Desculpar, verbo de ação estruturante da saúde relacional.



Umas das coisas que mais me tiram do sério no relacionamento pessoal e profissional é quando vejo que a pessoa errou e não admite, não sai do salto alto, do orgulho, da arrogância e falsa prepotência.
Tem gente que não assume nunca seus erros.  Mesmo estando escancarados em sua cara.
Para ficar mais claro o que falo vou desenhar nos exemplos abaixo:

Gerente - Você preparou aquela apresentação para a reunião de daqui a pouco?
Funcionário – Preparei não chefe, minha estação de trabalho passou o dia desconectada da rede e não consegui acessar os documentos.

Percebem a postura de terceirizar a responsabilidade, de deslocar a cena do relatório não produzido para a rede desconectada?
De justificar, justificar, justificar...
Vejam outro exemplo:
Esposa – Você quebrou o liquidificador moendo esses grãos de café dentro dele.
Marido – Mas eu não moí café.
Esposa – (cri, cri, cri)
Nesse exemplo uma segunda categoria do mesmo tema, a falta de reposicionamento, de usar aquela palavra mágica: “desculpe”.
Só pede desculpas quem sente que errou, quem absorve o erro e destila culpa ou arrependimento. Quem não sente culpa não traz o erro à consciência.
Vai “derrubando pontes” e arruinando pessoas sem admitir sua própria parcela de responsabilidade.
Sempre é o outro o culpado. Ou sempre encontra as justificativas, que por mais justificáveis que sejam, não justificarão nada.
Recentemente foi publicado o resultado do estudo longitudinal mais longo já feito sobre aspectos da vida que dizem respeito ao bem-estar, ele foi conduzido com 734 homens nos EUA. Por 75 anos eles foram acompanhados por profissionais da Universidade de Harvard tentando identificar a resposta à seguinte questão: O que é que nos mantém saudáveis e felizes durante a nossa vida? Se quisessem investir agora no vosso melhor futuro, onde poriam o vosso tempo e a vossa energia?
Se quiser acessar um extrato dos resultados veja nesse link a micro palestra do atual Diretor dessa pesquisa (clique nas legendas para baixar a transcrição, em: https://www.ted.com/talks/robert_waldinger_what_makes_a_good_life_lessons_from_the_longest_study_on_happiness#t-388695
Um dos resultados da pesquisa identificou que para chegar a uma vida boa, bela e virtuosa, após 75 anos de caminhada, precisa desenvolver a arte de construir e manter relacionamentos significativos com o cônjuge, a família e os amigos.
Manter viva a capacidade de fomentar, alimentar e proteges as conexões sociais de todos os tipos.  Isso fará a diferença entre a percepção de uma vida boa e de uma vida medíocre. Não são os bens materiais, o dinheiro, poder nem tampouco a saúde.
Os escores de felicidade encontrados no grupo pesquisado não obtiveram nenhuma correlação com os itens acima. Pessoas com sérios problemas de saúde, mas que se congregavam com os outros eram muito felizes, em comparação aos que não apresentavam maiores problemas, mas que cultivaram um jeito egoísta de viver. E assim por diante, em relação ao acesso a bens materiais, educação e posição social.
Para se viver bem com o outro, coma família e amigos – ou seja, para se mantiver vivo o fermento da interação social, uma das competências mais importantes é o de assumir os erros cometidos, pedir desculpas, ou perdão, aprender e reestabelecer as pontes relacionais que a falha derrubou.
Sem sentir culpa isso é impossível. Por isso defendo que a culpa, em certa dose, é libertadora de nós mesmos. De nossas fantasias de dominação e subjugação do outro.
A culpa é originada da autoconsciência e do sentimento de que algo que fizemos não foi legal. Podemos crescer muito com ela.  
Nessa sociedade tão individualizada, com multidões solitárias - conectadas pelo whatsapp  ou Facebook, aprender a identificar nossos erros relacionais e voltar atrás é fundamental.
Deveria ter uma disciplina para ensinar a conjugar e praticar o modo imperativo afirmativo do verbo desculpar:

desculpa tu
desculpe ele/ela
desculpemos nós
desculpai vós
desculpem eles/elas

A etimologia da palavra Desculpa significa tirar Des=Retirar Culpa= Delito, erro.  Lógico que na vida real não é tão simples.  Não basta pedir desculpa. A intenção tem que ser verdadeira. E do outro lado nem sempre a pessoa estará pronta a aceitar o arrependimento sincero de quem o ofertou. Mas, não é esse o mote do texto. O que reflito contigo é sobre a ausência de sentir-se responsável, culpado, pessoalmente impactado por algo que deu errado, por algo que fez e machucou o outro, ou que não produziu os resultados esperados por falhas na condução do trabalho.
Esses relacionamentos que são importantes à felicidade, como comprovado na pesquisa, só se mantiveram renovados, ao longo de muitos anos, porque seus envolvidos desculparam-se em muitas ocasiões.  Aprender a assumir os erros e corrigir procedimentos é sinal de saúde mental. Deslocar a responsabilidade do erro para o outro, para às circunstâncias ou até fingir que não houve nada é sinal de degradação emocional, de adoecimento.
Quem sente culpa e assume com responsabilidade sua parcela de culpa no cotidiano do viver, construirá relacionamentos verdadeiros e significativos.  Afinal, como diz o poeta maior:
“Porque a vida só se dá pra quem se deu.  Pra quem amou, pra quem chorou e pra quem sofreu.”
Sentir culpa é uma espécie de sofrer que pode transformar vidas. Desde que saibamos a hora certa de fechar a janela e virar a página.
Deixo-vos com uma pérola que recebi de uma colega de trabalho, quando falava do tema desse texto logo cedo. Ela mostrou-me o “Zap” que enviou para o marido”, vejam que lindo:
“Olha XX... Não temos que estar se xingando por besteira não. Você me fala coisas horríveis. Eu também. Não vamos perder a consciência e se agredir. Não estou bem e você também. Então me perdoe.  E eu também te desculpo.”

Uauuuu! 

Esse casal, se continuar assim, chegará aos 75 felizes! 

Então pessoal, menos arrogância, autossuficiência e orgulho em voltar atrás e assumir as falhas.  Não existe ninguém perfeito. E o bom pode ser inimigo do ótimo.  Três passos ajudam a capacidade de pedir perdão, ou desculpas :
O primeiro é exercício da empatia, ao se estimular a percepção do outro: com suas necessidades e expectativas. Ficando mais atentos ao nosso, e o efeito dele sobre nós mesmos, o outro e sobre a realidade aquilo que nos rodeia.
O segundo é deixar a vaidade de lado e tomar a iniciativa, mesmo que possa não surtir efeito algum, pelo menos em você servirá para o crescimento.  Esse orgulho de manter o nome, a aparência e a vaidade, e em não “descer do salto” é muito ruim para os relacionamentos. Botar pra debaixo do tapete só vai infeccionar a ferida emocional.
O terceiro é deixar de se justificar, de transferir responsabilidade. Deixar de querer manter a pose quando faz merda. Eu tive um grande gestor que me ensinou uma atitude bacana que agora compartilho:

Ricardim, quando você for pego num erro, ou dele tomar consciência, assuma seu papel de protagonista em buscar remediá-lo, ou transformar a situação. Humildemente, baixe o lombo e diga à pessoa que sofreu com ele:  “bata”!  E depois, não fique remoendo, resmungando ou se sentido o pior dos mortais, errar faz parte do viver. Aprenda a hora certa de virar a página e deixar esse fantasma da culpa te imobilizar, impedindo-lhe de transformar o medo, raiva,  incerteza, dor e vergonha em algo produtivo para sua vida, para a situação e para o outro.

Uauuu!

Cuidando da loja de nosso coração.

