Lustre seus amores.
No caminho para um evento de colação de grau me assustei.
Percebi que dormira bem na noite anterior, não tivera lapsos de insônia.
Não. Não era noite de dormir bem. Era noite de acordar ansioso, esperando.
Nas outras 6 colações, em anos anteriores, era assim.
Acordava, ligava o HD mental, pensava no dia seguinte - ansioso, e voltava a dormir.
Contudo, durante a formatura algo de bom me aconteceu.
Um sentimento de amor foi me invadindo e lavando a indiferença.
Renovei meu amor por aqueles garotos e garotas que acompanho em sua trajetória de carreira.
Reencontrei-me em meu gostar. E passei a me senti potente, feliz, motivado, tal qual um garoto serelepe que vai se encontrar com a namorada.
O amor precisa de lustramentos. De se levar para polir, para renovar o brilho, o encanto.
E não falo exclusivamente de amor de amantes, de namorados ou cônjuges.
Falo de todos os amores. amor por uma comunidade, por uma causa, por um animal, por uma planta, pelo sol, pelos amigos, pelo trabalho... amor em todas as suas expressões.
Como aquela pintura de carro novo, que mesmo sendo novo, de tanta poeira que levou durante a semana, nem se parece com o que já foi, esses amores precisam de paradas de renovação.
A rotina dos dias previsíveis, com o sempre vivido e do mesmo jeito, sem mais mistérios, sem medos e ansiedades, vai anestesiando o sentir.
A exemplo de quando levamos nosso carro naquelas oficinas de revitalização de pinturas, o amor também pede esse procedimento.
O gostar pede momentos de revitalização. Pode ser uma viagem, um novo projeto, um desafio.
Uma parada reflexiva e de autoconhecimento. Uma contemplação.
O amor pede cuidado. Esse talvez seja o maior problema dos desamores, deixamos de cuidar. De adubar, podar, acreditar no potencial da semente.
O amor precisa de desequilíbrios, de renúncias, de medos, de ansiedades, de apriscos prazerosos, de lantejoulas de admiração.
Saí rejuvenescido da formatura. Voltando a acreditar, voltando a me emocionar.
Nada pior do que o efeito da rotina no olhar amoroso. Vai criando uma opacidade, tal uma catarata, uma névoa por cima do olhar que não mais ver o brilho existente, mas a falta dele. Olha-se para o antes amado, agora pelas lentes da indiferença.
E a indiferença é a traça do amor. Como um cupim que corrói, que destrói a estrutura que antes existia, ela ataca no raiz do sentir, imobilizando-o.
Não deixe envelhecer seu sonhar, seu encanto.
Renove-o periodicamente.
Mesmo que tenha levado pancadas, sofrido decepções, vivido frustrações, se o que corre no leito mais profundo é amor, ele renascerá.
Só precisa de um novo cultivar, de algo que o lustre para que seu brilho volte com todo fulgor.
Próxima colação de grau quero ter insônias homéricas, e das boas!
Nada melhor, para oxigenar as artérias do coração, do que as insônias de apaixonados.
Aquelas que temos por antever e ansiar as vivências de alegrias futuras que nos esperam, ao vivermos - mais uma vez, e com intensidade o que já amamos. O amor tem o dom da autopoiese.
ALT F4 - A hora certa de teclar é o segredo do bem viver.
Depois que instalei o windows 8 senti falta de umas facilidades que o Win 7 tinha e que
na versão modernosa tiraram do ar.
Uma delas, era a de fechar as janelas de um aplicativo, quando queríamos dele sair, com um clique no (X), no canto superior direito da tela.
Pronto, fechava facim facim.
Já com os aplicativos que rodam na interface Metro, que vem no Win 8, o bicho pega.
Pense num moído. Numa fuleiragem.
Você faz até mandinga e quando menos espera, ao passar o mouse pelo canto superior esquerdo da tela, elas brotam do .
e ainda ficam te gozando dizendo: "Ei, passei aqui só pra te ver".
E tome consumo de hardware da máquina.
Aí descobri um atalho.
Com a aplicação aberta, é só clicar ao mesmo tempo ALT F4.
Como num passe de mágica elas desaparecem.
Ufa!
ALT + F4, juntinhos, que beleza!
Varinha de condão.
Quantas vezes precisei fechar janelas em meu viver para prosseguir e não consegui.
Quantas!
Fiquei carregando esquifes meses a fio, remoendo quase tragédias, valorando decepções e ruminando desilusões. Ou seja, não conseguia virar a página, fechar a página.
Todos temos nossas páginas abertas, que não mais fazem parte de nossas vidas, mas que estão ali pertinho, e quando menos esperamos, lá vem novamente a nos importunar.
Acho que virar páginas, ou fechar páginas, é uma arte que se aprende ao longo do viver.
Crianças são exímias professoras.
Depois, com a consciência adulta, vamos emburrecendo nessa arte.
Vai ficando difícil teclar Alt F4.
Vamos ficando racionais demais, caretas demais, prepotentes demais, orgulhosos demais para fechar páginas.
Para desnudar-nos de tudo que carregamos de tranqueiras emocionais que dificultam nossa jornada.
Nos apegamos até às páginas abertas, mesmo que não mais nos deem prazer ou que façam parte de nosso viver.
Nos apegamos aos traumas, perdas, lutos e coisas que não nos animam a continuar pelo medo de assumir nosso próprio destino.
Mudar dói e é arriscoso. É para os fortes.
Conheço pessoas que separaram-se há anos, e ainda continuam com as páginas abertas, machucando-se mutuamente.
Conheço pessoas que levaram rasteiras no trabalho, década atrás, e ainda hoje contam o faco, a cena, como se tivesse acontecido m~es passado.
Conheço gente que odeia o trabalho, odeia a empresa que trabalha, e não consegue teclar Alt F4 - fechar essa janela de seu viver, e abrir outras.
E, de janelas abertas, mal resolvidas, e janelas abertas mal resolvidas, a vida vai ficando um fardo.
Uma certa dose de janelas abertas faz parte do viver.
Se assim não o fosse seríamos cínicos conosco mesmos.
Para tudo que desse errado: Alt F4.
Seria muito ruim.
Algumas janelas abertas e mal resolvidas precisam continuar ali - no canto esquerdo do monitor de nossa vida.
Ali a nos assustar, a nos incomodar, a nos angustiar para que possamos com o fedor que por elas passa e nos incomoda algo aprender e mudar.
E, com isso, não repetir erros.
Janelas mal resolvidas da alma pedem um tempo para serem fechadas.
Mas precisam ser fechadas.
Antes que seja tarde demais.
Antes que a morte chegue sem nos pedir licença.
Não há teclas de atalhos, fases, macetes, dicas, vidas extras e bônus no game do Ser.
Não há.
Há o autoconhecimento que ativa o GPS da consciência crítica e nos tira das posições de alienação para as de transformação.
Há os valores que norteiam nossa existência e que apontam caminhos possíveis.
Fechar algumas janelas que teimam em ficar abertas em seu viver é necessa´rio para que outras possam se abrirem.
Descobrir quais delas, e o momento adequado de assim fazer, é arte, é dom, é sabedoria.
Ficar preso a vivências de sofrimento do passado, e por uma eternidade, não lhe fará uma pessoa melhor.
Aliás, sugará tuas energias tão necessárias ao teu sobreviver.
Olhe no retrovisor da vida só para aprender com as dificuldades que passou.
Olhe para pegar impulso.
Descubra qual conjunto de teclas de teu coração fecha as janelas de tua vida que te importunam, entristecem-te.
Mas, use essas teclas de atalho com moderação. Na dose certa.
Os lutos pedem seu tempo para serem processados.
Não antecipe curas.
Lembre-se algumas janelas precisarão continuar abertas - ainda por um tempo, mesmo que de teu viver não façam mais parte.
O papel delas é pedagógico.
Contudo, uma ou outra janela aberta é sadio.
Não colecione janelas abertas.
Não colecione rancores, mágoas, desamores. Sofreres de todos os tipos.
Nas janelas boas, nas janelas que te dão prazer, plante jardineiras.
Enfeite-as com gerânios, violetas e orquídeas.
Faça molduras bem bonitas destacando essas janelas boas.
Libere-as de qualquer obstáculo para que o sopor da vida, que delas emana, chegue pleno até você.
Escancare-as para que outros possam também delas se valer.
Tome sol debruçado nela, namore em suas jardineiras.
Publique em seu viver as janelas boas que abriu. Celebre. Seja grato. Comemore.
Agradeça por elas existirem.
Pode ser a janela de teus pais ainda vivos.
Pode ser a da cura de uma doença.
Pode ser a dos sentidos do trabalho que possuí.
Pode ser a dos amigos.
Pode ser a dos filhos, da amada(o).
Pode ser a mais simples de todas, e a mais poderosa, aquela que faz teu coração e pulmão funcionarem, independente de tua ordem cerebral para que parem.
