O Dia Em Que a Canção Parou o Tempo.

Era noite enluarada, daquelas de viola e poesia. Tomei um delicioso banho, fiz a barba, armei a rede na varanda do quarto e fui contemplar o luão.
Depois, começou a ventar, fazer frio e entrei.
A noite pedia música e cobertor de orelha.
Fui buscar minha caixinha de som e a coloquei perto do relógio de cabeceira.
Pluguei um pendrive com músicas em mp3 nela e tudo fez-se mágica e belezura.
Lua cheia, música, calor das cobertas.
O quarto, iluminado pela lua, ficava ainda mais aconchegante.
Ao longe, escutava sons acalentadores, de mãe ninando filho - filho birrento que não quer dormir.
Num estado de espírito elevado me deixava conduzir, como Platão por Sócrates, por Almir Sater cantando Viola Enluarada:
“A mão que toca um violão
Se for preciso faz a guerra
Mata o mundo, fere a terra
[...]
Quem tem de noite a companheira
Sabe que a paz é passageira
Pra defendê-la se levanta
E grita: Eu vou!”
Aos poucos fui adormecendo.
Na manhã seguinte, acordo sobressaltado com o som do chuveiro.
Viro-me para o relógio e ele marca 11hrs.
Fico louco, pulo da cama, tentando enxergar o sol, pelas cortinas da varanda.
Mas, tudo está nublado e chove muito.
Entro no banheiro e pergunto à esposa que horas são. Ela, sem entender nada, diz que são pelas sete e pouco da manhã.
Ufa.
Volto ao relógio da cabeceira, para checar se foram as pilhas que acabaram, e percebo que ao retirá-lo de perto da caixa de som amplificada, os ponteiros voltam a girar.
Então, não eram as pilhas.
Mistério.
Encosto-o novamente perto da Caixinha de Som de MP3 e os ponteiros param novamente.
Eureca!
O imã que tem no alto-falante da caixinha de som está interagindo com o ferro dos ponteiros do relógio.
E, era essa ação de um sobre o outro que imobilizava os ponteiros.
Segurem o tempo, a música chegou.

A MELODIA PARAVA O TEMPO.

Acabei de criar o sonho dos sonhos de todos os povos, uma máquina de parar o tempo.
Como queria parar o tempo com o meu filhote de quatro anos nessa fase.
Como queria parar o tempo quando visito meus pais na minha cidade natal.
Como queria parar o tempo quando estou agoniado com um trabalho para entregar e o relógio anda acelerado, contra mim.
Como queria parar o tempo para dizer os “eu te amo” que não disse, por não ter tido tempo.
Olho pra minha estante de livros, ao digitar essa crônica, olho para a pilha de DVDs, CDs, Discos que vou comprando e que não sei se ainda terei tempo de ler todos, ouvir todos, ver todos.
Sensação estranha a compreensão da finitude dos dias, do tempo, das horas.
Sinto-me que agora meu tempo se esvai numa rapidez impressionante.
Logo logo é carnaval.
Amanhã é o Natal que chegará.
Acho que é típico da meia idade essa sensação de tempo que voa.
Vamos nos sentido mais completos, plenos e queremos beber até a última gota de tudo aquilo com o qual cruzamos, e é justamente esse afã de ser mais que torna tudo tão mais rápido.
Nada mais é para sempre.
Vamos tendo a compreensão de que tudo passa, e passa rápido.
Na juventude parece que nos percebemos como eternos, imorríveis.
Agora, vamos nos encontrando mais em velórios do que em noitadas.
Quando alguém começa um papo assim: Sabe fulano.
Pronto, logo em seguida vem um “morreu”.
Mas, não pé de morte esse texto.
É de vida.
É da beleza de uma melodia que enganou um relógio e parou o tempo.
O amor para o tempo.

Numa pesquisa feita nos EUA perguntaram às crianças cujas mães trabalhavam fora qual sua percepção do tempo que as mães passavam com elas.
Paradoxalmente, o que definia a percepção do tempo não era o tempo real. Era o tempo simbólico.
Deixa eu te explicar:
Mães que só passavam efetivos 30 minutos com os filhos, por chegarem tarde em casa e os mesmos já estarem de pijamas prontos para irem dormir, tinham percepções do tempo que passavam com om filhos, ditas por eles quando pesquisados, um tanto maiores do que as obtidas por outras mães que chegavam em casa bem mais cedo.
Os pesquisadores identificaram que o traço comum que alterava a percepção do tempo das crianças, levando-as a registarem em suas respostas um tempo bem maior do que os míseros 30min, era o afeto a elas destinadas, no encontro das mães-minutos e seus filhos.
Naqueles minutos as mães liam histórias para seus filhos, penteavam seus cabelos, interessavam-se pelo que ocorrera no seu dia.
Aquele era um tempo do Kairós, tempo das coisas que valem a pena por elas serem vividas. Kairós é o Deus mágico do tempo, que vive em permanente oposição ao rígido Crhonos, Deus da marcação linear e sem compaixão das horas que passam, que restam.
Kairós é irmão de Eros. Deus do amor.
O amor subverte o relógio do tempo.
O amor seria como um imã que para os ponteiros do relógio.
Um abraço em quem se ama não pode ser cronometrado pelo relógio de Cronos, tem que ser pelo relógio de Kairós, que no limite, altera a percepção do tempo real.
Uma noite numa UTI pode ser pouco para Cronos, para Kairós é uma eternidade.
Não passa nunca!
Viajar para ver a amada e ficar com ela apenas um final de semana, pode ser pouco para Cronos. Para Kairós, em irmandade com Eros, aquelas horas vão se multiplicar, e o efeito delas perdurará por dias a fio, iludindo a realidade.
Parem o tempo, escutem a melodia.
Descobri então como lidar com o rígido Cronos que teima em querer que eu conte meus dias agora em décadas, em “entas”.
É trazendo mais Kairós e Eros para meu viver.
Kairós, o tempo oportuno, o tempo do afeto, o tempo das coisas que de fato valem a pena por elas viver. O tempo da contemplação, das delicadezas, da mística magia de ser.
Eros, o investimento afetivo que faço com esse tempo .
Parem o tempo.
Ouçam canções, deem-se abraços, beijos, cafunés. Escutem o amado. Pentei-lhe o cabelo, cocem suas costas. Ninem mansinho.
Parem o tempo.
Encoste o imã de seu coração no relógio de sua razão e iluda sua sensação de finitude.
Torne-se atemporal.
Segurem o tempo que quero descer para amar, para me doar em gestos de coletivo valor.

Olho para os livros aos montes que tenho e que talvez nunca os lerei.
Já não me aflijo.
Lerei os que quiser e no tempo que quiser, no meu tempo Kairós.
Ansiedade é a noção de Cronos sobre o tempo que resta.
Agora vejo que o tempo não voa na meia idade.
É falsa essa sensação.
O que voa é a razão que anestesiada por Cronos, violentada por ele, ano a fio, vai perdendo a beleza do Eros, do Kairós e tudo vai sendo coisificado, quantificado, racionalizado.
Matematicamente planejado e medido.
Vamos perdendo o entanto, os encantamentos, ficando ácidos, ranzinzas.
Lógico que há inúmeras exceções.
Mas, no geral, de tanta pancada vamos perdendo o brilho, a fé nas coisas simples da vida, a esperança em dias melhores.
E, é isso que ataca a percepção e tempo fazendo com a qual percebamos que passa muito rápido.
Não quero ser esse tipo de velho. Não quero viver cotando o tempo que falta.
Quero viver no tempo que tenho.
Quero mil anos em um, num dia vivido com gestos de amor.
De entrega.
Quero mil anos em um, num abraço apertado, em um banho juntos, em um encontro sob lençóis.
Quero eternidades agora, seja na contemplação de um por do sol, de uma flor, ou ao pisar no chão de estrelas.
Os jovens é que estão certo pela sensação de todo tempo que têm.
Só precisam saber disso e aproveitá-lo da melhor forma.
Já que tempo é diferente de relógio, como bem me ensinou a caixinha de som amplificada.
Percebe-se o tempo pelo imã do coração, e, ele pode ampliar ou retroceder, ou até anular o tempo vivido.
O coração é quem de fato marca nosso compasso, na música do viver.

