Um Regador de Luz




Uma luz diferente acompanhava a manhã desse domingo. Não era nem oito horas e o céu já descortinava-se num azul primavera estonteante.
Saí em direção à feira livre de São Sebastião-DF, na qual bato ponto todo domingo cedinho, na mesa da Pastelaria La Deysy.
No caminho, a luz me acompanha, o dia está místico, pensei. Nessas horas, em que isso me acontece, presto mais atenção. Não é sempre, mas hoje a luz está ali, querendo me falar algo.
Já chegando próximo à Av. Comercial, vejo um senhorzinho no aceiro da pista, ao lado da calçada, do lado direito, no qual não têm casas.
Olho, mas não vejo, apressado que estava e já processando a agenda que iria cumprir na feira: alfaces, espinafre, brócolis, carregador de celular, bicicleta do JG pra consertar, churrasqueira de espeto para comprar, e leite gourmet, direito da vaca, para fazer coalhada.
O carro segue por uns 200 metros, e a luz me fala. Você não viu aquilo?
Breco o carro, subo a calçada e dou meia volta. Vou passando devagarinho, o mesmo senhorzinho está ali.
Numa mão um balde, na outra uma panelinha pequena, como um papeiro.
E, ele está molhando as plantas, num singelo canteiro que certamente ele fez e cuida.
Ele me ver tirando a foto. Sem jeito, por ter invadido a privacidade dele, corro pra me apresentar e louvar seu gesto, de molhar as plantas. Apresento-me, e ele também: "Meu nome é Valdecir".

Saio para a feira com o gosto do gesto do Valdecir na minha mente. Mudou meu dia. Ele era a luz. E eis que a luz se fez.
Pensei, vou comprar uma flor para presentear Sr. Valdecir. Dito e feito, escolhi um hibisco cor de laranja, bem formado e com muitos botões. Apressei o passo da agenda, e, perto das 9h30min encostei no barraco em que ele me disse que morava com a filha. Trata-se de uma ocupação irregular, para qual eu sempre torcia o nariz quando por ali passava.
O barraco fica na calçada esquerda, da que ele fez o canteiro. Veja na foto que terá uma ideia.
Bato palmas e ele sai. Já vem abrindo um sorriso, digo-lhe que vim presenteá-lo com uma muda. Ele me diz que eu não posso presenteá-lo e ir já embora, que preciso tomar um café com ele.
Aí ele abre o portão, coloca-me pra dentro do singelo lote, no qual nos fundos mora sua filha mais nova, com dois netos, e ele mora num barraco ao lado, de uns 16m2, que construiu ni lote para não "incomodar a filha". No seu barraco tem quatto e banheiro, uma saleta e a cozinha, tudo numa meia água, de 3 metros de largura, por seis de comprimento.
Entrei ali e senti uma tremenda paz. As paredes do barraco forradas por fotos, de todas as épocas e motivos. Ele me serve o café e começa a contar-me sua história. Diz que veio de Princesa Izabel-PB, ainda jovem. E que teve sete filhos. Seis deles moram em Brasília e uma voltou para Paraíba. É viúvo. Diz ainda que tempos atrás vendeu sua casa, "uma casa boa" no centro de São Sebastião, e com o dinheiro dela comprou dois barracos para os filhos, e ainda ajudou a filha mais nova, que vive com dificuldade para criar dois filhos e é solteira.
Seus filhos protestaram, ao que ele respondeu-lhes "Deus já me deu sombra demais, agora é hora de eu dar sombra para meus filhos".
E vendeu tudo para cuidar da caçula, e netos, e viver perto dela, apoiando-lhe no que precisa.
Tomei mais uns goles do café, emocionado. Sua casinha toda pra fazer ainda. Paredes sem pintura, banheiro sem cerâmica, cozinha apertada e quente.
Mas, eu me sentia num palácio. Quanta paz tem ali! Quanta luz vinha do coração grato e sábio de Sr. Valdecir.
Aí ele foi me mostrando, foto a foto, como se estivéssemos numa galeria do Louvre.
Falava de cada bisneto, neto, filho, filha e seus agregados com tanto carinho, com tanto esmero, que dava gosto ficar ali ouvindo.
Não havia um ponta de mágoa, de resignação, dele só saiam coisas boas, para com todos que mostrava as fotos. Até o que "abandonou a filha" mereceu uma palavra de respeito. "Ele soube que era melhor partir, não maltratou minha filha, e fez a coisa certa. Entre eles não deu. Paciência. Mas é um bom rapaz".
Na saída fizemos um self, não sem antes prometermos não nos perdemos um do outro, e inserir na minha agenda domingueira o café do Sr. Valdecir.
Que do alto dos 75 anos, de uma pele enrugada e tostada pela vida difícil que teve, dele não ouvi uma só palavra de murmuração, reclamação ou queixa da vida.
Ele falou-me que vai plantar "o nosso hibisco" no meio do canteiro que ele fez. Falou "nosso", e fiquei profundamente emocionado.
Pronto amigos(as), agora tenho um pé de hibisco pra chamar de meu, plantado de "meia" com Sr. Valdecir.
Trocamos telefones, abraços fraternos, e nos despedimos. Com o mesmo enlevo com que a luz se despede do dia.
Domingo vou pedir que ele orce a cerâmica do banheiro, vou presenteá-lo com a pintura de sua casa e terminar o banheiro. É o mínimo que posso fazer, "Deus também me deu muita sombra".
Pessoas como Sr. Valdecir são anjos entre nós. Elas possuem um sentido da vida que as tornam inabaláveis. O propósito de Sr. Valdecir excede sua família, atinge os amigos, eu que passei por lá, e você que está lendo.
Atinge também a natureza, fazendo seu canteiro onde antes não existia nada, apenas um terreno abandonado e cheio de lixo.
Todos os dias ele carrega pesado balde, para sua idade, atravessa a rua, e molha uma a uma suas - aliás, nossas plantinhas. Não deixou de servir, de se sentir útil, de melhorar o mundo no qual habita.
Seu gesto de doação aos filhos é uma lição. Quantas famílias se destroem justamente na hora do inventário. Ele não. Antes de morrer já deu e dá do seu melhor.
Agora entendi de onde vinha aquela luz. É a luz de pessoas do bem, pacatos cidadãos de nosso querido Brasil. Eles estão por toda parte, com seus baldes e panelinhas irrigando corações e mentes, de pessoas prestes a desistirem de regar a semente da esperança.

