Não era somente um cookie, era o Cookie.


Cheguei pra trabalhar e encontrei um pacote de bolachinhas em cima de minha mesa. Daquelas que os americanos amam e as chamam de Cookies.
Perguntei ao pessoal quem deixara aquele mimo, porém ninguém vira.
Dias depois o Luiz cruzou comigo num evento no auditório e perguntou-me se eu tinha comigo os Cookies.
- Ah! Então foi você, Luiz?
Agradeci o delicado gesto e disse-lhe que andava tão atribulado que ainda não tinha parado para apreciar a guloseima.
No outro dia o Luiz insistiu: "Gostou do Cookie?"
Olhei para ele envergonhado e disse-lhe que na sacola de tralhas que tinha recolhido de minha baia, preparando-me para mudar de área, tinha colocado dentro dela e que tinha ficado em casa.
Na quinta logo cedinho, durante o desjejum, chamei a mulher e o JG e todos comemos os cookies do Luiz Cláudio, o LC, como gosta de ser chamado.
Pedi à Cida que fizesse uma foto, queria enviá-la com carinho e atenção ao LC.
Todos gostamos muito. Minha esposa disse: "Aprovado, pode pedir mais." O JG, que não é muito de comer, deu umas vigorosas dentadas e babou.
Quanto a mim, sou suspeito, mas preciso relatar: tava bom demais, e com um cafezinho, vixe Maria.
Chegando ao trabalho, comentei com o LC e ele me falou: "Esse cookie tem história".
Adoro ouvir histórias, dão boas crônicas e lições de vida.
E abri toda a agenda do mundo para ouvir a história do LC.
Contou-me que ele e a esposa tentaram um negócio em Joinville, na área de eventos, mas quebraram financeiramente. Tinham 26 e 24 anos respectivamente. Perderam tudo na empreitada e ainda arrumaram um monte de dívidas.
Voltar para Cuiabá, de onde saíram, seriam muito vergonhoso, pensaram.
Então, aceitaram a acolhida por uns tempos na casa de uma tia no Rio de Janeiro.
Logo, passaram a distribuir currículos, priorizando bancos e corretoras, já que ambos tinha trabalhado em Cooperativas de Crédito, em Cuiabá.
Sua esposa conseguiu primeiro um emprego, o que deu a eles a condição de alugar um "apertamento" e sair da casa da tia, começando do zero a refazer suas trajetórias de vida.
LC continuava desempregado, e passava o dia distribuindo currículos, ou limpando o apartamento. Assumindo as prendas domésticas, enquanto aguardava sua lady chegar do trabalho.
Nas noites e finais de semana, ia com sozinho ou ajudado por ela fazer faxinas em consultórios e escritórios comerciais. Que companheira!
Mas, passar o dia em casa esperando um contato pra entrevista, ou uma nova agenda de limpeza, estava tirando a paciência e orgulho próprio do LC.
Vejam seu relato:
" Minha esposa trabalhando numa empresa média/grande, com um bom salário e sendo o pilar de sustentação da casa. Fato que causa desconforto em qualquer homem, por menor que seja o pensamento machista (que não tenho quase nada), isso incomoda, pois sempre queremos prover o lar, é da natureza masculina.
Tentando fazer um agrado a minha amada, num dia fiz uma receita de biscoitos, também conhecidos como cookies (pois é uma receita americana), para que ela tivesse um delicioso lanche a saborear. Dessa leva de cookies, sobraram alguns que ela acabou levando ao trabalho e distribuindo aos seus colegas, muitos deles gostaram tanto que propuseram comprar se ela topasse.
Ao voltar para casa, e comentar comigo a intenção dos seus colegas, meu coração ficou feliz, enxergava ali uma oportunidade de voltar a ser útil. Claro que manter a casa limpa, organizada e com seus demais afazeres domésticos é um trabalho árduo, no entanto sei que poder ajudar no orçamento doméstico trás um sentimento de pertencimento maior ainda aos homens."
LC passou a produzir cookies e sua jovem esposa a vendê-los no Banco. Cada dez cookies vendidos dava-lhe uma renda/dia de uns R$ 20,00 líquidos.
Agora LC tinha uma ocupação.
Então, feliz da vida com sua pequena fábrica caseira, resolveu - entre uma fornada e outra, dar uma volta no corredor do prédio, estava calor no apartamento.
Eis que cruza com seu vizinho, também desempregado, que comenta do cheiro bom que vem do ap. do LC.
LC, sábio e solidário, convida o vizinho pra entrar na sociedade.
Ele só precisaria vender, não precisava colocar capital algum.
O vizinho animou-se, e viu que daria para vender por um preço maior nas freguesias de serventuários públicos que conhecia.
Dito e feito. A renda diária do LC quadruplicou. Agora ele quase fazia 1,5 SM e estava feliz da vida.
Seu vizinho distribuía as bolachas pela manhã. E à tarde estudava pra tudo que era concurso.
Logo ele também ficou amigo da esposa do LC.
Juntos, um dia, insistiram pra LC fazer o concurso do BB. LC não era de fazer concursos.