Aquela janela da alma que por ela passa o sopro de tua ida.
Pense nisso. Abra janelas boas. Feche janelas ruins, que já processaram sua dor.
E, mantenha aberta janelas doloridas, mesmo que sofridas, para que com elas tome posições, se mexa e transforme a si mesmo.
E, no caso de não poder mudar uma situação que lhe incomoda, ou seja, fechar uma janela aberta e ruim, mude a si mesmo.
Na forma pela qual a percebe aberta e a deixa agir em você.
Mude-se de lugar, de emprego, de setor, de casamento, de cidade, de curso superior, de personagem no teatro da vida.
Mas se mude, caso necessário seja!!
Não pare de esculpir a sua obra
Não pare de esculpir a escultura de sua vida só porque passou do ponto o corte que fez,
com o cinzel e marreta na pedra bruta,
e já não conseguirá fazer aquele projeto
que um dia planejou, com o que sobrou da rocha.
Calma.
Continue esculpindo-a, com outros projetos
agora em mente, adequados ao material
e as condições que lhes restaram.
Ainda assim será tua obra, tua identidade, tua jornada, tua essência quem estará em jogo. Se pensa que passou do ponto de fazer a bela escultura que um dia sonhou, com a tua vida, não desanime. Todos somos assim.
Persevere, continue com o cinzel e marreta esculpindo a pedra de sua história.
Talvez não dê mais para fazer uma estátua em tamanho natural de algo belo, mas com o que restou,
e dentro da realidade que convive,
e nas condições lhes apresentada,
ainda assim poderá reverter a situação,
alterar rotas e cursos de ação
dando uma resposta à vida.
Não fique sentado, à beira do caminho, reclamando que errou o ponto do esculpir.
Não ajudará em nada.
Continue a sonhar em fazer algo com o que restou.
Algo teu.
Que, ao final, ao contemplá-lo saberás que ele foi
feito de lutas, de suor, de resistir,
de não desanimar diante das dificuldades.
Será tua bela obra em vida, esculpida com esperança nas dificuldades, e pequenas alegrias,
mesmo fugidias.
Esculpe a pedra de teu viver,
Esculpe a pedra de teu viver,
teu ser, com afinco.
Dessa tua entrega, em ser melhor para a humanidade,
em melhorar o jardim ao teu redor,
a cada golpe do cinzel,
nascerá novos frutos e muitos se beneficiarão deles.
Tenha coragem de admitir que sonhos,
sonhados com afinco, não serão mais atingidos.
Mudaram as estações.
Porém, mais que uma coragem resignada,
pergunte-se o que fará com os anos que lhe restam,
com o que tem disponível,
com coisas que poderiam até ter-lhe passado despercebidas, e que agora, diante da crise, serão de imenso valor na recomposição da estrutura de teu ser.
Não desanime amigo.
Não é fácil cair. Perder.
Não é fácil admitir que passou, que perdemos o prumo, a rota, o traçado.
Não, não é fácil.
Mas, repito-lhe, coragem!
Um simples anjinho de pedra que escupires,
com as migalhas do que te sobrou,
e que o coloque sorrateiramente,
na cabeceira da cama de uma criança,
poderá alegrar-lhe dias a fio.
Não importa o tamanho da escultura, a forma, o tipo,
é tua escultura, é tua vida e ela merece ser vivida
na alegria e na tristeza, na doença e na saúde,
quase como num casamento, mas contigo mesmo.
Parar é preciso, viver não é preciso!
Fim de tarde, na rádio toa a Ave Maria de Bach/Gounod, choveu bastante. A natureza exala aromas de terra molhada.
Tudo é silêncio, mas ao longe um som de um riacho que tomou água, muita água, irrompe impotente sua melodia de turbilhões.
Um casal de gavião dá vôos rasantes por sobre a relva úmida.
O sol se esvai mansamente.
Na confusão noite que enlaça o dia, no ocaso, pessoas silenciam.
ao lado uma pombinha contempla o horizonte.
Está só.
Que acontecera com seu par?
São aves que combinam a dois. Vê-las sozinhas é raridade.
Será que o gavião aprontou?
Faço conexão com ela.
Ao seu lado, de cima da varanda, também espero, esperançoso como toda espera, que seu avoante-par chegue.
Vez por outra ela olha para os lados.
Noutras, fita fixamente o horizonte á frente.
Está encharcada, foi muita chuva e acho que teve que sair ás pressas de seu ninho.
Ela contempla o infinito.
Parou, parou por uns bons 20 minutos.
Parar é preciso.
Restabelecer o ciclo da vida, fazer contato conosco mesmo, é o que pede o anoitecer.
Não, não é hora de adormecer nossos sonhos.
É hora de contemplá-los, mesmo a distancia, de aguardá-los numa espera ativa, numa espera que age.
Não, não e hora de adormecer.
A pombinha, serena e em paz, como todas de sua espécie, olha pra mim.
Que olhar manso, cheio de expressão.
A fito pelo zoom de minha câmera, mesmo assim fico petrificado com tamanha beleza daqueles pequenos olhos.
Como que a me dizer: obrigado por esperar comigo.
A noite cai, já a vejo com dificuldade.
Mas sei que ela ali está, velando seu amado, esperando-o.
Entre nós brota sentimentos de compaixão, de empatia, de entes que aprenderam a esperar.
Aprenderam que só espera quem ama, quem enebria-se com o vinho da vida, todos os dias, e sob todas as suas formas.
Boto uma música para nós.
Trago o notebook para a varanda e coloco de Rod Stewart Sailling
http://www.youtube.com/watch?v=9Ooq7WPqd5s
Ouvimos juntos, sei que ela me escuta. Posso vê-la dançando nessa parte:
O labrador Balu sente nosso diálogo e aproxima-se pelo pomar. Late e balança o rabo.
Todos embalados pela noite e revirando-se em si mesmos antigas lembranças de quando tudo era tão mais simples.
Coloco outra música pára nós, ela diz assim:
http://www.youtube.com/watch?v=qC6Gn-9bF1o
Tudo é silêncio, mas ao longe um som de um riacho que tomou água, muita água, irrompe impotente sua melodia de turbilhões.
Um casal de gavião dá vôos rasantes por sobre a relva úmida.
O sol se esvai mansamente.
Na confusão noite que enlaça o dia, no ocaso, pessoas silenciam.
ao lado uma pombinha contempla o horizonte.
Está só.
Que acontecera com seu par?
São aves que combinam a dois. Vê-las sozinhas é raridade.
Será que o gavião aprontou?
Faço conexão com ela.
Ao seu lado, de cima da varanda, também espero, esperançoso como toda espera, que seu avoante-par chegue.
Vez por outra ela olha para os lados.
Noutras, fita fixamente o horizonte á frente.
Está encharcada, foi muita chuva e acho que teve que sair ás pressas de seu ninho.
Ela contempla o infinito.
Parou, parou por uns bons 20 minutos.
Parar é preciso.
Restabelecer o ciclo da vida, fazer contato conosco mesmo, é o que pede o anoitecer.
Não, não é hora de adormecer nossos sonhos.
É hora de contemplá-los, mesmo a distancia, de aguardá-los numa espera ativa, numa espera que age.
Não, não e hora de adormecer.
A pombinha, serena e em paz, como todas de sua espécie, olha pra mim.
Que olhar manso, cheio de expressão.
A fito pelo zoom de minha câmera, mesmo assim fico petrificado com tamanha beleza daqueles pequenos olhos.
Como que a me dizer: obrigado por esperar comigo.
A noite cai, já a vejo com dificuldade.
Mas sei que ela ali está, velando seu amado, esperando-o.
Entre nós brota sentimentos de compaixão, de empatia, de entes que aprenderam a esperar.
Aprenderam que só espera quem ama, quem enebria-se com o vinho da vida, todos os dias, e sob todas as suas formas.
Boto uma música para nós.
Trago o notebook para a varanda e coloco de Rod Stewart Sailling
http://www.youtube.com/watch?v=9Ooq7WPqd5s
Ouvimos juntos, sei que ela me escuta. Posso vê-la dançando nessa parte:
"I am flying, I am flying,
Like a bird across the sky
I am flying, passing high clouds
To be near you, to be free"O labrador Balu sente nosso diálogo e aproxima-se pelo pomar. Late e balança o rabo.
Todos embalados pela noite e revirando-se em si mesmos antigas lembranças de quando tudo era tão mais simples.
