Hoje sai em busca de meus beija-flores do final da tarde. Esperei, esperei e nada. Notei que a sua árvore predileta estava quase sem flores. Cheia de galhos secos e sem folhas. Senti falta deles que me acompanham nos finais de tarde, há uns dois anos.
Aproximei-me mais da plantinha para ver o que ocorria.
Qual seria o motivo de tantos galhos depenados, sem folhas e flores. Descobri.
Para meu alívio, descobri.
Um bicho, um tanto estranho, tornara-se hospedeiro da planta, mais conhecido por Bicho-galho. Aparentemente inofensivo, até já o fotografei nesta mesma planta, noutras ocasiões, notei que ele come todos os rebentos de folhas e flores, devem ser as mais docinhas e macias.
Se você olhar no alto do galho seco desta foto verá um deles.
Mas tem que olhar com vontade. Seu disfarce é perfeito. Ele parece um galho seco. Finge ser um pedaço da própria planta, assim passa despercebido e vai ficando nela, sem sofrer ameaças.
Fiquei com dó de meus beija-flores, que perderam suas florezinhas, e da própria planta que não tinha para quem pedir socorro e acabaria toda pelada de folhas e morreria.
Um a um fui tirando os Bicho-galho; colocando-os noutra parte do jardim, com outros tipos de árvores, mais resistentes à sua fome.
Agora, creio que a arvorezinha se recuperará e os beija-flores voltarão para polinizá-la, todas as tardinhas.
Fiquei matutando se a mesma coisa não acontece conosco. De repente, aqueles sentimentos melhores que tínhamos, aqueles valores legais tais como: bondade, mansidão, solidariedade e compaixão vão indo embora de nosso interior. Tal quais os beija-flores foram embora. É que eles não encontram mais alimento, florezinhas vermelhas para polemizar, nosso coração ficou árido.
Ou os beija-flores amigos que nos visitavam vão deixando de fazê-lo. Sempre estamos tão ácidos, negativos, rancorosos, vingativos que os afastamos de nós.
Tem muito Bicho-galho que pode habitar nosso coração e ali fazer morada por anos a fio, sem causar grandes impactos, quase que numa relação simbiótica, porém altamente perigosa.
Eles são sutis, dissimulados, confundem-se com a gente mesmo.
Mas, não fazem parte de nossa essência.
São sugadores de nossa energia vital. São tóxicos.
Carregamos-lhes, pois não nos incomodam, vão ficando dentro da gente.
Até que, de flor e folha; de flor e folha; de flor e folha que as comem, secam nosso coração.
Sugam nossa vitalidade, nossa esperança, nossa vontade de recomeçar. Sugam nossa autoestima, nosso ânima interior.
Descobri-los é necessário para o bem viver.
O Bicho-galho que habita em mim pode ser a preguiça. O egoísmo, a inveja, a falta de paciência, o orgulho.
O desamor, a mágoa encrustada, a fofoca e mentira.
Pode ser a falta de perdão, de gentileza.
Pode ser a falta de gratidão, de humildade, de empatia.
Noutros casos, pode ser a falta de ternura, de afeto, de amizade.
Pode ser até o descuido com a saúde.
Estes acima no campo dos valores.
No campo das pessoas, podem ser os encostos que vamos arranjando vida afora e que só nos fazem mal, embora em pequenas pitadas – não suficientes para serem expulsos de nosso viver.
Pessoas más, ciumentas, invejosas ou agressivas, ou de tudo isso um pouco.
Pessoas que conosco habitam e que vão, lentamente, nos transformando naquilo que elas são.
Pela convivência.
Vão roubando nossas folhas e flores interiores, afastando de nosso viver tudo que o torna aprazível e atraente.
Descobrir os Bicho-galho interiores e exteriores que portamos não é tarefa fácil.
Nem sempre temos um jardineiro de plantão, com olhos atentos, para descobri-lo disfarçado de nós mesmos, e habitando em nós mesmos.
Por isso é tão importante pararmos, vez por outra, e fazemos nosso ato de contrição em busca do autoconhecimento. E mudar.
Levarmo-nos para passear e meditar sobre nossa vida, o que está nos incomodando, o que fomos deixando pra trás e que nos fazia bem. E renascer.
De nosso ser sempre flui a boa seiva interior.
Ela nos conduz e faz brotar a vida.
Tal qual aquele galho seco, após ter sido depenado pelo Bicho-pau, dele brotará novas folhinhas e flores, assim é nosso existir.
É só deixar a seiva interior fluir, somos portadores do amor.
E o amor cura, resgata, acredita, rejuvenesce e supera.
Descobrir o que foi destruído de nosso ser, e em que fomos nos transformando ao conviver em ambientes insalubres é uma tarefa diária.
Tudo ao nosso redor convida-nos à violência, ao egoísmo, à falta de paz e tolerância.
É preciso ficar atento. Pedir ajuda. Têm muitos “jardineiros-amigos” que poderão nos dá um toque, um conselho, uma palavra de sabedoria, um puxão de orelhas.
Eles conseguem ver o que nem nós estamos vendo.
Perceber o que para nós passa despercebido.
Um Jardineiro que recorro sempre é o Senhor Jesus. Ao colocar-me na sua presença, quando deito a cabeça pra dormir, vejo o quanto de Bicho-galho deixei habitar em mim e me fez menos gente, ou que eu mesmo fui e pelo perdão.
Amanhã recomeçarei o dia sabendo que a luta não está ganha. Outros virão, interiores ou exteriores, e a saga continuará. A velha saga do bem contra o mal.
Ao limpar meu coração, ao depurar tudo que pode me tornar mais bicho e menos pessoa, liberto meu ser para uma maior compreensão do outro, nas suas necessidades e idiossincrasias.
Fico pensando nas vezes que posso ter sido Bicho-galho para alguém.
E a matado um pouquinho, mesmo de forma dissimulada, sem muito alarde.
Não deve ter sido poucas vezes.
De agora em diante, lembrarei-me de meus beija-flores; de sua arvorezinha pelada de folhas e flores; e de seu hospedeiro sútil.
Ficarei mais atento aos meus bons valores em erosão, procurarei por eles na seiva vital que flui de meu ser e os renovarei.
Mais atento à como pessoas-gafanhotos podem estar moldando meus comportamentos, e eu me transformando nelas. Procurarei manter meu prumo interior, sem copiar seu jeito de ser, ou assimilar posturas desumanas. Não as deixarei mobilizar tantas energias interiores em meu ser.
E, para comigo mesmo, procurarei ficar mais atento ao impacto que causo nos outros, se estou sendo vida ou morte para eles.
Se estou sendo Bicho-galho, que suga sua esperança e alegria.
Ou se estou sendo beija-flor que se alegra com eles e leva deles o que possuem de melhor, criando uma corrente do bem – a tribo do amor, harmonizando e energizando ambientes.
Quero ser vida e não morte, para mim mesmo e para os que me rodeiam.
Jardineiros-amigos de plantão, ajudem-me por favor!
Velejando Sonhos
Na última segunda-feira, aproveitei uma manhã chuvosa no hotel e antecipamos o check-in para ir conhecer esta praia. Peguei a balsa na praia de Maria Farinha (PE), em direção à cidadezinha de Nova Cruz, que por si só já é uma aventura. Encosta-se o carro na área de atracação, pisca-se o farol, e eles vêm nos buscarem, por R$ 13,00.
Pegamos a BR 101 e quase chegando à Goiânia-PE, sentido João Pessoa, entramos à direita.
Seguimos por mais 30 km e descortina-se o paraíso.
Uma praia linda, coqueirais, mansinha, barquinhos coloridos atracados, e de águas mornas.
A praia fica na cidadezinha de Carne de Vaca, uns 2.000 habitantes, quase todos vivendo da pesca. Descobri que o nome Carne de Vaca foi de um navio do “estrangeiro” que ali naufragou, há 150 anos, e o nome os nativos não sabiam pronunciar, algo como “Carnnievakal”.
Gostei de tudo que fui vendo ao chegar. O Salão de beleza: Deus é Fiel. Adorei o nome, para mulheres tementes a Deus e com medo do estrago que possam fazem em seus cabelos o nome acalma.
Seguindo a diante, cruzei com uma simpática placa com a expressão: Abatedouro de Aves, Atendimento ao Cliente. Gostei, pra quem nunca matou uma galinha, como este que vos escreve, em minutos teria uma galinha pronta para à cabidela na panela.
Parei par atirar foto da simpática igrejinha de Santana. Depois estacionei nos fundos de um barzinho e admirei a parede da casa vizinha, toda revestida de conchinhas.
Até então, só tinha visto o mar lá do alto do morro, que antecede à cidadezinha praiana. Num local onde parei para fotográ-lo, de tão belo que era.
Caminhei em direção às mesas frente à praia e fiquei estupefato. Barquinhos ancorados, redes de pesca, pescadores jogando dominó, outros tomando uma cerveja.
Um local no qual a paz escolheu pra tirar férias.
Resolvi circular e conversar com os moradores que ali estavam almoçando. Parei na mesa de dominó e ali conheci o Leno.
Leno é uma daquelas pessoas que você só encontra nos livros de Jorge Amado. Do alto dos seus 61 anos, organiza periodicamente as corridas de Caícos. Caícos é um tipo de jangada à vela.
Todo orgulhoso me falou que das 50 que já houve ele ganhou 12.
