Um conto de Natal

Sai cedinho com o JG para colher sangue, na avenida comercial do Jardim Botânico e encontro à venda, ao lado de um velho ônibus, este conjunto de terraço feito com restos de pneus velhos. Embeveci com o impacto ambiental positivo daquele produto. Colhi o sangue e na volta parei pra fazer negócio. Sr. Natanael, artesão de borracha, como se diz, natural de Quirinópolis-Go, seguiu-me com seu ônibus-1973.

Fomos descarregar o conjunto comprado lá em casa. Entre uma cadeira e outra descarregada, não me contive e perguntei a sua história com estas belas cadeiras.

Ele me falou que sempre se sentiu um perdedor da vida.
Ao falar seus olhos marejaram.
Farejei uma crônica. Pessoas simples, histórias belas.
Ele me disse que sempre foi um usurpador da natureza, um vilão.
Sempre esteve na ilegalidade.
Derrubava campos de futebol de matas protegidas por reservas e as revendia em madeira e carvão no mercado negro.
Até que um dia foi pego e perdeu tudo.
Depois passou a pescar, mas uma vez de forma ilegal, aproveitando a época do defeso para oferecer peixes, a preços convidativos.
Mais uma vez foi pego e perdeu tudo.
Sentia vergonha das enrascadas insustentáveis em que se metia.
Mas analfabeto, sem qualificação alguma, não sabia como criar seus dois filhos e a esposa.
Passou fome, fez biscates, e pra ter alguma comida em casa saia cedinho para pescar num velho opala.
Um dia pediu a Deus uma luz. Ele queria sair desta vida de perdedor, de ilegal, de só se meter em encrencas. Ele me disse isso sorrindo, não mais com olhos marejados, mais com uma altivez invejável.
"Cuidado com o que pede, vai que ele te atenda", falou-me sorrido.
Então, um belo dia, voltando de uma pescaria o seu carro quebrou perto de uma cidadezinha Paraíso das Águas-MT.
Caminhou até á cidade pra buscar ajuda, com apenas R$ 15,00 no bolso.
Bateu de porta em porta, como um pedinte, pedindo um socorro.
Numa das casinhas que bateu, morava outro remediado da vida, outro pobre como ele.
Este, o ofereceu pernoite. Cedinho, Natanael levantou-se e com os míseros R$ 15,00 investiu tudo em pães, leite e um bolo para agradecer ao seu anfitrião.
Ao voltar percebe na porta do casebre uma discussão. Tem alguém, de forma rude, cobrando uma dívida de seu anfitrião.
Ele interveio pedindo calma.
No calor da discussão o credor diz que montou uma borracharia em Paraíso, e que está precisando de todo o dinheiro que emprestara, por isso veio cobrar.
Naquele momento Sr. Natanael percebeu que Deus estava agindo.
Lembrou-se que houvera sido borracheiro, num dos tantos bicos que fizera.
Perguntou ao credor irado se ele estava precisando de funcionário, ao que ele respondeu que sim.
Falou inclusive que estava indo na cidade vizinha tentar contratar alguém, por isso precisava de dinheiro.
Sr. Natanael revelou que já houvera trabalhado numa borracharia e que trabalharia para ele até conseguir dinheiro para consertar seu Opala, e pagar a pequena dívida de seu anfitrião, pequena para nós que lemos este texto. Para um miserável, R$ 50,00 pode significar um mês de sobrevivência.

Feito o trato. Sr. Natanael mandou buscar a esposa e filho que ficaram todos albergados no pequeno casebre de seu solidário amigo.

Numa terça à tarde, dia de pouco movimento, Natanael resolve fazer com restos de borracha um mimo para sua esposa, um vaso de flores.

Ela adora o presente. Era o pouco que ele tinha para manifestar de alguma forma o seu amor, e o seu agradecimento, por ela acompanhá-lo nesta vida tão miserável.

Então, daquele simples vaso vai se espalhando a notícia - e notícia em cidade pequena voa que ele faz trabalhos artísticos com borracha.

Um dia, um distinto senhor, o procura para consertar sua velha poltrona feita de tiras de pneus.

Natanael comenta com sua esposa. "Que cadeira feia, acho que posso melhorá-la".

E assim o faz.

O seu cliente ficou maravilhado e muito agradecido com o belo serviço.

Este distinto senhor, de Paraíso das Águas, recebia muitas visitas, e todos queriam saber onde "comprara" aquela poltrona linda. Ele indicava o Natanael.

Os negócios prosperaram. Pagou a dívida do seu anfitrião, consertou seu Opala, e voltou para sua Quirinópolis. Ali abriu seu "atelier", e já se vão oito anos.

Sua história tão rica, tão verdadeira e humana, me fez comprar outro jogo de jardim para presentear meu irmão.
Agradeci ter conhecido Sr. Natanael. Na saída deixou seu cartão e pediu-me para chamar-lhe de Natal, como seus amigos o chamam. Agora os olhos que marejaram foram os meus.

Naquela simples e suja borracharia, tal qual a estrebaria na qual Jesus Nasceu, fez-se uma vida nova.

Naquele vaso de flores de borracha, feio aos olhos de tantos, mais feito com tanto carinho pelo Natal para sua esposa, estava o milagre de Deus na sua vida!

Minha esposa achou horríveis minhas belas cadeiras. Mas ainda não leu esta crônica. Quem sabe após ler mude de opinião. Às vezes, o contexto precisa do texto, e vice-versa, para termos pretextos de rever nossas posições.

Sempre me sentirei forte ao sentar-me nas cadeiras do Natal.

Nelas, Deus manifestou seu poder de transformar vidas insustentáveis, em sustentáveis.

5 comentários:

  1. Olá, estou adorando tomar um cafezinho, sentada nas suas cadeiras de pneus, e ouvindo a história do Natal. Vejo q vc é um homem de boas pegadas e parece q na mesma semana tivemos um surto de ideias geniais com pneus, o que me rendeu 2 posts e muuuito material para outros tantos assuntos.
    Desejo a vc e família muitos Natais felizes e criativos. Boas Festas e um 2012 repleto de saúde, sabedoria, coragem e boas ações.

    Silvana Cruz - Gama/DF

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  2. Meu querido cunhado,

    Adorei ganhar de presente as cadeiras de pneus, as mesmas agora estão debaixo da minha mangueira, onde sento para ouvir e ver os lindos passáros que me fazem companhia nos fins de tarde de sábados e domingos. Esperarei a proxima safra da linda mangueira, para fazer o que mais gosto, chupar manga, saboreando-a até o caroço, como fazia sentada no batente da casa da minha mãe querida. Saudades daquele tempo e em especial dela. Obrigada cunhado, pelas lembranças revividas...Bjs.

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    1. Coisa boa, ficaram lindas. Vamos saborear as mangas juntos lembrando do céu que era dona Céu.

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  3. aline.as@inec.org.br13 de outubro de 2012 15:57

    Olá Boa Tarde,

    Meu nome é Aline e eu e meus familiares somos do ramo de venda de pneus, e de renovadora de pneumáticos, já fizemos algumas coisas com pneus, como caqueiras, meu tio fez puffs, mas achei interessantíssimo o seu jogo de terraço, gostaria de saber se te para venda e o preço...
    aline.as@inec.org.br

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  4. Querida, eu comprei de um artesão de Goiânia, creio que ainda tenho o site dele, aqui; http://www.euacheifacil.com.br/art-pneus-artesanatos/guia144588/

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