafezinho com pão na chapa.
Recentemente, incorporei este hábito que tem me rendido boas observações na hora matineira das 7 e pouco.
Hoje a garçonete perguntou-me se eu não iria querer o pastel? 
Ela lembrou-se de ontem. Ontem pedi dois pasteizinhos de queijo, para acompanhar o pão, e rebater a fome segundeira, maior do que todas as das manhãs.
Então, sorri para ela e pedi só um.
Gostei dela ter se lembrado de mim. Com tantos clientes, ela lembrou-se de mim. Uauuu!
Como é bom sentir-se notado, mesmo na multidão, foi o que pensei.
Na contra-luz, aproxima-se uma jovem. Cumprimenta-me com um bom dia e senta-se na mesa à frente.
Não estou acostumado com pessoas tomando iniciativa de me darem bom dia.
Surpreso, sorvo meu cafezinho acreditando mais um pouco na humanidade.
Sem querer, dado a proximidade das mesas de assentos individuais, acabo por ouvi-la ao celular.
Ela conversa com seus avós. Pergunta-lhes como amanheceram, e essas coisas que perguntamos a quem gostamos. Meu coração aqueceu-se ao ouvi-la expressar tanta amorosidade para com seus avós.
Ergo a vista por sobre sua cabeça e miro a lua, partindo do dia para seu encontro oriental.
Passo uns minutos encantado. A lua está se pondo, mesmo no rasgo entre minha mesa e o infinito. Sim amigos, lua também se põe. Veja na foto dessa crônica, no cantinho dela, a lua.
Vejo um jovem digitando algo no celular, enquanto caminha para a lua. Será que ele a verá?
Será que a jovenzinha a verá?
Será que os motoristas a verão?
Apresso-me para devorar meu pastel, absorto que estava, ele iria esfriar.
Levanto-me, passo pela jovenzinha, coloco rapidamente minha mão na sua cabeça, desejando em voz alta que o bom Jesus abençoe o seu dia.
Ela deseja o mesmo para mim.
Ao sair do caixa, procuro a lua. Não está mais ali. Partiu.
Quem viu, viu!
Instantes são assim. Num minuto acontecem, depois passam, caso contrário não seriam instantes.
Contudo, alguns deles deixam em nós sua fragrância.
Em mim ficou a fragrância de ter sido notado pela garçonete, num lugar que frequento a menos de um mês.
Ficou para mim o bom dia.
Ficou a atenção de uma neta para com seus avós. Ficou a lua se indo e toda oferecida para mim.
São como perfumes. Saímos com eles aromatizando ambientes.
O mundo anda precisando de instantes aromatizados.
Meu desafio é retribuir. Sair por aí espalhando perfumes, de instantes bons. Para comigo mesmo, para com os outros e para a realidade que me produz, e que a produzo.
Tomara que eu deixe o chão, por onde peregrino, mais perfumado do que encontrei. E, nunca desanime com eventuais fedores à beira do caminho. Afinal, a jornada pede instantes mágicos, místicos e macios para de fato valer a pena ser vivida.
Quanto tempo vale um instante? Espero que para o tempo em que investiu na leitura desse texto, o instante tem valido a pena, tal qual lufadas de esperança, nas manhãs precoces. 

Cartas ao JG, Amanhã Será Melhor



Sabe filho, uma das coisas mais perigosas ao crescimento interior são as profecias auto-realizadoras pessimistas, que aprendemos a usá-las para explicar os acontecimentos negativos em nosso viver. 

Hoje, você emitiu uma delas, quando nos dirigíamos ao treino do futebol. Disse-me que nunca venceriam uma partida, e que sempre perderão. Pois, já têm umas seis semanas que vocês perdem as partidas. Te falei que as profecias negativas auto-realizadoras negativas acabam moldando, no presente, um futuro que tememos.

Curvamo-nos a elas, e elas acabam por criar realidades que as justifiquem.

Disse-lhe isso pela manhã, mas você não entendeu, ainda é muito novo.

Contudo, espero que um dia ao ler essa carta entenda.

A profecia auto-realizadora pessimista explica as coisas ruins que conosco acontecem de duas formas, igualmente perversas: de generalização e eternização.

A generalização explica o que aconteceu de triste, ampliando a tristeza para outras áreas da vida. Como se fosse contaminando tudo. E a vozinha interior atua em nós limitando-nos de outras possibilidades, dizendo assim: "Nunca vou acertar na vida". "Tudo vai mal". "Não dou certo em nada". "Nunca serei feliz no amor". "Ninguém se preocupa comigo". "Todos no trabalho são maus." "Nunca venceremos uma partida".

Percebe o uso do Nunca, Tudo, Todos, Ninguém?

E a vida vai se comportando exatamente como espera.

A segunda é a eternização da dor, sofrer ou culpa. A duração do acontecimento ruim é explicado eternizando-o, ou projetando-o para um futuro incerto. Galvaniza-se a dor, propagando-a pelo resto de nossas vidas. Sem acreditar, e fazer por onde, o fechar ciclos, janelas. E a vozinha interior atua assim: "Sempre serei infeliz no amor". "Serei para o resto da vida infeliz, após essa perda". "Amanhã será pior". "Sou assim mesmo, não dou sorte na vida". "Nasci para ser infeliz". Toda minha vida será de infelicidade". Nega-se qualquer possibilidade de cicatrização da ferida emocional.

Percebe o uso do Sempre; Para o resto da...; Amanhã; e o verbo Ser, no lugar do estar?

Sim, hoje seu time venceu, o da foto. E você fez um gol, e depois agarrou um pênalti quando foi atuar como goleiro.

Percebe que o ciclo da vida andou, e se fez diferente do que profetizava negativamente?

Mas, não se engane. Se entrar para jogar achando que perderá, já começou a partida perdendo, e de você mesmo, num gol contra emocional.

Saindo do futebol, fomos levar o carro para lavar, em São Sebastião-DF. Quase em frente ao lava-jato, o pessoal adotou os canteiros. Eles colocam ao redor de frágeis mudinhas, umas garrafas PETs cheias de água, com a boca para baixo, na qual fazem alguns furos.

O nome dessas garrafinhas, que irrigam o terreno lentamente, favorecendo o desenvolver da plantinha, é esperança.

A esperança é o principal antidoto ás profecias auto-realizadoras negativas.

Ela atua em nós como a água que molha o solo árido, na qual tenras raízes tentam extrair vida.

Ela nos dá ânimo de resistir, de sobreviver, apesar dos pesares.

Precisamos de um cercadinho desses de esperança, protegendo-nos das intempéries da vida.

