Aposentadoria - A Síndrome do Ninho Vazio (Ricardo de Faria Barros)


"Ricardim, estou preocupado com minha esposa. Ela era gerente e aposentou-se tem uns seis meses. Agora cismou em exercer um controle maior sob a vida de nosso filho, e o clima entre eles azedou. Ambos estão tristes. O que fazer?".
Vinha adiando a elaboração do terceiro texto da trilogia: Síndromes da Aposentadoria.  Já escrevi os dois primeiros: A Síndrome da Alienação Fantástica, e a Síndrome de Abstinência à Vida Corporativa.
Adiava por me ser muito caro falar disso.
Vi essa Síndrome se manifestar nos primeiros anos da volta de meu pai ao lar, nos idos de 1995. Ele retornava pra sua gruta, de forma mais presente, após longos 45 anos de dedicação integral ao SENAI.
Ao retornar, percebeu que a casa estava vazia. Silenciosa. Os quartos, nos quais brincávamos quando crianças, agora o torturavam com lembranças: sons fantasmagóricos, aromas e restos de nós em cada parede, em cada objeto. 
A casa nova construída centavo a centavo, suor a suor, sapo a sapo engolido no SENAI, não fora aproveitada com seus filhos. Quando ela ficou pronta, todos já estavam casados e haviam migrado para o DF.
Aquilo por si só tornava mais aguda sua adaptação. Mamãe não sentiu tanto.
Ela se envolveu nas pastorais da igreja e ficou mais ocupada do que antes, quando também trabalhava no SENAI. Ela se aposentou com 40 anos de casa.
Já papai recolheu-se literalmente aos aposentos - uma das etimologias mais perversas do termo aposentadoria – aceitou vir-se como inativo, jubilado e voltou aos aposentos: aposentou-se. 
E, ao nele adentar, assombrou-se com o ninho vazio.
Sim, caros amigos, o terceiro texto da trilogia é sobre a Síndrome do Ninho Vazio.
Meu pai levou anos para recuperar-se do vazio do ninho. Para aprender a conviver com sua família real, e não com aquela idealizada para acolhê-lo em seu novo momento existencial.
Graças ao bom Deus, hoje ele está forte e feliz.
Achou-se para além dos "aposentos". Achou-se em aposentos de si mesmo. 
Voltando ao início do texto, esse diálogo aconteceu hoje durante meu almoço com amigos. Um deles, sabendo que gosto do tema aposentadoria, pediu-me um help.
Falou-me com amor e preocupação de sua esposa, já aposentada.
Ela esteve à frente de uma agência do BB, até novembro de 2013.
Lidava com pessoas, pressão; amava o BB. Lidava com metas, recebia estímulos; era uma motivadora; uma batalhadora. Todo dia um leão: enfrentava os dilemas do atendimento com maestria e sempre vibrava com as superações de resultados.
De repente, aposenta-se e começa a definhar, num canto qualquer “dos aposentos”.
Imaginamos juntos o seu dia a dia de trabalho, cheio de adrenalina, cortisol, e, porque não dizer, endorfinas - o hormônio da felicidade. Trabalhar pode ser sim um excelente espaço para produção de endorfinas.
E, de repente, sem algo pra fazer "lá fora" ela decide aposentar-se.
Nos aposentos reside o filho, o marido e a empregada doméstica.
O marido continua a trabalhar.
Ela "volta aos aposentos" e, nele, busca uma razão para continuar existindo.
Na sua busca por sentido, começa a controlar e intervir com uma intensidade nunca antes praticada na vida do filho e da serviçal.
A serviçal pensa em pedir as contas. Meu amigo tenta apaziguar a situação.
Já o filho, pensa, mas não fala, “ele também quer pedir as contas da mãe, devolvê-la ao BB”.
Ela sofre. Não entende o que se passa. Sofre por não se ver correspondida na overdose de amor que pensa estar dando.
Um amor de excessiva proteção, cuidado, de controle e opinião sobre o outro.
Saudosamente  ela começa a evocar as lembranças de quando  os filhos eram pequenos.
Abre os baús de fotografia. Alimenta-se com combustível da saudade e melancolia, para melhor habitar nos "aposentos".
Telefona para os familiares mil vezes ao dia. Cobra não receber ligações de volta.
Passa a implicar com tudo que os filhos fazem e que, antes, passava despercebido.
Implica com a roupa, com os amigos, com o lazer, com a profissão.
Mas, ela não vê o excesso. O excesso é justamente o preenchimento no outro do amor que nos falta. Para conosco mesmo. Entende?
É um deslocamento da nossa libido para o outro. Ele passa a ser o sujeito, sobre o qual investimos todas nossas expectativas, ansiedades, amor e frustrações.
Na Síndrome do Ninho Vazio (SNV), o aposentado é o ator principal que, para contracená-la, convida a todos de sua família.
A peça tem nome: “Eu voltei, voltem ao ninho.”
As noras endoidam com aposentados vítimas da SNV. “Você agora só quer viver na casa do seu pai. Não aguento mais todo final de semana almoçar lá.”
O jovem casal não consegue sair das “presas afetivas”, do jogo dramático de manipulação que o doente da SNV faz.
E casamentos entram em crise, pelo excesso de cobrança dos pais de algum dos cônjuges, ou de ambos – no caso de azar - por uma maior atenção, interferência e controle em suas vidas.
O adoentado envolve todo mundo para dar vida ao ninho, para preenchê-lo.
Quando o jogo não dá certo ele se entristece. Desabafa que sua família não liga mais pra ele. Que “só o usaram”. Que agora que parou de trabalhar “ninguém mais precisa dele”.
Que os familiares não lhes ligam, não lhe dão satisfações e não reconhecem nele os esforços para se aproximar.  Vira um círculo vicioso: 
1. Overdose de amor possessivo;
2. Baixo retorno afetivo esperado (dos sujeitos do amor investido);
3. Sofrimento existencial;
4. Compensação da percepção de indiferença com maiores doses de amor possessivo;
1. 2. 3. 4...  1.2.3.4... e assim por diante.
E aí a vida se torna um inferno. Para todos que o rodeiam, e até para ele mesmo.
Com o tempo, caso não se trate, vai ficando resignado, irritadiço, rabugento e até triste.
E como se tratar?  E como agir?
Vamos responder por partes.
Se você tem uma pessoa amada que passa pela SNV, em primeiro lugar, tente entendê-la. 
Se você tem uma pessoa amada que passa pela SNV, a primeira coisa a ser feita é tentar entendê-la. 
Ela não está fazendo isso por mal. Só não consegue lidar com o vazio, sem querer que você o ocupe. Percebe?
Talvez nem ela perceba que está tão exigente nas suas necessidades de receber amor.
Tenha compaixão dela... dessa pessoa com a SNV. Procure estar mais presente, sem se deixar dominar pela sua fantasia de controle e manipulação.
Faça uma forcinha. Ligue mais vezes durante o dia. Justifique melhor quando não irá a mais um de tantos eventos que ela inventa para te ter por perto.
E, quando estiver perto, incentive a pessoa com SNV a pensar noutras possibilidades para ocupar o tempo.
Ação voluntária, novos estudos, espiritualidade, clubes sociais, viagens, leitura,  redes sociais... etc.
Mas, saiba fazer isso mansamente. Sem atropelo. Se ela perceber que você “quer se livrar desse abraço de SNV”, vai reagir mal e aumentar o seu sofrer.
Faça com amor. Com jeitinho que só quem ama sabe encontrar para conduzir temas difíceis.
Mostre-lhe o quanto você se alegra com seus próprios programas, compartilhe com essa pessoa suas vitórias e instantes de felicidade.
Aos poucos ela vai percebendo que o fato de você não mais habitar o ninho, não significa que ele está vazio. Há ninhos preenchidos com a virtualidade do ser.
E se for você que se sente assim?
Que tudo passou a girar em função dos filhos e familiares. Que se no próximo final de semana não os visitar, ou ser visitado, não saberá o que fazer?
Agora é pra ti que digo: tenha calma!
Você sobreviverá sem filhos e familiares.
Um dia poderá achar legal não receber ninguém, sair e ir ao cinema, teatro, ir a um jogo de futebol.
Um dia, mais cedo ou mais tarde, passará a preencher sua vida com outras fontes de prazer, além do contato com a família.
Pare de controlar a vida de todos que ama. Pare de querer colocá-los no planejamento estratégico da empresa de sua vida.
Liberte-os para voarem. Quem ama solta! E quem é solto, por amor, um dia volta, e quando quer.
Encontre-se no ninho vazio.
Como um ninho pode ser vazio com você dentro dele?
Preencha-o consigo mesmo.
Você pode dar vida às paredes de sua casa, agora tão silenciosas. Procure algo para fazer que lhe preencha, como numa espécie de terapia ocupacional.
Faça cursos fora de casa. Faça artesanato, dentro de casa.
Arrume tempo para se levar para passear, sozinha, sem pressionar seus familiares mais amados para te acompanharem.
Viaje só. Se encontre.
Caso ainda seja casado, que tal uma nova lua de mel?
Que tal, os dois juntos, povoarem o ninho vazio com um montão de novos projetos.
Sonhos a serem vividos. Aventuras a serem experenciadas.
Conhecimentos a serem adquiridos. Emoções a serem curtidas.
Se estiver difícil, quem sabe deva procurar ajuda médica: um geriatra; um psicólogo, um psiquiatra, um padre ou pastor... Quem sabe?
Busque seus instantes de autoconhecimento. “Lamba-se” em sua autoestima. Pare de projetar-se no outro; de associar sua felicidade a do outro.
Liberte-o de suas garras afetivas. Pratique yoga, contemplação, meditação, relaxamento, ou permita-se a momentos de encontro com seu Deus.
Logo, logo esse ninho vazio que te assusta e te assombra, será, novamente, colorido, cheio de sons e aromas, oriundos de tuas novas experiências de existir.
Na saída, meu amigo disse-me que tinha desaconselhado sua esposa a estudar pra concursos. Ela tinha comentado que iria voltar a estudar para fazê-los e levou dele um “sai pra lá”.
Rindo, e mais aliviado, ele me disse que agora seria ele mesmo que iria matriculá-la (risos).
Entendeu tudo. Aposentamos de um emprego, não da vida!


