Regue seu Buxinho


Querido buxinho, replantando hoje um de teus irmãos, verdinho-verdinho, vi que falhei para contigo.
Ao novo buxinho, prometo-lhe não mais deixá-lo sem água, como fiz com o anterior, confiando apenas na sorte de chuvas erráticas.
De agora em diante, cuidarei para que todas as noites, antes de dormir, tu recebas generosa quantia de água.
Caso contrário, teu destino será igual ao daquele o que jaz ao teu lado.
Quantas coisas vão nos murchando, diariamente, em nós grudadas e sem que sobre elas façamos algo, intencionalmente para reestabelecer a vida.
E vamos ficando secos – emocionalmente falando.
Precisamos de pausas. No corre corre da cidade grande, na luta pela sobrevivência, e após um dia de peleja na selva corporativa, precisamos restaurar sentimentos, renovar valores e entrar em contato conosco mesmo, para juntar os nossos cacos que foram caindo ao longo do dia.
Uma água que jogo em mim, todas as noites antes de dormir, é rememorar meu dia.
Minutos depois em que a luz se apaga. Quando posso ouvir até o respirar de minha parceira, então brinco de soltar meus pensamentos e aguar meu ser.
Vou me lembrando do que prestei atenção, ao longo do dia, de bom, belo e virtuoso.
Hoje, ao caminhar após o almoço vi uma menininha voltando da creche, com sua babá. No caminho ia pegando varetas e brincando de fada.
Vi quatro senhores que faziam a cesta, embaixo das copas de frondosas árvores, jogarem um carteado. Vi um moço fabricando pães sírios, ao vivo e a cores, e uma moça distribuindo-os após o tempo de forno, também ao vivo e a cores, aos clientes do restaurante em que almocei.
Vi um gerente apresentar o tema de sua área, com tanta empolgação e energia que dava gosto. Antes de dormir, sempre conecto-me às coisas boas. Em algumas ocasiões, levo-me para banhar-me no barreiro de meu avô paterno, ou comer goiaba no quintal de minha avó materna.
Precisamos de momentos de água, antes de nos levar para dormir. Mesmo cheios de problemas, caso esteja, ainda assim você pode se dar as mãos e caminhar pelas suas boas lembranças, verdadeiras conservas emocionais.
Inúmeras pesquisas comprovam que o amadurecer com qualidade de vida passa pelo que habita nosso pensamento.
Se não tivermos cuidado, o que nele habita e com ele passamos o dia, vai secando nossa seiva.
Vamos ficando ressentidos, descrentes e sem esperança.
Olho para o buxinho seco, e vejo dele teimarem folhas verdes, ainda. Vou aguá-lo também, quem sabe?
Pessoas também são assim, mesmo secas e sem qualquer formosura, podem renascer, lentamente, após o tempo de aridez.
E, após renascidas, é só cuidar para não voltar tudo ao que era antes.
É preciso cultivar espaços diários de encontro consigo mesmo, de revisão de vida, para permitir que o crescer irrompa e renove-se.
Não ir para a cama com um perdão adiado. Um abraço negado. Ou, um eu te amo, nem sequer balbuciado.
Tá certo que vez por outra, a coisa pesa demais, e não tem jeito: faltará água emocional em nosso ser.
Faz parte.
Esses momentos de veranicos emocionais são importantes.
São estados de espírito que dizem a nós mesmos que as coisas não estão tão legais quando desejamos, e nem sempre podemos sobre elas agir.
Contudo, cuide para que a falta de rega no seu coração não perdure. Não fiquei ligado a função “Play Triste” por muito tempo, sem você fazer algo para reverter esse sentimento.
Aja, se ajude a não murchar.
Leia coisas bacanas. Ouça também. Cuidado com os filtros negativos do viver.
Cuidado com a descrença, em si mesmo, nos outros e na realidade.
Toda forma de desesperança é como falta de água no buxinho.
Mesmo assim, nosso ser aguenta momentos assim. O que ele não aguenta é uma eternidade assim.
Aí, morremos em vida. O que é muito ruim.
Pense em seu ser como esse buxinho verde. Ele precisa de escolhas racionais que você fará, ao longo do dia, para preservar nele a vida.
Quantas coisas durante o dia podemos sobre elas ser mais flexíveis, tolerantes, e, até relevá-las.
Deixar de lado posturas muito rigorosas, enérgicas, cheias de razões.
E, fluir. Deixar fluir a vida, em toda sua beleza e contradições.
Costumo dizer que precisamos de duas coisas, durante o dia, para manter nossa seiva e fecundidade.
A primeira delas é fazer cirurgia bariátrica de pensamentos ruins, de críticas e reclamações de todos os tipos e intensidades. Na hora que o pensamento chegar, coloque outro no lugar, debata com ele, tire dele a força do mal.
A segunda delas é a academia da alma. Representada por práticas. Ninguém faz academia, ninguém malha, lendo livros. Malhar a alma significa praticar o bom, o belo e o virtuoso.
Com ações concretas de paz, reconciliação, amorosidade, respeito, mansidão, bondade e ética.
Sim, é possível! Outro dia a Catarina mobilizou uma rede de condôminos para comprarmos presentes para os filhos dos funcionários, e a ideia bombou. Todos ajudaram. Catarina desafiou o lugar comum, a imobilidade, e nos liderou numa causa do bem.
Catarina colocou água em nossos buxinhos.
Um monte de coisas boas espera por nós para acontecerem, desde que por nós paridas.
Na vida têm regadores sobrando. É só prestarmos atenção.
Para também pegar o nosso e sair distribuindo água a corações ressecados.

Um Regador de Luz




Uma luz diferente acompanhava a manhã desse domingo. Não era nem oito horas e o céu já descortinava-se num azul primavera estonteante.
Saí em direção à feira livre de São Sebastião-DF, na qual bato ponto todo domingo cedinho, na mesa da Pastelaria La Deysy.
No caminho, a luz me acompanha, o dia está místico, pensei. Nessas horas, em que isso me acontece, presto mais atenção. Não é sempre, mas hoje a luz está ali, querendo me falar algo.
Já chegando próximo à Av. Comercial, vejo um senhorzinho no aceiro da pista, ao lado da calçada, do lado direito, no qual não têm casas.
Olho, mas não vejo, apressado que estava e já processando a agenda que iria cumprir na feira: alfaces, espinafre, brócolis, carregador de celular, bicicleta do JG pra consertar, churrasqueira de espeto para comprar, e leite gourmet, direito da vaca, para fazer coalhada.
O carro segue por uns 200 metros, e a luz me fala. Você não viu aquilo?
Breco o carro, subo a calçada e dou meia volta. Vou passando devagarinho, o mesmo senhorzinho está ali.
Numa mão um balde, na outra uma panelinha pequena, como um papeiro.
E, ele está molhando as plantas, num singelo canteiro que certamente ele fez e cuida.
Ele me ver tirando a foto. Sem jeito, por ter invadido a privacidade dele, corro pra me apresentar e louvar seu gesto, de molhar as plantas. Apresento-me, e ele também: "Meu nome é Valdecir".