Falou-me que a turma queria impedir os concorrentes de Cabedelo-PB participarem. Os barcos deles estavam ganhando as últimas corridas. O de nome Tentação já tinha faturado três corridas, outros dali chegavam em segundo e terceiro. Eles eram mais modernos e melhor construídos. Além de contarem com navegadores experientes nos esportes à vela. Diferente dos pescadores que a vela para eles era o que possibilitava o barco ir e vir, nunca um esporte. Ele disse-me que bateu o pé discordando. Disse a os outros citadinos: “Qual a graça do futebol do Brasil sem a Argentina?” No seu jeito risonho e manso de ser, uma profunda sabedoria!
As corridas subiram a autoestima local que agora objetivava ganhar dos paraibanos que vinham competir com eles.
Ele me contava e seus olhos brilhavam. Ele me disse que falou aos outros jangadeiros: “Aprenderemos com eles, e um dia os venceremos!”
É que os paraibanos vinham de uma série de corridas vencidas.
Pronto, pegou fogo. Todo mundo passou a torcer por todo mundo, desde que fosse um jangadeiro de Carne de Vaca, e não é que a corrida de 2012 ele ganhou, o próprio Leno. Ele, todo orgulhoso, presenteou-me com um DVD que registra o feito.
Na sua simplicidade, aprendeu uma máxima da gestão que é o observar dos movimentos do mercado e concorrência e se antecipar, ou se aproveitar deles. O macroambiente tem muita energia circulante que nos impulsiona e motiva a inovar e melhorar a competitividade, para continuar bem posicionado junto aos nossos consumidores, e até cidadãos, no caso da gestão pública.
Leno aprendeu o tipo de vela mais apropriado ao tipo de vento. Aprendeu a construir Caícos mais ágeis e formosos. Aprimorou seu aprendizado das artes da navegação à vela, olhando como os paraibanos faziam. E inovou, para aquela comunidade de pescadores-jangadeiros, ao ensinar-lhes a fazer o contra-peso com seus próprios corpos, durante a navegação, no lugar de ficarem apenas jogando água nas velas, para aumentar a tensão sobre as mesmas. Era essa a tecnologia que os paraibanos usavam e que sucessivamente os venciam. Leno galgou dialeticamente sua condição social, de jangadeiro para exímio velejador, mesmo que em jangadas. Compreende?
Contou-me que fez de tudo ali, e que sua mãe ainda é viva com seus 90 anos.
A luta pela sobrevivência o fez trabalhar desde os 12 anos. Na lavoura, construção civil, pesca, no comércio. Mas, o que sempre fazia era navegar com seus barcos que toscamente o construía, desde pequeno.
Todo orgulhoso, até ser convidado para ser o administrador do vilarejo já houvera sido, por dois mandatos.
Falava com orgulho de sua terra, de sua história e de seus valores. Dizia, com justa razão, que as crianças agora só querem brincar de videogame e que estão perdendo o “jeito” de brincar com as coisas da natureza.
À exceção eram uns poucos filhos de pescadores que brincavam com minibarcos de velas, “treinando” para um dia pilotarem seus Caícos, ali mesmo na praia.
Olhei mais fixamente para a praia, no sentido onde brincavam, e fiquei paralisado com o que vi, tamanha boniteza. A cena era pungente. Pedi-lhe licença e corri em direção ao local no qual uns cinco jovens “disputavam” com seus minibarcos de vela. A alegria deles em ver seu esporte documentado era tamanha. Improvisaram para mim uma corrida de barquinhos, acompanhados por eles ao lado.
Senti a presença de Deus ali naqueles meninos e sua alegria tão humilde.
Voltei para o barzinho, recebi o DVD do Leno, o presenteei com um CD alternativo de Forró que comprei de um compositor de Olinda, coisa boa.
Trocamos um aperto de mão e a certeza de que um dia nos reencontraremos, quem sabe numa corrida de Caícos.
Como seria bom se em cada pequena comunidade tivéssemos um Leno e plantão. Um incentivador e divulgador dos folguedos, esportes e cultura local.
Não tem coisa que mais uma um povo, e ajude na composição e seu tecido social e autoestima do que os valores culturais.
Imagino o frisson naquela cidadezinha dias antes da corrida. O capricho no polir, pintar e preparar as pequenas embarcações para a prova. Os treinamentos das equipes e o corre-corre para ultimar preparativos. Fecho os olhos e imagino-lhes falando dos competidores paraibanos, temendo-lhes, porém sem lhes curvar a cabeça e a motivação de vencê-los.
Depois da corrida, vejo as premiações, os comentários dos mais experientes, as celebrações e o quanto de material simbólico e cultural ficam sendo processados; criando identidades.
Ao serem contadas e narradas, as histórias das equipes competidoras, viravam lenda, trajetórias locais, despertando o sentido de comunidade e tecendo uma rede social e cultural em torno dos feitos. Inclusive com seus heróis, mitos ( o barco Tentação e o ), ícones, dignos de qualquer estudo antropológico.
Leno, com a sua prosaica corrida de barquinhos à vela, deu um propósito àquele povo para se orgulhar, e um por que viver.
Sua liderança, mobilização e esperança em tempos melhores, materializados no aprendizado e treinamento de novas técnicas, para derrotar os paraibanos de Cabedelo-PB na próxima corrida, são estimulantes. Até na coleta das premiações, de liquidificadores à TVs o Leno é uma figura. Sai de porta em porta, buscando patrocínios, públicos ou privados, e até de turistas que ele cativou e que do Brasil e exterior mandam contribuições para as premiações. Vou doar um prêmio para a próxima. Quero de alguma forma fazer parte disso.
Obrigado Leno por deixar os paraibanos concorrerem na sua corrida, não a enclausurando numa redoma corporativista cultural.
Você ensinou-me muito. Um dia estarei na torcida pelo seu barco e sua equipe.
Para arrematar, ele falou da importância do trabalho em equipe, dos três a cinco que vão no Caíco. “Um olha o vento, outro a vela, outro apruma o leme em direção às marcações, outros se movem pelo barco contrabalançando-o com seu peso...” tudo em sintonia e sinergia, como nem sempre existe em equipes de trabalho por aí afora.
Valeu Leno, você encontrou a sua maneira de fazer a diferença, de criar uma obra, de ser o melhor para a humanidade e não o melhor da humanidade.
Faça sua parte na transformação que espera.
| Turista em João Pessoa-PB, fazendo sua parte, já que os garis não recolhem todo o lixo que rastelam. |
| Garis da Barra de Cunhaú-RN, um exemplo de profissionalismo. |
Ontem vi este turista catando lixo da praia do Bessa I,
aqui em João Pessoa. Ele faz a diferença. Cata todas as
manhãs o lixo na praia.
Ele caminha uns 4 Km, do hotel onde hospedado até o Iate,
local onde tomo meu banho. Conversei com ele.
Ele me disse que sempre sai do hotel com 4 sacos
plásticos, dois pra ida, e dois pra vinda. E que os
enche por inteiro, depois os deposita em lixeiras na rua.
Perguntei se ele não achava que isso não teria fim.
Ou seja, de que adiantaria aquelas pequenas sacolas
de lixo?
Ele, serenamente, disse-me que faz sua parte para
melhorar o planeta. Fiquei envergonhado com meu
questionamento. Ele tem uma atitude digna. Diferente
da dos garis de praia que hoje testemunhei, aqui de
frente ao bar do Golfinho na praia do Bessa, perto
do Iate de João Pessoa-PB.
O que vi me deixou revoltado.
Um dos garis ia à frente, rastelando o lixo com
um rastelo. Fazia pequenos montinhos. Os demais
iam atrás, catando os montes e colocando-os em sacos.
Era um grupo de 5 garis. Até aqui tudo bem.
Atitude bacana da prefeitura.
Porém, vi que havia o mal da humanidade:
esperteza e falta de caráter se fazia tambpem presente.
É que ao encherem uns 5 sacos, simplesmente deram
no pé. À minha volta ficaram vários montinhos
de lixo. Os vi subirem em direção ao caminhão,
na rua lateral ao Golfinho Bar, e não acreditei que
não voltariam.
E não voltaram mesmoi para recolher os montinhos.
Isto é, voltaram, mas caminharam bem por cima
da praia, fingindo que terminaram o trabalho.
O que ia à frente, encontrou-se com eles mais adiante,
e foram embora, deixando uns 30 montinhos de lixo,
pelo menos.
Montinhos que serão tragados pelo mar e que meu
amigo-cidadão-turista os recolherá amanhã, ao serem
devolvidos pelas ondas às areias brancas.
Uma vergonha.
Fiquei indignado, mas não tive coragem de chamá-los à responsabilidade.
Faltou-me o que sobra neste senhor, atitude.
Sempre será ela quem fará a diferença,
entre agir e o não agir,
o ser e o não ser.
Decidi denuciá-los.
Hoje vou enviar pra prefeitura este relato.
Este trabalhio pode ser feito de forma diferente.
Vi outros garis de praia em Barra de Cunhaú-RN
(foto acima) fazendo um trabalho magnífico,
com gosto e prazer. Eles compreenderam a importância
do que faziam. Fui também conversar com eles.
Falaram-me que a ação deles foi uma promessa da
prefeita de lá, e eles estavam desempregados.
E que trabalhavam com gosto. Passei quatro dias
por lá, em todos vi aquelas equipes trabalhando.
Exemplo para as prefeituras de lugares turísticos.
Turistas conscientes, serviços públicos de limpeza eficazes,
e operadores turísticos e pessoal da própria cidade
também fazendo sua parte, teremos então uma corrente do
bem, para salvar o planeta de tanto lixo.