Sobre radiolas, home-theaters e lutas greco-romanas.



Ele vivia jogado num canto qualquer. Não consegui conectá-lo na minha TV e o larguei por aqui.

Era um Home Theater modernoso, 6 caixas de som, para graves, agudos, médios e uma Central de Operações amplificada.

Mas, minha TV não tinha saída de áudio compatível, então, “danou-se”.

Até que um dia ouvindo um sonzinho de vinil, na minha radiola, na qual tocava uma música linda chamada Sem Fantasia, senti falta de uma maior potência.
Aí lembrei-me do velho “Home Theater” encostado. Vi que na traseira dele havia uma conexão OUT (tipo L e R) e que na traseira do Home tinha uma entrada IN L e R. Pensei, pronto, será que dará certo.
Com a ajuda de um cabo fiz a conexão.
E o som estalou em meus ouvidos com uma pureza digna de um DJ.

Parecia até outra música, dado a acentuação das notas que o Home proporcionava, sem falar que ouvir um disco de vinil já é uma experiência auditiva, para quem gosta de música, indescritível.
Fora a união perfeita, sacramentada por aquele cabo RCA.
Pensei que o cabo agiu como um preceptor, um condutor. Juntou os dois seres inanimados, numa articulação possível, que agora, como que por mágica, produzia algo maravilhoso, tirando o melhor de cada um deles.
O cabo foi a pedagogia possível entre eles.
Do grego pedagogia significa paidós (criança) e agogé (condução).

A criança tecnológica que é o Home Theater fora conduzida pelo cabo (agogé) até uma fonte de som que não pasteuriza e homogeneíza as notas e harmônicas, da velha radiola de vinil.

Foi um encontro pedagógico, um libertou o outro, um fez-se autonomia e protagonismo na vida do outro.

Estava indo palestrar num evento de preparação de coachs, dentro de um programa de trainee, quando me lembrei da história de Aristócles.

Aristócles teve esse cabo RCA na sua vida.

Alguém que o descobriu, o conduziu, pedagogicamente falando, e como seu preceptor o orientou na busca de novos horizontes.

Aristócles era um jovem taludo. Mais de 1,90 de altura e bem largo, tão largo que o chamavam com o derivativo do mesmo nome de quem chama um platô. Grande, alto e largo.
Ele era de Atenas, cidade grega, filho de família de classe alta. Um jovem grego.
Mas não queria saber muito de estudos, de poesias, de canção, artes, etc.
Seu negócio era lutar.
Ele gostava mesmo era de lutar.
Se naquele tempo antigo tivesse essas lutas moderna de socos e pernadas, tipo UFC, ele seria um dos seus campeões. Um Anderson Aristócles da Silva.
Ele foi campeão dos jogos olímpicos da Grécia antiga, da Região do Istmo. Algo como Série B das Olimpíadas de Atenas.
Já viram, o filme gladiador? As lutas corpo-a-corpo eram mais ou menos como aquelas. Era vencer ou...
E o Aristócles era bom naquilo.
Até que um dia os pais viram nele algo mais do que um lutador.
Embora ser lutador campeão tinha lá seu status.
Os pais viram algo mais, um potencial a mais no filho, algo que nem ele via.
Quem sabe viram o som que saia da velha vitrola que só precisava do Home Theater certo para melhor explorá-lo e fazê-lo desabrochar. Quem sabe?
Os pais juntaram suas economias e contrataram os serviços de um pedagogo. Um preceptor, condutor.
Quase como um personal-trainers do conhecimento.
Esse, também era bom no traçado, logo notou que seu pupilo era de movimento, e ao invés de ficar parado numa sala ensinando-lhe sobre as velhas línguas do mundo, sobre arte, sobre estéticas e coisa e mais, o chamou para com ele seguir pela Grécia.
Nascia ali um dos encontros entre trainee e coach, guri e guru, mais fecundos da história da humanidade.
Era o encontro entre Sócrates e Platão. Platão era o apelido que ele recebeu de ser forte, taludo, e alto como um platô.
Platão desenvolveu-se tanto na filosofia que sua obra é maior do que a do próprio mestre.
De Plantão, por exemplo, herdamos a Academia. É que Plantão comprou uma chácara, na saída de Atenas, chamada Jardim de Academus, e ali dava aulas aos seus discípulos.

Assim como a radiola, o cabo RCA e o Home Theater; nessa história há também três personagens: Sócrates, Platão e seus pais.

Todos nós em algum momento da vida precisou de um Sócrates, ou um Cabo que nos levasse de uma posição existencial para outra.

Quantas das vezes só descobrimos o que temos de melhor quando o outro nos orienta, nos conduz, e até enxerga potenciais que nós mesmos nem sonhamos que temos, como os pais do jovem Platão.

Talvez essa seja uma das causas mais nobres da humanidade, ajudar aos outros a encontrarem caminhos, sem caminhar por eles mesmos, como fez Sócrates com seu pupilo.

Ajudar às pessoas a despertarem seus potenciais adormecidos, ou aprisionados por tantas negações de si mesmos que foram recebendo ao longo da vida, talvez seja a mais digna das missões que por aqui teremos.

Cada um de nós tem um Platão em si adormecido. Tem um som com a mais alta qualidade musical preso, num vinil qualquer, que poderão vir a produzirem o melhor de si mesmos; desde que tocados com amor. Alterando as rotas de um destino quase sempre cruel.

Quantas pessoas com as quais cruzamos só precisam de uma oportunidade. De uma orientação, de um ensinamento, de uma sabedoria com elas compartilhada.

Pense nisso, você pode ser o Cabo RCA que fará soar o soma mais belo do outro com o qual cruzar.
Ou se r um /Sócrates que conduzirá com cuidado, talento e maestria, aquele que de teu lado se propor a caminhar.

Ou até os pais do Platão, que virão nele algo que nem ele via e souberam intervir em sua vida, tirando-o de um rumo pouco proveitoso e de morte, mais cedo ou mais tarde, certa.
.
Agradeço aos cabos RCAs que me conectaram a mim mesmo, ao futuro e aos outros que tive ao longo da minha vida.

Agradeço aos Sócrates que cruzaram meu caminho e com os quais tive a honra de caminhar e de ser conduzido.
Agradeço aos pais exigentes que nunca deixaram-me acomodar com as derrotas e ensinaram-me a chorar apenas uma noite e um dia, e a não ter pena de si mesmo.

Ensinaram-me a lutar, a melhor das lutas, não a do jovem Platão, mas a luta do bem contra o mal. Da preguiça contra a ação. Da fé contra a tibieza. Da esperança contra a negatividade. Do otimismo em dias melhores contra o pessimismo da realidade circundante.

Agora vou ouvir meu velho vinil de Belchior que embalado pelas caixas de som, potentes do Home Theater, mais parece que está vivo e ao meu lado.
Valeu cabo RCA. Valeu saídas IN e OUT sem as quais nenhuma conexão seria ossível, nem as nossas conosco mesmo.

