Não é por uma mesa e três cadeiras. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Chego para costumeiro café, no lar Seu Valdecir, e noto umas tralhas no chão da sala.
Pergunto-lhe se está fazendo mudança. Ele sorri, e me diz que emprestou uma mesa e três cadeiras à vizinha, do “lote de trás”.
E continua, “sempre tem alguém pior do que nós, e precisamos ajudar”.
Sr. Valdecir mora num puxadinho, de uns 20m2, sobrevivendo com um salário mínimo de aposentadoria, que após descontos com remédios, alimentação, luz e água, ele me diz assim: “e ainda consigo comprar umas carteiras de cigarro para o mês, meu único luxo”.
Comento que antes de parar na sua casinha, quando eu me dirigia para a feira, vi a sombra dele na parede amarela.
Ele sorri, e pergunta-me: “Como assim ?”
Pego uma vassoura que está encostada na parede, e o chamo para vir comigo. Mostro como eles estava fazendo, varrendo o terreiro da casa, e como o sol batia no seu corpo e projetava na parede a sombra, tal qual fazia no meu, no momento da demonstração, e que quando vinha dirigindo, avistei a parede e a sombra dele, trabalhando, logo cedo, pelas 7hrs da manhã de um domingo.
Aí ele me conta que após ter varrido “o terreiro”, expressão nordestina, ele foi aguar as plantinhas que adotou para si, que estão plantadas na calçada da frente da casa dele.
E me disse que o dia dele só começa após varrer a casa, aguar as plantas, e tomar um cafezinho na calçada, ao lado de umas touceiras de sempre-viva que plantou e que está a coisa mais linda do mundo, toda florida. Depois, pita o cigarro da manhã. Tem um para cada turno, tudo racionado para chegar até o final do mês.
Voltamos para a sala, tropeço nas tralhas, e ele continua.
“Você sabe o que é não ter uma mesa e três cadeiras par receber alguém num domingo? Na hora em que minha vizinha, da rua de trás, perguntou se eu podia emprestar a minha, não tive dúvidas, eu me arranjo pelo sofá, ela não, ela precisa de algo para apoiar as comidas e para dar conforto a quem vai na sua casa, talvez almoçar no dia de hoje, não sei, não perguntei, só emprestei a mesa e as três cadeiras”.
Uma mesa e três cadeiras, e a dignidade se fez naquele lar.
Uma mesa e três cadeiras, emprestadas por quem não tem nada, e que se solidarizando, bota suas próprias coisas no chão, para acudir que mais precisa.
Uma mesa e três cadeiras... Não amigos, você não está lendo errado, Sr. Valdecir não tem quatro cadeiras de mesa.
Só três. Quando ele comprou o conjunto, já usado, não havia a quarta cadeira. Não era um conjunto completo, mas era o que ele conseguiu pagar, com um desconto pela cadeira faltante.
Ele resolveu a situação com maestria, encostou a mesa na parede, isolando um dos lados dela. Pronto, agora com três cadeiras ela ficaria bonita e ninguém sentira a falta da outra.
É assim a vida do povo mais simples, que me ensina tanto. Eles vão encontrando seu jeito de ser feliz, de fazer suas engenhosidades, suas gambiarras, para conseguirem sobreviver numa sociedade cada vez mais excludente.
O café na casa de Sr Valdecir, todos os domingos por volta das 8h30min da manhã é onde faço minha terapia.
Ele é meu psicólogo da vida.
Sua história dá muitos livros, e em todos os capítulos ele esteve presente na vida de seus 7 filhos, ajudando-os como podia. Até se desfazendo de seus próprios bens materiais, “para dar sombra aos meus filhos”, como ele fala emocionado.
Disfarçando um fio de lágrima que insiste em querer descer de meu rosto, olho para cozinha e brinco com ele.
- Sr. Valdecir e aquele parede sem reboco atrás da geladeira, é pra esfriar o motor dela?
Ele sorri, um sorriso de criança, de pureza dos simples, e me diz que ali é o lugar de seu sonho.
- Como assim, Seu Valdecir?, pergunto-lhe.
