Hoje saí para levar o carro na oficina e aproveitar para fazer exames complementares no SABIN de São Sebastião. Levei o carro para uma grande oficina e central de troca de óleo que tem bem perto dali. Era umas 8h30min e tinha uns 10 funcionários, todos de jaleco azul. Entrei, ninguém me deu bola. Perguntei quem era o responsável, ao que um deles apontou para o de boné branco. Cheguei perto e perguntei se poderia alinhar , balancear e verificar os freios. Ele disse algo, mais parecido com um resmungo, e gritou para alguém para verificar. cri cri cri...
Esperei esse alguém por uns dez minutos. Naquele tempo, outros passavam por mim e não me viam. Cada um com seus problemas, devem ter pensado.
Fiquei exercitando meu poder de observador cotidiano. Após uns 15 minutos, enfastiei-me de bancar o fantasma.
Entrei no carro, liguei o motor, dei ré de dentro da oficina e saí. Não sem antes trocar um olhar com o de boné branco. Li a sua mente: "menos um cliente".
No caminho para o Sabin vejo uma minúscula oficina, com uma placa estampada na sua fachada: "Especialista em Freios". Paro o carro lá e pergunto se enquanto faço os exames ele pode checar os freios. Tudo ok.
Vou ao Sabin. As mocinhas que tiram sangue não estavam felizes. Notei na pele. Fico numa sala de recuperação aguardando 2 horas para a outra coleta. Uma hora se passou eis que mecânico do freio ali adentra. Imagino o quanto ele negociou na portaria para ali entrar. E diz, "Sr. as pastilhas estão estragadas, mas aqui em São Sebastião não tem para vender, só no Plano". Fico sem jeito com tamanha delicadeza dele vir me informar.
Pena que saiu sem ganhar um café das mocinhas do Sabin. Bem que merecia.
Ao pegar o carro com ele, não quis aceitar nada. Disse que não tinha dado trabalho.
Quanta elegância e dignidade num simples mecânico de uma oficina de fundo de quintal. Outro dia fui com a Angela Souza almoçar na feira do Paraguai. Ela queria comprar sapatos e eu óculos. Ali perto do BB, todos os estacionamentos estavam lotados. À minha frente um carrão tentava estacionar na única e cobiçada vaga disponível. Fico parado esperando. Eis que um senhor me aborda. Abro o vidro e ele diz:
"Dê uma ré que estou saindo ali atrás e você bota na minha vaga".
Fiquei uns segundos sem reação. Custando a acreditar no que ouvia.
Então, fiz o que ele pediu e estacionei no seu lugar, e ainda numa sombra.Saí me beliscando.
Essas coisas de doação gratuita de amor, de atenção e respeito deveriam ser comuns.
Estamos tão acostumados com tratamentos impessoais, no piloto automático, hostis... que aquele gesto do mecânico solícito. Aquele que entrou Sabin adentro para me encantar como seu cliente, avisando-me que não tinha a peça; Ou a do sr. da vaga que apareceria com sua saída, causam em nós um sentimento gostoso de que ainda é possível reverter tanta impessoalidade nas nossas relações interpessoais.
Vou comprar as pastilhas de freio no Plano e voltar lá para colocá-las, ele merece!
Eu digo sim à vida!
Faz parte dessa orquestração desqualificar a iniciativa e politizar uma questão de Estado.
Tenho pessoas amigas nessa frente – de protestar contra o Mais Médicos, pessoas amadas e inteligentes. Escrevo para elas. Para que se permitam ver por outro ângulo a questão.
Então pergunto-me quem as insuflou e a que objetivo?
Hoje li que uma das médicas que desembarcou, vai trabalhar numa aldeia indígena no Amazonas. Outros, em áreas de baixíssimo IDH no Maranhão e Piauí.
O que há de tão ruim nisso?
Será que sou alienado?
Será que estou vendo o que esse pessoal não vê, ou vice e versa?
Então resolvi quebrar o assunto em partes para melhor analisa-lo:
• Sobre Estrutura de Saúde
Qual o tipo de estrutura requer o Programa Mais Médicos, nas ações de atenção primária à saúde?
Será que esse outro modelo de medicina, pouquíssimo praticado por aqui, o da saúde básica e atenção primária, precisará mesmo de tantos recursos?
Noutros países onde praticado ele necessita de forte aparelho técnico?
Pelo que li, não. Faz-se esse tipo de medicina com visitas domiciliares, com o velo e bom médico de família. Casos que justifiquem uma maior atenção são encaminhados para cidades melhor aparelhadas.
Mas, supondo que precisará, o que diferenciará da situação de hoje?
Dos que já estão vivendo sob essa condição.
Quanto tempo levaria para aparelhar essas localidades?
Os centros maiores com atendimento pelo SUS são aparelhados? São essa “Brastemp” que apregoam por aí...? Ali tem todos os recursos?
A ida de médicos para esses locais abalizará essa discussão. Com um facilitador, agora eles terão alguém para reclamar, de forma qualificada, melhores condições para o trabalho. Antes eles só tinham um politico interesseiro que com uma ambulância caindo aos pedaços barganhava votos em troca de um “frete” para um hospital da cidade grande.
É verdade mesmo que as 700 cidades não possuem estrutura? Tenho lido depoimento de moradores dessas cidades afirmando o contrário.
Mas, suponhamos que seja verdade. E se houvesse uma estrutura de primeiro mundo, os médicos brasileiros fariam a adesão. Creio que não.
Não é fácil para uma geração criada sob a égide de “tenho que ser feliz agora e já”, da cultura Y, renunciar às regalias que possuem em trabalhar nos grandes centros e migrar.
Isso está fora de cogitação para uma geração criada achando que merece tudo, pode tudo e que não aprendeu a lidar com perdas.
Há outras variáveis que impactam a escolha. O modelo de medicina brasileiro privatizou a saúde. E, no mato não “corre dinheiro”. Simples assim.
• Sobre a Saúde Brasileira
Aqui tem outro ponto de reclamação nesse debate. Botam tudo no mesmo saco alegando que a ação é politiqueira, eleitoreira.
Trata-se de uma ação de Estado. Como de Estado é a ação de enviar recursos para prefeituras em situação de calamidade pela seca, para que custeiem carros-pipas visando ao abastecimento das populações sedentas.
Faz parte de um Governo sério, independente dos partidos que o apoiam, intervir na gestão pública em favor dos desfavorecidos.
Agora que em muitos locais o cara usa isso para barganhar votos, usa sim. Quantos rpefeitos usarão esse Programa para suas plataformas eleitoreiras?
Muitos, e a isso se chama política. Diferente disso é ditadura ou governos militares.
Os governantes capitalizam para suas gestões todas as ações que levam aos seus municípios que melhoram a vida do povo. E não é só aqui no Brasil. Para combater isso só com educação política, na qual o povo saberá que já paga por isso e que o governante não fez nada mais do que sua obrigação, como o seu servidor.
Feito essas ponderações, vamos às demais.
Falta tudo na saúde brasileira. Faltam leitos, medicamentos, equipamentos, profissionais, humanização, reconhecimento, salários, correção tabela do SUS.
Quem já foi a algum hospital público teve a visão de Dante nos seus corredores.
Há um caos por aqui instalado.
O fato de enviar médicos de família para 700 localidades sem médicos não resolverá esses problema. Lógico.
Aqui considero a maior falha dos protestos das entidades de classe. Ao invés de abrirem um debate sobre a qualidade das condições atuais da prática de medicina no Brasil, atacou justamente uma ação que ajuda, não resolve, mas ajuda.
Outra questão sobre o mesmo tema é o tipo de medicina que estamos praticando por aqui. Altamente especializada, com pedidos de exames a mil, com muita medicação, com internações desnecessárias.
Falo isso a partir da leitura de inúmeros manifestos da própria classe médica sobre a indústria do exame, do remédio, da doença.
Em residências médicas para áreas de saúde social sobram vagas. Ninguém quer fazer saúde preventiva. Justamente o forte da formação dos médicos que estão vindo ao Brasil.
Veja abaixo:
• Sobre a Medicina Brasileira
A medicina brasileira virou um negócio, muito caro, e para poucos. Aqui em Brasília, uma das instituições privadas de ensino mais tradicionais lançou nesse semestre seu curso de medicina. A mensalidade é de R$ 6.000,00. Existem outras privadas que não estão longe desse preço, indo de R$ 3.000 para cima.
Nesse ecossistema da saúde habitam a indústria de medicamentos, as prestadores de serviços em exames especializados, clínicas e hospitais, planos de saúde e os médicos.
Há inúmeros interesses em jogo, nesse lucrativo mercado.
Pergunte a quem participa de áreas de auditoria de Planos de Saúde os absurdos que precisam glosar por se tratarem de fraudes, de falcatruas, do uso indevido da boa fé e desconhecimento do paciente para aumentar o “saque” sobre os Planos de Saúde.
Mas, esses mesmos Planos de Saúde que se defendem de cobranças de procedimentos indevidos, também aumentam sua lucratividade reduzindo procedimentos e coberturas demandados.
Não há mocinho nesse tema.
Na outra ponta tem o acesso ao profissional de saúde. Muitos desligaram-se dos planos de saúde, imagine do SUS. Não se paga menos do que R$ 200,00 por uma consulta particular. Várias especialidades não atendem planos de saúde, ou quando atendem o agendamento é muito longo.
Quem só depende do SUS fica em pior situação ainda.
E o que o SUS paga aos profissionais de saúde uma vergonha dobrada.
Viu como o tema é rico e explosivo. Só lamento terem perdido o momento de entrar com essa pauta, deslocando burramente a questão para os grotões do interior.
Falta tudo na rede pública de atendimento. Inclusive respeito.
Esse tipo de medicina é fortemente apoiado em procedimentos caros.
Há um outro tipo de medicina. A medicina da escuta. Da palavra.
Do toque, do apalpar, do conselho, do ouvir.
Essa medicina pode não curar o doente, mas ajuda a prevenir que adoeça.
Um estetoscópio, um manômetro, uma tabela de vacinação, um teste de glicose, uma visita domiciliar, poderão fazer a diferença.
Essa medicina se contrapõe a outra. É um modelo diferente. Que até com plantas, reza, massagens, relaxamento intervêm.
Um modelo de saúde holístico, muito praticado nas comunidades orientais.
No fundo é isso que está em conflito, em guerra.
Modelos antagônicos de se fazer medicina. O primeiro enfoca na doença. O segundo enfoca na saúde.
No fundo, teme-se que funcione. Teme-se que dê certo.
