Têm coisas que a gente vive e, na hora, não consegue escrever. Precisa deixar a cena assentar por dentro, feito poeira de estrada depois que o carro passa, até entender o que ela mexeu na gente.
Foi assim com essa corrida.
Eu já tinha estado do outro lado duas vezes, na torcida.
A primeira foi pela Marciele. Fizemos uma faixa aqui em Brasília e levamos na bagagem até Porto Alegre. Quando nos juntamos às filhas, irmãs, cunhados, sobrinhas e à mãe dela, viramos o time da torcida da Marci. Foi uma animação só! Gente gritando, pulando, balançando faixa como quem balança bandeira em final de campeonato.
Mas eu nunca soube, de verdade, o que ela sentiu ao nos ver ali, na linha de chegada, vibrando por ela.
Depois veio o Peu, o Pedro Henrique, que chegou a Brasília para uma prova de triatlo. E lá estávamos nós: eu, meus filhos, noras, genro, netos e a love dele. Todo mundo de camisa personalizada, a torcida oficial do Peu, gritando a plenos pulmões:
Vai, Peu!
E, de novo, fiquei sem saber o que passou pela cabeça dele ao ver aquela turma inteira ali, torcendo pela sua conquista.
Dessa vez foi comigo.
E fui pego de surpresa.
Eu estava terminando a prova de 5 km, em João Pessoa. Já tinha corrido 4.900 metros. As pernas pesadas, a respiração curta, o coração batendo no ouvido e aquela vontade de que tudo acabasse logo.
Faltavam cem metros.
Cem metros!
Quem corre sabe: nessa altura, cem metros não são cem metros. São uma ladeira que ninguém vê. O relógio anda devagar, a linha de chegada parece se afastar a cada passo, e o corpo começa a negociar com a gente, pedindo trégua.
Foi quando comecei a escutar uma gritaria.
Primeiro reconheci as vozes.
Era a Ana.
Era a Ionara.
Era o Dedé.
Os três ali, juntos, fazendo festa. Gritando. Gritando meu nome.
Eu ainda não tinha visto nada, mas já sabia que alguma coisa estava acontecendo. Olhei para a frente e, no meio da multidão, uma cartolina se mexia. Uma cartolina branca, dançando no ar, feito lenço de despedida ao contrário. Lenço de chegada.
Fui chegando mais perto.
E li:
PARABÉNS, RICARDO, VOCÊ CONSEGUIU.
Rapaz...
Aquilo me pegou.
Porque eu ainda não tinha conseguido. Ainda faltavam uns bons passos. Mas eles já estavam comemorando. Já tinham escrito, com letra de mão, uma chegada que ainda não tinha acontecido.
E foi aí que meu coração, cansado e esperto, fez a tradução por conta própria. O que os olhos leram como "Parabéns", a alma ouviu assim:
Vai, Ricardo!
A linha de chegada está logo ali.
Não desista.
Acredite.
Tem mais fôlego aí guardado.
E tinha. Eu, que já não tinha fôlego nenhum, de repente achei outro, escondido em algum bolso da alma que eu nem sabia que existia.
Foi uma coisa tão boa, tão inesperada, que fiquei abestado. Comecei a dar uns passinhos de dança, correndo. Kkkkk. Eu, com 62 anos, dançando nos últimos metros de uma prova de 5 km!
O povo em volta devia estar pensando:
"Que diabo aconteceu com esse homem?"
Eu não saberia explicar.
Eu só estava feliz. Muito feliz.
Porque ali entendi, talvez pela primeira vez, o que é ter uma torcida esperando pela gente.
Há um estudo curioso da psicologia que sempre me encantou. Pesquisadores levaram pessoas ao pé de uma ladeira e pediram que estimassem a inclinação. Quem estava acompanhado de um amigo via a subida menos íngreme do que quem estava sozinho. E quanto mais antiga a amizade, mais suave parecia o morro. A ladeira era a mesma. O que mudava era quem estava do lado.
Pois foi isso. A Ana, a Ionara e o Dedé não estavam só assistindo à corrida. Estavam fazendo parte dela. Estavam, de algum modo, correndo aqueles últimos metros comigo.
Não podiam tirar meu cansaço.
Não podiam completar os cem metros que faltavam.
Mas fizeram algo que só quem ama sabe fazer: acreditaram antes de mim. Me parabenizaram por uma coisa que eu ainda estava fazendo. Olharam para o homem cansado nos 4.900 metros e enxergaram o homem que ia cruzar a linha.
Tem gente que só aplaude depois que a gente chega. Esses aplaudiram antes. E o aplauso antecipado virou empurrão.
A Carta aos Hebreus diz que a fé é a certeza das coisas que se esperam. Nunca tinha visto essa frase escrita numa cartolina. Mas estava lá, com outras palavras: "Parabéns, Ricardo, você conseguiu." Era fé em forma de pincel atômico.
E, sem precisar explicar nada, aquela cartolina também dizia:
"Eu estou vendo você."
