Aposentadoria - Não se Aposente da Vida - Autor Ricardo de Faria Barros (*)


Nos últimos meses, o número de pessoas ingressando na aposentadoria tem aumentando em nosso país. Essa expansão dos aposentados está sendo alavancada pelo medo da mudança nas regras da previdência oficial, estimulando as pessoas que já tinham esse direito à anteciparem sua decisão; Além dos programas de incentivo à aposentadoria, recém-lançados por grandes corporações nacionais, em busca de uma maior eficiência operacional, para sobreviverem a um ambiente de negócios com viés de baixa.
Esse tema me seduz, desde que concluí minha formação de psicólogo, no século passado.
Eu era recém-formado, trabalhava no Banco do Brasil, e naqueles anos de 1995-96 o BB lançou seu maior programa de Demissão Voluntária, com quase 30.000 pessoas "aderindo" a ele.
Aí vi e ouvi de tudo, já com a percepção seletiva de psicólogo. Tantos relatos bons, como relatos não tão bons, em sua grande maioria, de pessoas com dificuldade de adaptação à vida no outro lado da margem de si mesmo, agora a do CPF, no lugar do CNPJ.
Naquela década, também vivi em casa esse fenômeno. Vendo como meu pai e mãe se adaptavam, após longas carreiras no Senai-PB, 45 e 40 anos, respectivamente.
Recolhendo esse material vivencial e estudando sobre o assunto, passei a escrever sobre o tema e ministrar palestras nos éticos e bem-vindos Programas de Preparação à Aposentadoria.
 Costumo iniciar a palestra com o enigma da Esfinge de Tebas. Até brinco com os participantes, dizendo que quem acertá-lo terá uma maior qualidade de vida no pós-carreira.
Após o frisson das "férias" de uns 90 dias, a poeira baixará e o aposentado precisará "entrar em Tebas", atravessando um portal vigiado pela monstruosa Esfinge. Só passa pelo Portal do bem-estar quem acerta ao enigma que ela propõe. Caso contrário, ela comerá o peregrino.
O enigma era esse:
“Que criatura pela manhã tem quatro pés, ao meio-dia tem dois, e à tarde tem três?
Na mitologia, foi Édipo quem resolveu a charada:
"O Homem — engatinha como bebê, anda sobre dois pés na idade adulta, e usa um arrimo (bengala) quando é ancião."
Nas palestras que conduzo costumo dizer que Édipo errou a resposta, em se tratando de uma pós-carreira e aposentadoria de qualidade.
E que no lugar da bengala, a resposta certa é um cajado.
Trocar a bengala por um cajado fará toda a diferença na aposentadoria. Entenda a metáfora, não estou criticando quem usa bengala, por amor de Deus!
O cajado aponta caminhos, conduz sonhos, abre veredas, afasta temores. Quem segue com um cajado, segue à frente de seu tempo.
Aposentados-Cajado entendem que há muita vida a ser vivida ainda, pelo menos uns bons 20 anos. Muito conhecimento a ser conhecido, muitas aventuras, muitos sonhos a serem sonhados, ou tirado das nuvens, muitas sementes a plantar, muitas pessoas a cuidar e outas a vir a conhecer.
Ontem almocei com um desses aposentados-cajado. Descobriu uns sites de treinamentos pela WEB e já fez curso de fotografia à culinária.
Esse é o segredo de uma maior qualidade de vida na aposentadoria: não parar de se movimentar. Tanto biologicamente, como socialmente e psicologicamente falando.
Não entender que a vida chegou a fim, como fruto do processo de luto e morte social que está vivendo, é determinante para erguer o cajado e caminhar.
Esse processo de luto, e quase morte social, é universal. Inúmeros autores registram esse momento como um dos lutos mais significativos da vida humana, com consequente erosão nos relacionamentos sociais, que acontece na margem de lá, a do CNPJ.
Então, a dica é não se aposentar de si mesmo.
Deixo-vos com algumas coisas que falo na clínica e palestra e têm dado resultados.
a. Compre uma agenda, usando o capital-tempo a seu favor. Nela, preencha as páginas em branco com coisinhas legais para fazer a si mesmo, ao outro e na realidade onde mora. Tipo visitar um parque que nunca foi.
b. Continue a participar da vida, seja em ocupações remuneradas, seja noutras voluntárias. Até em rodadas de dominós vale participar.
 c. Se vincule a outros grupos sociais. Gente cura gente.
d. Cuide da saúde nos seus aspectos bio-psico-sócio e espiritual.
e. Esteja sempre fazendo algo, nem que seja arando o jardim da praça. Ou escrevendo a biografia da família.
O segredo para o bem-estar no pós-carreira é não vestir pijamas.
Um amigo, o médico Leandro Minozzo produziu um livro exatamente com esse título: Não se aposente, e disponibiliza a versão digital gratuitamente, nesse link:
http://www.leandrominozzo.com.br/presente-especial-dia-do-…/
Também deixo leitura complementar, como fruto de minha prática terapêutica junto ao grupo de aposentados, parte integrante de um livro que escrevo. São os capítulos das “síndromes” emocionais negativas que precisamos aprender a superá-las.
A do ninho vazio: http://bodecomfarinha.blogspot.com.br/…/aposentavel-decifra…
A de abstinência à vida corporativa: http://bodecomfarinha.blogspot.com.br/2014/05/savc.html
A da alienação fantástica:
http://bodecomfarinha.blogspot.com.br/…/livro-aposentavel-d…
E a do tempo elástico, que recomendo e insisto que comece lendo ela.
http://bodecomfarinha.blogspot.com.br/…/aposentado-ou-quase…
Vamos lá, erga seu cajado e siga corajoso. Há trabalho na empresa vida, esperando por você.
Em tempo: Em breve montaremos Grupos de Apoio para facilitação do processo de adaptação à aposentadoria, aqui em Brasília.
(*) O autor é professor do IBMEC-DF, psicólogo (CRP 01/7844), proprietário da Ânimo – Desenvolvimento Humano; Autor dos livros: Sobre a Vida e o Viver, e, Apanhadores de Possibilidades nos Campos do Infinito, Membro da Associação Internacional de Psicologia Positiva, Mestre em Gestão Social e Trabalho (UNB) e Especialista em Gestão de Pessoas (USP).
Contatos com o autor: ricardodefariabarros@gmail.com
Na foto, o dia de minha aposentadoria.

Carreira Profissional – Uma conversa sobre malas, ânimos e molas.


