Amarre o tempo ao poste. (Ricardo de Faria Barros)


A Unesco dedica o dia 21/03 para celebrar o dia da poesia.
Quando perguntaram ao meu amigo de cabeceira, antes fosse parente, o Manoel de Barros, as três coisas mais importantes na vida dele, ele foi categórico na resposta:
"As três coisas mais importantes para mim são duas: o amor e a poesia."
Em outro momento, colocaram-lhe diante do dilema da vida, da sua finitude, aí ele sapecou-lhes essa:
"O Tempo só anda de ida. A gente nasce, cresce, envelhece e morre. Pra não morrer. É só amarrar o Tempo no Poste."
Amarrar o tempo no poste é amar. Deixa eu explicar melhor, Manoel queria dizer que toda pessoa que tem um porquê viver, algo porque lutar, alguém para esperar, alguém para cuidar, um sonho a realizar, amarra o tempo no poste. Uma vez que aquele sentido de tempo fica eternizado, no tempo de Kairós, deixando de fazer sentido contar os dias para a morte.
Uauu!!!
Hoje queria falar do amor. Manoel estava certo ao dedicar-lhe tanta importância. O amor é a corda que amarra o tempo no poste, que torna a nós todos crianças, adolescentes, fazendo piruetas, dando saltos soltos e rodando o bambolê das emoções positivas. O amor é quem para o envelhecer, embora as células estejam ficando velhas, ou morrendo. Esse paradoxo você só entenderá se preservar a capacidade de amar, na entrada dos anos que se avizinham.
Existem três filmes que você deveria ver, caso não tenha assistido ainda, pra entender a filosofia de amarrar o tempo no poste. Ou, perceber as transformações nos corações quando sobre eles impera a força do amor.
Um mais recente, indicado ao Óscar 2017, chama-se "Um homem chamado Ove".
Durante o filme, você acompanhará o Sr. Ove , dia-a-dia, amarrando seu tempo no poste, pois agora a vida vale a pena de esperar acontecer. De ficar. Um filme magnífico, sobre como as pessoas podem ser terapêuticas, na transformação de corações vazios.
O segundo é a Festa de Babete. Babete recebe uma bolada na loteria francesa, e oferece com a grana um jantar de gala para uma pequena vila de pescadores. A convivência dos aldeões, marcada por crises na indústria da pesca, medo do futuro e acordos não cumpridos, tornou aquele lugar um barril de pólvora, cheio de mágoas, invejas e desejo de vingança. Até que Babete chega, e vai unindo a todos em volta da mesa, pelo dom da gastronomia que possui. Aquele prazer desperta neles o sabor da vida, o sabor do perdão, do diálogo, da ajuda mútua. Ali, finalmente as cordas são amarradas aos postes daquelas vidas, e o tempo não é mais senhor dos dias.
Por último, veja Bagdá Café. No filme, uma turista alemã, a Jasmim, se hospeda num posto-hotel de beira de estrada, e com sua amorosidade cura a todos que ali, deixaram o tempo correr sem amarras, esperando a morte chegar. No final do filme, faltam postes para tantas cordas que vão sendo amarradas, na recuperação do sentido da vida dos personagens.
Creio que é isso que gostaria de compartilhar no dia da poesia. A força que temos em nós mesmos de produzir amor.
De gerar amor, de amar e ser amado. E, como quando nos sentimos assim, o quanto ficamos rejuvenescidos, eternos.
Que legal saber que podemos ajudar a parar o tempo de alguém. Você já tinha pensado nisso?
Conheci a história de um pessoal que organiza uma cota para pagarem um ônibus chuveiro que mandaram fazer.
Sabem para que? Para levarem o direito a um banho quentinho, "com sabonete e tudo", aos moradores de rua do DF.
Estão vendo as cordas desse pessoal amarradas no poste? Eu vejo.
Vejo também, o povo da rua se sentindo amado, e quem se sente amado, amarra a corda no poste da vida também.
Outro dia soube que um amigo meu estava programando um jantar com sua esposa, pois chegaria naquele dia da Paraíba. Ao desembarcar, descobriu que ela estava com um desarranjo estomacal, e não queria sair de casa, embora ela estivesse com fome.
Aí, ele foi para cozinha e preparou para eles duas xícaras de chá de boldo, e tapiocas com queijo de coalho. Um manjar.
De bandeja em punho, levou tudo para o quarto do casal.
E, embora não suporte chá de boldo, tomou com ela, para ser solidário.
Vocês estão vendo as cordas amarradas nos postes da vida desse casal? Eu vejo.
O amor nos torna imortais, para o tempo, altera nossa percepção de sentido, nos faz grandes e potentes.
No dia dedicado à poesia, fico com Manoel de Barros, acresça a ela o amor e a corda que para o tempo no poste.
Talvez seja essa a melhor coisa da vida, que estamos desaprendendo de fazer: dar e receber amor, sem esperar nada em troca, ou esperar que também tenham feito para conosco.
Deixo-vos com a poesia de Manoel de Barros. Essa, sem falsa modéstia, me representa:
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O Apanhador de Desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
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Agora vou ali amarrar mais cordas ao meu poste. Vem comigo!

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