Em tempos de crise, qual Quinteto Fantástico devemos alimentar? (Autor Ricardo de Faria Barros)

Neste momento de perplexidade mundial, nada mais urgente, necessário e possível do que manter a fé na vida, no ser humano e no que virá. Conforme a canção abaixo:

Semente do Amanhã (Nunca Pare de Sonhar)  - Gonzaguinha

Ontem um menino que brincava me falou
que hoje é semente do amanhã...

Para não ter medo que este tempo vai passar...
Não se desespere não, nem pare de sonhar

Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs...
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar!
Fé na vida Fé no homem, fé no que virá!

Nós podemos tudo,
Nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será



Mas, não é nada fácil manter o pensar, sentir e fazer de forma sustentável, em ambientes de medo, restrições, angústia, frustração de expectativas e de decepção por necessidades não atendidas.

Nestes momentos, cresce em nós atitudes e comportamentos derivados do cérebro reptiliano que amplifica, distorce e reverbera o perigo, para que possamos a ele sobreviver.

Entra em cena o Quinteto do Mal. Personagens que alimentamos em nossa mente e que conduzem nossas atitudes e comportamentos de forma muito danosa. As principais atuações destes personagens, no palco da vida e do viver, são cinco:

1. O Rabugento Reclamão– Ele é aquele personagem que sempre está mal-humorado. Que reclama de tudo na vida, para quem os dias estão sempre cinzentos. Em alguns momentos o rabugento chega a ser violento, porque ele tem pouca noção de empatia para com o outro.

2. O Negativo Crítico – É aquele que não acredita que algo de positivo possa ocorrer. Ele chega num ambiente procurando o que aquele local tem que não o atende. O que falta para ser excelente, e nunca se satisfaz com o que está regular ou bom, ou seja, o que já dá jogo, dentro daquele determinado contexto. 

3. A Vitima Desanimada – Para este personagem, todos estão contra ele. O mundo o persegue. Tudo de ruim lhe ocorre, e busca nestes acontecimentos justificativas que reforcem o seu desânimo. Na posição de vítima ele não se ver como protagonista de mudar, de dar uma resposta à vida. Diante de algo de ruim que lhe ocorreu.

4. O Ingrato Egoísta – Este personagem não consegue sentir e expressar gratidão, por nada e por ninguém. Ele acha que o mundo gravita em torno de si mesmo, e que tudo deve ser direcionado para si mesmo. De postura altamente individual, ele acha que merece, e que por merecer, não precisa dividir, cooperar, nem elogiar as pessoas que com ele interage.

5. O Destrutivo Desarmonioso – É aquele papel de quem adora atear fogo no circo. Como ele tem medo do amanhã, ele opera no sentido de que todos pode ser seus inimigos, e [e melhor eliminá-los, seja com fofocas, seja com conflitos desnecessários. É aquele que não só rema contra, mas ainda faz buraco no barco.



É possível deter a ação deste Quinteto do Mal? SIMMMM!!! 

Para cada personagem do Quinteto Mal, há um outro do Bem, que encena no mesmo palco da vida e do viver. Resta saber qual deles daremos comida ao final do dia, quem vamos alimentar dentro de nós, pergunta que nos fazemos em processos de autoconhecimento, de aprendizado e de sensibilidade diante da vida.  

Quem são os mocinhos que combatem estes vilões?

Quem são os personagens do Quinteto Fantástico do Bem?

1. O Otimista Realista – Ele não é alienado, ele tem consciência da situação presente, dos desafios e limites. Contudo, a orientação de vida dele é positiva. O GPS interior dele aponta para a solucionática, para uma disposição positiva diante da vida. Ele sabe que nem sempre vai conseguir a melhor resposta a algo, conforme planejado, mas aprende a saborear aquilo que ainda deu para fazer, de acordo com os recursos disponíveis, e na conjuntura em que se opera.