Coloco outra música pára nós, ela diz assim:
http://www.youtube.com/watch?v=qC6Gn-9bF1o
"Se avexe não
Se avexe não, amanhã pode acontecer tudo
Inclusive nada
Se avexe não
A lagarta rasteja até o dia
Em que cria asas
Se avexe não
Que a burrinha da felicidade
Nunca se atrasa
Se avexe não
Amanhã ela pára na porta
Da sua casa
Inclusive nada
Se avexe não
A lagarta rasteja até o dia
Em que cria asas
Se avexe não
Que a burrinha da felicidade
Nunca se atrasa
Se avexe não
Amanhã ela pára na porta
Da sua casa
Se avexe não
Toda caminhada começa
No primeiro passo
A natureza não tem pressa
Segue seu compasso
Inexoravelmente chega lá
Se avexe não
Observe quem vai subindo a ladeira
Seja princesa ou seja lavadeira
Pra ir mais alto vai ter que suar"
Toda caminhada começa
No primeiro passo
A natureza não tem pressa
Segue seu compasso
Inexoravelmente chega lá
Se avexe não
Observe quem vai subindo a ladeira
Seja princesa ou seja lavadeira
Pra ir mais alto vai ter que suar"
Um sentimento de paz e amorosidade nos preenche.
Rompendo a barreira das nuvens carregadas uma tímida estrela aparece, deve ser a dos navegantes, a Estela D'Alva (Vênus).
Olhamos juntos para o além e nos reconhecemos. Não, não é noite de adormercer os sonhos.
É noite de plantar sementes, noite de ninar corações, noite de se levar para passear, sentido o aroma das flores e folhas agradecidos pela chuva lavadora que receberam.
É noite de contemplar nossa jornada, de acordar nossos sentimentos mais puros e olhar para o longe.
Aliás, "longe é um lugar que não existe" para os que se permitem amar.
Parar é preciso, viver não é preciso. Parar e buscar o autoconhecimento.
Parar, permitir-se parar.
Sem nada agendado para daqui a uma hora.
Parar.
Parar e ouvir sons que na maioria das vezes passam despercebidos.
Parar e meditar sobre nosso viver.
Parar e agradecer, ao Deuses de todas as formas que nutrimos em nosso ser, agradecer até ao não-deus para os quem não o tem.
Desacelere. Desligue-se um pouco. Fique como esse avoante, num fim de tarde, contemplando.
Desacelere, esvazie-se, libere o tudo que mora em você, para que o nada faça-se presença trazendo novos tons, sons, cores e agires.
Desacelere.
Gestos, palavras, comportamentos, rotinas e padrões de ação: desacelere-os.
Dê espaço para crescer sua paz interior.
Elimine toxinas emocionais, tralhas sentimentais, mágoas encardidas.
Pare e sinta-se.
Toque-se.
Curta sua respiração, seu coração batendo, sensações de frio e calor.
Curta-se e compartilhe-se com a humanidade, revelando o que tem de melhor.
É preciso coragem para parar e se ouvir.
Estamos sempre cercados de tudo que nos tira da escuta de nós mesmos.
Talvez por medo. Ou falta de costume.
Não há direito mais sagrado do que o parar.
Nem sempre possível, na frenética luta pela sobrevivência.
Contudo, ainda assim, há formas inovadoras de parar seu cérebro. Seus pensamentos. Para abrir-se ao que lhe rodeia, ou para sentir seus sons mais interiores, abafados por problemas e sua luta diária pela sobrevivência.
Quando paro contemplo o nada.
Foco um instrumento tocado numa canção e o acompanho por toda a melodia.
E aí descanso de mim mesmo.
Relaxo.
Falar em parar nos tempos atuais parece uma utopia. É uma utopia.
Mas busque em algum momento do seu dia parar.
Desacelere.
Enquanto nos esvaziamos do barulho interior que emitimos, nos enchemos de outros sons de nosso coração, sons que sempre estão tocando, mas pelo nosso barulho interior, nunca os percebemos.
Sons que evocam vida, amorosidade, perdão e liberdade.
Sons que nos alimentam do que temos de melhor em nosso ser.
Sons que nos lembram que tudo passa, que somos pó, e que morríveis que somos não temos a ideia de quando partiremos.
Sons que pedem mudança, que nos denunciam, que nos incomodam.
Sons que pedem ação e renovação de nossos valores.
Para ouvi-los precisamos parar. E conectar nosso aparelho interior ao que temos de mais profundo, nossos sentimentos.
Parar é um ato de amor, de ousadia e coragem nos tempos atuais.
Adorei parar uns 30min com o avoante e Balu.
Repetirei com mais frequência.
Agora miro na estrela bela e uno-me a todos os seres da humanidade, nos rincões mais longínquos do planeta, que ainda param e olham as estrelas.
Nutro-me das estrelas, luas cheias, entardeceres, amanheceres, flores no cio, pássaros misteriosos, quando paro, e alimento meu interior, saindo das paradas melhor do que cheguei.
Não menos confuso, apenas melhor!
O Dia Em Que a Canção Parou o Tempo.
Era noite enluarada, daquelas de viola e poesia. Tomei um delicioso banho, fiz a barba, armei a rede na varanda do quarto e fui contemplar o luão.
Depois, começou a ventar, fazer frio e entrei.
A noite pedia música e cobertor de orelha.
Fui buscar minha caixinha de som e a coloquei perto do relógio de cabeceira.
Pluguei um pendrive com músicas em mp3 nela e tudo fez-se mágica e belezura.
Lua cheia, música, calor das cobertas.
O quarto, iluminado pela lua, ficava ainda mais aconchegante.
Ao longe, escutava sons acalentadores, de mãe ninando filho - filho birrento que não quer dormir.
Num estado de espírito elevado me deixava conduzir, como Platão por Sócrates, por Almir Sater cantando Viola Enluarada:
“A mão que toca um violão
Se for preciso faz a guerra
Mata o mundo, fere a terra
[...]
Quem tem de noite a companheira
Sabe que a paz é passageira
Pra defendê-la se levanta
E grita: Eu vou!”
Aos poucos fui adormecendo.
Na manhã seguinte, acordo sobressaltado com o som do chuveiro.
Viro-me para o relógio e ele marca 11hrs.
Fico louco, pulo da cama, tentando enxergar o sol, pelas cortinas da varanda.
Mas, tudo está nublado e chove muito.
Entro no banheiro e pergunto à esposa que horas são. Ela, sem entender nada, diz que são pelas sete e pouco da manhã.
Ufa.
Volto ao relógio da cabeceira, para checar se foram as pilhas que acabaram, e percebo que ao retirá-lo de perto da caixa de som amplificada, os ponteiros voltam a girar.
Então, não eram as pilhas.
Mistério.
Encosto-o novamente perto da Caixinha de Som de MP3 e os ponteiros param novamente.
Eureca!
O imã que tem no alto-falante da caixinha de som está interagindo com o ferro dos ponteiros do relógio.
E, era essa ação de um sobre o outro que imobilizava os ponteiros.
Segurem o tempo, a música chegou.
A MELODIA PARAVA O TEMPO.
Acabei de criar o sonho dos sonhos de todos os povos, uma máquina de parar o tempo.
Como queria parar o tempo com o meu filhote de quatro anos nessa fase.
Como queria parar o tempo quando visito meus pais na minha cidade natal.
Como queria parar o tempo quando estou agoniado com um trabalho para entregar e o relógio anda acelerado, contra mim.
Como queria parar o tempo para dizer os “eu te amo” que não disse, por não ter tido tempo.
Olho pra minha estante de livros, ao digitar essa crônica, olho para a pilha de DVDs, CDs, Discos que vou comprando e que não sei se ainda terei tempo de ler todos, ouvir todos, ver todos.
Sensação estranha a compreensão da finitude dos dias, do tempo, das horas.
Sinto-me que agora meu tempo se esvai numa rapidez impressionante.
Logo logo é carnaval.
Amanhã é o Natal que chegará.
Acho que é típico da meia idade essa sensação de tempo que voa.
Vamos nos sentido mais completos, plenos e queremos beber até a última gota de tudo aquilo com o qual cruzamos, e é justamente esse afã de ser mais que torna tudo tão mais rápido.
Nada mais é para sempre.
Vamos tendo a compreensão de que tudo passa, e passa rápido.
Na juventude parece que nos percebemos como eternos, imorríveis.
Agora, vamos nos encontrando mais em velórios do que em noitadas.
Quando alguém começa um papo assim: Sabe fulano.
Pronto, logo em seguida vem um “morreu”.
Mas, não pé de morte esse texto.
É de vida.
É da beleza de uma melodia que enganou um relógio e parou o tempo.
O amor para o tempo.
Numa pesquisa feita nos EUA perguntaram às crianças cujas mães trabalhavam fora qual sua percepção do tempo que as mães passavam com elas.
Paradoxalmente, o que definia a percepção do tempo não era o tempo real. Era o tempo simbólico.
Deixa eu te explicar:
Mães que só passavam efetivos 30 minutos com os filhos, por chegarem tarde em casa e os mesmos já estarem de pijamas prontos para irem dormir, tinham percepções do tempo que passavam com om filhos, ditas por eles quando pesquisados, um tanto maiores do que as obtidas por outras mães que chegavam em casa bem mais cedo.