Outro dia penei no supermercado atrás de um Kinder Ovo. O JG gosta muito desse doce, suspeito que pelos “brindes” que ficam no seu interior.
Fui na seção de guloseimas e nada. Perguntei ao gondolas e ele me falou que ficava nos caixas, nas gondolas que margeiam as filas dos caixas. Fui lá e nada também. 
Como o tempo rugia, paguei as compras e, quando começava a empacotá-las, vi que os abençoados estavam colocados numa espécie de platô de ferro, acima das gôndolas, mais ou menos há uns 1,90m de altura.
Ã, ã, ã...
Do ponto de vista do Varejo esse produto está fadado a não ter uma saída boa.
Deixa eu explicar para vocês que têm a paciência de me lerem.
Domingo passado assisti ao Programa Pequenas Empresas Grandes Negócios e vi um especialista em arrumação de lojas de varejo fornecer dicas preciosas.
Duas delas chamaram muito minha atenção.  A altura dos produtos expostos, quanto mais próximo do raio de visão mais atração para a compra terá, influenciando em até 20% nas vendas.
A altura ideal, para maximixar o efeito do olhar, deve situar-se num gradiente entre 1,50 a 1,75 de altura, ou seja, perto do nível dos olhos da altura média do cidadão, descontando o tamanho da testa. Rsrs
A segunda dica diz respeito a iluminação, “lojas e vitrines bem iluminadas vendem mais”.
Então descobri  que não fui um abestado ao não achar o tal do Kinder, ele é que estava alto demais para que meus olhos nervosos o percebessem, em meio àquele furdunço que são os mercados na primeira semana do mês.
Essa dica do varejo pode ser aplicada a saúde emocional.
Como assim, Ricardim?
Deixa eu me explicar.  Imagine que nosso aparelho emocional é como uma loja de varejo. Nele tem de tudo, através de nossos pensamentos; das percepções acerca de nós mesmos, do outro e da realidade;  das influências que recebemos e de nosso estilo de vida vamos moldando nossa “loja de varejo emocional”. 
O que queremos “vender” para nós mesmos ao final do dia?  Queremos bem-estar ou mal-estar?
Nessas duas dicas do varejo encontra-se uma sabedoria milenar do bom viver, acessível a  todos, simples e fácil de exercitar.
A primeira delas:  coloque na altura de sua visão as coisas boas, belas e virtuosas que você possui. Não as jogue para baixo da visão, ou para muito acima. Não esqueça delas, quando, também no alto de tua visão vierem desgraças, coisas ruins acontecerem e os dias estiverem maus.
Exercitar a visão expandida da vida é um aprendizado par a sempre. E libertador. Muita coisa boa acontece nas beiradas de nossa vida e acabamos deixando-as reféns da indiferença, ou das aflições cotidianas do sobreviver.
E elas vão ficando esquecidas, tal qual o Kinder Ovo que não comprei por não ter visto.
Vamos deixando e ver. Ver que temos um monte de coisas boas, belas e virtuosas que foram esquecidas, não mais percebidas, atingidas pela rotina e pressa de viver. 
Fica a dica: traga para sua visão, também, os aspectos positivos de seu viver. Procure que achará um monte.
O segundo ensinamento é o da luz. Aquilo em que botamos luz cresce. Destaca-se e torna-se grande. Onde botamos a luz? Que tipo de luz estamos irradiando, ou deixando sobre nós agir.  Luz é a energia que nos move, aquilo que nos influencia, ou o que influenciamos.
O que estamos iluminando em nosso coração? Será que estamos iluminando nossos rancores, traumas, mágoas, invejas e ódios, de todos os tipos, para com o outro, a vida e até nós mesmos? Deixando-os maiores e mais potentes do que já são?
Como anda a luz de nossos valores? Ou somos daqueles que diminuem as luzes nossa e do outro. Pessimistas e críticos demais. Rabugentos, rancorosos e negativistas ao extremo,  sem falar no cultivo de ressentimentos encardidos.  
A melhor luz da saúde emocional, que precisamos aprender  acendê-las e focá-las em nosso viver originam-se nos valores da esperança, solidariedade, bondade, ética,  gratidão, misericórdia, justiça e paz.  Quanto desse tipo de luz acendemos para o outro diariamente?
Quanto acendemos para nós mesmos?  Esse tipo de luz – a dos valores, tem o efeito de renovar nosso tecido emocional. Já as luzes do medo, desconfiança, violência e desamor mata aos poucos o tecido emocional. Estamos vivos, contudo mortos.
Essa segunda dica do varejo é importante. Ilumine sua autoestima. Ilumine sua caminhada, ilumine sua vida e a dos outros.
Que possamos diariamente renovar nossas esperanças, sonhos, desejos e fantasias.
Diariamente criamos capacidades para ter maior resistência e resiliência diante da arte de viver.
O bem-estar emocional não traz necessariamente menos problemas, aflições, preocupações ou dificuldades. Muda a perspectiva de encará-los, abrindo espaço para outros sentimentos e pensamentos menos doloridos, ao se colocar na prumada da visão as coisas boas, belas e virtuosas - esquecidas numa prateleira já fora do alcance de nosso coração.  E ao se iluminar a vida com boas experiências, influências e práticas que renovam o tecido emocional.  Diminuindo o efeito da luz perversa, ou da falta de luz, que nos mata dia a dia nos tornando  mais bestas, críticos, violentos, negativos, chatos, irritados, descrentes e rabugentos a cada ano.  Não tem autoestima e felicidades vadias que resistam a luzes desse tipo.
Assim sendo, aprendamos como esse vendedor de peixe a levantar e trazer à luz o que se quer vender. 

Juntos e misturados? Pero no mucho...



Durante as férias assumo um novo papel: o de achador de amigos para o JG brincar com eles.
O João Gabriel é filho único, do segundo casamento, e os seus irmãos do primeiro casamento, têm idade para serem seus pais (30,28 e 26).
Encontrar amigos de sua idade, para que ele interaja, é uma missão que assumo com prazer. JG faz o tipo tímido, até que se dê o primeiro contato. Sei e sinto que ele sofre com isso, e tento ajudar-lhe a criar a primeira ponte. Depois, ele se solta e manda brasa.
Então, nas férias, tento aproximar o JG de outros amiguinhos favorecendo a construção da primeira ponte para a interação.
Nessas férias, notei um fenômeno que já vinha percebendo, mas agora ele revelou-se em maior intensidade.
As crianças estão desaprendendo a brincar juntas. Está sendo mais difícil convencê-los à comunhão de ludicidades.
Antigamente para juntar um grupo de crianças não precisava de pai-babão nenhum.
Elas se juntavam quase por osmose, e não precisava que já se conhecessem. Hoje, talvez pelo que escutam em casa quanto a estranhos, talvez pelo uso precoce de tecnologias que incentivam o brincar sozinho: jogos em vídeos games, celulares.
Ou até pelo uso excessivo de canais digitais de comunicação, as crianças estão acompanhando os adultos em sua solidão em grupo.
Solidão em Grupo é o título do brilhante artigo que o Dr. Luli Radfahrer, com proficiência em marketing e comunicação, escreveu recentemente e que detecta também o que vi na pratica:
“Nas torres dos apartamentos, nas clausuras das baias, nas estações de trabalho e reunião das corporações de ofício, nas mesas de paredes dos restaurantes, nos cantos escuros das festas, parques e seminários, nos banheiros de shopping centers e nas salas de encontro de famílias, jovens, velhos e crianças de todas as idades estão cada vez mais isolados, debruçados em seus retângulos luminosos, com fones de ouvido”.
O mar lindo, a praia convidando a fazer açudes ou castelos de reis imaginários, as ondas apetitosas para pegar “jacaré” e muito jovenzinhos com cara de tédio, ansiosos, por terem desaprendido a brincar com o nada. Desaprendido a imaginar, a fantasiar.
O preço disso será a falta de propensão ao aprendizado novo, visto que a imaginação e curiosidade são as forças motrizes do com adultos conhecimento.
Em outras situações, quando achavam os amiguinhos, tinha sempre um bando de familiares - frágeis e inseguros impondo-lhes regras do brincar: “Não pode subir em árvore”. “Não pode dar cambalhota na piscina, molhará quem está pegando sol à borda” (SIC!)
“Não pode chupar picolé de praia...”
Nossa! Quantas regras castradoras da fantasia e limitadoras da livre expressão, fundamentais ao desenvolvimento da competência da autonomia.
Radfahrer nos alerta: “ Hoje há menos contato humano, e o pouco que resta é cada vez mais difícil e menos significativo. De uma conversa honesta em que se trocam inseguranças e dúvidas a uma relação afetiva de real sinceridade, as oportunidades rareiam”.
Também sofri com isso que o JG passou. Sempre faço um sabático digital nas férias. Não levo notebook, não acesso rede, e deixo o celular em casa. Só posto uma ou outra coisa, para “manter-me vivo”.
Posso dizer que reduzo em 80% a conexão digital e redirecionando-a para as interações presenciais. Seja com o vendedor de picolé, que há dez anos faz o mesmo ponto já nos conhecemos, à vendedora de docinhos na espera para a balsa – que seu maior orgulho “é formar todo o semestre uma turma de catequese na periferia da cidade grande onde mora”.
Outra técnica que uso para conhecer pessoas é puxar assunto com a mesa do lado da minha.
Confesso-lhes que foi difícil. As mesas estão todas conectadas. A peste do WIFI virou item de primeira necessidade e já é destacada a senha do estabelecimento no cardápio.
Pronto, lascou. Todo mundo no whasts, FB, ou lendo algo na rede.
Quando conseguia uma breve interação, logo a pessoa, um tanto sem constrangimento algum, deixava-me falando sozinho, ligando-se ao som do seu celular que acabara de receber o toque de mensagem nova. E, sem qualquer pudor, acessando a mensagem. “Para uns, a solidão é temporária. Para outros ela veio para ficar. É um paradoxo. Nunca se viveu tanto, nunca tantos foram tão espremidos em centros urbanos e, ao mesmo tempo, nunca se viveu tão só”. (Radfahrer)
Não vou nem falar da falta de curiosidade em explorar lugares paradisíacos, nos quais estive, presos que estavam em suas telas azuis. Nem de perceber o que acontecia ao redor de belo, bom e virtuoso e agradecer pelo fato de existirem e poderem ali estarem.
É amigos e amigas, a falta de interação social – de relacionamentos significativos, cobrará um tremendo preço na saúde coletiva da humanidade. Falo relacionamentos significativos, não falo da vida editada digital. Relacionamentos saudáveis e gratificantes. Que funcionam como terapias, nos quais depositamos esperança, nossos medos, frustrações, alegrias, lutos, desconfianças. Um estudo que recomento está disponível em vários sites, trata-se do primeiro capítulo de um livro chamado Fora de Série, acesse no Google com o nome O Místério de Roseto, ou aqui:
http://www.fat-new-world.com/2011/04/o-misterio-de-roseto-pennsylvania.html

