A Esteira dos Apressados ( por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Passei uns bons minutos rodando o aeroporto de Brasília atrás do portão 37.

A placa prometia portões de 1 a 36. O meu era o 37. Ninguém avisou o que vinha depois do 36. Fui, voltei, perguntei, desconfiei do mapa, desconfiei de mim. Eu mesmo era um deles: passo largo, olho nas placas, cara de atrasado.

Até que achei o dito cujo. Ele mora na boca de uma esteira rolante.

E foi assim que ganhei, sem querer, o melhor lugar da casa. Sentado no portão 37, vejo passar rumo aos portões 38 a 45 todo mundo que ainda não chegou. Um voyeur perfeito do apuro alheio. O piso é tão polido que devolve as pessoas de cabeça para baixo. A pressa, aqui, tem até reflexo.

Tem quem caminhe.

Tem quem corra.

Tem quem entre na esteira rolante e se deixe levar.

E tem quem entre na esteira e continue caminhando.

Esse último grupo me intriga. Da minha cadeira, resolvo fazer uma conta de curioso: de cada dez que entram, quantos seguem andando?

A esteira foi inventada, imagino eu, para a gente descansar enquanto avança. Uma pequena gentileza da vida. Você sobe, fica quieto e deixa a máquina fazer a parte dela.

Mas os apressados se apossaram dela.

Vejo um homem calcular a distância, esperar a brecha e se enfiar na frente de um casal que ia tranquilo. Talvez ganhe vinte segundos.

Vinte segundos!

E briga por eles como se fossem vinte anos.

Ninguém ali tem cara de quem perdeu o voo. Tem cara de quem perdeu a calma.

Até a esteira ganhou regra de trânsito. Os lentos à direita, os apressados pela esquerda. Kkk. Criamos faixa de ultrapassagem para aquilo que foi feito para nos fazer descansar.

Aí o riso passa e a pergunta fica. Pressa de chegar a quê? Ou será que é de alguma coisa que a gente foge?

Porque quem para, escuta. E o silêncio, coitado, fala. Às vezes pergunta o que a gente não está a fim de responder. Para que tudo isso? O que sobra quando a agenda esvazia? Viktor Frankl deu nome a esse desconforto: vazio existencial. Reparou que ele aparece justamente quando a atividade cessa. No domingo à tarde, nas férias, na aposentadoria. Chamou de neurose dominical.

Muita pressa é anestesia com cara de produtividade.

Estamos vivendo como quem ouve áudio em velocidade 1,5. A voz fica mais rápida, as imagens passam ligeiro, a gente termina logo. Terminar o quê, mesmo?

É a vida na rotação 45 dos velhos discos de vinil.

Talvez ela estivesse pedindo 33.

E isso vai aparecendo em quase tudo. A criança ainda usa fralda e já pensamos em quando vai aprender a usar o vaso. Mal engatinha e já queremos que ande. Começou a andar, queremos que fale. Começou a falar, queremos que leia.

Essa mania de pular etapas.

E o mais duro é que, enquanto empurramos os filhos para a próxima fase, perdemos a fase em que eles estão.

O menino está ali, aos sete anos, com uma novidade para contar. Tem um dente mole, um desenho, uma pergunta sobre a lua. E o pai, presente de corpo, está longe. Responde "hum hum" sem tirar os olhos da tela. A mãe, com a cabeça na reunião de amanhã, diz "já vou, filho", e o já vou vira semana.

A criança não reclama da ausência. Aprende. Aprende que precisa disputar atenção com um aparelho e que, às vezes, perde.

Os pais correm para garantir um futuro aos filhos, e a infância vai passando ao lado, na esteira rolante do corre. Ansiosos, conectados a tudo, menos ao presente das crianças. Só que infância não tem replay. Um dia, o menino que puxava a barra da camisa para mostrar uma coisa vira o adolescente que já não mostra mais. E o pai, que tanto quis chegar, descobre que perdeu o começo do filme.

Mas cuscuz não se apressa. Tem que sentir a massa pegando liga entre os dedos. Tem coisa que só fica pronta quando a gente passa a mão, espera, mistura, erra um pouco e dá tempo ao tempo. A infância dos filhos é do mesmo jeito. A Psicologia Positiva chama isso de saborear: a capacidade de se demorar no que é bom, para o bom render mais.

