Os 4 "As" Amor: O Apego



Hoje fiz algo que não fazia há muito tempo, 

conversei com meu irmão sozinho.
Eu e ele, olho a olho. 
Não havia cunhadas, amigos comuns, 
crianças correndo.
Carne na churrasqueira ou outros entretenimentos
que nos desviassem de nós dois.
Só nós, num enlace fraterno de quem convive
há cinquenta anos.
E de quem torce um pelo outro, 
embora nem sempre saibamos demonstrar.

Falei para o mano que o amor se apóia numa espécie de vigas radiais que sustentam a teia da vida.

Contudo, essas vigas radiais do amor se expressão em todas as formas de amores, não só no amor carnal entre cônjuges.

E sobre amor o que escrevo nessa tarde chuvosa, com trovões rocando à minha esquerda e direita, com a varanda - na qual em paz digito, sendo iluminada por relâmpagos e raios de uma tempestade de verão.

As vigas do amor:
(1) Apego 
(2) Afeto. 

Por minha conta e risco, acrescento mais duas:
(3) Afago 
(4) Apreço

Para mim, essas quatros vigas formam a rede da sustentabilidade do amor, tal qual aquela tecida pela aranha  dessa foto, que posa ao meu lado aqui na varanda. 

Amores sustentáveis possuem as quatro, com maior ou menor fortaleza e estrutura interior - necessárias aos suporte das tensões da vida e do viver.

Começo falando sobre a viga do Apego. 

O amor de Apego é o mais primitivo. Ele é do Sistema Nervoso Límbico, instintual.  
É aquele amor que temos pelo outro e que se origina da necessidade de proteção, ajuda mútua, cooperação entre seres para juntos tocarem objetivos comuns. Esse amor é o amor que nos dá tranquilidade de tocar nossas vidas ao lado do outro. Esse amor suscita rotinas, padrões de comportamento, sequências esperadas na conduta do outro, que já nos surpreende mais. 
É um amor racional, objetivo, pragmático. 
Convivemos com um monte de pessoas,  e temo-lás em nosso coração, que relacionam-se apenas nessa viga do amor. Apenas por apego.  Como diz o médico acima, pelo medo do ser só. São relações que mesmo "entre tapas e beijos" vão perdurando. O medo de largar tudo e recomeçar é de ordem prática. Ruim por ruim... vamos ficando. Pelo menos temos roupa lavada e um abrigo - é o amor da gruta, da toca, da caverna. 
Pense em todos os níveis de relação humana: matrimonial, filial, entre amigos, e até entre pessoas que frequentam a mesma instituição social: política, religiosa, esportiva, cultural, o que seja, esse amor estará presente com mais intensidade. Ele exige um baixo nível de envolvimento social e mantém uma certa individualidade, cultuada nos tempos atuais. 
É o amor de grupos, da tribo, da certeza de que o outro - por mais ranziza que possa ser, "ainda me levará para tomar sol no entardecer da vida". É um amor de trocas, subliminares trocas, que fazem com que aceitemos alguns sapos engolidos, pela razão utilitarista que suscita. 
Eu engulo seus sapos, você engole meus sapos... e estamos ok!

Essa coluna do amor é material, pragmática, calculista, embora não tenhamos consciência disso. Nos acostumamos com alguém vendo televisão em nosso lar, mesmo sem precisar ir lá cumprimentá-lo. Só em saber dele, mesmo que ausente, afastará o sentimento de solidão. Tem filhos que só essa viga de seu amor paternal amor. Tem pais, no final da vida, que só esse amor esperam mais dos filhos. Tem chefes que só nutrem esse amor por seus funcionários, e vice-versa. Repito, em qualquer forma de relacionamento humano, nas suas mais diversas instituições, preste atenção direitinho que verá esse tipo de amor se manifestando. Em analogia à hierarquia das necessidades de Maslow - ver as teorias da Motivação.
Assim sendo, esse amor ocupa o primeiro e segundo nível da pirâmide por ele proposta, o de Fisiologia e Segurança.

É o suporte no qual, caso cresçamos no relacionamento, outros níveis de amor serão a ele agregados.  

(Próximo texto da série: O Amor do Afeto)






Ensinemos a honra de saber perder.



A aula transcorria de forma satisfatória. Alunos sedentos pelo saber, construindo juntos o conhecimento. Adoro ser educador, e, embora cansativo, destino duas noites da semana às aulas de pós-graduação. São disciplinas do tema gestão de pessoas.
Essa, dessa noite, chama-se Desenvolvimento Profissional e Qualidade de Vida no Trabalho.
Logo no início dos cursos faço um contrato com meus alunos:
Regra 1: “Serão nove encontros e não farei chamada. Mas, para vir pra aula tem que trazer uma reflexão pessoal, sem ser Ctrl C + Ctrl V de um texto do Oráculo Google, do texto que será debatido na noite.”
E eles terão que ler e defender sua reflexão. Pode ser um único parágrafo de reflexão, mas exijo que seja da autoria dos alunos. Desenvolvo neles o gosto do pensar, de produzir conhecimentos. Sem essa reflexão os libero das aulas. Não precisa vir. Para minha surpresa o método funciona. Todos comparecem às aulas, até quando sou premiado pelas Coordenações com as aulas da sexta à noite.
Outra coisa regra:
“Todos já estão pré-aprovados. Mas, honrem a cada encontro a sua aprovação. Na minha disciplina você só se reprova se pedir. Mas, façam por merecer sua aprovação, conquistando-a a cada aula.”
Corta a cena, e volta pra minha aula dessa noite. Enquanto explico e debato com os alunos os avanços do modelo de Watson - de Qualidade de Vida, em relação aos modelos baseados apenas na Ergonomia, um aluno acena desesperadamente pela janelinha, lá de fora no corredor.
Interrompo a aula e vou lá fora, ver de que se trata.
Ele alega-me que fora aluno meu no semestre anterior. Francamente não me lembro.
E que faltara a minha aula final, aquela que peço como avaliação final, numa espécie de monografia, que meus alunos escrevam tudo que aprenderam nas aulas.
Ele diz que falou com o Coordenador do curso, que “delegou” para mim a decisão de aceitá-lo ou não, para fazer somente a prova, uma vez que faltou aos 8 encontros anteriores desse semestre. Não acredito que o coordenador disse isso. Acho que é um "migué".
Senti-me apunhalado em minha dignidade de educador.
O aluno não veio fazer a avaliação final, no último semestre. Pediu para ser reprovado e eu – mesmo contrariando a meus princípios, o atendi.
Nem tampouco nos dias que se sucederam à avaliação final me procurou para tentar um acordo. Adoro fazer acordos. Simplesmente desapareceu.
Agora, ele aparece com a cara lavada e diz que quer fazer somente a prova da próxima quinta. Eu mereço. Há mereço!
Ou seja, não participou de nenhum debate, não entregou nenhum trabalho, e quer trazer sua participação anterior como bônus e sentar na janelinha do ônibus de uma nova turma, que nem conhece.
Fiquei imaginando que tipo de prova ele fará. Ele pensa que dou aulas por fichas amareladas de tanto uso. Coitado.
Não, não vou submetê-lo a esse vexame. Até porquê, em cada novo ciclo mudo tudo. Encontro novos textos, casos, referências, atualizo a ementa da disciplina.
Ou seja, a cada semestre minhas aulas mudam, renovam-se e o fato dele me dizer que tem as anteriores não o salvará do fiasco.
Tentei argumentar nesse sentido. Mas ele olhava para mim com a expressão de cri cri cri.
“E eu com isso!”
“Problema é seu professor, foi o que o coordenador disse.”
Lia em sua mente, em seu corpo.
Mas, o que me incomodou, e bastante, era sua certeza da impunidade – típica de um país que ainda não é uma nação.
A certeza que ele aparentava de que tudo estaria tudo certo comigo, que ele venceria a ética.
Que seria mole.
Esse jovem não aprendeu a perder com honra, ética e dignidade.
Faltaram essas lições nos bancos escolares que curso na escola da vida.
Acha que merece fazer a prova, por merecer.
Não tem consciência crítica alguma da situação em que se meteu.
Acha que pode porque pode, e por assim achar, manipula todos para em sua fantasia de onipotência.
Quinta passada outro jovem me abordou chateado. Havíamos adiado por 4 meses o processo seletivo que ele concorreria, de novembro para março.
E ele não se conformava.
Falei para ele que a razão seria a duplicação das vagas a disponíveis.
Ele não aceitou minhas considerações. Mostrei-lhe a matemática: em novembro eu teria a oferecer 100 vagas para 1.000 concorrentes. Em março, 200 para 1300 concorrentes, aumentando suas chances de 10% para 15,38%.
Ao ouvir meus argumentos soltou um chiste, uma ironia nada fina, “então espere logo dez anos, aí terá mais vagas ainda”.
Ele queria o dele agora, em novembro...
Tudo agora, e pra já e ao mesmo tempo, sem abrir mão de nada, sem renunciar a nada.
Sem perder nada, nem que sejam três meses de espera.
Ele não tem tempo a esperar, outra característica da cultura dos tempos atuais.
Ele não tem nenhuma solidariedade com os 300 candidatos que estarão aptos a concorrerem nos próximos quatro meses, mesmo que objetivamente suas chances futuras aumentem em 50%.
Essa é uma cultura perversa que estamos criando.
Ninguém sabe perder nada com dignidade, com honra.