Valeu pai! Você foi um herói. Sem saber de nada disso, encontrou-se lá no fundo do ninho, antes vazio e agora, cheio de você mesmo. 

"Esparadrape" sua Autoestima


Hoje fui almoçar com o Fahl. 
No caminho, comentei que ele
deveria vender o seu carro. 
Ele acabara de me relatar que ontem, 
quando vinha para o trabalho, um cara deu uma entrada nele. Ele freou, para um pedestre na faixa, e quem vinha atrás não brecou a tempo.

Fiquei rindo de tamanho azar. é que as histórias de seu carro, com esta, são quatro.

Outro dia o Fahl me contou que passou o final de semana apreensivo, tinha roubado seu carro da porta de sua casa, no sábado pela manhã. E, que a polícia só o encontrara na noite do domingo.

Noutras vezes, ele bateu ao retirar o carro da garagem, e a mulher errou o lugar de uma vaga e bateu ao estacionar.

Hoje, indo almoçar, falei sorrindo pra ele vender o carro, que deveria ter uma macumba nele.

Ele, manso e sábio de coração, como sempre, olhou-me com olhos de lua cheia e disse-me que o carro era abençoado.

Sofreu três batidas e nenhuma delas tinha sido muito grave, ou tinha ferido alguém.

E, no episódio do roubo, o seguro estava vencido, e o carro ainda fora achado intacto.

"Vendo nada. Esse é uma bênção."

Acho que o aparelho mental do Fahl funciona como o de um percussionista que conheço que coloca esparadrapos no pandeiro (veja foto), para "desligar alguns sons mais agudos".

Todos os dias estes sons nos importunam. Saber desligá-los é uma arte. Aprendo sempre com o Fahl.

Ele deixa publicar com a sua vida, apenas os melhores sons, os mais afinados. "Esparadrapa" no seu coração aqueles sons mais feios. Inibe-os.

Como Fahl e meu amigo percussionista me tocaram nesse dia.

Temos que saber desligar sons que teimam em nos incomodar. Em nos fazer tristes e nos sentir mal amados.

Botar uns esparadrapos neles, para que outros sons de nosso viver, plenos de harmonia e sentido, possam prevalecer.

Temos uma síndrome, danada de ruim, de repetição. De ficar martelando sentimentos, ou ecoando na razão, as coisas que nos fizeram mal.

Na comparação com o Fahl, seria como se ele passasse o dia lamentando-se das intempéries de seu carro.

Na com o Mário, meu amigo percussionista, seria como se ele continuasse tocando seu pandeiro, com sons desafinados, que não combinassem mais com a partitura e harmonia que executa.




Saber a hora de "esparadrapar" emoções negativas, culpas, raivas, sentimentos não legais, é preciso para sobreviver.

Ficar resmungando, reclamando, remoendo e ruminando o que não deu certo, ou algo que lhe aconteceu e não te fez bem, não irá mudar em nada o acontecido.

No máximo vai te deixar ranzinza e resignado.

Aprendamos a ver as bênçãos, onde outros veem maldições.

Aprendamos a emitir nossa melhor e mais harmoniosa melodia, para os outros, mesmo que desliguemos parte de nosso ser que teimam em ficar nos atazanando, nos agoniando.

Que tal nesta noite pensar nisso e parar de se levar tão a sério. Parar de se melindrar com pouca coisa.

De se vitimizar pelos deslizes e sufocos que passou. De cultivar um jardim interior de emoções toxicas.

Parar na posição de quem está sempre na defensiva, de quem foi criado para ser perfeccionista em tudo.

Parar de proteger à exaustão a sua imagem, como quem a joia da coroa do Rei.

Você não é uma unanimidade, e alguns simplesmente não irão com tua cara.

Nada pessoal. Coisas da vida.

"Esparadrape" sua autoestima. Ela pode tá ficando muito exposta, muito sujeitas às infecções e violências relacionais.

E, nada pior do que aquela pessoal, que por ter levado muitas pancada na vida, no lugar de ter aprendido com elas, foi ficando arisco, armado, pronto ao menor sinal de perigo para lançar seus ferrões, numa tentativa estéril de se proteger.

Relaxe. Desligue o som que está te fazendo infeliz. Passou.

Desligue-se os pensamentos que teima em te tirar o sono.

Onde mora teus pensamentos mora tua ação no mundo.

Crie um lugar de paz para habitar. Aquele no qual o Fahl construiu pra ele e o fez reagir com sabedoria às dificuldades que se lhes apresentaram.

Vou correndo buscar esparadrapos. Hoje uma chateação acompanhou-me até em casa.

Agora, permitir ou não que ela vá pra cama comigo é uma escolha que posso fazer.

E, não adiantará nada ela se enrolar em meu ser, noite afora, nada resolverei hoje. E, algumas coisas para serem resolvidas pedem o olhar e o tempo de várias luas cheias.

Pense nisso!

