A bola da vez.



Hoje, pensei pela primeira vez na possibilidade de me aposentar, e, ao comentar com minha esposa, recebi de cara um:
"Para fazer o que em casa?"
Desconcertado com a pergunta, soltei um: "Para cuidar de você, dos filhos e da casa."
Logo desconversei, precisava ganhar tempo e pensar numa melhor resposta.
Não nos aposentamos sozinhos. A família é impactada com a decisão, por isso a decisão precisa ser negociada.
Lembrei-me que ela trabalhará 6 anos ainda, até poder se decidir
Lembrei que os filhos mais velhos cresceram e todos agora têm um CNPJ para chamarem de patrão.
Lembrei de minha ida ao concurso do BB, quando paramos na ponte do Rio São Francisco, eu e meu pai que guiava o carro, e um amigo que também ia fazer o concurso, o que fez essa foto.
Nesses 30 anos mudaram o rio, eu e o BB.
Fecha parenteses
No estranhamento com a pergunta, acabei dando a resposta errada.
Quem disse que nos aposentamos para cuidar de casa, filhos, cachorro ou cônjuge?
Não é uma boa razão, embora foi a que eu tinha para o momento.
Outro dia conversei com uma alta executiva. Ela revelou que seu esposo aposentou-se a dois meses.
E que ficou surpresa com ele. Acontece que ele é um exímio cozinheiro. Ele cozinhava nos finais de semana e em algumas noites. Ela então comentou com o maridão: "Puxa, já faz 60 dias que você está aposentado e nunca cozinhou um almoço durante a semana para mim, "já que está em casa mesmo"?
Ele revelou que seus planos como aposentado não passavam por aí. Cozinhar almoços na semana.
Não passavam pelo famoso "já que". Pronto, crise à vista.
Não me decidi ainda se faço ou não faço a adesão. Esta é uma decisão do tipo: várias noites sem dormir,
e muitos joelhos no chão.
Acontece que não vivo o trabalho como algo que me sufoque e me torne infeliz.
Não tenho uma relação dolorosa com minha empresa. Sou dos que gostam de vir trabalhar, a maioria das vezes, mesmo nas segundas mais chuvosas.
Têm exceções. Há segundas nas quais quero ficar em casa, de papo para o ar, mas são a minoria.
Gosto do que faço e o que faço me dá sentido.
Gosto de minha equipe de trabalho, dos desafios e resultados que entregamos.
Aqui na Ditec sou do grupo fundador da área de Capital Humano, em 2008, cuja iniciativa me fez engolir muito sapos corporativos, àquela época. Afinal, tudo que é novo estranha.
Aqui achei meu lugar e o melhor de meu potencial humano. Aqui sou muito, muito feliz. Aqui participei da criação de coisas lindas: Progrid, Coaching para Gestores, Processos Seletivos Regulares; Trilhas de Capacitação e eventos memoráveis de mobilização.
Um frisson tomou os andares de onde trabalho, com o anúncio do PAI (Plano de Aposentadoria Incentivada) do BB.
Vi um monte de "dinossauros" fazendo contas do quanto vão receber se aderirem ao PAI, ou quanto vão deixar de receber no salário pós-aposentadoria: "desconta o vale refeição, a venda de abonos, licença-prêmio, as PLRs futuras, não dá ainda".
Risos. E quando dará?
Afinal, estas são verbas não salariais.
Fiquei pensando que se for para ponta do lápis quem se aposentaria mesmo?
Mas, costumamos só fazer a conta material: da grana que deixará de entrar, mas e a conta afetiva, a conta emocional, a de qualidade de vida, a da saúde, aquelas de valor subjetivo e intangível?
Qual o saldo delas?
Mas, se o pleno bem-estar no pós-carreira, na nova jornada de um ser humano, fosse variável do quanto se ganhará naquela etapa da vida, alguns juízes não teriam problemas ao se aposentarem, visto que se aposentam com todas as vantagens da ativa.
E alguns deles têm sérias crises de adaptação à "vida lá fora", conforme ouvi de um alto magistrado, em entrevista na Rádio Justiça.
Então, não é a $ que faltará, ou sobrará, o que determinará o bem-estar nessa jornada.
O que precisa ser perguntado, é a questão que a minha esposa fez, trocando o substantivo "casa" por "vida".
"Para fazer o que na vida?"
Não vou me aposentar para ficar em casa, balançando numa rede, enquanto a vida passa lá fora, se é que vou me aposentar.
Caso faça a adesão, tenho um monte de projetos: escrever muito, aprender coisas novas, fotografar, lecionar, prestar consultorias, ministrar palestras, atender no consultório, montar cursos, e nutrir uma maior proximidade com meus filhos, familiares e amigos.
Quem sabe até, num nível avançado: correr, nadar e pedalar.
Não quero me aposentar para ser o "já que".
"Já que está em casa, pega o JG no colégio."
"Já que está em casa, conserta a lâmpada queimada."
Posso até ser, um ou outro "já que", mas se me der sentido.
Ah! quanta coisa há para se fazer na vida, no pós-carreira, além dos "já que".
Escritos, viagens, aventuras, aprendizados, hobbies, cuidar um pouco mais de si mesmo, encarar novos projetos, ou simplesmente, ociar o tempo: lagarteando numa laje qualquer. E sem traumas por não está "fazendo nada".
Haverá dias que me permitirei limpar e ouvir meus vinis e só.
Vamos pensando com calma. O que estava no planejamento para 2016/2017 é antecipado.
Preciso ponderar, trata-se de uma decisão sem volta.
Mas, confesso que começo a sofrer um certo saudosismo, até do crachá.
Daqueles da espécie de quem começa a "arrumar as malas", para partir de uma boa cidade na qual morou muitos anos e nela cresceu, aliás, cresceu com ela.
Sentimentos confusos e contraditórios invadem meu ser...
Sinto que essa mala ainda vai ser arrumada e desarrumada, muitas vezes, noites de alma adentro que virão.
Não é decisão fácil a separação de amantes corporativos: quando na decisão, o crachá e a estação de trabalho nutrem entre si um certo romance.
Mas, em algum momento será necessário que se abram janelas para outras possibilidades. Mesmo que anos à frente.

PS. Não me aposentei.  A bola passou. Depois eu chuto novamente. Não era a hora ainda. 

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