2. O Esperançoso Transformador – Ele cultiva sonhos de que o amanhã será melhor, para si mesmo, para os outros e para a sociedade. Porém, ele não fica sentado, à beira do caminho, esperando que algo de bom lhe aconteça. Ele vai atrás, construindo possibilidades, alternativas e ações no hoje, cujo somatório contribuam para com o amanhã desejado.

3. O Resiliente Sábio – É um personagem do Quinteto do Bem que aprendeu a se contorcer, diante de um perigo, a se adaptar, e a mudar posturas e comportamentos, para melhor conviver com uma situação difícil. Ele não se deixa abater, aprendendo a melhor reagir aos problemas. Ele aprende a navegar em mares bravios, no lugar de ficar reclamando do tempo. E, quando lhes faltam os ventos, eles remam.

4. O Grato Generoso
- Ele desenvolve a postura de captar, sentir e expressar gratidão. Tem consciência do outro, de quem lhe abre caminhos, de quem lhe ajuda nas demandas da vida. E contribui no círculo virtuoso devolvendo o que de bom lhe ocorreu, em farta doses de doação e generosidade para com o outro.

5. O Construtivo Harmonioso - No lugar quem que todo mundo está em pé de guerra, é este personagem que chama para a paz, que cede, que tolera, que harmoniza, que reconcilia e que busca uma solução negociada para as tensões. Sua especialidade é em construir, em crescer junto com as outras pessoas. Sem as diminuir, sem as oprimir, sem fazer de cada desavença uma guerra insolúvel. Ele aprendeu a não criar paredes nos ouvidos, e a desenvolver a empatia no ser, fazer e acontecer junto com os outros.


Então, é isto que temos que ter cuidado em momento de grandes crises pelas quais passamos, ou passaremos, ao ter a consciência de qual dos personagens devemos alimentar em nosso viver, quem deverá crescer em nosso pensar, sentir e agir?
Os dos Mal, ou os do Bem, a decisão é nossa e ela pedirá esta resposta várias vezes por dia.
Basta que comece a se analisar, a se conhecer melhor, a questionar as posturas do Mal, que aprendeu a desempenhar, até como forma de auto-defesa.
Será que elas fazem sentido ainda? Será que elas não estão lhe empobrecendo?
O mal far murchar, o bem faz florescer. O mal diminui, aprisiona e desvaloriza. O bem cresce, liberta e valoriza.
Mas, é preciso muito cuidado, e não perder, como diz a canção do início deste texto, a “luz do céu que brilha no olhar”.  Pois que é justamente este céu interior quem nos dará forças para não alimentar o Quinteto do Mal, com atuações tão comuns em nossos dias. 

Os dia em que a Terra nos formatou! (Por Ricardo de Faria Barros)

Acordei sobressaltado, após uma semana dormindo, pois que era um sono acumulado de milênios. Durante o qual tive um pesadelo terrível.
Sonhei que o planeta Terra teria formatado o sistema operacional da raça humana, nos devolvendo aos tempos das cavernas.