Ruminar


Rumino pedaços de mim mesmo.
Entre o não e o talvez, avanço.
Reviro entranhas do que fui sem ser e acabei sendo.
Deito-me, ouvindo montanhas murmurantes.
Não sou o que de melhor pensei ser.
Sou distorção de mim mesmo, reflexo pálido do que penso ser.
Possibilidades e escolhas, caminhos, atalhos e retornos, e porque não?.
Lá fora a bruma cai, chove mansinho.
Um aroma de criança banhada invade a área.
Latidos acordam-me de minha modorrenta tarde.
Lembram-me: ei bora lá com força desenhar novos aconteceres.
Ente o não e o talvez, fico.
Enraizo brotos de outros em mim mesmo.
Minha melhor árvore veio da enxertia deles,
em meu tronco vital.
Escuto sons de grama brindando à garoa mansa.
Gargalhadas de grilos falantes.
Ao longe, um adeus, um abraço apertado e
um gosto de eterno.
Ele manda UOT.
Finalmente a conquistou. Posta pra mim foto deles.
Pede sigilo. é muito jovem ainda o amor.
Amor de lutas e ousadia.
Ela, manda email, triste, ele quer terminar.
Tem uma lista de coisas que ela não o atende mais.
Ela sofre.
A chuva renova-lhe feridas, dias sombrios e frios, matam amantes..
Ela manda SMS, o que dizer a uma amiga em luto?.
Seus filhos estão longe, ela veio trabalhar.
Saudade não pode ter, não conseguiria ficar.
A vida segue seu ritmo.
As gramas bebem o cálice do infinito.
Flores preparam-se para vida e morte.
Reviro entranhas... 
Penso, estou melhor do que um dia pensei ser.
Ahhh, como estou!!!

Vele


Eu velo.
Tu velas.
Ele vela.
Nós cuidamos.
Aportamos, 
zarpamos, 
navegamos, e, 
um dia,
afundamos,
Caras velas nossas de cada dia,
elevai ao horizonte infinito de amor,
as puídas e toscas caravelas que somos.

O que você faria?

Você doaria tempo
e coragem para libertar 
o animal?
E, se fosse o animal, 
ficaria para agradecer, 
após libertado?

Tempere

Tem momentos de crise 
que pedem temperos.
Temperos realçam
o sabor daquilo que é bom, 
mas estava despercebido.
Muitas vidas precisam de temperos.
Caem na rotina,
e o belo é olhado com olhos opacos da indiferença
Uma pitada de alecrim, 
realça o sabor do carneiro.
Uma pouco de manjericão, 
acentua o gosto dos peixes.
Temperos são pitadas mágicas.
A vida pede momentos tempero.
Pequenos rituais, prazeres, iluminuras que farão toda a diferença no dia.
Um telefonema que recebemos, um email que abrimos, uma gentileza gratuita, poderão ser temperos, tornar muito maior e melhor o cotidiano e a rotina.
Um pedido de perdão pode ser um tempero, em horas de destemperos.

Com que mesa?

Com que mesa?    By Ricardim

O ambiente de trabalho estava tenso, a visita do auditor, se é que auditores fazem visitas, fora antecipada para as 16hrs de hoje. 
Um corre-corre, todo mundo estudando as últimas práticas de pessoas na Ditec, e sua relação com a ISO 20.000. Outros colecionando evidências ou tentado imaginar o que seria a banca de perguntas e aferição.
Pra piorar sabíamos que os outros processos auditados tinham sido aprovados e que o nosso era o último. Aumentava em muito a expectativa. Não podia ser, justamente nós, onde o bicho iria pegar, ou seja, fazer feio.
Na hora combinada, um dos gestores da área vai ás pressas ao banheiro. O auditor chega e o cumprimento sozinho. Penso, isso é hora do Lyra ir ao WC. E se o cabra me pergunta algo e titubeio.
Nem bem terminei de alinhavar esse pensamento, lá vem o Lyra, todo faceiro, mais aliviado, supunha.
A seção de aferição dos aspectos e capacidades relacionadas ao RH, no que tange ao gerenciamento de serviços de TI, começa.
Simpatizo de cara com o auditor. 
Fala mansa, risonho, procurou deixar a todos mais relaxados. Missão quase impossível.
Vai perguntando e ouvindo com atenção, aqui e acolá deixando escapar um gesto traído de quem tá gostando do que analisa.
Todos vão ficando mais calmos e vamos nos soltando.
O auditor da ISO 20000 chama-se Reinaldo, e fica tirando onda com os psicólogos presentes, e olhe que somos uns seis.
Diz que tem medo de psicólogo. Não sabe ele que eu também.
cacaca

Com o ambiente já bem descontraído, final da auditoria de inspeção, laudo positivo, abre-se uma pauta de amenidades.

Agora aquele, antes distante auditor, era gente que nem a gente. Disse que desenvolve sua inteligência emocional fazendo Origami, Reiki e Cromoterapia.  Um cara altamente lógico-racional cuidando das coisas e emocionais, um luxo!  Pensei, esse ser é especial.
Pra fechar, disse que veio lendo um livro no voo, de  Jung. Ahh... ele é dos meus.

Aí ele conta que tem filhas, esposa e uma cadela, e que tem que desenvolver o lado emocional pra lidar com tanta mulher. rsrsrs

Todos se encantam com Reinaldo. Sabedoria e humildade juntos, numa amálgama perfeita. 

Perto de ir embora ele revela que sua cachorra adoeceu de velhice. Ela tem 14 anos e ficou cega, recentemente.

Mas que ela andava pela casa toda, pois aprendeu ainda quando via a se livrar dos obstáculos.

Seu canto predileto era debaixo da mesa de refeições,  Ela vinha andando e sabia exatamente onde tava os pés da mesa pra se desviar.

Aí, um dia sua esposa põe algo muito quente em cima do tampo de vidro e quebra a mesa. 

Reinaldo começa uma busca em vão, de achar uma mesa que tenha os mesmos espaçamentos das pernas, para que a cachorra possa vir até eles sem bater nos pés.

Quem pensaria neste detalhes? Só pessoas-anjo.
Procura, procura e nada. Então decide que não haverá mais mesa. 

Sua esposa reclama, fala que as visitas irão sair falando, e coisas e tal.

Ele diz que as visitas do seu lar são visitas que saberão entender o porquê de não ter mesa. E que, logo logo, a cadela partirá.

Não vai complicar a mobilidade da sua amiga cadela, com uma nova mesa, para a qual ela não saiba os espaçamentos necessários. E fique batendo nos seus pés.

Ele fala com um desapego e amor que nos deixou perplexos, positivamente perplexos.

Que deixaria de comprar um móvel para melhorar a mobilidade de um ente querido?

Ou, quem ainda hoje faz gestos concretos para aumentar qualidade de vida dos que habitam em nosso lar? Numa sociedade apressada e descuidada com o outro.
Lembro da forma como muitas domésticas são tratadas, e as minúsculas áreas a elas destinadas, menores do que casinhas de cachorro. 

Ou quanto idosos habitam em nosso lar e não recebem o respeito e atenção que Reinaldo teve para com sua cadela. Vivem batendo nos pés da mesa de nossos lares e não fazemos nada para ajudá-los.  
Quanto amor o Reinaldo tem por sua cadela!
Quem ama, transforma realidades. Supera desafios, inventa possibilidades, e vai, faz e acontece. 

Como é bom ter alguém que cuide de nós, que veja nossas necessidades e seja solidário a elas.

Aquela foi a cereja do bolo da auditoria. 

Agora não era mais um sisudo auditor. 

Era uma pessoa de carne e osso, daquelas que quando se apaixonam movem montanhas para fazer o bem àqueles que ama.

Felizarda família do Reinaldo. Se ele tem esse tipo de preocupação e desapego, para melhorar a qualidade de vida de sua cadela, imagine de suas filhas, esposa e, porque não dizer, família e amigos.