A ponto de dirigentes maiores de entidades médicas dizerem que não atenderão casos encaminhados por esses profissionais para Centros mais capacitados, ou “corrigirem os erros deles”.
Então, queridos amigos, que tal visitar uma dessas cidades e conversar com seu povo. Checar em campo o que é não ter sequer um médico sequer para auscultar um pulmão carregado, para ouvir uma mãe aflita com seu filho febril (é virose mãe...), para a saúde da mulher, jovem e idoso, para monitorar a pressão, para identificar sinais de verminose, anemia, etc. Para educar sobre as doenças sexualmente transmissíveis e hábitos saudáveis de alimentação e higiene...
Então, queridos amigos, que tal botar uma mochila nas costas e aderir ao Programa. Serão dois anos maravilhosos na tua vida.
Será um doutorado em vida popular. Coisa que os grandes centros não te ensinarão.
Sei que vai “perder” de rentabilizar seu investimento. Perder posições. Mas, garanto-lhe, a experiência humana que adquirirá, e que livro algum ensina, te capacitará melhor e mais fortemente para novos vôos quando voltares, se é que vai querer voltar.
Clique nesse link após ler o resto e veja quem está aderindo.
É por amor!
Se minha filha fosse médica eu a diria.
“Filha, ficarei feliz se você ajudar essas populações desassistidas. Mas, caso sua escolha seja outra, a respeito.
Mas, antes de atirar a primeira pedra no Programa Mais Médicos, lembre-se para quem está trabalhando em assim o fazer. A quem está defendendo? A que interesse?
Cuidado com interesses dissimulados que te induzem a agredir profissionais que também fizeram o juramento de Hipócrates.
Se não quer ir para a roça, eu respeito e aprovo tua decisão.
Mas, poupe seu pai de uma vergonha em atacar quem vai, ou essa bela e rara iniciativa.
Não quero sentir-me parte de uma burguesia elitista que segregou a medicina brasileira criando os Médicos Com Fronteiras.
Não quero me sentir responsável, pela paternidade que em ti exerço, pela hipoteca social que os CRMs e Cia. estão assumindo com essas populações.
E, quanto a Cuba, cuidado com tudo que lê ou escreve. Os profissionais de saúde daquele país merecem nosso respeito.
Lembre-se que aquele país vive há anos sob bloqueio econômico dos EUA.
E, mesmo assim, conseguiu desenvolver padrões excelentes em muitas políticas públicas.
Se for para avaliar a qualidade dos políticos, em relação aos profissionais que o país gera, nós do Brasil seríamos os piores do mundo.
As questões internas de Cuba são deles. O Mais Médicos não tem alçada para resolvê-las.
Não misture uma coisa com outra que não dará em nada. E é esse nada que os CRMS querem no momento para a discussão. Essa é mais uma tentativa, infeliz, de desqualificar a vida de médicos estrangeiros. O pessoal que veste branco e se instituiu como liderança da área, nem fode nem desocupa a moita. Desculpe a expressão.
Não apresentam uma proposta concreta para levar saúde a essas localidades, desviando o debate para outros temas. Uma pena! Enquanto isso uma mãe grávida espera acompanhamento, e uma criança com diarreia idem. Não falarei mais sobe essa questão, estou adoecendo de indignação. Combati o bom combate e me posicionei contra a tirania das corporações.”
Veja abaixo as qualificações de quem chega:
Nas palmas das mãos!
Hoje me peguei contando minhas cicatrizes. Tenho três bem visíveis. Uma na bochecha direita, fruto de uma lança de madeira que um amigo jogou e a transpassou. Outra no braço do mesmo lado, quando carregava uma peça de vidro temperado e ela se quebrou, lançando sobre mim estilhaços. E outra na palma do pé esquerdo, quando pisei numa lata de sardinha e abriu um talho no pé. São visíveis. Essas não doem mais. Tenho cicatrizes interiores, em noites frias e escuras saem dos seus túmulos e me assustam. São cicatrizes de despedidas, de vocações adiadas, de amores e desamores, de saudades engolidas, de vidas amadurecidas às pressas. De pessoas queridas que se foram e eu não as disse um simples "até logo". De pessoas queridas que não se foram, mas eu me fui, e não sei o porquê. Na palma das minhas mãos tenho desenhado, com sulcos inscritos na pele, uma vela e um mastro. E estão em ambas as mãos. Estas, são cicatrizes vindas da minha alma. São um bilhete de Deus. Uma mensagem, um traço genético, que consigo traz a história de um povo. De todas cicatrizes que tenho, exteriores, interiores e as da palma da mão, que nessa noite me flagro a mirar, não me sai da cabeça o mastro e vela nelas inscritos. Como se eles dissessem para mim: "Ei você não se basta só.". Você depende do outro para lhe juntar e te dar sentido. Como a vela olhando para o mastro e dizendo: vem para perto de mim, para que nossas vidas sejam plenas. Penso, nessa noite fria, que muitos que passaram por nossa vida, nem cicatrizes externas nem internas provocaram. Eles possibilitaram que em nosso viver o mastro encontrasse a vela e nos fizesse avançar. Eles, carpinteiros do ser que são, juntaram peças de nossa vida, sem sentido sozinhas, e as fizeram avançar. Que legal. As palmas de minha mão me dizem que preciso de você. Que não me basto só. Que não sou independente. Que dependo de você para me fazer crescer. Me fazer melhor, me aperfeiçoar na arte de navegar na nave mãe Terra. Velas e mastros que se fundem na arte de amar e do diálogo. Nessa noite agradeço a tantos que juntaram minhas velas ao mastro, nos encontros que tivemos, e que me fizeram, quando cansado e descrente, velejar mais um pouco em busca de portos-seguros. Fizeram-me atracar em amanhãs mais seguros e fecundos. Gratidão é o que me inunda o ser nessa noite, mesmo pelas cicatrizes que vez por outra ainda doem, pois ensinaram-me o valor de recomeçar. Gratidão pelas costureiras e carpinteiros que juntaram mastro e velas em meu viver, fazendo-me navegar e avançar, mesmo em mares bravios. Eu te agradeço! Eu preciso de ti. Frases místicas de uma pessoa que olhou para as palmas da mão, numa noite fria, e descobriu que os sulcos nela impressos são os traços do coletivo que por mim passou e deixou inscrito nelas a sua história e esperança. Finalizo com o que uma amiga me disse e muito me tocou: "Alçar velas e navegar pra dentro de si mesmo é para os fortes... mas será sempre uma viajem de valor incalculável!" Finalizo esse texto com quem me guia, o soprar do Espírito Santo. Pois, de nada adiantaria a fusão da vela com o mastro, se Ele não soprasse para que eu saísse de zonas de calmaria e estagnação e descobrisse novas possibilidades em meu viver. E é isso que te desejo ao final dessa leitura. Somos todos ecos do que deveríamos ser. Estaremos sempre em falta e navegando em arranjos vetoriais do ser. Todos, no desafio de crescer, temos vetores internos: com direção, módulo e sentido. Velas, mastro, mares e vento. Esses vetores, mesmo em ondas de inflexões, ainda assim apontam para o novo, para a liberdade e o amor.
Um infinito de possibilidades estão a tua volta, as apanhe sempre que puder! Elas poderão não se repetir nos ecos do infinito, do destino possível que reescreves, com teu agir no aqui e agora.
Um infinito de possibilidades estão a tua volta, as apanhe sempre que puder! Elas poderão não se repetir nos ecos do infinito, do destino possível que reescreves, com teu agir no aqui e agora.
Sobre Circos, Navios e o Amanhã

Manhã de sexta reúno a equipe para discutirmos os rumos de alguns projetos. Entre um tema e outro, o assunto recaí na importância da equipe para o sucesso dos desafios que se apresentam. Valéria puxa o assunto e enfatiza como gostou da última experiência de posse coletiva no auditório, na qual todos se juntaram para vencer a enorme dificuldade de empossar mais de cem colegas em novas funções na Ditec. Impostar no sistema a posse requer muita atenção. Pois, caso tenha sido digitado um prefixo errado para a posse, dos mais de 18 que a Ditec possui, o cancelamento é trabalhaso. O processo operacional de gravar as posses é muito custoso. Outra coisa que torna o processo lento é que o funcionário precisa chegar para a posse com um conjunto de condições atendidas, caso contrário o sistema não roda a posse. Isso requer um bom planejamento e farta dose de comunicação prévia.
Valéria emocionou-se ao registrar aquele momento recente. Eu lembro. Lembro que compareci à abertura do evento, no qual o diretor fez uma saudação ao grupo. Quando terminou as falações era 15hrs. Saí do auditório com uma ponta de preocupação com o tempo. Precisávamos rodar a posse naquele dia, e só naquele dia, sob pena da promoção não impactar positivamente a folha de pagamento de agosto. Eis que às 16h30min as meninas entram radiantes no setor, trazendo as pastas dos promovidos em caixas de papelão. De longe olhei e penso: lascou alguma coisa. Mas que nada, elas conseguiram o impossível. Bateram o recorde mundial de posses. (risos)
Não acreditei e perguntei como fizeram o feito. Elas falaram: “planejamento com todos os envolvidos e trabalho em equipe na execução.”
Valéria continuou a falar durante a reunião. Seus olhos marejados evocavam o show do Cirque du Soleil que ela foi. Ali, ela notou que o melhor trapezista, contorcionista, dançarino malabarista, quando terminava seu número, sua apresentação, ia apoiar os outros no que precisava. Não ia para os camarins. Continuava a ajudar aos outros a também brilharem.
Valéria emocionou-se ao registrar aquele momento recente. Eu lembro. Lembro que compareci à abertura do evento, no qual o diretor fez uma saudação ao grupo. Quando terminou as falações era 15hrs. Saí do auditório com uma ponta de preocupação com o tempo. Precisávamos rodar a posse naquele dia, e só naquele dia, sob pena da promoção não impactar positivamente a folha de pagamento de agosto. Eis que às 16h30min as meninas entram radiantes no setor, trazendo as pastas dos promovidos em caixas de papelão. De longe olhei e penso: lascou alguma coisa. Mas que nada, elas conseguiram o impossível. Bateram o recorde mundial de posses. (risos)
Não acreditei e perguntei como fizeram o feito. Elas falaram: “planejamento com todos os envolvidos e trabalho em equipe na execução.”