Nosso bisnetos agradecerão.
Cavalos Alados
Ontem vivemos uma cena difernete. Um parque de diversões, instalado perto do shopinhg Manaíra, em João Pessoa, não sabia se abriria ou não, por falta de clientes. Esperamos das 17:45 às 19:00. Finalmente ele abriu. Havia juntado um punhado de uns 30 pirralhos, jovens casais de namorados e pais babões. Todos entraram no recinto como quem entra no paraíso. Luzes, brinquedos ligados, música, cheiro de pipoca, mocinha do algodão doce. E vazio, um vazio que adquiria vida ao toque de cada um de nós. Uma cena de filme. Não pude me conter e marejar os olhos, ao ver a alegria do pessoal, incluindo o meu JG. Eram coisa fantástica ter à disposição mais de 20 opções de brinquedos, incluindo uma montanha-russa, e sem filas. Pagaram vinte reais na entrada e tiveram direito a brincarem em todos os brinquedos, quantas vezes quisessem. As mães de pequerruchos podiam brincar com eles sem pagar nada...
Deveria existir uma vale-brincar para todos os brasileiros. Todos deveriam ter o direito de ao menos uma vez ao ano irem a um parquinho de diversões. Daqueles de cavalinho de carrrossel, de roda-gigante, de carrinho bate-bate.
Todos deveriam ter direito ao lazer.
Ao tempo que me alegrava com o JG embevecido, com tantas opções, entristecia-me com tantos brinquedos vazios, sem ninguém para animá-los. De que vale um brinquedo sem uma criança a tocá-lo. A criança dá vida ao brinquedo, sopra-lhe seu hálito de eros, e o anima.
Crianças dão vida ao inerte, ao sonho, à pedra dura de ser quem é.
Crianças brincam até com tampas vazias. Não precisam de sofisticação, de brinquedos caros. Só precisam de espaço para serem elas próprias e fantasiarem sua existência.
Este cavalo alado, correndo sozinho, esperava por muitos de nós.
Quanto de nós, com uma simples rodada de carrossel, daquelas que seguimos de pé ao lado dos pequenos, já se sentiria melhor naquela noite.
Rodem Cavalos de Carrossel! Mostrem-nos que a vida gira. Que tempos ruins passam. Tempos bons, idem. Que a doença passa. Que a saúde, idem. Que a tristeza passa. Que a alegria, idem.
Que a vida é breve, e que viver é terapêutico. Mesmo na dor. Para quem sofre.
Mostem-nos que a vida é uma roda-viva, como diz o poeta, mas que ao nos permitir nela rodar, não voltamos para o mesmo lugar. Só os cavalinhos de carrossel. Nós, seres eternos que somos, ao rodarmos nosso existir nos apropriamos de vivências, experiências, valores, história, amigos, que nos fortalecerão para encarar novos desafios e enfrentar outras batalhas.
Nossa roda-viva pode ir nos amadurecendo, nos tornando melhores como pessoas.
Também pode nos azedar por dentro, nos embrutecer, violentar nossa personalidade e mudar a percepção do que nos rodeia, só vendo as coisas ruins.
Nestas horas de azedume, alegrar-se com os outros pode ajudar a voltar a fluidificar o fluxo da vida em nosso ser. É só uma dica de quem já as viveu.
Por isso, brincar é bom. Brincar nos remete à criança adomercida que temos no coração e nois faz novamente acreditar.
Nem que sejam em fantasias como o pote ao final do arco-íris, ou o Cavalo de São Jorge que mora na lua.
Um jardim de fantasias, bem nutrido em nosso ser, e na justa medida da realidade, alimentará nosso cavalinho de carrosel interior. E nos habilitará a ser melhores, e bravos combatentes do bom combate que é o viver.
Cuide de seu cavalinho de carrosel interior. Alimente-o, vez por outra.
Ele é uma das melhores coisas que habita em ti, tirando o Espírito Santo.
Deixo-vos com uma canção e seiu vídeo no youtube belíssima, que fala de um carrossel a que todos, mas cedo ou mais tarde, vamos nele rodar, o do destino.
-----------------------------------
http://www.youtube.com/watch?v=lOdnFlr-BPk
-----------------------------------
Carrossel do Destino
Antonio Nóbrega
Deixo os versos que escrevi,
As cantigas que cantei,
Cinco ou seis coisas que eu sei
E um milhão que eu esqueci.
Deixo este mundo daqui,
Selva com lei de cassino;
Vou renascer num menino,
Num país além do mar...
Licença, que eu vou rodar
No carrossel do destino.
Enquanto eu puder viver
Tudo o que o coração sente,
O tempo estará presente
Passando sem resistir.
Na hora que eu for partir
Para as nuvens do divino,
Que a viola seja o sino
Tocando pra me guiar...
Licença,que eu vou rodar
No carrossel do destino.
Romances e epopéias
Me pedindo pra brotar
E eu tangendo devagar
A boiada das idéias.
Sempre em busca das colméias
Onde brota o mel mais fino,
E um só verso, pequenino,
Mas que mereça ficar...
Licença,que eu vou rodar
No carrossel do destino.
Deveria existir uma vale-brincar para todos os brasileiros. Todos deveriam ter o direito de ao menos uma vez ao ano irem a um parquinho de diversões. Daqueles de cavalinho de carrrossel, de roda-gigante, de carrinho bate-bate.
Todos deveriam ter direito ao lazer.
Ao tempo que me alegrava com o JG embevecido, com tantas opções, entristecia-me com tantos brinquedos vazios, sem ninguém para animá-los. De que vale um brinquedo sem uma criança a tocá-lo. A criança dá vida ao brinquedo, sopra-lhe seu hálito de eros, e o anima.
Crianças dão vida ao inerte, ao sonho, à pedra dura de ser quem é.
Crianças brincam até com tampas vazias. Não precisam de sofisticação, de brinquedos caros. Só precisam de espaço para serem elas próprias e fantasiarem sua existência.
Este cavalo alado, correndo sozinho, esperava por muitos de nós.
Quanto de nós, com uma simples rodada de carrossel, daquelas que seguimos de pé ao lado dos pequenos, já se sentiria melhor naquela noite.
Rodem Cavalos de Carrossel! Mostrem-nos que a vida gira. Que tempos ruins passam. Tempos bons, idem. Que a doença passa. Que a saúde, idem. Que a tristeza passa. Que a alegria, idem.
Que a vida é breve, e que viver é terapêutico. Mesmo na dor. Para quem sofre.
Mostem-nos que a vida é uma roda-viva, como diz o poeta, mas que ao nos permitir nela rodar, não voltamos para o mesmo lugar. Só os cavalinhos de carrossel. Nós, seres eternos que somos, ao rodarmos nosso existir nos apropriamos de vivências, experiências, valores, história, amigos, que nos fortalecerão para encarar novos desafios e enfrentar outras batalhas.
Nossa roda-viva pode ir nos amadurecendo, nos tornando melhores como pessoas.
Também pode nos azedar por dentro, nos embrutecer, violentar nossa personalidade e mudar a percepção do que nos rodeia, só vendo as coisas ruins.
Nestas horas de azedume, alegrar-se com os outros pode ajudar a voltar a fluidificar o fluxo da vida em nosso ser. É só uma dica de quem já as viveu.
Por isso, brincar é bom. Brincar nos remete à criança adomercida que temos no coração e nois faz novamente acreditar.
Nem que sejam em fantasias como o pote ao final do arco-íris, ou o Cavalo de São Jorge que mora na lua.
Um jardim de fantasias, bem nutrido em nosso ser, e na justa medida da realidade, alimentará nosso cavalinho de carrosel interior. E nos habilitará a ser melhores, e bravos combatentes do bom combate que é o viver.
Cuide de seu cavalinho de carrosel interior. Alimente-o, vez por outra.
Ele é uma das melhores coisas que habita em ti, tirando o Espírito Santo.
Deixo-vos com uma canção e seiu vídeo no youtube belíssima, que fala de um carrossel a que todos, mas cedo ou mais tarde, vamos nele rodar, o do destino.
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http://www.youtube.com/watch?v=lOdnFlr-BPk
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Carrossel do Destino
Antonio Nóbrega
Deixo os versos que escrevi,
As cantigas que cantei,
Cinco ou seis coisas que eu sei
E um milhão que eu esqueci.
Deixo este mundo daqui,
Selva com lei de cassino;
Vou renascer num menino,
Num país além do mar...
Licença, que eu vou rodar
No carrossel do destino.
Enquanto eu puder viver
Tudo o que o coração sente,
O tempo estará presente
Passando sem resistir.
Na hora que eu for partir
Para as nuvens do divino,
Que a viola seja o sino
Tocando pra me guiar...
Licença,que eu vou rodar
No carrossel do destino.
Romances e epopéias
Me pedindo pra brotar
E eu tangendo devagar
A boiada das idéias.
Sempre em busca das colméias
Onde brota o mel mais fino,
E um só verso, pequenino,
Mas que mereça ficar...
Licença,que eu vou rodar
No carrossel do destino.
Toda forma de preconceito é insana!

Hoje no trabalho fui chamado a intervir num caso de preconceito racial, em pleno Séx. XXI.
