Sejamos Itaberaba (por Ricardo de Faria Barros)


Acordei cedinho e me despedi de meus pais, após uma breve temporada de isolamento vivida no colo deles.
E como estes dias me fizeram tão bem!

Agora eu começaria a viagem de volta, de Campina Grande-PB para Brasília-DF, percorrendo uns bons 2.200 km, em dois dias de carro.


Saí 5h30 da manhã e, duas horas depois, aquela vontade de fazer xixi apareceu. Eu optei por me alimentar dentro do próprio carro, e não usar os banheiros dos postos, limitando ao máximo meu contato social.

Então, entre as brumas do dia que nascia, já perto de Caruaru, eu parei no acostamento para me aliviar.

Naquele instante reflexivo, eis que contemplo uma moita com belas flores, de um tipo que nunca tinha visto à margem da estrada. Eram de um violeta forte, quase carmim, e muito bonitas. Davam de arbustos pequenos, que formavam uma touceira única.
Pensei em levar uma muda, dado que gosto de jardinar. Então quebrei um galinho dela e a coloquei numa sacola dentro do carro.
Minutos depois, já dirigindo,  que parti, uma sensação de ardor me acomete nas mãos e pulsos. Uma coceira ardida, que nem passando o álcool resolvia.

O incomodo era tão grande que até dificultava a concentração para dirigir. Procurei alguma cidade perto, para comprar um antialérgico, mas tudo ainda estava muito longe.

Aquilo ali deveria ser da família das urtigas, contudo a ardência era pior, mais penetrante, irritativa, e muito chata.

Como o álcool não amainava passei a colocar o gelo que levava,  e a sensação de dor foi amainando aos poucos. Ufa. Uns quinze minutos depois ela cessou e respirei aliviado. Preventivamente, joguei o galho na estrada. Aquilo não era muda de se ter em casa.

Este foi meu primeiro "aprendimento" no retorno. Nem tudo que floresce é bom. E não é verdade?  Como temos coisas que são floridas, exuberantes, e que quando delas nos aproximamos sairemos machucados, elas vão nos agredir, vão nos ferrar!

Nem tudo que floresce te faz bem. Algumas destas coisas vão te machucar, porque elas tem espinhos venenosos, que agridem tudo que nelas tocará.

Perdido em mil pensamentos comecei a ouvir o vento. Tem sensação melhor do que abrir a janela do carro, ao passar por uma região que acabou de receber uma chuva, e sentir aquele vento cantando feliz?

Agora eu descia a Serra dos Ventos, em direção à Garanhuns-PE. Gostei muito de por ali passar. Aquela serra foi adornada com inúmeras torres eólicas que davam um charme adicional à mesma.
E os ventos uivavam, e lavavam minha alma. E levavam até o restinho de ardência das mãos, que propositadamente eu botava ara fora, para serem umidificadas por aquela brisa uivante e refrescante.

Aqueles ventos foram um outro "aprendimento", ventos podem gerar energia. Precisamos ventar sobre nossa alma, para que ela se movimente. Como diz a canção: "Vento, Vela, Vida, leve-me daqui". Os ventos são isto. São possibilidade de sair.
Seja uma pipa, um avião, uma jangada, ou um catavento que puxa água de um poço, onde há vento há esperança de que algo está ocorrendo, ou ocorrerá. Como anuncio de uma chuva benfazeja.
Eu nunca tinha parado para refletir sobre a força dos ventos, o que fiz descendo cuidadosamente uma serra com o seu nome.
É preciso arejar a vida, abrir as janelas do entendimento, tirar os fungos, ácaros e os mofos da rotina, e nisto os ventos são craques.

Já pela tarde, após muitas léguas de direção, avisto ao longe uma construção imponente. E, ao fazer uma curva, é que ela se apresenta completa, toda majestosa. Uauuu!
É a represa de Paulo Afonso, que bela obra de engenharia.  Passo com o carro bem devagarinho sobre o balde do açude, vendo o Velho Chico que escorre pelo canal das turbinas de energia.
É algo tão místico esta travessia sobre a represa que chega a silenciar a mente, elevando-a num estado de prece.

Aqui tive um outro "aprendimento", o do quanto podemos fazer como humanidade, quando esta humanidade se junta num coletivo único, somando conhecimentos, tecnologias e investimentos para realizar algo.  A construção desta Hidrelétrica é um destes fazimento.  Imaginem o quanto de progresso a energia levou, gerada daquele rio represado.
Testemunhar estas grandes obras da engenharia nos apequena o orgulho, liberta-nos de toda arrogância do conhecimento, e nos faz orgulhosos de nossa trajetória civilizatória. E, como precisamos disto!  Desde as Pirâmides do Egito, à chegada na Lua, os grandes feitos da engenharia mundial nos lembram que nos desenvolvemos como humanidade, que superarmos limites, que crescemos. E, em tempos de tanto medo com o que virá desta Pandemia, sai daquela represa mais confiante. Confiante de que encontraremos a cura, a medicação e viveremos um novo renascimento cultural, após tanta devastação que este vírus causou. 

Seguindo viagem, cruzo a ponte de Ibotirama, mais uma vez sobre o Velho Chico, que sob ela corre caudaloso.
De Paulo Afonso não se tem ideia do tamanho deste rio. Uma vez que o cruzamos sobre o balde do sangradouro, bem distante de seu leito original.
Já em Ibotirama-BA, é preciso quase que parar sobre a ponte, de tanta beleza que se ver. Peguei um período em que as chuvas foram generosas nas suas nascentes, e um verdadeiro tsunami de águas desce sobre ele.
E que águas abençoadas são as do Velho Chico. Já tive a honra de vê-las chegando no mar, lá na cidade de Piaçabuçu-AL. Agora só me falta visitar suas nascentes. Que um dia farei. Tomar banho nele já tomei, lá na transposição em Monteiro-PB.
Passando por sobre aquela bela ponte, tive outro "aprendimento".  O de que as águas podem levar vida, caso sejam bem aproveitadas e respeitadas. Que daquelas águas muitos bebem, navegam, criam, regam e se refrescam. Avistei ao longe um barco, com sua carranca típicas, que me lembrava que é preciso afastar os "maus espíritos" do rio. Sim, meus caros amigos, este foi o aprendimento de Ibotirama. Precisamos de "carrancas" que nos protejam.  Que afastem os galhos perigosos que descem pelo leito caudaloso, que sinalizem os bancos de areia ou de pedras, que nos façam continuar avistando à frente, mesmo que a neblina seja forte.  Elevo meu coração e rezo ao Espírito Santo. Ele é minha Carranca do São Francisco. Você deve ter as tuas. Para alguns a Carraca pode ser a poesia, a literatura, uma boa música, ou um moi (ajuntamento) de amigos. Que seja! Mas, sem elas a travessia pelo rio da vida fica muito mais difícil. Quase arriscosa de se naufragar na primeira braça de água vencida. Precisamos de subjetividades imateriais que nos inspirem, que nos façam apreciar uma lua cheia, ou uma folha orvalhada.  Precisamos cultivar esta conexão espiritual maior.

A viagem continua e as surpresas idem. Agora as margens são multicoloridas das flores baldias do sertão da Bahia. Em alguns trechos predominam as amarelas, noutro trepadeiras rosas e violetas, mais à frente são as branquinhas da Jurema, cujo perfume delicia um olfato mais atento  presente ao existir. As flores catingueiras estão em festa, choveu no sertão. E elas sabem que precisam florescer com exuberância e fecundidade, para que novas sementes e frutos sejam possíveis, no curto período de águas do Nordeste. Mais à frente um mandacaru mostra-se todo carregado de suas flores brancas, e um arco-iris compõe a idílica beleza do planalto da Chapada Diamantina. Cruzo a estrada por entre morros, por cima de morros, abaixo de morros, que quase tocam o carro. A Chapada está linda e em festa. Para onde a vista se pruma, é beleza estonteante que se vê. Mas, a atração principal ocorre nas margens da estrada, que são as flores vadias que a emolduram. É como se dirigisse entre canteiros floridos e perfumados. E aqui tenho um outro aprendimento. É preciso aguçar o sentir, o estar presente, para captar toda a essência de alguns momentos que vivemos. Caso contrário, eles passaram despercebidos, ou serão vítimas da maior forma de violência que podemos ter para conosco mesmos, ou para com os outros, que é a indiferença. Como senti o perfume das flores da Jurema? Apurei o olfato, e me deliciei. Como vi que as flores vadias, invadiam as margens da pista, e alguma delas se atrepavam em velhos troncos retorcidos e secos, formando inusitados arranjos e rara beleza? Apurei o olhar.  Creio que a ansiedade e estresse cotidianos nos privam disto. Vamos entrando no modo sobrevivência, no modo piloto automático, e não mais nos capacitamos para poetizar a jornada do viver. Preocupamo-nos com o aquecimento do motor, com o combustível, com o trafego intenso, com ultrapassagens, com as curvas, a chuva e os buracos na estrada, e em chegar logo. E, de tantas preocupações, esquecemos de apreciar o caminho, a flores que perfumam e embelezam nossa travessia. E, transpondo para nossa vida, elas são as pessoas boas e a gratidão pelas coisas que facilitam o nosso existir. As pessoas boas e o sentimento de gratidão são as flores de nossa existência. 

