Pedacinho de Céu










Tudo começou quando recebi esse

 e-mail da Catarina, minha comadre
 que mora perto de casa:
"Venho dar uma dica de local agradável para bater papo, comer, beber e ouvir música: a "Feira do Produtor" toda quarta à noite. Experimentem o cuscuz com todo tipo de recheio por R$ 6,00.”
Eu já tinha visitado aquele local, porém meu olhar sobre a vida era diferente àquela época, nos idos de 2008.
Ontem, peguei o JG no colégio e saí com a firme intenção de me permitir reviver aquele lugar, com menos cataratas na alma.
Chegamos cedo, o local ainda abria, era perto das 19hrs.
O local visitado fica em Brasília, na Feira do Produtor do Jardim Botânico, ao lado da estrada que dá acesso à São Sebastião-DF e Unaí-MG.

Entramos desconfiados, eu mais ainda pois estava com uma muda de rosa vermelha, que acabara de comprar numa das lojas de plantas e flores do local. Deu vontade de presentear minha esposa com um mimo.

Com aquele vaso numa mão e o JG na outra, perguntei a uma senhora, com jeitão de proprietária de barraca de feira, onde era a barraca do tal cuscuz - tão referenciado pela amiga do e-mail.

A senhora apontou para a barraca da frente, contudo disse-me que eu poderia ficar sentado nas mesas da sua barraca, que o cuscuz viria até mim, sem problemas.
Ela chama-se Olga. Logo fizemos amizade. Olga também foi paciente do Hospital Sara e a identificação com seu drama ósseo foi imediata.
Meu filho, o João Gabriel (JG), também foi paciente do Sara, por longos dois anos.
Fui relaxando e papeando. Procurando saber da história daquelas três barracas, as únicas que abriam nas quartas à noite.
Olga falou-me que eles tinham prazer em abrirem suas barraquinhas também nas quartas, além dos finais de semana, para juntarem-se aos seus clientes e também divertirem-se no meio da semana.

Para eles aquele local era diversão e não trabalho. Eita!
Vendo a babação do JG, contemplando a churrasqueira de espetinhos de gato, ela logo preparou um espetinho pra ele.
Pronto, ganhou o menino.
Ela me disse que é de Paracatu-MG. Contei-lhe nossa recente visita à sua cidade, e do quanto gostamos, mais uma ponte de identificação.
Peço uma caipirinha. Ela me diz que quem faz é o Barbosa, da terceira barraca, a mais distante, aquela do cuscuz. Ela pede pra mim.

Logo ele chega trazendo-a, mais parecido com um personagem saído de algum filme Fellini.

Barbosa, por si só, é uma crônica. Recebe a cada um dos clientes com uma elegância de invejar ao mais fino dos lordes ingleses. Identifico-me com ele, somos ambos do nordeste.

Ele me conta que aquela feira de produtor acabou por se tornar um espaço de convivência de amigos, poetas, boêmios e amantes de todos os estilos e vocações.

E que foi a forma que ele encontrou para dá sentido à sua aposentadoria.

Eita! (2).

Eis que passa à minha frente, fumegando em direção a outra mesa, um acarajé imenso.

Aberto, com camarões saltitantes dançando sobre um prato.
Quando a senhora que o levou volta, peço-lhe um igual.
Ela se apresenta. Chama-se Odete e é a proprietária da barraca ao lado de Olga.
Agora conheci os três proprietários: Olga, Odete e Barbosa.
João Gabriel corre pelos cantos, comendo espeto de gato.
Um violeiro começa a tocar.
É noite cultural da Feira do Produtor e show será do Leyder & e Sua Viola.

Leyder é outro que saiu dos filmes do Fellini.
Misto de Zé Ramalho, Chitãozinho e Roberto Carlos, imagine!
Impagável.

Ele vem tocando e cantando, e vai parando em cada mesa. Um charme.
Olga pede a rosa que comprei e que tinha deixado em cima da mesa.
Ela quer contribuir para o gesto romântico e vai escondê-la, atrás de seu balcão.

Eita! (3)

Diz que vai escondê-la atrás do balcão, para melhorar a surpresa.

Perto das 20 hrs minha esposa chega.
Sei que ela gostou do lugar, de cara.
A conheço.
Faço um sinal para o violeiro, já combinado, e ele começa a cantar Chão de Giz.
Faço outro pra Olga e ela traz a rosa.
Pronto, a noite está garantida.
Cristina fica embevecida, e o violeiro ainda chega perto tocando.
Satisfação, teu segundo nome é carinho!
Ofereço a Canja de Galinha que Dona Olga tinha me dito que fizera.

Cristina prova e adora.

Eis que Dona Odete aproxima-se e me oferece um caldinho de feijão, diz que foi do acarajé e que não me cobrará nada.

Eita! (4)

Olho para aquela senhora e vejo um anjo.

Acho que bebi demais.

Não consigo tirar o rosto daquela senhora de bondade em pessoa.

Ela puxa uma cadeira e começa a conversar com Cristina.

De cara se identificam. Ambas são do Paraná: Cris de Londrina e Odete de Campo Mourão.

Ao lado, Olga brinca com o JG, tenta puxar conversa e tirá-lo do jogo do celular.

Missão quase impossível.

Mais à frente contemplo o “Le Barbosier”, o Barbosa, servindo com elegância seus clientes.

A cada caipirinha que ele me trazia, eu já começava a fotografá-lo de longe, tal a figura.

Dos três, a Olga era a mais séria.

Aí ela contou-me que desde pequena sofre com dores no quadril, e que faz acompanhamento permanente no Hospital Sara.

Que já toma um remédio bem forte pra dores.

Que a dor virou companheira, sempre presente com seu aguilhão que lhe queimava na região em que o fêmur encontra-se com a bacia.

Agora entendi melhor o quanto ela era especial.

Não, ela não era a dona de barraquinha mais séria. Apenas a que mais sofria.