Narcisismo;

Individualidade;

egoísmo e

ganância; formam os quatro pilares de uma perversa estrutura social que estamos a construir, seja em qualquer dimensão da humanidade: social, ambiental, econômica, organizacional e política; e pasmem, em até algumas agremiações ditas espirituais.
Ensinemos nossos jovens a perderem com honra, altivez, dignidade ou estaremos criando uma sociedade que não saberá mais conviver consigo mesma.
Que não saberá mais perder um amor, e o perseguirá e o agredirá por isso.
Que não saberá mais perder uns minutos, enquanto o sinal abre, e sairá xingando o carro da frente.
Que não saberá mais perder tempo com o outro, “pois tempo é dinheiro”.
Uma sociedade de pseudo-vencedores, na qual todos, na verdade, são os verdadeiros perdedores.
Todo mundo se acha merecedor da fama, sucesso, posição, sem precisar ralar, se esforçar, lutar.
Como num jogo de vídeo-game, acham que podem superar as dificuldades da vida por atalhos, dicas e macetes, pulando as mais ásperas e duras de enfrentar.
Ou, quando a situação aperta para valer, deletando relacionamentos, coisificando pessoas e mercantilizando sentimentos.
Isso sem falar nos que se entopem de drogas lícitas ou ilícitas pelo simples fato de não terem sido ensinados a lidar com frustrações, perdas e angústias.
Aliás, nem chorar em velório se chora mais.
Agora ser forte é se dopar para aparentar uma fachada de calma, e dá sinal de “grandeza emocional” na hora da dor mais cruel.
Afinal, os choros e alaridos são tidos como sinais de fraqueza na sociedade do ter, prazer e poder.
Se não o cara não passa num processo seletivo culpa a prova, a banca entrevistadora, o tempo... nunca faz uma autocrítica, nunca desenvolve seu autoconhecimento e aprende com o fato.
Se a relação a dois está um caos, culpa o outro.
Se os filhos não o procuram mais, culpa os filhos.
Enquanto existir uma culpa para ser terceirizada ele assim o faz.
Transfere responsabilidades que são suas, para os outros, numa boa, sem revelar nenhum tipo de remorso, vergonha ou pudor.
No meu caso: eu sou o culpado do aluno ter perdido a disciplina.
Não aprendem com os sopapos que tomam da vida.
Aprender para que?
São eles os errados, os outros, o sistema, a empresa, o vizinho, eu não... eu já nasci merecendo todos os brilhos. Papai e mamãe me disseram isso.
Perversa escola da vida que só se preocupa em ensinar a ganhar a qualquer preço, utilizando-se de qualquer estratégia, ética ou não.
Outro dia vi uma jovem revoltada, pois comprou sua aprovação no vestibular de Medicina e ao ir se matricular percebeu que a “operadora” lhe tinha enganado.
Ela ligou para a operadora e exigiu seus direitos, reclamando da prestação de serviços que fora rompida.
Só faltou dizer que iria ao Procon.
É a ética da individualidade, para a qual, todas as regras sociais devem se curvar.
Se é o meu querer que está ameaçado que se danem os outros, as normas, os valores...
Eu, eu, eu...
Escravos do espelho, poderosos, ferozes em subir e em ganharem a qualquer custo que os rebentos dessa sociedade vão suscitar um esforço hercúleo das instituições para eles se adaptem, uma vez que foram criados para vencer, para tomar, para acumular e nunca dividir, cooperar, e até perder. Perdas necessárias.
Infelizes no amor. Imaturos como pais. Apáticos como cidadãos. Infelizes no trabalho. Sem amigos verdadeiros. Sem nenhum “se mancol” nos atos que vão fazendo em seu viver.
Vão criando seu próprio infinito particular no qual só eles mesmos sobreviverão.
Triste solidão de quem não aprendeu a perder, a sofrer e a chorar. Como bem disse o poetinha:
“Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair. Pra que somar se a gente pode dividir.
Eu francamente já não quero nem saber. De quem não vai porque tem medo de sofrer.”
Ensinemos nossos jovens a perderem com honra e dignidade, pois a vida não é feita de vitórias, e sim das batalhas por elas travadas.
A felicidade não é o ponto de chegada, é o caminho para lá!
Vencer ou perder são consequências, aliás, como diz uma outra canção:
“Nem sempre ganhando, nem sempre perdendo, mas aprendendo a jogar”.
Não caro jovem. Comigo não.
Se poderei ser pedagógico para você, negarei o provimento de tua ação.
Ainda mais numa pós de gestão de pessoas cujo princípio imaterial, e inegociável, deve ser a ética nos relacionamentos.
Não caro jovem, se for preciso serei eu quem sairá, mas comigo tu não chegará na janelinha sem fazer esforço.
Nessa vida, temos que ralar para não criar gorduras e pelancas, não as que uma boa academia, alimentação e disciplina tiram, mas as da alma!
Essas só os valores serão capazes de combatê-las!
Ensinemos nossos jovens a perderem com “catiguria”!
O futuro da humanidade agradecerá.

Luto


"Ricardim, a casa de sons vazios assusta.
Minha alma foi-se junto.
Tudo em mim é dor, culpa e sofrer.
Seu cheiro ainda sinto, até em meu ser.
Tudo em mim é dor, culpa e morte.
Reviram-me as entranhas. Esmaga meus ossos.
Sou objeto escárnio para mim mesmo.
Tudo perdeu a luz, as cores.
Definho e melhor seria que não existisse.
Os outros que ainda tenho?
Não consola. Não me venha com essa desgastada
proposta.
Não consigo mais vê-los, a dor cegou-me de mim mesmo e
De tudo que antes fazia sentido.
Que se danem os meus pensamentos de ajuda.
Já tenho meu próprio ser me acusando, e ele não escuta outros sons.
Não me venha com piedosas intenções, conselhos, considerações.
Tudo em mim morreu." Sr. Pedro 