Termino de atravessar a chapada e agora são campos abertos que se descortinam até perder de vista.  O sol se encaminha para a lua, e o céu é tingido de um vermelho vívido. Dirijo no trecho Ipirá-BA a Itaberaba, que será a última parada para abastecimento, antes dos 200 km que faltam até o pernoite em Seabra-BA.
É uma estradinha estadual muito boa, sem curvas, bem conservada e que erguida sobre um planalto. Já estou cansado, após 900 km percorridos.
Olho à minha esquerda e vejo um luz ofuscante vindo em minha direção. Vem de algo estranho, pois que algumas elevações da estrada a encobrem. Fico curioso com aquilo, o que será aquele negócio brilhante lá longe? Pergunto-me.
E vou me aproximando, até que tudo aquilo se descortina ao meu lado. Uaauuu!!!
Do meio do nada, de um enorme planalto, irrompe dois morros de pedra, que no conjunto parecem com o Pão de Açúcar do RJ.
É tanta beleza que pela primeira vez não resisti, e fiz uma parada adicional, sem ser para xixi. Parar ali era necessário, para documentar aqueles dois morros que se fundem numa imagem única, brilhante, que dela brota uma estranha e bela luz.
Contemplo aquela cena admirado. Que coisa mais linda de meu Deus. Quando voltei pra Brasília pedi um help nas redes sociais e o amigos Rubem, Isaac  e Eliézio socorreram-me na inquietação do que seria aquele conjunto rochoso, é a Pedra de Itibiriba, ou Itaberaba, como depois ficou sendo mais conhecida.
Cuja tradução significa a "pedra que brilha".
Uauuu!!!
Eu estava diante de uma raridade, de um fenômeno geológico, de uma formação rochosa, possivelmente recheada de minúsculos cristais que quando o sol neles incidia amplificava e projetava o seu fulgor, sendo visível a mais de 50 km de onde eu a contemplava.
Eu precisava registrar aquele momento para a minha namorada, que é minha Itabereba. E este foi meu último aprendizado. Precisamos parar para nos deixar iluminar pelas Itaberabas em forma de gente. Pessoas que brilham, não o brilho da vaidade, da ostentação ou do árido poder. Mas o brilho dos valores, da mansidão, da paz, da ética, da justiça, da fraternidade, do respeito. Um brilho que alumia as trevas dos tempos presentes. Um brilho que orienta, acalma, influencia positivamente e que nos faz enxergar coisas boas, que nem nós mesmos percebíamos em nosso viver.
Você tem alguma pessoa Itaberaba em tua vida? Aquela que o amor, quando dela sai e se projeta em ti, torna-lhe melhor e mais forte como pessoa, mais apto a encarar e resolver as coisas da vida?
Aquele conjunto rochoso, que ilustra esta crônica, reluz porque não se limitou a ser como qualquer formação rochosa, que só absorvem a luz. Itaberabas devolvem parte da luz recebida, tornando tudo ao seu redor melhor e mais significativo. Dirigi os últimos 250 km, de Ipirá à Seabra, agradecendo a Deus os aprendizados deste primeiro trecho da viagem. E resplandecente com o brilho do olhar que recebi daquele morro. E pensei no quanto podemos polvilhar nossa rocha da existência com pó de cristais, para que parte da luz que recebemos seja devolvida para os outros. Contribuindo para que a luz vença as trevas!  Abençoados os que têm Itaberabas em seu viver. E, mais abençoados ainda, os que adquirem a consciência de que podem iluminar multidões, com o brilhar de sua existência, pautada em valores positivos e na defesa da dignidade humana. 

Agora vou ali contar pra minha Itaberaba o quanto ela ilumina o meu viver!
 

 

 










Em tempos de crise, qual Quinteto Fantástico devemos alimentar? (Autor Ricardo de Faria Barros)

Neste momento de perplexidade mundial, nada mais urgente, necessário e possível do que manter a fé na vida, no ser humano e no que virá. Conforme a canção abaixo:

Semente do Amanhã (Nunca Pare de Sonhar)  - Gonzaguinha

Ontem um menino que brincava me falou
que hoje é semente do amanhã...

Para não ter medo que este tempo vai passar...
Não se desespere não, nem pare de sonhar

Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs...
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar!
Fé na vida Fé no homem, fé no que virá!

Nós podemos tudo,
Nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será



Mas, não é nada fácil manter o pensar, sentir e fazer de forma sustentável, em ambientes de medo, restrições, angústia, frustração de expectativas e de decepção por necessidades não atendidas.

Nestes momentos, cresce em nós atitudes e comportamentos derivados do cérebro reptiliano que amplifica, distorce e reverbera o perigo, para que possamos a ele sobreviver.

Entra em cena o Quinteto do Mal. Personagens que alimentamos em nossa mente e que conduzem nossas atitudes e comportamentos de forma muito danosa. As principais atuações destes personagens, no palco da vida e do viver, são cinco:

1. O Rabugento Reclamão– Ele é aquele personagem que sempre está mal-humorado. Que reclama de tudo na vida, para quem os dias estão sempre cinzentos. Em alguns momentos o rabugento chega a ser violento, porque ele tem pouca noção de empatia para com o outro.

2. O Negativo Crítico – É aquele que não acredita que algo de positivo possa ocorrer. Ele chega num ambiente procurando o que aquele local tem que não o atende. O que falta para ser excelente, e nunca se satisfaz com o que está regular ou bom, ou seja, o que já dá jogo, dentro daquele determinado contexto. 

3. A Vitima Desanimada – Para este personagem, todos estão contra ele. O mundo o persegue. Tudo de ruim lhe ocorre, e busca nestes acontecimentos justificativas que reforcem o seu desânimo. Na posição de vítima ele não se ver como protagonista de mudar, de dar uma resposta à vida. Diante de algo de ruim que lhe ocorreu.

4. O Ingrato Egoísta – Este personagem não consegue sentir e expressar gratidão, por nada e por ninguém. Ele acha que o mundo gravita em torno de si mesmo, e que tudo deve ser direcionado para si mesmo. De postura altamente individual, ele acha que merece, e que por merecer, não precisa dividir, cooperar, nem elogiar as pessoas que com ele interage.

5. O Destrutivo Desarmonioso – É aquele papel de quem adora atear fogo no circo. Como ele tem medo do amanhã, ele opera no sentido de que todos pode ser seus inimigos, e [e melhor eliminá-los, seja com fofocas, seja com conflitos desnecessários. É aquele que não só rema contra, mas ainda faz buraco no barco.



É possível deter a ação deste Quinteto do Mal? SIMMMM!!! 

Para cada personagem do Quinteto Mal, há um outro do Bem, que encena no mesmo palco da vida e do viver. Resta saber qual deles daremos comida ao final do dia, quem vamos alimentar dentro de nós, pergunta que nos fazemos em processos de autoconhecimento, de aprendizado e de sensibilidade diante da vida.  

Quem são os mocinhos que combatem estes vilões?

Quem são os personagens do Quinteto Fantástico do Bem?

1. O Otimista Realista – Ele não é alienado, ele tem consciência da situação presente, dos desafios e limites. Contudo, a orientação de vida dele é positiva. O GPS interior dele aponta para a solucionática, para uma disposição positiva diante da vida. Ele sabe que nem sempre vai conseguir a melhor resposta a algo, conforme planejado, mas aprende a saborear aquilo que ainda deu para fazer, de acordo com os recursos disponíveis, e na conjuntura em que se opera.

2. O Esperançoso Transformador – Ele cultiva sonhos de que o amanhã será melhor, para si mesmo, para os outros e para a sociedade. Porém, ele não fica sentado, à beira do caminho, esperando que algo de bom lhe aconteça. Ele vai atrás, construindo possibilidades, alternativas e ações no hoje, cujo somatório contribuam para com o amanhã desejado.

3. O Resiliente Sábio – É um personagem do Quinteto do Bem que aprendeu a se contorcer, diante de um perigo, a se adaptar, e a mudar posturas e comportamentos, para melhor conviver com uma situação difícil. Ele não se deixa abater, aprendendo a melhor reagir aos problemas. Ele aprende a navegar em mares bravios, no lugar de ficar reclamando do tempo. E, quando lhes faltam os ventos, eles remam.

4. O Grato Generoso
- Ele desenvolve a postura de captar, sentir e expressar gratidão. Tem consciência do outro, de quem lhe abre caminhos, de quem lhe ajuda nas demandas da vida. E contribui no círculo virtuoso devolvendo o que de bom lhe ocorreu, em farta doses de doação e generosidade para com o outro.

5. O Construtivo Harmonioso - No lugar quem que todo mundo está em pé de guerra, é este personagem que chama para a paz, que cede, que tolera, que harmoniza, que reconcilia e que busca uma solução negociada para as tensões. Sua especialidade é em construir, em crescer junto com as outras pessoas. Sem as diminuir, sem as oprimir, sem fazer de cada desavença uma guerra insolúvel. Ele aprendeu a não criar paredes nos ouvidos, e a desenvolver a empatia no ser, fazer e acontecer junto com os outros.