Precisamos fecundar amorosidade em nosso viver, explicando as adversidades usando as duas melhores armas para não ir junto com elas:

A de que são temporais. Pode estar doendo, mas passará. Amanhã será melhor, estarei melhor, darei a volta por cima. Amanhã me recuperarei.

E a de que são específicas. Isso de ruim que me aconteceu, tipo perder por 6 sábados seguidos as partidas de futebol, acontece só no futebol. Já no Kumon estou vencendo a cada dia. Percebe filho? Já no saber lidar com os medos de escalar árvores, sou campeão. Já no saber explorar os jogos do Xbox, idem.

Percebe, que em outras áreas de tua vida há vitórias?

Então caro filho, e quem me ler por tabela, cuidado com as coisas que diz sobre si mesmo, sobre os outros ou a realidade. De tanto dizê-las acabaram sendo verdade. Por isso, cuide do cercadinho de garrafas pets, que arrodeiam teu coração.

Que elas sejam águas de mansidão, gratidão, bondade, perdão, justiça, paz e esperança.

Aí, não te prometerei que não terás tristezas, lutos, sofreres, ou sentirás culpa por pisadas na bola. Não serei insano. Terás sim.

Mas, poderá aprender a lidar com os reveses da vida de forma positiva, esperançosa e valente.

Não se vergue, nãos e entregue, não desista de você mesmo.

E, cante sempre a canção que diz: "Apesar de você, amanhã será outro dia". Uma grande sabedoria que só quem já passou por problemas e saiu deles mais forte entenderá.

Não era só um IPTU.



Ela adentrou a sala entusiasmada. Se o que dizem, que quem se entusiasma tem Deus dentro de si, for verdade, ela O tinha - e jorrando em luz.
Parei tudo que fazia, contemplei aquele semblante sorridente, e soltei um: "O que houve Paulinha?"
Recebi meu IPTU!
Não entendi nada. Quando recebo o meu choro, e nunca fiz festa com ele.
Ela não, ela ria de chorar. Sabe quando rimos de chorar?
Pois bem, Paulinha ria de chorar.
Disse-me que há 15 anos estava inscrita no programa de habitação do GDF e que só agora, com o "IPTU" na mão, sabia que o apartamento que recebeu, pelo Programa Minha Casa Minha Vida, lá no Riacho Fundo II, era de fato dela.
Aquele pedaço de papel, para ela, representava muito.
Era a materialização de um sonho.
Ela me deu a honra de abri-lo.
Pediu-me explicações de como pagar. Leu cada letrinha.
Aquilo mais parecia um bilhete de amor, de tanta ternura com a qual ela o contemplava.
Falou-me que iria esperar o pagamento para pagar a 1º parcela, de uns 40 e pouco.
Disse-lhe, a primeira é minha, será uma pequena contribuição para teu lar. Entrei na cta e fiz o pagamento. Depois, ela trouxe-me o recibo impresso, já dentro de uma pastinha. Com o título IPTU, e uns corações nela nela grafados.
Nunca mais olharei meu IPTU com raiva. Feliz de quem o tem para pagar. Foi isso que na simplicidade da Paulinha ela me ensinou.
Ensinou-me sobre a arte de ser grato, de valorizar o que nós temos.
Tanta coisa irrompeu em meu coração, naquele fim de tarde, que posso dizer-lhes que a paz invadiu meu ser.
Lembrei-me que pela primeira vez fui ao parque vivencial do Lago Norte, que sempre via do outro lado, no acesso pelo início da W3, sentido Plano, e nunca tinha ousado ir.
Fui e dei valor. Como o IPTU da Paula.
Experimentei ousar a agenda apertada, desviar-me da rota rotineira, e partir em busca do desconhecido.
Mirei para o Lago Norte, e logo na entrada vi a placa do Parque. Desci e nele adentrei, assombrado com tanta beleza que por mim passara despercebida , há quase 20 anos. Ao lado do caminho que faço costumeiramente, pelo menos desde 2010.
Têm muitas coisas IPTUs em nosso viver. Coisas que podem ser celebradas, vividas, experenciadas, permitidas e ousadas reescrevê-las em novos sabores, aromas, sentidos e cores.
Quem fotografasse meu rosto, ali perto das 14hrs de ontem, caminhando por entre árvores de um lado e o lago do outro, veria a mesma luz da Paulinha.
A luz do encantamento de quem celebra a vida, quer em forma de conquistas, quer em forma de gratidão por encontrar mais um infinito particular, em meio à selva de pedra.
Às vezes as coisas estão tão fáceis,acessíveis e comuns que já não as valorizamos.
As temos como para sempre, perdemos o olhar de referência, a perspectiva das coisas, que nos dá o diferencial para analisar onde estamos, o que somos, e em que já evoluímos.
A alegria da Paulinha, recebendo uma conta; além de meu encantado assombro, ao caminhar no Parque, pela primeira vez,
fala das coisas boas da vida, que para vê-las, precisamos resgatar a nós mesmos, mofados ou cheios de pó num canto qualquer da jornada do existir.
Ver-nos em perspectiva e referencial para com a própria vida, para que não nos deixemos murchar pela rotina, que diz que tudo é para sempre, falsamente, nos iludindo a achar que somos poucos, menos ou inferiores.
Ou, anestesiando em nós o sabor da vida, abrindo as feridas - verdadeiras chagas vivas de reclamações, rabugices ou pessimismo, em nosso viver.
Paulinha entra em minha sala, e diz que outras pessoas do prédio dela receberam também, mas que só ela fez festa. Os outros xingaram o valor do imposto. Ou não comentaram nada.
Aí disse-lhe que já tinha visto isso muitas vezes em meu viver, acompanhando muitas pessoas em seus estágios de crescimento.
Pessoas que conquistavam o Olimpo, em termos de remuneração e segurança no trabalho no Brasil, e que anos depois mais pareciam que viviam no inferno. Afinal, temos o céu e o inferno em nossa mente, a escolha é de qual deixaremos com fome, para que não cresça.
Falei-lhe que todos os dias pergunto a um monte de pessoas:
Onde está aquele jovem que após os primeiros meses de trabalho, de casado, de pai, de titulação era tão esperançoso e otimista com a vida, publicando isso em torrentes de gratidão?
E, no corpo delas escuto a resposta. Não mais se percebem como tal. Passam a viver a vida como quem fica ruminando algo ruim na boca. Infelizmente, em alguns casos, só darão valor quando perderem. Aí verão o quanto aquilo era bênção.
De minha parte, quero continuar assombrando-me com novas descobertas, novas pessoas, novas conquistas, sem nunca perder o olhar de referência e perspectiva social. Sempre dizendo, a cada manhã, obrigado meu Deus - já cheguei longe demais, em lugares e conquistas que jamais sonhei. E, a maior delas, os meus 4 filhos, amigos e presentes em meu viver.