Os pesquisadores identificaram que o traço comum que alterava a percepção do tempo das crianças, levando-as a registarem em suas respostas um tempo bem maior do que os míseros 30min, era o afeto a elas destinadas, no encontro das mães-minutos e seus filhos.
Naqueles minutos as mães liam histórias para seus filhos, penteavam seus cabelos, interessavam-se pelo que ocorrera no seu dia.
Aquele era um tempo do Kairós, tempo das coisas que valem a pena por elas serem vividas. Kairós é o Deus mágico do tempo, que vive em permanente oposição ao rígido Crhonos, Deus da marcação linear e sem compaixão das horas que passam, que restam.
Kairós é irmão de Eros. Deus do amor.
O amor subverte o relógio do tempo.
O amor seria como um imã que para os ponteiros do relógio.
Um abraço em quem se ama não pode ser cronometrado pelo relógio de Cronos, tem que ser pelo relógio de Kairós, que no limite, altera a percepção do tempo real.
Uma noite numa UTI pode ser pouco para Cronos, para Kairós é uma eternidade.
Não passa nunca!
Viajar para ver a amada e ficar com ela apenas um final de semana, pode ser pouco para Cronos. Para Kairós, em irmandade com Eros, aquelas horas vão se multiplicar, e o efeito delas perdurará por dias a fio, iludindo a realidade.
Parem o tempo, escutem a melodia.
Descobri então como lidar com o rígido Cronos que teima em querer que eu conte meus dias agora em décadas, em “entas”.
É trazendo mais Kairós e Eros para meu viver.
Kairós, o tempo oportuno, o tempo do afeto, o tempo das coisas que de fato valem a pena por elas viver. O tempo da contemplação, das delicadezas, da mística magia de ser.
Eros, o investimento afetivo que faço com esse tempo .
Parem o tempo.
Ouçam canções, deem-se abraços, beijos, cafunés. Escutem o amado. Pentei-lhe o cabelo, cocem suas costas. Ninem mansinho.
Parem o tempo.
Encoste o imã de seu coração no relógio de sua razão e iluda sua sensação de finitude.
Torne-se atemporal.
Segurem o tempo que quero descer para amar, para me doar em gestos de coletivo valor.
Olho para os livros aos montes que tenho e que talvez nunca os lerei.
Já não me aflijo.
Lerei os que quiser e no tempo que quiser, no meu tempo Kairós.
Ansiedade é a noção de Cronos sobre o tempo que resta.
Agora vejo que o tempo não voa na meia idade.
É falsa essa sensação.
O que voa é a razão que anestesiada por Cronos, violentada por ele, ano a fio, vai perdendo a beleza do Eros, do Kairós e tudo vai sendo coisificado, quantificado, racionalizado.
Matematicamente planejado e medido.
Vamos perdendo o entanto, os encantamentos, ficando ácidos, ranzinzas.
Lógico que há inúmeras exceções.
Mas, no geral, de tanta pancada vamos perdendo o brilho, a fé nas coisas simples da vida, a esperança em dias melhores.
E, é isso que ataca a percepção e tempo fazendo com a qual percebamos que passa muito rápido.
Não quero ser esse tipo de velho. Não quero viver cotando o tempo que falta.
Quero viver no tempo que tenho.
Quero mil anos em um, num dia vivido com gestos de amor.
De entrega.
Quero mil anos em um, num abraço apertado, em um banho juntos, em um encontro sob lençóis.
Quero eternidades agora, seja na contemplação de um por do sol, de uma flor, ou ao pisar no chão de estrelas.
Os jovens é que estão certo pela sensação de todo tempo que têm.
Só precisam saber disso e aproveitá-lo da melhor forma.
Já que tempo é diferente de relógio, como bem me ensinou a caixinha de som amplificada.
Percebe-se o tempo pelo imã do coração, e, ele pode ampliar ou retroceder, ou até anular o tempo vivido.
O coração é quem de fato marca nosso compasso, na música do viver.
Depois, começou a ventar, fazer frio e entrei.
A noite pedia música e cobertor de orelha.
Fui buscar minha caixinha de som e a coloquei perto do relógio de cabeceira.
Pluguei um pendrive com músicas em mp3 nela e tudo fez-se mágica e belezura.
Lua cheia, música, calor das cobertas.
O quarto, iluminado pela lua, ficava ainda mais aconchegante.
Ao longe, escutava sons acalentadores, de mãe ninando filho - filho birrento que não quer dormir.
Num estado de espírito elevado me deixava conduzir, como Platão por Sócrates, por Almir Sater cantando Viola Enluarada:
“A mão que toca um violão
Se for preciso faz a guerra
Mata o mundo, fere a terra
[...]
Quem tem de noite a companheira
Sabe que a paz é passageira
Pra defendê-la se levanta
E grita: Eu vou!”
Aos poucos fui adormecendo.
Na manhã seguinte, acordo sobressaltado com o som do chuveiro.
Viro-me para o relógio e ele marca 11hrs.
Fico louco, pulo da cama, tentando enxergar o sol, pelas cortinas da varanda.
Mas, tudo está nublado e chove muito.
Entro no banheiro e pergunto à esposa que horas são. Ela, sem entender nada, diz que são pelas sete e pouco da manhã.
Ufa.
Volto ao relógio da cabeceira, para checar se foram as pilhas que acabaram, e percebo que ao retirá-lo de perto da caixa de som amplificada, os ponteiros voltam a girar.
Então, não eram as pilhas.
Mistério.
Encosto-o novamente perto da Caixinha de Som de MP3 e os ponteiros param novamente.
Eureca!
O imã que tem no alto-falante da caixinha de som está interagindo com o ferro dos ponteiros do relógio.
E, era essa ação de um sobre o outro que imobilizava os ponteiros.
Segurem o tempo, a música chegou.
A MELODIA PARAVA O TEMPO.
Acabei de criar o sonho dos sonhos de todos os povos, uma máquina de parar o tempo.
Como queria parar o tempo com o meu filhote de quatro anos nessa fase.
Como queria parar o tempo quando visito meus pais na minha cidade natal.
Como queria parar o tempo quando estou agoniado com um trabalho para entregar e o relógio anda acelerado, contra mim.
Como queria parar o tempo para dizer os “eu te amo” que não disse, por não ter tido tempo.
Olho pra minha estante de livros, ao digitar essa crônica, olho para a pilha de DVDs, CDs, Discos que vou comprando e que não sei se ainda terei tempo de ler todos, ouvir todos, ver todos.
Sensação estranha a compreensão da finitude dos dias, do tempo, das horas.
Sinto-me que agora meu tempo se esvai numa rapidez impressionante.
Logo logo é carnaval.
Amanhã é o Natal que chegará.
Acho que é típico da meia idade essa sensação de tempo que voa.
Vamos nos sentido mais completos, plenos e queremos beber até a última gota de tudo aquilo com o qual cruzamos, e é justamente esse afã de ser mais que torna tudo tão mais rápido.
Nada mais é para sempre.
Vamos tendo a compreensão de que tudo passa, e passa rápido.
Na juventude parece que nos percebemos como eternos, imorríveis.
Agora, vamos nos encontrando mais em velórios do que em noitadas.
Quando alguém começa um papo assim: Sabe fulano.
Pronto, logo em seguida vem um “morreu”.
Mas, não pé de morte esse texto.
É de vida.
É da beleza de uma melodia que enganou um relógio e parou o tempo.
O amor para o tempo.
Numa pesquisa feita nos EUA perguntaram às crianças cujas mães trabalhavam fora qual sua percepção do tempo que as mães passavam com elas.
Paradoxalmente, o que definia a percepção do tempo não era o tempo real. Era o tempo simbólico.
Deixa eu te explicar:
Mães que só passavam efetivos 30 minutos com os filhos, por chegarem tarde em casa e os mesmos já estarem de pijamas prontos para irem dormir, tinham percepções do tempo que passavam com om filhos, ditas por eles quando pesquisados, um tanto maiores do que as obtidas por outras mães que chegavam em casa bem mais cedo.
Os pesquisadores identificaram que o traço comum que alterava a percepção do tempo das crianças, levando-as a registarem em suas respostas um tempo bem maior do que os míseros 30min, era o afeto a elas destinadas, no encontro das mães-minutos e seus filhos.
Naqueles minutos as mães liam histórias para seus filhos, penteavam seus cabelos, interessavam-se pelo que ocorrera no seu dia.
Aquele era um tempo do Kairós, tempo das coisas que valem a pena por elas serem vividas. Kairós é o Deus mágico do tempo, que vive em permanente oposição ao rígido Crhonos, Deus da marcação linear e sem compaixão das horas que passam, que restam.
Kairós é irmão de Eros. Deus do amor.