Então, é isto que temos que ter cuidado em momento de grandes crises pelas quais passamos, ou passaremos, ao ter a consciência de qual dos personagens devemos alimentar em nosso viver, quem deverá crescer em nosso pensar, sentir e agir?
Os dos Mal, ou os do Bem, a decisão é nossa e ela pedirá esta resposta várias vezes por dia.
Basta que comece a se analisar, a se conhecer melhor, a questionar as posturas do Mal, que aprendeu a desempenhar, até como forma de auto-defesa.
Será que elas fazem sentido ainda? Será que elas não estão lhe empobrecendo?
O mal far murchar, o bem faz florescer. O mal diminui, aprisiona e desvaloriza. O bem cresce, liberta e valoriza.
Mas, é preciso muito cuidado, e não perder, como diz a canção do início deste texto, a “luz do céu que brilha no olhar”.  Pois que é justamente este céu interior quem nos dará forças para não alimentar o Quinteto do Mal, com atuações tão comuns em nossos dias. 

Os dia em que a Terra nos formatou! (Por Ricardo de Faria Barros)

Acordei sobressaltado, após uma semana dormindo, pois que era um sono acumulado de milênios. Durante o qual tive um pesadelo terrível.
Sonhei que o planeta Terra teria formatado o sistema operacional da raça humana, nos devolvendo aos tempos das cavernas.

Banhei o rosto, tentando lavar aquele pesadelo ruim, e botei o tênis para caminhar, levando numa sacola um livro que comprei para o filho do Rangel, que estuda direito.
Na calçada das crianças, uma que dá acesso à uma creche, não havia os costumeiros choros de despedidas das mamães e papais. Nem sons infantis, tão relaxantes.
Dobrando a esquina, não vejo as costumeiras garrafas litrão, de restos de noite do Bar Piauí. Ué, o Piauí fechou ontem, em plena quinta-feira?
Algo estava errado no ar, não sentia aquele clima de “Sextou”. Até os raros caminheiros passavam por mim com expressões taciturnas, diferentes das expressões “sextou”.
E, não avistei cenas que me comovem quando caminho, e que as vejo com frequência, de casais caminhando de mãos dadas, de crianças brincando nas entrequadras. Estava tudo vazio.
Será que seria feriado? Acho que não, em feriados as pessoas circulam.
Passo pelo Líbanus, para deixar um livro para o Rangel, de presente para o filho dele, e está fechado. Ué, já são 10h, e eles começam a preparar o ambiente cedinho, principalmente numa sexta. Voltei pra casa pensativo, será que formataram a raça humana mesmo. Será que estou formatado e não sei?
Uma porta de casa se fecha com a lufada do vento. 
Acordo, e lembro que sonhava sobre o sonho do pesadelo. Sonhei o pesadelo. Respiro apreensivo, não, não era um pesadelo. E nem caminhei a pouco, nem levei livro, nem vi as calçadas vazias, tudo era um sonho. Menos, a realidade surreal e alucinante, de que realmente a Terra nos formatou.
Estamos todos no modo “Format”. Não há mais festas de batizados e casamentos, nem tampouco enterros comunitários. Não há mais as gostosas visitas dos amigos e familiares, para confraternizar com algo, ou simplesmente o nada, só pelo gosto de estarem juntos.
Não há mais as envolventes disputas esportivas, entre as quais os emocionantes Fla x Flu, ou Treze x Campinense. Não há mais pessoas nos templos, em grupos, orando a bom Deus.
Escolas, academias, bares, teatros, cinemas, museus, shoppings, parques, clubes...etc., todos fechados.
E a raça humana, bilhões de pessoas, voltou para a toca. Todos ao mesmo tempo. A fogueira que mantém o povo unido, à beira do calor da toca, é o WIFI.
Crianças que não mais sabiam o valor de se ter uma família, passaram a conviver com os seus de forma intensa.
Pessoas que tinham paraísos em suas vidas, mas que estavam esquecidos, hoje sentem falta deles, como a possibilidade de abraçar quem gosta, e que muitas vezes moram pertinho.
Casais apaixonados não podem se ver mais, e, cada um em sua toca, procura formas de manter a chama acesa, e lidar com a dor da ausência do outro. A pior das solidões, revestida na palavra saudade. E uma das mais cruéis saudades é a da presença do outro que não está ali.
Filhos passaram a ligar mais para seus pais.
Casais, na ausência do que fazer na toca, reaprenderam a conversar entre si, sem brigar, sem buscarem o que o outro tem que não o satisfaz mais. Na toca, não há tempo para pequenez da alma, todos ativa o modo sobrevivência.
E, no modo sobrevivência, não se tem tempo para alimentar rancores, mágoas, ou agressões mútuas, é todos por um, um por todos, caso contrário a toca não sobrevive.
Filhos aprenderam a fazer tarefas domésticas. Pais aprenderam a acompanhar atividades online dos filhos. Aliás, reaprenderam até a convier melhor com eles, inventando mil brincadeiras para entretê-los.
Na toca se reaprende a limpar as gavetas da alma, a passar esperança na alma, a degustar boas 
lembranças do passado.
Se reaprende a dar valor à própria toca, por menor que ela seja, pois que há tantos que no modo "Formatado" tiveram que ser resgatados das ruas para abrigos improvisados.
Na toca, ficamos nus, e podemos finalmente voltar a enxergar a nossa essência.
Na toca, pessoas não valorizadas, reconhecidas ou simplesmente invisíveis foram finalmente percebidas como essenciais. Aquela diarista, que mal podia comer da mesma comida da casa em que trabalha, agora está sendo sentida a sua falta.
Na toca, se aprende a valorizar aqueles que se arriscam a dela saírem, pois que executam atividades essenciais, ao próprio funcionamento dos que se protegem nelas. O caixa de banco e de supermercado, o profissional de saúde, o professor que transmite aulas online da escola, o frentista de posto de combustível, o atendente da farmácia, o motorista do ônibus, o zelador do prédio, o policial, a cuidadora de idosos, o motorista de entrega de comida, os atendentes de call-center, e um monte de outras profissões.
Na toca, reaprendemos a ler, ouvir música, ver lives, jardinar...
Na toca, é preciso agendar o dia. E descobrir as possibilidades que ela possui, com os recursos disponíveis, para que a pessoa não adoeça mentalmente. Sim, o modo “Formatado”, vivido sem objetivos, pode causar doenças mentais, pois que que desliga o sistema de produção, mobilidade e interação humanas.
Este primeiro semestre de 2020 vai entrar para a história. Na idade moderna, é a primeira vez que toda uma população entra em quarentena, e volta à toca.
Creio que tirando as sequelas econômicas, que serão enormes, haverá um aprendizado muito grande para a raça humana, quando sair do modo Formatado.
Que ela pode sobreviver, e bem, a um monte de coisas que foi se plugando ao estilo de vida do ser humano.
Aprenderemos muito nestes dias de toca, que ainda vivemos. O valor do outro, da empatia, da solidariedade, da ajuda de qualquer forma, para que pessoas sobrevivam a este momento Formatado, sem mais os vírus comportamentais e atitudinais que estavam apequenando a humanidade. Aprendemos o valor da simplicidade. Aprendemos a bater palmas para pessoas que mantém as coisas funcionando. Aprendemos o valor de um abraço, tão desejado, e tão difícil de ser dado em tempos de isolamento.  Aprendemos que as pessoas são mais importantes do que as coisas. Aprendemos o valor do agora, pois que sobre o amanhã não temos certeza alguma.
Aprendemos que não fazer nada também é bom. Que não ter uma agenda estressante e cheia de coisinhas pra fazer, lá fora, também é bom. Aprendemos que muito do trabalho já pode ser executado de casa mesmo, o que pode revolucionar o modo de concebê-lo.
Aprendemos a nos reinventar, a focar nas solucionáticas, e buscar inovações para operar neste novo mundo que se descortina.
Aprendemos como era bom quando a campainha tocava, ou quando alguém dizia que vinha nos ver, ou nos chamava para algo.
Não é o que estamos vendo em todo lugar? O melhor da raça humana acontece na toca.
Jovens se oferecendo para ajudar idosos. Filhos descobrindo que ainda têm pais. Profissionais e empresas, de todos os setores, oferecendo seus serviços gratuitamente, no ambiente web, ou tocando músicas das varandas de seus lares, para animar os demais.
Gente se mobilizando para cantar parabéns bem alto, para que aniversariantes escutem do outro lado do corredor. Gente se curando da síndrome da intolerância a Humanos. Gente perdendo a arrogância, orgulho e vaidade, e se aquebrantando em sabedoria e humildade, diante da insegurança com o que ocorre.
Gente se achando, se escutando, se avaliando sobre as escolhas e decisões que fará, ao sair da toca. O modo “Formatar” pode ter sido bruto, mas que levará toda uma geração a se reinventar, tenho certeza disso. E para melhor.
Aquilo que antes importava, pelo qual perdíamos noites de sono, ou que dávamos a vida para conseguir, aprendemos que podemos sobreviver a sua perda.
São os relatos das tocas, mundo afora.
Quando a Terra nos reinicializar ela estará mais limpa, de nossos lixos, e nós estaremos mais limpos, de nossos lixos também, os emocionais.
Acreditem nisto!
E, quando dela sairmos, uma lufada de Brisa Aracati vai restaurar e refrescar o nosso ânimo, fazendo renascer uma profunda vontade de amar e de viver, que ativará mais uma vez a imensa capacidade da humanidade de se reinventar.
Ao redor da fogueira do wifi, dentro da toca, tem uma placa escrita com letras de esperança, com os dizeres:
“Sobreviveremos: isto também passará, e amanhã seremos melhores”.