Trata-se de um estudo científico que encontrou uma correlação entre saúde e interação social presencial – pele a pele. Vale a leitura. O excelente documentário Happy (Netfix) também comprova a tese.

De minha parte, continuarei ajudando o JG e ensinando-lhe que por maior que seja a atração de seu jogo digital, nada substitui uma boa brincadeira com os amigos.
Quanto a mim, continuarei me desconectando, mais e mais, traçando metas de desintoxicação digital. Para além das férias, farei meu sabático digital.
Descobri que estava adoecendo, passando a integrar esse grupo de pessoas que desaprendeu a conversar juntas, sem ser com auxílio das teclas.

Gente Boa


Alguém te inspira a ser melhor, e te faz acreditar que num outro amanhã possível?
Se tem uma pessoa que me inspira, e sempre que converso com ele saio melhor, é o "Gente Boa". Esse é o apelido que recebeu dos demais feirantes. Olhe para esse senhor da foto e o que vê nele?
Eu vejo uma gente boa.
A vida dele por si só daria muitas crônicas, de segunda à sábado Gente Boa investe parte de seu tempo, e os parcos recursos de aposentado, para jardinar na praça e a calçada de frente à sua casa. Com seu velho fusca transporta, por conta própria, mudas e adubos, e cuida dos canteiros como se fossem de sua casa.
Noutra parte do tempo, e quando aparece serviço, ele investe na lanternagem e pintura de veículos, numa rudimentar oficina nos fundos de sua casa.
Nos domingos, madruga na missa e depois faz a feira em São Sebastião. Nunca o vi reclamar de nada. Sempre sorrindo me diz: "Sr. Ricardo, a vida é boa, nós é quem complicamos".
Ele não é produtor rural, mas compra no atacado algumas mercadorias e enche sua banca para comerciar.
Esse semblante risonho o acompanha por todo ofício domingueiro. Eu miro em seu rosto e sorvo de sua vida. Ele é um de meus rejuvenescedores domingueiro.
Já vi Gente Boa vender de tudo. Mas, suspeito que o que ele quer mesmo é ocupar-se. Quer mesmo é relacionar-se com outros feirantes e alguns poucos fregueses. Tem domingo que é jaca que ele traz. Noutros, mangas. Noutros, ataca de tudo um pouco. Trata-se de um feirante cujo semblante me inspira. Da mesa em que tomo meu café, ao fitá-lo, fico pensando o que nos falta para acariciar a vida, como ele o faz? O que nos falta para melhor viver a vida? O que nos faz para sermos gratos pelo que temos? No lugar de sempre ansiosos e aflitos pelo que não temos?
O que anda nos faltando, e nele sobrando, para nos fazer olhar também para o horizonte com olhos de eternidades?
Não poderia deixar passar o Gente Boa, sem apresentá-lo a vocês.
Ele nos motiva a contar nossas bênçãos, a abrir um sorriso e dizer: amar, viver, valeu - como aquela canção.
Mesmo e apesar das dificuldades e desafios do frágil processo de tornar-se a ser.
A vida anda carente de Gentes Boas. Quando os encontro os eternizo em crônicas. Têm um monte deles no Blog Bode com Farinha. São meus professores de bem-estar.
Então, esse é um convite que te faço, e que faço a mim mesmo, que tal olharmos para o futuro com o semblante do Gente Boa?
Cheio de ternura e esperança, quase fazendo uma carícia na vida. Que tal mais doçura, fé, esperança e poesia em nosso viver?
Que tal, por um instante mágico, e místico, sermos para o outro que se nos aproxima, um Gente Boa. Fornecermos a ele uma injeção de ânimo, uma lufada de otimismo, uma chama de infinitos, em forma de nós mesmos.
Talvez, ao teu lado, esteja alguém precisando de uma palavra de estímulo, de um afago na alma, de um cuidado atencioso, de um olhar que o toque com o toque de Midas, que o valorize tal o ouro da mitologia.
Que tal estendermos uma colcha de retalhos, na calçada de nossa vida, e sobre ela colocarmos nossos dons e talentos para que os outros deles possam se servir, possam de nós usufruir do bom, belo e virtuoso: generosamente, amistosamente e amorosamente?
Que tal sermos gente boa?