Valéria continuou a falar durante a reunião. Seus olhos marejados evocavam o show do Cirque du Soleil que ela foi. Ali, ela notou que o melhor trapezista, contorcionista, dançarino malabarista, quando terminava seu número, sua apresentação, ia apoiar os outros no que precisava. Não ia para os camarins. Continuava a ajudar aos outros a também brilharem.
Às vezes ficavam ao lado do palco torcendo, só isso. Uns pegavam vassouras e varriam os papéis picados jogados ao leu no show anterior. Outros montavam o palco para o próximo número. Numa das cenas mais emocionantes que ela relatou. Um casal de trapezista faz um belo número, aí o imprevisto para o Cirque du Soleil acontece. A moça erra a passada e caí na rede de proteção. Silêncio total. O outro trapezista que fazia par com ela poderia esperar que ela subisse novamente as escadas e continuasse o show. Mas não, ele se projeta na corda e no meio do espaço vazio a solta, caindo na rede. Pega pela mão sua companheira de show e ambos descem sob aplausos e emoção incontida da plateia.
Valéria contava isso e agora quem chorava éramos nós. O maior trapezista do mundo, ao sair de cena, vira o melhor ser para o mundo, naquele momento de solidariedade e empatia.
Mas, quem pensa que trabalhar em equipe é fácil leia sobre o fenômeno da Enganação Social, descrito por STEPHEN P. ROBBINS, quando soma das contribuições individuais é menor, gerando uma entropia coletiva, uma espécie de sinergia negativa, se é que existe isso. Na enganação social a soma das individualidades, por exemplo, 1+1+1, pode ser igual a 2, 1 ou em casos extremos 0. Ele atribui isso à percepção de parte do grupo que alguém está se escorando, chupando cana, fingindo que trabalha, e não acontece nada. Em grupos menos maduros, com menor nível de autonomia e consciência crítica, os demais que ralavam mais que o devido para cobrir a área do preguiçoso vão ficando chateados e no inconsciente coletivo reduzem seu ritmo também. Ele provou sua tese com um experimento de laboratório. Colocou pessoas para puxarem uma corda individualmente amarrada a um instrumento que media a força que estava sendo aplicada. Depois juntou as individualidades numa equipe e pediu que todos juntos puxassem a corda. Ele percebeu que em alguns grupos formados o resultado era menor que a soma das individualidades, e nunca as superava. Sendo sempre menor. Noutros grupos dava maior o resultado do que as contribuições individuais.
Então, cai por terra o lugar comum que diz que trabalhar em equipe é sempre mais produtivo. Depende, Robbins diz que isso só é possível com acompanhamento individual dos membros da equipe e celebração coletiva dos resultados. Assim o cara que se escora sente-se cobrado, o grupo sabe que estão de olho nele, e não involui.
A própria etimológica da palavra equipe: do antigo Francês Esquipe, “aparelhar um navio”, conduzindo-o com segurança ao cais. O “aparelhar” era um movimento delicado de puxá-lo para o local correto, na atracação no porto, com cordas grossas chamadas de camelo. Todos se envolviam e se um não puxasse, ou puxasse de forma atabalhoada, o prejuízo era coletivo e todos viam na hora o que estava dando errado, aliás, o resultado era palpável do sucesso ou fracasso. Então as Esquiper eram treinadas, motivadas, acompanhadas para fazerem seu trabalho com perfeição e evitarem prejuízos nos cais pela atracação indevida ou lenta.
Quem pensa que trabalhar em equipe é fácil...
Exige treino. Exige orientação. Exige aparar arestas. Exige um coaching que incentive a colaboração, cooperação e não o contrário como existem muitos por aí. Pseudo-motivadores que mobilizam as equipes jogando uns contra os outros.
Imagino as horas de treinamento que Cirque du Soleil investe na formação de suas equipes para o coletivo, para o sucesso grupal. Imagino que a exigência das competências da inteligência emocional e social permeie inclusive seus processos de atração e formação de talentos.
Trabalhar em grupo exige treino. Ralação, espaços de catarse, de avaliação da dinâmica grupal. Espaços de perdão, de recomeço.
O outro sempre poderá nos ferir, nos magoar, somos sensíveis. Somos subjetividades. Muito mais que racionalidades. Como nos sentimos passa por nossas experiências anteriores, história de vida e cultura, e até por distorções perceptivas e de comunicação. Somos assim, imperfeitos por natureza. E, o outro nem sempre tem acesso ao nosso sistema interior e pisa na bola. Se não houver espaços de feedback, de troca, de avaliação da caminhada essas coisas vão ficando mal resolvidas e o grupo empobrece. Todos para se protegerem de inimigos reais ou imaginários, entram na enganação social, no piloto automático. Entende?
Uma pena que vários gerentes chegam a esse posto achando que só os aspectos técnicos do cargo serão necessários para exercê-lo. Uma pena!
Quem pensa que trabalhar em equipe é fácil...
Exige inteligência emocional, humildade, respeito, ética, atitudes e valores como compaixão, empatia, diálogo tão raros nos tempos atuais nos quais tudo é descartável, ou se é reduzido ao valor monetário que produz.
Já integrei várias equipes: esportivas no Sesi quando nadava. Religiosas. Sindicais. Bancárias. Acadêmicas. Sociais na ONG Grupo de Apoio à Vida.
Em todas elas vivi cenas do Cirque de Soleill, ou dos navios franceses e suas ‘Esquiper”.
Cenas lindas nas quais todos eram tudo e tudo era todos.
Cenas das quais sinto uma saudade tremenda.
Também já integrei equipes com Enganação Social. Também reduzi meu ritmo ao ritmo do menos eficiente, numa espécie de protesto bobo e insano, fruto do nível de autonomia e consciência que tinha á época.
As lágrimas de Valéria ao relatar seus aprendizados com as posses e o Cirque du Soleil encheram meu coração de vida.
Chegará o tempo que a arte de trabalhar em grupo, num rico somatório de percepções e contribuições, fecundo à inovação, será muito, muito mesmo, mais difícil do que nos tempos atuais.
Nosso modelo de educação, de sociedade, está produzindo arrogantes, pequenos tiranos, pessoas com baixa tolerância às frustrações, do tipo cair na rede do trapézio.
Pessoas criadas por pais e mães que ensinam que para crescer tem que pisar, oprimir, machucar.
Pessoas criadas para sozinhas verem atendidos seus desejos, independentemente da coletividade.
É esse texto é démodé.
Como pai tentei incutir esses valores em meus filhos. Valor da simplicidade, da ajuda ao outro, da paz, da justiça, da cidadania.
Mas, tá ficando difícil. Outro dia fui numa cerimônia do colégio na qual algumas crianças premiadas, uns 20% do grupo. Os outros ficaram aplaudindo. Foi premiado o destaque em matemática, em português, em desenhos, no esporte... etc.
Não havia prêmio para o aluno amigo, o aluno solidário, o aluno bondoso, o aluno que dividiu seu lanche ou brinquedos. O aluno que não fez bulling, não agrediu seu professor ou colega.
Não havia esses prêmios. Os prêmios refletem o modelo de sociedade que estamos produzindo e criando nossos filhos.
Um modelo que incentiva o cara a cortar pelo acostamento e deixar uma fila quilométrica para trás, simplesmente porque ele acha que merece passar na frente de todo mundo e fazê-los de bobos. Ele merece, pra agora e já chegar a casa cedo. Os outros? Ahh os outros. Quem mesmo?
Então quando se somam essas individualidades em equipes, essas pessoas educadas pelas famílias, escolas e até igrejas para a prosperidade, para o sucesso, cada uma delas quer brilhar sozinha. Ninguém quer varrer o chão para o show do outro que vai começar.
Cada um, na sua fantasia de dominação, acha que o mundo gravita ao seu redor. E, numa ambição descabida, excluem qualquer possibilidade de consenso ou diálogo.
Da mesma forma que os Black Blocs vão às ruas para depredar o patrimônio, para agredirem, numa falsa pretensão de serem anarquistas. (Precisam ler mais sobre Anarquismo)
Existem as academias de formação dos “Black Blocs” emocionais.
São famílias e mais famílias; escolas e mais escolas; igrejas e mais igrejas “educando” para a intolerância, para a violência, mesmo que em palavras.
Os locais de trabalho também estão repletos de de Black Blocks corporativos. Gerentes, não gerentes, etc. Gente para o qual toda forma de diálogo, de aproximação, de busca de consensos possíveis, em áreas de divergência, é sinal de fraqueza.
E ninguém mais quer parecer frágil, humilde ou ceder. Está fora de moda.
Urge que pais e mães subvertam essa ordem reinante e instaure em seus lares novos tempos.
Urge que Igrejas, organizações e os movimentos sociais tragam à pauta, à agenda, à reflexão sobre a necessidade de outra educação, formação profissional e social. Que prime pela civilidade, solidariedade entre povos, humanização das relações e eduque para o respeito à diversidade.
Urge que nos processos seletivos para cargos gerenciais esses valores sejam preponderantes para nomeação de um gestor, pois só assim ele poderá educar e formar Equipe, e continuar a sua própria, nunca acabado, desenvolvimento.
Obrigado Valéria por suas lágrimas. Obrigado Senhor X que caiu na rede do trapézio para apoiar sua parceira.
Não deveríamos chorar ao falar de pessoas trabalhando juntas num único objetivo.
Deveria ser tão comum. Mas, no reinado do capital, no qual o templo maior é o Shopping, o Deus é o Consumo, com sua deusa Marca, não estranho mais nada.
Estamos velozes e furiosos, querendo felicidade já e a qualquer preço.
A tribo do Ser anda em extinção. Mas, a semente dela é boa e forte.
Se cada um dessa tribo começar a questionar os valores atuais, começar a fazer sua parte para “deseducar” seu grupo de referência nas atitudes de morte, educando-os ou propondo reflexões sobre posturas e gestos de vida, quem sabe!
Há um enorme navio chamado Mãe-Terra, com sua tripulação chamada de humanidade que precisa urgentemente de várias “Esquiper” que ajudem a atracá-lo em segurança.
Somos poucos, mas somos fortes!
Venha para nossa esquiper... Há vagas para pessoas solidárias, éticas e justas na puxada do camelo do navio da Mãe-Terra para que ela atraque em segurança e seja sustentável para as gerações futuras. Sustentável em vários aspectos, inclusive no amor, afeto e paz!
Valéria contava isso e agora quem chorava éramos nós. O maior trapezista do mundo, ao sair de cena, vira o melhor ser para o mundo, naquele momento de solidariedade e empatia.