Quem, com fortes dores ósseas, pede para guardar uma rosa de seu cliente, tendo que deslocar-se, sair de traz do balcão, ir numa mesa, e dali voltar, com dificuldade de locomoção e sofrer?

Quem, com uma dor óssea lancinante, caminhará até uma mesa, pegará uma rosa, e voltará com ela para escondê-la, só para aumentar a intenção do gesto do seu cliente?
Quem?

Belisco-me para ver se aquele lugar existe mesmo, ou se não estava sonhando.
O violeiro toca. E a sua música eleva e aplaina corações.
“Ando devagar por que já tive pressa. E levo esse sorriso por que já chorei demais. Hoje me sinto mais forte, mais feliz quem sabe.”

A canção de minha vida.

Um acarajé aqui, um caldo acolá e a vida vai ficando boa novamente.

Odete oferece à minha esposa limões que ela trouxe do pomar de sua casa.

Conta-lhe sua história.

Filha de pais muito pobres, começou a trabalhar em “casa de família” aos oito anos, para cuidar de um bebê.

Foi trabalhar em Campo Mourão na casa do Gerente do BB, em 1968. Dois anos depois ele veio para o DF e ela veio junto.

Sua família não queria, achava que ela era muito nova.

Mas, com 10 anos ela já cuidava do bebê do casal.

Naquela época, o trabalho infantil era comum.

Muitas crianças carentes cresciam trabalhando em casas mais abastadas. Eram as Senzalas da pós-modernidade.

Odete chegou em Brasília em 1970. Tudo era diferente.

Trabalhou até os 18 anos na casa da dona patroa.

Depois, como queria estudar e a patroa não permitia. Saiu de lá. Conto-nos que sofreu muito. Mas, que ou sairia ou nunca seria alguém na vida.

Eita (5)

Achou emprego na casa de uma outra senhora, que entendeu que ela não era uma “escrava” e deu-lhe condições de estudar e se formar em pedagogia.

Sua patroa a incentivou de todas as formas. Terminando o curso foi trabalhar num colégio de Brasília, o La Salle, e ali se aposentou.

Com o dinheiro que juntou a vida toda comprou um lote, construiu sua casa e hoje vive de economias e aposentadoria.

Contou-nos que o barzinho de feira não lhe dá dinheiro. Que é a sua ocupação, sua terapia.

Eita (6)

Nessa parte da noite, quem se emocionou fui eu, que estudo o sentido do trabalho.

Parou um pouco de conversar, foi atender a uns clientes, e, na volta trouxe um bolinho de acarajé.

“Não precisa pagar, é oferta”, disse-me com olhos de lua cheia.

Aquele olhar de quem acolhe e encanta o outro. Olhar de doçura e mel.

Na saída, chamou-nos e nos deu uns sabões em barra que ela mesma fabrica.

Existe lugares com Barbosas, Olgas e Odetes.

Pessoas que fazem únicas suas existências.

Que transcendem suas experiências de vida e acolhem o outro como quem acolhe a um amigo.

Pessoas que lutaram muito e que aprenderam com a canção que:

“Todo mundo ama, um dia todo mundo chora,
Um dia a gente chega, no outro vai embora
Cada um de nós compõe a sua história
Cada ser em si carrega o dom de ser capaz. E ser feliz”

Pequenas identificações e um mundo se descortina.

De fato, em 2008 eu não estaria preparado para ver aqueles anjos: Barbosa, Olga, Odete e Leyder.
Tenho certeza que muitos que ali se sentam não os veem.
Voltarei para aprender mais com eles sobre a arte de bem viver.
Quanto ao cuscuz, perdeu a importância. Quem sabe noutro dia.

Chuvas Serôdias

Hoje preciso de chuvas serôdias para continuar. 
As serôdias são chuvas que caem no final do outono, 
ou início da primavera, contribuindo para a formação integral dos frutos,
seu amadurecimento e plena exuberância. 

São fundamentais no processo de crescimento das sementes. 
Ela chega antes da colheita para deixar a planta forte e viçosa,
abundante de frutos para a sega. 
Vinha justamente na hora em que as plantinhas estavam cansadas de resistir ao veranico,
ansiosas pela água.
As serôdias são famosas na tradição judaico-cristã. 
Citadas no Antigo Testamento como a graça de Deus, 
que ao chegar rejuvenesce os corações cansados e apáticos, 
sedentos de esperança e fé. 
Hoje preciso delas. 
Fiz atendimentos difíceis. 
Pessoas murchando.
Pessoas que não conseguem mais amadurecer, em processo de descobertas. 
Cansaram. 
Saíram do jogo. 
Sedentas à beira da jornada, caminham como órfãos peregrinos para lugar algum.
 Posso ser serôdia para elas. 
Posso, nessa noite, abastecer-me para doar-me em vida aos que de mim precisarem.
Há uma seca de serôdias.
Uma seca emocional de chuvas serôdias no ser.
Quem lida com o outro precisa de serôdias.
Momentos-serôdias. momentos de abastecimento. 
De renovação de propósitos, utopias e ideais. 
Abençoadas serôdias que quando todos aos lado desistiram, 
quando todos ao olharem para o campo viram morte, 
chegam e sopram o dom da vida novamente. 
Um amor é uma serôdia.
Um abraço é uma serôdia.
Um eu gosto de você, é uma serôdia. 
Um muito obrigado, idem. 
Um pedido de perdão, é uma serôdia e tanto. 
Precisamos irrigar os campos da humanidade com serôdias de sentimentos e valores
Aí colheremos os frutos de um novo tempo, 
doces e suculentos, como as frutas do Nordeste.

Fôrmas que Deformam...