O amor subverte o relógio do tempo.
O amor seria como um imã que para os ponteiros do relógio.
Um abraço em quem se ama não pode ser cronometrado pelo relógio de Cronos, tem que ser pelo relógio de Kairós, que no limite, altera a percepção do tempo real.
Uma noite numa UTI pode ser pouco para Cronos, para Kairós é uma eternidade.
Não passa nunca!
Viajar para ver a amada e ficar com ela apenas um final de semana, pode ser pouco para Cronos. Para Kairós, em irmandade com Eros, aquelas horas vão se multiplicar, e o efeito delas perdurará por dias a fio, iludindo a realidade.
Parem o tempo, escutem a melodia.
Descobri então como lidar com o rígido Cronos que teima em querer que eu conte meus dias agora em décadas, em “entas”.
É trazendo mais Kairós e Eros para meu viver.
Kairós, o tempo oportuno, o tempo do afeto, o tempo das coisas que de fato valem a pena por elas viver. O tempo da contemplação, das delicadezas, da mística magia de ser.
Eros, o investimento afetivo que faço com esse tempo .
Parem o tempo.
Ouçam canções, deem-se abraços, beijos, cafunés. Escutem o amado. Pentei-lhe o cabelo, cocem suas costas. Ninem mansinho.
Parem o tempo.
Encoste o imã de seu coração no relógio de sua razão e iluda sua sensação de finitude.
Torne-se atemporal.
Segurem o tempo que quero descer para amar, para me doar em gestos de coletivo valor.
Olho para os livros aos montes que tenho e que talvez nunca os lerei.
Já não me aflijo.
Lerei os que quiser e no tempo que quiser, no meu tempo Kairós.
Ansiedade é a noção de Cronos sobre o tempo que resta.
Agora vejo que o tempo não voa na meia idade.
É falsa essa sensação.
O que voa é a razão que anestesiada por Cronos, violentada por ele, ano a fio, vai perdendo a beleza do Eros, do Kairós e tudo vai sendo coisificado, quantificado, racionalizado.
Matematicamente planejado e medido.
Vamos perdendo o entanto, os encantamentos, ficando ácidos, ranzinzas.
Lógico que há inúmeras exceções.
Mas, no geral, de tanta pancada vamos perdendo o brilho, a fé nas coisas simples da vida, a esperança em dias melhores.
E, é isso que ataca a percepção e tempo fazendo com a qual percebamos que passa muito rápido.
Não quero ser esse tipo de velho. Não quero viver cotando o tempo que falta.
Quero viver no tempo que tenho.
Quero mil anos em um, num dia vivido com gestos de amor.
De entrega.
Quero mil anos em um, num abraço apertado, em um banho juntos, em um encontro sob lençóis.
Quero eternidades agora, seja na contemplação de um por do sol, de uma flor, ou ao pisar no chão de estrelas.
Os jovens é que estão certo pela sensação de todo tempo que têm.
Só precisam saber disso e aproveitá-lo da melhor forma.
Já que tempo é diferente de relógio, como bem me ensinou a caixinha de som amplificada.
Percebe-se o tempo pelo imã do coração, e, ele pode ampliar ou retroceder, ou até anular o tempo vivido.
O coração é quem de fato marca nosso compasso, na música do viver.
Sobre radiolas, home-theaters e lutas greco-romanas.
Ele vivia jogado num canto qualquer. Não consegui conectá-lo na minha TV e o larguei por aqui.
Era um Home Theater modernoso, 6 caixas de som, para graves, agudos, médios e uma Central de Operações amplificada.
Mas, minha TV não tinha saída de áudio compatível, então, “danou-se”.
Até que um dia ouvindo um sonzinho de vinil, na minha radiola, na qual tocava uma música linda chamada Sem Fantasia, senti falta de uma maior potência.
Aí lembrei-me do velho “Home Theater” encostado. Vi que na traseira dele havia uma conexão OUT (tipo L e R) e que na traseira do Home tinha uma entrada IN L e R. Pensei, pronto, será que dará certo.
Com a ajuda de um cabo fiz a conexão.
E o som estalou em meus ouvidos com uma pureza digna de um DJ.
Parecia até outra música, dado a acentuação das notas que o Home proporcionava, sem falar que ouvir um disco de vinil já é uma experiência auditiva, para quem gosta de música, indescritível.
Fora a união perfeita, sacramentada por aquele cabo RCA.
Pensei que o cabo agiu como um preceptor, um condutor. Juntou os dois seres inanimados, numa articulação possível, que agora, como que por mágica, produzia algo maravilhoso, tirando o melhor de cada um deles.
O cabo foi a pedagogia possível entre eles.
Do grego pedagogia significa paidós (criança) e agogé (condução).
A criança tecnológica que é o Home Theater fora conduzida pelo cabo (agogé) até uma fonte de som que não pasteuriza e homogeneíza as notas e harmônicas, da velha radiola de vinil.
Foi um encontro pedagógico, um libertou o outro, um fez-se autonomia e protagonismo na vida do outro.
Estava indo palestrar num evento de preparação de coachs, dentro de um programa de trainee, quando me lembrei da história de Aristócles.
Aristócles teve esse cabo RCA na sua vida.
Alguém que o descobriu, o conduziu, pedagogicamente falando, e como seu preceptor o orientou na busca de novos horizontes.
Aristócles era um jovem taludo. Mais de 1,90 de altura e bem largo, tão largo que o chamavam com o derivativo do mesmo nome de quem chama um platô. Grande, alto e largo.
Ele era de Atenas, cidade grega, filho de família de classe alta. Um jovem grego.
Mas não queria saber muito de estudos, de poesias, de canção, artes, etc.
Seu negócio era lutar.
Ele gostava mesmo era de lutar.
Se naquele tempo antigo tivesse essas lutas moderna de socos e pernadas, tipo UFC, ele seria um dos seus campeões. Um Anderson Aristócles da Silva.
Ele foi campeão dos jogos olímpicos da Grécia antiga, da Região do Istmo. Algo como Série B das Olimpíadas de Atenas.
Já viram, o filme gladiador? As lutas corpo-a-corpo eram mais ou menos como aquelas. Era vencer ou...
E o Aristócles era bom naquilo.
Até que um dia os pais viram nele algo mais do que um lutador.
Embora ser lutador campeão tinha lá seu status.
Os pais viram algo mais, um potencial a mais no filho, algo que nem ele via.
Quem sabe viram o som que saia da velha vitrola que só precisava do Home Theater certo para melhor explorá-lo e fazê-lo desabrochar. Quem sabe?
Os pais juntaram suas economias e contrataram os serviços de um pedagogo. Um preceptor, condutor.
Quase como um personal-trainers do conhecimento.
Esse, também era bom no traçado, logo notou que seu pupilo era de movimento, e ao invés de ficar parado numa sala ensinando-lhe sobre as velhas línguas do mundo, sobre arte, sobre estéticas e coisa e mais, o chamou para com ele seguir pela Grécia.
Nascia ali um dos encontros entre trainee e coach, guri e guru, mais fecundos da história da humanidade.
Era o encontro entre Sócrates e Platão. Platão era o apelido que ele recebeu de ser forte, taludo, e alto como um platô.
Platão desenvolveu-se tanto na filosofia que sua obra é maior do que a do próprio mestre.
De Plantão, por exemplo, herdamos a Academia. É que Plantão comprou uma chácara, na saída de Atenas, chamada Jardim de Academus, e ali dava aulas aos seus discípulos.
Assim como a radiola, o cabo RCA e o Home Theater; nessa história há também três personagens: Sócrates, Platão e seus pais.
Todos nós em algum momento da vida precisou de um Sócrates, ou um Cabo que nos levasse de uma posição existencial para outra.
Quantas das vezes só descobrimos o que temos de melhor quando o outro nos orienta, nos conduz, e até enxerga potenciais que nós mesmos nem sonhamos que temos, como os pais do jovem Platão.
Talvez essa seja uma das causas mais nobres da humanidade, ajudar aos outros a encontrarem caminhos, sem caminhar por eles mesmos, como fez Sócrates com seu pupilo.
Ajudar às pessoas a despertarem seus potenciais adormecidos, ou aprisionados por tantas negações de si mesmos que foram recebendo ao longo da vida, talvez seja a mais digna das missões que por aqui teremos.
Cada um de nós tem um Platão em si adormecido. Tem um som com a mais alta qualidade musical preso, num vinil qualquer, que poderão vir a produzirem o melhor de si mesmos; desde que tocados com amor. Alterando as rotas de um destino quase sempre cruel.
Quantas pessoas com as quais cruzamos só precisam de uma oportunidade. De uma orientação, de um ensinamento, de uma sabedoria com elas compartilhada.
Pense nisso, você pode ser o Cabo RCA que fará soar o soma mais belo do outro com o qual cruzar.