Procure suas saídas OUT e as conecte em entradas IN de quem realmente valha a pena e que produza frutos.


E, fuja da vida fácil dos “ringues de luta livre”.

Nunca vi alguém “chegar à janelinha” sem esforço, dedicação, disciplina, horas de sono e acordando cedo.



Pelo menos os normais, como eu e você!

Conviver

Conviver é um verbo.
Que se conjuga em curvas, 
contorcionismos, 
desvios,
e flexões imperativas. 
É arte, nunca acabada. 
É aprendizado.
Colocado de lado, nos tempos atuais: 
velozes e furiosos. 
O conviver exige o transcender,
o voar.
Exige utopias de relacionamento harmonioso, cooperativo. 
Diálogos encantados com o mundo do outro
que lhe rodeia.
Conviver é um alicerçar de pontes de encontro,
um estabelecer de nexos de sentido
e vivências compartilhadas;
no lugar de um suscitar e um mobilizar 
de práticas de violência emocional
e desrespeito social - com as quais enguem-se os muros da intolerância.

Ser conexão para o outro.

Hoje, quando levava o carro a uma oficina, para soldar a base de um artefato que segura a banheira do JG, ali adentrou um carro com placa de Campina Grande-PB. Saltei logo um EITA!
Pronto, já éramos amigos.
Um casal de idosos bem simpáticos.
Eles levavam seu Fita Uno para trocar o óleo.
Migraram de nossa terra há três anos.
Moram aqui em São Sebastião-DF, numa pequena chácara na periferia.
Só eles dois, um com 78 anos e sua senhora com 76.
Sentem saudades da terrinha, mas os filhos cresceram e vieram para cá e eles os acompanharam.
Cabelos branquinhos, branquinhos. Deles exalava o aroma do amor.
Perguntei-lhes se eles tinham comprado a chácara.
Disseram que não, embora pudessem comprá-la.
Optaram por viver o resto das vidas deles morando de aluguel.
Pois, já estavam velhos, e não queriam mais acumular nada. E, morando de aluguel, estariam mais livres para ir a novos lugares, sempre que não gostassem de algo. O que ganham das aposentadorias era suficiente para manter "esse luxo".
Não queriam mais reter nada no nome deles.
Em Campina Grande, moraram ao lado de meu bairro da Prata, moraram no bairro Centenário.
Prata e Centenário duas metáforas de como viver.
Uma para o acúmulo de bens, posses, poderes e ostentação.
Outra, a Centenária, para o que de fato tem valor. Para o desprendimento, para a sabedoria de anos curtidos, gozados, sem muita mala para carregar por aí. Sem muitas tralhas emocionais que grudam qual imã, e escolhem frágeis corações para ali fazer morada, numa simbiose mórbida, e importuná-los vida afora. Que casal belo. Verdadeiros santos.
Ele falou que seu Fiat UNO é bem de família e o acompanha há uns 20 anos.
Fiz conexão com eles.
Eles tornaram meu dia melhor.
Sua senhora bem arrumadinha, com bolsa, batom, toda nos trinques. Ele, calça de brim, camisa engomada, barba feita. Voltei aos tempos bons aos ver tanta energia amorosa naquele casal.
Nenhum traço de rancor, de mágoa.
Eles encontraram um jeito de ser felizes, na simplicidade.
Perto dos filhos, mas sem sufocá-los.
Aí chego em casa e testo um aparelho que comprei para carregar meu celular no carro.
Descobri que ele tem dez conexões possíveis.
E, pensei, aqueles velhinhos usam algumas delas na sua presença no mundo.
Existem muitas conexões que nos aproximam do outro e que nos tornam melhores na convivência em sociedade.
São as conexões da cultura, da família, do lazer, do trabalho, da religiosidade, das causas político-sindicais-sociais, da arte, do esporte, dos valores e da natureza.
Quantas conexões são necessárias para estabelecermos pontes com o outro? Apenas uma. Então, por que negamos todas elas e preferimos buscar o que nos divide, segrega e separa?

Nessa manhã, naquela oficina, apenas a conexão da cultura foi suficiente para nos irmanar.  Para que eu aprendesse com o casal que vai chegando um tempo que vamos nos despindo de tudo que não faz mais sentido. 


Que teimamos em guardar, reter, apropriar e que nem nós mesmos sabemos para que.

Guardar mágoas encardidas, vinganças adormecidas, ciúmes a espreita, inveja impotente...

Guardar rancores, mal-humores, chatices de todas as formas.

Chegará o tempo, em nossa caminhada para o Ser, da doação; da oferta; da simplicidade; da humildade. 
Tempo no qual publicaremos nossa vida, no livro da humanidade, deixando impresso nele trechos que de fato valeu a pena por eles ter vivido.

Será que não está mais que na hora de vender sua casa? 
E viver do aluguel de si mesmo? Viver na provisoriedade de tempos eternos frágeis, de berços que ninam o infinito?

De parar com a busca frenética do acumulo de posses, do consumo de qualquer coisa, de cultivar falsas aparências, tentando ser aceito?

Será que não ser aceito, por ser você mesmo - autêntico e livre de tudo que lhe aprisiona, é tão ruim mesmo?

Deguste sua vida. Ela é sua, apenas sua. Esteja pronto a curtir ser quem é: nunca pronto, acabado, perfeito. Ao contrário, um mar de contradições, de dúvidas, de inquietações, de revoltas interiores.


Faz parte do crescimento do ser um certo tanto de angústia.

Viva degustando as essências de ser pleno, íntegro, amoroso - renunciando a uma vida de fachada, de violência de todos os tipos, de egoismo e desamor.

Carregando quase nada de malas materiais, e um tesouro de bens espirituais.


O jogo, no campo da vida, não é bem jogado procurando o que nos divide. Joga-se bem, ao se buscar o que nos une, e , por ali, fazer comunhão, num coletivo de sentimentos profundamente humanos e amorosos.

Aí sim, eu e você poderemos nos sentar ao redor do fogo e juntos contemplarmos o amanhecer de um dia mais fecundo que virá.

Na qual nascerá uma nova sociedade, como resposta aos limites da bestialidade que essa atual vem gerando.

A humanidade está grávida de amor. A geração poderá levar mais que nove meses, nove décadas, mais o novo virá.

Aí investiremos tempo no que realmente importa. no que realmente tem valor.

Em coisas hoje tidas como ultrapassadas, como se apaixonar por um casal de borboletas,

Poetizando a vida.