E quando lhe caírem as fôrmas.
De todos os tipos: 

dos seus pais; 
de uma religião sem amor; 
de seu cônjuge; 
de seu trabalho; 
de sua escola. 
E quando lhes caírem as formas? Você estará preparado para sobreviver para além dos limites das fôrmas?
Têm pais que deseducam seus filhos, ao educar-lhes para as fôrmas, na pretensa e vã intenção de formá-los.
Têm religiões que deformam pessoas. Tiram delas mesmas a força para te crucificar, ou aprisionar na letra, e a letra mata. Religiosidades de um formalismo árido, sem vida.
Têm cônjuges que acham que se amam, condicionando um à moldura do outro.
Numa amálgama, que um deles se dilui para o outro existir. Puro engano de relação a dois, que na verdade é um. E, um deles não sabe. Não se informou ainda que há vida fora da fôrma.
Têm trabalhos que de tão formais, de tanto "faça assim", "não pode",  "já tentaram", "só siga a rotina", anulam tua expressão de sentido, tua autonomia e protagonismo laborais. Tudo previsto, descrito, moldado. E o trabalhador, que após anos de formação para o trabalho, forma-se nele mesmo. Então, não sabe mais viver seu as suas formalidades. Virou um crachá.
Têm escolas que suas fôrmas mais parecem celas, de tão rígidas. Não abre espaço para o questionar, para o novo. Tudo é milimetricamente e metodicamente planejado, tal enchimentos de empadas nas forminhas de metal. Ao delas saírem, as pessoas não sabem mais o gosto de aprender, pelo sabor de aprender, somente!
E, de fôrmas em fôrmas vamos sendo domesticados, amansados em nossas fantasias, ou em qualquer idiossincrasia que rompa os padrões formativos da coletividade.
Fôrmas, fôrmas, fôrmas, algumas necessárias, outras urgem serem violadas, rompidas, tal a raiz desse jarro. Que agora respira livre, embora moldada. 
Lentamente, algumas delas irão subverter a ordem reinante e descerem até a mãe terra, livres. 


Têm fôrmas e fôrmas, 
e formas e formas de lidarmos com elas. 
Umas, libertam, acomodam, ajustam-se.
Noutras morremos um pouco todos os dias. Sufocados.


Que sejamos nós essas rebeldes raízes. 

Que saibamos a hora de romper com velhas fôrmas; e ainda uso o acento, para realçar a forma da fôrma: algo que molda, modela, encaixa, encapsula, estrutura.
Mas, que ao excesso, nos torna nenhum!
Nos torna, eles!

No retrovisor da vida



Se for pra olhar no retrovisor de tua vida,
olhe para pegar energia com momentos de brilho que já teve.
O retrovisor é como um espelho invertido.
No lugar de nos mostrar como estamos agora,
pode nos iludir e mostrar o que não fomos ontem.
Se, no teu retrovisor só teima em aparecer os momentos ruins,
pelo quais passaste, que tal mudar o foco?
Tente despir-se do passado de culpas, julgamentos, iras e mágoas fantasmagóricas, que vez por outra, vêm te assustar.
Que tal olhar para tuas lembranças e momentos especiais já vividos?
Aqueles de brilho e fulgor.
Aqueles em que por um instante tu se sentiu eterno.

Eterno demais para agora ver-te como um campo em restolho.

Um campo de ossos secos, sem vida.

Acorda, vem comigo, me dá tua mão.

Todos tivemos momentos ruins.

O que fazemos com eles, ao projetarem-se em nosso viver - no presente e futuro, é o que fará toda a diferença; nos ecos de nosso ser navegando ao infinito.

Pare de se lamentar, de sofrer tanto olhando para trás:
decisões que não tomou; decisões que tomou; indecisões cruéis...
Quem não as teve?
Quem não faria alguma coisa que fez, de modo diferente, se tivesse uma chance?
Mas, a chance é no futuro.
Então, reconstrua teu viver e lance-se novamente no regaço fecundo da mãe vida.
Avante, amigo(a), outros te seguirão em tua jornada de redescoberta de teu ser. O do retrovisor, esse que te assusta, passou. Você, passarinho...

A Síndrome do Ninho Vazio (By Ricardim)