Ou se r um /Sócrates que conduzirá com cuidado, talento e maestria, aquele que de teu lado se propor a caminhar.
Ou até os pais do Platão, que virão nele algo que nem ele via e souberam intervir em sua vida, tirando-o de um rumo pouco proveitoso e de morte, mais cedo ou mais tarde, certa.
.
Agradeço aos cabos RCAs que me conectaram a mim mesmo, ao futuro e aos outros que tive ao longo da minha vida.
Agradeço aos Sócrates que cruzaram meu caminho e com os quais tive a honra de caminhar e de ser conduzido.
Agradeço aos pais exigentes que nunca deixaram-me acomodar com as derrotas e ensinaram-me a chorar apenas uma noite e um dia, e a não ter pena de si mesmo.
Ensinaram-me a lutar, a melhor das lutas, não a do jovem Platão, mas a luta do bem contra o mal. Da preguiça contra a ação. Da fé contra a tibieza. Da esperança contra a negatividade. Do otimismo em dias melhores contra o pessimismo da realidade circundante.
Agora vou ouvir meu velho vinil de Belchior que embalado pelas caixas de som, potentes do Home Theater, mais parece que está vivo e ao meu lado.
Valeu cabo RCA. Valeu saídas IN e OUT sem as quais nenhuma conexão seria ossível, nem as nossas conosco mesmo.
Procure suas saídas OUT e as conecte em entradas IN de quem realmente valha a pena e que produza frutos.
E, fuja da vida fácil dos “ringues de luta livre”.
Nunca vi alguém “chegar à janelinha” sem esforço, dedicação, disciplina, horas de sono e acordando cedo.
Pelo menos os normais, como eu e você!
Conviver
Conviver é um verbo.
Que se conjuga em curvas,
contorcionismos,
desvios,
e flexões imperativas.
É arte, nunca acabada.
É aprendizado.
Colocado de lado, nos tempos atuais:
velozes e furiosos.
O conviver exige o transcender,
o voar.
Exige utopias de relacionamento harmonioso, cooperativo.
Diálogos encantados com o mundo do outro
que lhe rodeia.
Conviver é um alicerçar de pontes de encontro,
um estabelecer de nexos de sentido
e vivências compartilhadas;
no lugar de um suscitar e um mobilizar
de práticas de violência emocional
e desrespeito social - com as quais enguem-se os muros da intolerância.
Ser conexão para o outro.
Hoje, quando levava o carro a uma oficina, para soldar a base de um artefato que segura a banheira do JG, ali adentrou um carro com placa de Campina Grande-PB. Saltei logo um EITA!
Pronto, já éramos amigos.
Um casal de idosos bem simpáticos.
Eles levavam seu Fita Uno para trocar o óleo.
Migraram de nossa terra há três anos.
Moram aqui em São Sebastião-DF, numa pequena chácara na periferia.
Só eles dois, um com 78 anos e sua senhora com 76.
Sentem saudades da terrinha, mas os filhos cresceram e vieram para cá e eles os acompanharam.
Cabelos branquinhos, branquinhos. Deles exalava o aroma do amor.
Perguntei-lhes se eles tinham comprado a chácara.
Disseram que não, embora pudessem comprá-la.
Optaram por viver o resto das vidas deles morando de aluguel.
Pois, já estavam velhos, e não queriam mais acumular nada. E, morando de aluguel, estariam mais livres para ir a novos lugares, sempre que não gostassem de algo. O que ganham das aposentadorias era suficiente para manter "esse luxo".
Não queriam mais reter nada no nome deles.
Em Campina Grande, moraram ao lado de meu bairro da Prata, moraram no bairro Centenário.
Prata e Centenário duas metáforas de como viver.
Uma para o acúmulo de bens, posses, poderes e ostentação.
Outra, a Centenária, para o que de fato tem valor. Para o desprendimento, para a sabedoria de anos curtidos, gozados, sem muita mala para carregar por aí. Sem muitas tralhas emocionais que grudam qual imã, e escolhem frágeis corações para ali fazer morada, numa simbiose mórbida, e importuná-los vida afora. Que casal belo. Verdadeiros santos.
Ele falou que seu Fiat UNO é bem de família e o acompanha há uns 20 anos.
Fiz conexão com eles.
Eles tornaram meu dia melhor.
Sua senhora bem arrumadinha, com bolsa, batom, toda nos trinques. Ele, calça de brim, camisa engomada, barba feita. Voltei aos tempos bons aos ver tanta energia amorosa naquele casal.
Nenhum traço de rancor, de mágoa.
Eles encontraram um jeito de ser felizes, na simplicidade.
Perto dos filhos, mas sem sufocá-los.
Aí chego em casa e testo um aparelho que comprei para carregar meu celular no carro.
Descobri que ele tem dez conexões possíveis.
E, pensei, aqueles velhinhos usam algumas delas na sua presença no mundo.
Existem muitas conexões que nos aproximam do outro e que nos tornam melhores na convivência em sociedade.
São as conexões da cultura, da família, do lazer, do trabalho, da religiosidade, das causas político-sindicais-sociais, da arte, do esporte, dos valores e da natureza.
Quantas conexões são necessárias para estabelecermos pontes com o outro? Apenas uma. Então, por que negamos todas elas e preferimos buscar o que nos divide, segrega e separa?
Nessa manhã, naquela oficina, apenas a conexão da cultura foi suficiente para nos irmanar. Para que eu aprendesse com o casal que vai chegando um tempo que vamos nos despindo de tudo que não faz mais sentido.
Que teimamos em guardar, reter, apropriar e que nem nós mesmos sabemos para que.
Guardar mágoas encardidas, vinganças adormecidas, ciúmes a espreita, inveja impotente...
Guardar rancores, mal-humores, chatices de todas as formas.
Chegará o tempo, em nossa caminhada para o Ser, da doação; da oferta; da simplicidade; da humildade.
Tempo no qual publicaremos nossa vida, no livro da humanidade, deixando impresso nele trechos que de fato valeu a pena por eles ter vivido.
Será que não está mais que na hora de vender sua casa?
E viver do aluguel de si mesmo? Viver na provisoriedade de tempos eternos frágeis, de berços que ninam o infinito?
De parar com a busca frenética do acumulo de posses, do consumo de qualquer coisa, de cultivar falsas aparências, tentando ser aceito?
Será que não ser aceito, por ser você mesmo - autêntico e livre de tudo que lhe aprisiona, é tão ruim mesmo?
Deguste sua vida. Ela é sua, apenas sua. Esteja pronto a curtir ser quem é: nunca pronto, acabado, perfeito. Ao contrário, um mar de contradições, de dúvidas, de inquietações, de revoltas interiores.
Faz parte do crescimento do ser um certo tanto de angústia.
Viva degustando as essências de ser pleno, íntegro, amoroso - renunciando a uma vida de fachada, de violência de todos os tipos, de egoismo e desamor.
Carregando quase nada de malas materiais, e um tesouro de bens espirituais.
O jogo, no campo da vida, não é bem jogado procurando o que nos divide. Joga-se bem, ao se buscar o que nos une, e , por ali, fazer comunhão, num coletivo de sentimentos profundamente humanos e amorosos.
Aí sim, eu e você poderemos nos sentar ao redor do fogo e juntos contemplarmos o amanhecer de um dia mais fecundo que virá.
Na qual nascerá uma nova sociedade, como resposta aos limites da bestialidade que essa atual vem gerando.
A humanidade está grávida de amor. A geração poderá levar mais que nove meses, nove décadas, mais o novo virá.
Aí investiremos tempo no que realmente importa. no que realmente tem valor.
Em coisas hoje tidas como ultrapassadas, como se apaixonar por um casal de borboletas,
Pronto, já éramos amigos.
Um casal de idosos bem simpáticos.
Eles levavam seu Fita Uno para trocar o óleo.
Migraram de nossa terra há três anos.
Moram aqui em São Sebastião-DF, numa pequena chácara na periferia.
Só eles dois, um com 78 anos e sua senhora com 76.
Sentem saudades da terrinha, mas os filhos cresceram e vieram para cá e eles os acompanharam.
Cabelos branquinhos, branquinhos. Deles exalava o aroma do amor.
Perguntei-lhes se eles tinham comprado a chácara.
Disseram que não, embora pudessem comprá-la.
Optaram por viver o resto das vidas deles morando de aluguel.
Pois, já estavam velhos, e não queriam mais acumular nada. E, morando de aluguel, estariam mais livres para ir a novos lugares, sempre que não gostassem de algo. O que ganham das aposentadorias era suficiente para manter "esse luxo".
Não queriam mais reter nada no nome deles.
Em Campina Grande, moraram ao lado de meu bairro da Prata, moraram no bairro Centenário.
Prata e Centenário duas metáforas de como viver.
Uma para o acúmulo de bens, posses, poderes e ostentação.