Uma das experiências mais ricas que tive, em minha carreira profissional, foi a de ser gerente de Capital Humano, na Diretoria de Tecnologia do Banco do Brasil, com seus 4.000 funcionários.
Durante minha estada à frente daquela Área, pude acompanhar de perto a carreira de mais de 1.000 funcis, que nela ingressaram pelo Programa de Ingresso na Ditec, o Progrid, no período de 2011-2016.
Muitos procuravam-me pedindo dicas de ascensão profissional, orientação no trabalho, ou, para um simples desabafo da adaptação.
Para todos, eu tinha alguns “conselhos”. Até brincava com eles que caso não fizessem sentido, desconsiderassem, pois se fossem bons mesmos eu iria cobrar por eles. Aí estão:
Desfaça as malas emocionais - Diga para si mesmo: “Eu vim para ficar. Aqui é o meu melhor lugar, no momento, para eu estar.” Essa postura faz toda a diferença. Não ficar de malas feitas é deixar de viver na provisoriedade de uma partida iminente, viver suspirando pela carreira do outro, pela empresa do outro, pela vida do outro. Desfazer as malas emocionais é permitir-se gostar dos novos amigos, da cidade, da empresa e sua cultura organizacional que nela ingressou. E, porque não dizer, gostar de onde já chegou, fruto do esforço que empregou. É prestar atenção de como está sentindo o trabalho, no lugar de ficar esperando que numa lâmpada mágica apareça o sentido do trabalho. Pensar sobre o pensado, prestar atenção ao que de legal faz e do impacto do seu feito sobre o todo, mesmo que seja o carimbar de uma pilha de papeis, faz toda a diferença para um bom desfazer das malas.
Cultive o ânimo - O segundo conselho é até bíblico: “Tende bom ânimo”. Ora, se até Jesus disse que no mundo teríamos aflições, mas que era preciso coragem e ânimo para enfrentá-los. Como achar que a vida corporativa será uma valsa? Nada disso. É pedreira. É dormir tarde e acordar cedo. É suor. Aliás, aliás, se as vidas não editadas pudessem testemunhar a razão de seu sucesso diriam que foi por terem tido 90% transpiração e 10% inspiração, nas coisas em que se meteram a fazer. Na vida, não há almoço grátis. Tem que ralar, suar, acordar cedo, esforçar-se. Superar-se e para isso precisa-se da chama do ânimo, e todo o dia. E de um ânimo alimentado por nós mesmos. Não se pode terceirizar nosso ânimo. Para o gestor, para a política da empresa, para o colega de estação de trabalho. Nem tampouco para o próprio trabalho. Ânimo é determinação, chama interior para o +, coragem, vontade de ser e fazer melhor, ânimo é pulsão de vida. Mais sabemos dele pelo seu antônimo, o desânimo. Esse é fácil e perceber no outro e em nós mesmos. Etimologicamente, a palavra “ânimo” deriva do latim: animus, que significa “alma”, “coragem” ou “mente”. Que tem sua raiz em ANE, que significa respirar. Então, no limite, ter ânimo é continuar respirando, mesmo quando todos ao seu lado já desistiram, e estão desanimados. Contudo, o ânimo é um estado de espírito muito frágil, precisa ser bem cultivado, protegido e estimulado. Entende? Tem muita gente ao seu redor que vai roubar-lhe o ânimo, cuidado para não se infecionar pelo desânimo deles. Use os anticorpos emocionais da esperança, otimismo, misericórdia e compaixão para lidar com eles, sem excluí-los de teu redor, querendo viver numa bolha. Mas, sem deixar que eles retirem de ti seu fulgor. Cuidar de teu ânimo é uma tarefa tua, não a delegue. Justificar o desânimo pelo impacto dos outros em nós mesmos, é só uma forma de dizer que estamos nos tornando como eles. E saindo do jogo antes do minuto final.
Desenvolva Molas Comportamentais – Gosto de ver as molas em ação, na suspensão de um veículo, por exemplo. Quanto mais tranco elas levam, melhor desempenham seu papel. E, quando cessa o estresse, elas voltam à sua posição de origem. Criaram uma palavra metida para isso, chamada de resiliência. Prefiro chamá-la de molas comportamentais. Que nos dão ginga, flexibilidade, que nos fazem contorcionistas para sair de situações difíceis. Que nos fazem surfar na onda da mudança. E ver nas incertezas, possibilidades. E nos limites, paciência para equacioná-los, ou para racionalmente lidar com eles. Fazer meditação, cultivar momentos de paz e oração, cantar, dançar, pedalar, caminhar, celebrar, desenvolver senso de gratidão, nutrir amizades, valorizar a família, ter hobbies, praticar esportes, participar de algum grupo social para se doar, são espaços de renovação de nossas molas comportamentais. São lugares que atuam nelas como o malho atua sobre o ferro em brasa, dando-lhe mais fortaleza. Paradoxalmente, o segredo de manter as molas funcionando direito passa por algum, ou mais de algum dos itens acima, muito mais do que pelo nosso próprio esforço.
Muitos desses trainees ainda se comunicam comigo. E, em nossas conversas, eles me dizem que ainda usam as três dicas: de desfazer as malas emocionais, de zelar com responsabilidade pelo ânimo deles e de cuidar em renovar as molas para que não se enrijeçam com o dia a dia. E que essas dicas de carreira ainda fazem toda a diferença nas suas vidas profissionais e até pessoais.
Que bom!

Um pé de aves. (Ricardo de Faria Barros)