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Foto: A Caverna das Mãos, na Patagônia Argentina, datação de 9.000 anos. A ‘Cueva de las Manos’ é um Patrimônio Mundial da UNESCO.

Não basta álcool em gel nas mãos, é preciso esperança na alma. (Por Ricardo de Faria Barros)

Estamos vivendo um dos momentos disruptivos da história da Humanidade, no qual a pandemia do Coronavírus virou tudo de cabeça para o ar.

No meu entender, seremos testemunhas, e atingidos,  por uma grande transformação sócio-econômica pela qual passará a sociedade,  assim que começarmos a juntar os cacos deixados por este vírus, mundo afora.

Uma destas coisas que podem nos atingir, são as sequelas emocionais de longos períodos de isolamento social, ou de distanciamento de relações amistosas e afetivas com os outros.

Quando o abraço murcha, a noção de civilidade apodrece, virando uma espécie de um por um, e nenhum por todos.

Então, é preciso que vozes do mundo todo se unam numa corrente de esperança. Como digo no título deste texto, não basta lavar as mãos com álcool em gel, para conter o avanço da pandemia, é preciso lavar a alma com esperança.


ASPECTOS PSICOSSOCIAIS DOS ISOLAMENTOS - (Para se entender melhor) 

Uma das principais tarefas cidadãs, no momento, é não circular pela cidade.
Ficando em casa e evitando uma propagação mais veloz deste vírus.
Mas, as pessoas foram pegas da noite para o dia com esta diretriz de saúde pública.
E, para muitos não está sendo fácil viver este auto-isolamento, na gruta em que habita, seja o nome que se dê a mesma: casa, apartamento, barco, chácara, lote...

1. O Desejo da Falta

Vive-se neste isolamento a sofrência do desejo o ir e vir.  É que a mãe de todo o desejo se chama Falta. O desejo expande na falta. Quando não se tinha o sentido da falta, não importava a calçadinha da praia existir, a poucos metros de nossa casa. Ela estaria sempre ali. E, ficaria para um dia depois ir passear por lá.   Agora, com os Decretos Estaduais que impõe o isolamento, ela não pode mais ser acessada. E, se antes mal nela passávamos, agora sentimos uma vontade danada de andar por aquela calçadinha, seja a de Copacabana, seja a de Tambaú.  Então a primeira sofrência que o auto-isolamento faz brotar é daquelas coisas que estavam pertinho de nós, e que nem sempre as valorizávamos, e que por agora não podermos mais degustá-las, sentimos uma falta danada delas.

2.  A Ausência do Outro

Não fomos feitos para viver trancados. Precisamos da dinâmica da vida, dos sons de humanos, de dar e receber afetos, e do cheiro e toque de gente para nos sentirmos vivos. Não sem motivo, uma ida à feira-livre é terapêutica. Sentimos falta do happy hour, do papo com colegas de trabalho, da ida a shows, noitadas, e partidas esportivas, além da missa-culto, da academia, de sair para viajar, ou de churrasquear para os amigos no final de semana.  O outro importa.  O sentimento de não achar a turma, de se sentir só, mexe com a psiquê humana.  Não estamos preparados, emocionalmente falando, para viver numa ilha.  Por melhor que ela seja, caso sozinhos, após alguns dias, vamos nos enfadando. Queremos alguém para dividir as coisas da vida, que ocorrem nesta ilha.

3.  A Sabotagem da Paz 

Este processo de exílio  no enfrentamento de uma doença que circula invisível, pelo ar, sem muita previsibilidade de quem será o próximo atingido, aumenta a sensação de aperreio. por melhor que seja a rede social, nada se compara a uma visita de uma amigo que nos acalma o coração. Então é um momento de muita angústia, ansiedade, medo e preocupações, afinal não o planejamos, nem foi uma escolha. E a incerteza com o amanhã açoita o pensar, e produz noites insones.

4. Os Desestabilizadores do Agora 

Nesta categoria de aperreio existem dois elementos cruciais. A questão da execução da agenda cotidiana que foi rompida. E a pessoa se sente perdida. Ela acordava todos os dias com uma agenda a cumprir. Seja escola, seja trabalho, seja sair para resolver pendências, ou coisas da vida pessoal. E, de repente, cadê aquele ônibus que pegava todos os dias? Cadê o menino pra deixar no colégio? Cadê aquela busca por vaga no estacionamento? Ou aquela agenda que as 24 horas eram poucas pra cumprir? Agora, parece que o dia tem 48 horas. E a falta de marcações habituais na agenda, cria uma sensação de vazio existencial.  O outro elemento é o cancelamento de coisas que marcamos para ocorrerem logo ali, dobrando a esquina do futuro. Um casamento que iríamos, uma viagem cobiçada e duramente comprada, que tiveram os vôos e hotéis cancelados,  seja coisas prosaicas como uma noite cultural, um festival de cerveja, um congresso, um evento da igreja, ou até o dia de uma entrevista de emprego, realização de concurso, ou de visita a parentes distantes. Toda a agenda futura, para os próximos meses, ficou adiada, para um dia qualquer, ou sempre cancelada. Isto mexe com o agora, tira o chão dos pés.


Dito isto, agora você já começa a se compreender melhor sobre coisas que pode estar sentindo. Eu tenho uma fórmula para lidar, e atenuar, os imprevistos negativos que me ocorreram. Como um cancelamento de um contrato de fornecimento de palestras, um vôo cancelado, ou um projeto adiado por falta de condições epidemiológicas para juntar pessoas em torno dele. Todos ocorridos comigo.

Como melhoro da cabeça?

Faço três perguntas a mim mesmo, e, caso a resposta a elas seja uma negativa, eu prescrevo uma dose de AAS.  Leia e entenderá.

Vamos às perguntas.

Fui culpado pela situação negativa ocorrida?
Posso alterar algo na situação negativa ocorrida?
Pensar na situação negativa que me ocorreu ajudará em algo, do ponto de vista de sua solução?

Se respondi: Não, Não e Não, passo para o AAS.

O que é o AAS?

A de Acolher o que ocorreu, já que não posso mudá-lo.
A de Aprender com o que ocorreu, e crescer diante da situação negativa vivida. Mudar a si mesmo.
S de seguir em adiante, parar de olhar para trás. Mudar-se da posição de vítima.


RISCOS DO ISOLAMENTO SOCIAL


1. Quebra da Arquitetura da Toca

Nossa toca, nossa gruta, tem um espaço socialmente demarcado. Com mais pessoas mais tempo coabitando este lugar as tensões e conflitos poderão eclodir. E precisarão de muita inteligência  emocional para serem harmonizadas. Coisas simples como uma ida ao WC pode criar fila, ou o acesso à cozinha  Também a parte do lazer pode ser afetada, com diferentes necessidades sendo colocadas em pauta. A Toca parece que não é programada para longas permanências dentro dela, sem sair para uma desparecida lá fora.

2. Busca de Atenuantes à Ansiedade

A pessoa começa a querer suprir a ansiedade do "confinamento" comendo tudo que vê pela frente. Ou bebendo qualquer coisa que tenha na adega. E ainda consumindo em sites virtuais. Então, o risco é sair um alcoólatra, obeso e endividado após um período de isolamento social.

3.  Perda de Referencial Temporal 

Aqui colhemos da experiência de quem ficou em solitárias, na qual não se sabia mais que dia era. A pessoa deixa de seguir uma agenda de cuidados, dorme muito, troca a noite pelo dia, não come nos horários costumeiros. E o dia vira noite. E a noite vira dia. Como se ele estivesse passando por uma espécie de Jet Lag.


O QUE EVITAR NO AUTO-ISOLAMENTO SOCIAL (Coronavírus)

1. Consumo excessivo de mídia negativa, alarmista e, muitas das vezes, sem consistência científica.

2. Acreditar em narrativas apocalípticas, como verdadeiros mantras auto-realizadores. "Nunca iremos nos recuperar disso".  "Vai faltar comida e água".

3. Participar de boicotes, crendices, e outros comportamentos sem amparo científico, alimentados pelo medo e ignorância sobre a doença.


SEIS FORMAS DE LIDAR COM O ISOLAMENTO SOCIAL

1. Não se prostre e se descuide de si mesmo.  Você não tirou férias de teu corpo.  Precisa manter a autoestima funcionando, ao tomar um belo banho, comer saudável, fazer o que der pra fazer pra se exercitar, nem que seja cantando no banheiro. E, não se desconecte dos horários dos remédios, nem dos amigos que pode acessar via rede social.

2.  Crie metas e agendas diárias para alcançar e fazer algo. O que vou aprender hoje? Que prato posso fazer na cozinha? Qual livro lerei? Que artista preferido vou pesquisar tudo sobre ele? Sobre que parte de minha vida farei uma crônica? Qual foto antiga merece uma repostagem, com a narrativa daquele momento gostoso que viveu. Mesmo sem ser numa quinta.

3. Engajamento (Flow).  O que te leva a se desconectar do tempo e das preocupações quando está fazendo? Eu coleciono vinis. Quando folheio as capas, e os escuto, esqueço do mundo. Ache aquilo que te dá esta sensação. Pode ser um trabalho que esteja produzindo no notebook. Pode ser uma jornada para leitura de livros sagrados. Pode ser a própria oração, ou meditação. Ache seu Flow, de deixar a vida fluir em si mesmo.