Outra, a Centenária, para o que de fato tem valor. Para o desprendimento, para a sabedoria de anos curtidos, gozados, sem muita mala para carregar por aí. Sem muitas tralhas emocionais que grudam qual imã, e escolhem frágeis corações para ali fazer morada, numa simbiose mórbida, e importuná-los vida afora. Que casal belo. Verdadeiros santos.
Ele falou que seu Fiat UNO é bem de família e o acompanha há uns 20 anos.
Fiz conexão com eles.
Eles tornaram meu dia melhor.
Sua senhora bem arrumadinha, com bolsa, batom, toda nos trinques. Ele, calça de brim, camisa engomada, barba feita. Voltei aos tempos bons aos ver tanta energia amorosa naquele casal.
Nenhum traço de rancor, de mágoa.
Eles encontraram um jeito de ser felizes, na simplicidade.
Perto dos filhos, mas sem sufocá-los.
Aí chego em casa e testo um aparelho que comprei para carregar meu celular no carro.
Descobri que ele tem dez conexões possíveis.
E, pensei, aqueles velhinhos usam algumas delas na sua presença no mundo.
Existem muitas conexões que nos aproximam do outro e que nos tornam melhores na convivência em sociedade.
São as conexões da cultura, da família, do lazer, do trabalho, da religiosidade, das causas político-sindicais-sociais, da arte, do esporte, dos valores e da natureza.
Quantas conexões são necessárias para estabelecermos pontes com o outro? Apenas uma. Então, por que negamos todas elas e preferimos buscar o que nos divide, segrega e separa?
Nessa manhã, naquela oficina, apenas a conexão da cultura foi suficiente para nos irmanar. Para que eu aprendesse com o casal que vai chegando um tempo que vamos nos despindo de tudo que não faz mais sentido.
Que teimamos em guardar, reter, apropriar e que nem nós mesmos sabemos para que.
Guardar mágoas encardidas, vinganças adormecidas, ciúmes a espreita, inveja impotente...
Guardar rancores, mal-humores, chatices de todas as formas.
Chegará o tempo, em nossa caminhada para o Ser, da doação; da oferta; da simplicidade; da humildade.
Tempo no qual publicaremos nossa vida, no livro da humanidade, deixando impresso nele trechos que de fato valeu a pena por eles ter vivido.
Será que não está mais que na hora de vender sua casa?
E viver do aluguel de si mesmo? Viver na provisoriedade de tempos eternos frágeis, de berços que ninam o infinito?
De parar com a busca frenética do acumulo de posses, do consumo de qualquer coisa, de cultivar falsas aparências, tentando ser aceito?
Será que não ser aceito, por ser você mesmo - autêntico e livre de tudo que lhe aprisiona, é tão ruim mesmo?
Deguste sua vida. Ela é sua, apenas sua. Esteja pronto a curtir ser quem é: nunca pronto, acabado, perfeito. Ao contrário, um mar de contradições, de dúvidas, de inquietações, de revoltas interiores.
Faz parte do crescimento do ser um certo tanto de angústia.
Viva degustando as essências de ser pleno, íntegro, amoroso - renunciando a uma vida de fachada, de violência de todos os tipos, de egoismo e desamor.
Carregando quase nada de malas materiais, e um tesouro de bens espirituais.
O jogo, no campo da vida, não é bem jogado procurando o que nos divide. Joga-se bem, ao se buscar o que nos une, e , por ali, fazer comunhão, num coletivo de sentimentos profundamente humanos e amorosos.
Aí sim, eu e você poderemos nos sentar ao redor do fogo e juntos contemplarmos o amanhecer de um dia mais fecundo que virá.
Na qual nascerá uma nova sociedade, como resposta aos limites da bestialidade que essa atual vem gerando.
A humanidade está grávida de amor. A geração poderá levar mais que nove meses, nove décadas, mais o novo virá.
Aí investiremos tempo no que realmente importa. no que realmente tem valor.
Em coisas hoje tidas como ultrapassadas, como se apaixonar por um casal de borboletas,
Poetizando a vida.
Na praça uma Mãe em bronze exalava um aroma de paz.
Muitos passavam e detinham-se, frente à beleza da estátua que mais parecia falar.
Corações contritos, emudeciam e oravam.
Na esquina, uma loja de cosméticos e cremes para cabelos, apinhada de mulheres que procuravam uma última loção para a virada do ano.
A vendedora notou meu assombro, olhando tantos e diferentes produtos, e disse-me: “mulher gosta de beleza...”
É, e homens também.
Todos gostamos, desde as cavernas com suas pinturas.
Que bom!
O comércio está em fervorosa pressa.
Afinal, faltam 8 horas para a virada e todos ultimam detalhes.
Saindo da loja, um tanto aturdido, com a visão de uma miríade de produtos que nunca tinha visto, cruzo com um vendedor de “pra que isto”.
Ele vendia um boneco que ao ser soprado, dele saía bolhas de sabão.
Observei-lhe por um momento. Nenhum cliente. Estava só.
Crianças rareiam nessa tarde do ano, no comércio.
Devem estar dormindo em casa, para que aguentem a virada acordadas.
Lá em casa nos davam uma tal de sangria. Uma mistura de vinho e água.
Pronto, dormíamos “embriagados”. O sistema era bruto.
Aproximo-me dele e falo: Quem inventou esse mecanismo diferente de soprar o balão, daqueles que conheço.
Ele estranha a pergunta e solta um:
Custa RS 6,00. Tem do Patati Patatá, do Bem10, da Galinha Pintadinha.
Compro a galinha, combina mais com as festas de final do ano.
O calçadão do Centro de Londrina está vazio, perto das 15hrs de 31/01/2013, coisa rara.
As lojas apressam-se em cerrarem as portas.
Todos correm.
Voltando para casa dos parentes, e chegando perto do carro, um senhor me aborda:
Gosta de poesia?
Trata-se de um tipo esguio, com olhar manso e penetrante, e com um pacote de panfletos em sua mão.
E, neles impressos suas poesias.
Digo que gosto e ele me dá uma.
Pergunto-lhe quanto é.
Ele me diz: qualquer coisa!
Qualquer coisa?
Quanta honra e dignidade daquele ser!
Sabe que o valor de uma poesia é o outro que dá, e o maior prêmio pra ele não é apurar dinheiro, é distribuir suas poesias, mesmo que seja ao preço de “qualquer coisa”.
Sinto isso com meus livros.
Fazia tempo que não ouvia isso. Pago-lhe R$ 5,00 por um panfleto poético, no qual suas poesias viajam mundo afora.
Ele me conta que atua “no ramo” há uns 20 anos. Sempre no mesmo ponto.
Que abandonou o curso de direito, e o movimento estudantil, e foi viver literalmente de poesias.
Chego em casa.
Aquele poeta causa turbilhões em meu coração, tenho que escrevinhar as letrinhas, debulhar sentimentos.
Olho para a mesa que espera a virada, agora distando 4 horas e vejo em que a combinação de guardanapos de papel de cores diferentes, um ramo de ficus, uma florzinha do campo violeta que brota na calçada, e um cordão, causaram na estética do belo, do arranjo dos pratos.
A beleza do místico, a beleza do corpo, a beleza da arte e a estética de um arranjo simples me falam à 2014.
Encantado com tanto belo, em formas e linguagens diferentes, leio uma das poesias do Fábio Evans, muito apropriada para o dia da muda:
"Confecção do Ser
A dor não diz bom dia
O cotidiano não diz bom dia
A esferográfica não diz bom dia
O granizo do seu beijo não diz bom dia
Quem diz bom dia
É a poesia
Curando a dor
No cotidiano de luas
Esferográfica testemunha
Do granizo
Das bocas nuas"
A poesia elevou meu coração. Vejo luas cheias estimulando almas cansadas. Eternizando momentos, falando mansinho: Bom dia!
Obrigado poeta de esquina de rua de cidade grande. Que sabedoria!
A poesia é quem transcende a realidade.
A poesia é quem nos liberta das amarras de destinos partidos, de vidas aflitas, de dias sem luz.
A poesia chega, invade, faz-nos orar, faz-nos procurar um produto de beleza para nos sentirmos melhores; faz-nos arrumar uma mesa com ramos de flores e folhas, moldando num simples guardanapo de papel um infinito particular.
A poesia ama, perdoa, faz-nos soprar bolhas de sabão numa manhã de sol.
E, ao acompanhar a trajetória das bolhas, brincamos de adivinhar para onde irão ao sabor dos ventos. Não nos cansamos de admirar sua formosura.
Cultue o belo em 2014.
O belo é irmão do bom, primo do justo, filho do ético.
Cultive um jardim interior, pare mais para contemplar florezinhas, beija-flores, entardeceres.
Luas cheias de amor.
Traga um raminho de folhas e algumas florezinhas do campo e enfeite seu ser interior, e seus amados.