Saio para a feira com o gosto do gesto do Valdecir na minha mente. Mudou meu dia. Ele era a luz. E eis que a luz se fez.
Pensei, vou comprar uma flor para presentear Sr. Valdecir. Dito e feito, escolhi um hibisco cor de laranja, bem formado e com muitos botões. Apressei o passo da agenda, e, perto das 9h30min encostei no barraco em que ele me disse que morava com a filha. Trata-se de uma ocupação irregular, para qual eu sempre torcia o nariz quando por ali passava.
O barraco fica na calçada esquerda, da que ele fez o canteiro. Veja na foto que terá uma ideia.
Bato palmas e ele sai. Já vem abrindo um sorriso, digo-lhe que vim presenteá-lo com uma muda. Ele me diz que eu não posso presenteá-lo e ir já embora, que preciso tomar um café com ele.
Aí ele abre o portão, coloca-me pra dentro do singelo lote, no qual nos fundos mora sua filha mais nova, com dois netos, e ele mora num barraco ao lado, de uns 16m2, que construiu ni lote para não "incomodar a filha". No seu barraco tem quatto e banheiro, uma saleta e a cozinha, tudo numa meia água, de 3 metros de largura, por seis de comprimento.
Entrei ali e senti uma tremenda paz. As paredes do barraco forradas por fotos, de todas as épocas e motivos. Ele me serve o café e começa a contar-me sua história. Diz que veio de Princesa Izabel-PB, ainda jovem. E que teve sete filhos. Seis deles moram em Brasília e uma voltou para Paraíba. É viúvo. Diz ainda que tempos atrás vendeu sua casa, "uma casa boa" no centro de São Sebastião, e com o dinheiro dela comprou dois barracos para os filhos, e ainda ajudou a filha mais nova, que vive com dificuldade para criar dois filhos e é solteira.
Seus filhos protestaram, ao que ele respondeu-lhes "Deus já me deu sombra demais, agora é hora de eu dar sombra para meus filhos".
E vendeu tudo para cuidar da caçula, e netos, e viver perto dela, apoiando-lhe no que precisa.
Tomei mais uns goles do café, emocionado. Sua casinha toda pra fazer ainda. Paredes sem pintura, banheiro sem cerâmica, cozinha apertada e quente.
Mas, eu me sentia num palácio. Quanta paz tem ali! Quanta luz vinha do coração grato e sábio de Sr. Valdecir.
Aí ele foi me mostrando, foto a foto, como se estivéssemos numa galeria do Louvre.
Falava de cada bisneto, neto, filho, filha e seus agregados com tanto carinho, com tanto esmero, que dava gosto ficar ali ouvindo.
Não havia um ponta de mágoa, de resignação, dele só saiam coisas boas, para com todos que mostrava as fotos. Até o que "abandonou a filha" mereceu uma palavra de respeito. "Ele soube que era melhor partir, não maltratou minha filha, e fez a coisa certa. Entre eles não deu. Paciência. Mas é um bom rapaz".
Na saída fizemos um self, não sem antes prometermos não nos perdemos um do outro, e inserir na minha agenda domingueira o café do Sr. Valdecir.
Que do alto dos 75 anos, de uma pele enrugada e tostada pela vida difícil que teve, dele não ouvi uma só palavra de murmuração, reclamação ou queixa da vida.
Ele falou-me que vai plantar "o nosso hibisco" no meio do canteiro que ele fez. Falou "nosso", e fiquei profundamente emocionado.
Pronto amigos(as), agora tenho um pé de hibisco pra chamar de meu, plantado de "meia" com Sr. Valdecir.
Trocamos telefones, abraços fraternos, e nos despedimos. Com o mesmo enlevo com que a luz se despede do dia.
Domingo vou pedir que ele orce a cerâmica do banheiro, vou presenteá-lo com a pintura de sua casa e terminar o banheiro. É o mínimo que posso fazer, "Deus também me deu muita sombra".
Pessoas como Sr. Valdecir são anjos entre nós. Elas possuem um sentido da vida que as tornam inabaláveis. O propósito de Sr. Valdecir excede sua família, atinge os amigos, eu que passei por lá, e você que está lendo.
Atinge também a natureza, fazendo seu canteiro onde antes não existia nada, apenas um terreno abandonado e cheio de lixo.
Todos os dias ele carrega pesado balde, para sua idade, atravessa a rua, e molha uma a uma suas - aliás, nossas plantinhas. Não deixou de servir, de se sentir útil, de melhorar o mundo no qual habita.
Seu gesto de doação aos filhos é uma lição. Quantas famílias se destroem justamente na hora do inventário. Ele não. Antes de morrer já deu e dá do seu melhor.
Agora entendi de onde vinha aquela luz. É a luz de pessoas do bem, pacatos cidadãos de nosso querido Brasil. Eles estão por toda parte, com seus baldes e panelinhas irrigando corações e mentes, de pessoas prestes a desistirem de regar a semente da esperança.

Aquela água que Sr. Valdeci molha suas plantinhas é a água da vida. A água que nos torna viçosos, corajosos, otimistas e cheios de garra para superar nossos limites.
Então, inspiremo-nos nele. Corramos para adotar um jardim, compreenda a analogia.
Que possamos ser acolhedores como ele, que possamos abrir nosso lar a um estranho e oferecer hospitalidade e amor, regados por um cafezinho sem bolacha, que possamos parar com tanta falta de tesão pela vida, com tantas vidas no piloto automático, sem mais prestar atenção que ainda podemos ser bênção para quem nos rodeia.
Será que não tem alguém perto de ti precisando de um pouco de água?
Será que não tem alguém precisando de tua sombra?
Será que não tem alguém precisando de tua luz e acolhida? Corações cansados, que só precisam entrar no teu lar para de lá saírem renovados, restaurados em sua força de viver.
Ame por inteiro, bobamente, entusiasticamente, viver é bom demais.
Deixe de guardar besteiras e tranqueiras no coração.
Desapegue-se de tudo que te intoxica emocionalmente, até de certas pessoas.
Seja inteiro e intenso em tudo que faz. Seja ternura, paz, mansidão e generosidade. E dará uma sombra boa, para que sob ela habitem pessoas que precisam descansar, às vezes até de si mesmas.
Não vejo a hora de domingo chegar na sombra de Sr. Valdecir.
Mas, antes disso, amanhã ligarei para ele, perto das 9hrs, vou saber se ele molhou nosso hibisco.
Sim, agora é nosso! Temos um hibisco em comum.
Não podia ir dormir com tanta emoção que degustei da vida, pela manhã, sem dividi-las com cada um de vocês que me leem.
Vocês que tornam minha vida melhor. E, antes que me esqueça, obrigado por existirem. Vocês são sombra em meu viver.



Inspire-se!