Há um urso no caminho, apenas um urso.


Nas fotos que ilustram esse texto, a saga de Sebastião Salgado para documentar as Morsas, em sua exposição Gênesis, também veiculada no filme O Sal da Terra. Para quem assina a NET, é só teclar no NOW - Área de Programas de TV, botar no canal GNT, e ele está lá, e de grátis.
Um filme que todo mundo deveria ver, para sentir de perto os absurdos e grandeza da raça humana, quando quer destruir e construir algo.
Do Êxodos ao Gênesis, o filme mostra do que somos capazes, tanto em termos de morte, como de vida.
Mas, considere os parágrafos acima uma pequena introdução.
Quero falar-lhes da resistência quando algo dá errado.
Da disciplina e persistência, mesmo diante de tempos difíceis.
Sebastião Salgado tentou fazer essa foto uma vez. Mais, ao se aproximar, um enorme urso branco acabara de abater uma Morsa, ela gigantesca também.
E, de longe os espreitava. Não é coisa boa ser espreitado por um urso.
E o fotografo, e equipe, saíram de fininho, voltando ao acampamento.
Mais tarde, abriram uma das janelas do rústico abrigo e perceberam que agora o urso rondava ali por perto, como quem a farejar carne nova e diferente.
Então, eles aguardaram dias a fio, amoitados. Esperavam que o urso cedesse e partisse.
Dias depois eles saíram do acampamento, rastejando pelo chão, para não chamar a atenção do urso, que se espreguiçava ao sol, ali perto.
Tudo pelo sonho da foto.
Eles foram rolando pelo piso congelado, das geleira da Antártida, qual rolamos tapetes chão pelo chão.
A cena é impressionante. Não falo mais de um adolescente, falo de um fotógrafo do alto de seus 68 anos, rolando pelas geleiras por quase 200 metros, para não ser visto pelo urso, e captar as Morsas em seu estado de movimento natural, sem deixarem-nas paradas - imobilizadas pelo medo, ao avistarem-no.
Tudo para captar o melhor momento. A melhor foto.
Nessa epopeia, há grandes ensinamentos para quem quer superar os limites, que às vezes a vida nos coloca. Seja por portas que se fecham, sejam por estados dolorosos de luto, seja por puxadas de tapete.
Os ensinamentos são os de replanejar a vida após o ocorrido. Buscando extrair lições e outras possibilidades de enfrentamento da realidade.
O de não desistir de seguir o ideal, de acreditar que amanhã o "urso estará mais distante do acampamento".
O de não e deixar imobilizar pelo medo. Aquele urso destruiria facilmente o acampamento deles, mesmo assim eles fizeram vigília e procuraram manter o controle de suas vidas.
O de ter disciplina, com estudo criterioso da melhor luz, cena e enquadramento para pegar as presas das Morsas.
O de se esforçar, buscando uma forma não confortável para o alcance do alvo. Nem sempre o caminho mais fácil é o melhor.
Resumindo, S.Salgado nos ensina lições preciosas para desenvolver nossa resiliência:
Planejar. Ex. Antes da viagem já sabia das condições do tempo e do acampamento.
Não desistir. Ex. Superar o urso.
Ter disciplina. Ex. Estudo e observação da melhor luz, hora e comportamento animal.
E se esforçar. Ex. Rolar pelo piso gelado, e com equipamento pesado, para a melhor foto.
Planejar, não desistir, ter disciplina e esforço, são atitudes emancipadoras de quem quer alcançar algum objetivo na vida.
Tem gente que vê a vida de pessoas que chegaram a bons resultados e pensa, também quero chegar ali. Quero ir na janelinha.
Mas, esforço= 0.
Ficam vendo a vida passar, e pela lente da vida dos outros, só secando-as.
Não arregaçam as mangas. Não acordam cedo. Não procuram suas melhoras, só reclamam.
Invejam os que considera bem-sucedidos, sem procurar saber como eles fizeram para chegar ali. Quantas renuncias, horas de sono e priorizações excludentes e riscos tiveram que correr.
Esquecem de considerar o esforço que aquelas pessoas, agora por ela idealizada, fizeram para ali chegar. Falo dos que alcançaram algo de forma ética e justa.
Por isso gostei dessa cena do filme, a das geleiras.
Ela mostra a produção de antes da foto. Para não ficar parecendo que é só clicar.
Para completar os ensinamentos, tem o quarto deles, aplicado na propriedade rural de seus pais, agora devastada por anos de seca e erosão, o da esperança atuante.
Não qualquer esperança, mas aquela das boas, que nos faz carregar pedras enquanto esperamos. Um tipo de esperança que teima desafiar o lugar comum, que aos olhos dos outros é estapafúrdia, nas coisas em que acredita, nos sonhos em que sonha, nos objetivos para os quais traça. Esperança do tipo teimosa e insana
Depois de fotografar a miséria humana, Sebastião Salgado, adoeceu emocionalmente. Enlutou-se com a humanidade e suas tiranias.
Aí, veio morar na fazendo dos seus pais, agora falecidos, e que precisava de alguém para tocar.
A fazendo estava destruída, em sua reserva de mata nativa. Tudo erosão e seca.
Sua esposa propôs que eles replantassem a terra. E aquilo lá se transformou.
Tudo que tinham investiram no reflorestamento da região com espécies da mata atlântica.
Anos depois, os pássaros voltaram, as nascentes encheram novamente, e o verde tomou conta de tudo.
O gênesis aconteceu, e das mãos de um casal obstinado. A isto chamo de esperança teimosa insana.
Mas uma vez o ciclo com eles se repetiu, agora diante do revés da terra seca e improdutiva, diante daquela pergunta, e agora? Eles replanejaram estratégias de enfrentamento, tiveram disciplina, esforço, não desistiram e não deixaram que o medo de não alcançar, de não ver as mudinhas vingarem, fazerem pararem antes. Souberam esperar, para além de toda esperança. Souberam desenvolver a esperança teimosa e insana, de ao contrário de seus vizinhos, recuperarem aquela terra degradada, fazendo nela o gênesis.
Assim é com tudo em nosso viver que um dia desmorona, que nos impele à morte, a desistir, ao caos e tormento de existir.
À terra devastada, ao urso mau, ao esforço sobre-humano de rolar sobre si mesmo para avançar.
Em cada dor, há gravida de seu contrario, uma esperança insana e teimosa pronto a se fazer presente, irradiando vida, onde todos só vem morte. Amanhecendo dor, para acordar superação. A maior de todas, a de nós mesmos, diante de momentos limites que vivemos.