4. Solidariedade - Ninguém Solta a Mão de Ninguém Virtual. Uma das maiores fontes de bem-estar ocorre na relação empata e cooperação para com os outros. Coloque-se disponível para isto. Tem gente no teu prédio que pode estar precisando de tua luz. Seja cantando na varanda, seja se oferecendo para levar o cachorro para sair (caso tenha menos de 60 anos), ou fazer compras. Ou simplesmente ligar para a pessoa e tranquilizá-la, para que ela não se sinta desamparada, por não estar recebendo visitas.  Há um monte de coisas que podemos fazer para que este momento seja menos dolorido para muitas pessoas. Inclusive liberar nossas diaristas pagando-lhe o salário. Se tiver filho, uma boa ideia é contar histórias para ele, transmitindo-as pelo ZAP do prédio, ou condomínio, para outras crianças.       

5. Sabedoria espiritual. Desenvolva a temperança, a moderação e a fortaleza. Alimente pensamentos e emoções positivas que digam para si mesmo: amanhã será melhor, isto também passará. Busque a paz dentro de si, ou ao contemplar um amanhecer, anoitecer, ou uma criança sorrindo. Exercite a paciência e a tolerância. Reaprenda a dialogar, a chamar as pessoas para a refeição, na mesma mesa e horário. Sinta que este momento de isolamento pode ser fecundo para se autoconhecer, para exercitar o silêncio de si mesmo, sem a agitação da rotina da sobrevivência diária.  Tempo de descobertas, na gruta do lar, é o que estamos vivendo!

Longevidade Saudável e Amorosa (Por Ricardo de Faria Barros.)

Resultado de imagem para fila preferencial

Muito dos valores de uma sociedade se refletem no seu comportamento numa fila.
Recentemente, observei pelo menos três deles. Tomando um café, bem próximo de um dos portões de embarque, pude contemplar de forma privilegiada parte da miséria humana que se revela numa fila.  Naquela sala de embarque havia quatro filas. Os sem bagagem de mão, os com bagagem, os com assentos das filas de 1 a 5, e os Preferenciais.

Observei os que entravam na menor das filas, aquela destinada a quem tinha comprado bilhetes para o setor vip daquela empresa de aviação (as de 1 a 5).
São poltronas nas quais qual podemos apanhar algo que caiu à nossa frente, ao nos curvar para tal.  Nas outras não dá, pois que nelas viramos sardinhas, e sardinhas não se curvam.
Muitos entravam naquela fila dando uma de espertos, já que não estavam nas poltronas das fileiras de 1 a 5, e quando passavam pela conferente, olhavam pra nós – os que estávamos na imensa fila dos sem-bagagens, com olhos vitória.
Um ou outro era barrado, pela outra conferente mais exigente, e voltava vociferando coisas, e olhando para nós com raiva. Como se os que na fila certa estavam, fossem seus inimigos, já que ele teria que ir lá para o fundo da fila.

O segundo comportamento, era o dos que insistiam em ficar com suas bagagens, na fila dos Sem Bagagem, já que era a terceira menor. Eles davam uma do famoso: “se colou, colou”, e ficavam ali, desconsiderando os avisos sonoros de despacharem antecipadamente suas bagagens, ou para se colocarem nas filas devidas.
Então, muitos acabavam passando pela triagem do embarque, mesmo estando fora de conformidade. O que irritava aqueles que estavam certos e aguardavam sua vez. E, assim como no exemplo anterior, eles saiam com um sorriso maroto no rosto, daquele de quem se acha superior aos outro, e de quem quer levar vantagem em tudo, independente dos meios que se utilize.

Mas, é o terceiro comportamento o que me causou muita estranheza. Os acima me causaram revolta e preocupações éticas.

Ele ocorreu na fila preferencial. Ali têm pessoas enfrentando doenças crônicas, pessoas com mobilidade reduzida, dificuldades visuais, gestantes, pessoas com autismo, têm crianças de colo, e seus responsáveis, e têm aqueles com mais de 80 anos.

Eis que chega bem próximo da ponta da fila Preferencial, um senhor de cabelos bem branquinhos, aparentando ser da geração dos idosos saradões.   
Aí faz uma avaliação do tamanho da fila Preferencial e segue decidido para o início dela.  
De porte altivo, todo empinado, durinho, bem vestido com roupa de roupa de quem cultua o corpo, ele se esgueira na frente, empurrado uma mãe com uma criança.
Aí o resto da fila protesta, e ele diz que é prioritário por lei, e que tem 80 anos.
Os protestos continuam, já que não existe a fila dos prioritários dos prioritários.
E, se acaso existisse, ela deveria ser dos doentes.
Todos vão se calando, ficando resignados, e o embarque começa.
E aquele ancião segue todo confiante pelo corredor adentro. Certo de que fez cumprir seu “direito”, ao dar uma carteirada de RG. Imagino-lhe chegando em casa e contando isto, todo orgulhoso, aos filhos e netos. Tadinho dele. Pois que está totalmente errado.
E não sabe o contra-exemplo que estará dando ao seu clã.
Não!
Mas, não acho que ele ficou assim por ser idoso. Acho que ele é o mesmo que um dia tentou entrar na fila dos Vips, ou que com mala de rodinha ficou na fila dos sem bagagem, e sem querer despachá-la antes, por mais que a moça anunciasse este benefício para agilizar o embarque.
Precisamos cuidar da nossa cuidar da salubridade social, comportamental e emocional de nossa jornada por esta vida. Caso contrário, ficaremos emocionalmente insustentáveis.
Pessoas que degradam o ambiente com a presença delas.
Outro dia li um artigo sobre os malefícios que um coração rabugento, cheio de murmuração e mágoas encardidas causam vários problemas ao sistema cardio-vascular.
E estes estados de humor na sua versão críticas são gatilhos pra o Desamparo Apendido, e este para a depressão.
Pesquisadores identificaram que os riscos de adoecimento do sistema cardio-vascular-respiratório são superiores ao tabagismo.
Será que também existe um risco para quem convive com esta pessoa de forma intensa e permanente, tal qual o risco dos fumantes passivos?
Creio que sim.

Quero envelhecer tendo muito cuidado para não me tornar um chato, um arrogante sabe-tudo, uma daquelas pessoas cheias de conselhos, na ponta da língua, e que se acham no direito de se meterem na vida de todo mundo.

Quero não!

Quero manter a cabeça boa, sem usar os anos de vida como carteirada pra ninguém. Nem pra furar a fila, nem pra bancar o sábio, desqualificando as vivências dos mais jovens.
Quero ser um velho cheio do sabor da juventude.
De bem com a vida, sem ficar empunhando minha verdade pra ninguém.
Quero continuar a desenvolver uma visão poética da vida e do viver.
Mesmo que possam me ter como tolo.
Quero continuar a acreditar na força do amor, na bondade, na solidariedade, nas coisas que nos elevam a alma, como aquelas que a cultura nos traz.
Quero continuar acreditando em coisas simples como o valor do aconchego da família, como a capacidade de sair de situações difíceis, como a revolucionária crença de que o amanhã poderá ser melhor.
Não quero ser nem ácido, nem azedo. Quero ser gente boa, tal qual uma compota de doces.  

Uma pergunta que não quer calar é de que vale queimar todo que é gordura, malhar muito todos os dias, ficar saradão, se não fizer isto também no cérebro. Se não cuidar da qualidade das emoções, dos pensamentos e dos comportamentos para consigo mesmo e para com os outros.

Que meus grisalhos cabelos não me afastem deste propósito, seja pelo acúmulo de notícias não legais, que observamos na rotina dos dias, e que turvam a lucidez de nosso ser.

Seja pela indiferença ao que se tem, e aonde já se chegou, fruto do costume de viver, que amansa e dopa a visão sobre nós mesmos, sobre os outros e acerca da realidade, contaminando-nos com o mais letal dos vírus, chamado de IAV, a Indiferença ao Assombro de Viver.