Saía da Ânimo (www.animodh.com.br) para buscar o JG no colégio quando me deparei com essa árvore, quase sem folha, com tenros brotos, abrigando uma família de avoantes.
De "Rolinhas", como as chamamos na Paraíba.
Aquilo me deu uma paz tremenda.
Árvore e aves em perfeita sintonia, em cumplicidade e trocas de carinho, uma pela outra.
Percebi que os pássaros bicavam os galhos. Como quem a limpá-los de insetos que matavam a tenra vida, em forma de brotos, que teimava em nascer.
Árvore e aves estavam se amando, no sentido maior da expressão amor, no amor de Ágape.
Eu precisava ver aquela cena, horas antes da palestra Florescer, que iria conduzir para meus alunos e um convidado que poderiam levar.
Estava faltando algo, para fechar as analogias de que falaria à noite.
E o algo os pássaros e a árvore me deram, Deus me deu. Agora, as metáforas da palestra estavam completas, vindo-me à razão o que abaixo compartilho.
A psicologia positiva nos ensina que podemos prevenir o adoecimento emocional, ou cuidar melhor dele, cultivando e desenvolvendo três forças: relacionamentos edificantes, ou significativos. As Emoções positivas, aprendendo a acumulá-las, conservá-las e nutri-las. E o sentido da vida, na sua forma de objetivos, metas, sonhos, propósitos e realizações. Ou seja, tendo muitos porquês viver.
Essa pessoas possuem como uma blindagem emocional que funciona como antídotos às infecções da alma. A árvore e seus pássaros nos ensinam isso, vejamos:
Ninguém floresce sozinho. Precisamos nos conectar aos outros. À natureza, à Deus, em qualquer concepção que o tenha. Precisamos nos sentir um nós, tendo alguém para limpar-nos das pragas, insetos, lagartas, que se fixam a nós e roubam-nos vida. Pessoas a nos querer bem, a nos projetar para além de nossos condicionantes mentais, a verem potenciais que nem nós vimos, sobre nós mesmos. Quem tiver essas pessoas em seu viver, tem fonte inesgotável de bem-estar. Cuide delas. Valem uma terapia.
Ninguém floresce em guerra emocional consigo mesmo, com os outros e com a vida. Cheio de um inferno dentro de si, de mágoas, ressentimentos, ódio, inveja e culpa. Precisamos cultivar as emoções positivas, tal como aquela que sentimos - a paz, ao contemplar um entardecer, vendo nele uma árvore que acolhe avoantes, e juntas brindam ao nascer da noite. Cultivar esperança, otimismo, bondade, gentilezas, misericórdia, gratidão, espiritualidades...
Ninguém floresce sem uma causa pela qual viver, sem um objetivo, realização ou sentido. Como aqueles pássaros tinham a ali descansarem e se alimentarem. Ou sua amiga árvore, a irromper mil brotinhos de vida, desafiando os insetos de morte que a ceifava.
Precisamos de alguém para nele pousar, quando cansados. senti que demos pouso, ou sombra, a alguém, é um profundo propósito de vida. Rejuvenesce, restaura e anima corações.
Entendem a comparação?
Esse é o segredo das pessoas de alto nível de bem-estar positivo, que antigamente chamávamos de felicidade, mas que por essa palavra ser confundida com alegria, passamos a adotar o conceito de bem-estar subjetivo, que é maior do que felicidade.
Você pode estar triste, e mesmo assim, sentir-se em profundo bem-estar subjetivo.
Você pode estar triste, por lutar contra o avanço de uma grave doença, pelo que ela lhe privou de algumas coisas na vida. Por outro lado, a luta pela sua vida, deu-lhe um propósito maior, e quem tem um propósito, tem uma fonte inesgotável de bem-estar.
Você pode estar triste, por ter se despedido de seu filho que migrou para outro lugar.
Mas, saber que só nutre por ele desejos bons, que quando se lembra dele só lhe vem à mente emoções positivas como: esperança, otimismo, gratidão e paz. Estas, lhes dão um profundo sentimento de bem-estar subjetivo.
Você pode estar triste, por não ter conseguido passar naquele concurso, mas ter sido chamado pelos amigos para desopilar, lhe deu um profundo sentimento de bem-estar, ao sentir-se querido, protegido e cuidado por eles.
Esses são os três capítulos da palestra Florescer, sobre como podemos cultivar nosso espaço de bem-estar positivo, alimentando as três maiores fontes de energia dele:
1. As emoções positivas, daquelas das boas, das que podemos contar às nossas mães, ou publicá-las abertamente.
2. Relacionamentos Edificantes, com aqueles que seguram nossas mãos e nos levam ao caminho do ser +.
3. Propósito, aquele sentimento de que há algo a ser construído, defendido, destruído ou atacado (no sentido de coisas por fazer, que não podem mais ser procrastinadas) e esse algo precisa de nossa participação.
Em alguns momentos a vida se nos apresenta em jorros de si mesma. E, numa confusão danada de boa, sentimos que estamos tendo acesso aos três vetores do bem-estar, ao mesmo tempo.
Aí ficamos excitados, nos sentimos potentes, somos capazes de escalar uma montanha até a lua.
Vi jovens partirem para uma missão de levar postes de luz para comunidades ribeirinhas no Amazonas. Aquela experiência é um jorro de bem-estar. Eles só pensam coisas boas sobre o servir ao próximo, farão amigos para toda a vida, inclusive com os nativos, e viverão um inestimável sentido de propósito. Eles são voluntários da ONG Litro de Luz, e estão a uma semana em missão.
(Saiba mais aqui: https://www.facebook.com/umlitrodeluzbrasil)
Um casal de namorados, após a palestra, falou-me que dali sairiam para passear sem rumo. Eles gostam de passear de carro À noite, gostam para os limites do DF e verem o céu estrelado, e tocarem nas luzinhas que desafiam a escuridão. Luzes dos astros, relâmpagos, raios, e pirilampos. Percebem neles o jorro? Emoções positivas, relacionamento edificante e propósito.
No café, a Cida falou-me que o casamento no cartório foi marcado. Que o noivo já comprou as alianças. Que vai pedir a "dona patroa" o dia de folga, "afinal tenho que fazer algo especial par ele, não é todo dia que se casa". Percebem o jorro?
Assim é vida boa e plena, que vale a pena ser vivida.
E, lembre-se, o ser humano se tiver apenas uma das fontes de jorro, ainda assim alcançará níveis de bem-estar suficientes para fortalecer o enfrentamento, ou a convivência, com as outras áreas, não tão boas que está vivendo.
Valeu o ensinamento, avoantes e arvorezinha em brotação!
E a melhor notícia, os jorros podem ser aprendidos, numa re-educação emocional positiva, que vai ampliar a inteligência e o capital psicológico positivo (resiliência, esperança, auto-eficácia e otimismo). Podemos aprender a ter mais bem-estar. Que não significa, como num passo de mágica, eliminar as tristezas de nosso viver, alienar-se e ser um bobão. Podemos até estar tristes com o rumo de algumas coisas, mas aprendendo a prestar atenção também, e de forma intencional e seletiva, às áreas de bem-estar, de outros jorros, que ainda estão bacanas em nosso viver. Nesse último parágrafo, um resumo de 20 anos de pesquisas sobre o tema felicidade.

Saber roer o osso.



Há uma diferença entre roer um osso de uma bisteca e o de uma chuletta. 
No segundo, o maior, a carne colada no osso é de primeira, um contra-filé. 
Apesar do osso ser o mesmo, uma costela. 
Assim é com tudo aquilo que temos que passar, sofrer, renunciar e se esforçar para conseguir. 
Melhor roer esse "osso" como quem se delicia com uma chuletta. 
Encarando as dificuldades como se fossem alavancas para superação de si mesmo. 
Com fé, determinação, esperança, coragem e otimismo. 
Esses valores são o contra-filé de nossa chuleta existencial. 
Agregam sabor ao nosso vir a ser +.

Vagalumes


Às vezes, é preciso o escuro de um blackout de energia, para perceber as luzinhas de Vagalumes errantes. 
Como que anunciassem que um simples e cotidiano gesto de amor é suficiente para iluminar coracões enTrevados.
Não podemos deixar que nosso lúmen, fluxo de luz, vague perdido, ao léu.
Apagado e sem um porquê. 
Ele precisará de outros corações para se acender, e acendê-los. 
Esse é o paradoxo de nossa luz interior.
Diferente da luz do Vagalume, a nossa só irradia quando amamos e servimos ao próximo.

Florescer (Autor Ricardo de Faria Barros)


