Aromatizador


Gosto de aprender com a história, e o que aprendo compartilho. Esse aprender foi extraído do livro: O Poder do Hábito, de Charles Duhigg. Trata-se da história de uma descoberta que creio todos temos em casa, pelo menos um exemplar dela. 
É a molécula química chamada hidroxipropil-beta-ciclodextrina, ou, para os íntimos: HPBCD.
Era idos de 1993 e um químico da Procter & Gamble fazia experiências com a HPBCD. Passou o dia mexendo nela.
E de todas as formas. Em spray, dissolvida em água, como solvente, misturada a outros produtos. Ele estudava seu poder de limpeza.
Esse químico fumava bastante, e naquela tarde fumou mais ainda.
Era rotina, quando ele chegava em casa, vindo direto do laboratório, a sua esposa colocar imediatamente suas roupas para serem lavadas, tal o odor de cigarro nelas impregnado.
Naquela noite ela perguntou-lhe, com uma certa desconfiança, onde ele trabalhou o dia todo, já que não havia cheiro algum de nicotina.
Ele respondeu-lhe como cientista, "trabalhei no laboratório", processando mil equações na sua cabeça sobre o que tinha ocorrido com o fétido cheiro de cigarro expelido.
Pensou, será?
No outro dia, mal dormindo na noite anterior, correu de volta ao laboratório e testou sua última fórmula, aquela em spray, nas suas roupas, já bastante fumadas desde que ele acordou.
Bingo. Não havia mal cheiro algum. A HPBCD se plugava nas moléculas de cheiro ruim e anulava seus efeitos.
Após vários testes com outros odores vomitantes, e comprovando que não ficava cheiro ruim sequer, a P&G investiu pesado na multiplicação daquela molécula comercialmente, e, três anos depois, lançou com estardalhaço um novo produto de limpeza de ambientes, investido perto de 300 milhões - da produção à comercialização, inclusive marketing.
Deu-lhe o nome de Febreze.
O foco da propaganda era pessoas que criavam gatos, cachorros, fumantes, esportistas e chuleizentos de toda categoria.
O lema era: Febreze tira o cheiro ruim de eu lar.
Não precisa nem dizer que foi o maior fiasco comercial da P&G.
Não precisa nem dizer que foi o maior fiasco comercial d depois esquecia de aspergir o produto, pois quem cria cheiro ruim em casa acaba por se acostumar com ele. E não se motivava a tirá-lo, já é de casa.
Em 1998 a P&B chamou alguns especialistas em comportamento humano e marketing para identificar o porque da resistência, ou do "abandono do tratamento" pelos que ainda compravam.
E aí ela descobriu uma coisa linda, que o ser humano não se mobiliza pelo ruim.
Ninguém quer assumir que a casa fede.
Mas, se alguém nos diz que aquele produto "é como uma brisa de ar fresco, eliminando odores desagradáveis e deixando no ambiente uma fragrância de frescor e limpeza", opa, aí a coisa muda de figura.
O foco das campanhas de relançamento do produto em 1998, saiu de: "tirar o odor ruim", para, "purificar seu ar, após a limpeza".
Limpeza era uma coisa que todo mundo fazia, então logo criou-se um novo hábito: após a vassoura, esfregão e rodo, algumas baforadas de "bom-ar" para fechar o processo com chave de ouro.
E aí o produto deu um resultado positivo, ao final de dois anos de relançamento, de um bilhão de dólares.
O produto era o mesmo: a mesma hidroxipropil-beta-ciclodextrina.
Só mudou a forma de posicionar seus resultados. Para além de retirar o odor fedorento, ele foi posicionado como purificador de ambientes. Quem não quer um ar mais fresco e de qualidade?
A primeira abordagem enfatizou o negativo: eliminador de mau cheiro.
Na segunda, enfatizou-se o positivo: renovador de bom ar.
Uauuu!!!
Vejo líderes religiosos, e seus agentes cartoriais pregando a fé como a primeira abordagem. Pelo dogma, pelos ritos mofados, com forte ênfase no pecado, no capeta, no que não pode, num Deus tirano e castigador. Amedrontando todos. Igrejas vazias.
Vejo outros líderes religiosos pregando a fé como a segunda abordagem. Pelo o amor de Deus, pela sua misericórdia, perdão, graça e mística da caminhada. Igrejas cheias.
Vejo gerentes falando do trabalho para suas equipes como a primeira abordagem do Febreze, destacando os aspectos negativos. Se não cumprir a meta; olha a avaliação; se não fizer isso, ou aquilo... Equipes mornas, no piloto automático, com medo e desconfiança.
Vejo gerentes falando do trabalho para suas equipes como a segunda abordagem do Febreze. Destacando o sentido dele para a qualidade dos negócios, para a sociedade e competitividade empresarial. Equipes motivadas, comprometidas e inovadoras.
Penso que esse ensinamento vale para todo tipo de relação: afetivas, profissionais, religiosas, educacionais...
Sempre podemos trocar o "tira o mau cheiro"; pelo: "purifica o ambiente".
Educar pela força do amor, educar pelos valores, educar pelo bom exemplo.
Na primeira abordagem os resultados são sofriveis.
Na segunda, os resultados crescem exponencialmente, dia após dia. São consistentes.
Quanto ensinamento na molécula de HPBCD.
Quando focamos no que sobra, a falta vai perdendo espaço e diminuindo. O bom ar suscita mudanças, cultiva novos tempos e libera renovações. Sejamos um bom ar para os que conosco cruzarem o caminho. Nunca, apenas, um desorizador de ambientes. É muito pouco.
O que o amor nos faz, quando nos toca, é muito mais que isso: tirar nosso mau cheiro emocional.
Na verdade, isso é dos menos importantes dos seus efeitos.
Os de mais relevância são os de passarmos a ser aromatizadores emocionais de ambientes e pessoas, o de nos mobilizar ao resgate de um estilo de vida com maior bem-estar, o de restaurar nossos espaços de qualidade da vida, e o de renovar sonhos, tais quais aqueles que temos quando sentimos na face o frescor de manhãs primaveris. O amor é nosso bom ar, nossa HPBCD.

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