Mas, quem pensa que trabalhar em equipe é fácil leia sobre o fenômeno da Enganação Social, descrito por STEPHEN P. ROBBINS, quando soma das contribuições individuais é menor, gerando uma entropia coletiva, uma espécie de sinergia negativa, se é que existe isso. Na enganação social a soma das individualidades, por exemplo, 1+1+1, pode ser igual a 2, 1 ou em casos extremos 0. Ele atribui isso à percepção de parte do grupo que alguém está se escorando, chupando cana, fingindo que trabalha, e não acontece nada. Em grupos menos maduros, com menor nível de autonomia e consciência crítica, os demais que ralavam mais que o devido para cobrir a área do preguiçoso vão ficando chateados e no inconsciente coletivo reduzem seu ritmo também. Ele provou sua tese com um experimento de laboratório. Colocou pessoas para puxarem uma corda individualmente amarrada a um instrumento que media a força que estava sendo aplicada. Depois juntou as individualidades numa equipe e pediu que todos juntos puxassem a corda. Ele percebeu que em alguns grupos formados o resultado era menor que a soma das individualidades, e nunca as superava. Sendo sempre menor. Noutros grupos dava maior o resultado do que as contribuições individuais.
Então, cai por terra o lugar comum que diz que trabalhar em equipe é sempre mais produtivo. Depende, Robbins diz que isso só é possível com acompanhamento individual dos membros da equipe e celebração coletiva dos resultados. Assim o cara que se escora sente-se cobrado, o grupo sabe que estão de olho nele, e não involui.
A própria etimológica da palavra equipe: do antigo Francês Esquipe, “aparelhar um navio”, conduzindo-o com segurança ao cais. O “aparelhar” era um movimento delicado de puxá-lo para o local correto, na atracação no porto, com cordas grossas chamadas de camelo. Todos se envolviam e se um não puxasse, ou puxasse de forma atabalhoada, o prejuízo era coletivo e todos viam na hora o que estava dando errado, aliás, o resultado era palpável do sucesso ou fracasso. Então as Esquiper eram treinadas, motivadas, acompanhadas para fazerem seu trabalho com perfeição e evitarem prejuízos nos cais pela atracação indevida ou lenta.
Quem pensa que trabalhar em equipe é fácil...
Exige treino. Exige orientação. Exige aparar arestas. Exige um coaching que incentive a colaboração, cooperação e não o contrário como existem muitos por aí. Pseudo-motivadores que mobilizam as equipes jogando uns contra os outros.
Imagino as horas de treinamento que Cirque du Soleil investe na formação de suas equipes para o coletivo, para o sucesso grupal. Imagino que a exigência das competências da inteligência emocional e social permeie inclusive seus processos de atração e formação de talentos.
Trabalhar em grupo exige treino. Ralação, espaços de catarse, de avaliação da dinâmica grupal. Espaços de perdão, de recomeço.
O outro sempre poderá nos ferir, nos magoar, somos sensíveis. Somos subjetividades. Muito mais que racionalidades. Como nos sentimos passa por nossas experiências anteriores, história de vida e cultura, e até por distorções perceptivas e de comunicação. Somos assim, imperfeitos por natureza. E, o outro nem sempre tem acesso ao nosso sistema interior e pisa na bola. Se não houver espaços de feedback, de troca, de avaliação da caminhada essas coisas vão ficando mal resolvidas e o grupo empobrece. Todos para se protegerem de inimigos reais ou imaginários, entram na enganação social, no piloto automático. Entende?
Uma pena que vários gerentes chegam a esse posto achando que só os aspectos técnicos do cargo serão necessários para exercê-lo. Uma pena!
Quem pensa que trabalhar em equipe é fácil...
Exige inteligência emocional, humildade, respeito, ética, atitudes e valores como compaixão, empatia, diálogo tão raros nos tempos atuais nos quais tudo é descartável, ou se é reduzido ao valor monetário que produz.
Já integrei várias equipes: esportivas no Sesi quando nadava. Religiosas. Sindicais. Bancárias. Acadêmicas. Sociais na ONG Grupo de Apoio à Vida.
Em todas elas vivi cenas do Cirque de Soleill, ou dos navios franceses e suas ‘Esquiper”.
Cenas lindas nas quais todos eram tudo e tudo era todos.
Cenas das quais sinto uma saudade tremenda.
Também já integrei equipes com Enganação Social. Também reduzi meu ritmo ao ritmo do menos eficiente, numa espécie de protesto bobo e insano, fruto do nível de autonomia e consciência que tinha á época.
As lágrimas de Valéria ao relatar seus aprendizados com as posses e o Cirque du Soleil encheram meu coração de vida.
Chegará o tempo que a arte de trabalhar em grupo, num rico somatório de percepções e contribuições, fecundo à inovação, será muito, muito mesmo, mais difícil do que nos tempos atuais.
Nosso modelo de educação, de sociedade, está produzindo arrogantes, pequenos tiranos, pessoas com baixa tolerância às frustrações, do tipo cair na rede do trapézio.
Pessoas criadas por pais e mães que ensinam que para crescer tem que pisar, oprimir, machucar.
Pessoas criadas para sozinhas verem atendidos seus desejos, independentemente da coletividade.
É esse texto é démodé.
Como pai tentei incutir esses valores em meus filhos. Valor da simplicidade, da ajuda ao outro, da paz, da justiça, da cidadania.
Mas, tá ficando difícil. Outro dia fui numa cerimônia do colégio na qual algumas crianças premiadas, uns 20% do grupo. Os outros ficaram aplaudindo. Foi premiado o destaque em matemática, em português, em desenhos, no esporte... etc.
Não havia prêmio para o aluno amigo, o aluno solidário, o aluno bondoso, o aluno que dividiu seu lanche ou brinquedos. O aluno que não fez bulling, não agrediu seu professor ou colega.
Não havia esses prêmios. Os prêmios refletem o modelo de sociedade que estamos produzindo e criando nossos filhos.
Um modelo que incentiva o cara a cortar pelo acostamento e deixar uma fila quilométrica para trás, simplesmente porque ele acha que merece passar na frente de todo mundo e fazê-los de bobos. Ele merece, pra agora e já chegar a casa cedo. Os outros? Ahh os outros. Quem mesmo?
Então quando se somam essas individualidades em equipes, essas pessoas educadas pelas famílias, escolas e até igrejas para a prosperidade, para o sucesso, cada uma delas quer brilhar sozinha. Ninguém quer varrer o chão para o show do outro que vai começar.
Cada um, na sua fantasia de dominação, acha que o mundo gravita ao seu redor. E, numa ambição descabida, excluem qualquer possibilidade de consenso ou diálogo.
Da mesma forma que os Black Blocs vão às ruas para depredar o patrimônio, para agredirem, numa falsa pretensão de serem anarquistas. (Precisam ler mais sobre Anarquismo)
Existem as academias de formação dos “Black Blocs” emocionais.
São famílias e mais famílias; escolas e mais escolas; igrejas e mais igrejas “educando” para a intolerância, para a violência, mesmo que em palavras.
Os locais de trabalho também estão repletos de de Black Blocks corporativos. Gerentes, não gerentes, etc. Gente para o qual toda forma de diálogo, de aproximação, de busca de consensos possíveis, em áreas de divergência, é sinal de fraqueza.
E ninguém mais quer parecer frágil, humilde ou ceder. Está fora de moda.
Urge que pais e mães subvertam essa ordem reinante e instaure em seus lares novos tempos.
Urge que Igrejas, organizações e os movimentos sociais tragam à pauta, à agenda, à reflexão sobre a necessidade de outra educação, formação profissional e social. Que prime pela civilidade, solidariedade entre povos, humanização das relações e eduque para o respeito à diversidade.
Urge que nos processos seletivos para cargos gerenciais esses valores sejam preponderantes para nomeação de um gestor, pois só assim ele poderá educar e formar Equipe, e continuar a sua própria, nunca acabado, desenvolvimento.
Obrigado Valéria por suas lágrimas. Obrigado Senhor X que caiu na rede do trapézio para apoiar sua parceira.
Não deveríamos chorar ao falar de pessoas trabalhando juntas num único objetivo.
Deveria ser tão comum. Mas, no reinado do capital, no qual o templo maior é o Shopping, o Deus é o Consumo, com sua deusa Marca, não estranho mais nada.
Estamos velozes e furiosos, querendo felicidade já e a qualquer preço.
A tribo do Ser anda em extinção. Mas, a semente dela é boa e forte.
Se cada um dessa tribo começar a questionar os valores atuais, começar a fazer sua parte para “deseducar” seu grupo de referência nas atitudes de morte, educando-os ou propondo reflexões sobre posturas e gestos de vida, quem sabe!
Há um enorme navio chamado Mãe-Terra, com sua tripulação chamada de humanidade que precisa urgentemente de várias “Esquiper” que ajudem a atracá-lo em segurança.
Somos poucos, mas somos fortes!
Venha para nossa esquiper... Há vagas para pessoas solidárias, éticas e justas na puxada do camelo do navio da Mãe-Terra para que ela atraque em segurança e seja sustentável para as gerações futuras. Sustentável em vários aspectos, inclusive no amor, afeto e paz!
Nem sempre perder é perder; ou ganhar é ganhar.
Outro dia Leni me abordou no trabalho com um adaptador de tomada na mão. Daqueles que ajudam a plugar equipamentos no padrão antigo. Com os olhinhos brilhando ela disse-me: Ricardim, dá uma crônica a importância de um adaptador na vida das pessoas.
Fiquei olhando para ela e para aquele objeto e entendi o sentido que ela queria apresentar.
Leni chegara há uns meses para trabalhar conosco. Por toda uma vida fez carreira nas agências do BB. Esse ano passou a trabalhar numa outra realidade, saindo da ponta do negócio para uma área de estratégica de TI.
Quando ela chegou, tudo deu errado com sua posse.
Chave não acessava os sistemas, computador travava, senha de telefone bloqueada, acesso a rede sendo negado... Todos os dias, a doce e sorridente Leni chegava com um problema diferente.
Aos poucos ela foi vencendo um a um, a ponto de agora fornecer consultoria rsrs.
No início ficava apreensiva com o volume de serviços, com pedidos desencontrados, com demandas prioritárias das prioritárias se acotovelando.
Com um estilo de liderança que valoriza a autogestão do processo produtivo, que não fica em cima, que confia no potencial e deixa o outro ir desabrochando aos poucos.
Ela ficava doidinha comigo. Rsrs
Lentamente ela foi adaptando-se, ao estilo de liderança, à equipe, aos serviços.
Temos dentro de nós esse plug adaptador. Todos temos.