Na praça uma Mãe em bronze exalava um aroma de paz.
Muitos passavam e detinham-se, frente à beleza da estátua que mais parecia falar.
Corações contritos, emudeciam e oravam.
Na esquina, uma loja de cosméticos e cremes para cabelos, apinhada de mulheres que procuravam uma última loção para a virada do ano.
A vendedora notou meu assombro, olhando tantos e diferentes produtos, e disse-me: “mulher gosta de beleza...”
É, e homens também.
Todos gostamos, desde as cavernas com suas pinturas.
Que bom!
O comércio está em fervorosa pressa.
Afinal, faltam 8 horas para a virada e todos ultimam detalhes.
Saindo da loja, um tanto aturdido, com a visão de uma miríade de produtos que nunca tinha visto, cruzo com um vendedor de “pra que isto”.
Ele vendia um boneco que ao ser soprado, dele saía bolhas de sabão.
Observei-lhe por um momento. Nenhum cliente. Estava só.
Crianças rareiam nessa tarde do ano, no comércio.
Devem estar dormindo em casa, para que aguentem a virada acordadas.
Lá em casa nos davam uma tal de sangria. Uma mistura de vinho e água.
Pronto, dormíamos “embriagados”. O sistema era bruto.
Aproximo-me dele e falo: Quem inventou esse mecanismo diferente de soprar o balão, daqueles que conheço.
Ele estranha a pergunta e solta um:
Custa RS 6,00. Tem do Patati Patatá, do Bem10, da Galinha Pintadinha.
Compro a galinha, combina mais com as festas de final do ano.
O calçadão do Centro de Londrina está vazio, perto das 15hrs de 31/01/2013, coisa rara.
As lojas apressam-se em cerrarem as portas.
Todos correm.
Voltando para casa dos parentes, e chegando perto do carro, um senhor me aborda:
Gosta de poesia?
Trata-se de um tipo esguio, com olhar manso e penetrante, e com um pacote de panfletos em sua mão.
E, neles impressos suas poesias.
Digo que gosto e ele me dá uma.
Pergunto-lhe quanto é.
Ele me diz: qualquer coisa!
Qualquer coisa?
Quanta honra e dignidade daquele ser!
Sabe que o valor de uma poesia é o outro que dá, e o maior prêmio pra ele não é apurar dinheiro, é distribuir suas poesias, mesmo que seja ao preço de “qualquer coisa”.
Sinto isso com meus livros.
Fazia tempo que não ouvia isso. Pago-lhe R$ 5,00 por um panfleto poético, no qual suas poesias viajam mundo afora.
Ele me conta que atua “no ramo” há uns 20 anos. Sempre no mesmo ponto.
Que abandonou o curso de direito, e o movimento estudantil, e foi viver literalmente de poesias.
Chego em casa.
Aquele poeta causa turbilhões em meu coração, tenho que escrevinhar as letrinhas, debulhar sentimentos.
Olho para a mesa que espera a virada, agora distando 4 horas e vejo em que a combinação de guardanapos de papel de cores diferentes, um ramo de ficus, uma florzinha do campo violeta que brota na calçada, e um cordão, causaram na estética do belo, do arranjo dos pratos.
A beleza do místico, a beleza do corpo, a beleza da arte e a estética de um arranjo simples me falam à 2014.
Encantado com tanto belo, em formas e linguagens diferentes, leio uma das poesias do Fábio Evans, muito apropriada para o dia da muda:

"Confecção do Ser

A dor não diz bom dia
O cotidiano não diz bom dia
A esferográfica não diz bom dia
O granizo do seu beijo não diz bom dia

Quem diz bom dia
É a poesia
Curando a dor
No cotidiano de luas
Esferográfica testemunha
Do granizo
Das bocas nuas"

A poesia elevou meu coração. Vejo luas cheias estimulando almas cansadas. Eternizando momentos, falando mansinho: Bom dia!
Obrigado poeta de esquina de rua de cidade grande. Que sabedoria!
A poesia é quem transcende a realidade.
A poesia é quem nos liberta das amarras de destinos partidos, de vidas aflitas, de dias sem luz.
A poesia chega, invade, faz-nos orar, faz-nos procurar um produto de beleza para nos sentirmos melhores; faz-nos arrumar uma mesa com ramos de flores e folhas, moldando num simples guardanapo de papel um infinito particular.
A poesia ama, perdoa, faz-nos soprar bolhas de sabão numa manhã de sol.
E, ao acompanhar a trajetória das bolhas, brincamos de adivinhar para onde irão ao sabor dos ventos. Não nos cansamos de admirar sua formosura.
Cultue o belo em 2014.
O belo é irmão do bom, primo do justo, filho do ético.
Cultive um jardim interior, pare mais para contemplar florezinhas, beija-flores, entardeceres.
Luas cheias de amor.
Traga um raminho de folhas e algumas florezinhas do campo e enfeite seu ser interior, e seus amados.
Mire seu olhar, vez por outra, no eterno que mesmo entre brumas difusas faz-se presente, às vezes até sem ser notado.

"Quem diz bom dia
É a poesia
Curando a dor
No cotidiano de luas
Esferográfica testemunha"

Se tiver dúvida, não desespere.
Todos temos as nossas, só que fingimos melhor, e em alguns momentos.
Se tiver decepções, ou causar, perdoe-se primeiramente. Depois tente restabelecer as conexões desgastadas, usando a força do amor.
Nada dura mais do que que um abraço amoroso, nada acalma mais um ser amedrontado do que um: eu gosto de você, ou, eu torço por você.
Se andas triste, pessimista com o que vem por aí. Lembre-se da poesia, ela cura a dor e anuncia coisas novas e a boniteza da vida.
Se nessa noite sente-se deslocado, estranho, e quer fechar os olhos e só acordar amanhã, tenha calma é só um rito universal. Muitos também sofrem nessa noite.
Saudades, lutos, incertezas, ansiedades... tudo vem embalado em retrospectivas nem sempre fáceis de serem processadas e relembradas.
Repito, tenha calma, você não é o único. Apenas acredite: o belo vence. O bom sara, liberta e transcende.
O raminho de folhas e as flores transformarão você num arranjo único.
Assim será em sua vida, quando menos esperar flores e ramos estarão novamente a enchendo de sentido, de luz e esperança em recomeçar, de soluçados sobreviveres.

Sobre bijus, banhos, inseto tipo abelha e carneiro.






No primeiro dia do ano, acordei indisposto, como muitos. Com fome, e sem querer comer o "Restô de Ôntem", intervi quando vi minha sogra jogar um Cavaco Chinês (veja foto do vendedor que fiz) no lixo.
Ela alegou que ninguém o comera e que estava quebrado. Opa!!!, falei, eu quero! Ela olhou-me com ar resmungador.
Frustrei seu desejo de colocá-lo no lixo, e, não se frustra desejo de sogras, logo no primeiro dia do ano.
Peguei aquele alimento, mais parecido com um biscoito - por aqui chamado de Biju e fui para o carro esperar a esposa e filho.
Fui retirando do saco plástico os restos de Biju, comia qual um manjar dos Deuses. Delícia.
Trata-se de um alimento gostoso, com poucas calórias, quase um vento, e é muito frágil. Se não souber retirá-lo do saquinho plástico ele vai se quebrar em mil pedacinhos.

Tal qual os relacionamentos.

Primeira lição: cuide do outro como quem come um Biju. Lembre-se que ele, embora quebrado, sem forma, pronto para ir para o lixo - segundo alguns, ainda assim poderá te encantar, surpreender e ser sustento para tua alma cansada. Pessoas são predestinadas a serem bijus: doces, puras, frágeis, com a dose certa das calorias do ser. Elas, pessoas-biju poderão matar tua fome de sentido, de presença e de amor.

Continuei pelo meu primeiro dia, agora chegando na casa de Dona Zilda, uma vovozinha que nos acolhe há uns 20 anos aqui em Londrina, cuja filha é amicíssima de minha esposa. Ali, o meu recanto é o quintal. Quado chego vou num bar da esquina, compro 1/2 kg de costela no bafo, umas cervejas, e ali atrás faço a festa, enquanto o almoço não sai e o pessoal bota a conversa em dia.

Hoje o dia estava quente e estava abafado, embora ontem á noite tivesse caído uma tromba de água aqui em Londrina-PR.
Então, peguei uma vasilha de sorvete e a enchi com água da torneira. Aí comecei a tomar "banho de cuia", como fazíamos no Nordeste.
Que banho divino! Aquela água me lavava de toda mágoa encardida.
De toda decepção mal curada. De toda culpa encrustada. Descia a água e meu ser lentamente ia se revigorando.
E, não era da ressaca, era de mim mesmo.
Uma sensação gostosa de quem se lava pelo interior. Essa foi minha segunda lição, começar o ano despindo-se de velhas fórmulas, de velhos comportamentos que de tão rotineiros acabarão por virar uma espécie de falsa-pele. Agora dissolvida pela água.
Entre uma cuia de água e outra, ia me sentido mais belo, puro e revigorado para novos desafios.