Cartas ao JG - Faça Conservas Emocionais dos Bons Marcos de Seu Viver


Sabe filho, na vida tu deverás lembrar muito mais dos marcos do que das marcas

Os marcos nos possibilitam olhar nossa história de uma perspectiva e narrativa libertadoras, pelo sopro de futuro nelas. 

Tanta coisa aconteceu em meu viver, que só dez, vinte anos depois, entendi. 

Comecei a nadar aos 7 anos, para desenvolver o tórax direito, atrofiado. Depois, aos 22, foi a natação que possibilitou que eu pudesse pagar as dívidas em Poções-BA, com o "bico" que passei a fazer como professor de natação na AABB, após a jornada de 6 horas no BB.

Foi uma queda de moto que me fez comprar uma bicicleta. E, com ela tentar estacionar perto das 23hrs no BB, como sempre fazia com a moto, representando outro banco na Câmara de Compensação. E foi a cisma do guardinha que disse que bicicleta não era veículo, e eu não podia entrar com ela, como antes fazia com a moto, que me fez ficar mordido e passar no concurso do BB, em 11. lugar. E ir tomar posse entrando de bicicleta no estacionamento, pois, como ele mesmo falou no dia que me barrou, "de bicicleta só funcionário.

Foi uma catequista que não aceitou que eu conduzisse um curso de dinâmica de grupos na Diocese, por não ter formação superior, principalmente em psicologia, que me fez ingressar nesse curso, mordido que fiquei, e hoje ser realizado como psicólogo.

Foi uma gravidez nas coxas, precoce, e sem penetração, que me fez ser presenteado com um filho maravilhoso, o Tiago. 

Foi ser abandonado em Poções, quando o Tiago tinha 1 ano e 3 meses, que me ensinou o valor da amizade, e o de só chorar uma noite toda, e no outro dia lavar o rosto e ir trabalhar, e em dois turnos. 

Foi ter dado aula num colégio de segundo grau, mesmo de religião, que me fez pontuar - por experiência de magistério, em seleções de mestrado e para professor de faculdade. E ainda, de quebra, me colocar com três anos à frente, nas contribuições ao INSS, do que meus contemporâneos de posse no BB.

Não sabemos os efeitos, nos ecos do infinito, das coisas que plantamos, nem das respostas que damos à vida, quando dela levamos rasteiras. Só te digo, se elas forem de esperança, com espiritualidade, justas, de paz, mansas, gratas e bondosas, a própria vida vai te devolver. 
E em dobro. Como me devolve todos os dias.

Eis alguns marcos em meu viver, muita coisa também são marcos; mas, numa síntese, sempre corremos o risco de deixar coisas de fora, que por terem ficado, não são menos coisas. Entende?

O importante é guardar a essência, o conteúdo, como essa lata velha faz. Sem nunca deixar de servir, se doar.  Mesmo velha, carcomida, ela dá sentido à rosa que nela cresce. 

Alguns de de meus Marcos:

1964 13/10/64 Nascimento – Maternidade Elpídio de Almeida em CampinaGrande-PB
1971 7 anos    Sáude: Aumento de tamanho caixa torácica esquerda do coração
1971 7 anos    Início Escolinha Natação Clube do Trabalhador Sesi
1974 10 anos Primeira Viagem Avião - Camp. Natação em Fortaleza
1976 12 anos Dirigente Natal em Família – Rua Rio Branco Prata
1977 13 anos Coroinha Igreja do Rosário
1978 14 anos Criação União dos Acólitos Domingo Sávio UADS
1979 15 anos Semin. Menor de São Sebastião C.Grande-PB Finais de Semana
1980 16 anos Criação Grupo Jovem - Jorenac
1981 17 anos Colação de 2. Grau Científico Colégio Diocesano Pio XI
1981 17 anos “Largamento” da Batina – Namoro Catequista Diene
1982 17 anos Ingresso Eng. Civil UFPB
1983 17 anos Primeiro Emprego - Professor de Religião Colégio das Damas
1983 18 anos Compra de Moto Yamaha 90 CC
1984 20 anos Gravidez Precoce - Joane
1985 20 anos Meus pais montam minha casa. Sacam suas economias e investem na família do filho.
1985 20 anos Casamento - Joane
1985 20 anos Baixa Carteira Professor
1985 20 anos Nascimento Primeiro Filho – Tiago
1985 20 anos Segundo Emprego Formal – Bancário – Banorte Compensador
1985 20 anos Trancamento do Curso Eng. Civil, no 6 período
1986 21 anos Sério Acidente de Moto
1986 21 anos Venda da moto -> compra de Bicicleta
1986 21 anos Retorno L.Saúde Banorte cargo Compensador
1986 21 anos Barrado na porta da compensação BB: “De Bicicleta não entra”.
1986 21 anos Terceiro Emprego Formal BB (E entrando de Bicicleta)
1986 21 anos Migração para posse na Bahia – BB Poções – Longe de Casa...
1987 22 anos Abandonado Poções – Esposa com Banzo não volta da PB, após ir para lá no Natal.
1987 22 anos Habilitado pelo Sesi para ensinar natação na AABB Poções BA
1987 22 anos Transferência para o BB Remígio (PB)
1987 23 anos Primeira casa própria financiada – Conjunto no Cruzeiro, rua Samuel Araújo Diniz, 115
1987 23 anos Nascimento Segundo Filho – Priscila
1988 24 anos Primeiro Carro – Fiat 147 bem usado.
1989 24 anos Primeiro cargo efetivo no BB – Caixa Executivo
1989 24 anos Nascimento do Terceiro Filho – Rodrigo
1991 26 anos I Quebra Financeira
1992 27 anos Transferência para o BB Campina Grande (PB)
1992 27 anos Teologia da Libertação – Estudos e práticas populares
1992 27 anos Barrado na facilitação de dinâmica de rupos em curso na igreja: “Só psicólogo pode”.
1992 27 anos Retomada Estudos Curso Superior – Psicologia
1993 28 anos Pastorais: Crisma, Juventude e EJC
1993 29 anos Quebra financeira II.  A maior...
1994 29 anos Criação de ONG GAV – Apoio à Pessoas com AIDS
1994 30 anos Divórcio Joane
1994 30 anos Curando as feridas. Ana
1995 30 anos Amor de Natureza. Adriani .
1995 31 anos II Viagem de Avião PB-> RJ Pelo Min. Da Saúde - Enc. Vivendo Pella Vida
1995. 31 anos Amor à primeira risada. Cristina. Vivendo-RJ
1996 31 anos II cargo efetivo BB – Ass. Operações
1996 31 anos Coluna Semanal Diário da Borborema – Aidsvertência
1996 32 anos Produção e Direção Peça Tetral – Aids, vida e você.
1997 33 anos Aprovado como Educador Corporativo BB – Gepes Recife
1998 34 anos Habilitado como Psicólogo Clínico – Logoterapia
1999 34 anos Transferência para BB Brasília Controladoria - Analista Júnior
2000 34 anos Aprovado Proc. Seletivo Analista Pleno BB
2000 35 anos Segundo imóvel – Ap.Sobradinho Q2, CJ C2 Ed. Vitória
2000 35 anos Ajuntamento com Cristina, de Londrina-PR (Namoro desde o Vivendo, no RJ-1995)
2000 35 anos Treinamento Exp. Ar Livre BB Super MT
2000 35 anos Transf. da Controladoria para Gestão de Pessoas BB – Ass.Sênior
2000 36 anos Guarda judicial dos filhos
2000 36 anos Compra de Lote em 36 x pela Cooperforte
2003 38 anos Diplomação MBA Gestão de Pessoas USP
2003 38 anos Gerente Núcleo Projeto Capacitação Desenvolvimento Sustentável e Bco.Popular
2003 38 anos Coordenação Nacional IV Fórum Gestão de Pessoas BB
2004 39 anos Reprovado Seleção Gepes Recife – 0 na redação. Meu primeiro
2006 42 anos 2 Casamento Cartório - Cristina
2007 42 anos Coordenação Nacional - Fórum Sustentabilidade
2007 42 anos Diplomação Mestrado Gestão Social UNB
2007 42 anos Primeira Magistratura Superior – UniCerto – Taguatinga DF
2007 43 anos Regularização Lote
2008 43 anos Construção Casa Própria
2008 43 anos Transferência Proj. GovTI – Ditec – Analista Máster
2009 44 anos Nascimento do quarto filho – João Gabriel
2009 44 anos 30 dias de UTI Neo Natal (tu deu trabalho)
2009 44 anos Término da Construção
2009 45 anos Migração do Filho Rodrigo e Esposa para Brasília
2009 45 anos Primeiro texto blog Bode com Farinha: Uma atitude amante
2010 46 anos Migração do Filho Tiago e Esposa para Brasília
2011 46 anos Primeira Gerência Efetiva no BB, na Ditec, com 23 anos de casa
2011 47 anos Co-criação do Progrid – Programa de Trainee da Ditec BB
2012 47 anos Saúde - Cinco Intervenções Cardíacas no ano (Eletrocardioversões e Ablações)
2013 47 anos Migração da Filha e Esposo para Brasília
2014 48 anos Lançamento do I Livro: Sobre a Vida e o Viver
2014 49 anos Lançamento do II Livro – Apanhadores de Possibilidades
2015 49 anos Casamento Igreja Filha
2015 51 anos Nomeado para primeira função executiva no BB, na BBTS.