Mire seu olhar, vez por outra, no eterno que mesmo entre brumas difusas faz-se presente, às vezes até sem ser notado.
"Quem diz bom dia
É a poesia
Curando a dor
No cotidiano de luas
Esferográfica testemunha"
Se tiver dúvida, não desespere.
Todos temos as nossas, só que fingimos melhor, e em alguns momentos.
Se tiver decepções, ou causar, perdoe-se primeiramente. Depois tente restabelecer as conexões desgastadas, usando a força do amor.
Nada dura mais do que que um abraço amoroso, nada acalma mais um ser amedrontado do que um: eu gosto de você, ou, eu torço por você.
Se andas triste, pessimista com o que vem por aí. Lembre-se da poesia, ela cura a dor e anuncia coisas novas e a boniteza da vida.
Se nessa noite sente-se deslocado, estranho, e quer fechar os olhos e só acordar amanhã, tenha calma é só um rito universal. Muitos também sofrem nessa noite.
Saudades, lutos, incertezas, ansiedades... tudo vem embalado em retrospectivas nem sempre fáceis de serem processadas e relembradas.
Repito, tenha calma, você não é o único. Apenas acredite: o belo vence. O bom sara, liberta e transcende.
O raminho de folhas e as flores transformarão você num arranjo único.
Assim será em sua vida, quando menos esperar flores e ramos estarão novamente a enchendo de sentido, de luz e esperança em recomeçar, de soluçados sobreviveres.
Sobre bijus, banhos, inseto tipo abelha e carneiro.
No primeiro dia do ano, acordei indisposto, como muitos. Com fome, e sem querer comer o "Restô de Ôntem", intervi quando vi minha sogra jogar um Cavaco Chinês (veja foto do vendedor que fiz) no lixo.
Ela alegou que ninguém o comera e que estava quebrado. Opa!!!, falei, eu quero! Ela olhou-me com ar resmungador.
Frustrei seu desejo de colocá-lo no lixo, e, não se frustra desejo de sogras, logo no primeiro dia do ano.
Peguei aquele alimento, mais parecido com um biscoito - por aqui chamado de Biju e fui para o carro esperar a esposa e filho.
Fui retirando do saco plástico os restos de Biju, comia qual um manjar dos Deuses. Delícia.
Trata-se de um alimento gostoso, com poucas calórias, quase um vento, e é muito frágil. Se não souber retirá-lo do saquinho plástico ele vai se quebrar em mil pedacinhos.
Tal qual os relacionamentos.
Primeira lição: cuide do outro como quem come um Biju. Lembre-se que ele, embora quebrado, sem forma, pronto para ir para o lixo - segundo alguns, ainda assim poderá te encantar, surpreender e ser sustento para tua alma cansada. Pessoas são predestinadas a serem bijus: doces, puras, frágeis, com a dose certa das calorias do ser. Elas, pessoas-biju poderão matar tua fome de sentido, de presença e de amor.
Continuei pelo meu primeiro dia, agora chegando na casa de Dona Zilda, uma vovozinha que nos acolhe há uns 20 anos aqui em Londrina, cuja filha é amicíssima de minha esposa. Ali, o meu recanto é o quintal. Quado chego vou num bar da esquina, compro 1/2 kg de costela no bafo, umas cervejas, e ali atrás faço a festa, enquanto o almoço não sai e o pessoal bota a conversa em dia.
Hoje o dia estava quente e estava abafado, embora ontem á noite tivesse caído uma tromba de água aqui em Londrina-PR.
Então, peguei uma vasilha de sorvete e a enchi com água da torneira. Aí comecei a tomar "banho de cuia", como fazíamos no Nordeste.
Que banho divino! Aquela água me lavava de toda mágoa encardida.
De toda decepção mal curada. De toda culpa encrustada. Descia a água e meu ser lentamente ia se revigorando.
E, não era da ressaca, era de mim mesmo.
Uma sensação gostosa de quem se lava pelo interior. Essa foi minha segunda lição, começar o ano despindo-se de velhas fórmulas, de velhos comportamentos que de tão rotineiros acabarão por virar uma espécie de falsa-pele. Agora dissolvida pela água.
Entre uma cuia de água e outra, ia me sentido mais belo, puro e revigorado para novos desafios.
Precisamos nos levar para tomar um banho de cuia, vez por outra. Precisamos de encantamentos, da delicadeza de uma água descendo pelo corpo e tirando dele o calor excessivo. Tirando a pressão. Precisamos dessas paradas para diminuir a pressão do dia a dia.
Agora, refeito pelo banho, vou fazer uma das coisas que mais gosto, fotografar. As primeiras fotos de 2014.
Acho uma espécie de abelha, de olhos verdes, polinizando uma flor. Miro emocionado a lente, e torcendo que ela não voe, e clic clic clic.
Que linda que era. Uma bênção encontrá-la, agora eu estava pronto para vê-la, estava puro, limpo pelo interior.
Ela revelou-me a terceira lição. Polinize. Leve felicidade, paz e perdão para todos com os quais cruzar.
Que felicidade daquela flor de Urucum, polinizada por aquele tipo de abelha, com seus lindos olhos verdes. Urucum é de que é feito o colorau.
Colorau é um tipo de tempero que deixa tudo mais gostoso, muito usado no Nordeste.
A abelha poliniza a flor de urucum que nos dá o colorau que tempera nossos alimentos. Não temos ideia do efeito de nossos atos na teia da vida. Não sabemos o efeito futuro de um gesto polinizador de nossa parte na vida dos outros. Podemos estar propiciando as condições ideais para que do outro surjam flores e frutos - tal qual faz aquele belo inseto.
Ele não tem ideia da força de seu gesto. Eu, quando tempero uma peixada com o fruto do urucum tenho.
Assim é conosco. Precisamos de pessoas-polinizadoras em nosso viver. Pessoas com as quais ao cruzarmos, sairemos melhores, mais fecundos para a vitalidade do vir-a-ser. E, também podemos ser polinizadores para os outros, mesmo que sua flor esteja feinha, estragada pela vida, podemos germiná-la com nosso material genético - cheio de amor; fortalecendo sua existência e engravidando-a de novas possibilidades, deixando cada pessoa com as quais cruzaremos em nosso viver, grávidas de potenciais de infinito do ser.
Fecundando-as com o pólen do otimismo, perseverança, fé, bondade, justiça, mansidão, ética e cidadania. As flores e frutos do jardim da humanidade agradecerão.
A mesa está posta. Mesa posta é lugar de encontro, de celebração, de diálogo. Para mim é feito especialmente um carneiro. Um carneiro temperado com ervas aromáticas, e o colorau da abelha que a pouco o polinizou. E aí vem a quarta lição. Faça mimos para o outro. Agradeça, seja grato a quem lhe fez algo de bom. Reconheça o outro. Compre um pernil de carneiro, tempere-o com ervas aromáticas, só para dizer-lhe o quanto ele te é importante. Lembre-se de que não é nunca demais dizer eu te amo. Você é importante para mim. E foi assim que me senti: visto, valorizado. Edna, a amiga de minha esposa, fez aquele carneiro para me agradar. Para me alegrar no almoço de início do ano. Ela falava com tanta ênfase do carinho e cuidado com o molho, com o tempero de véspera, que eu nem precisaria comê-lo, minha alma já estava saciada de tanto carinho recebido.
Faça à sua maneira um carneiro para quem gosta. Para quem é importante em teu viver.
Andamos carentes de nos sentir importantes, não no sentido material, mas importantes no sentido afetivo. De nos sentir amados, acarinhados. Andamos muito secos na correria dos tempos atuais e luta pela sobrevivência. Estamos desaprendemos a dar carinhos ao outro. A fazer agrados, e pequenos gestos de entrega e doação para ele.
Fazer o outro sentir-se gente, valorizado, reconhecido exige depreendimento, renúncia, altivez. Exige esforço.
Amar exige esforço.
Exige preparar de véspera o carneiro, deixá-lo temperando em vinha d´alhos.
Exige buscar ervas aromáticas que combinem com o gosto e faze rum suculento molho para assá-lo nele.
Exige treino, dedicação, comprometimento com o gesto.
Mas, sobretudo, exige verdade e genuína oferta de si mesmo.
Quem estará esperando esse prato em seu viver?
Quem precisará sentir-se vivo, presente, amado em tua história de vida?
Quem estará sedento e com fome de carinho, afeto e sentimentos de cumplicidade,
tão carentes em tempos de cataratas das retinas da alma,
que causam a indiferença para com as coisas do outro - tão próximas e belas que acabamos por tê-las como invisíveis ou que não necessitam e carecem de um:
Muito obrigado. Ou um:
Valeu por existir!.
Que biju, banho, inseto de olhos verdes e carneiro deliciosos!
Que primeiro dia do ano tão pleno em diálogos de meu ser que ora compartilho.
Feliz 2014!
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