Precisamos nos levar para tomar um banho de cuia, vez por outra. Precisamos de encantamentos, da delicadeza de uma água descendo pelo corpo e tirando dele o calor excessivo. Tirando a pressão. Precisamos dessas paradas para diminuir a pressão do dia a dia.

Agora, refeito pelo banho, vou fazer uma das coisas que mais gosto, fotografar. As primeiras fotos de 2014.

Acho uma espécie de abelha, de olhos verdes, polinizando uma flor. Miro emocionado a lente, e torcendo que ela não voe, e clic clic clic.

Que linda que era. Uma bênção encontrá-la, agora eu estava pronto para vê-la, estava puro, limpo pelo interior.

Ela revelou-me a terceira lição. Polinize. Leve felicidade, paz e perdão para todos com os quais cruzar.

Que felicidade daquela flor de Urucum, polinizada por aquele tipo de abelha, com seus lindos olhos verdes. Urucum é de que é feito o colorau.

Colorau é um tipo de tempero que deixa tudo mais gostoso, muito usado no Nordeste.

A abelha poliniza a flor de urucum que nos dá o colorau que tempera nossos alimentos. Não temos ideia do efeito de nossos atos na teia da vida. Não sabemos o efeito futuro de um gesto polinizador de nossa parte na vida dos outros. Podemos estar propiciando as condições ideais para que do outro surjam flores e frutos - tal qual faz aquele belo inseto.
Ele não tem ideia da força de seu gesto. Eu, quando tempero uma peixada com o fruto do urucum tenho.
Assim é conosco. Precisamos de pessoas-polinizadoras em nosso viver. Pessoas com as quais ao cruzarmos, sairemos melhores, mais fecundos para a vitalidade do vir-a-ser. E, também podemos ser polinizadores para os outros, mesmo que sua flor esteja feinha, estragada pela vida, podemos germiná-la com nosso material genético - cheio de amor; fortalecendo sua existência e engravidando-a de novas possibilidades, deixando cada pessoa com as quais cruzaremos em nosso viver, grávidas de potenciais de infinito do ser.
Fecundando-as com o pólen do otimismo, perseverança, fé, bondade, justiça, mansidão, ética e cidadania. As flores e frutos do jardim da humanidade agradecerão.

A mesa está posta. Mesa posta é lugar de encontro, de celebração, de diálogo. Para mim é feito especialmente um carneiro. Um carneiro temperado com ervas aromáticas, e o colorau da abelha que a pouco o polinizou. E aí vem a quarta lição. Faça mimos para o outro. Agradeça, seja grato a quem lhe fez algo de bom. Reconheça o outro. Compre um pernil de carneiro, tempere-o com ervas aromáticas, só para dizer-lhe o quanto ele te é importante. Lembre-se de que não é nunca demais dizer eu te amo. Você é importante para mim. E foi assim que me senti: visto, valorizado. Edna, a amiga de minha esposa, fez aquele carneiro para me agradar. Para me alegrar no almoço de início do ano. Ela falava com tanta ênfase do carinho e cuidado com o molho, com o tempero de véspera, que eu nem precisaria comê-lo, minha alma já estava saciada de tanto carinho recebido.
Faça à sua maneira um carneiro para quem gosta. Para quem é importante em teu viver.
Andamos carentes de nos sentir importantes, não no sentido material, mas importantes no sentido afetivo. De nos sentir amados, acarinhados. Andamos muito secos na correria dos tempos atuais e luta pela sobrevivência. Estamos desaprendemos a dar carinhos ao outro. A fazer agrados, e pequenos gestos de entrega e doação para ele.
Fazer o outro sentir-se gente, valorizado, reconhecido exige depreendimento, renúncia, altivez. Exige esforço.
Amar exige esforço.
Exige preparar de véspera o carneiro, deixá-lo temperando em vinha d´alhos.
Exige buscar ervas aromáticas que combinem com o gosto e faze rum suculento molho para assá-lo nele.
Exige treino, dedicação, comprometimento com o gesto.
Mas, sobretudo, exige verdade e genuína oferta de si mesmo.
Quem estará esperando esse prato em seu viver?
Quem precisará sentir-se vivo, presente, amado em tua história de vida?
Quem estará sedento e com fome de carinho, afeto e sentimentos de cumplicidade,
tão carentes em tempos de cataratas das retinas da alma,
que causam a indiferença para com as coisas do outro - tão próximas e belas que acabamos por tê-las como invisíveis ou que não necessitam e carecem de um:
Muito obrigado. Ou um:
Valeu por existir!.

Que biju, banho, inseto de olhos verdes e carneiro deliciosos!

Que primeiro dia do ano tão pleno em diálogos de meu ser que ora compartilho.

Feliz 2014!

Vidas e partidas, partidas da vida!






Meus vizinhos da direita chamam-se Aguinaldo, Marinalva e o pequeno Nicolas. Eles moram naquele barracão de madeira. Aguinaldo é pedreiro e está construindo aquela casa.
Conheci Aguinaldo quando desesperado com minha cerca, dos fundos de meu lote, que ameaçava tombar, buracão abaixo - uma cratera aberta entro me lote e o dos fundos, aberto por um insano vizinho.

Aguinaldo me ajudou construindo umas colunas, no meu lote, amarrando minha cerca nelas para melhor fixá-la. Evitando que tombasse vala abaixo. 

Num dos finais de tarde e boca da noite, na qual ele em casa trabalhar nas colunas, convidei-lhe para jantar conosco no Natal, junto com sua esposa e filho.

Ele topou.

Dia 24/12, aguardavam-lhes ansioso. Durante a tarde, fui umas três vezes na obra e não os vi. 

Será que eles tinham desistido, diante de tanta pobreza e simplicidade de suas vidas, talvez envergonhados?

A condição de extrema pobreza de um simples pedreiro e sua família é inconteste, pois nem lugar para ficar no DF eles têm, vieram do interior do Goiás, e para economizarem moram num barraco, na própria obra, na qual é um dos pedreiros. 

Eles são de uma pequena cidade perto de Pirenopólis-GO, que segundo os mesmos nem consta no mapa.

Perto das 21hrs eles chegam. Meu coração alegra-se.

Desconfiados, tímidos, tal qual gado que entra em brete de abatedouro eles vão se enturmando.

Aos poucos as crianças começam a se divertir, sempre elas as primeiras.

Entre uma cerveja e outra Aguinaldo e esposa contam sua vida.

Vida castigada, mas feliz, como a de tantos humildes brasileiros.

Aguinaldo diz que a construção civil foi um achado, num momento que a fazenda na qual era vaqueiro despediu funcionários, ao comprar máquinas, e ele foi um deles.

Veio trabalhar de auxiliar de pedreiro. E, como sua visão é das coisas do belo, do harmônico, logo foi se destacando na função de ajudante de acabamento, de ladrilhos e revestimentos para banheiro.

Aguinaldo daria um excelente fotógrafo. 

Com pouco tempo já era o pedreiro titular, desse rigoroso, caro e difícil serviço de uma obra: chamando, não sem razão, acabamento.

Quem já construiu sabe o quanto se sofre ao ver um piso, ou uma pastilha de vidro - cara pra chuchu, quando assentados, mal alinhados.

Aguinaldo me diz que é bom das vistas. Que olha e vê onde será o reto, e segue as vistas.
Fiquei com vergonha de ter dito, dias antes quando chegara enfezado do trabalho, que uma das colunas aparentava estar torta. Torto era eu.