Aquela água que Sr. Valdeci molha suas plantinhas é a água da vida. A água que nos torna viçosos, corajosos, otimistas e cheios de garra para superar nossos limites.
Então, inspiremo-nos nele. Corramos para adotar um jardim, compreenda a analogia.
Que possamos ser acolhedores como ele, que possamos abrir nosso lar a um estranho e oferecer hospitalidade e amor, regados por um cafezinho sem bolacha, que possamos parar com tanta falta de tesão pela vida, com tantas vidas no piloto automático, sem mais prestar atenção que ainda podemos ser bênção para quem nos rodeia.
Será que não tem alguém perto de ti precisando de um pouco de água?
Será que não tem alguém precisando de tua sombra?
Será que não tem alguém precisando de tua luz e acolhida? Corações cansados, que só precisam entrar no teu lar para de lá saírem renovados, restaurados em sua força de viver.
Ame por inteiro, bobamente, entusiasticamente, viver é bom demais.
Deixe de guardar besteiras e tranqueiras no coração.
Desapegue-se de tudo que te intoxica emocionalmente, até de certas pessoas.
Seja inteiro e intenso em tudo que faz. Seja ternura, paz, mansidão e generosidade. E dará uma sombra boa, para que sob ela habitem pessoas que precisam descansar, às vezes até de si mesmas.
Não vejo a hora de domingo chegar na sombra de Sr. Valdecir.
Mas, antes disso, amanhã ligarei para ele, perto das 9hrs, vou saber se ele molhou nosso hibisco.
Sim, agora é nosso! Temos um hibisco em comum.
Não podia ir dormir com tanta emoção que degustei da vida, pela manhã, sem dividi-las com cada um de vocês que me leem.
Vocês que tornam minha vida melhor. E, antes que me esqueça, obrigado por existirem. Vocês são sombra em meu viver.



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