5, 4, 3, 2, 1
Inspire-se!
Inspire
Expire.
Em cindo segundos, quantos pensamentos foram inspiradores em teu ser?
Conecte-se neles.
Desconecte-se de tudo que oprime, agride, prende, restringe, limita, amaldiçoa, para se conectar a melhores fontes de inspiração.
Há um mundo em ebulição, mares revoltos, vendavais.
Há movimento, pessoas correndo, carros alados...
Tudo pede pressa, ontem, velocidade.
Tudo fica velho hoje, descartável.
Tempos velozes e furiosos, tempos incertos.
Não se perca dos valores mais nobres, no meio desse frenesi de mudanças.
Seja revolucionário, pare! Encontre tempo para parar e avaliar o caminho, traçar novas rotas, alterar posições.
No tempo em que lê esse texto, nem você, nem o seu amigo distante são mais os mesmos.
Decisões já foram tomadas, ações postas em práticas, células morreram, esperanças renasceram, vidas germinadas.
Faça parte da corrente do bem. Aproveite a mudança para construir o mundo que almeja, no agora, no já.
Participe. Saia da arquibancada de seu viver.
Abrace, beije, cumprimente quem contigo está, também nesse mar bravio e ventanias assustadoras.
Ele também está com medo, e precisa de sua confiança para prosseguir.
Desconecte-se do wifi, por um momento, e conecte-se ao coração de quem está ao teu lado, conecte-se à humanidade. Por mais banda larga humana, e já!
A natureza está grávida de seu contrário.
Em meio à pressa, prazos urgentes, recursos escassos, pare mais tempo no sinal, para dizer mais frases - a um amigo distante, daquela da canção:
“Olá, como vai?
“Eu vou indo? e você como vai?”
“O sinal vai abri...”
Não deixe o sinal abrir sem acontecer sua presença no mundo.
Não terceirize sua vida, felicidade, esperanças.
Há também tempo para pausas, como essa, para recolhimento, para autoconhecimento, para evolução. Tudo move para o novo, com caos e ordem no mesmo cenário.
Evolua seu Pokémon interior, caminhe mais uma légua para chocar o ovo do novo.
Use o tempo frenético de mudanças a seu favor.
Esteja 100% presente, no aqui e agora.
Distorça a percepção do tempo, ao transformar Cronos em Kairós, pela força do amor, pela força do nós, em nós irmanados num mesmo ideal.
No reino de Kairós, um minuto pode ser uma hora.
Conecte-se ao que lhe inspira.
Desconecte-se do que lhe afasta da humanidade.
O que lhe inspira?
O que você anda inspirando?
O que você expira?
Se inspire, inspire, expire...
Se inspire, inspire, expire...
Preste atenção!
Há vida acontecendo em tudo lugar.
Floresça, não se deixe murchar, e também não murche o outro.
A lagarta que habita um casulo inspira-se num amanhã “voante”.
A lagarta inspira transformações, mudança, presente o tempo.
A borboleta é a sua melhor expiração, para a mãe natureza, é doação alada.
A semente que descansa em solo fecundo, inspira-se na árvore que poderá ser.
A semente inspira, inspira, inspira: água, luz, nutrientes.
A árvore que dá sombra, frutos, flores, é sua melhor expiração, é a sua oferta de gratidão por ter desenvolvido.
Toda a vida é mudança. Tudo em conexão: eu me inspiro; inspiro e expilo.
O que te inspira?
O milagre da vida? Aquele espermatozoide que venceu mil barreiras para você estar vivo, acasalando-se com um óvulo esperançoso, ainda está lhe assombrando.
Ou você perdeu a conexão com o que realmente importa, o que realmente é digno de inspiração.
Desconecte-se da indiferença das coisas. Olhe a vida ao lado acontecendo. Inspire-se no agora, preste atenção.
Contemple a força dos ventos, dos mares, veja neles a conexão com algo maior, do qual você faz parte.
Inspire-se!
Conecte-se ao que te inspira.
Mas, não guarde só para si. Aprenda a expirar coisas boas.
Diminua a poluição comportamental ao teu redor. Ajude ao ecossistema emocional, mudando, transformando pessoas, ambiente e negócios, para melhor. Melhor do que encontrou quando chegou.
Seja a inspiração que te inspira.
Seja transição, ponte, mudança para o Ser +
Tudo na vida está em evolução, mas escolha o lado bacana da evolução. Aquele que conecta pessoas em prol de um mundo melhor, mais justo e inclusivo.
Inspire-se nos bons exemplos, bons líderes, numa vida que vale a pena ser vivida, que por breve que é, não pode ser medíocre.
Olhe para quem do teu lado está. Inspire essa pessoa, acolha-a no seu coração.
Coloque-se como serviço, para ela.
Sem inspiração, tudo que trocaremos com o meio ambiente é oxigênio por gás carbônico.
Com inspiração, além destes, trocaremos energia, mobilização, superação, resultados, mansidão, gratidão, generosidade, reconhecimento, força de vontade, apoio, amizade, justiça e paz. Entregues de forma engajada e sustentável.
O que lhe inspira?
Estar aqui lhe inspira?
Então: Inspire-se, inspira e expire o bem, o bom e o virtuoso.
Construa o mundo que deseja, participe!
Seja inspiração!
Inspire-se na comunhão de amigos que preparam uma costela de fogo do chão.
Expire amizade.
Inspire-se numa mãe que nina seu bebê, enquanto dirige-se à creche, antes de ir trabalhar.
Expire cuidado.
Inspire-se num caixa de banco que atende a cada um como se fosse único, presenteando seus clientes com um sorriso cortês.
Expire empatia.
Inspire-se num atendente que colhe a assinatura de um financiamento imobiliários, com lágrimas vertendo, por saber que ali tem sonho sendo realizado.
Expire cidadania.
Inspire-se, é urgente!
Inspire, expire. Inspire, expire...
Inspire generosidade, paz, ternura, perdão, coragem e ética.
Expire doação, harmonia, amor, reconciliação, fortaleza e justiça.
Não esqueça de inspirar-se em coisas boas, belas e virtuosa.
Afinal, é isso que nos move na vida: inspiração.

Do que se faz uma vida boa?


De que se faz uma vida boa, uma daqueles que dizemos “tá tranquila e favorável”?
Será que é a tranquilidade da falta de movimento?
Ou, não será exatamente o oposto?
Manter a tranquilidade em meio ao movimento.
Não, não tema a mudança: a velocidade das coisas, dos tempos, dos movimentos...
Aproveite o ritmo. Gingue, dance, pule, ande, estique-se, surfe, corra, encontre seu espaço no turbilhão de transformações mas alinhe-se ao ritmo da vida cotidiana.
Mas, não pare de crescer.
Uma vida boa se faz em movimento.
Movendo a ação para frente!
Sendo e acontecendo no seu lugar no mundo. Participando!
Tudo em movimento antecipa infinitos, traz-lhe a valor presente.
O espermatozoide em direção ao óvulo, antecipa o bebê.
A semente em direção à terra, antecipa os frutos.
A esperança em direção ao futuro, antecipa possibilidades.
Tudo que cresce muda, transforma-se, move-se!
Mas, crescer dói e é arriscado. É melhor – pensam as amebas, estagnar.
Mas, não somos amebas. Embora uns se pareçam, por desistirem do jogo da vida antes do apito final.
O que leva um ser humano a crescer? Inspirações.
Inspirações são o motor da vida. O que lhe inspira?
Quem lhe inspira?
A quem você inspira?
Inspiração é o motor da mudança, o vetor do novo que vem vindo logo ali, dobrando a esquina.
O que são sonhos senão inspirações de propósitos?
O que é a vida, senão esse momento aqui, agora, no qual você vê esse vídeo?
Seja a inspiração que lhe inspira!
Evolua, sem se perder de si mesmo.
“Mudam-se os tempos, mudam-se as estações, tudo na vida é mudança”
Seja a mudança que almeja, corra, veleje, ande, abrace, dance, estique-se, mova-se.
Mas não esqueça, sempre em direção ao + Ser.
Ao ser mais.
Mais gente. Mais humano. Mais fraterno. Mais cidadão. Mais solidário. Mais tolerante. Mais ético. Mais generoso. Mais grato. Mais amoroso. Mais engajado.
Não é hora de lançar as âncoras do teu ser. Vem vindo uma tempestade lá fora.
Aproveite a força dos ventos, aprume as velas, ajuste o leme em direção ao futuro que almeja.
É hora de subir as âncoras, navegar nos mares bravios e enfrentar os furacões da incerteza.
Mas, não estará só.
Olhe ao teu lado!
Estamos todos, juntos e separados, conectados nesse mesmo propósito:
Ser fonte de inspiração de mudança para o melhor.
E transformar esse mundo em algo melhor do que encontramos pela força do sonho.
Afinal, sonho que se sonha juntos vira realidade.

Derrapadas nas Curvas da Vida


Há momentos na vida em que acontece de se derrapar na curva, tal qual esse meu vizinho que graças a Deus os pinheiros amorteceram o impacto da queda e ele não se feriu gravemente.
Ele cochilou, voltando dos embalos de sábado à noite.
Têm momentos em nossa vida que derrapamos, emocionalmente falando.
Que sobramos na curva e parece que tudo não faz mais sentido, e que recomeçar é difícil demais, quase impossível.
Nos vemos tal qual esse carro, sem forças para sair do buraco.
E, nosso instinto de sobrevivência fica lutando para dali sair, e cada vez em que não conseguimos, mas atolados vamos ficando, nos sentindo impotentes conosco mesmo, e chateados.
Existem muitas situações que provocam em nós essa sensação a de que derrapamos, emocionalmente falando, e estamos no fundo do poço.
Uma separação, não estas separações globais. Que na semana vindoura ambos já estão em Caras e bocas com outras(os).
Falo de separação real, daquelas que sempre dói, e muito.
Existe derrapada pelo luto da morte de um ente querido.
Ou aquela derrapada de não conseguir algo muito desejado, e para o que muito se trabalhou.
Outras pelas dores de amar, seja por um amor não correspondido; seja pela de um amor impossível.
Existe ainda a derrapada do trabalho, quando cheios de obrigações a pagar, filhos a criar, e já na idade adulta, perdemos o emprego.
Ou, ainda no trabalho, quando vamos perdendo o encanto, o prazer e nós sentindo vampirizados emocionalmente pela empresa, chefe, colegas e a própria natureza do trabalho.
Como podem ver, queridos amigos(as) são muitas formas de derrapar, na curva da vida.
Na hora em que derrapamos, é preciso abrir uma caixa de ferramentas emocionais que vão nos ajudar a sair do carro e chamar o guincho, entende a analogia?

O que tem nessa caixa de ferramentas?

A primeira ferramenta é a do acolhimento. É de acolher o sofrer. Acolher a tristeza e pesar. Parar de lutar contra ele. A tristeza faz parte de momentos de derrapada emocional, doente estaria se triste não ficasse. Então, primeira recomendação, acolha a dor.
Ela é só sua, e de mais ninguém, como diz a canção. Ninguém, por mais íntimo eu que seja, poderá sentir o que sentes no teu entristecer. Cada um vive, talvez a mesma cena, de forma diferente. E, talvez até alguns passem por elas sem sobrarem na curva e derraparem. Mas, você sobrou, então acolha-se. Não acelere seu processo de pesar. Não apresse o rio. Nem ache que está doente. Tristeza não é doença.