Hoje li que a jovem  Mikhaila Copello, 22 anos, sozinha evitou que um ladrão fosse linchado na zona oeste do RJ.  " Pode-se falar de instinto, mas eu levantei. Fui até o sujeito, separei a briga, aos berros, enquanto uma multidão se reunia aos gritos de “mata! mata!”, Pra eles falei: Quem defende essas pessoas não é defensor de bandido ou de monstros, mas está dando uma chance a vocês de não se tornarem um monstro como eles."

O mundo seria muito melhor se tivéssemos mais Reinaldos e Mikhailas... ahh como seria!

Dilemas Éticos


Hoje vi pessoas em frenesi,
comprando passagens da GOL.
Horas depois, o site foi tirado do ar
e a Empresa revelou um sério erro no lançamento dos valores, no seu sistema.
A Empresa declarou que irá honrar os compromissos das vendas.
Contudo, e para refletir,
você se sentiria bem tendo comprado uma dessas passagens,
a um preço exorbitantemente errado,
cuja falha pode levar a demissão de trabalhadores?
Imagine, numa situação remota,
que a Empresa viesse a lhe pedir desculpas,
solicitando sua autorização para estornar a venda,
você autorizaria?
Eu autorizaria?
E se fosse uma venda minha,
por exemplo no Mercado Livre,
a um preço exorbitantemente errado
- uma falha minha ao lançá-lo,
e, se eu pedisse desculpas
e o estorno da venda ao meu cliente,
gostaria que ele aceitasse?

São os meus, seus,
nossos dilemas éticos de cada dia.

Cuja resposta a eles, fará toda a diferença na construção de uma nova sociedade.

Adelmo, o Mordomo do BB



Terça feira passada meu diretor de Tecnologia, o Luizinho, chamou-me para acompanhá-lo ao Ed. Sede III, "O Olimpo".

- Amanhã faça a barba e venha de paletó.


Missão dada, missão cumprida.


Na quarta, estava todo brilhantina e lustrado, um verdadeiro bonitão das tapiocas.

Perto do meio dia, ele pede que eu desça. Seguimos para o Ed. Sede III, no qual funciona o "Olimpo" do BB.

Para nós, da casa, é a sede do "quartel general", local onde o Presidente, Vice-Presidentes e Diretores despacham.

Entrando no elevador ele pediu 25 andar, nos meus 28 anos de BB nunca tinha entrado ali, lugar sagrado, quase que a cozinha do BB. Deu um frio na barriga. Já tinha ido até o 24.

Nunca tinha entrado naquele andar. Ali funciona um restaurante. Local onde os executivos do BB podem almoçar, levando inclusive convidados. É uma maneira prática de conciliar longas jornadas om uma pausa para as refeições.

Logo na entrada vejo o Dezena, Vice Presidente de Tecnologia, o Osmar Dias, Vice-Presidente de Agronegócios e Micro e Pequenas Empresas, e a Patrícia Midon, secretária do Dezena. Eles nos avistam e nos chamam para dividir à mesa.

Um frio na barriga. Nunca tinha entrado naquele lugar, muito menos almoçado com os "capa-pretas".


Sou salvo pelo cardápio, rsrs, carneiro e risoto de cachaça.

Mas um pouco ocupam nossa mesa o Gueitiro, Diretor de Crédito Imobiliário e o Clênio, Diretor de Agronegócios. Clênio cumprimenta-me efusivamente. Abraçamos-nos como velhos amigos. No passado, estivemos juntos em importantes eventos do BB.
Dezena, vendo minha caipirice, puxa assunto de poesia, feira-livre, São João de Campina Grande.

Osmar, conta um tropeção que deu ao levantar da cama, e bater numa estátua de uma santa que recebeu do Clênio. Clênio convida a todos para em outubro participarem do Círio de Nazaré.
Aos poucos vou relaxando. Ali estão pessoas como eu, não estou no Olimpo.
Os tempos do Olimpo ficaram pra trás, e que bom.
Só não tenho coragem de repetir o prato.
Na saída, umas pessoas me cumprimentam, sentavam noutra mesa. Minha amnésia me trai. Depois, no carro, descubro que era o pessoal da Auditoria do BB, Rudnei e o Auditor chefe. Fui traído pela memória. Já fizemos bons trabalhos juntos ao ajudarmos na criação do curso Auditoria Baseada em Riscos.
Dirigindo-nos ao elevador cruzamos com o chefe dos copeiros do restaurante. andar.
Luizinho sorri, puxa-lhe num canto e a mim, e diz, este aqui daria um livro.
Luizinho me apresenta o Adelmo.

E, ainda bem que a reunião do chefe era pras 15hrs.
Ficamos um bom tempo extasiados com as histórias do Adelmo, este que está entre nós dois na foto.
Sabe aquele filme "O Mordomo da Casa Branca"? Pera aí que já te conto.

Pois bem, se houvesse um filme: o Mordomo do BB, o papel principal seria do Adelmo.

O mordomo do "Olimpo", o Adelmo, tem 34 anos que serve aos executivos do BB no restaurante privativo. Já viu de tudo.
Foi testemunha ocular das mudanças em nosso país, do processo de redemocratização, da inflação, da abertura de mercados e da estabilização da moeda.

Viu muitas trocas de Presidentes da República, e consequentes mudanças na gestão do BB.

Testemunhou, em nossas expressões fisionômicas (o corpo fala) nossos momentos mais difíceis: Fim da Conta Movimento; Ameaças de Privatização; Balanços Deficitários; Injeção de Capital Tesouro; Greves Históricas e o PDV.
Viu os bons áreas da estratégia de Desenvolvimento Regional Sustentável e de Responsabilidade Social.
Viu o Agronegócio virando um dos principais mercados negocial.
Presenciou almoços, verdadeiras celebrações, eram os frutos sendo colhidos e os bons resultados chegando. Viu discussões mais acaloradas, sobre os rumos de nosso BB, entre uma garfada e outra.
Mas, principalmente, viu pessoas que amavam esta Instituição: com ela alegravam-se, preocupavam-se, sofriam e esperançavam novos tempos.
Ahh, se aquela copa falasse!
Parte da história do Brasil ali foi discutida. Apoiar ou não apoiar o crédito, num momento que todos os outros agentes financeiros tiram o pé do acelerador?
Adelmo, com seu cafezinho na hora certa. Com uma sobremesa aqui, um suco acolá. Com um docinho, ia fluidificando os diálogos.
Já viram o filem a Festa de Babete, acredito que ele foi um pouco Babete na instituição BB.
Proporcionou, servindo à mesa, que pessoas se encontrassem para além de seus crachás e poderosos cargos.
Encontram-se na singularidade de comerem juntos.
Na profunda humanidade de dividir à mesa e nos deixar melhores, garfada à garfada, como se o alimento do corpo entrasse na alma.
Quem nunca se sentiu melhor na cozinha da vovó?
Cozinhas são lugares mágicos e místicos. Lugar de ajuntamento, de celebração.
Lugar de renovação das forças.
De encontros, de prazeres que dão água na boca e catalisam relações.
Adelmo nos conta que ano que vem vai se aposentar
Vai voltar para Belo Jardim-PE e cuidar de "sua velhinha", sua mãe. Viver os últimos anos dela, ao seu lado. Diz que chegou na fundação de Brasília, há 54 anos. Que a Asa Sul era dos Maranhenses e a Norte dos Cearenses. Agora entendo porque o Carneiro e Picanha tá na Norte. rsrs
São simples e belos os sonhos do Adelmo.
Lembra-se de cada alto-executivo que serviu. E, para todos, guarda uma recordação de admiração, de reconhecimento. Só deixou adentrar no seu coração coisas boas.
Diz que sempre gostou de trabalha como copeiro, nunca pensou em mudar de profissão.
Ali se realiza. Gosta de identificar os pratos que mais apetecem seus clientes e encantá-los.
Olha pra mim e diz que fui o primeiro a servir-se do Risoto de Cachaça, sorri aliviado
"Coisa de nordestino, sabe o que é bom."
A cachaça é numa micro-dose, só para realçar os sabores e melhorar a elasticidade do Risoto, conta-me.
Adelmo, satisfeito e radiante, diz que o atual Presidente do BB, o Dida, bate o recorde de permanência no cargo, 5 anos e 4 meses. O recorde anterior era do Oswaldo Colin, 5 anos. Fala do Dida emocionado.
Diz que ele o trata como pessoa, e é sempre atencioso com ele. "Cabra trabalhador é aquele, vara as noites aqui. Arregaça as mangas e resolve tudo".
Conta que uns entravam ali e não o via, outros puxavam conversa e gostavam de trocar amenidades.
Existem muitos Adelmos, Corporações afora.
Pessoas que são verdadeiros monumentos organizacionais, cuja história confunde-se com a da Instituição. Pessoas que testemunharam a evolução e mudanças da Organização, vendo-as num prisma privilegiado.
Uma que pena que muitos se tornam invisíveis, peças de mobiliário.
Perguntamos ao Adelmo qual seu segredo de tanta disposição e vitalidade.