Mas é preciso saúde emocional para ativá-lo. Nem sempre estamos a fim de bancar o risco e pagar a conta.
E, tem certas coisas que se adaptar a elas é morrer um pouco a cada dia.
Portanto, esse adaptador funciona para umas situações de vida pessoal ou profissional, para outra o que funciona mesmo é o bocal-macho.
Mas o que é o bocal-macho. Calma que te explico.
O bocal-macho é um artefato que numa ponta é um soquete de lâmpada (um bocal) na outra é um plug de energia, daqueles que mais parecem um garfo.
Se tivesse um prêmio de inovação para o setor elétrico com certeza esse objeto estaria bem na fita.
Ele consegue transformar qualquer ponto de energia num ponto de luz.
Se for conectado a uma extensão, teremos uma gambiarra portátil super útil.
Então, algumas situações pedem que nos transformemos.
Pedem mudança na nossa natureza. Não pedem adaptação.
São situações bocais-de-garfo-de-energia.
Nas quais mudar e juntar duas coisas transformando-as numa terceira coisa, fruto da sinergia das originais é preciso.
No jargão popular, dizemos: fazer do limão uma limonada.
Então vim para casa com o adaptador e aqui no armário encontrei meu bocal-garfo.
Deixei-os à vista e fiquei feliz.
Ali, à minha frente, duas peças que resumem a trajetória humana: adaptação ou mudança dialética; ou ambos numa composição harmoniosa.
E quem se adaptar muda. Muda a si mesmo diante da realidade.
Adaptação é uma forma de mudança.
Quem transforma adapta-se. Toda transformação carrega em si o gene da adaptação. É uma resposta.
Então as coisas são E e E. Tem casamentos que precisam de adaptação. Um mudar em relação ao outro, aos filhos.
Tem casamento que precisa de transformação, de um basta, pensemos na situação-limite de uma mulher que é agredida por seu esposo.
Ou de uma mãe que vê seu filho sendo consumindo pela droga e que precisa agir.
Adaptar, renunciar, mudar, transformar são notas de uma mesma partitura da bela composição da vida e do viver.
Importantíssimas para nossa evolução.
Sem adaptação não aprendemos. Sem mudança não alteramos rotas e cursos de ação.
Tem muita gente por aí mal resolvida, desajustada, com crise de adaptação.
Tem muita gente por aí que se diz bem resolvida, adaptada, mas que no fundo é mesmo um cagão de um medroso.
Tem muita gente por aí que mudar por mudar, sem consciência crítica, sem avaliar consequências.
Tem muita gente por aí que muda para melhorar, para crescer, mesmo que doa. Mudar dói.
Somos essa “muita gente”. Temos em nós adaptação e desadaptação. Mudança e estagnação.
Encontrar o tom é o segredo do bem viver. A dose de um ou de outro será o que fará a diferença. Mas, para isso tem que ouvir a consciência.Tem que buscar o autoconhecimento. Fazer as perguntas filosóficas eternas:
Quem sou? O que quero ser? O que me agrada? O que me desagrada? O que me aprisiona? O que me liberta? O que gosto? O que não gosto? Qual sentido de minha vida? Quem é importante em meu viver?
Tem que ter a coragem de vez por outra fazer essas perguntas e optar, e escolher, e intuir se o que não está pegando mesmo não é a falta de adaptação, de flexibilidade, de aprendizado.Ou será que o que está pegando não é justamente a vontade de mudar, de renovar-se, de transcender e romper velhos modelos.
A decisão é nossa! A escolha também.
Não há receitas, não há prescrições, fórmulas.
Que para um funciona, para o outro nem tanto.
Só sei que no limite, independente de fé, o Papa Francisco está certo. Como diz minha amiga Fernanda: Quando há reflexão, autoconsciência, humildade e respeito à coletividade (há quem queira que todos ao redor mudem para que os outros se adaptem a ele) é menos doloroso se adaptar.
Só não vale à pena se adaptar se for pra ceder às pressões de uma sociedade perversa. Nesses casos, o pensamento de Arnaldo Antunes é o melhor conselho: "Será que eu falei o que ninguém dizia? Será que eu escutei o que ninguém ouvia? Não vou me adaptar"
Desejo que você, adaptando-se ou movido pelo desejo de uma transformação radical, do tipo daquela do bocal-garfo que fundiu a característica de um bocal de luz à de um plug (garfo) de energia; transformando o objeto final numa outra coisa - fruto das duas, esteja sempre em paz consigo mesmo. Mesmo diante de decisões difíceis, caminhe sempre na verdade, ética e justiça. “É preciso coragem para ser feliz”. Ou como diz André, um amigo precioso, amar é decisão.
Fiquei olhando para ela e para aquele objeto e entendi o sentido que ela queria apresentar.
Leni chegara há uns meses para trabalhar conosco. Por toda uma vida fez carreira nas agências do BB. Esse ano passou a trabalhar numa outra realidade, saindo da ponta do negócio para uma área de estratégica de TI.
Quando ela chegou, tudo deu errado com sua posse.
Chave não acessava os sistemas, computador travava, senha de telefone bloqueada, acesso a rede sendo negado... Todos os dias, a doce e sorridente Leni chegava com um problema diferente.
Aos poucos ela foi vencendo um a um, a ponto de agora fornecer consultoria rsrs.
No início ficava apreensiva com o volume de serviços, com pedidos desencontrados, com demandas prioritárias das prioritárias se acotovelando.
Com um estilo de liderança que valoriza a autogestão do processo produtivo, que não fica em cima, que confia no potencial e deixa o outro ir desabrochando aos poucos.
Ela ficava doidinha comigo. Rsrs
Lentamente ela foi adaptando-se, ao estilo de liderança, à equipe, aos serviços.
Temos dentro de nós esse plug adaptador. Todos temos.
Mas é preciso saúde emocional para ativá-lo. Nem sempre estamos a fim de bancar o risco e pagar a conta.
E, tem certas coisas que se adaptar a elas é morrer um pouco a cada dia.
Portanto, esse adaptador funciona para umas situações de vida pessoal ou profissional, para outra o que funciona mesmo é o bocal-macho.
Mas o que é o bocal-macho. Calma que te explico.
O bocal-macho é um artefato que numa ponta é um soquete de lâmpada (um bocal) na outra é um plug de energia, daqueles que mais parecem um garfo.
Se tivesse um prêmio de inovação para o setor elétrico com certeza esse objeto estaria bem na fita.
Ele consegue transformar qualquer ponto de energia num ponto de luz.
Se for conectado a uma extensão, teremos uma gambiarra portátil super útil.
Então, algumas situações pedem que nos transformemos.
Pedem mudança na nossa natureza. Não pedem adaptação.
São situações bocais-de-garfo-de-energia.
Nas quais mudar e juntar duas coisas transformando-as numa terceira coisa, fruto da sinergia das originais é preciso.
No jargão popular, dizemos: fazer do limão uma limonada.
Então vim para casa com o adaptador e aqui no armário encontrei meu bocal-garfo.
Deixei-os à vista e fiquei feliz.
Ali, à minha frente, duas peças que resumem a trajetória humana: adaptação ou mudança dialética; ou ambos numa composição harmoniosa.
E quem se adaptar muda. Muda a si mesmo diante da realidade.
Adaptação é uma forma de mudança.
Quem transforma adapta-se. Toda transformação carrega em si o gene da adaptação. É uma resposta.
Então as coisas são E e E. Tem casamentos que precisam de adaptação. Um mudar em relação ao outro, aos filhos.
Tem casamento que precisa de transformação, de um basta, pensemos na situação-limite de uma mulher que é agredida por seu esposo.
Ou de uma mãe que vê seu filho sendo consumindo pela droga e que precisa agir.
Adaptar, renunciar, mudar, transformar são notas de uma mesma partitura da bela composição da vida e do viver.
Importantíssimas para nossa evolução.
Sem adaptação não aprendemos. Sem mudança não alteramos rotas e cursos de ação.
Tem muita gente por aí mal resolvida, desajustada, com crise de adaptação.
Tem muita gente por aí que se diz bem resolvida, adaptada, mas que no fundo é mesmo um cagão de um medroso.
Tem muita gente por aí que mudar por mudar, sem consciência crítica, sem avaliar consequências.
Tem muita gente por aí que muda para melhorar, para crescer, mesmo que doa. Mudar dói.
Somos essa “muita gente”. Temos em nós adaptação e desadaptação. Mudança e estagnação.
Encontrar o tom é o segredo do bem viver. A dose de um ou de outro será o que fará a diferença. Mas, para isso tem que ouvir a consciência.Tem que buscar o autoconhecimento. Fazer as perguntas filosóficas eternas:
Quem sou? O que quero ser? O que me agrada? O que me desagrada? O que me aprisiona? O que me liberta? O que gosto? O que não gosto? Qual sentido de minha vida? Quem é importante em meu viver?
Tem que ter a coragem de vez por outra fazer essas perguntas e optar, e escolher, e intuir se o que não está pegando mesmo não é a falta de adaptação, de flexibilidade, de aprendizado.Ou será que o que está pegando não é justamente a vontade de mudar, de renovar-se, de transcender e romper velhos modelos.
A decisão é nossa! A escolha também.
Não há receitas, não há prescrições, fórmulas.
Que para um funciona, para o outro nem tanto.
Só sei que no limite, independente de fé, o Papa Francisco está certo. Como diz minha amiga Fernanda: Quando há reflexão, autoconsciência, humildade e respeito à coletividade (há quem queira que todos ao redor mudem para que os outros se adaptem a ele) é menos doloroso se adaptar.
Só não vale à pena se adaptar se for pra ceder às pressões de uma sociedade perversa. Nesses casos, o pensamento de Arnaldo Antunes é o melhor conselho: "Será que eu falei o que ninguém dizia? Será que eu escutei o que ninguém ouvia? Não vou me adaptar"
Desejo que você, adaptando-se ou movido pelo desejo de uma transformação radical, do tipo daquela do bocal-garfo que fundiu a característica de um bocal de luz à de um plug (garfo) de energia; transformando o objeto final numa outra coisa - fruto das duas, esteja sempre em paz consigo mesmo. Mesmo diante de decisões difíceis, caminhe sempre na verdade, ética e justiça. “É preciso coragem para ser feliz”. Ou como diz André, um amigo precioso, amar é decisão.
A vida é feita de "continuamentos".
Todos nós, em algum instante em nosso viver,
viveremos a emoção de cobrar um pênalti.
Um daqueles momentos existenciais que de seu resultado,
haverá ou não,
a alteração do curso e sentido de nosso viver.