De forma desajeitada, ele se aproxima do local onde lancho. Vem inseguro, como quem matuta uma decisão, pensando alto. Noto que ele equilibra algo, atrás de si, com uma das mãos.
Minha curiosidade de cronista fica aguçada.
Contudo, baixo a vista, para não surpreendê-lo. E fico olhando de soslaio.
Eis que uma moça, que come ao lado de minha mesa, levanta-se. E dá a impressão que é para recebê-lo.
Gosto de ver histórias de amor acontecendo à minha frente.
Mas, ela está com a expressão séria. Ele chega, a cumprimenta e a puxa para um abraço.
Ela olha para ele e retribui o abraço. Mas, faz gestos como quem a pedir os dois braços dele.
Querendo um abraço mais inteiro, daquele redondo, nos quais as almas se acomodam umas nas outras.
Aí, ele se afasta e a pega de surpresa, mostrando o que o impedia de usar ambos os braços.
Ele segurava escondido um jarro com flores.
Creio que eram lírios, dos laranja.
Amo os lírios, a flor citada por Jesus.
Aí, o mundo acontece na vida daquele casal, e é como se ninguém mais estivesse na cena, só eles.
E passam a conversar, numa algazarra romântica, aos borbotões, como que zerassem o saldo de histórias represadas, pedindo um bom momento para serem colocadas em dia.
Acho que rolou um perdão.
Volto para minha aula renovado. Testemunhei um florescer.
Engana-se quem acha que o florescer acontece na flor que o abriga, que desabrocha em mil tons. Preste atenção, não é aí que se dar um verdadeiro florescer. Não é aí...
No Breve Tratado das Coisas das Flores, escrito por Ricardim, o florescer acontece mesmo é dentro de nossos corações.
Quando recebemos ou damos flores ao outro, movidos por um genuíno desejo de amizade, paz, perdão, amor, gratidão, ou apenas como expressão carinho, o florescer germina e explode em nós, em miríades de sentimentos bons.
No Breve Tratado das Coisas das Flores, existem floresceres que se parecem com uma cama. Você já viu aquelas flores que formam um tapete no chão? Que dá até vontade de nelas deitar?
Têm pessoas que são como cama em nosso viver. Nos dão seu próprio leito, para nos verem bem. Mamãe, que deve estar me lendo agora, é uma delas. Ela e meu pai deram-me um florescer tipo cama. Foram abrigo, leito, sustento e fortaleza para meu existir, e de meus filhos. Como ver um tapete de flores e não se lembrar do ninho de amor de meus pais?
No Breve Tratado das Coisas das Flores, existe o florescer da esperança. Esse é bem raro de identificar de primeira. É tão raro como a Orquídea Fantasma, a Dendrophylax Lindenii. Mas, quando recebemos uma flor dessa espécie, nosso coração sai cantarolando de feliz. Parece que injetaram em nossa alma uma dose extra de energia, e na veia. Ficamos em júbilo e animados. E recuperamos a força para aboiar velhos e novos sonhos. Sempre que eu acompanhava doentes com HIV/Aids, e testemunhava quando recebiam visitas, e elas traziam-lhes flores, eu lhe juro, se fizesse um exame de sangue, momentos depois, a contagem de anticorpos deles iria dar aumentada. O florescer da esperança aumenta nossa imunidade.
Nossa relação com as flores não pode ser explicada pelo mundo cartesiano. Qual o racional em se roubar uma flor, enquanto se caminha, e colocá-la atrás da orelha dela? E, ela ao usar aquele adereço, olhar para ele como se fora a joia mais preciosas, com olhinhos de ai ai ai?
Enquanto houver um coração apaixonado, uma mãe amorosa, uma celebração, haverá flores naquele existir.
No Breve Tratado das Coisas das Flores, existem as de despedidas, de lutos que reclamam vidas editadas, mas já é tarde, e por ser tarde, precisa que as mil lágrimas sejam choradas. São lutos de descansamentos para outras estações de embarque. Neles, imperam os Crisântemos, Margaridas, Rosas e Gérberas, formando um portal espiritual, como que diz ao amado que se despede: Vá, e siga pelo caminho das flores, um dia nos encontraremos.
No Breve Tratado das Coisas das Flores, existem aquelas que acalmam nosso existir, que se nos oferecem de forma gratuita. São flores à beira do caminho, são flores baldias, que não exigiram cuidado algum, ou maior investimento, para acontecerem em nosso viver. Simplesmente chegaram, desabrocharam-nos, e seguiram suas jornadas. Nos deixando muito melhores do que éramos, antes que florescêssemos. Para esse tipo de pessoa-anjo, ser flor é sua essência, seja com sol, com chuva, seja com terreno adubado, seja em solo empobrecido, elas teimam a natureza das coisas e geram floresceres espetaculares, daqueles que brotam do nada. Tal qual a flor da jurema, que anuncia que vem chegando a invernada. Você já conheceu alguém, por um breve período de tempo, que marcou seu viver, para sempre? Ocasionando em ti um florescimento da vontade de viver, já esquecido nos porões do existir? Agradeça. Agradeça. Agradeça. Deus capacita anjos para cruzarem conosco, nos momentos mais impensáveis, e nos abençoarem. E, aquele breve existir, de dias, horas, meses, nos eternizará.
No Breve Tratado das Coisas das Flores, existe um canção que deixou a todas muito envaidecidas. E elas foram contando às estrelas, ao astro rei e sua namorada, o que ouviram. E, num cochicho espiritual, tudo que é bom, belo e virtuoso, cantou baixinho a canção do florescer, aquela que diz que o perfume delas, das flores, na verdade exalam o perfume que roubam de ti. Com essa música me despeço, deixando para você flores da Cagaita (ver foto), para que por algum breve momento, por um instante sequer, fortuito, não planejado, em que deitou a vista nesse texto, sinta o quão precioso(a) e amado(a) tu é pelo bom Criador - o pai de todas as flores e floresceres, para quem as Rosas Falam!
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As Rosas na Falam (Cartola):
Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão
Enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim
Queixo-me às rosas
Mas que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti...
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Obs: Considero as flores da Cagaitas as Cerejeiras (Sakuras) do Cerrado.

Amarre o tempo ao poste. (Ricardo de Faria Barros)


A Unesco dedica o dia 21/03 para celebrar o dia da poesia.
Quando perguntaram ao meu amigo de cabeceira, antes fosse parente, o Manoel de Barros, as três coisas mais importantes na vida dele, ele foi categórico na resposta:
"As três coisas mais importantes para mim são duas: o amor e a poesia."
Em outro momento, colocaram-lhe diante do dilema da vida, da sua finitude, aí ele sapecou-lhes essa:
"O Tempo só anda de ida. A gente nasce, cresce, envelhece e morre. Pra não morrer. É só amarrar o Tempo no Poste."
Amarrar o tempo no poste é amar. Deixa eu explicar melhor, Manoel queria dizer que toda pessoa que tem um porquê viver, algo porque lutar, alguém para esperar, alguém para cuidar, um sonho a realizar, amarra o tempo no poste. Uma vez que aquele sentido de tempo fica eternizado, no tempo de Kairós, deixando de fazer sentido contar os dias para a morte.
Uauu!!!
Hoje queria falar do amor. Manoel estava certo ao dedicar-lhe tanta importância. O amor é a corda que amarra o tempo no poste, que torna a nós todos crianças, adolescentes, fazendo piruetas, dando saltos soltos e rodando o bambolê das emoções positivas. O amor é quem para o envelhecer, embora as células estejam ficando velhas, ou morrendo. Esse paradoxo você só entenderá se preservar a capacidade de amar, na entrada dos anos que se avizinham.
Existem três filmes que você deveria ver, caso não tenha assistido ainda, pra entender a filosofia de amarrar o tempo no poste. Ou, perceber as transformações nos corações quando sobre eles impera a força do amor.
Um mais recente, indicado ao Óscar 2017, chama-se "Um homem chamado Ove".
Durante o filme, você acompanhará o Sr. Ove , dia-a-dia, amarrando seu tempo no poste, pois agora a vida vale a pena de esperar acontecer. De ficar. Um filme magnífico, sobre como as pessoas podem ser terapêuticas, na transformação de corações vazios.
O segundo é a Festa de Babete. Babete recebe uma bolada na loteria francesa, e oferece com a grana um jantar de gala para uma pequena vila de pescadores. A convivência dos aldeões, marcada por crises na indústria da pesca, medo do futuro e acordos não cumpridos, tornou aquele lugar um barril de pólvora, cheio de mágoas, invejas e desejo de vingança. Até que Babete chega, e vai unindo a todos em volta da mesa, pelo dom da gastronomia que possui. Aquele prazer desperta neles o sabor da vida, o sabor do perdão, do diálogo, da ajuda mútua. Ali, finalmente as cordas são amarradas aos postes daquelas vidas, e o tempo não é mais senhor dos dias.
Por último, veja Bagdá Café. No filme, uma turista alemã, a Jasmim, se hospeda num posto-hotel de beira de estrada, e com sua amorosidade cura a todos que ali, deixaram o tempo correr sem amarras, esperando a morte chegar. No final do filme, faltam postes para tantas cordas que vão sendo amarradas, na recuperação do sentido da vida dos personagens.
Creio que é isso que gostaria de compartilhar no dia da poesia. A força que temos em nós mesmos de produzir amor.
De gerar amor, de amar e ser amado. E, como quando nos sentimos assim, o quanto ficamos rejuvenescidos, eternos.
Que legal saber que podemos ajudar a parar o tempo de alguém. Você já tinha pensado nisso?
Conheci a história de um pessoal que organiza uma cota para pagarem um ônibus chuveiro que mandaram fazer.
Sabem para que? Para levarem o direito a um banho quentinho, "com sabonete e tudo", aos moradores de rua do DF.
Estão vendo as cordas desse pessoal amarradas no poste? Eu vejo.
Vejo também, o povo da rua se sentindo amado, e quem se sente amado, amarra a corda no poste da vida também.
Outro dia soube que um amigo meu estava programando um jantar com sua esposa, pois chegaria naquele dia da Paraíba. Ao desembarcar, descobriu que ela estava com um desarranjo estomacal, e não queria sair de casa, embora ela estivesse com fome.
Aí, ele foi para cozinha e preparou para eles duas xícaras de chá de boldo, e tapiocas com queijo de coalho. Um manjar.
De bandeja em punho, levou tudo para o quarto do casal.
E, embora não suporte chá de boldo, tomou com ela, para ser solidário.
Vocês estão vendo as cordas amarradas nos postes da vida desse casal? Eu vejo.
O amor nos torna imortais, para o tempo, altera nossa percepção de sentido, nos faz grandes e potentes.
No dia dedicado à poesia, fico com Manoel de Barros, acresça a ela o amor e a corda que para o tempo no poste.
Talvez seja essa a melhor coisa da vida, que estamos desaprendendo de fazer: dar e receber amor, sem esperar nada em troca, ou esperar que também tenham feito para conosco.
Deixo-vos com a poesia de Manoel de Barros. Essa, sem falsa modéstia, me representa:
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O Apanhador de Desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
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Agora vou ali amarrar mais cordas ao meu poste. Vem comigo!