Só que nós queremos o cuscuz pronto sem sujar os dedos.

Logo a escola. Logo a faculdade. Logo o emprego. Logo o dinheiro. Logo a promoção. Logo a aposentadoria.

A Psicologia tem até um nome para isso: esteira hedônica. A gente conquista, se acostuma e já está correndo atrás da próxima conquista. O nome é esteira mesmo. Acho que a vida gosta de ironia.

Aí a aposentadoria chega. E tem gente que se aposenta do trabalho e não se aposenta da pressa. Passou tanto tempo correndo para chegar que desaprendeu a apreciar o caminho. Quer o destino enquanto ainda está no caminho. E o caminho, coitado, vai ficando sem graça.

Talvez por isso o nada a fazer incomode tanto.

Uma tarde sem compromisso. Um café tomado devagar. Uma conversa que não precisa chegar a lugar nenhum.

Até descansar virou tarefa. A pessoa deita para descansar e já pensa no que vai fazer depois. Vai à praia e olha o relógio. Senta na varanda e pega o celular. Entra na esteira e começa a caminhar. Como se ficar parado fosse fracasso.

A 120 por hora a gente só enxerga a estrada. O resto vira borrão. A mulher que vende tapioca na beira do caminho, o menino empinando pipa no terreno baldio, o velho na calçada com cadeira e prosa, tudo passa como mancha. A beleza do cotidiano não se deixa descobrir em alta velocidade. Ela pede passo curto, olho demorado e ouvido aberto.

O geógrafo Milton Santos falava dos homens lentos, aqueles que, por andarem devagar, enxergam o território que os rápidos só atravessam. Talvez a pressa nos faça donos de muitas distâncias e estranhos em todos os lugares.

Por isso a gente precisa, de vez em quando, desconectar. Desligar o que apita, guardar o celular no bolso, largar o relógio. Desconectar, aqui, é reencontro. Com a rua onde a gente mora, a sombra da mangueira, a voz de quem está ao lado.

A vida boa costuma morar na esquina de casa. Só que ninguém a encontra a 120.

Lembro de Marta, na casa de Betânia, tão ocupada com o serviço que não sentou para conversar. Jesus não criticou o serviço dela. Notou a agitação. E disse que Maria, sentada, tinha escolhido a melhor parte.

Continuo minha contagem, da cadeira do 37. De dez em dez. O resultado se repete. Gente caminhando apressada numa esteira que já caminha por ela.

Até que vejo uns adolescentes, de uns treze anos, brincando de ir e voltar.

Entram na esteira. Andam contra o movimento. Voltam. Correm um pouco. Param. Riem.

Os pais observam de longe, encantados.

Esses pais pararam. Estão ali, inteiros, vendo os filhos brincarem. Presença é isso: parar para ver.

Aqueles meninos já devem ter percorrido um quilômetro. E não chegaram a lugar nenhum.

Talvez seja justamente essa a graça.

Ainda não aprenderam as regras dos apressados. Não sabem que esteira serve para chegar. Para eles, ainda é brinquedo. Ainda é descoberta. Movimento sem obrigação de destino.

Fico torcendo por eles. Kkk.

Brincar é uma pequena desobediência à nossa mania de transformar tudo em desempenho.

E penso nos meus longelescentes. Gente com décadas de estrada que, se deixar, volta a ter treze anos: curiosa, meio sem jeito, querendo experimentar. Ir e voltar. Correr um pouco. Parar. Rir. A maturidade de quem já chegou a muitos lugares, com a coragem de quem ainda brinca no caminho.

Talvez a vida esteja tentando nos dizer uma coisa simples.

Nem todo movimento precisa de pressa.

Nem todo caminho precisa ser encurtado.

Nem todo silêncio precisa ser preenchido.

Nem todo momento precisa servir para alguma coisa.

Às vezes, a vida já está nos levando. E a gente, feito besta, continua caminhando.

Talvez seja hora de baixar a rotação. Voltar aos 33. Entrar na esteira e, por alguns minutos, deixar que a vida faça o que sabe fazer.

Levar a gente.

Sem pressa.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário é uma honra.

Crônicas Anteriores