Ele nos conta que é o trabalho.

Que vem da alegria de servir.


Sabe tudo este Adelmo!

Aposentadoria - Síndrome de Abstinência à Vida Corporativa (Ricardo de Faria Barros)




Querido leitor, convido-lhe a continuar refletindo sobre os obstáculos que existem na Travessia para o pós-carreira. Minha intenção é que você os contornem. Saia fora deles. Conhecê-los é preciso para não ficar exposto a este risco. É como saber que, numa determinada estrada, a ponte está interrompida. Assim, quilômetros antes, vamos procurando atalhos. Ou, como quem acessa o aplicativo Waze e vê que tem uma rota difícil à frente a tempo de procurar rotas alternativas e melhores. Hoje, refletiremos sobre o obstáculo da Síndrome da Abstinência à Vida Corporativa – SAVC. Num cartão plástico, de uns 5x9cm, quanta história reunida! Como numa tela, nele projetam-se anos de vida corporativa. Alegrias, tristezas, vitórias, derrotas, frustrações, conquistas... tudo ali se materializa. É a última peça do fardamento. E a primeira tirada fora ao nos aposentarmos. Em alguns, o crachá já se tornou parte do corpo, tão indissociável dele como o celular. São guardados como relíquias, a cada troca periódica. Noutros, a foto não mais representa o estado atual de quem o usa. Mas, ao olhá-la, ainda se veem do mesmo jeito. Entende? Naquele palco de 45cm² quantas peças foram apresentadas! Algumas dramáticas, outras cheias de humor, outras de amor, outras de terror, noutras, ainda, verdadeiras aventuras e sagas. Ele tangibiliza a participação na vida corporativa, abre portas, apresenta, cria similaridades e orgulho de quem o porta. Coloca todos na mesma página institucional, no mesmo grupo social. Seria, numa analogia possível, quase como uma "certidão de nascimento" do profissional. Ano a ano, trabalho a trabalho, ele foi tornando-se pessoa, e a pessoa tornando-se ele, numa amálgama de sentidos. Virou parte da identidade pessoal. O crachá. Ah, o crachá. Despedir-se dele - o crachá - é só mais um dos lutos necessários que o processo de aposentadoria pede. Naquele pedacinho de plástico quanta recordação! O que seria do personagem Bozó sem o crachá da Rede Globo? Comecei esse texto pelo crachá e o apego imaterial a ele para falar da Síndrome da Abstinência à Vida Corporativa - SAVC. Debulho umas letrinhas sobre a terceira Síndrome que criei para, pedagogicamente, educar para a aposentadoria. São elas: a Síndrome da Alienação Fantástica; a da Abstinência à Vida Corporativa e a do Ninho Vazio. Já escrevi sobre a primeira, vamos à segunda. Muitos aposentados que me procuram vivem a Síndrome da Abstinência à Vida Corporativa e não sabem. Ela é gerada pelo intenso processo de luto em que se encontram. Luto??? Mas como luto? O processo de aposentadoria acarreta uma das mais significativas vivências de perda do ser humano: do grupo de referência; da identidade social; dos processos, padrões de comportamento e disciplinas diárias; dos desafios enfrentados com o uso das competências adquiridas; dos estímulos recebidos, diretos ou indiretos, pelo alcance dos resultados. Não se engane! Até de trabalhos desprazeirosos, realizados ao longo de décadas, ao nos separamos deles, sentimos. É como aquela relação a dois, aos trancos e barrancos, que, quando um morre (o vilão, se é que existe um único vilão numa relação a dois) o outro sofre. E endoida o psicólogo que o atende. Vem à tona uma mistura de pulsões de vida e de morte, de eros e tânatos fazendo girar a dinâmica da vida e a nooexistência. E é justamente esse giro que torna a vida plena de sentido. Contudo, nem todos sabem cruzar essa fronteira, substituindo essas perdas por novas fontes de motivação. Pela despreparação com a qual adentram na aposentadoria, separam-se da "amante" sem uma etapa de transição. A Síndrome assemelha-se a duas outras patologias, a codependência afetiva e a abstinência. Na primeira delas, as causas são originárias de um apego excessivo, ou seja, fruto de uma vida centrada no objeto amoroso. É assim descrita: "O codependente acredita que sua felicidade depende da pessoa que tenta ajudar, e assim se torna dependente dele emocionalmente." No caso, troque o termo "a pessoa' por Corporação. Ou seja, transfere-se para a relação do trabalho toda a carga libidinal-afetiva, tal qual uma relação afetiva doentia. E quando é chegada a hora da separação do emprego, o codependente laboral entra em parafuso. Os mesmos sintomas de quem vive processos de separação de amantes, de forma abrupta, acomete as pessoas que não possuem outro prazer na vida, algo que lhe mobilize e lhe dê um porquê viver, além do trabalho. Toda relação de codependência gera, na separação, um profundo luto. Na bibliografia é chamada de Separação dos Amantes: A pessoa atingida pelo término da relação entra num estado de confusão emocional muito próprio de quem está perdido, sem bússola ou porto onde ancorar. Ante o sofrimento vivido, a trabalhador que se aposenta, não vê a empresa que dela saiu em sua real dimensão, mas a mantém mitificada no pedestal amoroso que criou. São sintomas da ordem da despersonalização, raiva, sentimento de incapacidade para tocar novos projetos, apatia, dificuldade de olhar à frente e de virar a página. Fica-se num saudoso e mórbido reviver das experiências do trabalho sem conseguir ver a vida que existe a ser desbravada no pós-carreira. A outra patologia é a Abstinência. Vejamos sua definição: "A Síndrome da Abstinência corresponde aos sintomas físicos, psicológicos e sociais provocados pela falta da droga, que ocorrem de 3 a 10 dias após o último uso.” (Wikipédia) Na metáfora que estamos discutindo, troque o termo droga por trabalho. A pessoa adoece por ter se acostumado com as endorfinas, adrenalinas e cortisol presentes na relação com o trabalho. Ao tirar delas o ritmo frenético em que estavam acostumadas, e por não haver substituições de outras atividades que produzam os mesmos hormônios, o aposentado definha em saúde física, mental e social, com sintomas de confusão mental, apatia, alteração no sono e libido, irritabilidade e depressão de leve à moderada. Mas, não é pra menos. O mundo do trabalho invadiu a vida pessoal. Ninguém mais trabalha 8 horas por dia. Quando se estuda à noite, após a jornada, está se trabalhando, entende? Ao sair para um happy-hour, após o trabalho, para se divertir com o grupo de referência a ele associado, estamos trabalhando, mesmo no lazer, entende? É que a referência do grupo social desse tipo de lazer é vinculada à instituição laboral. Ao se tomar banho para dirigir-se ao trabalho já se está trabalhando, entende? Ao chegar ao trabalho, parar na copa, tomar um cafezinho, saudar os colegas, já se está trabalhando. Ao chegar em casa, e ler as mensagens do seu grupo de “zapzap”, ainda se está trabalhando, mesmo que seja conversando amenidades. Entende? Se não tiver cuidado leva-se o trabalho para todas as vivências. O trabalho invade todas as áreas da vida e se não for feita uma preparação psicológica para o "desmame", para o "divórcio", a pessoa poderá reagir mal às perdas decorrentes do fim da relação de emprego. Trata-se do contrato psicológico do trabalho que acaba perpassando todas as áreas da vida do trabalhador, após 30- 40 anos de trabalho. Aí, ele não se prepara para a separação. Não alimenta, enquanto "casado" novos grupos sociais, novos projetos. Deixar para pensar nisso depois que se aposentar não é uma boa ideia. Depois será bem mais difícil. A ausência de ocupação e rotinas, associadas ao trabalho, vai deixar um vácuo na psiquê. Vai aprofundar o processo de luto. A Síndrome é cruel. Alguns de seus doentes ligam do telefone fixo para o celular, uma vez que ele calou. Ligam para ver se ele está funcionando mesmo. Outros, como o relato real do início do texto, pedem acesso à intranet corporativa como aposentados: "para poder acompanhar as notícias da empresa". Outros se arrumam, fazem a barba, e vão aos locais de trabalho na tentativa de rever amigos. Uns mais radicais passam a monitorar o trabalho pelas redes sociais para "não perderem contato". Todos, de maior grau ou menor, sofrem os sintomas da SAVC. São pessoas que sofrem a crise da separação. Da separação dos amantes. Pessoas que se deixaram despersonalizarem pelo trabalho. Perderam todas as outras referências de mundo deslocando sua libido e força vital unicamente para a Corporação. Trocaram sua identidade pessoal pela identidade profissional, pelo crachá. Contam aos familiares e amigos as cenas do trabalho, repetidas vezes, como se tivessem acontecido ontem. Refugiam-se nas memórias para manter acesso vínculo. Até tentam se agrupar em grupos de aposentados para manterem a relação acesa. Adoeceram pela pior das doenças que pode acometer quem ama: a codependência afetiva, a doença do apego. Não sabem mais viver sem a amada Corporação. O que fazer? Como se preparar para mitigar os riscos de adoecimento pela doença do apego? A resposta é simples! Eu disse simples, não fácil. Desperte outros motivos para viver. Comece uns anos antes da decisão de romper a se envolver com coisas que preencham o tempo e lhe deem prazer. Comece a se preparar psicologicamente para a separação, vivendo ainda juntos, entende? Comece a fazer as malas, lentamente, para uma nova jornada, uma travessia, agora em busca de si mesmo. Na outra margem da travessia existem tantas possibilidades para serem vividas. Aos que não sabem viver sem a rotina e estímulos que recebe no trabalho, digo-lhes que há vida além dos 45cm² do crachá. Há aventuras a serem vividas, conhecimentos a serem adquiridos, experiências a serem desbravadas. Processe o luto da sua amada corporação. Não significa ter indiferença com a empresa que dedicou bons anos de seu viver. Significa que os melhores ainda estarão por vir. É só se permitir o renascimento de sua pessoa, de sua nova identidade, não mais vinculada ao seu nome, o sobrenome corporativo.