Contudo,
aprenda de uma vez por todas,
a vida nunca será uma decisão por pênaltis.
A vida é muito maior do que vencer ou perder.
A vida é um continuar...
Apesar de tudo.
Na alegria ou na tristeza, no sucesso ou no fracasso.
Continuar.
A vida é feita de "continuamentos". Nem toda decepção será para sempre, nem todo júbilo também. Paradoxalmente, é justamente nisso mesmo que reside a mística e magia da vida e do viver.
. "Ninguém pode fazer a sua vida no seu lugar. Não deixem que vos roubem a esperança. Mas digo também, não roubemos a esperança. Pelo contrário, nos tornemos portadores de esperança." Papa Francisco
viveremos a emoção de cobrar um pênalti.
Um daqueles momentos existenciais que de seu resultado,
haverá ou não,
a alteração do curso e sentido de nosso viver.
Contudo,
aprenda de uma vez por todas,
a vida nunca será uma decisão por pênaltis.
A vida é muito maior do que vencer ou perder.
A vida é um continuar...
Apesar de tudo.
Na alegria ou na tristeza, no sucesso ou no fracasso.
Continuar.
A vida é feita de "continuamentos". Nem toda decepção será para sempre, nem todo júbilo também. Paradoxalmente, é justamente nisso mesmo que reside a mística e magia da vida e do viver.
. "Ninguém pode fazer a sua vida no seu lugar. Não deixem que vos roubem a esperança. Mas digo também, não roubemos a esperança. Pelo contrário, nos tornemos portadores de esperança." Papa Francisco
Paus de Escora
Vinha descendo pela Avenida do Sol e à minha frente um caminhão carregado com pau de escora. Para quem não conhece, o pau de escora exerce um papel fundamental na construção civil. Ele é quem apoia a armação de trilhos e isopor da laje, sobre os quais será depositado o concreto.
Depois de seco, de curado como se chama, o pau de escora é retirado e a laje fica solta no ar, suportada por colunas e vigas fincadas no alicerce, num lance genial de engenharia.
Aí, ele vai para o monte de madeira. Se der sorte, será revendido e continuará sua missão. Na maioria das vezes, o custo para vir buscá-lo não compensará o valor obtido com a revenda e ele acabará virando uma fogueira, servindo de lenha para fornos de padaria e cerâmicas, ou sendo simplesmente descartado em lixões urbanos.
Trafeguei uns 10 minutos atrás deles. Não tinha como cortar o caminhão naquela descida perigosa da Avenida do Sol, aqui no Jardim Botânico, em Brasília.
Durante aquele trajeto conversei com alguns deles.
Alguns eram mais tímidos, outros falantes e alegres. Eles não sabiam do que eu sabia. Sabiam que iriam servir e só.
E, não sabiam que após seu serviço, seriam descartados na maioria dos casos.
Naquele breve instante, refleti sobre o quanto podemos ter sido paus de escora para alguém, ou algo.
Ou o pior, tratarmos os outros como pau de escora, infelizmente muito comum.
a. Tem empresa e gestores que tratam seus funcionários como pau de escora. Na hora da precisão são valiosos, paparicados, “até de caminhão andam”.
São tratados com cuidado e valorizados. Alguns deles chegam a aparar arestas dos pau de escora, serrá-lo, prepara-lo para a missão que desempenharão. Depois de feita, após a laje secar, tchau e bença! Virão itens descartáveis, desprezados numa pilha de entulho humano qualquer.
Depois da obra pronta, bela e habitável, ninguém mais se lembra dos pau de escora que suportaram o peso da laje, até que o cimento, areia, concreto e brita adquirissem consistência e se firmasse. Não mais são lembrados. Na hora da premiação, sequer são citados. Eles estão ali, fazendo o melhor que podem para o serviço sair, mas são humildes, são simples, são de nível hierárquico inferior, por isso, para gestores ignóbeis: são sem valor.
b. Tem casal que um age para com o outro como o pessoal da construção civil age com os pau de escora. Na hora do sexo, meu benzinho pra lá, meu benzinho pra cá. Depois, tchau e bença.
Na hora de criar os filhos, preparar o lar, é só amor. Depois que engorda, fica cansada, com rugas... tchau e bença.
Na hora de tocar juntos projetos para o quais um precise do outro, só amor. Depois, um deles passa a tratar o outro como pau de escora usado e tchau e bença.
Tem relação pau de escora. Doentia. Relação que se mantém pelo o uso que um faz do outro, até que esse lhe sirva. Depois, tchau e bença.
Esquece o quanto um segurou a barra do outro. Um varou noites e dias esforçando-se para que o outro crescesse. Esquece num canto qualquer, numa pilha de madeira usada, aquele que um dia lhe deu tanto suporte.
c. Tem filhos que tratam seus pais como pau de escora. Na hora da precisão, só amor. Depois, tchau e bença. Passam séculos sem um telefonema, uma visita, e os pais agora os aborrecem.
Tem filhos que enquanto precisavam de roupa lavada, teto, comida, saúde estavam ali todos amiguinhos, ternos, afetuosos. Depois que crescem, pegam sua mãe-pau-de-escora e seu pai-pau-de-escora e os desprezam. Não os convidam para passeios, lazer, almoços ou outros itens de convivência. Não os ajudam financeiramente e, o mais importante, amorosamente. Os jogam no mesmo monte de madeira usada que fica no término de uma construção.
Filhos que acham que não devem respeito, gratidão, compaixão. Acham que os pais não precisam dele. Que os pais já não os entendem e não pertencem mais ao seu mundo. Envelheceram em seu coração.
d. Tem relações de amizade do tipo pau de escora. No momento que um precisa do outro, tudo corre bem. Tão logo satisfeita a necessidade, ou não mais seja importante, o amigo é desprezado ou trocado por outro, mais "útil".
São amizades pau-de-escora de construção.
Tem relações de todos os tipos pau-de-escora. Um, só dá valor ao outro, enquanto enxerga nele uma fonte de serviço, poder, ter, prazer... Depois que isso acaba, ou quando não mais precisa disso, chutá-lhe a bunda e parte para explorar outros pau de escora, vida afora.
O caminhão freia. Volto à realidade e vejo um deles sorrindo para mim.
Pergunto-lhe por que ri.
Ele me responde que sorri, pois foi cortado de uma floresta de eucaliptos e que poderia ter virado carvão. E que ri de minha visão negativa, essencialmente, de sua sina. Que nem todos são abandonados em pilhas de madeira velha.
Conta-me que na cadeia alimentar de seu destino, virar carvão precocemente é a pior sina. A melhor é virar um lápis da Faber-Castell. Mas, isso é para poucos.
O intermediário é virar pau de escora. Pois, da floresta até a loja de material de construção, e dali até a obra, ele prorrogará sua existência. E depois, ainda poderá ter a sorte de virar um novo pau de escora, caso revendido. Ou um trapiche.
Falou-me de pessoas que servem aos outros perante a vida e que não são largadas num canto qualquer.
São paus-de-escora diferenciados. Possuem o sentido e propósito do que fazem, e eles próprios podem procurar novos trabalhos.
São conscientes e possuem elevado senso de autonomia.
São empreendedores e aproveitam todas as possibilidades que a vida oferece para crescerem.
Servem com dedicação. Mas, caso tratados com desprezo saber sser resilientes e aguardar o melhor momento para reagir.
E lutar por dias melhores, rompendo a cadeia de opressão.
Era disso que ele sorria. Sorria, pois sabia que podia fazer com as mãos seu viver e destino. Um pau de escora mais rebelde gritou lá do fundo da carga:
é, mas são poucos!
Não me contive e sorri também.
Um do meio da pilha falou que conhecia muitos amigos paus de escora que após a obra tinha sido valorizados ali mesmo. Só mudaram de vocação. Foram reconhecidos.
O do fundo gritou... É mas são poucos.
Um pau de escora rebelde, era esse do fundo, pessimista com a natureza humana como o início desse texto.
O da frente explicou que alguns deles continuarão sua missão: sendo um suporte para horta, um pergolado, um trapiche, ou até voltar a ser escora de laje, caso reaproveitado.
Aprendi, então, que mesmo o sofrer de ter sido jogado para fora e desprezado, após ter sido usado, pode aniquilar a pessoa humana. Ainda assim ela poderá transcender e renascer das cinzas.
Tem paus de obra que não são desprezados por aqueles que serviu. São felizes, são prestativos a vida lhes fez bem. Continuam servindo, seja no que for.
Tem pessoas que uma vez precisaram em suas vidas de paus de escora e souberam reconhecer sua ajuda.
E até hoje são amigos. Sabem que entre si há uma dívida nunca resgatada. Meus pais e irmãos foram meus paus de escora, e em vários momentos souberam sustentar minha existência, como os paus de escora suportam o peso da laje.
Tive amigos com esse status também. Souberam me ajudar em momentos difíceis, relacionados com a vida a dois, por ex.
Sem eles, teria sido tudo tão mais difícil!
Até hoje sou agradecido a essas pessoas, pais, irmãos e amigos que tanto me ajudaram, e foram meus queridos paus de escora.
Nunca os deixarei numa pilha de lenha, para um forno de padaria.
Estarão sempre presentes em minha vida, e serei eternamente grato pelo que um dia fizeram por mim.
Voltei a olhar a montanha de paus de escora seguindo na carga do caminhão à minha frente.
Fiquei embevecido com o diálogo que rolava na carga e de tanta sabedoria que dali saia.
Fiquei pensando no copeiro de meu andar, no porteiro de meu condomínio, na mensalista que mora conosco, nas moças que limpam nossas estações de trabalho, nas telefonistas, nos vigilantes, no pessoal da portaria. Fiquei pensando nos colegas que não aparecem à frente dos grandes projetos, mas que nos bastidores ajudam – com o que podem e sabem, a fazê-lo acontecer. Fiquei pensando em quantas pessoas passaram na minha vida e ajudaram a construir a laje de meu ser existencial, e quantas delas foram por mim tratadas como pau de escora, ou seja, desprezadas após me servirem. Para elas peço desculpas.
Queridos amigos que se sentem um pau de escora, lembrem-se que vocês ainda poderão vir a ser um lápis Faber-Castell, ou um belo trapiche ou pergolado. Portanto, caiam fora de relações que só te exploram. Todos nós, em algum momento em nosso viver, fomos ou seremos pau-de-escora para alguém. Mas, resistir e transformar essa situação é crucial - e pode ser feito, muitos fizeram e venceram. São exemplos.