Não virei a ti com piedosas intenções. Não trarei conselhos do além, do mistério, do divino.
Não farei considerações, darei exemplos, lerei fórmulas de luto-ajuda.
Apenas ficarei ao teu lado nessa noite escura e vazia de sentido.
Não te direi que não é culpado. Não acreditarias.
Não te direi que passa. Não acredite.
Não te direi que outros também viveram essa dor. Não me venha com essa.
Apenas ficarei ao teu lado nessa noite de dor.
Teu ser desfalece, grita, qual moribundo em vida peregrina tu caminha entre soluços e
saudades.
Tudo é tão difícil. Viver é um peso.
Eles não te compreendem.
Querem-te reagindo, dando a volta por cima.
Perdoa-lhes, eles não sabem o que te pedem.
Sei da tua dor.
Acolho-a em meu peito.
Choro contigo. Sem te dizer uma palavra de conforto sequer.
Não há palavra que conforte.
Escuto quem partiu nessa noite.
Ouço vozes. Vejo luzes.
Quero ficar ao teu lado e falar dele.
Falar o que ele me diz nessa noite de tormenta.
Faço contato.
Abraço-lhe!
Ele está em paz.
E sofre por ti.
Vê teu desespero. Sente contigo.
Ele espera por ti.
E, enquanto isso, pede que lhe honre.
Sobrevivendo mais um dia, um de cada vez.
Para, em seu nome, ajudar a outros que em vida estão mortos.
Num sopro do Criador ele te anima nessa noite.
Ele te afaga, te nina, te perdoa.
Ele deita em teu ser para te resgatar das profundezas do inferno onde se meteu.
Chora amigo.
Chora.
Poderia ter sido comigo, com qualquer um.
Quando ela chega, ansiosa por ceifar, não respeita dogmas, razões, crenças...
Do mais absurdo se faz morada, se nutre, e apronta.
“Oh morte, onde estás oh morte!
Qual a sua vitória?”
Não te trago piedosas intenções.
Trago um estar ao teu lado, calado, respeitoso, amoroso.
Trago-lhe um pouco de água, de esperança, de sementes.
Há sementes em teu ser, ainda.
Há sementes que anseiam por ti, na dureza do terreno em que se tornou, e que esperam
serem lançadas ainda.
Nunca mais serás o mesmo.
A lacuna, o vácuo que a presença da ausência te causou será eterno.
Não banque o forte.
Dói.
Não se apresse em querer compreender.
Não busque razões, justificativas, ou um destino caridoso.
Não há consolo na morte, na perda.
Não há!
Só posso te oferecer minha compaixão, e minha fé cambaleante.
Queria que ela fosse mais forte. Mas é a que tenho e que te posso dar.
Faço contato com o além.
E, de lá, escuto início...
Não há fim.
Há ciclos.
Perdoa as pessoas que te querem ajudar e não sabem como.
Não se perdoe ainda.
Perdão pede seu tempo certo.
Ainda não é o tempo do perdão.
É o da culpa, sofrimento e confusão.
Conviver consigo será um dilema diário. Com o espelho, com as recordações, e até com olhares de bichos em forma de homens que teimam em achar que os outros são merecedores de julgamentos.
Você já se deu o veredito.
O que fazer com ele, daqui em diante, é o que fará a diferença e honrará teu amado que partiu.
Se queres uma única razão para continuar vivendo, e não desistir, que seja por ele.
Ouço vozes que te diriam isso.
E se fosse tu no lugar dele, o que faria do alto?
O que diria a ele, que agora ficou sem ti?
Diria para ele morrer junto?
Ouço vozes que dizem: não!
Quem ama quer que o outro renasça, sobreviva.
Em você, em cada dia que consegue abrir e fechar em sua história, ele continuará existindo.
Ninguém que ama parte.
Fica em tudo. Fica impregnado em nosso ser.
Que posso te dizer?
Que posso fazer para diminuir teu prostrar?
Nada.
No caos do amor que parte não há nada a ser dito que conforte o amor que fica.
Nada.
Apenas, viva por ele. Honre seu nome e tudo que de bom viveram.
Assim o fará feliz.
Não queria apagar suas lembranças. Não atenda aos precipitados conselheiros de plantão que mandarão você fechar o quarto do amado. Esconder suas lembranças.
Não faça isso. Chore.
Choremos.
A dor é tua e de mais ninguém. Só você encontrará formas de conviver com ela.
Faço contato com a dor.
Ela pede misericórdia.
Ela pede empatia.
Ela pede resignação, silêncios de seres que se partem.
Almas partidas.
Durante muito tempo você vai se arrastar pela vida.
Digo-lhe, arraste-se!
Metro a metro, dia a dia, lágrima a lágrima.
Dias serão melhores, outros piores.
Recaídas serão comuns.
Datas e festas comemorativas terão gosto ácido, purgante.
É um cálice que precisará beber.
Na minha fé cambaleante, lembro um abraço que Jesus deu em seu amigo Lázaro,
Que após três dias de morto Ele o ressuscitou.
Abraçou, chorou e deixou que a mãe vida completasse a missão, libertando-o para a outra dimensão do ser. E Lázaro “morreu” novamente.
Liberte seu amado para outra dimensão.
Não o faça sofrer, vendo-lhe morto em vida.
Resista à vontade de querer partir junto.
Nos caminhos da vida ainda não é tua hora.
Quando for, ela chega, e aí você compreenderá melhor o que lhe aconteceu, no melhor dos encontros que terá.
Por hora, não te trago piedosas intenções.
Só meu ser ao teu lado, caminhando por essa noite fria, e chorando contigo mil lágrimas de solidão, remorso e dor.
Lágrimas que germinarão novas sementes de motivação e esperança que teimarão em nascer, apesar de toda aridez do terreno de seu ser, numa manhã orvalhada qualquer – fecundando em tua vida novamente com sons, cores, aromas e amores que já não faziam mais sentido.
Na dor, no luto, no sofrer, na culpa, no remorso, na tristeza e dificuldade de viver, ali encontra-se um Deus de amor que espera por séculos a fio uma chance de poder dividir conosco o jugo do nosso viver. Basta que entreguemos nossa dor a Ele. Vai diminuir? Não. Apenas será dividida com quem sofreu muito por nós, Homem das dores que é, e dor dividida é dor diluída.
Essa foi a minha piedosa intenção! Não resisti...

Um traço de luz

Um traço de luz invade um quarto misterioso,
e em penumbra.
Sons palpitam de seu interior,
E evocam banho.
Coração estremece.
Lentamente, uma sombra caminha.
Tufo de cores negras.
Saltam frente à vista estupefata.
Um veio de cor branca aparece,
em rebolados de carne tenra.
Canal leitoso, como riacho sequioso após chuvarada, se projeta num
monte onírico.
Com a vinda do eterno, tudo se faz êxtase.
Convida ao se lançar.
Convida ao descobrir.
Ao aninhar.
Um aroma canaliza sensações.
Tudo vai se fazendo em luz.
Em beleza.
Fantasia e sedução.
Olhares envergonhados, mas decididos.
Corpos se juntam.
Um frenesi, calafrios...
Calores agora em um único.
Uma luz invade as trevas da razão.
Num abraço desafiador de tudo quanto é lógico.
Um roçar de línguas, um amasso de corpos,
um toque, um carinho

Cenas que agora, por dois que são, se completam.
O futuro... que futuro?
O futuro é um agora de desejos realizados, de fantasias alcançadas.
A luz entreabre as frestas do coração.
A luz entreabre as frestas do coração.
Não há mais medo, saudade, melancolia.
Há um abraço que não desgruda.
Há o riso frouxo, de amores desnudos e puros.
Libertos.
Há vontade de encantar, de cuidar e de admirar.
Histórias repetidas a mil.
Mil vezes executadas.
Mil vezes admiradas.
Fichas se alternam.
Na fala aos borbotões.
De seres que se eternizam.
No afago.
No enlace de corações.
A luz invade os cubículos míticos de Eros.
Transcende a razão.
Eleva emoções.
Subima dificuldades.
Libera o fluxo da vida.
Um tufo de pelos negros.
Convida ao desconhecido.
Ao eterno.
Ao encontro.
Ao diálogo.
Do côncavo e convexo, na badalada canção romântica.
Mais que exercício de atletas.
Mais que um rito programado.
Ali não há roteiros.
Scripts.
Não há procedimentos padrão.
Há entrega.
Há caminhos.
Lentamente, seres fingem dormirem abraçados.
Seres se olham.
Se imaginam.
Agora sós.
Se tocam, com toques de fixação.
Se deleitam. Se degustam.
Num último adeus enganam Cronos.
Quando nos veremos?
Quando?
Numa noite feridos,
com vidas partidas,
encontram-se e alteram os rumos dos
vividos, nos destinos de seu ser.
Agora tudo será mudança!