A segunda ferramenta é a de contabilizar as sobras. O que você ainda pode fazer, apesar da situação, dado que ela não poderá mudar. Se não podemos mudar uma situação, ainda assim podemos mudar a nós mesmos, diante dela, sobre a forma pela qual ela nos impacta. Esse é um processo racional. Você debatendo consigo mesmo. Eu sei que sofre. Que a dor de tua mãe que faleceu tira toda a vida de teu viver. Que a dor do emprego perdido, no momento que nem esse, tira qualquer centelha de otimismo. Eu sei. e acolho contigo essa dor, e mais tantas outras que você esteja passando. Só digo-lhe que contabilizar as sobras não é negar a dor. Não é sair sambando no asfalto, fingindo que nada lhe aconteceu. Contabilizar as sobras é se perceber como um corajoso viajante, dia a dia, cumprindo sua jornada no vale de lágrimas. É ver que ainda resta-lhe áreas da vida que não foram tolhidas, naquela curva. E, começar a investir nelas. Primeiro acolhemos o sofrer. Depois, chega hora, de darmos uma resposta ao sofrer. De proteger nosso ferimento emocional com curativo,para que não volte a infecionar. Nesse omento é de fundamental importância não se alimentar de pensamentos ruins, leituras deprimentes, músicas da mesma espécie, e até pessoas. Têm pessoas que adoram desgraça. E, ficam mexendo na ferida, só para se nutrir da dor do outro.
Afaste-se delas. Se ajude. Faça coisas não desejadas, como se fosse remédio que tomasse. Por exemplo, não negar a todos os convites para sair com os amigos. Eles sabem que você está triste. E não vão querer tirar esse seu direito. Só querem estar ao teu lado. Combine isso com eles. Faça uma espécie de contrato de que certos temas não devem ser tocados, e que você não estará muito para papo. Mesmo assim, se forem teus amigos, só pelo prazer de sentarem à mesa contigo, eles toparão. Aos poucos. Se na primeira ferramenta é você quem opera. Na segunda é a vida. A vida é terapêutica. E bons amigos são fonte de vida. Permita-se a vida. Leve-se para passear. Tomar sol. Visite alguém que precisa de você, doe-se ao outro. Verá que voltará um pouco melhor.

E a terceira ferramenta é a espiritualidade. É sentir-se amado(a) pelo bom Deus. É saber que se não morreu naquela curva é por que algo de bom vai acontecer. E que, isso que sofre no momento, passará. Que amanhã será melhor. Que você dará a volta por cima. A esperança é um valor da espiritualidade. A esperança é o cabo de aço que nos puxa do buraco. Um dia atendi a uma pessoa que perdeu o emprego, de forma bem dramática. 

Eu dizia para ele: "Pense como num game, você está numa fase ruim, que é difícil mudar dela, e se sente impotente, sem ver futuro ou perspectiva. Mas você é forte, é corajoso, tem disciplina, e pode se preparar para mudar de fase, mesmo que ainda viva algum tempo nessa fase ruim. Um dia quero receber um email teu assim: Ricardim, mudei de fase." Confesso-lhe que guardo esse email até hoje, ele mudou de fase, e para melhor. Não sabemos a força que temos de mudança, quando pedras são atiradas a nós, muros são erguidos, ou em poços profundos a vida nos meteu, só sabemos de uma coisa, a força de transformação de um ser humano que passa por dificuldades é tremenda. Esse ser humano, com os joelhos no chão, se restaura. Dele brotam renovos, e ele faz daquelas pedras que a vida lhe atirou um altar de esperança, ou uma ponte para o futuro.

Resumindo, se você se sente como quem derrapou numa curva e caiu num buraco, do ponto de vista emocional, abra sua caixa de ferramentas.
A primeira dela chama-se acolher. Compreender-se em seu sofrer. Não se chicotear.
A segunda delas chama-se fazer algo com o que restou, contando com a ajuda dos amigos. Ir, lentamente, saindo da posição de vítima da situação, e reassumir o leme do barco de seu viver.
A terceira delas chama-se a força dos valores, um de seus cabos de aço: a fé. Os valores saram feridas. O valor da gratidão. Da doação de si mesmo ao outro, mais necessitado. Talvez, seja pela espiritualidade, que saibamos a hora de fechar janelas, virar páginas, e cuidado novamente de nós mesmos, tolhidos pelo vendaval do luto. Quer seja pela força do perdão, quer seja pelo cultivo da confiança e auto-estima, quer seja pela entrega do sofrer ao Senhor Jesus, em ação de graças. Sim, amigos e amigas, em tudo dai graças. Afinal, tudo passa, nós passarinhos, e pássaros de uma terra santa.