"Ricardim, estou preocupado com minha esposa. Ela era gerente e aposentou-se tem uns seis meses. Agora cismou em exercer um controle maior sob a vida de nosso filho, e o clima entre eles azedou. Ambos estão tristes. O que fazer?".
Vinha adiando a elaboração do terceiro texto da trilogia: Síndromes da Aposentadoria.  Já escrevi os dois primeiros: A Síndrome da Alienação Fantástica, e a Síndrome de Abstinência à Vida Corporativa.
Adiava por me ser muito caro falar disso.
Vi essa Síndrome se manifestar nos primeiros anos da volta de meu pai ao lar, nos idos de 1995. Ele retornava pra sua gruta, de forma mais presente, após longos 45 anos de dedicação integral ao SENAI.
Ao retornar, percebeu que a casa estava vazia. Silenciosa. Os quartos, nos quais brincávamos quando crianças, agora o torturavam com lembranças: sons fantasmagóricos, aromas e restos de nós em cada parede, em cada objeto. 
A casa nova construída centavo a centavo, suor a suor, sapo a sapo engolido no SENAI, não fora aproveitada com seus filhos. Quando ela ficou pronta, todos já estavam casados e haviam migrado para o DF.
Aquilo por si só tornava mais aguda sua adaptação. Mamãe não sentiu tanto.
Ela se envolveu nas pastorais da igreja e ficou mais ocupada do que antes, quando também trabalhava no SENAI. Ela se aposentou com 40 anos de casa.
Já papai recolheu-se literalmente aos aposentos - uma das etimologias mais perversas do termo aposentadoria – aceitou vir-se como inativo, jubilado e voltou aos aposentos: aposentou-se. 
E, ao nele adentar, assombrou-se com o ninho vazio.
Sim, caros amigos, o terceiro texto da trilogia é sobre a Síndrome do Ninho Vazio.
Meu pai levou anos para recuperar-se do vazio do ninho. Para aprender a conviver com sua família real, e não com aquela idealizada para acolhê-lo em seu novo momento existencial.
Graças ao bom Deus, hoje ele está forte e feliz.
Achou-se para além dos "aposentos". Achou-se em aposentos de si mesmo. 
Voltando ao início do texto, esse diálogo aconteceu hoje durante meu almoço com amigos. Um deles, sabendo que gosto do tema aposentadoria, pediu-me um help.
Falou-me com amor e preocupação de sua esposa, já aposentada.
Ela esteve à frente de uma agência do BB, até novembro de 2013.
Lidava com pessoas, pressão; amava o BB. Lidava com metas, recebia estímulos; era uma motivadora; uma batalhadora. Todo dia um leão: enfrentava os dilemas do atendimento com maestria e sempre vibrava com as superações de resultados.
De repente, aposenta-se e começa a definhar, num canto qualquer “dos aposentos”.
Imaginamos juntos o seu dia a dia de trabalho, cheio de adrenalina, cortisol, e, porque não dizer, endorfinas - o hormônio da felicidade. Trabalhar pode ser sim um excelente espaço para produção de endorfinas.
E, de repente, sem algo pra fazer "lá fora" ela decide aposentar-se.
Nos aposentos reside o filho, o marido e a empregada doméstica.
O marido continua a trabalhar.
Ela "volta aos aposentos" e, nele, busca uma razão para continuar existindo.
Na sua busca por sentido, começa a controlar e intervir com uma intensidade nunca antes praticada na vida do filho e da serviçal.
A serviçal pensa em pedir as contas. Meu amigo tenta apaziguar a situação.
Já o filho, pensa, mas não fala, “ele também quer pedir as contas da mãe, devolvê-la ao BB”.
Ela sofre. Não entende o que se passa. Sofre por não se ver correspondida na overdose de amor que pensa estar dando.
Um amor de excessiva proteção, cuidado, de controle e opinião sobre o outro.
Saudosamente  ela começa a evocar as lembranças de quando  os filhos eram pequenos.
Abre os baús de fotografia. Alimenta-se com combustível da saudade e melancolia, para melhor habitar nos "aposentos".
Telefona para os familiares mil vezes ao dia. Cobra não receber ligações de volta.
Passa a implicar com tudo que os filhos fazem e que, antes, passava despercebido.
Implica com a roupa, com os amigos, com o lazer, com a profissão.
Mas, ela não vê o excesso. O excesso é justamente o preenchimento no outro do amor que nos falta. Para conosco mesmo. Entende?
É um deslocamento da nossa libido para o outro. Ele passa a ser o sujeito, sobre o qual investimos todas nossas expectativas, ansiedades, amor e frustrações.
Na Síndrome do Ninho Vazio (SNV), o aposentado é o ator principal que, para contracená-la, convida a todos de sua família.
A peça tem nome: “Eu voltei, voltem ao ninho.”
As noras endoidam com aposentados vítimas da SNV. “Você agora só quer viver na casa do seu pai. Não aguento mais todo final de semana almoçar lá.”
O jovem casal não consegue sair das “presas afetivas”, do jogo dramático de manipulação que o doente da SNV faz.
E casamentos entram em crise, pelo excesso de cobrança dos pais de algum dos cônjuges, ou de ambos – no caso de azar - por uma maior atenção, interferência e controle em suas vidas.
O adoentado envolve todo mundo para dar vida ao ninho, para preenchê-lo.
Quando o jogo não dá certo ele se entristece. Desabafa que sua família não liga mais pra ele. Que “só o usaram”. Que agora que parou de trabalhar “ninguém mais precisa dele”.
Que os familiares não lhes ligam, não lhe dão satisfações e não reconhecem nele os esforços para se aproximar.  Vira um círculo vicioso: 
1. Overdose de amor possessivo;
2. Baixo retorno afetivo esperado (dos sujeitos do amor investido);
3. Sofrimento existencial;
4. Compensação da percepção de indiferença com maiores doses de amor possessivo;
1. 2. 3. 4...  1.2.3.4... e assim por diante.
E aí a vida se torna um inferno. Para todos que o rodeiam, e até para ele mesmo.
Com o tempo, caso não se trate, vai ficando resignado, irritadiço, rabugento e até triste.
E como se tratar?  E como agir?
Vamos responder por partes.
Se você tem uma pessoa amada que passa pela SNV, em primeiro lugar, tente entendê-la. 
Se você tem uma pessoa amada que passa pela SNV, a primeira coisa a ser feita é tentar entendê-la. 
Ela não está fazendo isso por mal. Só não consegue lidar com o vazio, sem querer que você o ocupe. Percebe?
Talvez nem ela perceba que está tão exigente nas suas necessidades de receber amor.
Tenha compaixão dela... dessa pessoa com a SNV. Procure estar mais presente, sem se deixar dominar pela sua fantasia de controle e manipulação.
Faça uma forcinha. Ligue mais vezes durante o dia. Justifique melhor quando não irá a mais um de tantos eventos que ela inventa para te ter por perto.
E, quando estiver perto, incentive a pessoa com SNV a pensar noutras possibilidades para ocupar o tempo.
Ação voluntária, novos estudos, espiritualidade, clubes sociais, viagens, leitura,  redes sociais... etc.
Mas, saiba fazer isso mansamente. Sem atropelo. Se ela perceber que você “quer se livrar desse abraço de SNV”, vai reagir mal e aumentar o seu sofrer.
Faça com amor. Com jeitinho que só quem ama sabe encontrar para conduzir temas difíceis.
Mostre-lhe o quanto você se alegra com seus próprios programas, compartilhe com essa pessoa suas vitórias e instantes de felicidade.
Aos poucos ela vai percebendo que o fato de você não mais habitar o ninho, não significa que ele está vazio. Há ninhos preenchidos com a virtualidade do ser.
E se for você que se sente assim?
Que tudo passou a girar em função dos filhos e familiares. Que se no próximo final de semana não os visitar, ou ser visitado, não saberá o que fazer?
Agora é pra ti que digo: tenha calma!
Você sobreviverá sem filhos e familiares.
Um dia poderá achar legal não receber ninguém, sair e ir ao cinema, teatro, ir a um jogo de futebol.
Um dia, mais cedo ou mais tarde, passará a preencher sua vida com outras fontes de prazer, além do contato com a família.
Pare de controlar a vida de todos que ama. Pare de querer colocá-los no planejamento estratégico da empresa de sua vida.
Liberte-os para voarem. Quem ama solta! E quem é solto, por amor, um dia volta, e quando quer.
Encontre-se no ninho vazio.
Como um ninho pode ser vazio com você dentro dele?
Preencha-o consigo mesmo.
Você pode dar vida às paredes de sua casa, agora tão silenciosas. Procure algo para fazer que lhe preencha, como numa espécie de terapia ocupacional.
Faça cursos fora de casa. Faça artesanato, dentro de casa.
Arrume tempo para se levar para passear, sozinha, sem pressionar seus familiares mais amados para te acompanharem.
Viaje só. Se encontre.
Caso ainda seja casado, que tal uma nova lua de mel?
Que tal, os dois juntos, povoarem o ninho vazio com um montão de novos projetos.
Sonhos a serem vividos. Aventuras a serem experenciadas.
Conhecimentos a serem adquiridos. Emoções a serem curtidas.
Se estiver difícil, quem sabe deva procurar ajuda médica: um geriatra; um psicólogo, um psiquiatra, um padre ou pastor... Quem sabe?
Busque seus instantes de autoconhecimento. “Lamba-se” em sua autoestima. Pare de projetar-se no outro; de associar sua felicidade a do outro.
Liberte-o de suas garras afetivas. Pratique yoga, contemplação, meditação, relaxamento, ou permita-se a momentos de encontro com seu Deus.
Logo, logo esse ninho vazio que te assusta e te assombra, será, novamente, colorido, cheio de sons e aromas, oriundos de tuas novas experiências de existir.
Na saída, meu amigo disse-me que tinha desaconselhado sua esposa a estudar pra concursos. Ela tinha comentado que iria voltar a estudar para fazê-los e levou dele um “sai pra lá”.
Rindo, e mais aliviado, ele me disse que agora seria ele mesmo que iria matriculá-la (risos).
Entendeu tudo. Aposentamos de um emprego, não da vida!