Hoje amanheci Cartolando a vida.


Como se conversasse contigo, num banco de jardim, gostaria de te falar desse gênio da música popular brasileira, e dessa música que pode ser o enredo de muitas vidas peregrinas e Severinas, mundo afora, navegantes à procura de si mesmas.
E que, nessa procura, vão se renovando e dando frutos por onde passam. Cartola foi uma daquelas pessoas que só foi descoberta e desabrochou após os 60 anos.
Basta dizer que seu primeiro disco foi lançado em 1974, quando ele estava prestes a fazer 64 anos. Uma jornada de vida épica, digna de um filme, e dos bons.
De pedreiro à lavador de carro, tudo fez para sobreviver.
Dos tempos da construção civil, como pintor de paredes, ganhou o apelido de cartola. É que ele usava um chapéu tipo-coco com abas retas na base. Assim o fazia para não sujar a cabeça com tinta e poeira da obra, já se antevia o poeta nos gestos que o destacavam da multidão.
Ele compôs 170 músicas.
Muitas, com direitos de reprodução vendidos, por uns trocados, para que sobrevivesse mais uns meses.
Fundou a Mangueira e, tempos depois, revoltou-se com a falta de musicalidade dos ensaios no barracão, e o excesso de instrumentos de percussão; dificultando o entendimento das melodias dos sambas-canção.
Era um lorde inglês, e sempre tratava a todos com respeito e atenção.
Um dia, numa entrevista memorável que concedeu à TV Cultura, em 1978, no Programa Vox Populi, foi perguntado o porquê de não estar cuidando da saúde, continuando a beber e a fumar.
Ele parou, pensou, e respondeu que estava se cuidando sim. "Parei de beber e de fumar para lutar contra a doença". Que era um câncer.
“Mas, é só essa doença sarar que volto. Como vou compor sem um traguinho e um cigarro?”.
Esse era o Cartola.
Uma pedra angular em sua vida, talvez a mais importante, foi Dona Zica.
Uma Zica diferente das de agora, uma Zica divina.
Dona Zica também dá um filme. Ela apaixonou-se pelas músicas que Cartola cantava, na década de 50. Um dia, ambos viúvos, ela aproximou-se dele e o resgatou para a vida.
Amando-o intensamente, admirando e recolhendo fragmentos de sua obra. Dando—lhe estrutura e ordem.
Zica está para Cartola como aquelas hastes que apoiam plantas trepadeiras estão para elas.
Que mulher! Que amor.
Zica andava reclamando que ele nunca tinha-lhe presenteado com uma canção. E Cartola nunca escreveu nada por encomenda.
Ele dizia que não conseguia.
Um belo dia ele cavocava a terra, cuidando de duas roseiras que comprara na Tijuca. Cartola amava as flores.
Zica aproximou-se e perguntou-lhe:
“Cartola, o que você está fazendo com essas roseiras que elas estão magníficas, exuberantes, você anda conversando com elas?”
- “Zica, Zica, as rosas não falam”.
Ele diz que ficou com aquilo encasquetado, três dias depois, compôs As Rosas Não Falam e presenteou Dona Zica com a canção, homenageando-o numa poesia em forma que só um gênio faria:
[Zica...] “As rosas não falam, simplesmente exalam o perfume que roubam de ti”.
Na década de 60, preocupados com a miséria do casal e a genialidade de Cartola ficar esquecida, os amigos, boêmios, músicos, repórteres ajudaram-no a montar um bar e restaurante, para que ele e Zica tivessem uma renda fixa.
Era o Zicartola, que virou um pólo cultural e até de resistência à ditadura no período de 1963 à 1965.
Ze Keti, Elza Soares, Sargento, Nelson Cavaquinho, Beth Carvalho, Clara Nunes, Chico Buarque, Sergio Cabral, Paulinho da Viola, Hermínio Belo de Carvalho e Candeia frequentavam assiduamente o local, que virou point na Rua da Carioca, Centro do RJ.
Depois, o estabelecimento foi vendido à Jackson do Pandeiro. Pois, o tino administrativo não era o forte de Cartola, e o Zicartola estava faliu.
Houve pessoas fundamentais na sua trajetória: O Marcos Pereira, foi um deles, um grande produtor cultural brasileiro, grave esses nome e pesquise sobre ele. Um trabalho de resgate de músicos brasileiros digno de um filme também.
Marcos acreditou nele e produziu seus dois primeiros discos, dos quatro que lançou (1974, 1976, 1977 e 1979 ).
Cartola era generoso. Imagine a dificuldade em lançar um disco! O único que lançou em que não colocou em todas as faixas, pelo menos uma música de um amigo, foi seu primeiro, o 1974.
Nos outros três que lançou, sempre escolheu uma faixa para homenagear um amigo.
No seu segundo disco, o de 1976, Cartola – agora com 66 anos, homenageou Candeia. Candeia era um assíduo frequentador das rodas de samba do Zicartola e foi um dos fundadores da Portela.
Candeia, faleceu em 1978, aos 43 anos, era um compositor genial. Por volta do final do ano de 1975, o jornalista e escritor Juarez Barroso, andava meio perdido na vida, chegou perto dele (Cadeia estava paralítico e usando cadeira de rodas) e lhe disse que tinha um tema para ele compor um samba: “preciso me encontrar”.
Candeia identificou-se de pronto com o tema, e em em dois dias compôs e musicou essa obra prima:
“ Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver
Deixe-me ir, preciso andar…”
Quando Cartola teve acesso a essa canção foi amor à primeira vista. E ele fez uma escolha difícil. Não esqueçam que um disco de Vinil tem 12 músicas. Cartola quando lançou o seu primeiro disco, em 1974, já tinha mais de 120 músicas compostas.
Então, mesmo que ele não tivesse produzido mais nada, de 1974-1976, o que foi justamente o contrário, ele ainda teria 108 músicas para escolher 12, para o seu segundo disco.
E a gravação de um disco era o princípio da independência de um cantor. Um processo caro, e que só assim permitiria a distribuição do material pelas rádios, país afora, nos tempos de não-internet.
Cartola reservou então, uma das faixas, para Preciso Me Encontrar, música do amigo Candeia.
Que gesto bonito! Quanta doação...
Escute o áudio do vídeo que ilustra essa canção com fone de ouvido. Perceba que nos primeiros 55 segundos, toda a canção é percorrida só com o toque de dois instrumentos: um violão de sete cordas, tocado pelo Dino Sete Cordas e um Fagote, tocado pelo Airton Barbosa.
Perceba que nos primeiros 5 segundos, começa só o violão, mixado apenas do lado esquerdo do áudio.
Aos 6 segundos, entra o fagote, brilhantemente tocado pelo Airton Barbosa.
Mixado do lado direito do áudio. Escute com um headphone que ouvirá esse enigma musical magistral.
Nos próximos 44 segundos, há um encontro do violão com o fagote. Como se o violão tivesse partido sozinho, e após 5 segundos da vida, encontrou-se com o fagote, e agora juntos, compõe a melodia da vida.
É ou não é como nossa vida. Percebam que cada um deles, o fagote e o violão estão sendo tocados no canal direito e esquerdo do áudio, mas que agora fazem um dueto em uníssono.
Essa canção sempre me marcou. Ela fala de mudança, de ruptura, de autoestima.
Ela fala de renascimento, de renovo.
Para mim, é um brado à vida. Uma vida que se encontra, a cada som da esperança que toca no coração.
Uma vida que se assombra com o sol, com as águas, os pássaros e que, peregrina, se descobre a cada esquina.
Obrigado Candeia, obrigado Cartola por tanto ensinamento e obrigado ao sujeito oculto por trás da ilha de mixagem do Vinil que teve essa genialidade de dividir os sonhos do fagote e violão, e ao final promover um encontro genial.

