Harmonias impensáveis e inspiradoras (Autor Ricardo de Faria Barros)


A primeira vez que entrei num Centro de Tradições Gaúchas foi ontem à noite, aqui em Brasília, num show em homenagem à Luiz Gonzaga, patrocinado pela Acampi - Associação Cultural dos Amigos do Piauí. Sou paraibano e almoço num restaurante cujos donos e familiares são piauenses, foram eles quem me convidaram.
A Acampi esperava umas 400 pessoas, mas tiveram que improvisar mesas e cadeiras, pois esse público estimado triplicou.
No palco, a Orquestra Sinfônica de Teresina (OST), apresentando sua magistral Cantata Gonzaguiana.
A cada interpretação, podia sentir a emoção no ar. Entre asas brancas e léguas tiranas, aprendemos o valor de celebrar a vida, a arte do encontro, o valor da palavra, do humor e da ajuda fraterna
Somos assim, um povo falante e amigo.
Pelos participantes desfilavam formosas gaúchas e gaúchos, todos paramentados em seus trajes típicos, dando ao ambiente um toque de Brasil universal, sem muros ideológicos e preconceituosos, que estamos a precisar. Um Brasil singular, complexo e multicultural.
Isso é o que chamado de respeito e valorização da riqueza de nosso povo.
Perto de nós chamou a atenção um casal que desfilava por entre mesas com um carrinho e bebê. Meu filho disse, pai, acho que estão sem mesa. E estavam.
Chamamos para nossa mesa, afastamos umas cadeias, bolsas, e os acolhemos. Ele é de Santa Maria-RS e ela de Teresina, o fllhote de 8 meses, o Artur, já é Brasiliense.
Na saída, fui premiado por eles do raro DVD do show, já que ninguém sabia se tinha para vender e onde era. Creio que as cópias esgotaram-se logo, e por isso eles meio que "esconderam" a comercialização. Mas, meu inquilino de mesa de bar, fez um mimo e ao encontrá-los, trouxe um para ele e um para mim.
Após a canja, feita pelo primo do dono do restaurante em que almoço, Sr. Zé Nascimento, escuto vindo da mesa de trás um "Professor Ricardo".
Aí a festa foi completa, era um aluno da Faculdade Projeção, na qual lecionei no curso de Administração, por uns quatro anos e ali fui muito feliz.
Ele trouxe o clã interior do Piauí, tinha uns 20. E, fez questão de apresentar-me a todos e todas, sempre com palavras elogiosas ao seu professor.
Quando o pai do FrancildoMorais apertou minha mão perguntou-me: "Ele lhe deu muito trabalho". Respondi sorrindo que sim, mas como era muito gente boa, o aprovei. Aí todos caíram na gargalhada.
Creio que isso é a maior riqueza de nosso povo, que em cada Estado tem suas próprias manifestações culturais, um patrimônio imaterial que precisa ser preservado e degustado por todos. Sem barreiras.
Após a cantata um dos organizadores veio em nossa mesa, aí fiquei sabendo que a Acampi trará outras manifestações culturais para o CTG Jayme Caetano Braun.
Que legal essa parceria Piauí e Rio Grande do Sul. Que legal um ajuntamento como o do csal em nossa mesa. Ele me disse que só não encara bode. Marque -1 no meu caderno, mas o jeito carinhoso que ninava seu filho, deu-lhe uma marcação de +11, ou seja, ele ficou no 10.
Posso conviver com quem não come bode, desde que saiba ninar o seu filho.
Era sobre isso que queria debulhar essas letrinhas contigo. Sobre a arte do encontro. De não ver o diferente como anormal.
De permitir-se conhecer e conectar valores culturais, que são a essência de um povo.
Eis que um frisson tomou conta de todos. Violinos, fagotes, violoncelos e uma sanfona chorosa, uma zambumba e um triangulo, começaram a dialogar sobre Asas, e asas Brancas.
As pessoas se abraçavam, choravam, umas dançavam emocionadas. Aí cantor da cantata, o João abriu seu vozeirão que mais parecei um clone do Velho Lua, e ninguém aguentou.
Asa Branca é uma carta de amor, de Lula para Rosinha, seu amor de juventude, abortado pelo pai dela, poderoso fazendeiro que o ameaçou com a morte, caso não zarpasse dali. No último verso, Luiz Gonzaga se vinga do Coronel, dizendo eu voltarei:
"Quando o verde dos teus óio
Se espanhar na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração."
E, sem querer, ele criou um tema que une povos do mundo tudo, que um dia tiveram que migrar de região, de amor, de trabalho, de si mesmos.
Ou seja, de quem se viu um dia longe de seu lugar, de seu amor, de seu infinito particular.
Aquela noite evoca em meu coração tanta emoção, tanta coisa boa sendo conectada, que fico pensando, por que tantas divisões?
Por que estamos ficando assim, um povo tão agressivo, tão separatista, tão besta, em seu próprio feudo ideológico, que mais se parece com uma fortaleza, intransponível.
A Acampi e o CTG; o Guilherme e a Márcia, os pais do Artur, provaram que a mistura é que torna o belo duradouro e sustentável.
E A Orqruestra de Teresina, selou essa convicção, mostrando em sons que a mistura nos torna melhores, afinal no palco havia uns dez diferentes instrumentos, que numa harmonização impressionante, criaram juntos um universo espetacular.
A isso chamo de humanização!

Clique aqui e saboreei um pouco do que relato acima.
Cantata Gonzaguiana - Orquestra Sinfônica de Teresina

2 comentários:

  1. Belíssima crônica, querido amigo. Reproduzi-a no domacedo.blogspot,com.br

    Um grande abraço,

    Dodó

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    1. Quanta honra, emocionei-me. Você é uma de minhas referências.

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