Doze Peixes e Um Gesto de Amor (Autor Ricardo de Faria Barros)

Chegamos à praia da Barra do Jucu, 40 KM de Vitória-ES, um tanto frustrados com a estada na praia anterior, na badalada Guarapari, chama de Praia do Morro.
 Naquela praia apinhavam-se umas mil pessoas que disputavam com os guardadores de guarda-sol, cada pedacinho de areia para se alojarem.
Não gostamos daquilo, daquele monte de gente dentro de uma lata de sardinha de faixa de areia de praia, e logo decidimos explorar alguma outra praia na volta.
Lembrei-me que tinha passado por uma placa que indicava a praia da Barra do Jucu. Gosto de praias de barras, geralmente formadas do encontro de um rio com o mar, produzindo um cenário muito bonito.
Pedi ao navegador, DJ e fotógrafo, o JG, que aprumasse o Waze em direção da praia, já que ficava na estrada de volta para Vitória mesmo.
Chegamos na praia e foi amor à primeira vista.  Aquela montanha rochosa que se projetava mar adentro, tornava aquele pedaço de praia quase uma rua sem saída.
Na praia, havia um monte de barquinhos de pesca, redes penduradas, crianças correndo livres, nenhum vendedor “de sombra” (ufa), e ainda ocorria um surreal leilão de peixes, à céu aberto. Fruto de uma puxada de rede, que recém houvera ocorrido.
No acesso às duas únicas barraquinhas, uma placa com um monte de latas penduradas nelas, saudava os visitantes com a expressão:  “Lixeirinhas compartilhadas. Chegou? Pegue! Já vai? Devolva!”
A ideia é que os próprios frequentadores coloquem seus lixos de praia nestas latinhas, devolvendo-as para coleta posterior. Genial!
Troquei umas ideias com os garçons que alternadamente nos atendiam, numa colaboração entre eles não tradicional, já que não dividiram a praia em setores. Quem estava disponível, e via o cliente erguendo as mãos, corria pra atender. Então fiquei sendo atendido pela Jamile, Weslei e o Baiano. Descobri com eles que se subíssemos pela encosta do morro chegaríamos uma praia só acessível de barco, e muito bonita, e que do alto do morro eu faria boas fotos. Descobri também que ainda haveria uma puxada de rede. Que consiste num barquinho que vai bem fundo, levando uma enorme rede, em cujas extremidades ficam longas cordas. O barquinho faz uma espécie de U, invertido, derrubando a rede no mar. Depois, da costa, dezenas de voluntários puxam a rede. Todos que ajudam ganham peixe e é uma festa só.
E fui ficando por ali, com olhos encantados e assombrados para a simplicidade e poesia do lugar, tão diferente da badalada praia anterior, que virou uma espécie de passarela e point comercial de beira mar.  
Tomamos nossa água de coco e fomos subir o Morro da Concha, como é chamado. De seu alto, avistamos a praia privativa, não de quem tem dinheiro, mas de quem escala o Concha, que mais parecia uma cena daquele filme a Lagoa Azul, e soltamos um Uauuu!!
Na subida, vimos o barquinho soltando a enorme rede no mar, e ficamos confiantes de que em breve veríamos a puxada da rede.
Voltamos para a barraca e pedi um peixe frito ao Baiano,  e um filé com fritas para o JG.
Quando Baiano já corria pra barraca, gritei pra ele voltar. Disse-lhe que não tinha visto arroz em nenhum prato do cardápio, mas se tivesse alguma pequena porção, que eles mesmos tinham trazido de casa, eu aceitaria um pouco dela para incrementar o almoço do JG.
 “Deixe comigo, em tentarei. E vou trazer também uma salada junto”.
Uns 30 minutos depois chega o Wesley com o peixe, e a Jamile com o filé com fritas e um arroz que de tão novinho ainda cheirava ao alho torrado junto .
Ela me diz que fez o arroz pra o JG. E meus olhos marejaram.
Com pouco chega o Baiano, com uma pequena caçarola, cheia de tomates cortadas rusticamente.
Era a salada que ele prometera. JG ama tomate, e eu também. E, aquela foi a melhor salada que comemos, embora só tivesse tomate, e o recipiente na qual foi servida, não se parecia muito com uma bandeja.
Não importa, ela tinha um sabor especial.  Entendedores entenderão.
Paguei um picolé pro JG, e pedi mais 3 picolés que levei para os simpáticos garçons. Era o mínimo que eu podia fazer, em retribuição.
Aí o espetáculo da puxada de rede começou. Um verdadeiro trabalho em equipe, com dois grupos de puxadores, cada um com umas 12 pessoas, que trabalhavam de forma sintonizada, fechando a rede e a puxando com força do mar.
Percebi que ficavam algumas pessoas em pé, próximo ao mar, e que elas iam reversando os que estavam localizados na ponta da corda, a que se conecta com a rede, dado que ali o esforço é muito grande pra um homem só aguentar por muito tempo.
A chegada da rede é uma cena indescritível de bela. E, ali mesmo, o pescado vai sendo dividido entre os trabalhadores da puxada, umas 24 pessoas, e com o dono da rede e barco, o pescador-capitalista.  Mas, todo mundo ganha seu peixe, quem puxa a corda, desde o início, leva peixe bom pra casa, e uns 5 quilos.
Mas, até pra quem só aparece na hora que o serviço fica mais fácil também ganha seu peixe. E até crianças e pessoas idosas catam os peixes de menor valor, tipo mini-sardinhas, que vão ficando espalhadas pela praia. Na puxada da rede todos são incluídos.  
O pescador Tiago, um dos líderes das equipes, aproximou-se de mim e explicou que aquela era a última do dia.  E que eles dão até 3 lances por dias, dependendo do vento e das marés.  Ele percebeu que éramos turista, talvez pelas fotos rsrs, e nos deu mais dicas do lugar. Nos convidando pra Descida do Mastro, festa de Samba de Congo, em louvor a São Benedito, que ocorrerá no domingo. Na despedida, ofereceu a hospitalidade da casa dele, para o caso de queremos pernoitar no domingo, após a festa.
Volto pra barraca, e JG para o mar. A esta altura ele já tinha se enturmado com um monte de filhos de pescadores, que juntos pegavam jacaré. A tarde vem caindo, tomamos uma gostosa ducha, daqueles chuveirões gratuitos de beira mar civilizada, e pedimos a conta.
Pedi que Wesley bote numa quentinha o resto do filé com fritas. Dará uma boa janta.
Logo depois, ele chega com as iguarias acondicionadas num saco plástico. E diz, na maior simplicidade e serenidade, que eles não têm quentinhas de isopor, mas que improvisou naquele saquinho.
Pensei comigo, e qual o problema? Tiras de filé fritas e batatas não vão estragar em mais 60 minutos de direção.  E valeu demais o gesto dele, solucionando meu problema.
Aí chega o Baiano com uma sacola plástica e diz assim: “É para o senhor levar, são doze peixes, do tipo pescadinha”.
Marejei novamente as pupilas da alma. Agradeci o gesto, pedi uma foto pra documentar a cena, disse-lhe que estava em hotel e não havia como levá-las para Brasília.  
E dirigi 60 minutos com o sabor daquele gesto que emoldurava meu ser de tanto amor que recebi, daqueles simples garçons, que sabem fazer a diferença, sendo o melhor para o mundo que possam ser, e não querendo ser os melhores do mundo.
Eles foram gratos com o que tinham. Ganharam picolés, devolveram com peixes.
Peixinho fresco, pescado na frente do estabelecimento deles.  Coisa boa.  
Mas, eles me deram mais que peixes. Eles deram uma aula de gratidão.  Uma aula de humanidade.
E de cuidado com o próximo e empatia com um pai querendo dá almoço pra um filho.
Quais doze peixes ofereceremos ao nosso próximo?
Como senti e expressar de forma mais concreta a gratidão? 
O que faremos para surpreender pessoas, para ir além do combinado, do convencional, encantando-as?
Como demonstraremos melhor o nosso respeito amor para com o outro?
Wesley, Baiano e Jamile sabem estas respostas, e as fornecem com os frutos de seu próprio trabalho.

Ps. Eles não cobraram pelo arroz e salada de tomates. 

Olhai as Tartarugas (Autor Ricardo de Faria Barros)

Este texto não é sobre tartarugas.

É sobre um monte de coisas que existem no oceano de nosso viver, coisas do tipo bacanas, que não as vemos, por não saber que existem, ou por ter esquecido de olhá-lhas. Até que alguém nos desperta para isto, e voltamos a ver o que nem nós sabíamos que existia de tão bom em nossa vida.

Frequento uma praia em João Pessoa-PB, há pelo menos 50 anos.
Eu e ela crescemos juntos. Posso até dar nome aos coqueiros e a cada reentrância da praia que se amolda ao mar. Nós a chamamos da Praia do Iate, em referência a um Clube Náutico que por ali existe, embora seja a Praia do Bessa I.
Mas, algo só me ocorreu neste veraneio. Acontece que minha irmã veio nos visitar e disse que uma tartaruga estava nadando bem perto dos banhistas, inclusive passando próximo ao meu sobrinho e cunhado, na praia do Iate.
Sempre soube que elas usam este trecho de praia para desovar, mas nunca tinha me passado a ideia de que elas ficassem na área, dando uma nadada boa. Enquanto esperam a hora, nas luas cheias de janeiro, fevereiro e março.

Depois do almoço com a mana, fui até mar, com o firme propósito de nadar com elas. Mas, não as encontrei.
No outro dia, fui ver o sol nascer da praia, e eis que uma tartaruga emerge para respirar, bem na prumada do sol que eu via nascer.
A partir daí, transformei-me em observador de tartarugas. Sei até o melhor horário para vê-las, das 5h às 7h. Até criei minha própria técnica para ter sucesso na observação de tartaruga. Nada de ficar passeando a vista no imenso mar à minha frente. Isto só diminuirão as chances.

É preciso se concentrar num único ponto. E esperar, esperar e esperar. Como elas passam um bom tempo nas profundezas, flagrá-las emergindo, e acertar o local, torna-se quase uma loteria. Então, é preciso acreditar que naquela faixa do enquadramento do olhar, mais cedo ou mais tarde, ela aparecerá.

Confesso-lhes que estas férias têm tido este sabor especial.

Então, algo mudou em meu ser. E, foi uma mudança profunda, estrutural. Todos os dias, bem cedo, aprumo a vista para vê-las nadando. Não é coisa fácil, exige paciência, foco, disciplina e até sorte. Hoje um banhista, apanhador de nascer do sol, quis até me acompanhar, mas logo desistiu. Disse que elas não apareceriam. Eu lhe falei:

- Senhor, elas estão ali naquele mar, têm muitas tomando o café da manhã neste momento. E não é o fato de não as vermos que elas não estão lá.