Um colega cismou com o tom da pele do outro, com seu sotaque, com as suas feições e cabelo, e com seus traços ameríndios. Uma pena! Este colega, ao zoar por meses a fio com o outro, ainda encontrava platéia e eco em dois outros colegas que riam de suas ofensas, piadas, chistes e "brincadeiras". Por meses ele sentiu-se humilhado, chateado, mas não podia reagir, tinha medo. No limite de enlouquecer, e perder sua auto-estima totalmente, procurou ajuda. Pediu humildemente que o trocassem de setor. Não queria mal algum ao seu tirano. Mostrou uma dignidade, uma altivez, uma simplicidade de encarar os fatos, de encher os olhos.
Além de ser crime, o preconceito racial, ou de etnia, também - neste caso, configura-se assédio moral, do tipo Lateral. Toda forma de preoconceito é insana.
Revela mediocridade de quem a emite. Revela uma forma de ódio, de uma crueldade sem limites. Revela uma pequenez na alma, algo que precisa ser veementemente combatido.
Seja para quem for: índios, negros, mulheres, gays, nordestinos, judeus, etc.
Não existe raça pura. Não existe crença pura. Não existe sotaque puro. Não existe nada puro.
Puro só Deus. E, mesmo assim, mandou Jesus para os impuros.
Fiquei tão comovido com o relato que tive um pique de pressão. Relato grotesco, tosco, sem noção!
Leia mais sobre assédio moral lateral aqui:
Clique aqui - Assédio Moral Lateral
"Nossa herança maior, será o conjunto de atitudes que tivemos aqui."
![]() |
| Luiz Tadeu, falecido dia 11.02.2013, infarto fulminante. |
O inusitado, o imprevisto, o acúmulo de fatais coincidências, o brutal, o inverossímil, o choque, definem uma tragédia.
Uma avó caminhava lentamente com seu neto indo à Igreja, um caminhão desgovernado sobe a calçada e os esmaga.
Um casal amoroso passeia à beira mar, eis que começa uma chuva, cai um raio e os fulmina.
Jovens dançam numa boate, numa boate que em todos finais de semana estes mesmo jovens dançavam, há três anos.
Nesta noite, algo dá errado. Uma sucessão de erros acontecem. Arte pirotécnica insana, para este tipo de lugar, dá sequência a uma série de ocorrências infelizes.
Saldo, 200 e poucos mortos.
De um deles, tocava um celular insistentemente. Segundo autoridades policiais, até ser desligado, havia 104 chamadas não atendidas. No visor a expressão: "Mãe".
Uma mãe que o amava muito, e que não se cansou em chamá-lo madrugada a dentro.
Quanta dor nesta espera por um "alô"!
A morte tem seus dias de azedume.
Dias que mata por bobagem: um raio na cabeça de um casal de namorados, uma carreta sem freio, uma fumaça mortal...
A morte tem seus dias de depressão.
Dias de desamor e dia de amor. Sim, dias de amor!
Há mortes amorosas. No regaço da família, esperadas, pressentidas, adivinhadas.
Quase pedidas.
Mortes que nos dão tempo de nos preparar minimamente para a despedida cruel.
Nos dão tempo de tecer as últimas emoções, refazer laços, redescobrir pequenos prazeres, com aquele, que achamos que vai morrer, ou conosco mesmo, vai que sejamos os escolhidos.
Mas, tem as mortes azedas. Trágicas. Sem previsão.
Que desespero aquela mãe sentiu sem ver completada sua ligação!
Que gesto de perseverança ao tentar por 104 vezes, até que alguém deve-lhe ter dito do veredito de seu filho.
104 chamadas não atendidas.
Como seria bom se para cada ser vivente, houvesse alguém que se preocupasse com ele a ponto de procurá-lo por 104 vezes, sem cansar!
Tenho dormido mal com o trágico acidente de Santa Maria-RS.
Eu e um bocado de gente em todo o Brasil.
Sofri por aqueles que se foram tão jovens e seus amigos e familiares.
Solidarizei-me com Cléber Pereira, da Gecap 4, que perdeu sua filha naquela boate, a Sabrina Soares. Quanto dor!
Deveria ser decretado a morte de todas as mortes insanas.
- Um navio que se aproxima muito da costa e tomba.
- Uma bala perdida.
- Um avião que numa estatística de probabilidades ínfimas, consegue chocar-se - na imensidão do céu azul, com um outro que vinha em sua direção.
- Uma criança que ao brincar, na casa de amigos, afoga-se na piscina... sem que ninguém se dê conta e possa salvá-la.
- Um infarto fulminante.
Mortes sem nexo. Sem direito a um adeus.
Nas quais tudo fica em suspenso.
Uma briga não resolvida, um beijo esquecido, um telefonema malcriado, um perdão adiado para depois, ou esquecido nas gavetas de nosso coração.
Tudo fica nas 104 chamadas não atendidas.
Tudo fica naquela despedida do netinho, ao sair de casa, dizendo aos seus pais que ia para igreja com sua vovó.
Tudo fica naquele casal de namorados que rindo, disseram aos amigos que iriam caminhar pela praia.
Tudo fica numa espécie de estado de vir-a-ser.
Por isso são tão brutais.
Tão incompreensíveis e de difícil processamento.
O que nos separa deste raio, deste caminhão desgovernado, desta fumaça tóxica?
O que nos separa daqueles pais, de noticiário recente, que esqueceram os filhotes no carro e estes vieram a falecer. Falecendo com eles, passando a serem vivos-mortos?
Tragédias, o que nos separa delas?
Nada.
Zere suas faturas com a vida sempre que puder.
Deixe a todos que gosta com saudações positivas.
Perdoe.
Ame sem pudor.
Carpe-diem sempre.
Faça a diferença, para o bem, por onde passar.
Faça como o jovem Luiz Tadeu, o da fot dessa crônica, que do alto de seus 58 anos continuava sendo um aprendiz da vida. Luiz no feriado de carnaval foi visitar sua família no RJ e ali, no seio dos amados, teve um infarto fulminante e morreu, ontem dia 11.02.2013.
Luiz morreu sem dívidas para com o amor. Era o próprio amor em pessoa. Veja como ele se descrevia:
"Acredito na importância dos valores morais, tais
como, amor ao próximo e tolerância. Sou muito calmo, e paciente... Adoro rir. Adoro meu trabalho e minha família. Desde 1997, dou aula de
informática para crianças e adolescentes de uma comunidade carente em Niterói
(RJ)."
Um exemplo.
Dia 8, três dias antes de falecer, ele deixou esta mensagem para mim, quando reclamava de atitudes nada-humana que testemunhara:
"Ricardo, administrar pessoas é antes de tudo administrar vaidades, por mais que tentamos não nos chocarmos com este tipo de atitude, sempre nos chocamos. É isso!
Nossa herança maior, será o conjunto de atitudes que tivemos aqui."
Assim o amigo Rodrigo Bueller o definiu hoje, dia 12.02.2013, veja se não é a descrição de alguém, vítima de uma tragíca morte, daquelas azedas, que não aviusam, não pedem licença, mas que para este não o pegou desprevenido. Sua foice o ceifou em paz!
"Um cara alegre, de bem com a vida, jovem apesar da idade, conselheiro, estudioso e camarada...O Tadeu era tbm um exemplo de carioca, até pq era apaixonado pelo Rio, era o boa praça, conversava com todo mundo, tinha um comentário otimista e um jeito leve de viver...Como alguns já disseram ele era o mais jovem de todos nós!!! Tadeu era gentil, experiente, mas não arrogante...Era o exemplo em pessoa...Profissional experiente vivendo ali conosco, sem querer ser mais do que ninguém, simples, humilde...Tadeu marcou!!! Sensacional quando brincavam com o Rio e ele dizia: "Esse queria ser carioca hein", ou quando falava comigo na sala me chamando "ô carioca"...Tadeu, você foi um exemplo pra mim e espero que cada um possa também levar seu exemplo!!! A prova de que antes de qualquer coisa devemos nos comprometer...com o trabalho, com a família e com a VIDA! Menos estresse e mais vida, menos reclamação e mais trabalho e humildade. Foi muito bonito ver o jeito carinhoso que vc falava de sua esposa...Fica com Deus amigo! Estou verdadeiramente triste, mas ainda contaminado pelo seu jeito jovem e sei que vc não ficaria triste com o que eu vou dizer...Você ficou um tempão em Brasília e veio passar seus últimos momentos no Rio, pra terminar a vida ao lado da família, sorrindo, amando, vivendo, vendo o Rio que vc tanto amava...Vc realmente é o Carioca, não poderia ter escolhido outro lugar, né!? Vai com Deus amigo! Vai com Deus! Foi mto bom conviver com vc! Continuaremos nessa jornada, com vc na memória."
Portanto, seja como Luiz, e tantos outros. Não faça dívidas afetivas com a vida e esteja sempre pronto a partir. De malas prontas apra a eternidade.
Seja bom, gentil, ético, justo e grato.
Você e ninguém saberá quando será a próxima fatalidade, se você ou eu seremos suas vítimas, e de que forma, a astuta morte e a sua foice amolada, irão aprontar novamente.
Assim sendo, fecho numa súplica ao Deus de todos os credos, e até ao Deus dos incredúlos, que Você um dia atenda à chamada 105, de nossa mãe, filhos, esposa, familiares, amigos ou a minha própria e nos conforte, e nos ampare, nem que seja no envio de anjos-amigos-da-guarda, para que nos sustentem e nos levantem da protação e dor dos enlutados.
Umbuzeiros e Algaroba Sapiens
Umbuzeiros quando somos frutos, alimento e sustento para os que precisam de nosso existir.
Algarobas quando somos sombra, descanso e ração salvadora da criação.