Sejamos apoio e abrigo ao outro

Chegando ao trabalho, procurei uma vaga para estacionar.
Entre tantas ocupadas, uma revelava-se vazia.
Estranhei. “Quando a oferta é grande”...
Era uma boa vaga. Sombreada.
Por que será que estava vazia?
Ao aprumar o carro nela, observei que a árvore que sombreava a vaga era segura por uma espécie de viga de madeira.
Ah! agora entendi o porquê da vaga vazia.
Era medo. E o medo imobiliza.
As pessoas têm medo de que a estaca venha a tombar e possa amassar o carro.
Não tenho mais medos pequenos.
Fitei aquela estaca e árvore por alguns minutos.
Orei com elas, e tudo que me evocaram naquela fria manhã.
Então, a partir daquele dia, sempre que adentrava o estacionamento ia procurá-la e fazê-la um pouco de companhia.
Aquela passara a ser a minha vaga predileta.
Tenho predileção pelos desprezados.
Fiquei imaginando a amorosidade do jardineiro, zelador, vigilante, funcionário, o que seja que construiu aquele suporte.
Deve ser uma pessoa linda. Uma luz na escuridão.
Ele, ou ela, percebeu que a arvorezinha precisava de ajuda.
Seu tronco não conseguia segurá-la sozinho.
Alguém que na apressada rotina de um Complexo de Tecnologia da Informação, o maior da América Latina, deteve-se para ajudar, ousou parar o ciclo acelerado do viver, e ao contemplá-la em suas necessidades, do limite fez poesia e aconteceu.
A árvore deve ter chorado de emoção. Não imaginava que alguém a veria e cuidaria dela.
Mais fácil seria podá-la, ou até mesmo cortá-la, numa sandice comum pelos nossos tempos. Até por não ser árvore nativa do Cerrado, um pouco mais “preservada” da ação humana.
Tento evocar a cena de seu cuidador indo numa marcenaria.
Ou aproveitando restos de madeira e numa oficina improvisada construindo seu suporte.
Quanta gentileza.
Você percebeu que ele construiu uma espécie de encaixe nas duas extremidades?
Por que será que fez nas duas?
Ele queria que a sua “deficiência” fosse delicadamente e harmoniosamente distribuída – em ambas extremidades, para não chamar a atenção de quem passava.
Percebem a estética do belo? Do bonito e da bondade?
Ao  fazer os dentes (encaixes), em ambas as partes, ele tirou a concentração do olhar naquilo que a limita.
Expandiu a percepção de nossos sentidos para o todo, para além do que diminui.
Da incapacidade fez-se a arte.
Sua amorosidade em ajudá-la foi tão grande que ele não a prendeu no suporte.
Percebem?
Ele fez o encaixe de tal forma que ela sobre ele apoie.
Tal qual um deitar no colo, solto para quem o procura e o acolhe.
Não há pregos, arames, cordas sufocando-a para que mantenham-se apoiada.
Ou limitando o crescer e autonomia de seu tronco, em vir a ser.
Um suporte que liberta. Que não causa dependência.
Que respeita e valoriza o crescer, tenro e dificultoso, da árvore debilitada.
Essa árvore é uma metáfora à amizade.
Foi isso que em prece ela me falou.
Quantos de nós precisa de uma pessoa amorosa dessas em suas vidas?
Ou, quantos de nós já fomos para o outro esse apoio?
Esse sustentáculo em momentos difíceis pelo que passaram.
Pessoas que nos apoiaram, às vezes com uma simples palavra, um gesto de gratidão, um reconhecimento desinteressado.
Algo que nos revelou que somos amados.
Pelas manhãs, sempre ao tomar o café para o trabalho, pergunto à Neta – jovem que trabalha em nosso lar e mora conosco, como foi sua noite de estudos na faculdade enfermagem que cursa.
Precisa ver o quanto ela sente-se importante e notada, em sua pequenez perante os olhos do mundo.
Aí ela deita a falar das aulas, das provas, e toda orgulhosa me diz que não ficou em nenhuma Dependência.
Pergunto o que é Dependência.
Ela me fala que é quando o aluno não consegue a média mínima para a aprovação e que terá que cursar a disciplina no próximo semestre.
Ah, digo eu, no meu tempo chamávamos de reprovação.
Dependência é mais chique, brinco eu.
Todos os dias ela aguarda minhas perguntas sobre seu curso.
Talvez aquelas perguntas sejam o que a faz esforçar-se para ter alguém com quem vibrar, celebrar, ou até dividir suas angústias como a quem tem em conseguir o FIES.
Corta a cena, eis que posto uma foto de uma radiola retrô que comprei.
Aliás, todas as radiolas são retrôs... rsrs
Uma pessoa amiga comenta que mandará uns discos pra mim, que foram de seus pais.
Emociono-me.
Outra, posta que se encontrará comigo na Diretoria de Tecnologia, para me presentear com  um disco de Maria Bethania de sua coleção.
Pergunto o porquê?
“Alegro-me em presentear amigos”. Simples assim.
Outra me diz que irá com uma amiga ver apartamentos nessa manhã. 
Abrirá mão dos sábados tão curtos para tantas pendências pessoais para ajudar uma amiga.
Pessoas do bem. Nem tudo está perdido na sociedade do preço.
Outra, ao término de um debate ácido no auditório, percebendo-me abatido, aproxima-se e ao me cumprimentar, abraça-me fortemente. Num abraço de irmãos de uma mesma tribo.
São pequenos gestos do tipo:  “Estacas que Suportam Árvores Frágeis”.
Não temos ideia da força que nossa genuína preocupação com o outro possa lhe causar.
Não temos ideia de quantos estão cansados, desesperançados e que uma simples palavra, bom dia, abraço, doação de afeto gratuito poderá ser a diferença naquele dia.
Poderá ser a alavanca para a superação que estava precisando.
Tomando o cafezinho nesse sábado, Neta solta uma sem eu perguntar:
“Seu Ricardo, passei em todas, estou de férias”.
Finjo um cisco nos olhos, engasgo, e venho digitar essa crônica noutra área.
Foi muita emoção ouvir isso dela sem que eu perguntasse.
Eu sou uma pequena estaquinha que está apoiando o crescer da Neta.
Não faço nada que me exija mais do que possa fazer.
Quantos de nós pode ser essa estaquinha para o outro!
E não precisa grandes recursos, dispêndio de tempo.
Mirem nessa estaca a foto. 
Rústica, de resto de madeira, mas que cumpre seu papel com maestria.
Precisa de muitos recursos não.
Para apoiar, para incentivar e estimular o outro a crescer, a desenvolver, a superar seus limites focando noutras áreas do ser, só precisa de nós mesmos – de nosso ser.
E em cada encontro podemos ser mais que uma soma zero, tornar o outro melhor ao passar em nossa vida. Ajudá-lo a expandir sua percepção de si mesmo, alavancando sua frágil auto estima.
É uma palavra, um telefonema, um olhar, um toque.
Algo que reconheça no outro sua presença em nosso viver.
Não há fórmulas para apoiar.
É um estado da arte.
Exige artesãos de pessoas.
E, cada um deles, no artesanato de seu viver, encontrará 
suas próprias maneiras de levantar os caídos, 
alimentar – com palavras de esperança, os cansados da saga e sina da vida e do viver.
E a arte é a feiticeira da vida.
Nos faz sobreviver.
Na individualidade,  dos tempos atuais ditos pós—modernos, a gratidão e generosidade perderam espaço para a indiferença e egoismo.
Cada um no seu feudo existencial, que por mais tecnologia de comunicação que acesse, mais involui em humanização e amorosidade para com os que lhes rodeiam.
Quanta gente do tipo árvore-de-tronco-caído precisando de suportes para sobreviver.
De apoio.
Gente que precisa de mim e  de você para que não desista de suas vidas.
De um mimo, de um eu te amo, de um:  que bom que você existe.
De um: “como foi sua aula ontem?”.
Gente precisando cruzar seu destino com jardineiros de amor,  que nelas enxegam para além do tronco defeituoso, enxergam potenciais que ainda poderão vir-a-ser.
Coisas que nem eles mais acreditam que são possíveis de virem a acontecer.