Ele, deu de ombros, sem entender muita coisa, e continuou sua corrida matinal.
O que houve em mim, do ponto de vista cerebral, com a nova perspectiva das tartarugas?
Eu remodulei os pensamentos, emoções e comportamentos, em função delas.
E tornei-me mais presente, criando as condições para que minha percepção selecione qualquer mudança de tonalidade, ou agitação, na lâmina d’água que possa facilitar nosso encontro.
Engraçado que a competência de observar as tartarugas, a partir de um toque que minha irmã me deu, ocorre com um montão de coisas que estão passando no oceano em nosso viver.
Às vezes só precisa que alguém nos apoie na remodulação de nosso olhar, sobre o oceano de nosso viver.
É uma escolha. Quantas coisas bacanas estão ocorrendo lá no interior de nosso mar, e que não as reconhecemos?
Mas, esta escolha exige mudança de modelo mental. Exige uma mudança de perspectiva, de enquadre.
É preciso que tomemos consciência, fruto do autoconhecimento, e que passemos a nos tornar observadores de coisas boas.
Imagine que nossa vida seja como este trecho de mar da Praia do Iate. Imagine que avistar uma tartaruga nadando é uma coisa que causa bem-estar.
O desafio que se faz presente, nos tempos atuais, é encontrar nas profundezas de nosso oceano interior as tartarugas.
Isto exigirá paciência, foco, determinação e muita constância de propósitos, mas valerá a pena.
Há muitas pessoas na humanidade fazendo este caminho. Pessoas que se cansaram com o vazio existencial da coletividade, com uma sociedade escrava do consumo e da agitação.
Pessoas que aprenderam a observar tartarugas.

Ter pais vivos podem ser boas tartarugas a observar. Ter um lar, uma família. Ter filhos, um trabalho, ter saúde, ter um animal de estimação, ou um amor pra chamar de seu. A lista é grande de “tartarugas”.

Que estão ali, mas que deixamos de vê-las por ignorância, mágoas, ressentimentos, falta de perdão, ou até mesmo de percepção do bem que nos fazem.
São coisas que para serem apreciadas, valorizadas e reconhecidas precisarão ser libertas das correntes da indiferença, rotina ou da falta de gratidão.
Por 50 anos eu via aquele mar, com olhos normais. E, olhos normais não acham coisas especiais. É preciso olhos encantados e assombrados, com o dom de viver, para achar o belo, o bom, o virtuoso escondido em meio ao caos e a perplexidade dos tempos atuais.

Mas, é uma escolha. E racional. Podemos passar o dia reclamando do que não temos, sendo rabugento com quem nos aborda. Fazendo aquele tipo de achar que “nada está tão ruim, que não possa piorar”. Ou o tipo que vive agitado, pilhado, cheio de ansiedade e que busca o sentido na vida, ao contrário do sentido da vida.

Mas, também podemos começar a cultivar uma vida mais simples, mais desapegada, com menos tralhas emocionais a carregar. Uma vida mais empática, solidária e mais coletiva. Uma vida mais leve, de mais amorosidade, autoconhecimento, de busca pelo crescimento interior, de um maior cuidado com o outro, e o consequente respeito.

São estas pessoas que observam as tartarugas.

E, eu quero treinar minha modulação cerebral para ser como elas.
Há coisas boas ocorrendo no oceano de teu ser.
Preste mais atenção, esteja mais presente, e não desista de si mesmo só porque ainda não achou as tartarugas. Calma, tenha foco, persistência e fé. Logo as verá em vários lugares de teu viver. Acredite.
Mas, é uma escolha. E racional.

Este texto não foi sobre tartarugas.

Foi sobre tanta coisa boa que existe no oceano de nosso viver que não mais as percebemos, valorizamos e nos satisfazemos com elas. Até sentir sua falta, num dia comum, daqueles que andamos cegos e indiferentes, ofuscados pela rotina cotidiana, no qual algo nos ocorre e as perdemos. Aí sentimos sua falta. Afinal, como disse Freud, o desejo é o alvo da falta.

Abra o cofre de teu viver ao simples! (Autor Ricardo de Faria Barros)

Era uma manhã de domingo, e o dia prometia uns bons passeios na cidade de Vermilion, em Alberta no Canadá. Naquele dia, um turista resolveu visitar o museu da cidade, no qual havia um velho cofre, fechado há 40 anos.
Ocorre que o cofre pertencia a um luxuoso hotel da região, e o único funcionário que sabia o segredo de abri-lo faleceu, subitamente, sem compartilhar esta informação.
Então, o cofre, junto com o mobiliário antigo do hotel, passou a integrar o acervo do museu. E, todos que o visitavam faziam fila par tentar abri-lo. O que se tornou uma atração à parte daquele museu.
Um cofre daquele modelo possui um mecanismo que geralmente pode ter até de 2 a 6 combinações numéricas de giros à direita e à esquerda. O que, na melhor das hipóteses, fornece uma probabilidade de 1 em 8.000 tentativas.
E, aquele turista acidental foi o predestinado da vez. Ele aproximou-se do cofre, entrou na fila dos que tentavam abri-lo, e, com uma combinação surreal de tão simples: 3 – 2 – 1 (três direita, 2 esquerda, 1 direita), ouviu o estalo do mecanismo se abrindo.
Todos ficaram espantados com o feito, e o assunto virou matéria do jornal local.
Dentro do cofre, havia uma “caderneta de fiado”, com as comandas dos pedidos dos hóspedes feito ao restaurante, para anotar em seus apartamentos, e um contracheque de um dos funcionários do hotel.

A reportagem disse que não havia tesouro algum naqueles documentos, o que eu discordo.
Creio que há belas mensagens na solução deste enigma.

A primeira delas diz respeito à simplicidade, ao retorno às coisas mais puras, serenas e amorosas. Tem algo melhor que conversar na calçada? Ou receber amigos em casa? Ou caminhar pela beira mar? Ou sentir a Brisa Aracati te abraçando e arejando, numa sufocante manhã?

Tem algo melhor que ninar um filho? Ou cuidar de uma pessoa? Ou regar uma planta? Ou passear com um animal e estimação?
Tem algo melhor do que ouvir as histórias de nossos pais, repetidas mil vezes, e com a mesma intensidade amorosa que nos contam?
Tem algo melhor do que receber alta num hospital? Ou saber que o salário deu pra pagar as contas do mês?
Tem algo melhor que dormir em paz, por não ter feito ninguém infeliz no dia?
Tem algo melhor que a sensação de ter ajudado alguém?
Tem algo melhor do que se sentir amado?
Tem algo melhor do que amar?
Tem algo melhor que uma comida caseira? Ou prosear na cozinha?
Tem algo melhor que sentir que as pequenas metas que estabelecemos para nós próprios estão sendo alcançadas?
Todos estes pequenos prazeres são o 3-2-1.
O 3-2-1 é o complexo do simples. É onde mora nossos afetos positivos. O 3-2-1 é libertador. De toda aparência que precisamos usar para nos sentir aceitos. De toda arrogância de qualquer saber que precisamos destilar para nos sentir importantes. Ou de todo poder que precisamos expressar para nos sentir aquele cara.
Andamos procurando a felicidade em lugares complexos, em desejos e ambições enormes, em expectativas superdimensionadas.
Creio que a felicidade é um 3-2-1, que significa resgatar os prazeres das coisas simples, humildes, despretensiosas, como tomar banho de chuva, ou participar de um grupo de amigos que se reúnem para uma determinada causa, ou até do Terço dos Homens.
Não importa o que seja, cada vez me convenço mais que a felicidade mora ao lado, contudo nem sempre é vista, acolhida e saboreada.
Precisamos com urgência voltar a cultivar o simples. Eu falei que havia outras mensagens no cofre, não percebidas pelos matéria do jornal.
No cofre tem dois documentos que expressam a saga da humanidade. Tem um holerite, ou contracheque, e tem um bloco de pedidos de um restaurante.

Creio que aí temos a metáfora do Pão e da Beleza. O Pão do trabalho nosso de cada dia, do valor de nosso esforço, que nos permite ao final de um mês receber os proventos.

A beleza de poder usufruir dos frutos de nosso trabalho, seja numa comanda de um pedido de um prato, comido fora.
Comer fora é a expressão mais popular de lazer. Lembro das vezes que eu saia pelos bairros de Campina Grande-PB, aqueles mais populares, procurando locais que servisse uma comida a preço justo, saborosa e farta.
Os meninos faziam festa. Lembro da Pizzaria La Júlia, no bairro do St. Antônio, que servia uma pizza gigante a uns módicos 20 reais, com direito a um refri de 2 litros. E aquilo fazia a festa de minha filharada de 3 rebentos.
Lembro também de meu primeiro contracheque, do BANORTE, um Banco de Pernambuco.
Olhei fixamente para aquele papel. Tinha um monte de informações, até então desconhecidas por mim.
Ao retornar pra casa, com aquele papel no bolso, senti-me o mais importante ser do mundo. Era o meu salário, fruto de meu esforço, e que não era pouco como compensador no turno da madrugada.
Passei numa loja de eletrodomésticos, comprei uma radiola, um jogo de cadeiras de terraço, assinei umas promissórias, dando como garantia o contracheque, e segui altivo caminhando para casa.
No sábado, meus primeiros bens, adquiridos com meu próprio dinheiro, chegaram em minha casa. Casei às pressas, aos 20 anos, e quem montou meu cafofo foram meus pais, com a suada poupança que fizeram ao longo de mais de 40 anos de trabalho no Senai.
Então, ver aquela Kombi chegando com minhas cadeiras e radiola, deu-me a sensação de que eu estava progredindo. E tem coisa melhor do que esta sensação?
É pessoal, este cofre tem três mensagens para nossa vida.