Hoje fui olhá-la novamente, botei um prumo - objeto para aferir alinhamento verticais, e pimba!
Nunca vi algo mais perpendicular, mais reto, num ângulo de 90 graus com o solo. Perfeita.

Voltando à Ceia, agora bem mais à vontade Aguinaldo me falou que passa alguns meses nas obras, finalizando-as e volta para a roça.

Ali é que é feliz. Volta pra casa de familiares e eventualmente é chamado para amansar cavalos e bois, touros não.

Pergunto logo de cara porque touro não, ele diz: Touro não amansa é brabo por natureza.

Ahh, fiz cara de quem entendeu.

Ele me conta que é o melhor "amansador" de cavalos da região.

E sai contando causos e causos dos cavalos que amansou, tido como impossíveis por muitos vaqueiros experientes, e ele os adestrou.

Sua esposa vai reforçando, agregando mais detalhes às histórias, sabe o nome de todos eles e fala orgulhosa, homens são muito diretos em suas narrativas orais.
Ela se lembra de muita coisa, e ao contar, revela toda admiração por esse trabalho do seu marido - um amor de apreço (leia numa das crônicas do blog http://bodecomfarinha.blogspot.com.br/ sobre o Amor de Apreço, raríssimo aos casais nos tempos atuais).

Ele me diz que trabalha sozinho. Não gosta que ninguém fique olhando ele amansar os bichos. É só ele e eles.

Diz que um dia tava dando errado, e já passar amais de 15 dias, ele costuma amansar o bicho mais tinhoso - tirando os touros, em uma semana. Um recordista nessa arte.

Aí ele foi falar com o dono que não tava dando certo. Num é que o dono se entregou e disse-lhe, sem pensar: "É, eu tava vendo".

Ele então deu uma gargalhada e disse-lhe: " Se tu estava vendo, era por isso que não funcionava. Não pode. Manda energia ruim. Que no íntimo torce pelo bicho. Trabalho só."

Uma semana sozinho e o bicho brabo tava dócil que uma criança nele montava.

Perguntei-lhe como um trabalho tão bacana não tinha lugar numa fazenda? 

Ele me falou que os tratores e motos tomaram o lugar das éguas, jumentos, cavalos, bois de tração.

Fiquei pensando, esse rapaz só falta quem o veja.

Ele fala dos animas com tanto carinho, com tanto prazer, que imagino as cenas como as de um filme ou livro que li, chamado do Encantador de Cavalos.

Ele disse que não bate nos animais. Apenas usa uma corda e seu olhar. 

Fica olhando para o bicho, olhando, andando puxando-o bem devagarinho com a corda, para ele adquirir confiança.

Olha, olha, olha e um belo dia ele caminha sozinho e o animal o segue. Tal qual o cachorrinho doméstico.

Eu falei, mas isso é feitiçaria.

Ele e ela riram à vontade.

Riram de mim, de minha pouca sabedoria, isso é amor. Amor que se transmite no olhar, é telepatia entre animais que se reconhecem e se amam.

Ahh, que noite de natal linda.

Quanto ensinamento Aguinaldo e Marinalva me trouxeram.

Como seria bom se pais, educadores, gestores educassem pelo olhar, pelo caminhar puxando uma corda, ao seu lado - devagarinho, sem queimar etapas.

Acreditando que mais cedo ou mais tarde ele ficará dócil. Perderá o medo, a ansiedade, a força que quem teme tem de repelir a tudo que lhe poderá fazer crescer, refugiando-se na caverna do ser.

Perguntei quanto rende uma amansada de cavalo. Ele me falou que se for para cavalgar, para servir de monta é mais barato.  Meio salário mínimo, por 15 dias de serviço.

Mas, se for para as coisas da roça, para carroça, tração, ou arado, é mais caro, custa um salário e é um trabalho de um mês.

Fiquei mais uma vez pasmo. E perguntei-lhe o porquê da diferença. Ele me disse que nos segundo caso o animal precisa aprender a se esforçar, até a sofrer, à lida dura.
E, demora mais esse tipo de aprendizado.
Demora, mas aprende, então custará mais. 

Ca ca ca, agora fui eu que ri de tamanha sabedoria dele.

E não é mesmo. 

Um aprende para o lazer, para cavalgar.

Outro tem que aprender para o trabalho, e são muitas ordens que precisa assimilar e desempenhar. .
Tal qual nós humanos.

À minha frente não estava mais um pedreiro, um miserável da vida, não era mais Aguinaldo - o Pedreiro. Agora era Aguinaldo, o ser humano, o amigo. 

Estava um orgulhoso ser humano.
Neta, minha "empregada doméstica" tudo ouvia, reconhecendo-se na luta do casal. 
Ela, também é uma batalhadora da vida e do viver. 
Faz Enfermagem, numa faculdade particular, investindo todo seu salário no sonho de uma vida melhor. 

Sonho de vaqueiros de vidas partidas, de um dia partir de sua vida tão difícil,
para outra de melhor posição social.

Partidas da vida.

Neta, estava literalmente encantada com as histórias do casal. 

Com Aguinaldo contando seus casos e sorrindo aberto e despudoradamente.
Um sorriso de tão orgulhoso com tudo que fez, pela vida vaqueira e pedreira afora, com uma auto-estima tão boa, que nenhum momento botou as mãos na boca, para esconder a ausência dos dentes centrais.

Ele e ela estavam ali, plenos, completos, dignos, autênticos, íntegros, apesar de tão pobres.
Pobreza não é sinônimo de sujeira, burrice ou falta de caráter.
Pelo contrário, ali, à minha frente, um casal mais satisfeito com suas vidas, do que muitos em condições melhores.

Seu filho, o Nicolas, com um sorriso angelical, expressava todo o amor que recebe e sente de seus pais.

Que criança meiga! 

Imagino-a brincando com os tijolos e areia da construção. Dias depois dessa crônica, o meu filho a ele se juntou, entre tijolos, madeiras e fizeram a festa do brincar.

Essas pessoas só precisam de oportunidade, de uma fazenda qualquer que aproveite seu potencial de vaqueiros. Ou de uma construtora que pague decente e que invista neles.  

Contudo, pagam mal e os exploram.  Ele me relatou vários trabalhos sem receber, inclusive dos adestramentos. Relatou sem mágoa, vida que segue.

As pessoas para as quais prestou serviço as olham como miseráveis, invisíveis, como aquele casal que um deles não tem os dentes da frente.

Não param para contemplá-los em sua grandeza, ouvi-los em sua sabedoria, em quanto nos podem ensinar.

Encantar cavalos é uma arte, um dom, algo precioso e minha vida, na noite de natal, foi invadida por esse tesouro. Tem gente que ganha uma nota com isso. Gente que foi vista. 

Perguntei-lhe se ele como nunca caiu de um cavalo e monta bem não gostaria de participar de rodeios. Ele me disse que nem de rodeio nem vaquejada, tem pena dos bichos em rodeios, indomáveis, terem  em seu lombo alguém querendo ficar ali por mais tempo.
Só piora a situação arredia deles.
E, das vaquejada tem pena da derrubada pelo rabo dos animais, muitos dos quais perdem o rabo da força do tranco, ou até morrem, dias depois pelas consequências do baque que tomaram.

Que sabedoria!  

Que olhar para os animais divino! Ele conversa com eles, agora não tenho mais dúvida.