Radio Velho
Passando uns dias em Londrina, pós virada de ano, decidi procurar na rua Duque de Caxias, famosa por seus móveis usados, um rádio velho. Não só achei o rádio, um GE lindo, como uma enceradeira Arno. Arrematei os dois logo de cara. O rádio a vendedora disse que funcionava. Sintonizou em algo que eu acreditei ter ouvido e fechei negócio.
Quanto à enceradeira, não testei lá e aqui não tive coragem ainda.
Chegando à Brasília, comecei a minha saga para tirar algum som daquele mamute histórico. Juntou-se à missão o meu pai, filho e o namorado da filha.
Tentamos de todo jeito, e nada, só som de estática, uma chiadeira danada.
Até improvisar um fio amarrado numa grelha de espeto, para "aumentar a amplitude da antena", fizemos e nada.
Abrimos um vinho, e entre um gole e outro, aumentava nossa esperança de fazê-lo funcionar. Era o efeito do álcool.
A esposa, rindo baixinho, torcia contra.
Dizia sorrindo que por ela qualquer dia jogaria fora todas as peças de museu que compro - o que a corrijo: "antiquário", e ela emenda: "tudo lixo".
Olhei aquele rádio e fiquei feliz. Feliz por ele chiar. Pelo menos a energia estava circulando e chegando a seus alto-falantes, mesmo que sem pronunciar um bê-á-bá sequer.
Só ouvir aquele som de estática me confortava, ele estava vivo.
Seguimos noite adentro tentando, tentado e nada.
Às vezes, chegávamos perto e parecia que ouvíamos uma voz ou música.
Ou já seria o efeito do vinho?
Cansados, deixamos o projeto momentaneamente de lado. E fomos ouvir uns vinis antiqüíssimos que trouxera, numa das peças de meu museu pessoal – o proscrito, uma radiola.
No outro dia, o rádio era o comentário geral no almoço domingueiro e familiar, mamãe e irmã, associaram-se à minha esposa.
A turma do "é tudo lixo".
Eles estavam noutra sintonia, diferente da minha. O que para mim era valor, para elas era tralha.
Fiquei estranhamente feliz.
Percebi que somos assim mesmo em nossos relacionamentos. Uns valorizam algo que outros odeiam ou desprezam, ou nem percebem.
Somos assim, seres diferentes, plenos por diferentes, e completos só no outro.
Feliz em saber que ali, naquele rádio, estava cada um de nós que perde as estações de seu viver, mas continua vivo.
Fiz um voto em consertá-lo, e não me cansarei em fazê-lo a voltar a sintonizar.
Falando em sintonia, ou falta de sintonia, durante a estada de final de ano em Londrina duas cenas chamaram-me a atenção, ambas lembram meu rádio velho.
Na primeira, um guarda de interior de estabelecimento comercial chamado HAVAN , me abordou com rudeza, alertando-me que era proibido fotografar dentro da loja.
Eu fotografava meu filho, que sorria ao ser carregado pela mãe no carrinho de compras.
Achei a cena de uma beleza pujante.
Nunca me passou pela cabeça fotografar preços ou itens das gôndolas para mostrá-los aos concorrentes.
Aliás, coisa besta esta de proibir fotografias em lojas comerciais. Qualquer celular fotografa, e como evitar?
Na verdade, o guardinha na captou a minha sintonia, que era de sons familiares.
E, apenas cumpriu o conhecido chavão: “ordens são ordens".
Nem aos argumentos que eu fotografava apenas meu filho ele cedeu. Olhar duro, autoridade impoluta, fisicamente ameaçadora. Uma pena que uma loja grande como a HAVAN tenha posturas como essa.
Faltou que ele rodasse o seu "dial" interior e sintonizasse nas ondas que eu emita, e na felicidade que extravasava ao ver o JG tão feliz, sendo carregado pela mãe naquele carrinho manual de feira.
Dial, para os mais novos, era uma espécie de seletor redondo que rodávamos para achar as estações ou os canais de TV. Antes dos controles remotos.
A segunda cena de sintonia foi no estabelecimento Porco no Tacho, que fica num bairro alemão, na periferia de Londrina, chamado Warta-Hental.
Era um domingo véspera de ano-novo. Reuni parte do clã de Londrina no restaurante. Um grupo grande e barulhento. A toda hora eu ia tirar fotos do Julinho, seu proprietário que ficava pilotando as churrasqueiras Apolos e suas costelas no bafo.
Uma festa. Uma foto, um dedo de prosa.
Mas tarde fomos convidados para sentarmos à mesa com o clã dos fundadores do restaurante.
Estavam bisavós, avós, netos, primos. Uma “alemanzada” enorme.
Ao integrar as nossas famílias eles sintonizaram-se na festa que era pra gente o reencontro anual.
Entre um papo e outro elogiamos o molho que acompanhava o porco assado. Um molho agridoce, delicioso. Feito pelo bisavô do clã.
Minha esposa e amiga insistiam para que ele revelasse a receita. E nada.
Passado certo tempo ele as chamou noutra mesa. Lápis e papel na mão passou a descrever os ingredientes e o passo-a-passo da receita, de seu famoso molho.
Nossa mesa – agora unida em dois clãs, ficara com umas 20 pessoas. Todas emudeceram ao notarem a cena na mesa ao lado. A percepção de ver o patriarca da família pacientemente doar a sua receita comoveu e tocou a todos. Pela reação de seus familiares, acho que foi a primeira vez que ele a revelou. Aquele gesto irradiava sons de bondade, generosidade, desprendimento. E todos ficaram sintonizados naquele som que vinha do bisavô, e que só os ouvidos apurados interiores captavam.
As “ondas sonoras que ele emitia” passavam por nós, qual uma lufada de esperança.
Aquela sintonia que captávamos revelava o que a humanidade tem de melhor, a generosidade. Aquele senhor velhinho deu a todos uma lição.
Acho que todos temos um rádio velho no interior de nosso ser.
Um rádio que pode até não estar transmitindo legal, mas é fase.
Acredite.
Às vezes precisaremos de uma melhor antena. Já viu que tem momentos em nossa vida que nossa antena só capta coisas ruins.
Tem até pessoa antena-ruim. Que influencia a recepção de tua própria antena interior.
Aquele que só te leva pra baixo, que suga tua auto-estima.
Tem pessoa programa-ruim Que só emite o que não presta. Que só te faz infeliz.
Gostei tanto deste rádio velho. Ele tem tudo que temos. Antena para captar coisas boas e ruins, depende das escolhas. Alto falantes para propagarmos as coisas que nos fazem bem, nossos valores. Eletricidade para nos manter vivos.
E o famoso seletor de programação (o dial) que nos permite trocar de estação, sempre que infelizes ou insatisfeitos.Podemos nos sintonizar em novas e mais edificantes estações.
Que gerem sons de perdão, de justiça, de ética, de paz.
Podemos usar nossos alto-falantes de nosso rádio interior para transmitir ondas “sonoras” de liberdade, alegria, empatia, solidariedade, caridade e fé.
Já pensou como seria bom quando alguém sintonizasse em nós, e de nosso interior ouvisse sons de luz, paz, coletividade? Captasse atitudes, nossos comportamentos, e agir positivo no mundo.
Teremos uma grande audiência, tenho certeza, pois os tempos são pobres de boas programações oriundas de nossos rádios interiores.
Há muitos programas interiores que só transmitem inveja, culpa, rancor, mágoa, vingança, ódio, desprezo.
Rode seu “dial”. Caia fora.
Nem transmita isso, nem se sintonize nisso.Não te fará bem. Afetará teu crescimento interior.
Vez por outra precisamos parar e perguntar em que freqüência está regulando nosso "dial". Ou captando dos outros.
O guardinha não se sintonizou no momento mágico que uma família vivia ao tirar foto de seu filho. O bisavô alemão captou o desejo de uma família – do tipo cliente-de-fora-anual e foi generoso, dando de sua própria essência.
Correndo riscos. Como dizia minha esposa "o molho é o segredo do sucesso do restaurante".
É nada.
O segredo é fazer todos se sentirem em casa, chamando-lhes para dividir a mesa, o segredo é o ambiente de acolhida, fraternidade, e a atmosfera de clã social que eles conseguem criar.
Vez por outra podemos ficar como meu rádio velho. Vivos. Porém sem influenciar ninguém ao nosso redor, nem a nós mesmos, pois perdemos a vontade de falar, de agir, de nos posicionar. Cansamos.
E passamos a emitir sons guturais. Quase gritos de socorro à vida.
Respiramos. O coração bate. Os sistemas vitais funcionam. Mas, perdemos a capacidade de irradiar algo harmonioso. Algo que faça-nos bem. E ao outro também.
Tal o som de estática e chiados que meu rádio velho emite. Que após alguns minutos passa a irritar a todos.
De tanta pancada, sofrer, fomos emudecendo, calando. Perdendo a sintonia conosco mesmos, e o pior, até com as coisas do alto.
E, é neste perder de sintonia, justamente por onde se instala o mostro da indiferença.
Quantos casais perderam-se da freqüência um do outro?
Não se sintonizam mais mutuamente.
Não por emitirem em ondas diferentes. Mas por não se permitirem escutar e valorizar o que o outro emite, “seja um som de forró, seja um de bolero”.
Pais que perderam a freqüência de seus filhos, e vice-versa.
Não os escutam, ou por ele são escutados.
Gerentes eu não captam a freqüência de seus funcionários.
Achar a freqüência certa, sintonizá-la, e dela irradiar algo para melhorar o mundo é tarefa diária.