Veja a bela canção aqui:

Cartas ao JG - Cultive o Amor (Autor Ricardo de Faria Barros, pai do JG - 7 anos).


Sabe filho, hoje quando voltávamos da escola, já na esquina de casa, avistamos uma nuvem-íris.
Paramos o carro para fotografá-la, de tão maravilhados com a cena que ficamos.
Ela estava lá, iluminando uma pequena faixa do céu, com seu raio de cor. Era uma nuvenzinha miúda, sem muita robustez.
Senti um apeto no coração das outras amigas dela não terem se juntado, para fazerem um bonito arco-íris.
Mas, ao mesmo tempo, senti uma tremenda alegria em tê-la conhecido.
Que nuvenzinha-íris mais bela!
Sozinha, mostrando que é possível ser diferente, cumprir o legado de se deixar penetrar pela luz do sol, para com ela fazer o milagre dos tons acontecer.
Ali, pertinho de nós, estava acontecendo um encontro do ar, da água e da luz. E, daquele encontro, saia uma luz diferente A luz da esperança
A nuvenzinha-íris continuou sua missão por uns 10 minutos, até desaparecer.
E, cumpriu seu papel de fazer a diferença.
Cumpra seu papel na vida, filho meu.
Não terceirize. Não culpe as outras nuvens por não terem se juntado a ti, formando aquele arco de luz, que conta a poesia que tem um pote de ouro no seu final.
Garanta seu pote de ouro. Entendeu?
Não podemos renunciar à nossa essência, sob pena de virarmos autômatos - sem qualquer ação sobe o destino de nossas vidas. Nossa essência é nosso pote de outro e nossa essência é boa, livre, corajosa companheira, amiga fiel, e artífice de colaboração.
Precisamos da coragem e ousadia daquela nuvenzinha-íris que independente de uma realidade que a negava, foi lá e debutou em luz, para encanto nosso e de todos que a veem agora, eternizada nessa fotografia.
Siga as veredas do amor, a luz maior que podemos almejar para o outro. Lembra quando me perguntou o porquê dos cordões que coloquei na coluna, perto daquela planta, e te respondi que era para ela crescer por ali, amarrando seus novelos de planta, suas gavinhas, no cordão e dirigindo-se ao alto da casa.
Esses cordões representam o impacto do amor em nossas vidas. O amor nos conduz, nos eleva, nos faz crescer.
O amor nos faz acender e iluminar horizontes, como nossa nuvenzinha-íris, mesmo que sejamos os únicos a assim proceder, como ela
Entendeu a metáfora?
Assim como os quatro cordões que botei para guiar a planta, assim como as quatro cores de nossa criança arco-íris, o amor, quando é dos bons, tem em seu conjunto quatro formas de se expressar, embricadas que se combinam sinergicamente Ou seja, não se pode isolar uma da outra. e uma melhora a força da outra.

Veja quais são e invista nelas, sempre que amar algo ou alguém.
A primeira delas é o apreço. Quem tem apreço por algo valoriza este algo. Tem estima, tem consideração. Sentir apreço amor de apreço é admirar a pessoa amada. Dizer ao outro que o aprecia, faz com que ele saiba que está o caminho certo, está correspondendo Nunca pense que ele já sabe. Diga, diga, diga!!! Mas, só sabe apreciar que se esvazia de si mesmo, que deixa de lado, numa gavetinha e com fome, o monstro do egoísmo, com seu fiel escudeiro chamada de individualidade narcisista. Não tenha pudor em apreciar, em cultivar apreços. Mesmo que não receba na mesma dose. Faça como a nuvenzinha
A segunda é apego. Não falo de dependência doentia. Falo de gostar de estar junto, de não querer perder, de cuidar. Quem tem apego tem zelo, sabe valorizar o amor e, periodicamente, dá uma lustrada nele, para ficar mais apegado ainda. Os relacionamentos amorosos: trabalhador e empresa, empresa e trabalhador, gerente e equipe, equipe e gerente, pais e filhos, filhos e pais, pastores e ovelhas, amigos e amigos, e aqueles de maior conotação erótica, precisam de “lustramentos.” Para não deixar formar crostas, perder o brilho, e não sentimos mais falta dele, ou seja, nos desapegarmos.
A terceira cordinha que apoia e faz crescer o amor, assim como a terceira luz de nossa querida nuvenzinha-íris é o amor de afeto. Afeto é uma emoção das boas, daquelas que pode ser resumida em carinho, ternura, cuidado e amizade. Cultivar afetos é expressar que gosta, que sente falta, que o outro é importante e merece um “cafuné”
A quarta cordinha é a atitude. Ter atitude é mover o destino para um lugar de possibilidades. Para crescer no amor é preciso atitude. O amor pede atitudes, gestos concretos, pede que se vá além dos corações grafados em muros, ou troncos de árvores. Pede comportamentos coerentes, pede iniciativas, pede quebra de rotinas, pede encantamentos sobre o nada. Atitude amorosa é de acolhimento do outro, de sintonia e simpatia ao mesmo. Atitude é um verbo de ação. Amores pedem atitudes para não perderem o viço. Não se envergonhe se todos ao teu lado não souberem mais expressar o amor, com atitudes. Faça-o. Não tema passar recibo de ridículo. Não tema parecer frágil, não tema as críticas do povo sério e sem vida solto por aí, que não causam mais nada, presos em suas modorrentas gaiolas. Tenha atitude, pegada. Não nivele seu querer ao que recebe, der por não saber ser diferente.
Já escrevi sobre apego, apreço e afeto, tempos atrás, e se gostou desse texto depois acesse por lá, em:
Apreço:
https://bodecomfarinha.blogspot.com.br/…/a-teia-da-sustenta…
Então, filho meu, cresça no amor. Não renuncie à sua essência.
E verás que esse amor se materializará em teu viver em várias formas, expressões, sentidos e situações. Mas, em todas elas, haverá para a situação amada as quatro cordinhas e as quatro cores de nossa nuvem: o apego, o apreço, o afeto e a atitude.
De um pai que tem por ti, e pelos outros três filhos, essa cordinhas e nuvem-íris bem lustrada, e todos os dias.