Mas esses apoios, ajudas fraternas, incentivos não poderão virar mordaças.
Cairíamos no erro oposto. O de negar ao outro sua própria saga. Super protegendo-o e o incapacitando, no mais cruel dos preconceitos, a por si próprio tentar.
Assim podemos ser suportes passageiros, que não aprisiona o outro em nossa fantasia de dmominação e controle.
Libertando-o quando tiver pronto, da ajuda e dependência agora fornecida, para que crescça pelos seus próprios caminhos, respeitando a autonomia e não gerando co-dependências de qualquer espécie.
Tal a estaca fará com a árvore, no dia em que não for mais necessária.
Não veja no outro o que ele não é.
Não procure as lantejoulas ou strass que caíram de sua veste existencial, nos embates que teve com na jornada do  viver. Procure os que restaram.
Procuremos rejuvenescer e fortalecer as pessoas.
Mas, como estamos distantes disso tudo.
Agora tudo é precificado. Tudo tem custo e até a ajuda é assim contabilizada.
Aguar o jardim do vizinho que saiu de férias, ou alimentar seus animais, pelo simples prazer de assim fazê-lo, sem cobrar nada em troca, passa a ser uma utopia de desapego e amor, cada vez mais distante no pós-moderno do consumo e mercantilização de todas as coisas, inclusive o afeto e atenção para com o outro.
O prazer de servir torna-se nos tempos atuais peso. Ou interesse.
Lembro de uma palestra da Helena Maria, da Nova Acropóle, na qual ela dizia que para ensinar às crianças o doar-se eles fazem uma técnica de servir um suco aos menores.
Os próprios menores vão servindo até que acaba o suco da jarra.
Propositadamente de quantidade inferior à quantidade de menores.
Aí eles refletem sobre acúmulo, partilha, generosidade.
Voltam seus sucos para a jarra, e o redistribuem pelos copos de modo  que para todos haja um pouco.
Belo e significativo. Educar para a cooperação, quanta utopia nos dias de acirradas competições em todos os aspectos da vida.
Eles aprendem o prazer de dividir, de se sentirem numa comunidade. De que não estão sós, e que o egoismo e individualismo pode ser superado pelo diálogo e doação gratuita.
Não há perdedores, nem vencedores no jogo do viver para a coletividade.
Ah!, como precisamos dessas estacas que nos suportam, apoiam , elevam, que massageiam nossa auto estima e quando todos dizem, e até nos mesmos, que não conseguiremos, que não podemos, que não nos levantaremos da queda, elas - pessoas estacas que são, nos dizem: 
" Calma, é só uma fase. Isso também passa. Em breve seu tronco vai estar mais fortalecido, e você conseguirá. É um luto que vive. Dói mesmo... Apoie-se em mim enquanto sofre."
O celular toca. É meu filho Rodrigo.
Pede um conselho.
Hoje é a festa de confraternização do escritório de advogacia no qual trabalha.
Eles se cotizaram, contrataram um churrasco que começara ao meio dia, na casa do seu chefe.
Pesaroso, me diz que ontem a filha do chefe sofreu um acidente e está na UTI.
Ele defende que não haja mais festa.
Eu digo, lógico!
Ele, constrangido pela natureza humana de seus colegas, diz que um grupo pensa diferente.
Alega o grupo que já pagaram os serviços e que trocando o lugar "acaba o problema".
SIC!  E a dor do colega com a filha doente?
E a solidariedade? E a empatia?
Ele me diz pesaroso, "que os tempos são outros", e que vai tentar argumentar com o grupo.
Diz-me que não irá. 
Digo-lhe que a própria consulta do tema, pelo grupo envolvido, é esdruxula.
E que sinto muito!
Percebem a Sociedade que estamos construindo, com algumas exceções aqui e acolá?
Entre ser estaca e apoio ao colega que sofre, e gozar a própria vida qual a escolha mais humana?
E se fosse conosco? Qual comportamento esperaríamos de nossos colegas? 
Precisamos juntas as vozes e pessoas de bem, em correntes virtuosas, para educar para um outro jeito de ser, um outro mundo possível. 

Voltando para minha estaca, o que essa pessoa está precisando nesse momento é de ajuda. É de compaixão. De um gesto altivo de renúncia ao material e de apoio ao emocional.
Que sociedade estamos criando?
Tudo vai revestindo de relação de utilidade, de usura.
Como essa manhã de sábado me falou!
Como essa viga de madeira e vaga de estacionamento me falou.
Lembro de tanta gente que foi suporte para meu viver.
Pessoas que sem elas a árvore de meu ser não teria crescido.
Teria ficado exposta às intempéries ou rastejando pelo viver.
Ou, mais cedo ou mais tarde, alguém a tiraria do estacionamento da vida por não ter serventia.
Como infelizmente às vezes fazemos com quem nos serve e ajuda, e depois os esquecemos num canto qualquer. Não voltando nem para um sútil obrigado.
Sejamos vigas de madeira, escora, suporte, gratidão, generosidade.
Não nos embruteçamos!
Pense bem em quem hoje precisa de um incentivo seu, uma palavra, um mimo.
Olha na tua estante o que sobra, o que não usa mais...
Quem sabe não seria hora de alegrar alguém com uma doação generosa.
Pare e também olhe na estante maior, a de seu coração, o que ali existe de bom e que pode ser compartilhado. 
Tem muita gente que precisa de você. Mesmo que nem elas, nem você, saibam o quanto.
Tire dessa estante interior a bondade, mansidão, justiça, carinho, atenção, respeito e esperança e a doe a todos que em ti procurarem morada, apoio, refrigério.
A vida agradecerá!



A flor do amor



Uma flor do amor a mão insegura acaricia.
Tateia.
Entreabre caminhos.
Acarinha a relva úmida, macia e cheirosa.
Línguas se dão...
Vida que geme,
contorce-se.
Terra que se abre em mistérios,
gravida de nós,
Nó de entrelaço de alma,
Daquele que amarra a rede dolente, que
ao ranger chora, sorri e suplica:
fica.