Presente Inusitado



Você já ganhou de presente um osso?

Pois é, nessa semana durante um almoço delicioso, com direito à refogado de vinagreira e galinha caipira, servidos no Pé Sujo Gourmet do Zé Nascimento, ganhei um osso do amigo Péricles.
Pela reverência do gesto, não era qualquer osso. Tratei logo de colocá-lo no bolso da camisa, o que me rendeu umas nódoas, coisa boba que com Omo sairá.

E o tema passou a ser aquele ossinho, conhecido como osso da sorte, jogador, forquilha, ou, cientificamente falando, Fúrcula.
Esse osso só existe nas aves. Na pré-história existiu nos dinossauros. Vai lá saber porque.
Ele é feito da soldadura de dois ossos num só. Unindo as clavículas dos pássaros, para que a tensão do vôo se distribua entre asas.

Que legal, não é?

O apelido, Osso da Sorte, veio de um hábito antigo. Nas cidadezinhas interioranas, os moleques que nem eu o usavam para resolver disputas, de qualquer coisa. O oponente segura numa de suas extremidades; o outro, na outra.
E ambos puxam ao mesmo tempo. O que quebrar primeiro perde a disputa.
Mas, permita-me uma visão diferente do sentido da sorte, embutido na tradição cultural desse ossinho de galinha.
As estruturas soldadas em V possuem a "quase mágica" de suportarem, sobre seus perfis, enormes tensões sem quebrarem.

Na vida rural, uma estrutura parecida é a cangalha. É uma estrutura de madeira que divide o peso da carga dos jumentos, ou outros animais, em forma de V invertido.
Na construção civil, entre em qualquer casa com teto de madeira visível, ou qualquer galpão de estrutura metálica. , e olhe para cima. Loo verá os triângulos, invertidos ou não. A famosas treliças. Que são triângulos piramidais de metal ou madeira, aço ou ferro que, ao se unirem, por solda, prego ou parafuso, tornam a estrutura muito mais forte, distribuindo pela mesma as tensões, até as vigas, colunas e alicerces. Creio que nós humanos quando possuímos esses ossinhos somos felizardos.

Como assim, Ricardim?

Sim amigos, e aqui está a singeleza do gesto de me ofertar o ossinho durante o almoço. É a beleza da metáfora.
Nossa outra haste, soldada em nosso existir, e que conosco ajuda a suportar as tensões do dia a dia, são as pessoas que colocamos na categoria de amigos(as).
Os que assim elegemos.
Todo aquele que com ele queremos dividir sonhos, mesa, corpos, eternidades, e a patola do caranguejo, é a outra haste de nossa fórcula interior.

Você tem hastes que lhe ajudam a suportar as tensões do viver?

Você tem hastes que lhe ajudam a suportara tensões do viver?

Se não tem, quanto azar! A sorte do jogo dos ossinhos não está no ver qual quebra primeiro, como fazíamos na infância para arbitrar as disputas.
A sorte é ter forquilhas existenciais.
Quem já passou por aperreios na vida sabe o quanto verdadeiros amigos são importantes.
Com eles distribuímos a carga de nosso viver. E tudo se torna mais leve.

Engraçado que o mesmo principio da distribuição de tensões entre estruturas é usado na junta de boi.
Aquela trave de madeira, que une os bois da esquerda aos da direita, chamado de jugo, distribui o peso da carga, e as tensões, entre eles.
Não à tôa Jesus nos disse para que depositássemos nosso jugo nele. "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve." Mateus 11.28-30

Quando um amigo nos admira. Ele solda sua haste na nossa e ficamos mais forte.
Quando um amigo a nós se doa. Ele solda sua haste na nossa e ficamos mais forte.
Quando um amigo ativa o modo empatia para conosco. Quando um amigo nos visita. Quando um amigo nos reconhece. Quando um amigo nos ajuda. Nos apoia. Nos perdoa. Nos incentiva. Nos estimula. Nos ama. Nos repreende. Nos alerta, nos protege, nos encoraja. Nos é generoso. Em todos esses "nos", ele está fundindo em nós, a sua essência e nos tornando melhor. E, como numa amalgama ficamos soldados nele pela força do afeto. E melhores, e mais potentes para enfrentar os tempos presentes.