No outro extremo, emitir na freqüência certa, emitir ondas de harmonia, de liberdade, de gratidão, no seu programa de rádio interior, sobre o qual quem convive contigo tem acesso, não seria maravilhoso.
Não seria maravilhoso que todos que passasse por teu viver saíssem com aquela expressão de quem ouve uma boa canção? Daquela que nos eleva, e até nos faz orar?
Acho que de vez em quando precisaremos de uma junta de amigos para nos ajudar a voltar a funcionar na freqüência certa.
Ajudar-nos a voltar a captar e emitir sons de vida.
Tal qual os amigos desta foto. Um segura uma antena improvisada, outro ajusta parafusos internos, outro dá um pitaco, outro olha com um olhar de quem diz... "será que posso ajudar?"
Sinto por pessoas que perderam sua sintonia fina há tempos.
De tanto sofrer de que foram vítimas, de tanta humilhação, foram acostumando-se com os sons de estática que passaram a emitir, guturais, sem harmonia, sem composição, sem as belezuras de uma partitura tocada numa rádio qualquer.
Foram acostumando-se às migalhas que recebem da vida.
Dos maridos. Das esposas. Dos filhos. Dos chefes. Dos funcionários. Dos clientes. Etc.
Resmungam e resignam-se em murmúrios - quase pedidos de socorro, quase gritos de: “alguém me ajude, escutem meus ruídos interiores e venha cá!”
Deixaram de irradiar, vivem seu momento de entropia.
Por isso me afeiçoei a este rádio da década de 50, que ainda emite sons de estático-chiados.
Ele pede socorro.
Como muitos de nós.
Porém, desaprendeu a falar.
Não sabe mais se expressar no seu pedido de socorro.
Mas, conforto-te.
Se ainda a vida geme em teu ser, há esperanças. Nem que seja em sons de estática.
Sei que com jeitinho, rodando o "dial" mansamente. Aumentando a altura ou posição da sua antena interior, você reencontrará o sentido de seu viver.
Todos nós passamos por fases assim.
Nas quais perdemos a sintonia de nós mesmos, de nossos valores.
De nossa auto-estima.
De tanto ouvir que não temos valor, de ouvir pessoas que só nos diminuem, perdemos o brilho interior e a capacidade de emitir coisas boas.
Perdemos nosso jardim interior.
Perdemos nossos sons interiores, os mais belos, os de nossos valores.
Somos influenciados por uma multidão de sons, frases, palavras, atos, omissões que nos agridem e vamos emudecendo. Perdemos-nos de nós mesmos.
Tal meu rádio velho.
Só não podemos nos entender para sempre perdidos, sem sintonia interior, sem escuta exterior, escuta de boas estações.
Seu rádio velho voltará a funcionar. Pois, não fomos feitos para emitir barulho, mas música. Sons: de comunhão, de eternidades. Sons de recomeço.
É como diz aquela canção: “A vida tem sons que pra gente ouvir
“Precisa aprender a começar de novo”. Veja:
Começo, meio e fim
Roupa Nova
A vida tem sons que pra gente ouvir
Precisa entender que um amor de verdade
É feito canção, qualquer coisa assim,
Que tem seu começo, seu meio e seu fim
A vida tem sons que pra gente ouvir
Precisa aprender a começar de novo.
É como tocar o mesmo violão
E nele compor uma nova canção
Que fale de amor
Que faça chorar
Que toque mais forte
Esse meu coração
Ah! Coração!
Se apronta pra recomeçar.
Ah! Coração!
Esquece esse medo de amar de novo.
Um Des-conto de Natal.
Acordo um tanto ressaqueado no domingo de pré-natal. Lá pelas 17:00, vi que o pastor ligara no meu celular. Ao retornar, aceitei o convite para fazer uma leitura na celebração das 19:30hrs. Tomei um café forte, um banho, escovei umas quinhentas vezes a boca, para espantar a ressaca e seu fétido cheiro. Botei roupa depressa e fui na frente ensaiar o texto. No caminho, resolvi passar no mercado para comprar um halls do mais forte, pois não queria matar o pastor de vergonha com aquele cheirinho de cachaça dormida.
Sou católico, mas frequento esta pequena comunidade Metodista por ser a congregação de minha esposa, e por me faz bem estar por ali. No mercado, vi que a fila do meu caixa demorava. À minha frente um rapaz ia pedindo à caixa para devolver alguns itens já colocados, para que ficasse dentro de seu orçamento de R$ 50,00.
Devolveu um pedaço de queijo, um pacote de uvas e uma caixa d e fraldas. Entre uma devolução e outra o jovem casal discutia.
A jovem mãe, visivelmente irada, segurava sua bebê, que sem entender o que ocorria, sorria para mim.
Pensei em doar a eles aquelas mercadorias faltantes. Contudo, tive medo. Por isso que acho que o natal é a ausência de medo de agir em prol do próximo, seja ele quem for.
O natal é uma decisão, uma decisão de amar.
Uma atitude.
Não importa as conseqüências.
Fiquei matutando naquela pequena bebê que deve ter passado apuros na noite de 23/12 por não ter as fraldas. E no quanto aquele jovem casal priorizara botar outras coisas na sua minúscula feirinha, esquecendo as fraldas da bebê. Na discussão, percebi que havia desaparecido uma nota de R$ 20,00. Deve ter sido justamente o que faltava.
Pela cara do jovem ele tinha culpa no cartório. Ou perdeu o dinheiro, ou "ai, ai, ai" tomou de cervejas.
Fiquei com medo de intervir e ele sentir-se humilhado, ofendido na minha falta de respeito a sua privacidade, ou até aguçar a irada esposa contra ele próprio.
Sei lá. Temi.
Mas, eu me dirigia para uma igreja. Como pude ser tão impotente? Lembrei daqueles que desciam a montanha e passavam ao largo de um senhor que ferido jazia à beira da estrada, uma parábola chamada de O Bom Samaritano que Jesus nos conta em Lucas 10:30-37. Engraçado, ali também passou apressado um sacerdote e não o parou para ajudá-lo. Quem parou foi justamente um descrente, um samaritano. Um excluído da sociedade da época, considerado impuro. Não quero tecer uma discussão teológica sobre o texto de Lucas. O que me chamou a atenção foi a não atitude minha, quando era preciso e oportuna. Então, este é o meu conto de não-natal de 2012. Estou embrutecendo, perdendo a sintonia com a intuição da bondade que manda agir, que é mais forte do que todos os receios. Que acredita em coisas bobas como doação gratuita, perdão e gentileza. Passei a celebração toda me sentindo um merda. Ahh se eu pudesse voltar as fitas de meu viver e agir nas horas que era necessário agir. Vi um filme aqui neste link:http://www.youtube.com/watch?v=ID0kgP9IVhs
que mostra o quanto, quando somos tocados pela bondade, podemos sair reproduzindo este toque e melhorando nosso mundo. Queria dedicar meu natal àquela bebezinha.
Que nunca mais lhe falte agasalho, que nunca mais falte-lhe solidariedade pela vida afora. Que nunca mais seus pais se descuidem dela.
E que minha sintonia com as coisas do bem, meu "dial" existencial, volte urgentemente a se conectar e a influenciar o mundo ao meu redor, para que seja um bom local para se viver. Nem que para isso eu volte a tomar coragem na cara e agir, irradiar com doses de amor, a imobilidade das trevas que dizem e repetem "as coisas são assim mesmo". Que eu possa mudar. Deixar de ser hipócrita. Ver que ao meu lado tem gente que precisa que eu ande mais devagar para que as note e as reconheça em suas necessidades. Que eu possa, caso necessário, chamar outros seres de paz espalhados e dispersos, às vezes até marginalizados, por suas opções sindicais, políticas, religiosas, não-religiosas, étnicas para que nos juntemos num brado à vida. Vou tomar um porre de fé, fé das boas, daquela fé que homens de boa vontade possuem, e que mesmo sem frequentarem templo, botam em prática, vendo no ser humano o maior e mais precioso de todos os templos, agindo para sua reconstrução. Aquela fé como a de um amigo ateu que sacou R$10.000 de sua poupança e deu a sua diarista para reforma de seu barraco. É disso, de meu amigo-ateu, de que preciso, atitude. Coerência. Não teria me custado nada uns 20 reais a mais. E, caso fosse mal recebido, qual o problema? Teria feito minha parte. Amar é decisão. E é para os fortes. Sejamos fortes na remoção de tudo que nos impede de amar. Mágoas passadas, ódios centenários, culpa, inveja, ciúmes e desesperança.
Sou católico, mas frequento esta pequena comunidade Metodista por ser a congregação de minha esposa, e por me faz bem estar por ali. No mercado, vi que a fila do meu caixa demorava. À minha frente um rapaz ia pedindo à caixa para devolver alguns itens já colocados, para que ficasse dentro de seu orçamento de R$ 50,00.
Devolveu um pedaço de queijo, um pacote de uvas e uma caixa d e fraldas. Entre uma devolução e outra o jovem casal discutia.
A jovem mãe, visivelmente irada, segurava sua bebê, que sem entender o que ocorria, sorria para mim.
Pensei em doar a eles aquelas mercadorias faltantes. Contudo, tive medo. Por isso que acho que o natal é a ausência de medo de agir em prol do próximo, seja ele quem for.
O natal é uma decisão, uma decisão de amar.
Uma atitude.
Não importa as conseqüências.