"Eu estou aqui."
"Eu estou feliz por você."
"Eu já sei que você vai chegar."
Não era sobre fazer um tempo bonito. Nem sobre correr mais rápido que ninguém.
Era só sobre chegar.
E sobre três pessoas que resolveram parar um pedaço da própria vida para estar na minha chegada, e acreditar nela antes que ela acontecesse.
Já se passaram três dias e ainda carrego essa sensação comigo. Ainda vejo a cartolina balançando lá longe. Ainda escuto a voz deles, como quem escuta de novo uma música boa que não sai da cabeça.
E agora entendo o que não conseguia compreender quando estava do outro lado, segurando faixa, vestindo camisa, torcendo pela Marci e pelo Peu. Sei o que é ouvir uma voz conhecida quando o corpo já quer parar. Sei o que é descobrir que umas palavras escritas à mão numa cartolina foram feitas para você.
É uma coisa simples.
Mas não é pequena.
É afeto em movimento. Amor que vira presença.
A psicóloga Shelly Gable estudou algo parecido. Ela descobriu que os laços que mais se fortalecem não são apenas os que nos amparam na dor, mas os que celebram com a gente quando algo dá certo. Vibrar de verdade com a alegria do outro é cimento de relação. São Paulo já tinha dito isso muito antes, do jeito dele, na Carta aos Romanos: alegrai-vos com os que se alegram.
A torcida não corre no nosso lugar. Não tira o nosso cansaço. Não completa os quilômetros por nós. Mas nos lembra, quando o fôlego falta, que não estamos sozinhos. E, às vezes, nos lembra de um fôlego que a gente nem sabia que tinha.
E isso não vale só para corrida. Vale para a vida.
Fiquei pensando em como a gente anda precisando disso. Entrar na torcida das coisas importantes de quem amamos. Fazer mais cartazes. Escrever palavras que empurram para a frente. Estar presente e se fazer presente. Apoiar, animar, reconhecer, valorizar.
Porque nossa época ficou crítica demais. Desaprendemos a olhar o esforço, o processo, o caminho. Tem tempo de sobra para apontar o que faltou e pouquíssimo para enxergar o que foi feito. Tem gente sobrando para dizer quanto ainda falta e gente faltando para olhar o caminho percorrido e dizer:
"Eu vi você chegar até aqui."
Falta tempo para se alegrar com quem está alegre. Falta coragem para dar parabéns antes da hora, só porque a gente acredita. Falta tempo para gritar:
"Vai, Peu!"
"Vai, Marci!"
"Vai, Ricardo!"
"A gente confia em você."
E uma palavra dessas faz mais diferença do que se imagina. Porque o contrário também é verdade: uma palavra pesada pode inibir um crescimento. Pode fazer alguém desistir. Pode convencer uma pessoa de que ela não é capaz.
Então, antes de julgar, talvez seja melhor pegar uma cartolina e escrever:
Parabéns.
Você conseguiu.
Mesmo que a pessoa ainda esteja no meio do caminho. Porque, às vezes, é justamente isso que a faz chegar.
Tem muita gente fazendo os seus próprios 5 km na vida. Gente que já está nos 4.900 metros, sem fôlego, cansada, pensando em parar. Gente enfrentando um diagnóstico, um luto, um recomeço depois da aposentadoria, uma solidão que ninguém vê. E essa gente não precisa de alguém dizendo que podia ter corrido melhor.
Precisa de alguém na beira da estrada.
Com uma cartolina na mão.
Acreditando antes dela.
Ah, tem mais uma coisa.
Eu guardei o cartaz. Aquele mesmo. A corrida foi em João Pessoa, mas o PARABÉNS, RICARDO, VOCÊ CONSEGUIU vai comigo para Brasília.
E toda vez que eu desanimar nas outras corridas do existir, vou olhar para ele. Vou lembrar da Ana, da Ionara e do Dedé. Vou lembrar daqueles 4.900 metros. Vou lembrar que já estive cansado e continuei. Que eles estavam lá. Que acreditaram antes de mim.
E vou fazer de novo a minha tradução:
Vai, Ricardo! A linha de chegada está logo ali. Não desista. Acredite. Tem mais fôlego aí guardado.
Talvez eu até dance correndo de novo. Kkkkk.
Porque aquele cartaz deixou de ser coisa de corrida. Virou lembrança de afeto, de amor, de presença. Virou um pedaço daquele dia que posso levar para os outros dias.
A mesma Carta aos Hebreus fala de corrermos com perseverança a carreira que nos está proposta, cercados por uma nuvem de testemunhas. Naquela manhã, a minha nuvem tinha três rostos, uma cartolina e algumas palavras.
Talvez seja isso que o amor faz: vira combustível quando o nosso está acabando.
A Ana.
A Ionara.
O Dedé.
E aquele "Parabéns, Ricardo, você conseguiu".
Que eu li como "Vai, Ricardo!".
E eu fui.
E vou continuar indo.
E você, pra quem faria uma cartolina hoje?

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