Valeu pai! Você foi um herói. Sem saber de nada disso, encontrou-se lá no fundo do ninho, antes vazio e agora, cheio de você mesmo. 

"Esparadrape" sua Autoestima


Hoje fui almoçar com o Fahl. 
No caminho, comentei que ele
deveria vender o seu carro. 
Ele acabara de me relatar que ontem, 
quando vinha para o trabalho, um cara deu uma entrada nele. Ele freou, para um pedestre na faixa, e quem vinha atrás não brecou a tempo.

Fiquei rindo de tamanho azar. é que as histórias de seu carro, com esta, são quatro.

Outro dia o Fahl me contou que passou o final de semana apreensivo, tinha roubado seu carro da porta de sua casa, no sábado pela manhã. E, que a polícia só o encontrara na noite do domingo.

Noutras vezes, ele bateu ao retirar o carro da garagem, e a mulher errou o lugar de uma vaga e bateu ao estacionar.

Hoje, indo almoçar, falei sorrindo pra ele vender o carro, que deveria ter uma macumba nele.

Ele, manso e sábio de coração, como sempre, olhou-me com olhos de lua cheia e disse-me que o carro era abençoado.

Sofreu três batidas e nenhuma delas tinha sido muito grave, ou tinha ferido alguém.

E, no episódio do roubo, o seguro estava vencido, e o carro ainda fora achado intacto.

"Vendo nada. Esse é uma bênção."

Acho que o aparelho mental do Fahl funciona como o de um percussionista que conheço que coloca esparadrapos no pandeiro (veja foto), para "desligar alguns sons mais agudos".

Todos os dias estes sons nos importunam. Saber desligá-los é uma arte. Aprendo sempre com o Fahl.

Ele deixa publicar com a sua vida, apenas os melhores sons, os mais afinados. "Esparadrapa" no seu coração aqueles sons mais feios. Inibe-os.

Como Fahl e meu amigo percussionista me tocaram nesse dia.

Temos que saber desligar sons que teimam em nos incomodar. Em nos fazer tristes e nos sentir mal amados.

Botar uns esparadrapos neles, para que outros sons de nosso viver, plenos de harmonia e sentido, possam prevalecer.

Temos uma síndrome, danada de ruim, de repetição. De ficar martelando sentimentos, ou ecoando na razão, as coisas que nos fizeram mal.

Na comparação com o Fahl, seria como se ele passasse o dia lamentando-se das intempéries de seu carro.

Na com o Mário, meu amigo percussionista, seria como se ele continuasse tocando seu pandeiro, com sons desafinados, que não combinassem mais com a partitura e harmonia que executa.




Saber a hora de "esparadrapar" emoções negativas, culpas, raivas, sentimentos não legais, é preciso para sobreviver.

Ficar resmungando, reclamando, remoendo e ruminando o que não deu certo, ou algo que lhe aconteceu e não te fez bem, não irá mudar em nada o acontecido.

No máximo vai te deixar ranzinza e resignado.

Aprendamos a ver as bênçãos, onde outros veem maldições.

Aprendamos a emitir nossa melhor e mais harmoniosa melodia, para os outros, mesmo que desliguemos parte de nosso ser que teimam em ficar nos atazanando, nos agoniando.

Que tal nesta noite pensar nisso e parar de se levar tão a sério. Parar de se melindrar com pouca coisa.

De se vitimizar pelos deslizes e sufocos que passou. De cultivar um jardim interior de emoções toxicas.

Parar na posição de quem está sempre na defensiva, de quem foi criado para ser perfeccionista em tudo.

Parar de proteger à exaustão a sua imagem, como quem a joia da coroa do Rei.

Você não é uma unanimidade, e alguns simplesmente não irão com tua cara.

Nada pessoal. Coisas da vida.

"Esparadrape" sua autoestima. Ela pode tá ficando muito exposta, muito sujeitas às infecções e violências relacionais.

E, nada pior do que aquela pessoal, que por ter levado muitas pancada na vida, no lugar de ter aprendido com elas, foi ficando arisco, armado, pronto ao menor sinal de perigo para lançar seus ferrões, numa tentativa estéril de se proteger.