Fiquei matutando naquela pequena bebê que deve ter passado apuros na noite de 23/12 por não ter as fraldas. E no quanto aquele jovem casal priorizara botar outras coisas na sua minúscula feirinha, esquecendo as fraldas da bebê. Na discussão, percebi que havia desaparecido uma nota de R$ 20,00. Deve ter sido justamente o que faltava.
Pela cara do jovem ele tinha culpa no cartório. Ou perdeu o dinheiro, ou "ai, ai, ai" tomou de cervejas.
Fiquei com medo de intervir e ele sentir-se humilhado, ofendido na minha falta de respeito a sua privacidade, ou até aguçar a irada esposa contra ele próprio.
Sei lá. Temi.
Mas, eu me dirigia para uma igreja. Como pude ser tão impotente? Lembrei daqueles que desciam a montanha e passavam ao largo de um senhor que ferido jazia à beira da estrada, uma parábola chamada de O Bom Samaritano que Jesus nos conta em Lucas 10:30-37. Engraçado, ali também passou apressado um sacerdote e não o parou para ajudá-lo. Quem parou foi justamente um descrente, um samaritano. Um excluído da sociedade da época, considerado impuro. Não quero tecer uma discussão teológica sobre o texto de Lucas. O que me chamou a atenção foi a não atitude minha, quando era preciso e oportuna. Então, este é o meu conto de não-natal de 2012. Estou embrutecendo, perdendo a sintonia com a intuição da bondade que manda agir, que é mais forte do que todos os receios. Que acredita em coisas bobas como doação gratuita, perdão e gentileza. Passei a celebração toda me sentindo um merda. Ahh se eu pudesse voltar as fitas de meu viver e agir nas horas que era necessário agir. Vi um filme aqui neste link:http://www.youtube.com/watch?v=ID0kgP9IVhs
que mostra o quanto, quando somos tocados pela bondade, podemos sair reproduzindo este toque e melhorando nosso mundo. Queria dedicar meu natal àquela bebezinha.
Que nunca mais lhe falte agasalho, que nunca mais falte-lhe solidariedade pela vida afora. Que nunca mais seus pais se descuidem dela.
E que minha sintonia com as coisas do bem, meu "dial" existencial, volte urgentemente a se conectar e a influenciar o mundo ao meu redor, para que seja um bom local para se viver. Nem que para isso eu volte a tomar coragem na cara e agir, irradiar com doses de amor, a imobilidade das trevas que dizem e repetem "as coisas são assim mesmo". Que eu possa mudar. Deixar de ser hipócrita. Ver que ao meu lado tem gente que precisa que eu ande mais devagar para que as note e as reconheça em suas necessidades. Que eu possa, caso necessário, chamar outros seres de paz espalhados e dispersos, às vezes até marginalizados, por suas opções sindicais, políticas, religiosas, não-religiosas, étnicas para que nos juntemos num brado à vida. Vou tomar um porre de fé, fé das boas, daquela fé que homens de boa vontade possuem, e que mesmo sem frequentarem templo, botam em prática, vendo no ser humano o maior e mais precioso de todos os templos, agindo para sua reconstrução. Aquela fé como a de um amigo ateu que sacou R$10.000 de sua poupança e deu a sua diarista para reforma de seu barraco. É disso, de meu amigo-ateu, de que preciso, atitude. Coerência. Não teria me custado nada uns 20 reais a mais. E, caso fosse mal recebido, qual o problema? Teria feito minha parte. Amar é decisão. E é para os fortes. Sejamos fortes na remoção de tudo que nos impede de amar. Mágoas passadas, ódios centenários, culpa, inveja, ciúmes e desesperança.
O Peladão da Ponte JK
Todos os dias passo por este homem nu, na calçada de uma avenida próxima à terceira ponte do Lago, a JK.
Por ali circulam milhares de veículos dia, e todos cruzam com o peladão e seu bilau descaradamente à mostra.
O peladão faz parte da exposição de Antony Gormley – Corpos Presentes, que são esculturas feitas a partir do corpo dele, expostas aqui em Brasília no Centro Cultural Banco do Brasil.
Curiosamente, todos os dias o peladão acorda vestido com algo. Divirto-me procurando adivinhar qual a vestimenta do dia.
Já botaram nele touca de Papai Noel, boné, calcinha, cueca, sutiã, camisa de clube esportivo, camisa do BB.
Quando não botam nada, cobrem o pinto do bem dotado Antony.
Hoje a criatividade dos salva-peladão teve um toque de moda inglesa, colocou-lhe um chapéu vistoso, do tipo cartola, e o peladão ficou tal qual um lorde inglês.
Então, não me contive e fui tirar esta foto. Perto dele, senti um pouco do que ele deve sentir ao ficar exposto a olhares maledicentes, a hipocrisias, a falsos puritanismos, ou moralismos de todas as formas.
Senti pena dele. Desnudo.
Não é um desnudo ligado a alguma tribo natureza. Para os quais há sempre um olhar complacente e até de empatia.
É um desnudo por artimanha de seu criador, que para provocar-nos à reflexão, assim o concebeu.
Pensei que assim acontece quando vamos perdendo os elementos que nos estruturam como pessoa e nos dão identidade. Tal qual a nós próprios, antes de mães caridosas acorrerem com fraldas e cueiros, folhas de parreira modernosas.
Todos mais cedo ou mais tarde podemos ter vergonha, medo da exposição e temor.
Precisamos de vestimentas para nos constituir como pessoa.
Elas protegem do frio, da vergonha, do medo da exposição de nosso corpo ao léu e de que algo aconteça com nossas partes mais íntimas.
Em qualquer que seja a civilização, lá estará presente a moda, a nos revelar e a criar identidades tribais.
Ao peladão de ferro, coitado, resta esperar que algum solidário transeunte lhe salve do vexame.
Cada um desses, à sua maneira, empresta-lhes um pouco de honra e dignidade.
A moda é apenas uma linguagem, uma linguagem que nos torna alguém. O fato de está nu é uma provocação a todos os que se sentem assim, nus, marginais, expostos.
Sua expressão desnuda remete a um homem à procura.
Um Homem sem roupa. Aquele eroticamente despido – de falo imponente, sobre olhares de ira dos que se sentem atingidos pela sua postura ereta.
Lembrei-me de pessoas que sofreram esta “desnudação” pública e que sofreram. Um que foi denunciado por uns andarilhos que guardavam carro num supermercado de que tinha aliciado um menor. Outro que foi denunciado por uma mulher com quem vivia de ter molestado sua filha, querendo auferir ganhos em contendas judiciais.
Nos dois casos, após investigações, apurou-se que ele fora vítima de armações.
Mas aí já era.
A velocidade da calúnia, da notícia ruim, do boato mundo cão, só perde, e por muito pouco, da velocidade da luz.
Ambos ficaram desnudos. Aos olhos dos outros perderam a dignidade e honra essência de que se constituem os Homens de bem.
Aos olhos de si mesmos, embora saibam o que de fato fizeram, ficaram magoados, deprimidos, isolados, e entristecidos com a forma pela qual foram tratados, abordados, e até agredidos subjetivamente.
Ando me sentindo como o peladão.
Recentemente fiz uma carta aos funcionários que acompanho num programa de treinamento de 12 meses.
Escrevi-lhes um e-mail-epistolar, particular, íntimo e amoroso, quase paternal.
Este fora escrito dentro de um determinado contexto de referência, a partir de feedbacks recebidos do próprio grupo, e com base num arranjo relacional instituído ao longo de 12 meses.
Havia o pretexto, o contexto e o texto. Sou o gestor de um grupo em formação e é legítimo que me dirija a este grupo. Infelizmente pessoas fora deste contexto tiveram acesso ao texto, desconhecendo o pretexto, e o interpretaram à luz de suas próprias realidades, distorcendo o seu sentido. Ou extraindo partes do mesmo, para tratá-los ao sabor de sua ira.
A partir daí, a palavra mais doce que ouvi foi de fascista. A Carta do Ricardim virou top-five dos assuntos discutidos em redes sociais, e em recintos do local no qual trabalho.
Pessoas que não me conhecem começaram a achincalhar meu nome, ou tecer comentários ofensivos à minha honra, numa violência digital que beira ao assédio.
Aos poucos que me pediram explicações não me furtei em dá-las, mas, estes foram poucos.
A horda gosta de sangue. E passou a me atacar como se eu a ela lhe tivesse se dirigido, ou as citado expressamente.
Para quem tem na ética um valor. Na honra e dignidade um patrimônio, único bem de assalariados sério - torna-se o alvo de impropérios públicos machuca.
Mais do que perder o afeto, a confiança, o respeito de quem interpretou o texto como uma subliminar mensagem contra seu grupo ou posição ideológica, doe o não poder defender-se a contento pela velocidade virulenta dos ataques.
O que era para ser uma carta de amor, de um gestor que se coloca como pai para os ingressos no seu local de trabalho, acabou por se tornar um manifesto contra o trabalhador. Uma pena!
Estes dias estão sendo difíceis. Ando pelos corredores achando que alguém vem me atacar, mesmo que com palavras. Cabisbaixo, triste e angustiado pelos rumos que as coisas tomaram e com ansiedade para com o futuro que poderão tomar.
Para quem tem vergonha na cara, isto incomoda.
Por isso solidarizei-me com quem botou esta cartola no peladão.
Sem querer restituem-lhe um pouco de sua honra, dão a ele certo glamour. Assim como o que tentou cobrir suas partes pudicas, ou aquele que vestiu com um simulacro de um fraque.