Amor em três atos


O primeiro ato do amor chegou até meu coração quando percebi a camaradagem que existe no casal, que mora vizinho ao meu lar. Deixa eu contar-lhe melhor como descobri isso.
Numa das minhas caminhadas pós-expediente, deparo-me com pequeníssimos cajus avermelhados, antes muito comuns às áreas de Cerrado.
Hoje são muito raros. Elas não se prestam à atividade econômica, pelo seu diminuto tamanho, e são vítimas fáceis dos tratores que aplainam tudo para pavimentar terrenos e edificações.
São quase bichinhos de estimação da natureza, mimosos e suculentos, chamados de cajuzinhos do Cerrado
Então, decidi que voltaria ali amanhã, com a máquina fotográfica e uma escada para colhê-los.
No outro dia, os colhi do alto da barreira. Não sem antes documentá-los para posteridade.
Chegando em casa, guardei os suculentos pedúnculos na geladeira, para um tira-gosto da melhor qualidade, num sábado prazeroso e vindouro.
Quanto às castanhas, as deitei sobre terra macia, em dez vasos especialmente preparados, para que neles germinassem.
Tempos depois, ao chegar do trabalho, fiquei muito feliz ao ver que nove sementes vingaram, e delas cresciam frágeis e inseguras hastes de um verde que teima a morte.
Era a vida que se propagava.
Enquanto mirava as tenras e pudicas folhinhas, despindo-se de suas castanhas, escutei meus vizinhos conversando.
Miro o olhar e vejo que eles estão plantando uma árvore qualquer.
Admiro-os. Estão plantando juntos, e sob um sol desafiador. A vizinha não se intimida com a enxada e cavouca a terra. Seu esposo vem com um saco pesado de terra vegetal e deposita sobre o buraco, recém-aberto.
Já observo esses vizinhos há algum tempo. Primeiro, chamou-me minha tenção o fato de aos sábados eles lavarem o carro juntos.
Depois, observei que também caminham juntos. E, de quebra, passam bons momentos na pequena piscina que fizeram, conversando e relaxando.
Para completar, outro dia indo ao trabalho fraguei que o carro à minha frente era o deles, e vi que também vão juntos ao trabalho.
Devaneios à parte, tomei coragem e fui visita-los, levando quatro de minhas mudas de cajuzinho para presenteá-los.
Se alguém merecia recebê-las seria aquele amoroso casal.
Descobri que estão casados há oito anos.
Não era então fogo de palha de início de relacionamento. Era coisa duradoura.
O que mais tenho visto por aí, inclusive por aqui, são sintomas de solidão a dois, ou em família.
Cada um no seu tablet, mundo, TV, celular ou envolvidos em mil afazeres domésticos, tocados no modo solo.
Cada um no seu infinito particular.
Esse casal não.
Eles descobriram um jeito de criar encontros entre si, de cultivar proximidades: seja plantando, seja lavando, seja relaxando ou dirigindo.
Encontraram uma das chaves de relações duradouras e significativas: o companheirismo.
Para ser companheiro é preciso abrir agendas comuns.
Tem que aprender e querer tecer partes do tecido da sua vida, com o outro.
Sempre que volto do trabalho, e passo em frente àquela casa, sinto-me impelido a pegar uma enxada e chamar minha mulher para cavoucar a terra.
Sem querer, eles me ajudaram a perceber que minha vida a dois precisa de intimidade e cumplicidade.
De mais nós, fazendo coisas juntos.
Do que coisas juntas, fazendo nós.
No segundo ato do amor entra em cena a admiração pelo amado, pelo querido ou gostado. Evoco uma cena recente. Eu estava tirando foto do JG (João Gabriel), no presépio de uma praça central em Londrina, quando uma senhora cadeirante me abordou. Ela pedia ajuda para registrar a foto dela, com o seu filho, à frente do presépio.
Disse-me que seu filho tinha um pouco de “leseira mental” e que não sabia usar a câmera do tablet que ganhara de natal.
Fiquei solidário e fucei tudo, no aparelho, até achar a função correta e documentá-los para eternidade.
Fiquei estupefato coma cena. Ela cadeirante, ele com sequelas de uma paralisia cerebral que sofrera ao nascer, mas ambos encontrando-se num enquadramento de foto e sorridentes com a perpetuação de seus momentos a dois.
A expressão dela para ele era de pura admiração. A dele para ela, idem.
O tempo parou para aquele encontro de mãe e filho. Toda orgulhosa ela não se cansava em voltar as fotos e ver como ficaram.
Ofereci-me para fazer outras fotos, de mais cenários natalinos existentes na praça e a festa foi completa.
O segundo cântico de amor é a admiração. Quem admira o outro, deixa ele crescer em seu coração. Tem relacionamentos que se perderam no caminho por falta de admiração ao que o outro tem de bom. Desaprenderam a perceberem-se nas bonitezas da vida e só filtram, e selecionam, o que o outro tem de ruim, de não atendimento às suas expectativas.
Relações toxicas e doentias que se destroem mutuamente de tanta agressividade e “desadmiração”. Quem leu a biografia de Stephen Hawking, um dos maiores físicos da humanidade, viu o quanto de admiração sua esposa tinha por ele, e ele por ela.
Admirar-se é se interessar pelas coisas da vida do outro. É encantar-se e assombrar-se com a vida dele. Admirar vem do Latim ADMIRATIO, que veio do verbo ADMIRARI, “espantar-se”, formado por AD-, “a”, mais MIRARE, “espantar-se com, admirar”, de MIRUS, “maravilhoso”. O segundo canto do amor falar de abrir o coração para que o outro, na sua porção MIRUS nele habite.
Se o primeiro ato, ou chave, do amor é a Cumplicidade, e o segundo a Admiração, qual então seria o terceiro?
As mesmas pesquisas sobre as bases de relacionamentos significativos, que extrapolam os de casados, podendo ser também entre amigos e familiares, indica a generosidade como sendo o terceiro ato, ou chave - quase como um elemento constituinte.
Generosidade é um dos valores mais difícil de se definir. Afinal, em suas práticas se misturam com: bondade, doação, gentileza, cuidado, solidariedade, empatia, colaboração e compaixão.
Então, a generosidade é um valor-mãe - daquele que nele cabe um monte de outros valores, como os acima, mas todos com o mesmo enfoque: o de tornar a vida do outro um pouco melhor, mesmo que seja só investindo tempo em escutá-lo.
Quem pratica a generosidade quer o bem do outro. Despoja-se de si mesmo, abrindo-se ao encontro misericordioso com o próximo. Quer vê-lo feliz e bem. Desapega-se de si mesmo e se doa em mimos valiosos para o outro. Nem sempre materiais, aliás, quase nunca.
Sabe aquela noite gélida na qual você acordou para cobri-la adequadamente?
Sabe aquele seu cachorro velhinho que você ainda leva para tomar sol e o alimenta pacientemente?
Sabe aquele filho que te liga para ir buscá-lo na casa de um amigo, no meio do jogo de futebol e seu time preferido, e você vai?
Tudo isso são gestos generosos.
Hoje estava preparando um relatório e eis que adentra minha sala a Dona Estela, ela me dá um copinho com umas bolachas e me diz: “Trouxe para o Senhor, são bolachas de goma, de sua região”.
Quanta honra e que gesto generoso de Dona Estela. Quem recebe um gesto generoso fica rindo a tôa, e sabendo o porquê.
Sente-se percebido no meio da multidão. Sente-se valorizado e individualizado em suas necessidades.
Enfim, sente-se amado.
Precisamos voltar aos bancos de escola, da mãe-vida, para reaprendermos a ser mais cúmplices de nossos amigos e amados; ter para com eles mais eventos de admiração e menos de reclamações, e abrir janelas de oportunidades para a generosidade, sem querer nada em troca, só por se sentir melhor em fazer o outro feliz.
Seu Fritz vai passando pela calçada de minha casa. Apresso-me para cumprimentá-lo. Trocamos confidências cúmplices, daquelas que só fazemos quando nos percebemos irmãos de ideais. Seu Fritz admirou a obra que fiz no jardim de casa, duplicando a capacidade da fossa séptica. Por fim, me diz que tem umas mudas de banana d´água e pergunta-me se as quero. Digo-lhe que sim. Ali aconteceu, naquela calçada os três atos do amor.
Continuamos trocamos confidências urbanas e nos encantando com as formações de chuva que se espelhavam no horizonte. Então, lembro-me que ainda tenho 5 mudas do cajuzinho, e vou buscar duas delas para lhe presentear.
Os três atos constituintes, ou chaves, para a manutenção do amor precisam ser distribuídos e vividos, muito mais do que guardados e racionalizados.
Desse agir revolucionário, no cotidiano de uma sociedade excludente, individualista e excessivamente consumista, na qual tudo vira mercadoria, brotarão a paz e o bem-estar.
Um agir que nos desafia a não nos deixar apodrecer, na mesmice e mediocridade dos tempos presentes. Desafia-nos a germinar novas possibilidades do ser, na semeadura de cada encontro.

Resgate Pessoas na Caixa de Spam de Seu Coração


"Ricardim, estou arrasado(a) mandei 14 votos de feliz natal para meus amigos, semana passada, e só recebi 4 de volta".
Amiga(o), 
Não se preocupe com isso.Você pode ter caído na caixa de spam da vida dele(a).
Sua atitude é suficiente, não faça nada esperando em troca.Embora seja bom receber.
Então, quando você fez algo, esperava algo, e nada... e nada..
Vasculhe a caixa de spam dele(a), pode estar lá a razão.
Aquele gesto que esperava em retribuição, pode estar lá arquivado.
Você pode ter sido filtrado, pelo pior dos filtros, o da indiferença e foi direto para a caixa de spams.
Você pode ter sido bloqueado, pelo pior dos bloqueios, o do preconceito, e foi direto para a caixa de spam, ali sendo esquecido.
Você pode ter tido sua vida confundida com publicidade, e foi direto para a caixa de spam. Algo incomodou a ele(a) no teu viver.
Como não podemos interferir na caixa de spam do outro, que tal na nossa?
Será que aquele pedido de socorro dele(a) não está na caixa de spam de teu coração?
Tem algum email que não respondeu?
Algum whatsapp esquecido sem resposta?
Alguém que te desejou algo bom e não retribuiu?
Algum gesto de gratidão, numa atitude bacana do outro, que virou spam em teu coração?
Será que um pedido de perdão não virou um email-spam em teu coração e agora precisa ser lido, resgatado e perdoado?
Abra a caixa de spam de seu coração. Veja que muita coisa pode ter entrado ali indevidamente.Por medo, desconfiança, cansaço, ou até pela rotina.
Permita-se abri-la e resgatar o que vale a pena fazer parte de teu viver, retornando para a caixa de entrada de teu coração.
Diariamente, condenamos os outros a serem como email-spams: invisíveis ao nosso viver.
Tá na hora de dar vida a eles, retornando-os ao seu afeto.
Spam =Emails tidos como indesejados que o Provedor envia automaticamente, ou por programação, para a caixa de Spam para posterior verificação.Que quase sempre nunca acontece.