Relaxe. Desligue o som que está te fazendo infeliz. Passou.

Desligue-se os pensamentos que teima em te tirar o sono.

Onde mora teus pensamentos mora tua ação no mundo.

Crie um lugar de paz para habitar. Aquele no qual o Fahl construiu pra ele e o fez reagir com sabedoria às dificuldades que se lhes apresentaram.

Vou correndo buscar esparadrapos. Hoje uma chateação acompanhou-me até em casa.

Agora, permitir ou não que ela vá pra cama comigo é uma escolha que posso fazer.

E, não adiantará nada ela se enrolar em meu ser, noite afora, nada resolverei hoje. E, algumas coisas para serem resolvidas pedem o olhar e o tempo de várias luas cheias.

Pense nisso!

Ruminar


Rumino pedaços de mim mesmo.
Entre o não e o talvez, avanço.
Reviro entranhas do que fui sem ser e acabei sendo.
Deito-me, ouvindo montanhas murmurantes.
Não sou o que de melhor pensei ser.
Sou distorção de mim mesmo, reflexo pálido do que penso ser.
Possibilidades e escolhas, caminhos, atalhos e retornos, e porque não?.
Lá fora a bruma cai, chove mansinho.
Um aroma de criança banhada invade a área.
Latidos acordam-me de minha modorrenta tarde.
Lembram-me: ei bora lá com força desenhar novos aconteceres.
Ente o não e o talvez, fico.
Enraizo brotos de outros em mim mesmo.
Minha melhor árvore veio da enxertia deles,
em meu tronco vital.
Escuto sons de grama brindando à garoa mansa.
Gargalhadas de grilos falantes.
Ao longe, um adeus, um abraço apertado e
um gosto de eterno.
Ele manda UOT.
Finalmente a conquistou. Posta pra mim foto deles.
Pede sigilo. é muito jovem ainda o amor.
Amor de lutas e ousadia.
Ela, manda email, triste, ele quer terminar.
Tem uma lista de coisas que ela não o atende mais.
Ela sofre.
A chuva renova-lhe feridas, dias sombrios e frios, matam amantes..
Ela manda SMS, o que dizer a uma amiga em luto?.
Seus filhos estão longe, ela veio trabalhar.
Saudade não pode ter, não conseguiria ficar.
A vida segue seu ritmo.
As gramas bebem o cálice do infinito.
Flores preparam-se para vida e morte.
Reviro entranhas... 
Penso, estou melhor do que um dia pensei ser.
Ahhh, como estou!!!

Vele


Eu velo.
Tu velas.
Ele vela.
Nós cuidamos.
Aportamos, 
zarpamos, 
navegamos, e, 
um dia,
afundamos,
Caras velas nossas de cada dia,
elevai ao horizonte infinito de amor,
as puídas e toscas caravelas que somos.

O que você faria?

Você doaria tempo
e coragem para libertar 
o animal?
E, se fosse o animal, 
ficaria para agradecer, 
após libertado?

Tempere

Tem momentos de crise 
que pedem temperos.
Temperos realçam
o sabor daquilo que é bom, 
mas estava despercebido.
Muitas vidas precisam de temperos.
Caem na rotina,
e o belo é olhado com olhos opacos da indiferença
Uma pitada de alecrim, 
realça o sabor do carneiro.
Uma pouco de manjericão, 
acentua o gosto dos peixes.
Temperos são pitadas mágicas.
A vida pede momentos tempero.
Pequenos rituais, prazeres, iluminuras que farão toda a diferença no dia.
Um telefonema que recebemos, um email que abrimos, uma gentileza gratuita, poderão ser temperos, tornar muito maior e melhor o cotidiano e a rotina.
Um pedido de perdão pode ser um tempero, em horas de destemperos.

Com que mesa?

Com que mesa?    By Ricardim

O ambiente de trabalho estava tenso, a visita do auditor, se é que auditores fazem visitas, fora antecipada para as 16hrs de hoje. 
Um corre-corre, todo mundo estudando as últimas práticas de pessoas na Ditec, e sua relação com a ISO 20.000. Outros colecionando evidências ou tentado imaginar o que seria a banca de perguntas e aferição.
Pra piorar sabíamos que os outros processos auditados tinham sido aprovados e que o nosso era o último. Aumentava em muito a expectativa. Não podia ser, justamente nós, onde o bicho iria pegar, ou seja, fazer feio.
Na hora combinada, um dos gestores da área vai ás pressas ao banheiro. O auditor chega e o cumprimento sozinho. Penso, isso é hora do Lyra ir ao WC. E se o cabra me pergunta algo e titubeio.
Nem bem terminei de alinhavar esse pensamento, lá vem o Lyra, todo faceiro, mais aliviado, supunha.
A seção de aferição dos aspectos e capacidades relacionadas ao RH, no que tange ao gerenciamento de serviços de TI, começa.
Simpatizo de cara com o auditor. 
Fala mansa, risonho, procurou deixar a todos mais relaxados. Missão quase impossível.
Vai perguntando e ouvindo com atenção, aqui e acolá deixando escapar um gesto traído de quem tá gostando do que analisa.
Todos vão ficando mais calmos e vamos nos soltando.
O auditor da ISO 20000 chama-se Reinaldo, e fica tirando onda com os psicólogos presentes, e olhe que somos uns seis.
Diz que tem medo de psicólogo. Não sabe ele que eu também.
cacaca

Com o ambiente já bem descontraído, final da auditoria de inspeção, laudo positivo, abre-se uma pauta de amenidades.

Agora aquele, antes distante auditor, era gente que nem a gente. Disse que desenvolve sua inteligência emocional fazendo Origami, Reiki e Cromoterapia.  Um cara altamente lógico-racional cuidando das coisas e emocionais, um luxo!  Pensei, esse ser é especial.
Pra fechar, disse que veio lendo um livro no voo, de  Jung. Ahh... ele é dos meus.

