Das Cem Razões do Amor (Autor Ricardo de Faria Barros)


São sete da manhã, de um domingo.
No ponto de ônibus, duas freirinhas perfiladas, com suas fardas bem passadas, aguardam a condução para alguma missão pastoral, com um classudo porte tal qual xícaras de porcelanas sagradas, guardadas na cristaleira da vovó.
Mais à frente, um senhorzinho com cabelos bem branquinhos, empurra com dificuldade uma carroça, lotada de latinhas, ferro velho e papelão. Está voltando da madrugada de coleta, conduzindo seu pequeno tesouro, de volta para casa.
Na feira, seu Agenor me aborda e diz que se lembrou de trazer para mim as mudas de macaxeiras, das boas, amarelinha e macias.
Sorridente, entrega-me um feixe de varas e me diz: "Dá para umas 50 covas".
Quanta generosidade, domingo passado pedi três "sementes" de mandioca, e ele me trouxe 50.
Lembrei de um versículo que diz que nossos frutos deverão dá cem por 1. Como o do Sr. Agenor.
A lado, na barraca de frutas, a Iêmi elogia em voz alta, típica de feirantes com boa autoestima a camisa de Amuêda, dizendo-lhe que ele ficou bem de azul.
Amuêda, olha para mim, todo orgulhoso, como quem me diz: "Viu, ela me achou bonito!!!!"
Não sabe Amuêda, que nunca mais ele usará aquela camisa da mesma forma, ela agora está reluzente, pelo amor que recebeu da Iêmi.
Virou azul Iêmi.
Volto para o carro e um moleque pergunta-me se sobraram umas moedas, pelo "guardamento" do veículo. Ele deve ter uns 12 anos, bem gordinho e sorridente.
Senti-me tocado, pela abordagem de “resto de moedas”.
Abro o carro e ele solta um: "É que estou juntando as moedinhas para comprar uma mochila nova".
Uauu.
Sensibilizado, como você também ficaria, dou-lhe uma nota de R$ 10,00 e ele parte correndo de alegria.
Ligo o carro, e ao meu lado passa descendo a ladeira um pai-bike.
Pedalando com seu quase-bebê ainda, montado numa cadeirinha à frente da sua bicicleta, numa cena de amor comovente.
Ambos sorriem, divertem-se naquela agradável farra familiar. E, os capacetes deles são da mesma cor: laranja.
No rádio, anuncia que hoje acontece em Brasília o “Dia das Boas Ações”, no qual as ONGs que de alguma forma prestam algum serviço voluntário à povos em risco social, estarão expondo seus trabalhos e pedindo colaboração e apoio, nos locais de ajuntamento como Eixão, Sinais e praças. Eu acredito, e apoio!
Fiquei emocionado com a matéria. Como uma que junta cosméticos para presidiárias da Coméia, ou outra que levou luz a populações ribeirinhas do Alto-Amazônia, a Litro de Luz.
Eles estão botando as preces das freirinhas na pratica, vendo Jesus em cada sofredor. “Eu estive preso, e me visitaste. Eu estive nu, e me vestistes. Eu estava com fome, e me desse de comer...”
Se gosta do tema, veja o fantástico de hoje à noite, vai passar a Litro de Luz, em campo, no Norte do Brasil. Não tem como não se emocionar.
São tão jovens, tão idealistas, tão gente!!!
Uauu!!
Antes de chegar em casa, paro para um café lá no Seu Valdecir. Um senhorzinho de 76 anos que considero de minha família.
Aí ele me conta sua saga médica. Sem nenhuma ponta de raiva, reclamação. Ele conta que foi na UPA, com uma dor no peito. “Nas costelas.”.
Ali, pediram um eletro e o atendente notou algo errado.
Entregou-lhe então um papel que daria direito a ele a ir noutro local, agora um Centro de Saúde e solicitar uma marcação de exame com cardiologista.
No Centro de Saúde ao tendente falou-lhe que o papel estava errado, que tinha que ter vindo o “prontuário”.
Sr, Valdeci, volta na UPA, o atendente diz que é coisa da burocracia, e que ele deve ir lá novamente, agora com mais papel.
Então, ele se lembra de uma médica que o atendeu em 2015, no HUB, e que lhe disse que quando ele precisasse, “em qualquer dia, hora ou situação” ligasse para ela, deixando no cartão do atendimento seu celular:
Chama-se Dra. Beatriz. Santa Beatriz. Afinal, isso não é usual isso acontecer. Em atendimentos públicos. Beatriz deve ter se afeiçoado do Sr. Valdecir. Quem não se afeiçoa dele?
Ele liga para ela. Ela o convida para um cafezinho no hospital, e que irá examiná-lo, ele sente-se amado, brilha sua face, estufa o peito, recupera estimas, e sente-se acolhido por alguém que foi além de seu papel na vida. Alguém que excedeu em amor.
Ele fala dela e enche os olhinhos de lágrimas. De coração agradecido, conta-me que não era nada, era só uma arritimiazinha. Coisa boba!
E, me serve mais um cafezinho!
Quantas pessoas boas estão nos apoiando, sendo luz, sendo o azul da Imêi para o Amuêda. Sendo as manivas de macaxeira, do Sr. Agenor, para mim. Sendo as freirinhas orantes. Sendo o catador de papelão e latinhas, elevando o ganha pão pra seu lar, sendo jovens das Ongs Sociais. Sendo a Beatriz, sendo a gratidão e paz do Sr. Valdecir. Sendo aquele pai que passeia com seu filho. Sendo o jovenzinho que junta dinheiro pra sua mochila. Sendo agora meus filhos, noras e genro, que invadiram minha cozinha e disseram-me: “Pai, hoje vocês serão visita, viemos fazer o almoço”.
O amor está no ar, ajuste as frequências de teu viver a ele e verás como há razões para sermos felizes, para amar e nos sentir amados.
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