Semear no Pó



Não sei com vocês, mas sábado acordei sorrindo. Sempre abro um sorrisão quando chega outubro. Considero o mês mais simpático do ano.
Tem dia das crianças, dos professores, recesso escolar, é aniversário e feriado de Campina Grande-PB, é enforcar e ir pra praia. É festa de Nossa Senhora do Rosário e de Nossa Senhora da Conceição,e correndo por fora de São Francisco.
Quando chega em outubro para mim já é natal. Natal é nascimento, e nasci em outubro.
Aproveitando a energia do dia 1, e o fato de ser um sábado, resolvi plantar sementes adormecidas que colhi, lá no Cemitério de Pirajuí-SP, em setembro, quando fui embarcar a minha sogrona, a Madalena Pinatti.
Quem um dia for à Pìrajuí, deixe de besteira e vá visitar o Cemitério de lá.
O corredor principal é coberto por trepadeiras amarelas, de uma flor exótica, não comum, que vai se enramando por sobre a estrutura de madeira, formando um telhado de folhas e flores, belíssimo, em mais ou menos uns 100 metros de extensão.
Colhi umas sementes e decidi que já era hora de deitá-las ao chão.
Resolvi apostar, plantar no pó, como fazemos no Nordeste, quando a intuição - ao olhar para o horizonte, nos diz que vão chegar as chuvas.
Dois dias depois, na segunda, deu uma chuva das boas. Daquelas que mansamente passa inteiro garoando, chuvinha fraca, mas constante, das que alimenta a terra.
Pensei comigo, as sementes agora estão prontas, ninho alimentado com a bênção da água, agora elas vão debutar no desfile da vida, e apresentarem seu melhor potencial.
Desde então, todos os dias quando chego do trabalho vou dar uma olhada nos canteiros.
Acho que muita coisa em nossa vida é plantar no pó. É acreditar contra toda desesperança.
Tem gente que diz que a vida nunca acontece pra ela, mas não planta no pó. Aí, quando chegam as chuvas, nada de sementes para aproveitarem a oportunidade.
Plantar no pó é acreditar no sonho, é perseguir um ideal, é focar num objetivo.
Mas, não só isso. Isso todo mundo faz. Isso é só intenção.
Precisa saltar no escuro, no vazio do infinito, e apostar em si mesmo, lançando-se á terra, mesmo que árida.
Quando dava aulas numa modesta Faculdade, há uns 40 km de casa, que pagava pouco e atrasado, estava plantando no pó.
Quando chegassem as chuvas, de outras oportunidades, eu já teria ganho experiência em sala de aula, e já podia comprovar docência de ensino superior, num meio dificílimo de entrar.
Por dois anos ali ensinei, pagando pra trabalhar, e um dia um dos professores falou de meu nome a um outro, de outro Centro, e a chuva chegou.
Vivemos hoje uma ambição tão grande, que não temos mais paciência para plantar no pó.
Tudo tem que ser pra já, pra ontem, e - de preferência, sem esforço e disciplina.
Não meus queridos e queridas, não se chega a lugar algum sem aprender a plantar as sementes do vir-a-ser, no pó de uma terra árida.
Sem essa aposta em si mesmo, sem buscar suas melhoras, sem abrir-se a novas oportunidades, que só serão aproveitadas caso esteja para elas capacitado.
Quantas vezes deitei minha semente da esperança de dias melhores em terreno tão sequioso. Que dele não vinha nenhum sinal de que seria possível.
Algumas sementes acabei perdendo, na vida não se ganha muita das coisas em que apostamos. Mas, se não apostar em todas as chances que aparecer, como emplacar pelo menos uma?
Outro dia conversava com o Danilo, motorista da Companhia de Energia da Copel, perguntei-lhe se os outros motoristas também tinham feito o concurso para Aux. Comercial, ele falou que não.
Que eles não se interessaram.
E assim é a vida. Eu vibro quando converso com vigilantes e eles me dizem que vão fazer o curso de Brigadista. Para um vigilante, chegar a Brigadista é como ver nascer os brotos de minha semente.
Mas, como chegar a brigadista sem se preparar? Sem fazer o curso, a prova e se certificar?
Será que apenas no desejo ele chegará? Desejos são como minhas sementes que estavam nessa caixa da foto. Apenas potenciais. Agora, quando eles deitam-se no solo, entendam a metáfora, viram possibilidades concretas.
Não podemos desanimar em buscar nossas melhoras, nosso aprimoramento pessoal e profissional. Agora mesmo minha filha passa uns tempos sozinha, fazendo Doutorado em Natal, deixando o marido só, em Brasília.
E, qual é o problema? Se ela não investir nisso, que tipo de árvore poderá colher no futuro, para o próprio casal usufruir de sua sombra, flores e frutos?
O problema é que estamos perdendo tenacidade, resiliência, capacidade de adiar prazeres, em busca de algo maior mais à frente.
E desanimamos fácil. Não passamos num processo seletivo e já pensamos em desistir, ou terceirizamos a culpa.
Desaprendemos a plantar no pó. A esperar, contra toda evidência em contrário.
Cleusinete Damasceno, a Neta, está terminando seu curso de enfermagem na UNIP. Quando ela começou, morava conosco e investia 90% do que recebia para custear seu curso: mensalidade, roupa, livros e deslocamento.
Outras Netas, não acreditam mais na força da semente que têm em seu interior, e não apostam em suas carreiras. Gastam tudo que ganham no consumo desenfreado, sem se capacitarem para algo mais.
Neta não. Ela passou 4 anos sem comprar uma calcinha. Privando-se de todo pequeno lazer ou conforto dos pobres.
E, agora, está prestes a se formar.
Neta semeou por quatro anos no pó. Agora ela colherá.
Mislene, telefonista da BBTS, mãe de dois filhos, morando longe, trabalho puxado, todos os dias fazia seu curso de Secretariado Executivo, à noite.
Outro dia, apareceu uma oportunidade de trabalho melhor, para cujo perfil exigia essa formação, e ela emplacou.
Agora Mislene é Secretaria Executiva de importante órgão no DF.
Eu sei que você está pensando que têm os que correm por fora, os de QI - a turma do pistolão.
Tem. Aqui e em qualquer lugar.
Mas, para pobre, só há uma chance de abrir caminho, para além dessa turma, é a de se capacitar.
Estudar, estudar e estudar. Aproveitar toda oportunidade de crescimento.
Não meus amigos e amigas, não é hora de desanimar em nossas vidas, em qualquer área dela que aparentemente esteja dando errado, ou já deu. É hora de buscar a caixa de sementes e voltar a acreditar em nós mesmos. Voltar a sonhar. Não se deixar abater por um fracasso, ou pelo desânimo que toma conta de parte da população brasileira.
É hora de cuidar de nós mesmos, de nos levar para semear, de não deixar que adormeçam nossos sonhos.
É hora de nos plantar no terreno do infinito. Talvez, as coisas em que nos capacitemos agora, ou apostas em que fizemos, só deem fruto anos à frente. Ou nem deem. Mas, pior seria se nelas não tivéssemos investido.
Ou seja, se não tivéssemos nelas apostados, seriam apenas intenções, que são diferentes de possibilidades.
Sinta que a chuva vem chegando em sua vida, logo ali, vem dobrando a esquina.
Caminhe mais uma légua. Não se entregue à estagnação de si mesmo. Renove suas esperanças. E acredite que o melhor de tua vida ainda está por vir!
Mas, repito-lhe, tenha paciência. Na vida não há almoço grátis, nem quem chegou a janelinha fez isso sem esforço, disciplina e muitas noites sem dormir.
Plantar no pó pode ser também, coisas para além dos estudos.
Como aquela mãe que usa o amor exigente para não desanimar do filho, e continuar esperando por ele, pelo seu desabrochar.
Ou, aquela pessoa que continua a investir no casamento, mesmo quando tudo ao redor nega-lhe certezas.
Ou ainda, quem não desanima de procurar emprego, batendo de porta em porta.
Ou, quem não desanima diante de tratamentos para doenças crônicas, para os quais não ver muito progresso, e mesmo assim persevera.
Poderia citar muito mais coisas que são como quem planta sementes na terra árida, com um coração esperançoso que não tardará as chuvas serôdias(*) chegarem.
Vem comigo, me dá a tua mão. Esforce-se mais um pouquinho, não se junte à mediocridade de quem faz todo dia tudo igual, da mesma forma, e quer resultados diferentes.
Serôdias - Aquela chuva que chega quando ninguém mais espera.