Cartas ao JG - Despedidas



Sabe filho, hoje chorei sozinho vendo essa tua foto.Foi o dia da entrega da nova faixa do Judô, que conquistastes, a Branca-Cinza.
Chorei por saudades de ti e do Monteiro Lobato; tua escola que fechará as portas em 2016.
Te deixei ali com 1 ano e 8 meses. Filmei teus primeiros passos indo em direção à classe, olhando para nós com um olhar de desamparo.
Hoje, tu segue para ela cantando de feliz.
Quanto crescimento!
Todos os teus amiguinhos(as) vão se dispersar. Te conheço e sei que precisas de um tempo para fazer amigos, vai tateando o ambiente pelas beiradas, mas que depois viram quase irmãos.
Deveria ser proibido escolas fecharem. Deveria ser proibido deixarmos nossos grupos dos primeiros amigos(as), da infância, da ternura do bem viver. Na qual, tudo é festa e amizade.
Minha escola também fechou. Eu fazia o terceiro ano, você faz o primeiro.
Entrei numa escola estranha no quarto ano. Você entrará no segundo.
Tudo era tão assustador. Como são todas as mudas. Nunca mais reencontrei meus amigos daquela época.
Outro dia abracei a diretora: Eneida Agra, importante ativista cultural de minha cidade, Campina Grande-PB, num evento que prestigiei nas nossas férias e ela estava ali, forte e sarada com seus 80 e mais alguns. Foi como eu me reencontrasse com tudo de bom de minha infância. O pé de goiaba, os ensaios do jogral, o imenso quintal da escola com sua tamarineira. .
Sinto muito flihote. Sinto mesmo. Vamos atravessar juntos essa tua adaptação ao novo.
Irás para o Colégio Sagrada Família, tomara que sejam sagrados teus momentos lá.
Tomara que não sofra bullying, tão meigo que és.
Tomara que tenham paciência contigo, quando entrares no modo tímido.
Tomara que as saudades do antigo te deixem em paz e não te impeçam o crescer de novas raízes, noutras terras - distantes e desconhecidas para teu coraçãozinho de criança.
Seria tão bom que não deixássemos nunca quem amamos.
Desejo uma travessia corajosa. Muitos amigos(as), aventuras, coisas novas que o abismo às vezes possibilita. Desejo a loucura do desapego e a esperança de dias em todos como essa, muitas delas. Desejo a luz e a tenacidade em buscar ser feliz no caminho, mais que na chegada a qualquer lugar.
E que tenha sempre por perto um monte de pessoas boas para te ajudar a sair do ninho e voar.
Escolas não deveriam fechar! Nem cinemas...

Sonhos Alados


Cheguei ao trabalho com um gostinho diferente. Após uma semana na nova função, depois de empossado numa das empresas que compõe o Conglomerado BB – a BB Tecnologia e Serviços, recebera a notícia de que minha matrícula e o e-mail havia sido gerados.
Engraçado como um e-mail corporativo, uma matrícula e um crachá te dão uma sensação de pertencimento a uma identidade profissional.
Entrei logo na sala para testá-lo. Abri as janelas e vi um inseto no parapeito.
Parecia uma borboleta. Gosto de borboletas, então aproximei-me para vê-la de perto.
Uauuu!!! Qual não foi minha surpresa.
Não era uma borboleta, era uma semente. Uma semente com “asa”, uma semente alada.
Saí no haal e mostrei às telefonistas Paulinha e Mislene a belezura do que acabara de ver. Quis compartilhar com elas o belo.
Mislene ficou embevecida com a foto que tirei. E, disse-me que iria procurar o nome da árvore daquela semente tão graciosa.
Mais tarde, abri a caixa de e-mail e estava ali, o primeiro e-mail que a inaugurava. E era da Mislene, ela descobriu o nome da árvore: Jacarandá do Campo (ou Faveiro), de nome científico: Platypodium elegans.
Que nome bacana! Pensei numa analogia com o nome científico:
“Elegante pódio pra ti.” Que desejo legal para os outros: Que você tenha um elegante pódio.
Ser elegante é ser de paz, ser humilde, saber reconhecer as pessoas que são corresponsáveis pela sua vitória, pessoas que sem elas nãos e chega a pódio nenhum, pelo menos os pódios elegantes.
Recebi aquela semente, sua história e o e-mail da Mislene bem emocionado.
Ela me falava, e muito, nos dias de muda em que estou vivendo.
Depois de um tempo, o Dadá, o nosso “faz de um tudo”, presenteia-me com umas dez sementes que colheu no seu horário de almoço. Eu não tinha tocado nelas ainda, pois a que caiu em cima da marquise de minha janela não tem como ser colhida, pelo vidro ser fixo.
Elas são de uma delicadeza imensa. De tão feliz que fiquei, guardei uma delas numa caixinha de metal, como um troféu de boas-vindas que recebi da mãe natureza.
Essa semente de Jacarandá é uma abençoada. Ela pode ser plantada noutros locais, é só se deixar levar pelo vento.
Se correr o risco de cair da sua mãe árvore num terreno ruim, muito sombreado, pedregoso ou de difícil possibilidade de germinação, é só esperar uma ventania de outono, daquelas que dão por aqui em Brasília, e tentar novamente noutras terras.
Acho que essa semente representa um tipo de postura diante da vida que muito nos ensina.
Uma postura elegante de se atingir metas e desafios, de se subir no pódio: seja em primeiro, segundo ou terceiro lugar.
A postura de voar. Levando no vôos condições melhores para o renascimento noutros locais.
Sem se perder dos valores, da essência, daquilo que nos faz germinar.
Amigos e amigas, acredito que os sonhos precisam de asas, tal qual essas sementes de Jacarandá do Campo.
Que seriam dessas sementes se não fossem aladas?
Tem gente que possui um monte de sonhos, mas não voam em busca de seu alcance.
São sonhos fadados ao apenas sonhar. Meras intenções. Não se preparam, se esforça, carecem de disciplina e vontade e coragem. Querem chegar na janelinha, mas sem esforço e com uma pressa e ambição desmedida.
Sem práticas concretas, sem concretude. Sem mudança de lugar, postura e hábitos.
Sonhos bons, daqueles que viram projetos concretos, têm asas mais do que raízes.
É amigos, a semente me ensina, e hoje compartilho: quão pobres são sonhos, ou o sonhar, sem que se possa com eles coar, sonhos presos numa realidade asfixiante, sem asas.
Sonhos precisam de movimento, precisam de mudanças, precisam de enfrentamentos da realidade que tende a deixá-los num canto qualquer mofando em nossos corações, tal qual sementes sem asas que caem no chão de uma árvore e que dificilmente, caso não sejam tiradas dali, em refeições de outros animais, vingarão.
As asas capacitam as sementes a outras possibilidades de germinação.
Quantos sonhos fomos adiando? Procrastinando-os ou, simplesmente, retirando-os de nossos corações, só por termos desaprendido a voar, ficando em gaiolas estéreis. Só na intenção. E nada de passo-a-passo ir criando as condições para a emancipação deles. Quantos?
Ao sinal da menor dificuldade, desistimos de leva-los adiante.
Diante de uma necessidade de um maior esforço, pulamos fora.
Perdemos a resiliência, necessária a manter a firmeza não esquecendo da “elegância”, diante das pressões cotidianas. Aí, vamos desistindo precocemente de energizar nossos sonhos, nos acostumando às grades, reais ou imaginárias. Desaprendemos a voar.
Mas quais seriam as melhores asas das sementes de nossos sonhos?
A espiritualidade e a esperança, considero como excelentes asas.
A família, os amigos, o caráter, o profissionalismo, o amor e a educação são outras muito boas. Elas nos levam mais longe do que sonhamos.
E, os valores da tenacidade, disciplina, otimismo e sentido da vida nos capacitam aos voos. São combustíveis, quase como os ventos, para as sementes aladas. Esses valores alargam nossa trajetória, e possibilitam um vir-a-ser melhor, repleto de novas e insondáveis acontecenças.
Então, amiga e amigo que me lê, que tal botar asas e soprar ventos nas sementes de seus sonhos?
Não é hora de desistir de você mesmo. Pegue o próximo vendaval e saia para semear-se noutros locais, nos quais de ti precisarão de teu vigor, sombra, flor e fruto.