Aí ele conta que tem filhas, esposa e uma cadela, e que tem que desenvolver o lado emocional pra lidar com tanta mulher. rsrsrs

Todos se encantam com Reinaldo. Sabedoria e humildade juntos, numa amálgama perfeita. 

Perto de ir embora ele revela que sua cachorra adoeceu de velhice. Ela tem 14 anos e ficou cega, recentemente.

Mas que ela andava pela casa toda, pois aprendeu ainda quando via a se livrar dos obstáculos.

Seu canto predileto era debaixo da mesa de refeições,  Ela vinha andando e sabia exatamente onde tava os pés da mesa pra se desviar.

Aí, um dia sua esposa põe algo muito quente em cima do tampo de vidro e quebra a mesa. 

Reinaldo começa uma busca em vão, de achar uma mesa que tenha os mesmos espaçamentos das pernas, para que a cachorra possa vir até eles sem bater nos pés.

Quem pensaria neste detalhes? Só pessoas-anjo.
Procura, procura e nada. Então decide que não haverá mais mesa. 

Sua esposa reclama, fala que as visitas irão sair falando, e coisas e tal.

Ele diz que as visitas do seu lar são visitas que saberão entender o porquê de não ter mesa. E que, logo logo, a cadela partirá.

Não vai complicar a mobilidade da sua amiga cadela, com uma nova mesa, para a qual ela não saiba os espaçamentos necessários. E fique batendo nos seus pés.

Ele fala com um desapego e amor que nos deixou perplexos, positivamente perplexos.

Que deixaria de comprar um móvel para melhorar a mobilidade de um ente querido?

Ou, quem ainda hoje faz gestos concretos para aumentar qualidade de vida dos que habitam em nosso lar? Numa sociedade apressada e descuidada com o outro.
Lembro da forma como muitas domésticas são tratadas, e as minúsculas áreas a elas destinadas, menores do que casinhas de cachorro. 

Ou quanto idosos habitam em nosso lar e não recebem o respeito e atenção que Reinaldo teve para com sua cadela. Vivem batendo nos pés da mesa de nossos lares e não fazemos nada para ajudá-los.  
Quanto amor o Reinaldo tem por sua cadela!
Quem ama, transforma realidades. Supera desafios, inventa possibilidades, e vai, faz e acontece. 

Como é bom ter alguém que cuide de nós, que veja nossas necessidades e seja solidário a elas.

Aquela foi a cereja do bolo da auditoria. 

Agora não era mais um sisudo auditor. 

Era uma pessoa de carne e osso, daquelas que quando se apaixonam movem montanhas para fazer o bem àqueles que ama.

Felizarda família do Reinaldo. Se ele tem esse tipo de preocupação e desapego, para melhorar a qualidade de vida de sua cadela, imagine de suas filhas, esposa e, porque não dizer, família e amigos.

Hoje li que a jovem  Mikhaila Copello, 22 anos, sozinha evitou que um ladrão fosse linchado na zona oeste do RJ.  " Pode-se falar de instinto, mas eu levantei. Fui até o sujeito, separei a briga, aos berros, enquanto uma multidão se reunia aos gritos de “mata! mata!”, Pra eles falei: Quem defende essas pessoas não é defensor de bandido ou de monstros, mas está dando uma chance a vocês de não se tornarem um monstro como eles."

O mundo seria muito melhor se tivéssemos mais Reinaldos e Mikhailas... ahh como seria!

Dilemas Éticos


Hoje vi pessoas em frenesi,
comprando passagens da GOL.
Horas depois, o site foi tirado do ar
e a Empresa revelou um sério erro no lançamento dos valores, no seu sistema.
A Empresa declarou que irá honrar os compromissos das vendas.
Contudo, e para refletir,
você se sentiria bem tendo comprado uma dessas passagens,
a um preço exorbitantemente errado,
cuja falha pode levar a demissão de trabalhadores?
Imagine, numa situação remota,
que a Empresa viesse a lhe pedir desculpas,
solicitando sua autorização para estornar a venda,
você autorizaria?
Eu autorizaria?
E se fosse uma venda minha,
por exemplo no Mercado Livre,
a um preço exorbitantemente errado
- uma falha minha ao lançá-lo,
e, se eu pedisse desculpas
e o estorno da venda ao meu cliente,
gostaria que ele aceitasse?

São os meus, seus,
nossos dilemas éticos de cada dia.

Cuja resposta a eles, fará toda a diferença na construção de uma nova sociedade.

Adelmo, o Mordomo do BB



Terça feira passada meu diretor de Tecnologia, o Luizinho, chamou-me para acompanhá-lo ao Ed. Sede III, "O Olimpo".

- Amanhã faça a barba e venha de paletó.


Missão dada, missão cumprida.


Na quarta, estava todo brilhantina e lustrado, um verdadeiro bonitão das tapiocas.

Perto do meio dia, ele pede que eu desça. Seguimos para o Ed. Sede III, no qual funciona o "Olimpo" do BB.

Para nós, da casa, é a sede do "quartel general", local onde o Presidente, Vice-Presidentes e Diretores despacham.

Entrando no elevador ele pediu 25 andar, nos meus 28 anos de BB nunca tinha entrado ali, lugar sagrado, quase que a cozinha do BB. Deu um frio na barriga. Já tinha ido até o 24.

Nunca tinha entrado naquele andar. Ali funciona um restaurante. Local onde os executivos do BB podem almoçar, levando inclusive convidados. É uma maneira prática de conciliar longas jornadas om uma pausa para as refeições.

Logo na entrada vejo o Dezena, Vice Presidente de Tecnologia, o Osmar Dias, Vice-Presidente de Agronegócios e Micro e Pequenas Empresas, e a Patrícia Midon, secretária do Dezena. Eles nos avistam e nos chamam para dividir à mesa.

Um frio na barriga. Nunca tinha entrado naquele lugar, muito menos almoçado com os "capa-pretas".


Sou salvo pelo cardápio, rsrs, carneiro e risoto de cachaça.