Deixe de saudosismo.

Levante-se desta rede, cadeira de balanço, ou o que quer que se assemelhe. Há muita vida a ser desbravada ainda.

Há empregos sobrando na empresa VIDA S/A.

Portanto, participe de seus processos seletivos.

Faça a barba ou passe batom, mas cuide-se! Saia da posição de "aposentado desleixado".

Vá viver os bons anos da vida que ainda tem de forma plena, abrindo-se a inúmeras outras formas de ser feliz e de preencher o tempo com qualidade, agora escolhendo por si mesmo em que investirá as preciosas horas de vida plena, de sua bela maturidade.

Você tem mais uns 40 anos de vida ativa. Tome mais sorvete e menos sopa. Tome mais banho de chuva e menos de chuveiro.

Tome mais chá e menos tarja preta.

Tome mais doses de gratidão, doação e compaixão e menos doses de você mesmo. Existem muitas pessoas para as quais você pode ser bênção.

Pense nisso, os ecos do que fará com a sua vida, a partir de agora, ecoarão na eternidade dos que de ti se fizerem morada.
Tu és eterno demais para pendurar as chuteiras no jogo da vida.

A vida não cabe no Excel

Tem um monte de pessoas, 
situações ou atitudes que não 
cabem numa planilha de Excel.
Na tentativa de quantificar o subjetivo;
de mensurar o intangível;
de precificar o imaterial;
nos afastamos - numa vã ilusão de controle, 
das percepções emocionais, 
fruto de experiências acumuladas e insights.
Na tentativa de racionalizar decisões,
 para justificarmos escolhas, 
criamos subterfúgios que pensem
por nós mesmos, 
não abrindo espaços para dúvidas, 
incertezas, debates, e outras considerações
não contempladas e que poderão fazer toda a diferença.
Na maioria das vezes, estes sistemas de apoio, 
digo de apoio,
à decisão são baseados em premissas constantes, que tentam moldar o inconstante.
Esquecem, seus criativos autores, que a natureza é grávida do seu contrário.
E que, para inúmeras situações da vida,
no processo de tomada de decisão, 
nada substituirá o bom e velho diálogo, 
associado a uma certa dose de instinto, 
e, de quebra, um pouco de sabedoria.

As construções mais belas dos seres humanos, 
suas decisões mais preciosas, 
são tomadas com base no desenho de novas possibilidades, ou arranjos institucionais.
E, desenhar é uma arte de preencher 
espaços vazios, com um universo de sentido, 
ali antes inexistente.
Para isto serve a liderança, 
e os verdadeiros líderes, para refazer cursos e processos de decisão, criando novos aconteceres. 
Afinal, somos frutos da maravilhosa, e sócio-histórico condição, de ser pessoas em permanente reinvenção, inacabados.