Suje a boca comendo manga.


Essa semana tive a oportunidade de conversar com pessoas amigas, sobre as estratégias para o bem-estar emocional que precisamos desenvolver, para uma melhor qualidade de vida psicológica. Com tanta coisa que lhes falava, pediram-me para fazer um texto que as ajudassem.
Disseram-me que são do tipo que ficam "arengando" com a vida. Daquelas que acordam procurando razões para ser infeliz.
E que, por pouca coisa, perdem a paz e a alegria durante o dia. .
Então, resolvi escrevê-las, e a todos e todas que se identificarem com seus apelos.
Por experiência prática, e com base nos meus estudos em Psicologia Positiva e Logoterapia poderia resumir, correndo o risco e tomado pela insanidade de todos os resumos, em três grandes forças motrizes geradoras da energia do bem-estar.
São elas: A dieta emocional; os exercícios comportamentais e o estilo de vida existencial.
Fazendo uma analogia com a busca por um corpo saudável: seria a dieta, os exercícios e a mudança do estilo de vida, o que de fato faz perder peso e evita o efeito sanfona.
1. I - Força Motriz - Dieta Positiva Cognitivo-Emocional.
De que tipo de emoções nos alimentamos? O que lemos e o que ouvimos? Que tipo de alimento emocional estamos ingerindo todos os dias? São alimentos saudáveis, ou são venenos emocionais?
A primeira força nos ensina que é preciso cuidar com o que deixamos adentrar em nosso ser. Seja pela cultura, pelas amizades, pelo acesso a informações, ou até pela troca diária de conversações.
Se essa dieta é repleta de agressividade, maldade, inveja, rancor, ódio e maledicências, como purificar o existir?
Como se sentir, ao final do dia, em paz e com bem-estar crescente?
O meio fabrica o Homem, de fuma maneira muito mais primitiva do que a do Homem fabricar o meio.
Assim sendo, recomendo que se cuide com o que se consome de emoções nos meios em que habitamos.
Não dá para criar uma bolha e ir morar dentro, ou numa ilha deserta. Até arrisco que ali não seríamos felizes. Precisamos de cheiro e toque de gente para nos realizarmos como pessoas.
Mas, tem que ter juízo e discernimento para saber quando estamos ficando envenenados, intoxicados pela convivência com gente ruim, desumana e sem nada de positivo.
Gente infeliz, extremamente negativa e crítica, que suga nossas energias. São uma bomba calóricas do mal, para nossa dieta para o otimismo, esperança e visão positiva de si mesmo, da vida e dos outros. Feche as portas do coração a elas. Não se deixe contaminar.
Além disso, cuide das calorias do mal que por si próprio, pela sua autonomia de um ser de liberdade faz e consome. Que tal, se levou um fora afetivo, passar menos tempo lendo a cartas dela? Ou ouvindo músicas que remetem à finais de relacionamentos?
Que tal uma dieta desse tema? Uma desintoxicação.
Resumindo, a I Força Motriz para o aumento do bem-estar diz respeito ao que consumimos, e ao que exalamos de emoções. Procure as boas, aquelas que agem como os dez antioxidantes da alma, aqueles que rejuvenescem nossa história de vida, tais como: otimismo, paz, espiritualidade, perseverança, ética, adaptabilidade, solidariedade, esperança, gratidão, generosidade e mansidão.
Alimente-se delas e serás muito mais feliz hoje, do que ontem, e assim por diante.
2. II Força Motriz - Exercícios Sócio-Atitudinais
O alcance do bem-estar emocional exige práticas comportamentais e atitudinais, muito mais que bravatas ou belos discursos. Algumas delas dolorosas, pois vão contra hábitos arraigados, e geram resistências internas.
Mudar dói e é um tanto arriscoso. Mas garanto-lhes, é muito bom e ainda melhora a cada dia que passa.
Se você é do tipo que vive reclamando de tudo, mudar exigirá esforço e atenção redobrada sobre si mesmo, o que chamamos de autoconhecimento. Assim, ao menor sinal de chegar no seu coração aquela reclamação gratuita, por coisa pequena, trivial, poeirinha de estresse turvando sua visão, atue sobre ela. Diminuindo o impacto emocional do negativo no seu dia.
Tem gente que reclama tanto, que mal consegue conviver com os outros, consigo mesmo e com a vida. Tudo lhe está em falta.
Tem gente que passa praticando um esporte perigoso: Ninguém Presta. Esse esporte tem seu placar alterado sempre que praticamos o mal: seja em comportamentos seja em atitudes: “remungamentos”, fofocas, invejas, apologias a rede de intrigas e difamações de todos os tipos.
Na analogia com a busca por um corpo saudável, esse exercício faz o mesmo efeito do que aquele que respondemos ao nosso médico quando nos pergunta sobre atividades físicas:
“Doutor, no momento só levantamento de chope”.
É, meus amigos e amigas, como querer uma vida em bem-estar emocional vivendo em guerra com todos, consigo mesmo e com a vida?
Para ativar essa força motriz dos Exercícios Comportamentais a pessoa precisa se conhecer melhor. Identificar o que a tira do sério, e o porquê. A partir daí, sobre esse aspecto trabalhar o aprimoramento de seu ser.
Não basta ficar na I Força: A Dieta Emocional. É preciso exercitar o bom, belo e virtuoso, até que ele vá virando um outro jeito de ser, cultivando em nós novos hábitos.
Têm alguns exercícios, nesse particular, muito bons para perda da “barriga da tristeza”, verdadeiros abdominais para saúde emocional. São eles:
a. Pratique a gentileza. Melhore o mundo em que habitas, e todos os dias.
b. Pratique a gratidão. Seja grato por tudo, e a todos que constituíram em ti, ser quem és.
c. Pratique recomeços. Quando alguém arrependido lhe convidar à paz, dê-lhe paz. Ou, que seja você que tome a iniciativa e restabeleça o fluxo para relacionamentos saudáveis.
d. Expanda a visão de si mesmo, dos outros e da realidade. Preste atenção aos aspectos positivos da vida: o bom, belo e virtuoso que estão em todo lugar e que teus olhos opacos, pela indiferença – filha da rotina, preocupações e ansiedade cotidianas, não lhes capacitam mais a ver.
e. Exercite a resiliência. Cuide para não superdosar a atribuição de significados ao que não sai de acordo com o que esperava, aos estresses e lutos existenciais. Nesses momentos, olhe-se dentro de um contexto de referência maior, proclamando e acreditando em profecias realizadoras tais como: “Já é hora de fechar as janelas, virar a página”; “Isso também passará”; “É só uma fase” e, “Amanhã será melhor”.
3. III Força Motriz - Saltos Disruptivos no Estilo de Vida
Tem gente que nunca está satisfeita. Com estilo de vida nada simples. Gente que carrega muitas tralhas emocionais. Como alcançar o bem-estar com um estilo de vida extremamente materialista, consumista, ganancioso, ambicioso e até violento?
Como?
Gente que se perdeu nas coisas e coisificou o outro, a si mesmo e até a realidade em que vive.
Gente escrava do ter e poder, e dependente de prazeres que após uma ressaca diluem-se e evaporam deixando-as mais vazias ainda.
Tem gente que virou refém do outro.
Gente co-dependente, sem liberdade e autonomia. Oprimida que foi, por tantos anos, acostumou-se com as gaiolas. E, em gaiola sendo, quer aprisionar a todos que lhe cercam no mundinho em que habitam. Vivem uma vida de mediocridade e aparências.
Muito da mudança para uma melhor qualidade de vida passa pelo estilo em como se vive.
Mas não é pouca coisa não! É muita.
Tem gente que nunca tem paz, por mais promoções que receba. Está sempre entupida com dívidas das novas prestações: do carro do ano; da roupa transada, da viagem dos sonhos...etc.
Gente que vive procurando a felicidade numa forma hedonista de ser, em alvos, que tão logo sejam alcançados já deixam em si – meses depois, o mesmo vazio de antes.
Gente que se alimenta do que realmente não importa, e ainda reclama de estar sempre com fome.
Mas, há esperanças. Existem um montão de pessoas, e você pode até ser uma delas, que vem aprendendo que a vida é curta demais para ser pequena.
Que existe coisa que dinheiro não compra. Que um estilo de vida mais simples e ligado às pessoas e grupos que realmente nos fazem bem é algo precioso, por si mesmo.
Gente que reaprendeu a observar e encantar-se com a natureza. Gente que acolhe, que ajuda que influencia mudanças para melhor nos meios em que atua. A III Força Motriz do Bem-Estar é o Estilo de vida. Pode ser uma força positiva, que lhe impulsione ao alto; como também negativa, que lhe aprisione e lhe mova para os porões do ser.
Estilo de vida tem tudo a ver com nossas escolhas e renúncias. Tem a ver com nosso projeto de vida, senso de propósito e valores que cultivamos no aqui e agora dos tempos presentes.
Nessa sociedade veloz e agressiva que vivemos, falar em mudança de estilo de vida é quase uma utopia. Convido-lhes a serem utópicos como eu. Bora juntos?
Uma sociedade marcada por níveis crescentes de medicamentalização; ansiedade e estresse. Para a qual nem tudo, ou melhor muito pouco, a solução passará pelo traja preta e aspirinas.
Na qual, todos os dias nos envenenamos um pouco mais com os hormônios da sobrevivência: cortisol e adrenalina.
Uma sociedade hiper-conectada, mas solitária. Com acesso a possibilidades inimagináveis no passado, mas ansiosa.
Uma sociedade multicultural, mas que guerreia pela extrapolação do poder de seus guetos.
Com mil formas de representação e identidade social, mas insegura e carente de atenção.
Uma sociedade cujo o próprio estilo de vida produz dor, tristeza, destruição e morte.
É para ser um mais revolucionário contra essa sociedade que lhe convido. Um utópico de um outro mundo possível. E por que não?
Afinal, teve gente que mudou o estilo de vida, e para melhor, após um choque que passou: seja um luto laboral - ou existencial, um sofrer afetivo, ou até uma doença.
Mas, não precisa de tanto para mudar para um estilo de vida mais saudável, do ponto de vista de bem-estar emocional.
A educação emocional para a inteligência positiva, feita em várias partes do mundo, tem obtido sucesso e mostrado que podemos reaprender novos estilos de vida.
Mais comunitários, menos individualistas.
Mais solidários, menos egoístas.
Mais fraternos, menos violentos.
Mais naturais, menos materiais.
Podemos passar sem trocar de carro a cada dois anos. Podemos passar sem pintar a casa, a cada 5 anos. Podemos passar sem aquela viagem dos sonhos a cada X anos.
Podemos passar sem as marcas. Podemos passar sem as coisas.
Só não podemos passar sem nós mesmos, e as pessoas que amamos e conosco interagem.
Essas não têm preço. E serão elas – quanto tudo que o dinheiro compre não vier mais a comprar – como as lágrimas que choram por nós, quem de fato estarão ali pertinho a nos apoiar.
A simplicidade exige um pensamento complexo e um agir perigosamente contra a maré e ordem reinantes, desenvolva-os e seja mais feliz!
Lambuze-se comendo manga madura. Não tema sujar os dentes. Permita-se às experiências verdadeiras e prazeirosas, justas e éticas - muitas de baixo custo. Carregue menos fardos emocionais, tome mais banho de chuva, tome mais sorvete e menos sopa, e reaprenda a brincar.
E, por último, abra seu livro de colorir - aquele de sua própria existência, e todas o dias acorde com o firme propósito de refazer seu melhor esboço, sua melhor ilustração de si mesmo, do outro e da realidade, com as tintas do bom, belo e virtuoso que produziu e recolheu durante o dia.

