Seja Kefir (Autor Ricardo de Faria Barros)

Hoje, o Anderson Itaborahy presentou-me com Kefir.
Então, acabo de consagrar o Kefir como o primeirão na lista de coisas estranhas que já ganhei, acompanhando de perto pela Fúrcula, um ossinho de galinha em forma de V que ganhei do Pericles Mota. Que já foi objeto de uma das minhas crônicas.
Ao chegar em casa, estudando o Kefir, tive uma exata noção da intensidade, significado e mística de seu gesto. E o coração não para de pular, em forma de gratidão.
Pelo seu gesto, quando me presenteoou, eu senti que naquela doação havia mais que do que algo pastoso branco, "de fazer iogurte".
"Deixe o Kefir respirar". "Não mate o Kefir". "Não bote no lixo o excesso, tem que ser doado". "O segredo é a doação". "No dia que não quiser mais, solte-o num rio".
Ele falava pausadamente, como quem fazia uma prece. Acolhi aquele gesto com o coração enebriado, de tanta singularidade que vivia
Anderson Itaborahy foi quem abriu os caminhos de minha carreira, em 2008, quando fui cedido pela Diretoria de Pessoas para integrar um Projeto que ele conduzia, de Governança de Tecnologia da Informação. Eu era o único psicólogo, "povo de RH", numa tribo de arquitetos de TI, desenvolvedores, especialistas em riscos, em segurança da informação, arquitetura organizacional e outros temas fora de meu jargão. Era um tal de ITIL pra lá, e CoBIT pra cá, que gastava toda minha cara de inteligente.
Devo muito ao Itaborahy. Ele foi o primeiro que acreditou em meus devaneios corporativos, em gestão de pessoas, dando-me condições junto com Mauricio LyraLilian Borges Moraes e Agamenon Segundo de estruturarmos a Frente Pessoas, na Diretoria de Tecnologia. Sabedor da iniciativa, o diretor Luiz Freitas nos adotou, e nunca mais a loucura teve cercas, ele nos deu patrocínio e tesão, nascia a área de Capital Humano da Ditec, e já era 2011.
Recorrendo à Wiki compartilho que o Kefir é uma colônia de microrganismos, repleta de lactobacilos e leveduras, que ao entrarem em contato com o leite, quebram sua estrutura decompondo-a em umas trinta moléculas excepcionais ao desenvolvimento do ser humano. O iogurte, feito a partir dos "Grãos do Kefir", tem efeito Probiótico. Que são alimentos vivos com função benéfica ao organismo, por exemplo sobre o equilíbrio bacteriano intestinal, controle do colesterol e redução do risco de câncer.
O Kefir era uma preciosidade escondida pelas tribos congregadas por Maomé, na Arábia, e resto do Oriente Médio. E, suas Colônias de cepas de bactérias se aglomeravam em grãos brancos, que iam passando de geração em geração, sempre em generosas doações, quase dotes nupciais. Ninguém jamais poderia perdê-las, pois representavam uma das maiores conquistas à sobrevivência do Homem, além de ser capaz de quebrar a lactose do leite de animais, que era a de fazer com ele uma espécie de milagre, de alquimia, decompondo-o em inúmeras vitaminas, proteínas e minerais, que seriam excretados, caso não decompostos pelos bichinhos do Kefir.
O termo deriva do turco keif que significa "bem-estar" ou "bem-viver".
De origem antiga e aparentemente misteriosa, o Kefir era conhecido na antiguidade como a “bebida do profeta”, e o fermento usado para prepará-lo como “Grãos do profeta Maomé”. O Kefir teve sua origem nas montanhas do Cáucaso. Em adição, o livro bíblico de Êxodo descreve um produto com características semelhante ao Kefir, denominado de Maná.
Em 1900, médicos russo tentaram roubar o Kefir, dos muçulmanos do Cáucaso. O plano era ardiloso. Eles enviaram uma bela mulher, com intuito de "convencer" o rei a presenteá-la com Grãos de Kefir, caso por ela se apaixonasse.
Bem, o rei caucasiano se apaixonou, mas não deixou a formosa mulher voltar para Rússia com os Grãos. Pelo contrário, a sequestrou para si mesmo.
Bem feito.
Oito anos depois, o Czar da Rússia a liberta e pune o rei do Cáucaso com a paga de um tesouro para ela, a titulo de indenização, pelos 8 anos em que ficou presa. Ela não pediu ouro, nem diamantes, nem animais, ela pediu Grãos de Kefir.
Por causa daquela bela mulher, quase cem anos depois, o Kefir rompeu as montanhas geográficas, políticas, religiosas do Cáucaso, chegando em minha casa, aqui em Brasilia.
É ou não é emocionante? Meu primeiro trabalho, como aposentado, será dirigir espiritualmente a cerimônia de Suzana Braz e Yuri. O segundo que me foi dado foi o de hoje, o de ser um produtor de Kefir.
Como não ficar emocionado? Cultivar algo que carrega o nome de "bem-estar", ou de "bem-viver" é para mim de um significado tremendo.
Acho que no fundo essa é a missão que todos nós carregamos. Ser uma colônia de Kefir para o outro, para a realidade e para nós mesmos. Quebrando estruturas opressoras, injustiças, catalizando emoções e reações do povo do bem, ampliando a intensidade e foco de suas ações, tal qual as bactérias milenares fazem com o leite, tornando-o mais que simples alimento.
Cheguei em casa ansioso. Precisava seguir o ritual. Peguei uma vasilha de plástico. Derramei nela 1]2 litro de leite desnatado, à temperatura ambiente. Cristina observava curiosa. JG desceu da sala da TV para acompanhar. Fui misturando os Grãos do Kefir ao leite, cada um de nós leu um dos versículos abaixo.
"O Senhor te abençoe e te guarde;
O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti;
O Senhor sobre ti levante o seu rosto e te dê a paz." Números 6:24-26
Cobri a mistura com uma paninho de filó, e a levei para um lugar bem escuro e seguro, para que a alquimia aconteça, até amanhã à noite. , para que se desenvolva. Amanhã, seguirei o rito, coando os grãos e separando o iogurte preparado. No outro dia se repete. Sempre falando palavras de esperança, de paz, de amor. Que hoje escolhi Números. Amanhã, pode ser um poema de Vinicius, de um amigo. De nalva cor.
Espero que tenha entendido a metáfora. Podemos catalizar bem-estar e bem-viver nas nossas interações sociais. Podemos cultivar colônias de bondade, mansidão, respeito, ética e paz.
Sim, nós podemos ser Kefir.
Basta, não calar a força do gesto, soltar as garras da mágoa, doar perdão, abrir a cortina do medo, despir a alma de ódios e carregar a chama da esperança. Aí o Kefir quebrará a mais dura molécula da contemporaneidade, a da indiferença ao outro.

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