Ficou resistente a ideia, não queria nem pensar em ter que parar a produção de biscoitos (cookies) pra investir nos estudos.
Quem passou por grande dificuldade financeira na vida, quem já quebrou e teve que vender até o pó da gaita pra sobreviver, sabe que quando aparece um pequeno raio de sol, mesmo que vindo de fornadas e fornadas de biscoitos, ons sujos banheiros de prédios comerciais, nos agarramos a ele e temos medo de novamente perder tudo.
Costumo dizer que a vida nos devolve em ciclos o que de bom, belo e virtuoso fazemos aos outros.
O vizinho e a esposa do LC inscreveram-no no concurso do Banco do Brasil, que aconteceria em dois meses no RJ.
Não disseram nada a LC. Não adiantaria e ele ficaria chateado. Ele poderia até distorcer a atitude da esposa, achando que ela não queria mais que ele fizesse biscoitos, ou desqualificando a atividade.
Sabe-se lá. Quando estamos com auto-estima baixa tudo é visto pelo binóculo da emoção. O fato foi que seu amigo, sócio e distribuidor privilegiado de biscoitos, inscreveu escondido o LC com o consentimento da sua esposa.
Ele estava devolvendo ao LC a empatia e solidaridade para com ele, também antes desempregado e concurseiro, e agora distribuidor de biscoitos - empregado, e ainda concurseiro.
Três dias antes da prova, avisaram ao LC que no domingo ele teria compromisso. rsrs
Ele relaxou. Foi lá com raça e atitude. Lembrando das disciplinas do colegial e de suas experiências profissionais que ensinam muito, mesmo em que algumas delas nos estrepemos.
Passou e bem, 89º colocado.
E, em julho de 2010, três anos depois de quando chegou puxando uma cachorra no RJ, tomava posse no BB na agência de Venda das Pedras - RJ.
Por três anos fez faxinas e cozinhou cookies, mas não perdeu a dignidade e otimismo de dias melhores.
Cinco anos depois, nessa manhã de sexta feira 13, de novembro/2015, todos de nossa Divisão de Capital Humano são presenteados pelo LC com seus Cookies.
Escritos em letra maiúscula agora. Pois, representam o que no nordeste chamamos de "quem dá nó em pingo d´água". Gente valente e briosa, que não desiste fácil. Que não fica fazendo mi mi mi, resmungando e reclamando, sentado à beira da estrada, enquanto a caravana passa.
Gente que faz sua história, e com o que dá é feliz.
Não há vergonha em ser pobre. Não há vergonha em limpar privadas. Em limpar casas, "se humilhar" pra vender doces de porta em porta.
Não, amigos e amigas, isso não é tema de vergonha. Isso é coragem, e das boas, coragem em não desistir.
Em não adentrar nos vestiários do jogo do viver, antes do apito final.
Tanta gente desistindo da vida, em condições bem melhores das que o jovem casal LC passou e não desanimou.
Estamos suscitando pessoas frágeis, pouco resilientes, gente que se desmotiva por tudo, que vive procurando coisa pra ser infeliz, que desaprendeu a resistir e a ousar acreditar num futuro melhor, mesmo que enquanto sonha com ele tenha que ensaboar um piso qualquer.
Obrigado pela história de vida LC. Agora sei de onde vem teu sorriso sempre estampado no rosto, teu otimismo, gentileza e mansidão. Vem do que foi aprendendo com a melhor de todas professoras: a vida.
Com ela aprendeu a melhor de todas as lições: A de "encorajar" a existência.
Coragem em continuar acreditando, procurando possibilidades, em locais que muitos só enxergam limites e dificuldades.
Coragem de não desistir, de sobreviver um dia de cada vez.
Quanto amor nesse jovem casal. Como tua saga LC inspira a de milhões de brasileiros que todos os dias disputam, passo a passo, um lugar ao sol.
Sim, um de teus biscoitos que hoje ganhei guardarei no saco. Fará parte de meu dicionário afetivo de coragem.
Todas as vezes que os dias não forem tão bons, quando eu pensar que virei um inútil, que não tenho mais serventia, irei olhar para esse biscoito e dizer comigo: "quem sabe se eu fizesse uns docinhos pra vender...".
E, todas as vezes que achar que não existem pessoas boas, que o mundo tornou-se um lugar inóspito onde só imperam o mal e a opressão, lembrarei de tua esposa - do gesto dela levando os biscoitos, aqueles da tua redenção, ao trabalho.
E o de teu vizinho de apartamento que acreditou em ti, não te roubou na sociedade, e ainda te inscreveu para o concurso, mesmo sabendo de tua resistência em fazê-lo.
Hoje eu batizo teus cookies: Sabor de Esperança. Já não são cookies qualquer. Quem prova da esperança nunca terá fome de nada ou ninguém.
Em tempo: O vizinho do LC passou num concurso na área judicial e vive bem no RJ. Adiane, esposa do LC, deu-lhe uma linda filha, a Alice de 6 meses. Hoje, cuida da Alice, do LC, dela e do lar.

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