Assim são as pessoas que se aproximam das vítimas de calúnias, imprecações e violência moral e lhes prestam apoio.
Ultimamente tive muitas delas.
Sou um felizardo, um abençoado por Deus.
Delas recebi cartolas, fraques, botas, calças, meias, cuecas, estou quase refeito exteriormente.
Estas vestimentas vieram a mim revestidas de um abraço, de um e-mail, um telefonema.
E, veste a veste, gesto a gesto, empatia a empatia, a dignidade e honra vão se moldando novamente, tal qual os adereços que colocam diariamente no peladão da Ponte JK.
Um empresta seus remédios, outro suas preces, outro liga para seu médico, outro se coloca a disposição para esclarecer mal-entendidos, outro manda um SMS.
Já outro lhe diz que lhe ama, outro sai em sua defesa publicamente. Outros ligam e perguntam se precisa de algo.
Vi agora como estes pequenos gestos, para quem viveu este tipo de estresse, favorece ao retorno do ser a si mesmo. Ajudam a religar o GPS interior que nestas ocasiões fica zureta.
Emprestam almas a um cansado-zumbi vagante.
Dão condições favoráveis para que ele se vista em seu interior. Reconfigure-se pleno de sentido. Minimizando o estresse pós-traumático.
Aos amigos e amigas obrigado.
Agora só preciso de um tempo para me vestir, lá no interior.
E, agora é comigo e com Aquele lá de cima.
Para os que trilham na verdade e justiça, o amor os liberta.
Os tece com as linhas e tecidos do melhor e exímio Alfaiate, o bom Deus.
Só Ele sabe preencher com rasgos de eternidade, os vazios deixados no interior de quem sofre.
Uma canção gospel me falou muito nestes últimos dias, chamada Deus do Impossível:
“Quando tudo diz que não
Sua voz me encoraja a prosseguir
Quando tudo diz que não
Ou parece que o mar não vai se abrir
Sei que não estou só
E o que dizes sobre mim
Não pode se frustar
Venha em meu favor
E cumpra em mim Teu querer
Deus do impossível
Não desistiu de mim
Sua destra me sustenta
E me faz prevalecer”
Por algum tempo pessoas que sofrem estes tipos de ataques difamatórios adquire um sobrenome indigesto. Fulano do Menino do Estacionamento; Sicrano, do Incesto... Ricardim, Aquele da Carta.
Conviver com este sobrenome, por uns tempos, suga a energia da pessoa.
E, quando vai se esquecendo e tocando a vida, sempre aparece alguém para requentar a história, pede detalhes e lá vem tudo novamente.
De agora em diante, não deixarei mais Homens desnudos ao meu redor.
Serei o primeiro a colocar-lhe uma cartola inglesa, para emprestar-lhe um pouco de honra e dignidade, enquanto se refaz da exposição pública que o entristeceu.
Direi, acredito em sua índole, conte comigo para ser mais um dos elos na corrente virtuosa para sua restauração. A corrente do bem.
Coma suas folhas ao lado de flores.
Fotografei a este animal exótico, chamado de bicho-pau.
Ele não tem graça e formosura, aos olhos dos outros.
Até amedronta.
Parece um ser disforme.
Mas, se parar um pouquinho para percebê-lo, em toda sua essência, ele tem tudo que os outros animais possuem. Só que é diferente.
Aprendeu a se mimetizar em forma de galhos secos.
Para sobreviver.
Embora venhamos a ter momentos-trevas, momentos-seca, momentos estranhos tal qual este bicho. Aqueles instantes que para sobreviver nos adaptamos ao meio.
E nos transformamos num bicho-pau.
Ainda assim, somos belos.
Ainda assim somos luz.
Ainda assim, tal qual este bicho-pau: feio, estranho, sem graça e formosura, cansados, às vezes até entristecidos, há vida que geme em nosso ser interior.
Vida que nos faz caminhar para as bonitezas que existem ao nosso redor, e que precisam de poesia para serem vistas.
Somos caminhantes.
Peregrinos, em busca de instantes que eternizem nossa presença no mundo.
Caminhamos em busca de um sentido, de um belo, de algo que dê significado ao nosso existir, tal qual o caminhar do bicho-pau pra comer suas folhas perto de uma flor, de tantos galhos sem flores, ele escolheu este.
Esta flor que embeleza sua vida são nossos amigos, as pessoas para quem viver vale a pena. São elas que emprestam graça e formosura ao nosso viver.
Esta flor que ele toca, chama-se graça.
Graça por existir, por receber o abraço da vida todos os dias ao acordar.
Nos meus dias bicho-pau, lembrarei de ir comer umas folhinhas, para sobreviver, ao lado de flores.
Elas me ajudarão a continuar alimentando-me de frágeis esperanças. Pois, é de esperança que se constitui a matéria dos que se permitem chorar somente uma noite e um dia.
Daqueles que seguem à frente, abrindo caminhos, desbravando o novo, machucando-se em espinhos tal qual sertanejos ao procurar suas criações perdidas, no meio das árvores espinhentas da Caatinga. Não há caminhos para eles. Eles fazem seus caminhos ao caminharem por entre galhos ameaçadores.
Abrem picadas, aprendendo com os erros e decepções. Crescendo com eles.
Amadurecendo.
E, amadurecer dói, contudo sem dor não há mudança, em nenhum processo psico-físico-social.
Bendito bicho-pau que escolhe um canto florido para perseverar seu vir-a-ser!
Olhar que liberta. Olhar que aprisiona.
Bom dia!!!!! Acordei com um sentimento tão bom. Lembrei da solidariedade e luta de um grupo de revolucionários, à época, que empunhavam uma causa numa ONG - a causa anti-aids. Hoje é o dia internacional de luta contra aids. Parte do que sou devo ao tempo que militei no GAV, Grupo de Apoio à Vida (foto). De tanto conviver com soropositivos, vi que o sofrimento, ansiedade para com o futuro e um ti
po de culpa estavam presentes e abalavam sua saúde mental. Outra agressão a que eram submetidos, chegava nos relacionamentos que travavam. Esta era pior, muito pior do que a própria infecção. Esta agressão os condenavam a uma morte vivente, uma morte social. Pessoas desinformadas, sem conhecerem as particularidades daquela Síndrome, os agrediam às vezes só com um olhar, com uma calçada desviada, com um atendimento lhes negado. Escrevi então algo a respeito, em 1996, que agora compartilho. Serve para todos que são vitimas de calúnias e maledicências.
OLHOS DA AIDS
TENHO UM NOME
INCRÍVEL, PAREI PARA PENSAR E TENHO UM NOME.
MEU NOME NÃO É "AIDÉTICO".
TENHO UM POMPOSO NOME, UM NOME DE BATISMO.
TENHO SONHOS...
MEU CORAÇÃO PULSA... PULSA ?
TENHO UMA MÃE
MAMÃE...!
SE JÁ AMEI? O QUE VOCÊ ACHA !
AMEI CADA HOMEM E MULHER COM QUEM CONVIVI.
AMEI CADA MANHÃ E CADA ENTARDECER QUE VISLUMBREI.
AMEI CADA GOTA DE ORVALHO E CADA LUAR.
AÍ ELA CHEGOU...
CHEGOU DE MANSINHO, SEM FAZER ALARDE.
PRIMEIRO ELA VEIO MOSTRAR-SE EM TEUS OLHOS.
SENTI O QUE ERA A PENETRAÇÃO.
A PENETRAÇÃO DE TEU OLHAR!
TEU OLHAR QUE ACUSA,QUE DISCRIMINA,QUE ENOJA,
QUE REPUDIA,QUE VIOLENTA.
SENTI TEU OLHAR, E, AO OLHAR-ME JÁ NÃO MAIS ME RECONHECI NO ESPELHO.
PERCEBES O DRAMA?
PERCEBES A IMPORTÂNCIA DE TEU OLHAR?
TAMBÉM TENHO MEDO: MEDO DO ESCURO, MEDO DA MORTE, MEDO DA SOLIDÃO,MEDO DA INDIFERENÇA MEDO DA DOR.
DE TUDO QUE ME MALTRATA.
DE TODOS ESTES OLHARES E GESTOS DE QUE FALEI, APENAS ALGUNS ,
UNS POUCOS, É VERDADE.
RESGATARAM MINHA IMAGEM PERANTE O ESPELHO.
APENAS UNS POUCOS.,
É VERDADE!
VOCÊ NÃO ACREDITA ?
AH! COMO SÃO BONITOS ...
ESTES OLHOS.
ESTES TEUS OLHOS QUANDO ACOLHEM, QUANDO PERDOAM,
QUANDO RIEM, QUANDO COMUNICAM ESPERANÇA.
DE TUDO QUE ME ROUBARAM
RESTOU-ME APENAS UM BÁLSAMO.
ALGUÉM QUE AINDA ACREDITA EM MIM.
NO MEU POTENCIAL.
E QUE NÃO SE ASSUSTA COM MINHA CORPO MAGRO.
OU COM MEUS DESABAFOS DEPRIMENTES.
RESTOU-ME VOCÊ.
VOCÊ QUE AÍ ESTÁ.
QUANDO TODOS ME DERAM AS COSTAS,
VOCÊ ME APOIOU.
NÃO PERGUNTOU: PORQUE ? COMO ? QUANDO ? COM QUEM ?
SIMPLESMENTE ME AMOU: INCONDICIONALMENTE, ESTUPIDAMENTE
BOBAMENTE, DESESPERADAMENTE.
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