O Reclamão de Poeira Cósmica


Se há um mal que atinge toda a humanidade é a reclamação.
Não falo da reclamação legítima, por direitos, por cidadania, por melhores processos, ou coisas como tal.
Falo da reclamação da poeira cósmica.
Como assim, Ricardim?
É amigos, a pessoa está tão doente que reclama até da chuva de partículas cósmicas da qual ouviu falar que cairia nessa noite.
A doença da reclamação contagia.
Você está numa rodinha de amigos, o papo gostoso, leve, aí um começa: reclama do síndico, do vizinho de apartamento, da vaga apertada da garagem, do barulho de crianças nas escadas.
Pronto, conte até três e parece que somos regidos pelo maestro reclamão, entramos como diz os jovens na mesma vibe, e não sobra nada: da sogra ao trabalho.
Essa doença se instala em nós com a força de um hábito.
No início são reclamações legítimas, ponderadas, conscientes.
Mas, com o avançar dos anos, o reclamão doente vai estendendo sua reclamação para todas as áreas de seu viver.
Fruto de uma personalidade altamente rigorosa, rígida, inflexível, perfeccionista e até, em alguns momentos, intolerante, a mente do reclamão se abastece dela mesma. Nutre-se a si mesma.
Os pensamentos entram em loop, da hora em que acorda, á que vai dormir, sempre destacando o que não está, segundo seu filtro seletivo de percepção distorcida, o que não está nos “conformes”.
Considero seu poder quase o de um vírus. No caso, um vírus emocional.
Para ilustrar o quanto o hábito de reclamar de todos e tudo pode se converter numa doença, vou associar com minha compra de bicicleta.
Recentemente entrei em vários sites para comprar umas bicicletas aqui pra casa.
Fiz pesquisa no Google, em lojas especializadas, e até no youtube.
Confesso-lhes que tive dificuldades. Há um montão de tipos e funcionalidades – em cada acessório, e fiquei perdidim.
Bem, essa compra se realizou há um mês.
Quem avisará aos sites que já comprei?
Porque agora, toda vez que entro no Google, Facebook e até no prosaico Gmail, tem um anuncio, ou vários deles, de ofertas de bicicleta.
Os mecanismos de busca entenderam minha necessidade e expectativa: comprar uma bicicleta. E agora ficam me atolando de comerciais.
Entendeu a metáfora?
Não?
Deixe eu ser mais claro. O nosso cérebro é um grande Google. Ele ativa o mecanismo da percepção seletiva para focar no que queremos encontrar, e no que está de acordo com nossa visão de mundo.
Então, ele cria o hábito, para simplificar seu processamento.
O hábito de reclamar atua retirando da realidade apenas os aspectos que estão fora de ordem, que deixam a desejar, que estão aquém de nossas expectativas.
E o hábito de reclamação atuará como esse Google das Bicicletas. Em todos os nossos relacionamentos, nas interações de consumo, na percepção e sentido do trabalho e da vida, lá estará o hábito em nós arraigado, extraindo da realidade coisas para retroalimentar sua energia reclamatória.
Alguns exemplos: Uma iniciativa maravilhosa e solidária de oferecer pão quentinho, na porta do Condomínio, em dois horários.
Então o reclamão doente entra na comunidade e solta seu veneno. O contexto é de todos elogiando a qualidade e a iniciativa, e aí ele solta um: “Não gostei, o pão está muito massudo”.
Nessa hora ele ativa os hábitos do mesmo naipe adormecidos e começa a sinfonia da rabugice: “O horário é muito ruim”. “Não tem troco”. “Quem disse que quero doar parte da renda aos necessitados, melhor me dar em desconto”. “O saco que acondiciona o pão se rasga fácil...”. “Deve ter alguém ganhando um por fora”.
Nunca vi tanto mal humor solto pelas redes sociais e na WEB.
Isso é ruim. Não falo de postura consciente, falo de doença.
A doença de reclamar até da poeira cósmica.
No meus mesmo condomínio, acompanho umas discussões pelo whatsapp que beiram o surreal.
Outro dia um coelho soltou-se e foi pastar na rua. Moro num Condomínio horizontal, há 25 KM de Brasília, numa área que antes era uma imensa fazenda do Cerrado. Pois bem, uma reclamona fez o maior furdunço, porque o coelho estava indo pastar na sua calçada e seus cachorros latiam.
Queria multar o coelho, o dono do coelho, e até botá-lo numa carrocinha de coelhos, se é que tem.
Outro dia, nessa prosaica comunidade, uma pessoa revelou que estava com Zika. Não pensem que o primeiro post foi de solidariedade. Pelo contrário, a pessoa nada sutilmente sugeriu que o condômino fosse isolado, para que mosquitos não o picassem, na sua própria casa, e saíssem condomínio adentro. Decretou o isolamento do pobre coitado, que quase morria de dores terríveis da Zika.
Estamos ficando todos doentes. No trabalho a roda mais animada é a de falar mal do chefe. Em segundo lugar a dos colegas de outras equipes. Em terceiro da própria empresa. E em quarto do próprio trabalho.
Mas, é um falar mal doente. Não é para mudar. Não é para propor transformar algo. É só para falar mal, pelo simples prazer, o do hábito, de destilar a reclamação. E sair com o peito estufado, de quem tem certeza de tudo.
De quem é rígido, inflexível, e cheio de direitos. Aliás, vivemos a época de direitos. Todo mundo cheio de direitos.
Há uma boa notícia. Caso o reclamão comece a fazer um diário de seu dia, anotando as reclamações proferidas, ele pode começar a frear a força do hábito.
Chamo a isso de pensar sobre o pensado.
Por incrível que parece, uns 50% do que pensamos ao longo do dia, não é pensado por nós.
São barulhos de nossa mente, são rotinas e modos de ser pré-configurados que sobre eles vamos perdendo o controle.
Assumir o controle do que pensamos, e do efeito dele sobre nós mesmos, o outro ou a própria realidade é uma questão e saúde emocional.
Experimente botar uma pulseira no braço, amanhã, e ficar pelo menos um dia sem reclamar. Procurando ver a vida com o olhar do que ela está em sobra, e não do que lhe falta.
E, todas as vezes que ao pensar sobre o pensado, se flagrar reclamando, troque a pulseira de posição no braço. Pode ser aqueles elásticos de amarrar dinheiro, que seja.
Você ficará impressionado(a) do poder do hábito reclamão em nossas vidas. E não falo em reclamação apenas pensada. Essa não vale trocar de lugar a pulseira. Falo de reclamação falada, ou digitada.
O cara compra um carro zero bala, e reclama de um barulho. Outra pessoa acaba de pintar a casa e reclama que a massa não foi bem lixada em 2% da área.
Se você tem filhos, e for do tipo reclamão de poeira cósmica, cuidado. Eles irão aprender. Aprenderão a fiar tão rígidos, pensamento inflexível, cheio de razões e radicais em sua expectativa sobre o outro, a si mesmo e as coisas tal qual você.
Fui criado numa casa que não ouvia reclamações. E não é que não tínhamos problemas. Mas meus pais perdiam mais tempo em buscar alternativas para solucioná-los do que ficar na murmuração e reclamação.
Meus pais falavam bem do seu chefe, Diretor Stênio Lopes. Falavam bem do Senai, mesmo pagando-lhes muito pouco. Nunca vi reclamarem de colegas de trabalho, de vizinhos, da família ou de sua condição social. Tudo era esperança, alegria e paz. Eram feliz com o que tinham.
Quando papai voltava das visitas quinzenais, ao fim do mundo, supervisionando o funcionamento de precárias escolas móveis, montadas em rústicos barracões de prefeiturasaíba. Sob calor escaldante, em locais sem estrutura alguma, nunca o vi reclamando da dormida, da comida, do calor ou distância, e até dos alunos e professores. E, ele fez essa viagens por uns bons 20 anos.
O verbo reclamar não habitava em nosso lar. Então, com isso quero dizer que podemos reprogramar o cérebro. Sair desse hábito nocivo, avaliar o pensar sobre o pensado.
Se tocar se não está sendo chato, sempre avaliando a si mesmo, os outros e a realidade como em falta para consigo mesmo. Sempre com murmurações. Nunca acolhendo o que a vida oferece para aquele momento. Sempre colocando-a numa posição de dívida, de quero mais.
Do tipo que chega num esplendoroso hotel à beira mar e reclama que só pega dois canais de TV. Do tipo que adora postar negatividade, murmurações, nunca vendo o que já está bom.
Tem que parar de acumular esse tipo de coisa, ao longo do dia. Para não ficar selecionando justamente isso, o que é digno de reclamação, como dados primários da realidade. Tal qual meus anúncios de bicicleta fazem no meu mundo digital.
Deixo-vos com um psicólogo Português que o reputo muito, o Miguel Lucas:
“A pessoa reclamona torna-se hábil no desenvolvimento de uma percepção apurada e refinada em tudo que possa ser-lhe desagradável ou que não esteja de acordo com aquilo que quer e gosta. A pessoa especializa-se numa sensibilidade desmedida para aquilo que pode causar-lhe algum grau de insatisfação, mesmo que essa insatisfação seja ínfima. Com um “detetor de queixa” apuradissimo, tal Homem Aranha com o seu “detetor de perigo” a pessoa fica à mercê de um mecanismo que pela força do hábito se tornou automático. Passa a acontecer sem a pessoa se dar conta, o que a impede de ter uma noção do seu diálogo destrutivo.
Será que toda a enxurrada de queixas trouxeram alguma vantagem para a sua vida, para o seu bem-estar, para a sua produtividade no trabalho, para o seu relacionamento? Provavelmente não. Então, certamente justifica-se tomar consciência do possível impacto negativo que as queixas desmedidas podem estar a provocar na sua vida, e eventualmente nas pessoas com que interage.
Pelo menos, nem que seja por breves momentos questione-se:
 Porque é que é propenso a queixar-se?
 Tem sido útil?
 Ajuda-o no seu dia-a-dia?
 Promove-lhe a motivação?
 Ajuda a influenciar positivamente os outros?
 Promove as soluções para os seus problemas?
 Promove-lhe a saúde física e psicológica?
Arrisco a dizer, que salvo raras excepções, queixar-se nada tem de positivo. É um comportamento verbal autosabotador. Antes de queixar-se reflita:
 É verdade?
 É benéfico?
 É inspirador?
 É necessário?
 É simpático?
Se maioritariamente responder negativamente. Não se queixe. Trave a sua língua a tempo de conseguir reestruturar o seu pensamento e pensar numa alternativa mais viável e adequada à interpretação da situação que enfrenta.”

Cartas ao JG - Se parar cai.




Na manhã do dia 11/09/2016, tomei uma decisão radical. Já era tempo de tirar as rodinhas de sua bicicleta, ganha dois meses atrás.

Há um tempo de tirar as rodinhas, sob pena de ficarmos para sempre delas dependentes, pensei.

Peguei desajeitadamente a ferramenta e comecei a desaparafusá-las.  Fragmentos de memórias evocaram em minha mente. Passaram 25 anos, e lá estava eu repetindo a cena. Agora, prestando mais atenção. Pais jovens demais precisam desenvolver a atenção, eu era fraco nesse item.

Perdi muita coisa da infância de meus primeiros filhos Tiago (31), Priscila (29) e rodrigo (28) por não ter prestado atenção. Corrido demais, trabalhado demais, estudado demais, igrejado demais, O-N-G-ado demais, bebido demais, dormido demais, brigado demais, estressado demais, e brincado de menos.

Como seria ensinar um filho a andar de bicicleta?  Cadê o tutorial, o vídeo no youtube, o manual?

Não adianta, têm coisas que só aprende fazendo. Ou seja, pedalando, no sentido esportístico da palavra.