"Mas, hoje eu queria entrar dentro de um buraco." (Autor Ricardo de Faria Barros)


O texto de hoje começa com o extrato de um email que recebi.
Não o divulgo para fazer auto-rasgação de cena. Depois de uma certa idade e trajetória, isso é o que menos interessa. Aprendi que tudo deve ser para honra e glória Dele, apenas.
 Nem divulgo para ativar invejas ou projeções não trabalhadas.
Divulgo como um sinal de alerta, de para onde está caminhando a educação. Ler que um ex-aluno quis "entrar dentro de um buraco" por um tratamento rude que recebeu de alguém que jamais podia agir assim, na sua ética pedagógica, me dá um nó nas tripas. Veja:
TER 17:58
"Olá Professor Ricardo.
Fui seu aluno na pós graduação.
Aprendi muito com o senhor, diria até, que foi o melhor professor que tive até hoje.
Hoje, estou fazendo outra pós, noutro centro de ensino do DF.
Hoje tínhamos aula de XXXXX, o professor desta matéria muito sábio, porém extremamente mal educado e agressivo.
Num momento eu fiz uma pergunta para a colega do lado, e ele virou e disse que eu estava atrapalhando a aula, eu respondi que era uma pergunta sobre a matéria dele. Ele me respondeu: fala comigo ou saia da sala.
 Naquele momento eu me calei, baixei minha cabeça extremamente constrangido e me lembrei das suas aulas que eram nas sexta-feiras e eram as melhores aulas.
Queria que o mundo tivesse mais professores igual ao senhor... pq em todas as aulas eu sai edificado com desejo de me tornar uma pessoa melhor... mas hoje eu queria entrar dentro de um buraco.
Obrigada professor por ter sido uma luz!"
Entenderam?
Como está faltando amorosidade na atividade e prática de sala de aula. Vejo isso desde o meu pequeno, cuja primeira reunião de pais e mestres a "tia" só falou de aspectos negativos do retorno das crianças às aulas, após as férias.
E do quanto ela iria "exigir" deles, com provas agora em todas as quartas feiras.
Não sou diferente de muitos colegas de sala de aula que educam com paixão, conheço vários. Um dia, ao ter aula com professores apaixonados, disse para mim mesmo como queria ser quando crescesse. E, ao ter aula com outros, do tipo do relato do aluno acima, disse a mim mesmo como não queria ser.
Meus alunos têm direito a estarem cansados, acessarem celular, rirem, ficarem dispersos, chegarem atrasados, saírem para desparecer, ou simplesmente cochilarem
Eu não tenho esse direito. Eu preciso construir um espaço de comunhão de saberes, dar o meu melhor para eles, tomar catuaba, guaraviton, dar salto soltos e piruetas para trazê-los com encanto até o objeto do conhecimento, que juntos passaremos a manusear e porque não dizer, "contemplar"
Entregar para eles a minha TXAI, a minha melhor porção.
Por isso acho que a sala de aula é um lugar de amar. De acolher o caminhar das crianças, jovens, adultos e idosos; mas sem forçar a relação.
Sem tirar o prazer, com prazer é sempre melhor.
Nunca esqueci de uma professora que lecionava uma disciplina terror na graduação de psicologia, Estatística Aplicada à Psicologia.
Saí da primeira aula em pânico. Não entendi nada de tantas fórmulas.
Fui ter a segunda aula esperando que o terror piorasse, afinal naquela época eu falava que "nada é tão ruim que não possa piorar". Hoje aboli essa frase. A conjugo no sentido inverso. Na segunda aula, ela pegou-nos pela mão e repetiu toda a aula passada, agora subindo mais um degrauzinho de onde paramos
Trouxe exemplos, casos reais, trouxe simulações. E, nos apaixonamos pelo uso da matemática, para auxiliar a análise de aspectos intangíveis do ser humano.
Na pós, lembro do professora Eda Campos e do Professor Paulo Calmon.
A primeira com uma disciplina chamada de Institucionalização da Cultura. Uma pedreira.
Ela falava com tanta paixão, tanto brilho nos olhos, de complexos conceitos antropológicos, sociológicos e culturais que era como se estivéssemos comendo à mesa, e uma comida gostosa. Saíamos maravilhados com Eda, e ela era exigente, ao extremo, e suas provas eram dificílimas. Mas, ela entregava valor na educação, entregava amorosidade e paixão, e nós voávamos nas suas asas.
Outro professor era o Calmon, de Políticas Públicas, ambos da UNB. Ele começava todas as aulas com uma pergunta. E forçava-nos a refletir sobre a vida, as relações sociais e políticas, nos fazendo amar aquela disciplina. Aprendemos que tudo é política, de de como ela pode fazer a diferença na construção de um mundo melhor e mais inclusivo, e que reduzi-la a um partido é um crime.
Nenhum de nós saíamos daquela aula querendo entrar num buraco.
Sinto quando pergunto ao JG sobre suas aulas e ele fala delas sem nenhuma tesão.
Lembro de um vídeo de uma professora Lorena, da rede pública, ensinando com música o uso dos porquês.
Garanto que ninguém sai da aula dela querendo entrar num buraco. Pelo contrário, sai feliz e querendo dançar.
Assim deveria ser a educação, algo com sabor, com cheiro de festa, com ritmo e pegada da vida.
Como gostaria que os professores do JG dançassem em sala de aula, para que o conhecimento fosse melhor trabalhado!
E a você, querido aluno, deixo-vos com poesia: "Eles passarão. Você, passarinho".
Continue se esforçando e dando o seu melhor. Releve a brutalidade dele. Ele pode ter tido um dia de fúria, ou já estar estourado por não saber lidar com barulho em sala de aula. E te pegou pra Cristo. Pode estar sendo mal pago, pode estar desanimado com a disciplina, a classe, pode estar sem melhores condições executar um bom trabalho, com turmas muito grandes. Pode estar cheio de afazeres, do emprego oficial, que rouba-lhe energia. Pode estar de TPM.
Todos nós que aceitamos a vocação de ensinar já sofremos, algum dia, das mesmas coisas acima. Mas, não nos deixamos morrer. Portanto, tenha misericórdia para com ele, no lugar de entrar num buraco, saia dele e o abrace. Devolva com amor, a agressão que recebeu, fruto da não compressão do que ocorria.
Exercite o perdão e a misericórdia.
Não se apequene ao pequeno. Pelo contrário, use a pequenez humana para crescer, doando-se em enormes atitudes. Aquelas que nos tornam melhores e mais sábios, apesar dos pesares.
E obrigado pelo reconhecimento. Só devolvo, e com gratidão, o que recebi dos mestres que marcaram minha vida positivamente.