Andamos precisando de alguém que conversem conosco assim.
Sem olhar o que aparentamos, mas o que temos de melhor no interior e temos dificuldades de expressar.
Andamos precisando de amansadores: 
ser amansado, ser encantado, voltar a ter a docilidade que já tivemos.
A vida vai nos embrutecendo.
Precisamos de Aguinaldos em nosso viver, pessoas que com um olhar de ternura, de docilidade, digam-nos que nos amam. 
E quem não precisa de encantadores de almas em seu viver?
Quem não precisa domar o homem ruim que habita, juntamente ao bom, em todos os corações?
Quem não precisa se sentir útil novamente, ter seu potencial revelado, sair do estereótipo de "sem solução", "indomável", para o de amigo, amoroso, parceiro e de boa convivência, quem?

Precisamos de Aguinaldos.

De seres, pessoas que nos levem a sempre sermos melhores, melhores até do que achamos que poderemos ser.






Desapegue-se!


A cerca lá de casa estava pra cair, ribanceira abaixo.
O vizinho do lote de trás cavou muito, as divisas entre nossos lotes, e fez um abismo do lado dele.
De meu lote para o dele, formou-se um buraco de 4 metros.
A cerca que divida os lotes agora tinha como companhia, do lado direito, um abismo perigoso.
Perigando cair buraco adentro.
Preocupava-me o JG brincando perto dela.
Então, fui pedir ajuda a um pedreiro que trabalhava numa obra ao lado de minha casa para avaliar a situação.
Temia que a cerca despencasse, e o vizinho que fez o buraco entre nossos lotes lavou as mãos.

O pedreiro chegou em casa e pensou, pensou, elaborando sua análise.
Depois deu seu parecer com segurança: "Seu Ricardo, não bastará encher os buracos do pé da cerca com cimento, para melhor fixá-la. Será preciso fazer umas quatro colunas, para amarrar bem a cerca nela, fixando-a definitivamente."

Senti firmeza no veredito e empeleitei a obra.

Todos os dias, a partir das 17hrs, quando ele largava a obra vizinha vinha fazer as colunas, enquanto tinha luz do sol.

Um dia saindo para o trabalho, vi na construção ao lado roupas estendidas, uma senhora e uma criança.
Chegando do trabalho, perguntei a ele quem eram.
Ele me disse que era sua esposa e filho, o Nicolas.
Disse-lhe que podia traze-los para ficar na minha casa, enquanto trabalhava, e o seu filho brincar com o meu, enquanto ele tocava a obra das colunas.
E assim foi feito.

Ontem à noite os meninos brincavam como se fossem amigos de muito tempo. Crianças têm dessas coisas.
Dei a sua mãe uns brinquedos que o JG já não brinca: um velocípede, um carrinho de empurrar, uns bonecos.
Precisava ver a festa que o Nicolas fez.
Agora, festa mesmo, ele fez quando dei aquele estojo que vem um monte de canetas para pintar.
Achei um intacto, dos tantos que o JG tem, juntei umas folhas de papel e dei a sua mãe.
Ela olhava maravilhada para aquele estojo.
Pela sua carência, talvez fosse a primeira vez que visse tantos lápis, gizes de cera, texturas e pastéis para desenhar e pintar.

Aproveitei e os convidei para a Ceia de Natal dessa noite.

Aí foi a vez do pedreiro Marcos abrir um sorriso do tamanho do céu.
Com dentes faltantes, pele curtida pelo sol, a possibilidade de passar um Natal em melhores condições, do que num barraco de obra o encantou, a ele e sua família.

E a mim.

Disse-lhe que a ceia será meia noite, mas que ele chegasse às 21hrs para começarmos os trabalhos na churrasqueira.

Não temos ideia do que é pobreza.
Não temos ideia do quanto as coisas que para nós são mais simples de conseguir para eles são tão difíceis.
Ideia da alegria de uma família carente ao receber um brinquedo que não usamos e está largado num canto qualquer.
Ou ser convidada para dividir nossa mesa.
Tem servidores domésticos que nunca almoçaram ou jantaram com seus patrões.
Ou pior, que nem recebem seus direitos trabalhistas.

Tem pedreiros que tocaram uma obra inteira e nunca receberam de seus proprietários um único churrasco de reconhecimento.

Voltando à cerca, aquele casal será o "José, a Maria e o Menino Jesus" que visitarão meu lar nessa noite.

Eles sabiam o que era pobreza. E Ele nasceu numa estrebaria para nos ensinar que o mais importante no Natal é o amor.

Não são presentes, luzinhas, casa pintada, peru recheado.

Amor. Só amor.

"Eu vos dou um novo mandamento: Amai ao próximo como a si mesmo".

Então é Natal!

Num olhar a um menino, um encontro com Deus.







Observei-lhe durante um bom tempo. 
Sentado em sua cadeira de rodas, 
brincava sereno e feliz com o seu ioiô.
Seu tio, ao lado vendia queijos e galinhas.
Ele absorto em suas fantasias de brincante.
Feliz, apesar da condição de cadeirante...
Não vi uma ponta de reclamação, 
um choro ou um lamento.
Ele e sua resistência de um pequeno super herói.
Que dignidade infantil imensa naquele menino.
Orei ao Senhor dos Infinitos ao vê-lo.
Sua paz invadiu-me, consolou-me, aquele menino é um anjo.
Foi meu presente de natal.
Somos fortes e mais que vencedores.
Nada poderá nos aniquilar, nem a doença, nem a dor, nem a limitação física.
Somos maiores que o luto.
Somos belos e místicos.
Enganamos sofreres, 
anestesiamos dores, 
superamos horrores.
Como são plenos e sábios, também, aqueles que não o deixaram em casa e o trouxeram para ver a vida passar.
Para acompanhar as vendas, num dia de domingo, numa banca simples de feira livre.

Emocionado, chamei um vendedor de balões e disse-lhe: 
"Presenteei o garoto com um balão. 
Não diga que fui eu."

Eis que o garoto troca o Ioiô pelo balão, e continua embevecido olhando o horizonte, olhos meigos, 
de aceitação, 
de gratidão por viver.
Sonhando com a esperança, que deve estar dançando com o otimismo, e à sua frente.

Quantos por muito menos desanimam de viver?

QUANTOS...?

Os 4 "As" do Amor: O Apreço



No quarto e último texto da série A Sustentabilidade do Amor,

vou conversar contigo sobre o Apreço.
A Viga do Apreço.
Se você não leu os textos anteriores (o que eu recomendo) 
comparo a sustentabilidade do amor a uma teia,
como a da foto acima,
da qual dela projetam-se de forma radial
quatro linhas mais grossas,
quase como se fossem umas vigas.
A primeira viga amorosa é o Apego.
Depois tem a do AfetoAfago e o Apreço.

Nesse texto falarei sobre a viga do Apreço.

Voltando à caverna ancestral aonde um dia habitamos. O apego é a caverna; o afeto é o olhar juntos o crepitar das chamas; o afago é não deixar a fogueira morrer, indo buscar lenha para abastecê-la.

E o que seria o amor de apreço?

Qual o papel na sustentabilidade da teia amorosa que a viga do Apreço possui?

Vou te convidar a retornar pra caverna ancestral e ali refletirei sobre o apreço.

O apreço é a identificação com o que temos como valor. 

Os valores daquele povo nômade eram a caça, o fogo, a arte, as lutas pela sobrevivência.

O apreço dava a liga àquele povo, criava identidades e idiossincrasias.

Amor de Apreço é o mesmo de amor de ágape. Amor à humanidade, ao que nos faz irmãos e gente que comunga de valores parecidos.

Temos apreço por todo aquele que possui um repositório de valores compartilhados conosco, e que nos fazem sentido.

Na caverna, todo aquele que se dispunha a fazer o fogo da noite era objeto de apreço. 