É uma pena que não estejamos ensinando às nossas crianças a disciplina de cultivar amigos.

Atitude que poeta Vander Lee assim descreve:

"Sabe o que eu queria agora, meu bem...?
Sair chegar lá fora e encontrar alguém
Que não me dissesse nada
Não me perguntasse nada também
Que me oferecesse um colo ou um ombro
Onde eu desaguasse todo desengano
Mas a vida anda louca
As pessoas andam tristes
Meus amigos são amigos de ninguém."

E que o Papa Francisco, na última quinta (5/5) também falou:

"Nos momentos de tristeza, na tribulação da doença, na angústia da perseguição e na desolação do luto, cada um de nós procura uma palavra de consolação. Temos intensa necessidade de alguém que esteja ao nosso lado e sinta compaixão por nós. Experimentamos o que significa estar desorientados, confusos, feridos profundamente como nunca tínhamos pensado acontecer-nos. Incertos, olhamos em redor para ver se encontramos alguém que possa realmente compreender a nossa dor. A mente enche-se de interrogações, mas as respostas não chegam. A razão, sozinha, não é capaz de iluminar o nosso íntimo, compreender a dor que sentimos e dar a resposta que esperamos. Nestes momentos, temos mais necessidade das razões do coração, as únicas capazes de nos fazerem entender o mistério que envolve a nossa solidão."

Na sociedade atual vive-se a solidão conectada. Todos em rede, mas pouco realmente com amigos pra chamar de seus - do tipo ossinho da sorte.

Amigos muito além dos "likes" que algum deles te dá, ou você implora.
Mas, como registrou a música e papa pop, os tempos são de isolamento social, de individualidade narcisística e relacionamentos descartáveis e banais.

Então, caro amiga e amiga, caso tenha um ossinho que possa soldar ao teu outro osso, e que o chame de amigo: parabéns!
Caso não tenha, pense nisso. quem sabe não é a hora de começar a cultivá-los. Sozinho é muito difícil resistir às pressões cotidianas. Precisamos da presença do outro para alçar vôo.

A arte de fazer amigos é a mesma de um jardineiro. Tem que sabe cuidar deles, tal qual com uma plantinha.
Tem que retornar emails. Tem que corresponder bom dias. Tem que guardar confidências. Tem que exercer a escutatória. Tem que retribuir gratidões. Tem que cuidar dele. Tem que admirá-lo, no que ele tem de melhor. E não ficar destacando o que ele lhe falta.

Um ossinho para você.

O melhor estava nas suas "flores", e eu não sabia.


Entrando na Feira de São Sebastião, no descortinar dos primeiros raios de sol, de longe avistei um cacho daqueles que nascem de palmeiras.
Deles, pendiam uns belos coquinhos, alguns laranjas, outro vermelhos.
Pensei, darão uma boa foto, pela excepcional luz que neles refletia. Após a foto, aproximei-me da simpática feirante e perguntei-lhe o que era aquilo. "Pupunha, são os coquinhos da palmeira." Avançando o sinal da intimidade, soltei um: "é de comer, enfeitar ou beber?"
Ela, sorrindo, disse-me que era de comer. Tal qual uma batata.
Fui para meu matinal café, pastel e caldo de cana. A feira fervia, era feira de dia das mães. Muitas flores de plástico apresentavam-se para os filhos, como quem diz:
"Ei, não olhe para minhas rudimentares vestimentas, sinta minha beleza plástica, e a intenção amorosa de quem me levará até uma mãe."
Tomei meu café, deliciando-me com o observar do movimento de banca de flores.
Um senhor apressado, chegou na vendedora de flores ao meu lado, e soltou um: "Comprando três, faz por R$28,00? "
- Faz não, o menor preço nas três é R$ 30,00. Não estou tirando nem o custo.
Fingindo acreditar, soltou um: "Então tá, mas bota três iguais, para não ter briga em casa."
Fiquei pensando, sorrindo por dentro, agora é que vai dar briga mesmo. Mas, valeu o gesto.
Desajeitadamente, ele saiu equilibrando-se com seus três arranjos florais, mas todo garboso.
Voltei pelos coquinhos de Pupunha, e perguntei como fazia. "É só colocar um pouco na pressão, na água salgada, e depois comer."
Comprei um quilo por R$5,00. Uns 12 coquinhos. Na saída, ela disse-me: "com café fica uma delícia."
Fiz, amei, amei...
Comi três no almoço e três no jantar. O resto deixarei para comer na semana. Parece pinhão do Paraná. Um pouco mais doce.
Por quantos anos, passei por esse mesmo lugar, e nunca tinha reparado e parado para conhecer melhor, e depois degustá-lo?
Como têm coisas assim na nossa vida. Estão ali do lado. E não vemos. E podem ser muito bacanas de provar. De sentir, de perceber.
Depois do almoço de mães, no qual fiz laboratório gourmet com um bacalhau de páscoa, desprezado no fundo da geladeira, deitei-me na rede satisfeito. Todos comeram bem. O que ficou parecendo uma sopa, um pouco menos, mas o gratinado raparam.
A sopa levarei amanhã para as meninas do trabalho. Tem sustança, e o caldo de cebola apurou, com notas de endro, e ficou melhor ainda, tomei agora á noite com mais 3 coquinhos de pupunha. Se pupunha der desarranjo, amanhã serei rei o dia todo.
Na rede, zapeando pelo youtube, procurei a música Bicho de Sete Cabeças, que amo de paixão.
Eis que uma das seleções que o buscador me ofereceu foi uma versão do Grupo Ordinarius.
Pronto, não precisa mais dizer que esqueci completamente que iria dormir. Fiquei pulando de uma para outra interpretação desse grupo vocal brasileiro, que não conhecia, e talvez você também não.
Recomendo. Insisto. Vá lá e escute o grupo.
Uaauuu.
Como eu poderia ter passado minha vida sem comer pupunha e ouvir os Ordinarius?
Deixo-vos com uma Rosa, cantada pelo Ordinarius, vejam se não é uma prece?
Sábado me auto-intitulei vigia de lua cheia, apanhador de pôr do sol e fiscal de amanhecer.
Agora, mudei meu título, quero ser só um Garimpeiro de Luz.
Em forma de arte, sons, sabores, aromas, estética, lugares e gente boa.
É só prestar atenção, a luz está em todo lugar, às vezes pendendo como cachos de uma palmeira que eu pensava que dela só se tirava o palmito da pupunha.
O melhor estava nas suas "flores" e eu não sabia. Mesmo que em toscos arranjos de plásticos, que ao serem dados, transformar-se-ão em amor.