Sabe JG, menos de um mês de treinos esporádicos, atravessados pelo período de luto pela tua vovó Madalena, e você conseguiu.  Estou muito orgulhoso.

Sua mãe ainda tentou convencer-me a colocá-las novamente, num dia do brinquedo no colégio, na qual podia levar a "magrela", mais não deixei. Finquei pé e você foi sem nada. Melhor do que recuperar os vícios antigos, das rodinhas, que já estava superando-os.

Faz gosto levá-lo para "treinar". É uma alegria enebriante.  Nem espera o carro parar e já sai pedalando, destemido e alegre. Sem pender para os lados, ou cair a cada metro avançado.

Rodinhas nunca mais!

Sabe meu filho, assim será com muita coisa em teu viver. Coisas que te fará delas dependente.

Que te dará uma falsa sensação de segurança, apoio e equilíbrio.

Mas, é só tirá-las que tu ficará atônito, desesperado, sem saber como avançar sozinho.

Não sei quando lerá essa carta. Nem sei se estarei contigo. Então, explico-lhe bem devagarinho.

Vou te falar de três rodinhas que precisará saber o dia de tirá-las de teu viver.  Mesmo que te deem a falsa sensação de que estás seguro e avançando.

Mentira. Elas vão tentar tirar  que você tem de melhor. A liberdade e autonomia de existir - sem apegos, ou dependências mórbidas e asfixiantes.

A primeira delas é o amor. O amor pode ser libertador, mas pode ser doentio. Amor de apego, de posse, de coisificação do outro. Não fique dependente de amor. Pegue umas ferramentas e tire essas rodinhas, antes que seja tarde.  Não quero dizer que não deve amar. Amar uma garota lhe fará bem. E te porá para frente, para o ser mais. Amar nos faz gigantes.
Mas, não falo desse amor. Falo para que você tenha cuidado com amor-cuspe. Daqueles que tiram tua identidade, tua personalidade. Daqueles que roubam você de você mesmo. E, de tão perdido no coração do outro, perdeu-se de si mesmo. Não mais sabendo viver sem suas migalhas de afeto.
A comida perderá o sabor, a auto-estima irá a zero, nada terá cor ou cheiro. Perderá a razão para sair com amigos, para ir ao cinema, por esse sofrimento desse amor dependente. Viverás na esperança de fagulhas de correspondência. Viverás na idealização do  ser amado, esperando que qualquer dia ele faça como canta a canção  Valsinha, de Chico Buarque:
"Um dia ele chegou tao diferente do seu jeito de sempre chegar. 
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar.
E não mal disse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar.
E nem deixou-a só num canto pra seu grande espanto, convidou-a pra rodar.
Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar".

Esqueça isso filho meu. Nunca se entregue a amor algum assim. O preço que pagará será muito caro. E, poderá a desaprender a andar sem essas rodinhas do afeto da amada. Amor bom é o amor que não vicia. Que não oprime. Que não constrói celas, reais ou imaginárias. Amor bom, é o por si mesmo - filho meu, só assim poderá amar alguém verdadeiramente.

A segunda rodinha, na qual não deve apoiar sua vida, é a ilusão dos bens materiais, como fonte de felicidade. Conheço um monte de gente, com dois dígitos no salário, que é infeliz. Com casa com piscina, carrão do ano, viagens no exterior, e no guarda-roupa tudo de moda e de marca. Não filho meu, o dinheiro cumpre a função de prover tuas necessidades básicas; mas, nunca poderá ser as rodinhas de teu bem-estar. Tire as rodinhas do consumo, do materialismo, de medir as pessoas pelos cifrão que possuem. Esse tipo de apoio e segurança a traça come, a crise amealha, o ladrão rouba, e a enchente leva. Mas, quando aprenderes a ser feliz comendo pão com ovo, ou pastel com caldo de cana em feira livre, aí sim, estarás andando legal. Quem busca felicidade no acúmulo de coisas, na verdade está é apertando mais as rodinhas em seu ser interior. Viverá eternamente pobre, de espírito. Há muita felicidade na simplicidade de quem come uma fruta madura, de quem se permite a um balançar num parque, ou a um contemplar de por do sol. E, para isso, você não precisa ter dinheiro. Cuidado então com a vaidade e ambição desmedidas. Que farão com que nunca esteja satisfeito com nada, sempre em busca, em busca, em busca, numa corrida frenética, de rodinhas. Entende?

Por último, para não cansá-lo, cuidado com a rodinhas da família, do emprego, da cidade, dos amigos. Talvez chegue o dia em que precise romper com elas. Precise libertar-se dessa segurança, verdadeira segurança, para pedalar mundo afora. Fiz isso algumas vezes, doeu muito no início, mas hoje vejo que se não tivesse dado aquelas pedaladas não teria crescido como pessoa, mesmo na dor. Aliás, crescer dói. Têm famílias que prendem seus familiares numa amalgama que tiram deles a liberdade, e sugam energias. Famílias, infelizmente, toxicas. Viciantes nas suas briguinhas, na sua visão de mundo, bem estreitas, e até em alguns valores que cultivam. Rompa com isso, filho meu.  Não delegue seus valores.  Têm empregos que só valem pela experiência. Saiba a hora de tirar as rodinhas deles e buscar suas melhoras. Não tema recomeçar carreiras. Convivências tipo rodinhas nos dão um falso equilíbrio, e, quando as tiramos, ficamos pensos, quase caindo. Cuidado com alguns amigos. Que te farão sentir-se dependentes deles. Amigos-grude-asfixiantes. Permita-se ao espaço. Abra-se ao espaço nas relações, sem dominar ou se deixar dominar.   Pode no início ser como você que caia a cada curva, ou que andava torto. Mas passa. Logo aprenderá novamente a ter a mente abeta e a espinha ereta, como dia a canção. Por melhores que sejam os amigos e a tua cidade natal, poderá chegar um dia de partir. Voe, filho meu. Um dia você voltará, nem que seja nas férias,  e se reencontrará com eles e com tua amada cidade.
Lugar bom é o que desembarcamos emocionalmente. Portanto, nada de ficar lamentando a ausência de teu conforto e apoio anterior. No começo, em qualquer começo, é assim mesmo. Tudo mais difícil. mas é teu sonho, Siga teu sonho.  E, caso necessário bote um motor na tua bicicleta.

Uma última dica:  o melhor motor, para tornar bicicletas verdadeiros pássaros alados, é sentir em ti o amor do Senhor Jesus. É só se deixar encontrar, Ele te achará. Verá que  a espiritualidade é como essa chave da foto, é ela quem nos dará forças para nos livrarmos de todo tipo de entulho que foi se juntando ao nosso viver, mesmo que nos deem uma falsa sensação de segurança.


Filho meu, acredite, chegará um dia no qual será preciso superar apoios, muletas ou rodinhas - de quaisquer tipos. Rompendo amarras, correntes e estacas que impedem teu crescimento e inibem autonomias. E, liberto, trilhará a novas jornadas e cumprirá tua missão.
Firme e confiante de que o equilíbrio virá justamente do mover-se à frente, sem olhar a vida pelo retrovisor, ou estagnar curiosidades, pedalando em busca de si mesmo, dos outros e do sentido de tua existência. Sempre andando, nunca parando no tempo, se parar cai.
É como andar de bicicleta, lembra-se?