Amor Sem Vergonha


O dia amanheceu com um tom de luz incomum. Como se sobre ele estivesse pairando uma poderosa Luz.
No céu, nuvens brancas borradas. Traços de um Pintor que as espalhou, como quem usa um pincel na técnica do Brush.
Indescritível céu do Distrito Federal.
Sigo cedo para lavar o carro. No caminho, paro e dou ré.
Descortina-se à minha frente um ipê branco iniciando a floração. Uma floração de não mais do que uma semana. E precoce. Como a alegria, deve ser reverenciado ao extremo, quando chega.
Desisto de seguir caminho e volto para fotografá-lo.
Chegando na feira-livre faço minha caminhada costumeira, visitando amigos feirantes. Tenho uma meia dúzia para os quais sou pessoa.
No açougue, Dedé fala-me que tem carne de carneiro e das boas, recém-abatido. Tira um corte de costeletas para mim, e posa para a foto. Pode haver sorriso mais expressivo?
Subo para a banca do avô do Erick. Meu sem jeito ele constata que nunca nos apresentamos oficialmente. Ele para mim era o avô do Erick, o feirante dos ovos e galinhas caipiras. Eu, para ele, era o moço da máquina fotográfica, do ponto rotineiro da banca do pastel, em fronte à sua.
Pergunta-me da campanha da cadeira de rodas elétrica para seu neto, o Erick, e digo-lhe que está a pleno vapor. Já com 20% da meta alcançada. Peço-lhe que guarde segredo para o Erick.
Será seu presente de aniversário em agosto, aniversário de dez anos. Ele me diz que no dia da entrega vai matar umas galinhas no sítio. Convidará seus familiares, minha família e os meus amigos que ajudaram. Já imagino a cena.
Encho os olhos de emoção ao vê-lo antevendo aquele dia.
Na saída compro uma orquídea linda para minha esposa, que aniversariou no dia anterior. Comento com o florista que próximo domingo, dia das mães, o negócio dele vai estourar. Ele diz radiante que é o melhor domingo para quem vende flores.
Volto pra casa. Coração cheio de pessoas boas que aprendi a amá-las. Meu roteiro domingueiro por aquela feita é um tônico revigorante.
No caminho de volta, passou por uma casa na qual tem uma placa: “Retire aqui uma palavra de fé...”.
Não aguentei. Voltei para fotografá-la. Quanto desprendimento e inovação, em termos de negócios espirituais. Imagino o bem que aquelas mensagens possam causar na vida das pessoas que vão subindo ou descendo aquela ladeira íngreme, uns 4 km antes de minha casa.
Imagino que ali, naquela casa, habita mora um lar.
Chegando em casa o celular faz aquele “piado’ de quando recebe mensagens no UOTEZAPI.
Um amigo pede um help afetivo. Ele acabara de embarcar sua amada. Passará mais um tempo sem vê-la novamente, moram em estados bem distantes.
Peço que ele ligue. Ele me diz que não conseguirá que só chora.
Que a dor do amor que vai é muito grande.
Agora sou eu quem se emociona.
Não é todo dia que um garotão de 50 anos volta a amar, como ele depois me falou, quando tomou coragem e ligou.
Ele que já tinha tudo organizado, na sua solteirice de 12 anos. O amor entrou em sua vida, novamente, sem pedir licença.
Fez-lhe bobo, e até tirando lágrimas de um “ser duro para ser visto chorando”.
Ele sofre. Digo-lhe que tenho uma boa e uma má notícia. A má notícia é que o sofrer continuará.
A boa, é que é o sofrer melhor, mais gostoso, mais tesudo com que um ser possa experimentar.
Trata-se do sofrer do amor. E, um amor que sofre, é um amor que nasce e renasce periodicamente. É um amor vivo.
Ele revela cena a cena de como foi se envolvendo.
Eu vibro com cada descrição. Sentindo-me importante ao ser depositário de tanta riqueza.
O amor nos torna eternos. Nos faz deuses.
Engana o tempo, a lógica e a razão. O amor transcende.
Converso com ele no jardim, contemplando o céu azul. O mesmo céu que brindou meu despertar.
Ele me conta que cuidará dela, que as cores de seu viver não tem mais olhos para ninguém.
Que a saudade e distância serão combustível para reencontros, e não toxinas mortais - de desencontros. Entende?
Que trocará confidências, rotinas, projetos.
Conta que espera ansiosamente as postagens dela, de sua rotina, amores nos tempos do UOTEZAPI, de suas alegrias, dissabores, temores e etéreas esperanças. E que, com elas também se alimenta.
O conheci de tempos atrás. Naquela época ele se proclamava um solteirão convicto. Que o mundo do trabalho não deixava tempo para dedicar-se às coisas do coração. Que era muito cartesiano, lógico, quase um economista de sentimentos e que nunca mais iria viver o que viveu no primeiro amor, dela separado há 12 anos. Pela morte, morte do amor.
Agora, ele sorri, alegra-se com suas reações que o deixam fora do prumo, da rota. Amores são assim, não pedem licença, arrombam a porta de nossos corações.
Existem muitas formas de amar. O açougueiro que me serviu me amou. Ele deu o que de melhor tinha para me encantar. Limpou aquela carne como se fosse para ele mesmo.
O Darcy (o ex--avô-do-Erick) me amou ao antever a festinha de aniversário do neto, com a presença de meus amigos, família e a cadeira de rodas turbinada. Amou ao projetar no futuro a mobilidade de seu neto e as alegrias redobradas que o fato de poder ir e vir sem maiores dificuldades causarão no jovenzinho.
Aquela família me amou, ao disponibilizar na calçada de seu lar mensagens edificantes, oriundas do Cristianismo. Para, pegue, leia, sinta-se melhor e siga multiplicando gestos fraternos. Simples assim. Eles encontraram um jeito de fazer a diferença.
Meu amigo me amou. Amou-me ao me fazer guardião, seleto curador, de seu amor de maturidade. De seu amor turbilhão, vendaval das certezas eternas e vaporizador de dogmas pétreos.
Entrego a orquídea à minha esposa, aquela que comprei pela manhã e que estava escondida.
Ela parou o que fazia. Colava figurinhas no álbum da Copa para o JG. Ela não esperava o gesto. Comove-se. Seu aniversário foi ontem, e ofereci um jantar fora em família. Hoje, para ela seria um dia normal, sem mimos e fru-frus. Eis que o amor irrompe a cena e a transforma. Sem pedir licença, sem esperar dias, ritos, providências racionais. Simplesmente ele chega e se mostra.
Fotografo um ninho de canários da terra. Já com três ovinhos. A mamãe-canário voa assustada. Não sem antes deixar-se fotografar, cuidado de suas crias ainda em ovos. Chocando-as. Amor de espera, de paciência. Como o de quem planta um bambuzal e espera por quatro anos que ele desenvolva raízes, antes de crescer um metro sequer. Depois, assusta-se com o crescimento vigoroso, mês a mês.
Uma amor de paciência, de mansidão, de renúncia, um amor que pede respeito, foi o que aquela mãe-pássaro me evocou.
Os menininhos que moram à frente de minha casa vêm chamar o JG para brincar com eles. Parece que o dia será do amor. Agora amor de amigos, de pessoas que ao se juntarem são maiores que sozinhas.
À noite celebrarei tudo isto, ajoelhando-me aos pés da Cruz. Ali, agradecerei um casal amigo que nos visitará, na oração da noite, e que conseguiram resgatar seu casamento, após uma separação abrupta. Sim, vaso bom cola. Já escrevi sobre isso. Eles colaram os cacos de sua separação com ouro. E o resultado foi um KINTSUGI. Ficou ainda melhor do que o anterior, mais valioso, pois agora só possuem o presente e o futuro, nada de retrovisores, juntos caminharão mais uma légua, contudo agora com as marcas da Promessa.
Colar figurinhas e sair com os filhos para trocá-las também é um ato de amor. Fizemos um almoço com filhos, noras e quase genro e dei boas risadas vendo-os todos fazendo as trocas dos refugos no mercado de figurinhas que se estabeleceu. Agora também o JG faz parte do grupo. Ele recebeu figurinhas e o álbum de seus irmãos. Mais um gesto de amor.

Hoje o céu pintado de azul e borrado de branco pede amor.
Em todas formas de se manifestar, de se fazer presente e nos tornar eternos.
Eternos demais, humanos demais...
Que as mil lágrimas de meu amigo, sejam canalizadas para a humanidade.
Árida e sedenta de boas histórias de amor - fundamentais ao ciclo da vida.

Pessoas-Alecrim



Acordo bem cedo e tenso. 
O dia será longo, darei três palestras. 
Duas sobre atendimento aos clientes, de título: 
Se não fosse pelos clientes, qual sentido de meu trabalho?
E uma outra, sobre desenvolvimento profissional de título: Jardineiro de Talentos.