Envelhescência


Parei ao largo da estrada e registrei o odômetro de meu bravo Pálio, anunciando que faltam 11.000 km para 300.000.
Carro experiente, cheio de memórias, testemunha de minha saga nesse tempo que juntos aqui estamos.
E lá se vão quase 17 anos que somos amigos.
Crio ele como um animal de estimação. Todo final de semana levo-lhe para passear.
Já o dei por uns tempos para minha filha, para ajudar-lhe quando ela cursava doutorado em psicologia na UFRN.
Depois, em cima de uma carreta, veio novamente para casa.
Quanta aventuras vivemos!
Quantas lágrimas verti em seus surrados estofamentos, com saudades de meus filhos e pais. E de mais um monte de gente amada que deixei na minha cidade natal, quando para aqui migrei em 1999.
Quantas idas à Londrina, 1.100 km, sem nunca me deixar na mão.
E aquele susto que ele me deu, quando quebrou a correia dentada, logo em cima do viaduto da entrada de Taguatinga, pela EPTG, quando nela passava indo ministarr aulas na UniCerto, na Sandu Norte.
Passamos juntos 12 anos, depois comprei um outro, é que eu precisava de ar-condicionado quando tive alta de uns trecos que tive do coração.
Eu e meu Pálio passamos muita coisa juntos. Ele carregou muito saco de cimento, cerâmica e placas de grama.
Nesses 17 anos, já lhe pintei novamente, já recondicionei o motor, suspensão, e estofamentos. Tá zero, e até rádio tem.
Mas, o que mais gosto, é das memórias olfativa a que ele me remete.
Alguém pode olhar para ele e achar velho. Eu acho ele um teen. Motor zerado, lataria, suspensão, estofamento, pneus novos e até rádio.
Creio que envelhescência pode ser assim. Uma época em que renovamos nossos sonhos, objetivos, propósitos e aprofundamos nosso autoconhecimento, ficando cada vez mais crianças ou jovem, do ponto de vista espiritual.
Renovamos o motor, a lataria, a suspensão, pneus e estofados do ser.
Hoje me levei para ver o pôr do sol, de um lugar diferente, do mirante do Jardim Botânico. Uns 14 km daqui de casa.
Voltei renovado no motor do coração, aquele encontro do sol, com o abismo do lado de lá, é espiritual. É prece.
Hoje renovei a lataria, ao parar o carro para fotografar um casal de borboletas namorando, que plainavam à minha frente. Quando contemplamos o belo, ao nosso redor, ele tem o poder de voltar e nos embelezar, desde que seja olhado sem inveja, e sim com admiração. Renovei a lataria ao enviar o vídeo do por do sol para uma amiga querida, retribuindo o que ela fez pra mim da Tavianni, que amo, e que não pude ir.
Voltei renovado da suspensão, ao fazer uma self com dona Odete e Dona Olga, feirantes queridas. Na ginástica que fizemos, entre sorrisos de quem não está acostumado, melhorou nossa suspensão, a da flexibilidade daquelas: "não estou nem aí para o que estejam pensando de nossa efusiva expressão".
Hoje dona Odete preparou um cuscuz especial, com ovo e o molho de camarão que ela usa no Acarajé.
Disse que era para ficar mais gostoso pra mim.
Comer cuscuz, com ovo e camarão rejuvenesce os pneus.
Hoje, ensinei meu irmão a colocar a lente na máquina, e troquei o sal do bacalhau que farei amanhã, dei comida para o JG, marcamos data dos seus 7 anos... pronto estofado novo!

Nininha, By Rricardim


Um dos textos mais difíceis que registro, faço nessa noite.
Com uma frase de 10 palavras, recebi na tarde de hoje a notícia, dada por mamãe, que Nininha faleceu.
Deveria ter um dia de luto por babá. Foi o que pensei no trabalho, mal me concentrando em planilhas, relatórios e apresentações do dia.
Nininha foi além daquela do título do filme, ela foi uma babá perfeita. Não quase-perfeita.
Ela veio morar com meus pais quando eles casaram, ela veio de um degrau social de miserável, como toda sua família.
Meus pais deram dignidade à Nininha, e um quarto para ela chamar de seu, não como os quartos de hoje para domesticas, mas um QUARTO.
Pagavam o salário em dinheiro, e não em almoço e pernoite, como era comum naquela época.
E, receber salário digno, certo e sempre, era um luxo para os pobres de meu nordeste querido.
Nininha então, chegara no nível social mais alto que sua família tinha chegado.
Ela passou a ser o sustento deles que moravam numa favela. Muitos de seus familiares viviam abaixo da linha de pobreza.
Mas, eram honestos. Só não tiveram oportunidades.
Todo seu salário, visto que não teve filhos, era para sua família. Ajudou nos estudos de seus sobrinhos, que se enramavam como batata, cada ano nascendo mais. Na época os marginalizados não tinham bolsa família, nem bolsa nada. O Estado Militar 1964-1980 pouco se lixava para eles, era só aquela mentira: "Vamos esperar o bolo crescer, para distribuir". Sei!!!
Época do terrível: "Brasil, ame-o ou deixe-o".
Quando Edmê, sua irmã, ia lá em casa, sempre voltava com quentinhas de comida, para alimentar os seus, ou retalhos de tecidos que Nininha transformava em roupas.
Era uma exímia cozinheira, costureira e babá. Quanto amor nos deu!
E não éramos fáceis. Meninos peraltas fomos! Mas estudiosos.
Nininha ajudou muito meus pais assim que eles casaram, morou conosco por uns 12 anos, até que apareceu um tumor em seu cérebro, o que a levou a se aposentar, por invalidez, pelas sequelas de uma exitosa cirurgia que meus pais conseguiram para ela, num hospital escola da UFPB.
Nininha era governanta, delegada, mãe, cozinheira e educadora.
E, terrível com uma enceradeira que usava, para deixar o piso da sala, daqueles de cimento queimado vermelho, tinindo de brilhar, qual um espelho.
Aí de nós, eu e meus irmãos, que passasse na sala na hora da cerimonia da enceradeira.
Era cocorote na certa. Saudades dos beliscões e cocorotes da Nininha.
Mamãe, também enlutada, contou-me que Nininha ainda ia por lá, costurar na sua máquina, roupas para agora seus sobrinhos-netos.
Contou-me que continuava investindo sua aposentadoria, de um salário mínimo, em remédios e ajuda para sua família.
Agora, ela parte com seus 70 e poucos anos.
Essa foto fiz ano passado, quando casei minha filha em Campina Grande. Nininha apareceu de surpresa, no dia pós-casório, e foi uam alegria só.
Abraçados nos reconhecemos novamente, após 35 anos.
E foi um abraço de amor. Depois, ela pediu para alimentar o tinhoso, com comida, do JG. E ele, com ela, raspou o prato. E foi uma cena indescritível de ternura, um revival de nossa primeira infância, na qual, colherzinha a colherzinha, ela nos alimentava enquanto meus pais batalhavam.
Quero guardar-lhe sorrindo em meu coração.
Quero guardar a forma como ela lidava com sua doença, as suas terríveis dores de cabeça, antes da cirurgia do tumor cerebral, cenas de uma babá-mãe que nunca deixou-nos desamparados, mesmo quando sofria dores lancinantes. Tomava uma aspirina e segurava a onda.
Sempre que chegávamos do colégio, era uma festa só. Era banho, era comida, era "se arrumar para esperar seus pais na calçada".
Não tínhamos mesada, éramos pobres. Um pouco melhor, apenas, do que Nininha.
E não tínhamos mesada para lanche. Nininha pegava um pão francês, passava nele uma farta dose de manteiga.
Eu tinha um bolsa de pano da Varig, uma que mamãe ganhou, numa viagem que fez para uma reunião de trabalho no Senai.
Sabe Nininha, nunca te contei e faço agora. Aquele pão era o melhor lanche do colégio Diocesano Pio XI. Foi meu melhor sanduíche. Obrigado por nunca ter deixado que ele faltasse na minha "lancheira".
Aquele pão me ajudou tanto a não me sentir inferior dos meus colegas que tinha direito a comprar um sonho (tipo de doce), na cantina do Balu, e um refri.
Nininha, nunca te contei, mas eu sentava em cima do pão, ele dentro da bolsa de pano. Passava até o recreio sobre ele.
Quando ia lanchá-lo, a manteiga estava derretida e o pão quentinho. Delícia. Fazia até inveja aos colegas "burgueses" que tinham dinheiro para lanchar.
Vejo teu sorriso no céu, por essa confidência daquele que tu amou como a um filho.
Muito obrigado, e me aguarde por aí com a porta aberta!