Todo aquele que substituía o pintor ausente ou falecido, idem.

O apreço é a consideração e estima que temos por algo ou alguém. Você pode nunca ter visto uma pessoa, nunca ter convivido com ela, mas ao saber do que ela faz, e caso bata com seu mundo de valores, você nutrirá um apreço por ela.

Mesmo que não a conheça e que more em outro país.

Apreço tece redes, pontes entre seres humanos, que se sentem solidários entre si.

São cúmplices de gostares, quereres, prazeres. 

São irmãos universais.

Este é o amor de apreço.

Amor de compaixão, de fraternidade, de empatia para o genuinamente humano, em todos os cantos do planeta, tão parecido conosco.

Quando nos falta apreço começamos em embrutecer. A perder nosso senso de coletividade, de comunhão, de identidade planetária.

Uma pena que muitos perderam o apreço pela natureza.

Ou, pena maior, pelo o outro.

O apreço torna pequena qualquer distancia, não existe o longe para quem aprecia e compartilha dos mesmos ideais.

Apreço é valor. Em que botamos valor nas coisas que nos cerca.

O que valorizamos e por ela lutamos, e caso necessário, até morreremos.

Onde habita os tesouros de nosso coração, aí habita nossos apreços.

Pessoas para as quais nutrimos apreço temos com elas uma imediata identificação. Ela pertence à nossa tribo, muito mais que cultural, à nossa tribo existencial - que não tem haver com geografia ou segregação cultural.

Isso não é apreço. É egoismo, quando nos protegemos em nossa própria cultura para nos afastar das outras. 

O apreço é uma viga que nos relacionamentos estabelece as pontes de significado, uns com os outros.

Num casal quando falta apreço, sobra cobranças, mágoas recíprocas.
O outro deixa de ser apreciado, valorizado, admirado.
Na vida corporativa quando falta apreço, sobre insatisfação com o trabalho.

O apreço é o que nos faz caminhar juntos nas manhãs vindouras em busca de um outro mundo vindouro.

O apreço é o que nos faz amar o outro, só por ser de nossa mesma espécie, mesmo que o tenhamos como "diferente" de nós mesmos.

Assim sendo, o apreço elimina as diferenças, preconceitos de qualquer espécie, nos torna mais humildes e abertos ao outro.

Na hierarquia das necessidades de Maslow, no meu entender, o apreço é o último de grau na evolução do amor.

É o degrau do se sentir realizado consigo mesmo, auto-motivado e realizado. Pronto para diariamente fazer acontecer novas realidades - transformando-as por apreço, no lugar de ficar só reclamando da situação; ou na posição de vítima.

Seres que mudam-se a si mesmo, da forma pela qual reagem ao que lhes fazem infelizes.

Ou mudam ao que lhes incomodam e lhes entristecem.

Ou mudam-se para longe daquilo que os diminui, partem em busca de novas e desconhecidas possibilidades do ser.

Das vigas da teia da sustentabilidade do amor, quando a do apreço está corroída, enfraquecida, gasta, a relação entra no modo "piloto automático".

Há espaço para acúmulo de ódio, mágoas. 
Ressentimentos e resignações tomam o lugar do antes admiração e valor que atribuíamos ao outro.

Um dia cheguei para dar aulas e meus alunos não estavam na classe. Esperei até as 20hrs quando um deles chegou e disse-me que havia sido mudado a sala.

Caminhei com ele até a outra sala.

Ali, esperava-me todos em festa, comemorando meu aniversário.

Recebi uma overdose de apreço. Ele valorizaram o esforço em conduzi-los na jornada pedagógica e demostraram sua estima e consideração para com seu mestre.

Outro dia, reclamei que ao escrever meus textos as muriçocas me comiam vivo.

Uma amiga mandou uma mensagem: "Experimente um repelente."
Uma mensagem tão simples, nela continha todo o apreço a mim dedicado.
Senti que meus textos eram importantes para ela.
Havia identificações.
Que ela os apreciava a ponto de me fornecer uma dica, em empatia, de como diminuir o incômodo com esses chatos pernilongos.

A viga do apreço tem sobre ela uma mística. Ela, caso exista, consegue ir fortalecendo as do Afago e do Afeto. Fazendo-as que se expressem de formas mais eficazes. 
Ou seja, é como se ela tivesse em si as células-tronco  da amorosidade.

O apreço constrói relações, aplaina conflitos, alimenta gestos de afago.

Só temos afeto e afago por alguém para com o qual tenhamos apreço.

Assim, embora seja a última dos pilares, ao exigir um profundo autoconhecimento para quem o tem, o apreço e o apego são as bases de qualquer relacionamento sustentável.

Em qualquer nível e instituição de relacionamento.

Os demais, são plus, são bônus, crédito que só os mais loucos e apaixonados pela vida, por algo e pelo outro conseguirão descobrir e expressar: falo do afeto e do afago.

Se você ainda tem apreço, nem tudo está perdido. No mínimo, amigos serão.

Agora, quando o apreço se vai e ainda assim eternizam-se relações, a honra sofre, a dignidade idem.

Pessoas com crise de dignidade e honra, além da ética, dificilmente possuem apreço por alguém ou algo, nem pelos seus pares.

Para ter amor de apreço, de ágape, tem que amar a humanidade na sua comunhão coletiva de significados.

Tem que ter um olhar de bondade, de mansidão, de justiça e paz sobre todos os povos.

Apreço exige maturidade do ser. Exige uma postura sábia, integradora de valores comuns.

Apreço de valores é algo em extinção nos tempos em que tudo é valorado pelo o preço mercantil que apresenta.

Eu diria, que na teia da foto acima, o apreço age como um GPS interior orientando a construção e concertação da teias, junto a outras teias, criando harmonias e suscitando a aprende-essência da coletivivência.

Apreço são difíceis em tempos de narciscismo, de ganância, egoismo e individualismo sociais. 

Pois, apara apreciar algo, valorar alguém ou algo (não pense em coisas materiais e sim em causas universais, valores) temos que deixar o outro ou uma causa em nós fazer morada.
E, como se identificar com algo quem em nós não permitimos que habite?

Como apreciar um jardim no outro se em nós mesmos só existe terra árida, sem formosura e graça.

Um dias em nosso país os jovens foram às ruas, exigirem novos tempos na política.

Tive apreço por eles. 

Entendeu agora o que é apreço?

É compartilha dos mesmos ideais, sonhos, valores, sentir-se parte de algo maior, conectando à nave mãe Terra.

Ter apreço é encontrar pontos de convergências entre seres que se embelezam,ao se perceberem como incompletos - necessários que são dos outros para se edificarem e construírem como autônomos. 

A autonomia do ser, condição para o apreço, não é a compreensão que somos independentes na nossa caminhada existencial.

A autonomia que o apreço fornece é de outra grandeza. E, é justamente o contrário, é saber o quão belos e importantes ao nosso viver, são aqueles que conosco desfrutam de um mesmo universo de valores e filosofias de vida, fazendo que em cada um de nós surja um infinito, não particular como diz a canção, mas coletivo de outros eu. 

E, junto a eles nunca estaremos sozinhos, e enfrentaremos todas as ameaças.

Esse é o amor de apreço, de ágape, de afiliação e identificação com uma pessoa, causa, instituição ou valor.

Apreciemos o outro que habita em nós mesmo, e o quanto de nós habita neles.

Lembre-se a viga do Apreço é mística. Ao alimentá-la ela crescerá e fortalecerá, quase que num passe de mágica, o afago e afeto para com toda a humanidade, tornando o planeta sua caverna e o mundo sua tribo.


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