Meu Sentir

Meu sentir não se conjuga com rimar.
Rima rica, pobre rima.
Letras encadeadas, em cadeias desprezíveis.
Buscando num canto qualquer,
a dor, a tormenta, a esperança, a fé
o romance e o medo.
Meu sentir não combina com rimar.
Meu sentir se engasga, eleva-se, enlaça-se,
e embriaga-se com o que se faz novo, sem ser novamente.
Meu sentir. Ah! meu sentir.
Meu sentir é torto, confuso, estapafúrdio,
eloquente e intenso...
Meu sentir não combina com a rima feita, sonora, bonita.
Com a métrica, matematicamente prevista, de letrinhas em carrossel de fonemas emaranhados.
Com palavras metodicamente formadas por sílabas
sem sabor: soltas, dispersas e de vazios míope.
Meu sentir errante e velejante é, às vezes, cambaleante de tanto insistir.
Meu sentir não combina com rimar.
Meu sentir é galo na madrugada.
É chuva em sonora orquestração.
É riso de criança.
Afago de mãe.
É ilusão, fantasia, abraço de desconhecido.
É sonho acordado, é o acordar dos sonhos.
Meu sentir não combina com rimar.
Com certezas. Velha certezas.
Com verdades e dogmas, ausentes de qualquer suspiro de dúvidas e tateações.
Meu sentir é arredio a tudo que o prende ou define.
Meu sentir é vela; é vento: "leve-me longe daqui".
Meu sentir é paz de um amanhecer.
É a malemolência de um entardecer.
É o ranger de uma rede dolente.
É o choro de um bebê saciado, querendo colo de mãe.
É a panela chiando na cozinha, uma vaga mugindo no terreiro.
Meu sentir não cabe no rimar.
Meu sentir respira, sorve, chora.
Meu sentir olha a vida como quem fita o novo, o belo, o encanto, o assombro...
Olha a vida para quem não haverá o daqui a pouco: triste sina de quem não guarda lembranças.
Assim, olha a vida com olhar de namorados que se despedem em ritos de amor.
Meu sentir é chão, é ar, é fogo.
É terra molhada, grávida de sementes benfazejas.
É perfume de mulher em noite do amado.
Meu sentir é curvilíneo.
Traiçoeiro.
Qual colcha de retalhos, trançada com
restos de eus, jogados ao leu.
Que em cada um carrega em si sua própria história.
Esse é o meu sentir. O resto é o rimar.
Rimas pobres. Rimas ricas.
Adjetivadas. Substantivadas.Calculadas.
Meu sentir é aracati suave. Vento que chega do mar para aliviar os corações atormentados pelo calor da saudade.
É aroma de açucena, floreados das juremas que esperanceiam o inverno desejoso.
É melodia ao longe sentida.
Meu sentir é um abraço de uma espera.
É o descompasso de um sentido.
É o norte das estrelas.
Meu sentir é limpar dos olhos da retina, com o orvalho da manhãs amorosas.
Meu sentir enfeitiça o sofrer, na peleja da vida dura.
Meu sentir não cabe em si.
Às vezes me assusta, embrutece-me, enrijece-me, entranha-me.
Dias depois surpreende-me, alegra-me.
Faceiro, brinca em minha alma, tal crianças em parquinhos.
Apruma, despruma.
Debulha letrinhas de sentimentos.
Refoga emoções num caldeirão imaginários de pessoas especiais.
Meu sentir não se pertence. Estranhamente deslocado.
Num mundo agoniado.
Meu sentir, tem vontade de partir.
Pra bem longe daqui.
Meu sentir agora rimado.
A ele destinado, o melhor do que morrer.
Meu sentir avança.
Alcança.
Vagueia.
Meu sentir agora é rimado.
Rima numa noite de delicadeza
Pra acalmar o teu coração.
Meu sentir te diz: vem amiga, vem irmão: contemplemos a singeleza, belezura, boniteza e inteireza dos que amam a imensidão.
Meu sentir é verbo...
Eu sinto, tu sentes, ele sente...
E, por sentirmos, cantamos nossa existência
em fonemas empareados, oitavas de claves musicais,
partituras de sonoras notas emocionais,
que compõe a mais profunda das melodias,
regida pelo maestro do infinito que é, toca o coração de quem por ela se deixa
conduzindo-a numa dança terna pelo palco da vida e do viver.

Medos

Chove lágrimas em meu ser;
homem das dores que sou,
deixo entreabertas decisões.
com medo de enfrentá-las.
Carrego penas, culpas e sandices.
Tento harmonizar disparidades e conciliar necessidades
- estrepo-me e sofro.
Os dias pedem eu.
E meus medos de nunca pensar nele pedem tu.
Aonde me perdi de meus propósitos mais corajosos?
Em que parte de meu viver virei personagem de enredos por outros tramados?
Por que tudo complico,
dramatizo e abate-me?
Qual criança ferida,
vivo em função dos outros.
Migalhas de afeto.
Súplicas de atenção.
Pedaços de pessoas vou espalhando por aí.
Homem das dores é chegada a tua hora de levantar
e viver pelos teus próprios sonhos. Sofra e caminhe...outros te seguirão.
Otimistas são peregrinos de si mesmos. Não ficam à margem da vida,
nem nas arquibancadas do jogo do viver.
Vão à luta e fazem acontecer novos tempos e possibilidades.

" Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o vôo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram. " Rubem Alves

Aos doídos de amor

Hoje uma amiga pediu um help. Ela ama e não é correspondida. Sofre. Eu disse-lhe que quando ela menos esperar alguém a tocará novamente, com o toque de Midas, aquele que transforma todas as coisas em ouro.
Resolvi contar-lhe uma história de amor, para acalmá-la, uma história de quase 20 anos atrás. Uma história de quando eu achava que nunca mais amaria alguém.
A história começa no saguão da faculdade de psicologia. Todos os dias admirava uma jovem que nele adentrava, com um ar blassé de "não estou nem aí"...
Um belo dia, no início de uma nova disciplina, não é que ela fazia parte da turma.
Frio na barriga, sensação de adolescente. Timidez em abordá-la.
No coração a dor pelos últimos acontecimentos que precipitariam a tomada de decisão para o rompimento de um casamento de dez anos, e três filhos.
Tudo era dúvida, confusão. Tristeza.
Ninguém sai ileso de uma relação a dois de longo tempo. Simples assim.
Não há vencidos, nem vencedores.
As aulas de psicologia social, e admirar a jovem que me chamava atenção, quase escondido, sutilmente, era um bálsamo diante dos aperreios que se avizinhavam no futuro bem próximo.
E a saudade dos filhos que me lancinava.
Chamar atenção era algo novo para mim, uma vez que nos dez anos de casado ninguém houvera chamado minha atenção - afetivamente falando.
Fui fiel e nunca senti falta em sê-lo. Era ferrolho.
Nas aulas, entre uma intervenção e outra, aluno CDF que era, fixava o olhar no fundão, para a jovem linda, e com o ar de: "ai que tédio isso aqui..'
Ela tinha um jeitão de hippie. Lápis na boca e na outa escrevia algo numa prancheta. Depois fiquei sabendo que ela desenhava a Rebordosa.
Era totalmente diferente de mim.
Mas, quando a via ficava feliz.
Enquanto ela não chegava na aula não descansava o coração.
Uma fixação platônica.
Tímido que era tracei uma estratégia de aproximação inserindo-a num grupo de tabalho que tive a missão de formar em sala de aula, sendo fustigado por minhas amigas que sentiram-se invadidas no grupo por aquela "estranha".
No dia da apresentação do Seminário, houve uma coisa muito chata. Um cheque emitido por minha ex-mulher não tinha provisão de fundos para ser coberto. Nossa conta era conjunta. Funcionários de Bancos não podem ter cheques devolvidos.
Fiquei louco, liguei para casa e confirmei que o cheque era bom mesmo, tratavam-se de débitos acumulados numa caderneta de supermercado, por um ano.
Aí peguei meu Chevette novinho e vendi ao primeiro que botou o preço que precisava, uns 30% abaixo do mercado, mas era dinheiro vivo e não tinha tempo para resolver com mais tranquilidade.
Depositei o dinheiro na conta. Desci ao posto médico da Cassi no BB, falei com a médica, ainda hoje muito minha amiga, "quero que saiba que não tem mais retorno... depois desse débito acabou o asamento definitivamente".
Saí do BB louco. Um amigo-irmão fechou me caixa, não conseguia, só chorava.
Não pelo Chevette novinho que vendera, mas pela situação que aquilo trouxera à tona.
A apresentação do Seminário seria à noite. Não tinha condições emocionais. Liguei para a professora e ela consentiu em faz~e-la para semana seguinte, dispensando o pessoal da aula que daríamos naquela noite.
Saí avisando a todas.
Menos à hippie que não tinha telefone e que só tinha o endereço, pedido numa remota intencionalidade de um dia o grupo reunir-se no seu apartamento.
Então, chorando minhas mil lágrimas segui até lá para dizer que não haveria aula.
Toquei a sineta e ela abriu a porta do apartamento e estava chorando. Eu chorando, ela chorando.
Aí disse-lhe de que tu chora, conta tu que conto eu.
Na sua radiola tocava Xangai, o disco Que que tu Tem Canário". Sabia de cor todas as músicas daquele disco, pois Xangai tocava muito em cidades perto de onde tomei posse na Bahia, e era meu cantor preferido daqueles tempos, ele e Elomar.
Achei uma puta coincidência morar na minha cidade lguém que também gostasse de Xangai.
Ela chorava pelo aniversário de morte de um parente muito querido. Eu chorava pela entrega de meu único patrimônio, à época.
Ficamos amigos das dores. Amigos de humores. De redes e pores do sol. De cerveja e MPB, de poesia e Rebordosas em grafismos.
Ela ensinou-me a ver o simples, as flores, as borboletas.
Ela ensinou-me que o rock é boa música.
Ela ensinou-me a novamente gostar de mim e me amar.
Quando ela me capacitou ao amor, sarou minhas feridas.
Outro dia escrevi uma crônica chamada a Matrix Nossa de Cada Dia e retrato uma ida nossa à Natal. Ela chamava-se Adriani.
Muita coisa aconteceu em 1995 e nossos caminhos não estavam traçados para ficarmos juntos. Eu tinha medo da reação de minha família - tão normal, a uma jovem um tanto "estranha" - para os padrões culturais e religiosos de meu povo, e que amava Led Zepelin, cerveja e tomar banho de chuva.
Foi covarde e frouxo. Mas, que eu seria internado numa clínica de malucos...
ahh seria. E a força!