Quase memórias

Quase memórias. By Ricardim
“Crônica é a literatura do olhar, da percepção do mundo, do cotidiano. Cronista é "flaneur" {perabulante}, alguém que sai por aí observando, sentindo e escrevendo.” Do amigo da Flávia.
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Domingo nascedouro de maio. Nele, compro remédio para pressão, é bem cedo da manhã. Na farmácia, escuto um rapaz resmungar sobre preço das fraldas. Tateia entre marcas e tamanhos. Estranha, assombra-se e pede ajuda à atendente. Liga para a esposa, amiga, parente - o que quer que seja, e pergunta-lhe se a que levará está boa. Na calçada, seu amigo o espera, no carro estacionado ao lado do meu, dormindo. No banco traseiro, duas enxadas. A placa é de Planaltina de Goiás, eles vem de longe, devem ir capinar algum lote... ganhar a vida para comprar fraldas. Meu respeito por aquele pai, amigo, parente, o que quer que seja, aumenta em proporção poética.
Chego em casa e escuto um som dolente, diferente dos pássaros de aqui presentes. um som rouco, balançante. Associo a um som que ouvi dias atrás, e era o de um tucano tomando um café da manhã na bananeira da Catarina Catão e Pergentino Araújo.
Armo-me com a câmera, troco a lente, e sigo o som.
Escuto-lhe cada vez mais forte, e um vôo rasante e assustado bate asas sobre mim, deixando-me sem tempo para fazer o close.
Persigo-lhe com a lente, perguntando-me como ele consegue se equilibrar no ar com tamanho bico?
Volto para guardar os pertences de feira livre. Uma galinha caipira, para sábado, um saquinho com moela e outro com sangue. A galinhada será boa.
Faço meu cappuccino, sento-me na cadeira de pneu, à sombra do umbuzeiro, e ligo para meus pais.
Miro o bezerro de louça que crio na calçada. Lembro-me que o pequeno Yasser (8 anos) sentou-se nele, sexta passada, como quem cavalga um carrossel do destino, que na vida dele girou de maneira tão trágica.
Aniversariou no domingo anterior do que escrevo, comemorou com sua mamãe. Na segunda, após deixá-lo na escola, ela sente-se mal. Interna-se num hospital, ele já volta da escola para casa de amiga. Na quarta ela falece. Agora o pequeno Yasser seguirá com sua vó e tios para outra cidade, ainda sem saber que sua mãe não o acompanhará. Mas, desconfio que ele sabe... Nas 24 horas nas quais convivemos não lhe escuto falar de sua Jamile. Crianças sentem.
Olho o bezerro da calçada e lembro de suas pequenas perdas, além da monstruosa que teve: a sua paquerinha da escola, que me falou chamar-se Natália. O seu cachorro, que me falou que destrói tudo. Nem se despedirá de seus brinquedos. Há pressa para procedimentos de partidas, dele e dela.
Na saída, pergunta-me se pode levar o saco de petas do café da manhã. Mordo a língua e a ofereço-lhe com ternura.
O cappuccino esfriou. Mas, a vida não. Mesmo girando em rodas vivas, de carroceis do destino. Que nos dão rasteiras, nos derrubam, mas que seguem sua jornada. E que mais à frente se ajeitam, se harmonizam novamente.
Então, a vida segue seu compasso: com pássaro solitário, de cor bonita, cantando para atrair sua amada.
Enxadas enxadeiam o solo, permitindo que plantinhas cresçam.
O bezerro olha para mim, confidenciando-me que agora se sente melhor, após sua nova pintura de branco e preto feita pelo Jackson e papai.
Lis (seis meses) balbucia alto e escuto-lhe.
De onde escrevo, agora miro a cadeirinha da primeira sopa do João Gabriel (6 anos). Ela olha para mim, largada num quarto dos fundos, daquele que nele largamos que não sabemos porque guardamos. Vejo JG nela. Quanta lambuzeira fez naquela plataforma de sopinhas. Quanto amor da Cristina, ao desafiar a eternidade do tempo, colher a colher, e lhe alimentar. Menino tinhoso pra comer. Nossa Senhora!
Balu toma sol, ao meu lado. Fiel amigo.
Ergo a cadeirinha de seu local, passo-lhe um pano.
Vou dá-la para a pequena vizinha, a Lis.
Pela rede vejo que meus outros filhos estão bem, cada um à sua maneira.
Procuro uma goiaba araçá sem bicho. Escolho as mais verdes.
Passo a vassoura na casa da árvore, lembro-me que o Yasser ficou de vir aqui e brincar nela. Tomara que não demore.
Elevo meu coração e coloco nos braços do Senhor o JG, a Lis, a criança das fraldas, e o pequeno Yasser, que a vida lhes seja fecunda em amor, paz e bênçãos.

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