Mas um pouco ocupam nossa mesa o Gueitiro, Diretor de Crédito Imobiliário e o Clênio, Diretor de Agronegócios. Clênio cumprimenta-me efusivamente. Abraçamos-nos como velhos amigos. No passado, estivemos juntos em importantes eventos do BB.
Dezena, vendo minha caipirice, puxa assunto de poesia, feira-livre, São João de Campina Grande.

Osmar, conta um tropeção que deu ao levantar da cama, e bater numa estátua de uma santa que recebeu do Clênio. Clênio convida a todos para em outubro participarem do Círio de Nazaré.
Aos poucos vou relaxando. Ali estão pessoas como eu, não estou no Olimpo.
Os tempos do Olimpo ficaram pra trás, e que bom.
Só não tenho coragem de repetir o prato.
Na saída, umas pessoas me cumprimentam, sentavam noutra mesa. Minha amnésia me trai. Depois, no carro, descubro que era o pessoal da Auditoria do BB, Rudnei e o Auditor chefe. Fui traído pela memória. Já fizemos bons trabalhos juntos ao ajudarmos na criação do curso Auditoria Baseada em Riscos.
Dirigindo-nos ao elevador cruzamos com o chefe dos copeiros do restaurante. andar.
Luizinho sorri, puxa-lhe num canto e a mim, e diz, este aqui daria um livro.
Luizinho me apresenta o Adelmo.

E, ainda bem que a reunião do chefe era pras 15hrs.
Ficamos um bom tempo extasiados com as histórias do Adelmo, este que está entre nós dois na foto.
Sabe aquele filme "O Mordomo da Casa Branca"? Pera aí que já te conto.

Pois bem, se houvesse um filme: o Mordomo do BB, o papel principal seria do Adelmo.

O mordomo do "Olimpo", o Adelmo, tem 34 anos que serve aos executivos do BB no restaurante privativo. Já viu de tudo.
Foi testemunha ocular das mudanças em nosso país, do processo de redemocratização, da inflação, da abertura de mercados e da estabilização da moeda.

Viu muitas trocas de Presidentes da República, e consequentes mudanças na gestão do BB.

Testemunhou, em nossas expressões fisionômicas (o corpo fala) nossos momentos mais difíceis: Fim da Conta Movimento; Ameaças de Privatização; Balanços Deficitários; Injeção de Capital Tesouro; Greves Históricas e o PDV.
Viu os bons áreas da estratégia de Desenvolvimento Regional Sustentável e de Responsabilidade Social.
Viu o Agronegócio virando um dos principais mercados negocial.
Presenciou almoços, verdadeiras celebrações, eram os frutos sendo colhidos e os bons resultados chegando. Viu discussões mais acaloradas, sobre os rumos de nosso BB, entre uma garfada e outra.
Mas, principalmente, viu pessoas que amavam esta Instituição: com ela alegravam-se, preocupavam-se, sofriam e esperançavam novos tempos.
Ahh, se aquela copa falasse!
Parte da história do Brasil ali foi discutida. Apoiar ou não apoiar o crédito, num momento que todos os outros agentes financeiros tiram o pé do acelerador?
Adelmo, com seu cafezinho na hora certa. Com uma sobremesa aqui, um suco acolá. Com um docinho, ia fluidificando os diálogos.
Já viram o filem a Festa de Babete, acredito que ele foi um pouco Babete na instituição BB.
Proporcionou, servindo à mesa, que pessoas se encontrassem para além de seus crachás e poderosos cargos.
Encontram-se na singularidade de comerem juntos.
Na profunda humanidade de dividir à mesa e nos deixar melhores, garfada à garfada, como se o alimento do corpo entrasse na alma.
Quem nunca se sentiu melhor na cozinha da vovó?
Cozinhas são lugares mágicos e místicos. Lugar de ajuntamento, de celebração.
Lugar de renovação das forças.
De encontros, de prazeres que dão água na boca e catalisam relações.
Adelmo nos conta que ano que vem vai se aposentar
Vai voltar para Belo Jardim-PE e cuidar de "sua velhinha", sua mãe. Viver os últimos anos dela, ao seu lado. Diz que chegou na fundação de Brasília, há 54 anos. Que a Asa Sul era dos Maranhenses e a Norte dos Cearenses. Agora entendo porque o Carneiro e Picanha tá na Norte. rsrs
São simples e belos os sonhos do Adelmo.
Lembra-se de cada alto-executivo que serviu. E, para todos, guarda uma recordação de admiração, de reconhecimento. Só deixou adentrar no seu coração coisas boas.
Diz que sempre gostou de trabalha como copeiro, nunca pensou em mudar de profissão.
Ali se realiza. Gosta de identificar os pratos que mais apetecem seus clientes e encantá-los.
Olha pra mim e diz que fui o primeiro a servir-se do Risoto de Cachaça, sorri aliviado
"Coisa de nordestino, sabe o que é bom."
A cachaça é numa micro-dose, só para realçar os sabores e melhorar a elasticidade do Risoto, conta-me.
Adelmo, satisfeito e radiante, diz que o atual Presidente do BB, o Dida, bate o recorde de permanência no cargo, 5 anos e 4 meses. O recorde anterior era do Oswaldo Colin, 5 anos. Fala do Dida emocionado.
Diz que ele o trata como pessoa, e é sempre atencioso com ele. "Cabra trabalhador é aquele, vara as noites aqui. Arregaça as mangas e resolve tudo".
Conta que uns entravam ali e não o via, outros puxavam conversa e gostavam de trocar amenidades.
Existem muitos Adelmos, Corporações afora.
Pessoas que são verdadeiros monumentos organizacionais, cuja história confunde-se com a da Instituição. Pessoas que testemunharam a evolução e mudanças da Organização, vendo-as num prisma privilegiado.
Uma que pena que muitos se tornam invisíveis, peças de mobiliário.
Perguntamos ao Adelmo qual seu segredo de tanta disposição e vitalidade.

Ele nos conta que é o trabalho.

Que vem da alegria de servir.


Sabe tudo este Adelmo!

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