Ele me diz que sonha em não ter que entrar no seu barraco pelo portão da casa da filha, que mora lá nos fundos. Ele quer entrar pela porta da frente, pela calçada, sem ter que incomodar ninguém. e, naquele lugar que não rebocou a parede, de seu barraco, atrás da geladeira, será colocada uma porta para acesso para à rua.
E que um dia a colocará, pois já tem até o portão de ferro, “ferros dos bons, pesado.”. Disse-me que periodicamente lava o portão, para não dar ferrugem.
E convida-me para ver seu tesouro, o portão de ferro, que está empilhado na parede dos fundos do barraco.
Seus olhos brilham, dizendo que foi o que sobrou de uma casinha que vendeu e deu aos filhos, o portão de ferro que ele mandou fazer, “com ferro dos bons”, e que ele o trouxe para seu barraco, pois não deu tempo de colocar na casinha que vendeu para ajudar os filhos.
Aquele portão não é mais um portão. É o portão!
Aquela parede sem reboco não é mais uma falha no projeto, não é mais “para resfriar geladeira”, é o local onde ele deposita a esperança.
Para o povo mais simples a esperança é assim, qual criança, alegra-se com pequenas coisas. Tipo fazer um curso de brigadista, ou de vigilante e ser chamado para uma vaga.
Ou, conseguir uma ficha para ser atendido no médico do SUS, daqui a três meses.
Ou, ter uma mesa e três cadeiras para melhor receber visitas.
Convidei seu Valdecir para irmos lá para a calçada, para que ele me explicasse o tal do buracão que queria fazer na parede, colocando nele um portão de acesso direto ao seu barraco.
Ele me deu uma aula, com olhos brilhandos.
Ao final, disse-lhe que podia começar a obra. Que iria fazer uma cotinha com meus amigos e arrecadar aqueles R$ 1.500,00 reais, necessários para a obra.
Ele parou o que fazia.
Procurou com mão trêmula a caixa de fósforos no bolso. Sentou-se num banquinho de toco de árvore. Acendeu um cigarro.
Olhou para mim e disse de forma emocionada, agradecida, serena e feliz: “Nós vamos construir nossa porta!".
"- Mas, só depois que eu terminar os exames que faço, num treco que tive no coração”.
Oxente Sr Valdecir, o Sr. está fazendo exames ainda, e não é melhor repousar, enquanto sai todos os exames e o clínico faz o diagnóstico do que teve?”
"Sr. Ricardo, se agente parar, a gente morre”
Olho para seu cigarro, sorvido como quem degusta um raro vinho português e não tenho coragem de repreendê-lo.
Deixa quieto, também acho que ele não vai morrer pelos três 3 cigarros que fuma ao longo do dia, e não posso tirar dele aquela satisfação que ainda lhe resta, de tantas que a vida foi lhe negando.
Mas, engana-se quem pensa que ele reclama de algo, ou se refere ao passado com mágoa ou negatividade.
Nada disso.
Ele se considera um vitorioso. “Afinal, Sr. Ricardo, tem gente pior do que eu, que nem três cadeiras e uma mesa tem!”
Nós, que lemos este texto, temos tanto mais que isso e ficamos procurando razões para ser infeliz!
Ou desistindo de viver, de valorizar o trabalho, de contabilizar as sobras e não o que lhe falta, esquecendo que temos ainda que varrer muitos terreiros e aguar muitas plantinhas.
Que temos que construir dia-a-dia o nosso sentido de viver. Se pararmos, à beira da estrada de nosso viver, morreremos! Como ele bem disse quanto ao varrer e aguar, mesmo doente.
E que não podemos ficar sem olhar para as paredes não rebocadas de nosso viver, que ali ficam como a nos dizer que precisamos continuar acreditando, crescendo, movendo o destino, para que nossos sonhos, de um dia por elas fazer um portal, não fiquem esmorecidos nas gavetas da acomodação, da vitimização e da falta de coragem em procurar nossas melhoras.
Mesmo que no momento a coragem e ação possível, diante de tanto que precisamos remar para chegar ao sonhado, seja apenas a de lavar do portão de ferro, para que ele não enferruje. Entende a metáfora?
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Obrigado Sr. Valdecir obrigado por existir e nos ensinar tanto.

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