Professora Lorena em ação, veja abaixo:

Novo Chico (Autor Ricardo de Faria Barros)

Velho Chico, seja bem-vindo à minha Paraíba.
Sei que de suas têtas o leite já não flui com tanto vigor.
Mas, a gotinha dele que ainda pinga vai gerar vida para milhões de nordestinos. 

Você nunca foi recebido com tanta expectativa. 
Sertanejos perderam noites de sono, esperando suas águas. 
A arribação alterou sua migração para o Norte, ao ouvir dizer que chegaria. 
Casamentos e batizados foram marcados para amanhã, afinal a água chegou. 
Dona Maroca se equilibra num Xique-Xique, para ver-te melhor. 
Jovens enamorados, programam lual à margem de teu canal. 
Sementes adormecidas e sequiosas abrem os olhos, sentindo que vem chegando no ar o cheiro do orvalho de teu regaço. 
Dona Fátima diz ao filho que não vá pra longe ainda não, que logo haverá fartura. 
Religiosos programam eventos de ação de graças.
Políticos, faturam, e em cima de uma carroça de burro fazem palanque e pedem votos, dizendo que a idéia foi dele.

Meu Chico amado, sabia que até banda de música vai ter?
Ela vai tocar, daqui a uns dias, assim que tu entrar no Rio Paraíba.

E, às tuas águas, juntar-se-ão as das lágrimas de um povo que precisou perder tudo, para ver a sua redenção.

Chora Zezim, a sua vaca que não pode te aguardar e morreu de sede.
Chora Maria, por seu José não estar vendo o que ela vê, o sertão virando mar. 
Meu Chico, obrigado pela vida que trás, com uma água que iria para o mar. 
Quero banhar-me em ti. 
Quero me encher de teu frescor, que por onde passa vai dizendo que o tempo do aperreio cessou. Agora te batizo de Novo Chico.
Um Novo Chico que anuncia por onde passa: chegou o tempo da esperança e fé.
Cultivados por um povo que desafiou sua vida severina e resistiu.
E nunca teve ninguém por ele.
Vô João, vó Maria, vô Chico, vó Dulce, acordem aí no Céu e vejam as águas chegando em nossos corações.
Vocês que sempre disseram que o problema do Nordeste não era falta de água, e sim de caráter dos mandatários de plantão.
E, caso os Homens de boa vontade se unissem, fariam do Nordeste seria um imenso pomar.
Vocês estavam certos.

Uma ilha de árvore. (Autor Ricardo de Faria Barros)


Gosto de imensidões. De vales emoldurados por montanhas desejantes. De oceanos a encontrarem-se com o lado de lá. De deserto catingueiro, com juremas enfileiradas em feixes de vidas que teimam.
Gosto de árvores subversivas, sobreviventes à força bruta do Homem que progressivamente vai derrubando tudo, na sua saga e ambição por ter mais.
Como essa da foto. Uma ilha de diversidade, no meio de um mar de uniformidade.
Local possível para fazer ninho, abrigar-se do sol e chuva, comer e dormir à sombra de suas copas.
Solitária, ali ficou, como quem a nos desafiar.
Solidarizo-me com árvores solitárias. Solitária é diferente de sozinho.
Todos temos nossas doses necessárias de solidão. De silêncios, de recolhimento, de contemplação de nós mesmos, vistos do alto de uma árvore.
No mundo há muita agitação, muito barulho e ruídos emocionais.
Precisamos resgatar esse tempo de deserto, de busca interior e de acolhimento da vida como ela se apresenta.
Precisamos de pausas, de solidão conosco mesmo, para que possamos nos escutar.
Em alguns fecundos momentos precisamos nos desconectar de tudo que nos distrai, para conectarmos a imensidão infinita de nosso ser.
Muitos temem esse momento. Temem desligar o som, apagar a TV, desplugarem-se do celular, ou estarem sem bateria no micro.
Temem os silêncios que falam. Temem os sons do interior.
Mas, sem esse tempo de parada como aprumaremos as velas?
Por isso árvores solitárias, falam-me tanto!
Elas remetem à saga de viver, que em muitos casos será uma conversa, uma história de nós, conosco mesmos.
No limite, estamos todos solitários. Que não significa sozinhos, volto a dizer.
Significa que no fundo a vida é nossa história, escrita com traços individuais, embora num livro coletivo.
No fundo, somos peregrinos caminhantes de nós mesmos. E isso pode ser muito bom.
Nos dá um senso de autonomia e liberdade inigualáveis.
Nos torna responsáveis pelo nosso vir-a-ser no aqui e agora.
Tempos de pausas nos fazem elevar o coração.
Mas, andam sendo raros. Enchemos nosso interior com todo tipo de pensamento que grita, que sufoca, que nos alucina e assombra.
São arrependimentos espelho, culpas peraltas, mágoas encardidas, invejas malditas e ressentimentos rebatidos.
Enchemos o nosso aparelho interior de todo tipo de ruído emocional e ficamos conectados às estações de muita agitação interior.
E, perde-se a capacidade de se assombrar com uma única árvore que sobreviveu à saga da soja. Sem nenhuma razão aparente, desafiando o destino que tolheu suas iguais.
Precisamos cultivar tempos de silêncio, que não são tempos de tristeza e angústia.
Nessa sociedade que vende felicidades sonoras, falar em cultivar tempos de silêncio soa estranho.
A pessoa chega à frente do mar, as ondas falam, mas ele não as escutam. Pois, seu aparelho de som está na máxima altura.
A pessoa chega numa mata preservada, mas não escuta os pássaros, pois caminha com fones de ouvido.
Em todo lugar tem algo falando, gritando, dizendo como ser ou não ser. Em todo lugar um monte de gente barulhenta, raivosa, cheia de suas verdades sobre nós, eles e a vida.
E, precisamos negar a isso tudo e achar nossa própria voz interior, calando as vozes que a nós chegam, seja da babel da sociedade, sejam de nosso coração ululante em pensamentos opressivos.
Paz. Sentir a paz. Esvaziar-se de si mesmo, do outro e da realidade, para deixar o sol aquecer o coração. Abrir janelas de si mesmo, deixando-se arejar pelas brisas aracatis do final da tarde.
Precisamos de tempos de só nós, conosco mesmos. Para que possamos tocar em nosso interior, lustrando-o para novos aconteceres.
Precisamos ser árvore de vida, mesmo em meio à morte de um só pensar, um só agir, do tipo soja transgênica e com agrotóxico.
Reaprender a ser, em meio ao não ser. Reaprender a sentir, em meio ao não sentir. Reaprender a ser bom, em meio à maldade.
Reaprender a esperançar a vida, no meio a tanta desesperança.
Reaprender a ouvir o outro, no meio do só falar.
Reaprender a ser de paz, em meio à guerra.
Nada simples. Mas, muito necessário para conservar a saúde mental, em tempos de tanto barulho emocional.
Aprender a esvaziar-se é fundamental para deixar entrar em si mesmo os sons e sentidos do silêncio.
Restauradores de nosso tecido emocional.

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