Cartas ao JG - Celebrando o quase lá!




Ao longe, escutava você estudar com sua mãe para a última prova que teria: a de Judô.
Durante a semana, acompanhei tua frustração em não ter “passado de faixa”, na primeira avaliação que fez. Nela, você não soube o nome de algumas palavras do dialeto judô.
Sua preocupação era grande, e sua mãe pacientemente tomava-lhe a lição.
E tome palavras estranhas sendo repetidas à exaustão para que você as assimilassem, do tipo dos nomes das peças do traje (“Obi, Eri”..); os numerais ( “Iti, Ni”...) e como se chamam alguns dos movimentos que pratica (“Zai, Fusegui”...).
Fiquei rindo à tôa com tanta dedicação, de ambos: mãe e filho, para superar esse desafio.
A prova era na segunda, quem iria te buscar era eu.
Cheguei apreensivo.
Vi que saia uns alunos com o Quimono na mão, e você nada de sair.
Uns sentaram-se ao meu lado. Perguntei-lhes se tinha visto você. Responderam que você ia bem na avaliação.
De repente você aparece e me pergunta se eu posso ir contigo em Águas Claras-DF comprar uma nova faixa: Branca-Cinza.
Você está radiante. Eu, desconfiado. Aproveito que você vai se despedir de uma a amiguinha, e pergunto a um grandão que estava ao meu lado: “Tem mesmo Branco-Cinza, ou foi para consolá-lo que o professor assim agiu? ”
O grandão diz que tem: “ pelo conhecimento e técnica ele já é faixa Cinza. Mas, pela idade é Branca ainda. ”
Fiz cara de entendido e soltei um: ahhh!!!
JG voltou para casa eufórico. E aquilo me contagiou. Mas tarde entrei num site de Judô e descobri que existem gradações de faixa para os pequenos, que são função do tempo de faixa anterior e da idade, do tipo:
Cinza-Azul (de 7 para 8 anos); Azul-Amarelo (de 8 para 9 anos); Amarelo-Laranja (de 9 anos para dez anos)
Filho, que sabedoria milenar prendi com tua mudança de faixa!
Aprendi que nem sempre já conseguimos ser o primeiro, vencer algo e pular de fase, mas que o importante é o “viés de alta”, ou tendência, que ao se acreditar e investir mais um pouco, no teu caso de idade, atingirá o objetivo e receberá como prêmio a faixa Cinza.
Que lição!
Sabe filho, durante muitas coisas em teu viver lembre-se do dia em que ganhou a faixa Branca-Cinza!
Lembre-se, repito, e guarde esse dia com carinho!
Como seríamos melhores como pais, professores, gerentes e líderes se acreditássemos que entre o sim e o não existe o mais ou menos.
E que, muitas das vezes o mais ou menos está excelente, uma vez que indica um caminho de possibilidades que já se está descortinando.
Veja filho, você nem é faixa Branca, nem Cinza, é Branca e Cinza.
É um pouco das duas.
Queremos nessa busca frenética por resultados sempre o pódio.
Vamos nos educando para desprezar tudo que não seja o 10. A medalha de ouro.
Desprezamos assim as alegrias provisórias, pequenas, não completas em tudo que esperávamos dela. As bonitezas das brevidades da vida.
Criamos uma enorme expectativa sobre nós mesmos, os outros e a vida; e para estarmos bem ansiamos que elas sejam plenamente atingidas.
Desaprendemos a vibrar e celebrar o “quase”. Veja o exemplo abaixo, de quem um dia me procurou chateado pela reforma do apartamento ter atrasado. Essa pessoa estava visivelmente aborrecida. O natal seria com poeira de obra em seu lar.
A construção dela não terminou em 2015. Aí, como em muitas coisas em nosso viver, para as quais a construção ainda não terminou, ficamos nervosos, e chateados com a “casa empoeirada”. E aí, cegamos de desgosto. Perdendo a oportunidade de celebrar o que já foi feito, e “esperançar” o que ainda falta fazer. Foca-se no que falta. E não no que ainda sobra.
Chamo a isto, filho meu, de contabilizar perdas.
Ficamos craques nisso.
Vamos aprendendo a modelar nosso cérebro, e suas respostas emocionais, a uma vida de expectativas superdimensionada.
E, dia a dia, vamos alimentando padrões de comportamento que virarão hábitos. Hábitos infelizes, que depois de criados, regularam o modelo de funcionamento de nosso ser, programando-o à infelicidade.
Existe saída?
Sim, filho meu. O pensamento e ação sobre o mundo do tipo Faixa Branca-Cinza é uma delas.
Esse pensamento acredita no potencial, no vir-a-ser, nutre esperanças vadias nos quintais de nosso coração.
Esse agir sobre o mundo não desiste quando não vence, prepara-se melhor para os próximos desafios e comemora o que ainda conseguiu.
Não é uma postura alienada. Antes disso, trata-se de uma postura revolucionária: quer atitude mais revolucionária do que a de alegrar-se com o que já tem; e confiar – operando para tal, em na construção de um futuro melhor?
Como seria bom se pais, professores, gestores e líderes, de todos os tipos, reconhecessem em seus funcionários desempenhos Branco-Cinza, ao invés de dizer a eles que ainda não estão reparados para a Faixa Cinza.
Quantas coisas boas quem migra do branco para o cinza já conquistou que vale a gradação!
Vale o reconhecimento do caminho, muito mais importante do que o do alvo.
Nessa sociedade que idolatra o consumo, a marca, a ostentação, cujas marcas são o vazio existencial, a ambição desmedida e o individualismo exacerbado, o Judô nos ensina muito.
Ensina-nos a não receber uma penalidade máxima, o HANSOKU-MAKE, da vida.
Penalidade emocional que recebemos por termos desaprendido a conviver, comungar, respeitar e a contribuir para um coletivo comum mais ético, fraterno e justo.
No qual, entre o Branco e o Cinza, há o Branco-Cinza.
Agora vou comprar tua faixa.
Será minha faixa também como teu pai. É que não me sinto tirando 10 como teu pai. E vinha ficando triste.
Mas, agora alegro-me. Estou com viés de alta para mudar para faixa Cinza.
É só investir mais tempo.
Mas, já sou faixa Branca-Cinza como pai. Já mudei da Branca.
Viva!!!