Mesmo que te causem segurança e conforto momentâneo, fuja de situações nas quais é usado como um pau de escora.
Mesmo que doa. Mudem enquanto é tempo.
A construção de tua laje existencial está acabando. Logo, caso se sinta assim e não mude, será tarde demais.
Lembrei aquela canção que dizia assim "Tá vendo aquele edifício moço...?"
Tudo a ver com a sina de muitos paus de escora humanos.
O desafio é reencontrar-se após o desprezo e a dor da indiferença!
Reencontrar-se após rupturas, quebra de vínculos, dependências. Achar a identidade perdida no meio de tanta subjugação e exploração.
Será esse nosso desafio vida a fora.
Servir como pau de escora, mas romper para outros desafios, sempre que o desprezo se fizer presente.
E, tudo pode ser uma questão de voltar a gostar de si mesmo.
Saber do valor que tem, mesmo que para engenheiros, arquitetos só vejam em você um pau d escora desprezível diante de tudo que acontece numa construção civil.
Não se preocupe, o mestre de obra maior, nosso Deus, sabe de sua importância. Sabe que se não fosse sua ação no mundo, seu existir, pessoas ficariam infelizes, mudanças não teriam acontecidos, bênçãos não seriam distribuídas por suas mãos.
Diversidade
Cajá-Manga, Tamarindo, Alho, Kiwi, Jabuticaba, Goiaiba, Pera e Morango.
Só não entendi o alho, mas precisa entender?
Só não entendi o alho, mas precisa entender?
Afinal, no reinado do amor a diversidade não precisa de entendimentos.
Precisa de encantamentos.
Para aprendermos a respeitá-la e conviver com o que,
longe de nos dividir,
nos complementa como pessoa humana.
Mudar
No retrovisor pode se esconder nossa melhor essência, a magia do que fomos um dia e os projetos de vida que queríamos vir-a-ser. Olhar, vez por outra para trás, com esse foco, pode nos ajudar a saltar para frente! Tem hora que mais do que pendurar as botas, precisaremos pendurar aquilo que carregávamos em nosso ser e lhes atribuíamos valor, numa espécie de bolsa existencial sufocante. Nada como, vez por outra, jogar essa bolsa para cima e recomeçar. Atribuindo novos valores a tudo aquilo que nos diz respeito.
Oribá
Gostei muito do significado da palavra Oribá. A vi numa placa no Jardim Botânico de Brasília, uma extensa área do Cerrado, muito bem cuidada. Em cada texto que escrevo procuro transmitir Oribá. Que não significa que eu não esteja pelejando ou sofrendo, significa uma escolha. Crio com meus olhos, nas coisas que observo e que me cativam o meu infinito particular. Escrevo como quem pinta um quadro, no qual registro cenas para não esquecer. Gostaria de ter um gravador que ao ditar as escrevinhações que habitam meu ser ele digitasse, editasse, fizesse o copydesk. Seria bacana. Não esqueceria de nada. Parei de tentar me lembrar. Já não sofro mais e como diz a canção, "hoje faço com meu braço o meu viver". Parei. Meu ser é repleto de lacunas, de pausas, de lapsos. Aprendi a gostar de mim assim mesmo. Cerco-me de pessoas de excelente memória que me contam o que vivi. Fico ouvindo-as como se fora a primeira vez. Elas, um tanto espantadas, acham que brinco. Outras, ajudam-me a lembrar pintando as cenas numa fotografia. As fotografias me fazem lembrar. Tiro muitas fotos. Comecei a escrever para não esquecer que escrevo. Para exercitar minha memória, cambaleante e anêmica. Agora, escrevo por puro tesão. Como um coito interior que após saciado inunda-me de prazer. Escrevo, pois não saberia mais ser diferente. Escrevo, para abraçar quem me lê e juntos caminharmos para a tela que pintei, ou a cena-foto que descrevi. Este sou eu, um espaço Oribá!
Tempo de fazer a mudança para a cidade de si mesmo.
Ao lado, observo um Gerente Executivo arrumando alguns papéis em sua mesa. Estranho o silêncio no Colegiado. Geralmente na sexta o ambiente é mais informal e sempre um fica zoando com o time de futebol do outro. Todos estão sérios.
Algo ocorrera.
Continuo então a observar. Gosto de observar. Para mim pessoas são pinturas, são belos quadros expressionistas e gosto de observá-las em suas atividades corriqueiras.
Percebo que alguns papéis ele olha fixamente e os coloca numa caixa de papelão, que jaz aos seus pés. Outros, ele coloca numa fragmentadora que desafia o colossal silêncio do ambiente.
Lembro-me que ele participou de um evento de preparação para a aposentadoria que fizemos. Lembro-me, porque ao final ele me procurou e me contou que fizera o exercício que eu passara. E que ficou com a pontuação de 7-10: “Céu de Brigadeiro”, achando que estava chegando a sua hora.
Essa pontuação faz parte de um momento da palestra que conduzo, chamada Aposentável, decifra-me ou devoro-te – aspectos psicossociais da aposentadoria.
Caiu a ficha do silêncio, e do que ele fazia com aquela caixa de papelão. Estava despedindo-se do BB, iria aposentar-se e guardava seus objetos pessoais, sua memórias.
Chorei por dentro da singularidade da cena. Nunca tinha testemunhado uma cena daquela.
Ele não via que eu o observava, quase como um voyeur. Ele estava absorto. Longe.
Tirou as fotos que emolduravam sua mesa e as olhou. Quantas horas com a família foram deixadas de lado pela dedicação integral ao trabalho. Todos que trabalham, que gostam do trabalho e são comprometidos, fazem essa escolha. Mas, ao fechar o ciclo, um dos ciclos, ela cobra sua fatura.
Ele olhava seus entes queridos... aqueles que renunciaram ao seu convívio mais próximo, apoiando-lhe na sua dedicação. Agora eles iam para a caixa de papelão. Seu pedaço de família, naquela mesa, era guardado, desfeito, revivido desde a posse. A partir de agora iria ocupar um outro lugar em sua "baia" existencial.
Foi desarmando seu ethos corporativo, sua toca, sua “baia”.
Abria as gavetas com cerimônia.
Limpava, uma a uma, escolhendo o que levaria de pessoal.
Até o som e cheiro do ambiente ele sorvia. Foi fazendo sua mudança para outra estação da vida e do viver.
Lentamente, sem pressa, como que a confirmar em cada gesto sua decisão.
Lá se iam 32 anos de dedicação ao BB.
Quando ele falava dos seus projetos, em algumas reuniões que fiz, não tinha como não se contagiar pela sua vivacidade e satisfação com o trabalho. seus olhos brilhavam. Ele falava de mais do que um projeto, ali era sua identidade, sua razão e sentido da vida. Agora chegara a hora da partida. Do divórcio, de uma quase-morte.
Aproximei-me e ofereci um aperto de mão. Ele olhou-me fixamente, com um sorriso no rosto. Disse-me, “vou aproveitar o Céu de Brigadeiro e voar para as coisas que deixei para trás e para as novas que virão”.
Mordi a língua para não chorar.
Saí de perto e perguntei a outro executivo se não haveria uma despedida, uma festinha. Ele falou que foram pegos de surpresa e que ele pedira que nada fizessem no seu último dia.
Entendi então que ele estava vivendo seu velório corporativo. Ele estava velando seu próprio crachá.
Se despedindo do sobrenome corporativo. Do ramal. Dos cartões personalizados.
Era um momento de profunda grandeza e humanidade. De rara beleza e sensibilidade. Nunca tinha presenciado.
Aquele dia ele dedicara ao seu luto, às suas próprias despedidas, de silêncio, de contemplação.
Inventei uma desculpa ao meu executivo e fiquei mais um tempo. Uma eternidade observando-o.
Alguns itens de sua mesa eram troféus, com certeza. A maneira que ele os guardava na caixa mais pareciam objetos preciosos.
Aos poucos, a sua mesa a sua estação de trabalho foram se despindo, ficando sem cheiro de gente. Sem nenhum toque pessoal.
Era como se ele desarmasse sua barraca. Fizesse as malas. Para uma nova viagem, agora definitiva. Uma viagem em busca de si mesmo, das fantasias perdidas, dos projetos adiados, dos sonhos adormecidos.
Lentamente ele tirou o crachá.
O olhou...o olhou... Num olhar de séculos de expressão.
Quanta dedicação estava presente naquele plástico!
Quanta história, realizações, sofreres e prazeres carregava aquela matrícula de oito dígitos!
Por fim, contemplou os lados, como que olha pela última vez. Os seus pares executivos sentiram o peso do momento e fingiam estarem ocupados, lendo documentos vazios.
Lentamente ele tirou o cordão do crachá do pescoço.
Depositou na caixa. Levantou-se da cadeira, ergueu a caixa como quem carrega parte de sua vida, como quem está de malas prontas e caminhou para a saída da sala.
Iria somente guardar a caixa no carro? Ele voltaria ainda para se despedir? Ninguém ousara erguer a voz e perguntar. Todos emocionados com o momento. Talvez a dor da separação de amantes fosse tão grande que ele preferiu faze-la como quem sai de casa apenas com as chaves do carro e nunca mais volta. Talvez... Tem apegos, vínculos que de tão fortes precisamos negar a sua perda para sobreviver. E, e uma das formas, e fantasiar a realidade, não olhar pelo retrovisor a vida e tocar pra frente. Atrás tem muita saudade chorada. Muito apego amoroso. Muita coisa boa vivida. Saudade é caprichosa, se se olha muito para ela não se viverá o presente do futuro. Saudade é saudade, não se explica, se vive. Talvez carregando uma caixa de papelão cheia de memórias, sem olhar o que deixou, para ter forças de caminhar para o que virá.
Na saída, parou... voltou-se para mim e sorriu! Um sorriso de quem sabe que tudo que fez ecoará na eternidade. Um sorriso de infinitos, de quem está prenhe de novas possibilidades.
Um sorriso de abraços incontidos, um sorriso de quem se vai de bem com a vida, um sorriso cheio cumplicidades, de até-logos.
Quando a porta fechou eu chorei!
A gente se apega aos colegas. Somos seres de vínculos. E passamos boa parte do tempo no trabalho. É importante preparar-se para a despedida do crachá, da esposa-instituição. Creio pelo que conversamos meses antes, que ele preparou-se direitinho.
Que ele voe e ajude a construir um outro mundo possível, com tudo que aprendeu em 32 anos de dedicação.