Por uma incrível coincidência de agendas, elas ficaram no mesmo dia, e nos horários: 9hs às 11hs; 13h:30min às 15hrs e 15h30min às 17h30min.

A sorte é que são no mesmo prédio.

Madrugamos, eu e o JG. E saímos antes até que a Cristina chegasse da academia. O sol dava seus primeiro e tímidos sinais de vida.

No caminho, JG puxava assunto. E, eu me esquivava. Sempre minha cabeça borbulha antes de palestras ou aulas. Filmes vão passando por ela. Fico calado.

JG me pergunta o que são palestras. Digo-lhe que são conversas que faço com pessoas.

Ele não entende nada e volta à carga, para meu desespero.

“Só isso?” Tento explicar-lhe e desisto.

JG não é fácil. À cada resposta, ele emenda uma outra pergunta.

Achando que ele desistira, relaxo. Aí ele faz mais uma:

“Hoje é amanhã?”

Com pouca paciência, solto um:

“Hoje é hoje, como pode ser amanhã”?

Ele pensa e resmunga:

“Como posso saber, ué?”

Sem graça tento explicar-lhe o tempo. Explicar o inexplicável, nossa foram de marcar o tempo, e no meio da explicação, acabei me traindo, pois na minha ansiedade com as palestras, antecipo o tempo, e hoje é amanhã sim.

Aí ele não entendeu mais nada e eu tudo. Sim, JG, hoje é amanhã.

Descansei. Eu estava antecipando o amanhã e isso, quando é muito forte, causa uma ansiedade doentia.

Contudo, todos nós vivemos no hoje o amanhã. Hoje é amanhã sim, JG estava certo.

Um filósofo importante escreveu sobre isso no livro O Ser e o Nada.

Vai ver que JG será filósofo.

Relaxado descubro que deixei a máquina fotográfica em casa e os ramos de alecrim de uma dinâmica que farei, usada como recurso pedagógico nas palestras.

Desespero-me. Não dá pra voltar.

No caminho, entro correndo num supermercado. Antes mesmo de deixar o JG na escola. Para meu azar, as verduras ainda não tinham sido repostas.

Não tinha ramos de alecrim. Vou no setor de temperos e compro alecrim desidratado, haverá de servir como plano B.

Antes de ligar o carro, peço ajuda aos meus amigos via UOTZAPI. “Se alguém tiver alecrim em casa, leve-o ao curso, vou precisar.”

Chegando no local do evento, ainda com uns minutinhos de antecedência, vejo no UOTI que a Leni, santa Leni, está trazendo.

Não é o da espécie dourado, da canção. Aquela variedade por estas bandas é rara. Por aqui, o mais comum é o da variedade Benenden Blue - folhas estreitas, verde-azulado-escuro, flores azuis, róseas ou violáceas.

Há muitos anos comecei a me interessar pelo Alecrim. Foi quando o coloquei numa receita de carneiro. Um carneiro com alecrim e um sem alecrim, faz toda a diferença. Então, cozinhava mascando aquelas folhinhas. Uma delícia. Agora mesmo, paro e vou buscá-las na horta.

Recebo os ramos de Alecrim da Leni e fico emocionado. Ali estão minhas amigas folhinhas.

Hoje vou te revelar o porquê de gostar tanto delas.

O nome científico do Alecrim é vem do Latim: Rosmarinus. Sabe o que significa?

Orvalho que vem do mar.

Não é lindo? Amo o orvalho, e o que vem do mar deve ter um gostinho de paz, de felicidade.

Desde que comecei a estudar essa plantinha vi como ela é uma metáfora do ser humano pleno, de suas atitudes e posturas diante da vida.

Vejamos.

O alecrim é anti-inflamatório. Nós podemos ser assim para com os que nos rodeiam e pedem abrigo. Podemos ajuda-los em suas inflamações emocionais e ser cura. Alívio, descanso para tantas pessoas que estão incomodadas com suas inflamações do Eu.

O alecrim combate a pressão alta. Quantas vezes precisamos de algo que alivie a pressão do dia a dia. Quantas das vezes são nossos amigos, família, alecrins em nosso viver. Aqueles que nos darão toques sobre nosso estilo de vida e a pressão que dele está exalando. No corre-corre vamos esquecendo de parar, de contemplar, de relaxar. Até de respirar. Mais uma vez o alecrim nos ensina, tem horas que é preciso baixar a pressão. Viver com menos tralhas emocionais.

O alecrim é antibacteriano. Como podemos ser assim em nossas próprias vidas e na dos outros. Podemos diminuir suas infecções emocionais, ajuda-los a sarar dos lutos, sofreres, culpas.

O alecrim é antidepressivo. Você já parou para pensar nas pessoas antidepressivas com as quais ao cruzar com elas você fica mais leve. Mais esperançoso. Eu tenho várias delas. Cuja visita em minha vida é uma lufada de otimismo.

O alecrim é revigorante, usado em chás como tônico estimulante, à exceção para mulheres grávidas que não devem tomar esse chá. Como é bom se sentir revigorado, reanimado, mobilizado para tocar velhos e novos projetos. Chamamos a isso de motivação. Atitudes alecrim nos motivam, nos estimulam. Revigoram almas tíbias, mentes apáticas. Amores são assim. Possuem em si mesmo a função estimuladora do alecrim. Amores são alecrim.

O alecrim é místico. Na idade média, nos casamentos o caminho até o altar era forrado com ramos e flores de alecrim, desejando aos noivos coragem e fidelidade. Muito sábia recomendação, por sinal. Suas flores e ramos eram usados para decorar as coroas de reis e rainhas, príncipes e princesas. Também era usado como incenso, e aromatizante nos óleos sagrados. Na idade média, nas épocas de graves epidemias e doenças, colocavam ramos de alecrim nas portas das casas, “para afastar os maus espíritos” e, as doenças que traziam consigo. O povo é sábio, mesmo antes da química mais aprimorada, descobriu que o alecrim é antibacteriano. Temos uma parte espiritual em nosso ser que precisa do alecrim. Somos um pedaço místico. Conseguimos nos emocionar vendo um pôr do sol, uma lua cheia, um riso de bebê. Conseguimos cantar poesias, dançar emoções. Conseguimos nos ajoelhar, vez por outra, e fazer contato com o divino. Somos eternos demais, como diz a canção. O alecrim lembra-nos de nossa melhor parte, a divina.

As propriedades seguem e não quero cansá-lo. Só quis destacar algumas que se confundem com nossos valores e com o que podemos ser para os outros, numa metáfora ecológica-existencial.

Para terminar o alecrim é de fácil propagação. Dos galhos transplantados, nascerão vigorosas mudas. Ele resiste à seca, às pragas e até a solos pobres.

Penso nessas últimas propriedades naqueles seres humanos especiais que tem vários propósitos e sentidos na vida.

Independentemente de sua condição socioeconômica, ou até da saúde, sua psique é tão forte que ele sobrevive com ânimo ás piores condições a que é submetido.

Não só sobrevive, como influencia mudanças nas mesmas, ou das mesmas.

São resistentes como alecrins. São atitudes e valores que eles se propagam, disseminam - tal qual as mudas transplantadas de hastes dos alecrins, plantado outros mundos possíveis pelos solos dos corações que cuidam.

A humanidade está cheia de pessoas-alecrim, líderes-alecrim. Médicos-alecrim. Professores-alecrim, etc. Pare e olhe com atenção, com certeza deve ter uma perto de ti, ou até você ser uma delas.

Há também os trabalhadores-alecrim. Que querem mudar a situação de seus colegas, do seu trabalho, tornando-as melhores. Mais humanas e justas.

A eles, o meu reconhecimento no dia do trabalho.

Sê alecrim para os que te cercam, e para ti mesmo!

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