Acácia Negra


Aproveitei o horário do almoço para ir cortar o pelo.
Fui na Barbearia do China, ali na 716 Norte em Brasília, pertinho de um dos prédios em que trabalho.
Preço bom e sempre vazia.
Dessa vez, contudo, meu cabeleireiro estava ocupado.
Sentei-me para aguardar a minha vez quando uma jovem perguntou-me se era cabelo.
Falei que sim. E ela foi chamar o "China".
Eita, nunca tinha cortado o cabelo com a criatura que dá nome ao salão.
O China era mais conversador do que o barbeiro que me atende há uns 5 anos.
Puxou logo assunto sobre a Mega-Sena acumulada. Disse-me que se tirasse a Sena iria reformar o salão.
Deu uma sonora risada, correndo risco com a navalha tão perto.
Mas China, você continuaria trabalhando?
Ele me disse que faria uma baita reforma no seu salão e passaria a atender os necessitados.
Agora meu sorriso murchou. Eita, sinto cheiro de crônica.
China, na verdade é o João Batista Florêncio Sampaio. Ele abriu seu próprio salão em 2000.
E me disse que "não se pode passar por essa vida sem ajudar".
Contou-me então que já se inscreveu no cadastro de voluntários do Hospital de Base, indo cortar cabelos de pessoas que estavam a muitos meses ali internadas: "Sem nem a família mais visitar".
Também, já cortou cabelos de idosos, em asilos; e de crianças, nos orfanatos.
Até na quadra onde mora já fez campanha de arrecadação de alimentos, usando como moeda o corte de cabelo. Conseguiu congregar uns outros "Chinas" da vida e num sábado, botou até carro de som pra animar o corte e anunciar a campanha.
"Paguei até o alvará de um dia para ficar legal".
O corte "custava" dois quilos de alimentos.
Disse-me com orgulho que arrecadou quase meia tonelada. Ele e os amigos que mobilizou para a empreitada.
Enquanto falava comigo uma mocinha se dirige a ele. Ela pede sua bênção, ele a beija na testa e a abençoa. Ela senta-se numa das mesinhas de manicures. Deve ser a filha dele. Quanto amor e respeito.
"Dinheiro sem trabalho apodrece", falou o China todo cerimonioso. Como quem me revela uma grande sacada que teve pela vida afora.
Essa frase que o China falou hoje é comprovada por inúmeras pesquisas de psicologia. As pessoas precisam sentirem-se engajadas a algo, vinculadas, atuando em suas vidas com senso de propósito e missão. Precisamos de motivos e quereres para viver, precisamos de desafios e objetivos.
Se você pegar uma pessoa e lhe der tudo que ela precisa, ao ponto dela não ter mais porque lutar, ou até tirar-lhe qualquer desafio ou motivo de superação, essa pessoa vai morrer - psicologicamente falando. Pode até se entupir de frivolidades, de prazeres, mas quando o efeito deles passar ela vai se sentir deslocada, novamente.
Quanta sabedoria do China. Um saber simples, sem rebuscamentos filosóficos, um saber prático.
Quanta amorosidade do China em dividir seu ofício com os mais necessitados. Ele não é rico. Seu salão tem duas cadeiras, apenas.
Mas, garanto-lhes, ele é mais rico do que muitos outros donos de salão modernosos.
China é para a humanidade como o que a Acácia Mearnsii (Ou Acácia Negra) é para as águas sujas de lama que matam o Rio Doce.
Deixa eu te explicar melhor.
A cidade de Governador Valadares (MG) teve seu abastecimento de água interrompido, pela poluição do Rio Doce com a lama da Samarco.
A Estação de Tratamento não conseguia tratar a turbidez da água. A água estava turva ao extremo, quase barrenta, como consequência direta do arraste dos dejetos de mineração. Imagine o drama de uma cidade de quase 300.000 habitantes perder sua fonte de água.
Aí, aparece uma solução 100% nacional, para tratar águas com alta turbidez. O tanino da casca da Acácia Negra tem um polímero orgânico catiônico que age como floculante natural. Calma, sei que falei quimiquês.

Deixa eu te explicar: esse polímero atua "colando" partículas em suspensão. Aí elas vão se juntando, se juntando, até ficarem pesadas - como grandes flocos de barro, e caírem para o fundo do tanque, no processo de decantação.
Aí pode-se tirar a água da superfície que está limpinha limpinha, sem nenhuma turbidez. Quase transparente.
E onde entra o China na história da água?
Cada vez que o China foi cortar o cabelo de pessoas necessitadas, doando seus serviço profissionais aos carentes, ele foi o Tanino da Acácia para a humanidade.
Ele deixou o ambiente melhor por onde passou, mais puro e feliz. Decantou injustiças, decantou egoísmos, decantou sentimentos de exclusão e marginalidade sociais.
Quantas das vezes já cruzaram conosco alguns Chinas que catalisaram em nós as mesmas reações, acontecidas no tratamento das águas turvas do Rio Doce, decantando nossa impureza e nos tornando melhores. Mais palatáveis para nós mesmos e os outros.
Às vezes uma represa de lama se rompe e invade o leito de nossa vida, turvando tudo e tirando o sabor, as cores e a esperança de viver.
Nessa horas, só vemos escuridão, não há caminhos, tudo fica turvo. Nossas emoções ficam num estado de turbidez, selecionando apenas os aspectos negativos e pessimistas do viver.
Chamo a isso de turbidez emocional.
Perdemos a autoestima, a autoconsideração e até, nos casos mais graves, a dignidade.
Aí, cruzam o nosso viver pessoas-china, pessoas-tanino-acácia-negra que nos resgatam. Que ajudam a separar o lixo de nossa vida e a processá-lo para que outras áreas possam vicejar.
Podemos ser o tanino da Acácia Negra para o outro. Já parou pra pensar nisso?
Quantas pessoas chegam até nós confusas, desanimadas, esmorecidas. Pessoas com alta turbidez emocional que só precisa de uma ajuda para que elas processem sua dor, luto e perdas de qualquer espécie.
Muitos olham para elas e dizem: estão mortas.
Outros, como os técnicos da SAAE (Serviço Autônomo de Água e Esgoto) de Valadares, veem vida, basta misturar nelas o tanino da acácia que dá pra aproveitar 90% ainda.
Toda vez que acolhermos uma pessoa com amor, solidariedade, empatia, mansidão, justiça e perdão, agimos no seu coração diminuindo a turbidez emocional dela.
E, o melhor, a nossa também.

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