Nas horas que agora lhe sobrarão, optará por trabalhar no que quiser e no ritmo mais apropriado, seja em funções remuneradas, ou não, como, por exemplo, as de adotar uma praça, ler para um doente, voltar a estudar ou simplesmente fazer nada, ou tudo ao mesmo tempo, como viajar e aprender finalmente a cuidar de si mesmo e dos amados que foi deixando ao longo do caminho.
Um tempo de delicadezas...
A manhã da sexta (19/07/2013) começou com uma notícia triste. A morte de um colega de Banco em Niterói-RJ, ontem. Ele cortava o cabelo num salão e o estabelecimento foi assaltado, quando saia do salão o marginal o atingiu com uma arma de fogo. Todos no nosso setor estavam chocados. O colega do BB que faleceu, tem um irmão também do BB e que trabalha em nossa diretoria. O que aumentava ainda mais o pesar. O silêncio de um luto mórbido, de uma morte besta, que chega sem pedir licença, reina.
Eis que um som de criança invade o setor. É sexta feira e uma colega resolve trazer sua filhota para conhecer o local de trabalho da mãe. Ela se chama Alice, tem três anos. Quando soube da idade fiquei surpreso. É uma menina desenvolta, comunicativa e mais parece que tem uns cinco anos, apensar de ser miudinha.
Por um momento a alegria de Alice, sua força vital, sua presença angelical, nos abençoa e sara atenua nossa dor.
Acho que as crianças têm esse dom de nos fazerem melhores e de acreditarmos em dias melhores. De tão serelepe, a Alice mais parecia a Emília, do Monteiro Lobato. Logo os colegas aproximam-se dela tome mimos.
Parece que todos estamos precisando da Alice. Aproximo-me também. Pergunto-lhe o que ela gosta de comer e ela responde com um sorriso doce: arroz, feijão, batata frita, cebola. E digo, Cebola?
Eca Alice!
Eu não gosto, e dentro dela mora um mostro. rsrsrs
Ela me olha assustada e feliz. Sacou que era uma brincadeira.
Como por mágica e bênção o ambiente fica mais leve. Além do luto, estamos muito cansados. Findamos a primeira semana de um enorme processo seletivo, coordenado por nossa Área.
E as tensões, são quase que intrínsecas em processo da espécie.
Alice, “anja” Alice, reina entre nós. Com sua vivacidade, com sua eloquência tagarelante, vai dialogando com cada um da gente.
Noemi, a sua mãe, olha para ela toda explicada e falante, no meio de marmanjos e marmanjas, e fica cheia de si - vaidosa e amorosa, como todas as mães.
Após um tempo vamos nos dispersando.
Noemi senta Alice numa das estações de trabalho que estava vazia. Fornece-lhe lápis, papel, e ali ela finge trabalhar. Passo perto e pergunto-lhe se já ligou para o Papai-Noel. Ela me olha com olhinhos faiscando de curiosidade. Apresento-lhe o telefone e digo-lhe para tentar.
Uma amiga saca a fuleiragem e chega perto pra contracenar. Eu vou saindo, e, por sinais, digo-lhe para ligar da “mesa da Alice” para o meu ramal, botando-lhe para falar com Papai Noel.
Na minha “baia”, escondo-me debaixo da mesa. Puxo o telefone e aguardo o toque.
Passado uns segundos o telefone toca. Atendo. Na outra linha era a Alice. Falo que sou o Papai Noel, ligando da Groelândia-Baia-mais próxima. OH OH OH...
Ela toda feliz.
Pergunto-lhe o que quer ganhar de Natal. Ela diz que um anel.
Pergunto-lhe se de ouro ou lata. Ela diz lata.
Pergunto-lhe mais uma vez, atônito que fiquei, e ela confirma: de lata.
Sua voz é decidida.
Ficou um tanto frustrado, gastei minha porção mágica de papai-noel para levar da distante baia-Groelândia, para a Alice, um anel de lata.
Todos caem na risada. Continuo fingindo e pergunto o que ela quer para a sua mamãe ela diz: um vestido.
Despedimo-nos, não sem antes desejarmos votos de feliz Natal.
Passo perto dela e pergunto-lhe se falou com o Papai Noel. Ela diz que sim, que vai ganhar um anel de lata e que o Papai Noel estava sério.
Pronto. Até minha performance caiu na esperteza da Alice.
Não sabe ela que fora sua lata que me desconcertara e por isso perdi a graça da brincadeira.
Fiquei serio e emocionado com tamanha singeleza.
Despedi-me do pessoal e da Alice, iria usar à tarde para fazer uns exames que o periódico de saúde recomendou. Nada sério. rsrs
Dirijo para um dos hospitais pensando em como são belos os sonhos de Alice, que agora deixou de ser Alice, tornando-se Alice das Maravilhas.
De tão mobilizado que fiquei acho até que passei por um pardal (radar) com velocidade acima da permitida. Paciência.
Da maravilha que é se sentir bem usando um simples anel de lata. Místico e mágico anel.
Da maravilha de ser quem é, da maravilha de SER, só SER, em relação aos outros pobres e insustentáveis, do ponto de vista de felicidade existencial, outros “ER” - Poder e Ter.
Alice é.
Amanhã vou procurar um anel de lata para a Alice.
Saindo do trabalho deparo-me com as painas das paineiras brancas forrando o solo qual um lençol alvinho, alvinho.
Na outra esquina deparo-me com uma árvore alta, cheia de galhos secos, nenhuma folha sequer. Toda seca. De sua “copa” emergem flores vermelho-carmim, de seus galhos idem. , Trata-se de um bougainville que nasceu ao seu lado e subiu por ela, enroscando-se numa simbiose fraterna. De longe, ver aquela árvore ressecada e florida fornecia uma cena de indescritível beleza. Da morte nascia a vida. Uma vida que encontrou, mesmo que numa árvore seca, um suporte para sua existência e brilho.
Vou voltando então para casa.
É perto das quatro da tarde. Agora estou bem perto de casa, já sigo pela Avenida do Sol do Jardim Botânico, em Brasília.
Não sinto fome e não almocei. Estou saciado, num frenesi para sentar-me e escrever o que vivi. Confesso que vivi.
O coração cheio, transbordando de emoções de um dia intenso.
Eis que à minha frente segue uma carroço de burros. Reduzo a velocidade para ultrapassá-la com segurança e noto que seu proprietário fizera tal quais as carroças do velho oeste dos EUA, fazendo uma espécie de barraca improvisada, com uma colcha laranja.
Agora é que fico curioso mesmo.
Quem será que a dirige?
O que ele leva ali de tão precioso que fez aquela “casinha rústica." Fiquei me punindo por está sem a máquina. Daria uma foto linda. Aproximo-me, vagarosamente, e o corto. Vou olhando, olhando. E me comovo, mais uma vez.
Trata-se de um senhor idoso, cabelos brancos, tocando seu burro com altivez de um puro sangue. Sentado ao seu lado, no banquinho da carroça, duas crianças.
Que cena linda!!! Quanto cuidado e carinho para com seus filhos ou netos. O sol estava implacante e ele teve a ideia de fazer uma armação rustica e sobre ela colocar a colcha. Se aquele senhor tiver um nome, na eternidade, será Protetor.
Quantas emoções invadiram meu viver e que necessito publicá-las ao compartilhar com vocês:
Uma criança e seu anel de lata; Um tapete branco sobre o solo, fofinho, fofinho, cheio de plumas das painas; Uma árvore que mesmo morta, ressurge com a força das flores de quem a toca, tomando-lhe por empréstimo seu brilho, sem anulá-lo. Um carroceiro e suas crianças, protegidas do sol por uma velha colcha laranja.
Que dia de vivências felizes: o anel de lata da Alice; o solo forrado de plumas brancas; o vermelho-carmim de bougainvilles, em cio, apoiadas em galhos secos; a colcha laranja que protege do sol e poeira do Cerado. .
Em cada cena uma pitada de infinito.
O infinito da humildade e sabedoria, de um simples anel de lata.
O infinito da paz e harmonia, de um campo vestido de plumas brancas.
O infinito da compaixão e solidariedade, das flores que só se embelezam quando servem aos galhos secos que a acolhem.
O infinito do cuidado e amor, de uma colcha laranja que protege do sol e poeira.
Em nós habita a eternidade, com esses valores. É só deixarmos que eles aflorem.
É só deixarmos falar e agir em nós a Alice que se encontra adormecida e que um dia fomos.
Aquela Alice que ficava tão feliz brincado com coisa pouca.
Aquela Alice plena de autoestima e sentido da vida.
Aquela Alice que em meio ao caos de um dia desgastante, no desgastante processo de amadurecer, encontrava razões para brincar e fantasiar que cuidava de um monte de bonecas, algumas sem braços, desformes, mas que na sua fantasia eram plenas.
Todos temos essa Alice em nós adormecida.
Todos podemos converter nossos anéis de lata de cada dia, no mais belo e significativo anel que alguém já usou.
É só vê-lo com os olhos do amor.
Onde mora seu tesouro? Onde mora seus valores?
Nem ouro, nem prata poderão nos fazer felizes se não temos a nós mesmos, e aos outros, em consideração e estima.
E, quando assim nos e os tivermos, um simples latão será suficiente para alegrar-nos e dá sentido ao nosso viver. Quanto ao luto, percebi que o amor o invade e o processa, no seu tempo, no seu ritmo. Basta acreditar na força de uma anel de lata, de um chão de plumas, de uma flor em galho seco, de uma colcha laranja. Viver é terapêutico e a vida cura. Mas, não apresse o rio da dor e do luto. Ele precisa de choro e de sofrer para seguir seu caminho.
Fiquei surpreso ao constatar uma coisa tão óbvia. Onde você guarda seu tesouro, e o que lhe atribui de valor, será ali que habitará e crescerá o amor em seu coração. Pense nisso!
Não me contive e voltei para fotografar a Paineira Rosa, e seus frutos que se abrem em paina de plumas brancas; além da trepadeira vermelho-carmim que fez amizade com os galhos secos.
Alice, eu e vocês merecemos essas fotos que ilustrarão essa crônica pela vida afora. Antes que me esqueça deixo-vos conselhos simples: Vivam intensamente e perdoem-se sempre. Não guardem mágoas, ódios encardidos. guardem só por uns tempos. Até passar a raiva. Se demorar muito, você estará passando recibo contra si mesmo.
Nunca saberemos o quanto de vida nos restará.
Portanto, esteja sempre com a contabilidade dela em dia. Que no teu balanço sobre amor no ativo e falte indiferença no passivo. Amém!
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