Aí conheci Cristina., num Congresso no RJ, e enlouqueci de um amor arrebatador por ela.
Já estava capacitado para amar novamente. Adriani me ensinou, fez no meu coração renascer um jardim, apto a receber novas sementes de amor. Resgatou-me para a vida.
Adriani, conheceu Marcílio e seguiu sua jornada, tendo logo em seguida um filho com ele.
Nos separamos e ficamos eternamente amigos um do outro.
Fomos um para outro bálsamos.
Assim, minha amiga, nessa noite triste, quando você menos esperar estará admirando novamente alguém, encantando-se por alguém, aplainando as feridas de teu coração e preparando-se para gostar novamente.
Você está sofrendo a dor de não ser amada, o luto. a dor de saber como lidar com esse amor não correspondido - que te fere só de pensar que não é teu. Te digo: isso também passa. Um dia você cantará a canção abaixo novamente:
-------------------------------------------------
Não Tem Solução
Nana Caymmi
Aconteceu um novo amor
Que não podia acontecer
Não era hora de amar
Agora o que vou fazer
Não tem solução
Esse novo amor
Um amor a mais
Me tirou a paz
Eu que esperava nunca mais amar
Não sei o que faço
Com esse amor demais"

Bênção ou Maldição

Aos sete anos foi diagnosticado que minha caixa torácica crescia mais do lado esquerdo do coração.
Susto.
Um monte de exames.
O que fazer com aquilo?
Que resposta dar à vida?
Bênção ou maldição?
A resposta foi praticar natação para expandir o outro lado e fortalecer os ossos.
Em várias competições de natação fui campeão do estilo Peito.
Minha primeira viagem de avião foi competindo pelo SESI de Campina Grande-PB,
foi indo de Recife à Fortaleza - em 1974, com dez anos.
A natação me proporcionou um emprego extra,
no meu início de carreira no BB,
lecionando na AABB Poções-BA.
Ajudou-me a sobreviver.
Aquele bico foi muito importante, pagava parte do aluguel.
Além disso, o fato de ter treinado dos 7 aos 17 fortaleceu meu músculo cardíaco,
o que acabou sendo fundamental numa crise de fibrilação atrial que tive em 2010.
O que fazer com o que te faz infeliz?
Impulso para superação, ou lastro para prostração?
Mesmo a maior ruptura de de que teu ser tenha sido vítima,
ainda assim é possível soldá-la.
Ficam as cicatrizes, mas são as medalhas de quem escolheu 

os contornos,

os atalhos e os retornos,
ante as dificuldades da vida.
Bênção ou maldição? Você decide! A maldição já tá dada diante das merdas da vida.
O que fazer com isso para sobreviver e crescer é quem fará a diferença.
Quando uma porta se fecha, outra também, e outra e outra...
Não procure pela que se abriu.
Só continue esperançando a vida e procurando possibilidades no caos que agora se estabelece.
Será que só seremos felizes com portas abertas?
Pense nisso.

Ela chega sem pedir licença!

Você quase morreu?
Eu quase morri por 6 vezes em 2011.
Cinco anestesias gerais, em tempos diferentes, para salvar o coração.
E um choque por perda de sangue na jugular, que jorrava de um curativo aberto, numa madrugada estranha de uma UTI soporífera.
Eu quase morri!
Sei o que é o calor indo embora do corpo. Sei o que é despedir de tudo. Sem forças. Nem de gritar. Nem de gemer.
Aviso: Não há luz.
Há culpas.
Remorsos.
Há cenas que saltam de felicidade, de paz.
Há desejos reprimidos.
Há fantasias que cobram a conta de não realizadas.
Há vitórias que amenizam o frio.
Há queridos e queridas que se despedem.
Portanto, deixe de juntar teias de aranhas no seu coração.
Juntar mágoas, tal moedas em cofrinhos.
Ela chega rápido e não dá tempo.
Viva e ame intensamente! E, sobretudo, deixe de ser besta e perdoe!

Os Sons da Visão


Na recepção do Centro Cirúrgico Oftalmológico, pessoas silenciosas.
Uma pergunta-me: é sua primeira vez?
Afirmei positivamente.
Disse-lhe que já houvera feito intervenções cardíacas importantes, e que nunca estivera tão temeroso. Afinal, iam mexer em meus olhos.
A vista cansada atrapalhava-me de ver perto, de ver o monitor, as letras da Bíblia ou de uma bula, remédios para alma e corpo.
No recinto todos que atendiam seguiam com procedimentos padrões. Para eles, dever ser uma rotina diária.
Ligam o modo automático e trabalham, como se para seus clientes aquela intervenção cirúrgica nos olhos também fosse rotina.
Chega a minha vez. Despeço-me de meus óculos, agradecido, pelo que me ajudaram.
Coração disparado. Deito no leito cirúrgico e sinto que agora não tem retorno. Luzes verdes, vermelhas, brancas, de todos os tipos são lançadas sobre minha córnea.
Entre uma e outra, jatos de colírio a inundam. Afogada a visão aguarda - tal qual o para-brisa do carro, o seu amado limpador – que em pálpebras se debatem querendo ajudá-las. Contudo, presas que estão desistem.
Uma luz diferente se aproxima. Pela a tensão e o silêncio, abruptamente ocasionados, sinto que é o laser.
Um cheiro ruim de carne queimada, ruim porque é a minha, invade o recinto. Sinto ânsias de vômito.
Mais colírios, jatos de água, e acabou. Foram menos de 10 minutos. Sai para a sala de recuperação e meu nevo vagal dá sinais de vida.
Tome sensação de morte. Lá vou eu dar vexame novamente. A sensação é de desmaio, de perda de energia.
Peço socorro e uma enfermeira me coloca na posição de cabeça pra baixo. Lentamente o sangue vem voltando, a razão não.
Em flashes lembro-me de meu pente sem dentes, deixado na recepção da clínica e o olhar de espanto e riso das atendentes. Envolto na sensação de desmaio vem à mente uma mãe que já foi protagonista de uma de minhas crônicas, que a vi numa rodoviária de João Pessoa.
Era perto da meia noite, ela ajeitava seus três filhos para dormirem junto dela, esperando possivelmente um Itapemirim para São Paulo. Do alto de sua pobreza, antes de dormir, levantou-se e penteou os cabelos de seus três filhos, todos miseráveis como ela.
Quanto amor, num único gesto possível de urbanidade que um pente proporcionou.
Até hoje pentear meus cabelos evoca a dignidade daquela mãe.
Ando sempre com um pente tosco no bolso.
A homenageio com isso. Coisas do Ricardim.
Volto à realidade da sala de recuperação. Nem um som. Diferente das UTIs que frequentei.
Falta a música dos monitores.
No silêncio os estertores de almas em soluços rompem as barreiras de nossa consciência e vêm nos iluminar.
Ofuscado por tanta luz lembrei que para ver de perto precisamos queimar na própria carne.
É mais fácil olhar ao longe, os outros, ou ao nosso futuro remoto- cheio de fantasias e adiamentos de decisões.
Ver de perto, aquele que nos ajuda, nos ama, nos incentiva vai ficando difícil com o passar do tempo.
Vai caindo na rotina, na banalidade, na indiferença.