Um pé de Ipê Verde


Caminhava pelo meu condomínio, dia de sol bonito,língua pra fora, faltando ainda 1 km dos 2 que "malho" diariamente.
Hoje, fazia um domingão de céu Brasília, daqueles de um azul de prender o fôlego. Então, decidi levar a câmera comigo.
Nunca tinha feito isso. Ela pesa e fica desconfortável.
Mas, o dia pedia instantes. Tava com cara de praia.
E, nem de tênis fui, botei umas havaianas e tome marcha atlética.
No caminho, escutei uns piados de coruja - daquelas que fazem ninho na terra. Então, parei para fotografá-las.
Eis que ergo minha vista e vejo uma cena de parar meu coração. Finalmente, 16 anos depois que por aqui cheguei para ficar, vi o raro Ipê Verde, ali à minha frente e cacheado de sensíveis florezinhas verde-limão.
Eu sabia que existia, mas nunca tinha visto. Um amigo até me disse que eu deveria ir ao Parque Olhos D´água, aqui em Brasília, que lá tem um espécime dele, o belo e misterioso Ipê Verde.
Suas delicadas flores passam quase despercebidas, entre as folhas.
Trata-se de uma arvore em extinção. Não só pela dificuldade de vê-lo, mas talvez por isso mesmo.
Os tratoristas e donos de terrenos não percebem que ele está florido e associam a um outro tipo de árvore, e tome enxada e trator por cima deles.
Já os amarelos, brancos e rosas conseguem marcar sua presença, e, alguns deles, digo alguns, são preservados nas derrubadas, ou propagados por mudas mil.
E o verde foi ficando esquecido, de ser propagado em viveiros, de ser preservado, de ser cultivado, de ser apreciado: perto dos outros, de flores reluzentes e estonteantes, ele não é visto.
Lembro das pessoas mais simples das organizações de trabalho,
elas são Ipês Verdes. Tem sua beleza, sua graça, sua formosura e história de vida, contudo, não são vistas - no meio de tantos crachás: rosas, brancos e amarelos.
Entendem a metáfora?
Muita coisa em nossa vida é assim. Não é percebida, até que paremos para apreciá-las.
Até que desafiamos nossa retina, a ordem natural das coisas, e a percebemos num emaranhando de tons parecidos.
Todos os copeiros são parecidos, mas não são só copeiros. Todos os vigilantes são parecidos, mas não são só vigilantes. Todos os aux. de limpeza são parecidos, mas não são só aux. de limpeza.
E, assim por diante.
Eles têm sua própria flor. Rara flor. Só não são percebidos, ao habitarem um ecossistema humano que valoriza mito o cargo, a posição, as aparências e quem está no topo da cadeia alimentar corporativa.
Danilo é um Ipê verde. um belo ipê verde. Ele é motorista da Copel - Companhia de Energia do Paraná. Ele foi me buscar para uma palestra, que distava 340 KM do aeroporto.
Coloquei-me numa postura apreciativa, de sua vida e história. Assim como ele se colocou perante minha palestra, querendo saber de tudo da psicologia positiva.
Sentei-me logo na frente e comecei a prosear. O Danilo é bom de papo, uma fala quase mineira: mansa, constante e boa.
Aprendi a apreciar histórias de ipês verde. São pessoas lindas e esquecidas pelas organizações do trabalho. Minha missão e dar-lhes vida.
Aos doze anos, Danilo perdeu o pai. Muito pobre, aprendeu a se virar, junto com sua mãe e avó.
Nos finais de semana, sua mãe deixava ele ir brincar na casa do vizinho, o Sargento, que tinha três filhos, de idade próxima a dele.
Mas, Danilo sofria a ausência do pai. E apegou-se ao Sargento, o pai dos meninos, um oficial do Exercito.
Sargento estava construindo sua casa. Como obra de igreja, todo final de semana crescia uma parede ali, uma porta sentava acolá.
Danilo pegava o carrinho de servente e passava o final de semana ajudando o Sargento. Depois, ao voltar para casa, ganhava umas moedas.
Na sétima séri,e ele ia reprovar em matemática. Até que o Sargento soube, e deu-lhe uns puxões de orelha e muitas aulas particulares, "de grátis", e ele passou, tornando-se depois o melhor aluno de matemática.
Danilo aprendeu a dirigir caminhão, e começou a fazer viagens nos caminhões dos outros.
Vida difícil, estradas perigosas e três filhos para cuidar. Com muito esforço, somando a ajuda de sua esposa que trabalhava para fora, ele juntou R$ 50.000,00 e comprou um caminhão meia-boca, mas que daria para fazer entregas em Curitiba, no limite em SP.
O Sargento aposentou-se do Exército e foi morar numa pequena cidade próxima de Jaú. Um belo dia ele visitou Danilo, agora homem feito, e ofereceu a casa pra ele.
Ele falou que tinha Danilo como um filho e que Danilo pagaria a casa aos poucos, e que faria para ele um abatimento de 60%, vendendo a casa por R$ 60.000,00.
Danilo insistiu que não tinha dinheiro, que ganhava R$ 1.800,00 com os fretes e que não poderia pagar.
O Sargento irritou-se, disse-lhe que não queria dinheiro, que ele assina-se os papéis e que depois ia vendo como pagava.
Danilo disse-lhe que não teria como dormir sabendo que devia ao seu melhor amigo R$ 60.000,00. Que não teria como olhar para os filhos, ou para o espelho, com sua consciência limpa.
O Sargento, bem chateado, voltou para sua cidade.
Aí uma cerração muda o rumo da prosa. Danilo teve que parar o carro no posto numa estrada, no caminho de uma entrega em SP, estava impraticável dirigir com a neblina.
Era 3 da manhã. Ele ligou para a mulher e disse-lhe que ia sair da vida de caminhoneiro. Ela disse: Glória a Deus.
Continuando, disse-lhe que com o dinheiro do caminhão iria comprar a casa deles, que agora ele, ela e o tr~s filhos tinham um lugar para chamar de seu.
Ela deu mais um Glória a Deus, dessa vez emocionada.
Por último, perguntou-se se ela podia ajudar trabalhando, enquanto ele procurava algo. Ela, feliz da vida, disse-lhe que trabalhar nunca foi problema e que faria era dobrado agora.
Danilo conseguiu um emprego de motorista de ônibus. Numa linha perigosa, foi assaltado 3 vezes, uma das quais com revólver na cabeça. Mas conseguia novamente sua renda do caminhão, R$ 1.800.
E agora tinha uma casa. Voltando da garagem, num domingo à tardinha, um vizinho disse-lhe que havia um fusquinha para vender, "o motor está bom", o resto uma tranqueira. Ele pede R$ 3.000,00 - de graça. Danilo, nem em casa foi, lembrou-se que seus filhos nunca puderam passear de carro, já que caminhão velho não entra em muitos lugares (altura da carroceria) e, convenhamos, não é o melhor lugar para passear com mulher e três filhos.
Danilo lembrou-se que seu filho mais velho sonhava com um carro. Então, negócio feito, encostou seu carro na calçada e foi comunicar à mulher e filhos. Disse ao mais velho que o carro só prestava o motor, era um fusquinha cheio de ferrugem, estofamento ruim e pneus carecas. O filho mais velho correu do quarto em direção á calçada, quando viu o carro, deitou-se sobre o capô e o beijou.
São assim os sonhos de gente pobre, os beijos de gente que cada pequena vitória é celebrada como única. Foi assim o beijo do filho do Danilo no capô daquele fusca.
Danilo, leitor assíduo, viu que tinha anuncio de seleção para motorista da Copel. Ai se inscreveu e passou.
Até hoje, com 8 anos de casa, não entende como convive com tanta gente desmotivada e reclamando da empresa.
"Sabem nada. Isso aqui é o paraíso, mas que nunca trabalhou no inferno não valoriza quando está no céu. "
Aí, ele abre um sorriso, e me fala que passou na seleção para aux, comercia da Copel.
E que foi o décimo colocado, estudando noite e dia os temas do edital.
Em algumas viagens, com Diretores, aproveitava para perguntar-lhes sobre assuntos que não consegui entender. Um deles, com profunda compaixão, passou a ensinar-lhe por 15 minutos, todos os dias.
Pergunto-lhe, e a vida de motorista?
Ele me diz, ficará para trás,"vou pra frente em busca de minhas melhoras."
Os filhos de Danilo fazem Eng. Civil, Eng. Mecânica, e a filha, a Carolina, está no último ano do médio e quer - no momento, ser psicóloga.
Com um pai desse, um ipê verde e raro, será uma excepcional psicóloga.
Obrigado Danilo, por ser esse pacato cidadão brasileiro, trabalhador, resiliente e esperançoso que o melhor ainda está por vir.
Na saída, ele perguntou-me se podia participar de minha palestra. Falei que lógico. Disse-lhe que nela falaria de pessoas como ele, que encontram sentido na vida e no trabalho, que nutrem só coisas boas na cabeça - emoções positivas. Que nutrem relacionamentos significativos: O Sargento. Que se engajam em busca de desafios, seu concurso. Que se sentem realizadas quando avançam um passo na escada da vida, seu fusquinha.
E que é disso que é feita uma vida boa: Emoções Positivas, Relacionamentos Significativos, Sentido, Engajamento e Realização. E de pessoas como sua mãe, com 88 anos, que carpe os fundos da casa todos os dias, e nunca aposentou-se da vida.

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