Doçura, sabor de Miraculina (Por Ricardo de Faria Barros, psicólogo)


Voltei de Juazeirinho com uma bagagem duplicada. Numa delas, o mel de abelha, escuro e espesso, comprado numa feirinha qualquer. Na outra, invisível aos olhos da alfândega do coração, o mel que se bebe em forma de convívio.


Estive com tio Edmundo e tia Carminha. E se existe uma palavra pra explicar tia Carminha, é essa: doçura. Palavra rara, difícil de encontrar em estado puro, mas que nela mora inteira. Os Barros são assim. Carlos, Barrão, Luís, Flávio, todos com essa marca por baixo da pele. Homens do sertão, criados naquele código antigo que ensina a esconder sentimento como quem esconde dinheiro debaixo do colchão, e ainda assim carregando doçura à mostra. Carlos cultiva flores. Isso, sozinho, já é uma pequena revolução silenciosa contra o script masculino que a gente mamou no peito.


Fico pensando que doçura só se entende de verdade pelos seus opostos. Tem gente ácida, que sabe tudo de tudo e usa esse saber como faca. Tem gente amarga, que não deu conta de digerir as perdas da vida e foi ficando refém do próprio rancor, regando ele feito planta de estimação. E tem gente salgada, que só de chegar perto já sobe a pressão da roda, agressiva, agitada, ou fechada feito porta emperrada. Ácido, amargo, salgado. Nenhum se degusta fácil. A gente faz careta.


Só que existe também a Salve Rainha. E ali, na primeira estrofe, alguém escreveu doçura pra falar da Mãe de Jesus. Não escolheu bondade, não escolheu pureza, escolheu doçura. Acho que quem escreveu aquilo já tinha provado, na pele, o que é conviver com alguém assim. Ou talvez fosse ele mesmo essa doçura, e só estivesse descrevendo o que conhecia por dentro. Fico pensando que seria bonito de sobrar isso num epitáfio. Aqui jaz uma pessoa cuja vida foi uma doçura.


Porque doçura tem paladar variado. Tem doçura tipo bondade, tipo delicadeza, tipo mansidão. Tem a que vem em forma de carinho, de empatia, de doação inteira sem cobrança de troco. O porteiro do meu prédio é uma dessas. Seu Francisco. Ele tem prazer no bom dia que dá. Prazer em servir. Sempre arranja um minuto pra um dedo de prosa, e traz o sorriso estampado, não no rosto, no peito. Seu Francisco tem o dom de uma fruta chamada miraculina. Poucos conhecem. Ela tem a propriedade de, segundos depois de mastigada, criar uma espécie de véu no paladar que transforma o ácido em doce. O limão mais azedo vira quase sobremesa.


Acho que é assim a doçura das pessoas. Ela não neutraliza o mundo áspero, ela muda a forma como a gente experimenta esse mundo por um instante. Diminui a acidez do encontro. Desidrata um pouco o excesso de sal de vidas penduradas no varal feito carne de sol, endurecidas de tanto sol e vento. É pouco, e é tudo.


Doçura é item raro na dispensa da humanidade. Quem tem uma por perto devia saber que tem, ali ao lado, uma dádiva.


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