“Os olhos opacos da indiferença”, como diz o poeta.

Já olhar de longe, do ponto de vista existencial e não óptico, é mais fácil.

Exige menos entrega, renúncia e postura transformadora.

É mais passivo e imanente, afinal, está longe.

Olhar ao longe nos dá tempo de empurrar nossa vida pra debaixo do tapete da realidade, anestesiando nosso vir-a-ser.

Agora, quando é de perto que a coisa acontece, vixe Maria!

Quando é ali, pertinho, é na carne que sentimos. Pensem num luto pela morte de um parente amado, por exemplo. Ou numa decepção amorosa. Ou até numa crise no emprego e até de sentido e propósito de vida.
São dores que queimam nossas entranhas. Dores de perto. Tal qual a do laser que retificava a curvatura de minha córnea.
Analogamente à minha cirurgia para recuperar a visão de perto. Essa dor, esse cheiro de carne queimada, nos violenta - mesmo que saibamos que estamos tomando a decisão correta.
Para os que as fitam de fora parece coisa normal. Reações parecidas como a daquelas atendentes de Centro Cirúrgico Oftálmico.
Lembrei-me de uma mãe que internou seu filho, contra a vontade dele, numa clínica de dependência química. Ela precisava ver de perto. Domar a situação com vigor.
Cortar sua própria carne e fazer acontecer mudanças.
Ela sentiu o cheiro de carne afetiva queimada.
Não é fácil.

Mas, se assim não o fizermos, seremos dependentes para o resto de nossas vidas de nosso próprio destino.

Chega um momento que não dá mais pra adiar decisões.

Então, cerque-se de coragem e as enfrentem.

Abro o olho esquerdo agora.
Emocionado vejo a tela do micro, sem óculos.
Choro. Lubrifico os olhos com o mais precioso óleo da vida, as lágrimas.

Ainda há embaçamento, confusão, mas já consigo passar sem os óculos. Aceito-me embaçado, pois sei que só estou com 5 horas do corte, que ainda aprende.
A vista vai reacostumar a ver o perto, o não visto, embora tão perto.

Quanta coisa boa há perto de nós que não vemos mais?
Quanta coisa nos degrade a autoestima, nos faz infelizes, põe pra baixo e de tão perto de nós nos acostumamos, resignadamente, a viver com elas sem mudar.

Nem mudamos a situação; nem a nós mesmos diante de como nos deixamos abater e mobilizar-nos com a situação; ou mudamo-nos – a nós próprios, da situação vivida procurando outras possibilidades, noutras paragens.
Hoje operei os olhos - vista cansada. Preparo-me para ver o que esqueci, num canto qualquer de minha amiga alma - letras da vida, empoeiradas e turvas tal qual páginas de livros em caixas de depósito.
Ver o que de tão acostumado de não ver acabei achando que fora visto.
Ver meus amigos que não os via mais. Ver meus familiares. Ver a mim mesmo no espelho e recuperar a estima, a boa estima.
Levar-me para passear e ver beija-flores e girassóis, só pelo prazer de curtir e compartilhar meu ser... Cuidar de mim, deixar-me cuidar.

Esse é o primeiro texto que digito sem os óculos. A vista cansada para perto – para as coisas triviais e corriqueiras, começa a se despedir.
Hoje descobri que fiquei cego por muitos anos às coisas que realmente importam. Com 49 anos, endureci a visão criando cataratas na alma.
Hoje, faço um trabalho de tirar as remelas, os cerotones, de ver coisas que já tinha visto e que são belas, por simples e únicas que são.
Desaprendo velhas e nada significativas atitudes... já não tenho pressa de chegar em lugar algum! 
Ainda turva, cambaleante e medrosa a luz forma novos e velhos significantes na retina de minha alma. Coisas esquecidas e outras nem tanto agora fazem motivos.
Aqui e ali, uma imagem de esperança, de amor, de recomeço se forma.

Ah como são belos os olhos que enxergam as coisas que realmente importam, e que de tão perto, mergulhada que estão na escuridão de nosso ser, no pior de todos os breus chamado de indiferença, já não as víamos mais.

Agora vou pingar o colírio, ou o gardenal.

Noite de Domingo

Noite de domingo, 
dia cruel para os que têm haveres
e dívidas afetivas.
É um choro de filho lembrado,
um abraço soluçante, 
um cheiro de casa dos pais.
Domingo à noite. 
Junto-me a ti nessa noite só. 
Deite em meu colo digital. 
Acarinho teus cabelos, nino tua alma. Enxugo tuas lágrimas, com uma camisa puída. 
Abraço-te e te conforto.
Logo chegará o amanhã. 
Dói mesmo. 
Saudade é como laxante, enquanto não purga fica contorcendo as tripas. 
Tome um copo d´água. 
Leia um salmo.
Leia o salmo 22. Coragem. 
Muitos também estão assim, nessa noite. 
Lembram do que poderiam ter sido, e os alvoroços do destino, 
o vendaval das situações cotidianas, os afastaram de ser.
Remoem decisões, suportam o peso das escolhas.
E, a cada escolha, muitas renúncias. 
Todos estamos em débito com a vida. 
Todos. 
Uns mais, outros menos, mas sempre devendo. 
Devendo afetos, 
gratidão, 
perdões, 
amor... 
Devendo atitudes.
Fica assim não. 
Toma uma chuveirada. Bota pra tocar uma canção de paz. 
Liga para um amigo distante. 
Sobreviva mais uma noite de domingo.
Passará.
Choro contigo,
o luto é uma porta que se abre e se fecha
ao sabor dos ventos do coração.
Só quem tem sabe.
E, a saudade é o respirar dos apaixonados pela vida.
Quem não viveu não sabe dela. 
Ela é quem nos faz humildes, perante toda ostentação
e tirania dos tempos atuais. 
E, nessa noite solitária de domingo, 
quanto tua vida vem te açoitar, 
lembre-se:
Ele venceu o mundo!
Ele conforta-me de minhas saudades mais ácidas.
Saudades de tudo. Redundância. É. Saudades é redundante. Não sabemos quando a sofremos mas, quando chega, dói muitoi!
Choro. O luto é uma porta que se abre e se fecha ao sabor dos ventos do coração. Só quem tem sabe.
Saudades de Campina Grande-PB;
De Poções-BA;
De Remígio-PB;
Do que não fui...
E do que fui que por breves momentos.
Saudades.
Estimulantes saudades.
Eu - prato em panela que sou, sempre serei cozinheiro de belas saudades temperadas pela vida
Vivo.

E intensamente, mesmo em contradições.

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