O valor da simplicidade, o valor do trabalho e o valor de tudo aquilo que podemos fazer com os seus frutos, até comer fora, nem que seja uma vez por ano. Ou comprar um conjunto de cadeiras de terraço.
Nesta sociedade tão materialista, individualista e ambiciosa, que sempre quer mais e mais, parece que os encontros verdadeiros conosco mesmo, os que nos darão uma satisfação mais duradoura e melhor, habitam nas coisas cotidianas: na simplicidade dos afetos do existir, no trabalho e no poder usufruir de seus fritos – e também na simplicidade deles.
Que tal usar uma 3-2-1 e abrir teu cofre e passar a perceber o que tem dentro dele de forma mais intensa e melhor?
Podem ser teus filhos. Teus amigos. Tuas conquistas. Teu parceiro (a) afetivo. Teus pais. Tua empresa.
E tua vida...

Sim, 321 também é o número da casa de meus pais, lugar de afetos quentinhos, de presença de Deus, de simplicidade do aconchego, de quintal de encontros, de encontros fraternos e de cozinha amorosa. Lugar de amor, que acostumamos a chamar de Lar.


Para uma vida mais feliz, precisamos diariamente tomar um AAS. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Na noite anterior, eu e o JG (João Gabriel) fizemos os preparativos para uma viagem até Goiânia-GO. Eu iria palestrar no Hospital das Clínicas da UFC, e aproveitaria para passear com o JG que está de férias.
Malas arrumadas, check-list feito, material da palestra conferido, power-point na nuvem e no pendrive. Agora era a hora de dormir.
No outro dia, acionamos o WAZE e o JG assumiu a navegação.
Pegamos a BR 060, com trânsito intenso de ambos os lados, contudo no sentido de Brasília a intensidade era dobrada.
Aos poucos, conseguimos atravessar os trechos mais lentos e galgamos os piores 20 km do trajeto, agora restavam 180.
Mentalmente começo a conferir o check-list.
Escovas, pente, desodorante? Ok. Material palestra, cartões e livros? OK.
Paletó? Xiiii, esqueci!
Esqueci a mala do paletó, e na que levava, só havia bermudas e camisetas. Pegamos o primeiro retorno, e voltamos, agora enfrentando um verdadeiro caos que é a chegada da BR 060 para Brasília.
JG mangava e sorria de meu esquecimento. Eu, nem tempo pra ficar bravo tinha. Dado a atenção que precisava focar no trânsito.
Chegamos em Goiânia esbaforidos de calor, já pelo meio dia e tanto. Ao entrar na cidade nos perdemos, mesmo com o WAZE, e o JG morria de rir com a voz dizendo: “Recalculando Rota”.
Finalmente chegamos ao Hotel, que fica na movimentada Avenida Anhanguera. Desfizemos as tralhas, pedimos um UBER, melhor assim, e nos dirigimos para um clube antigo da cidade, que tem um monte de atrações e piscinas, o Jaó. Eu tinha tempo, a palestra seria no dia seguinte.
Chegamos no JAÓ e fomos barrados na entrada. Ocorre que eles não têm mais o serviço de day-use. Aquele que pagamos uma taxa pra usufruir determinado local, por um dia. A informação que acessei num site de turismo estava desatualizada.
Eu e o JG nos entreolhamos, suados e decepcionados. Então, da portaria mesmo, decidimos ir almoçar numa das maravilhosas churrascarias de Goiânia. Chamamos o Uber e quando ele perguntou pra onde, botamos o nome Churrascaria, aparecendo as mais próximas primeiro. Escolhemos uma com nome estiloso, a La Pampas.
Após dois cancelamentos, finalmente o terceiro Uber aceitou a corrida e nos resgatou, uma meia hora depois. Esperada na calçada e no mormaço.
Silenciosos, cansados e com fome esperávamos ansiosos desembarcar na La Pampas.
E isto ocorreu. Só que ao nos dirigirmos à porta de entrada, percebemos que a mesma estava fechada. E, pela poeira e papeis jogados por baixo da porta, já fazia uns meses.
Seguimos para o hotel, e já era perto das 15 horas. Perguntamos à atendente se tinha almoço, e ela nos falou que como hotel era pequeno, o serviço de restaurante já estava fechado, só estando disponíveis o de lanches rápidos.
Aí, olhei para JG e apontei para a pequena piscina, de águas azuis convidativas, e sem pestanejar mergulhamos nela. Primeiro iriamos matar o calor e o suor, depois ver o que iriamos afina comer.
Nem 5 minutos se passaram, e eis que nuvens carregadas se aproximam, trovões espocam ao longe. Aí começa a pingar e saímos de dentro d´agua, por precaução. JG gargalhando dizia: “Que dia, heim pai!”
Eu respondia, pelo menos estamos no hotel. Poderíamos ter pago caro no JAÓ e estarmos agora tendo que sair das piscinas.
Nos enxugamos, e quando preparávamos para ir ao quarto, uma senhora se aproxima. Ela pergunta se queremos almoçar. Alegres, respondemos que sim.
Ela disse que é a cozinheira e que soube de nossa fome. Que poderia fazer uns bifes com arroz e uma salada para nós, e em menos de 30 minutos. Topamos na hora. E ficamos emocionados com o gesto dela. E, foi o melhor bife com arroz que comi na vida. E o JG idem. Aliás, nunca vi o JG com tanto apetite, nestes dez anos que já fez. Vagando em mil pensamentos, processando o dia, saquei que na vida, para ser mais feliz, muitas das vezes, é preciso aceitar, acolher e seguir caminho, sempre que algo não ocorre conforme planejamos.
Fiquei com aquilo matutando por muito tempo. Aceitar. Acolher. Seguir. Lembrei que as iniciais destes verbos formam o acrônimo do AAS, santo remédio infantil. Um AAS curava tudo. Chamávamos, à época, de Melhoral infantil.
Acho que ela está muito certa. Precisamos de um AAS diário para ter uma vida de mais harmonia, bem-estar, paz e felicidade. Vejamos mais um pouco do que se constitui este AAS existencial:
A de Aceitar. E este é o primeiro Portal da transformação do ser, em sua jornada de crescimento. Aceitar nosso corpo. Aceitar que não ganhamos todas. Aceitar que as pessoas nem sempre são o que esperávamos que fossem. Aceitar nossa família. Aceitar que os filhos não nossos bens. Aceitar nosso trabalho. Aceitar uma doença crônica que nos sobreveio. Aceitar que amores se vão. Aceitar nossa posição social. Aceitar que dias ruins ocorrem. Aceitar que não temos controle sobre tudo. E que algo, mais cedo ou mais tarde, poderá sair diferente do que esperávamos.
A de Acolher. E este é o segundo Portal, que se só se chega a ele após atravessar o do Aceitar. Acolher a dias cinzentos. Acolher momentos de luto. Acolher partidas e despedidas. Acolher o que pensa diferente. Acolher o outro em sua essência, para além das aparências. Acolher aquilo que em nosso colo cai, sobre e o que nada podemos fazer, nada podemos mudar, a não ser a nós mesmos, diante daquilo que nos ocorreu. Acolher é uma postura contemplativa diante da vida. Não é de acomodação, nem alienação. É de gratidão. Gratidão por dias bons, por dias ruins. Gratidão, apenas por viver. Quem acolhe se abre à gratidão.
S de Seguir. E aqui temos o terceiro Portal, que na verdade é um caminho. Que só se chega até ele depois dos anteriores: Aceitar e Acolher. Seguir caminho. Refazer-se juntando os mil cacos. Fazer germinar novos sonhos, semeados em terreno irrigado com as mil lágrimas choradas. Seguir é fechar as janelas de mágoa, culpa, ressentimento e sofrer e não olhar ais para trás. Perder o vício de ficar sempre olhando pelo retrovisor da vida, lamentando-se do que deixou pra trás, do que perdeu, do que não viveu. Seguir é postura dos sobreviventes. Dos fortes e corajosos. É preciso muita força de espírito, muito ânimo, para ousar seguir um novo caminho. Mas, seguir preciso. Não é possível crescer ficando na posição de vítima, desilusão ou decepção com o viver. É preciso fornecer respostas à vida, no lugar de ficar apenas esperando respostas dela, e a isto chamamos de seguir o caminho.
Aceitar, Acolher e Seguir, são nosso Melhoral existencial. Uma vida mais feliz e prazerosa passa por estes verbos de posturas ativas tão sábias. Aprendendo eficazmente, e com inteligência emocional positiva, a lidar melhor com situações adversas, a enfrentar momentos tensos e a se relacionar com as quebras de expectativas, imprevistos e fatalidades, como um paletó esquecido, um clube para nós fechado, uma churrascaria falida e trovejadas que nos expulsam da piscina.

Na foto, o JG pulando na piscina, antes do temporal chegar.

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