Banhei o rosto, tentando lavar aquele pesadelo ruim, e botei o tênis para caminhar, levando numa sacola um livro que comprei para o filho do Rangel, que estuda direito.
Na calçada das crianças, uma que dá acesso à uma creche, não havia os costumeiros choros de despedidas das mamães e papais. Nem sons infantis, tão relaxantes.
Dobrando a esquina, não vejo as costumeiras garrafas litrão, de restos de noite do Bar Piauí. Ué, o Piauí fechou ontem, em plena quinta-feira?
Algo estava errado no ar, não sentia aquele clima de “Sextou”. Até os raros caminheiros passavam por mim com expressões taciturnas, diferentes das expressões “sextou”.
E, não avistei cenas que me comovem quando caminho, e que as vejo com frequência, de casais caminhando de mãos dadas, de crianças brincando nas entrequadras. Estava tudo vazio.
Será que seria feriado? Acho que não, em feriados as pessoas circulam.
Passo pelo Líbanus, para deixar um livro para o Rangel, de presente para o filho dele, e está fechado. Ué, já são 10h, e eles começam a preparar o ambiente cedinho, principalmente numa sexta. Voltei pra casa pensativo, será que formataram a raça humana mesmo. Será que estou formatado e não sei?
Uma porta de casa se fecha com a lufada do vento. 
Acordo, e lembro que sonhava sobre o sonho do pesadelo. Sonhei o pesadelo. Respiro apreensivo, não, não era um pesadelo. E nem caminhei a pouco, nem levei livro, nem vi as calçadas vazias, tudo era um sonho. Menos, a realidade surreal e alucinante, de que realmente a Terra nos formatou.
Estamos todos no modo “Format”. Não há mais festas de batizados e casamentos, nem tampouco enterros comunitários. Não há mais as gostosas visitas dos amigos e familiares, para confraternizar com algo, ou simplesmente o nada, só pelo gosto de estarem juntos.
Não há mais as envolventes disputas esportivas, entre as quais os emocionantes Fla x Flu, ou Treze x Campinense. Não há mais pessoas nos templos, em grupos, orando a bom Deus.
Escolas, academias, bares, teatros, cinemas, museus, shoppings, parques, clubes...etc., todos fechados.
E a raça humana, bilhões de pessoas, voltou para a toca. Todos ao mesmo tempo. A fogueira que mantém o povo unido, à beira do calor da toca, é o WIFI.
Crianças que não mais sabiam o valor de se ter uma família, passaram a conviver com os seus de forma intensa.
Pessoas que tinham paraísos em suas vidas, mas que estavam esquecidos, hoje sentem falta deles, como a possibilidade de abraçar quem gosta, e que muitas vezes moram pertinho.
Casais apaixonados não podem se ver mais, e, cada um em sua toca, procura formas de manter a chama acesa, e lidar com a dor da ausência do outro. A pior das solidões, revestida na palavra saudade. E uma das mais cruéis saudades é a da presença do outro que não está ali.
Filhos passaram a ligar mais para seus pais.
Casais, na ausência do que fazer na toca, reaprenderam a conversar entre si, sem brigar, sem buscarem o que o outro tem que não o satisfaz mais. Na toca, não há tempo para pequenez da alma, todos ativa o modo sobrevivência.
E, no modo sobrevivência, não se tem tempo para alimentar rancores, mágoas, ou agressões mútuas, é todos por um, um por todos, caso contrário a toca não sobrevive.
Filhos aprenderam a fazer tarefas domésticas. Pais aprenderam a acompanhar atividades online dos filhos. Aliás, reaprenderam até a convier melhor com eles, inventando mil brincadeiras para entretê-los.
Na toca se reaprende a limpar as gavetas da alma, a passar esperança na alma, a degustar boas 
lembranças do passado.
Se reaprende a dar valor à própria toca, por menor que ela seja, pois que há tantos que no modo "Formatado" tiveram que ser resgatados das ruas para abrigos improvisados.
Na toca, ficamos nus, e podemos finalmente voltar a enxergar a nossa essência.
Na toca, pessoas não valorizadas, reconhecidas ou simplesmente invisíveis foram finalmente percebidas como essenciais. Aquela diarista, que mal podia comer da mesma comida da casa em que trabalha, agora está sendo sentida a sua falta.
Na toca, se aprende a valorizar aqueles que se arriscam a dela saírem, pois que executam atividades essenciais, ao próprio funcionamento dos que se protegem nelas. O caixa de banco e de supermercado, o profissional de saúde, o professor que transmite aulas online da escola, o frentista de posto de combustível, o atendente da farmácia, o motorista do ônibus, o zelador do prédio, o policial, a cuidadora de idosos, o motorista de entrega de comida, os atendentes de call-center, e um monte de outras profissões.
Na toca, reaprendemos a ler, ouvir música, ver lives, jardinar...
Na toca, é preciso agendar o dia. E descobrir as possibilidades que ela possui, com os recursos disponíveis, para que a pessoa não adoeça mentalmente. Sim, o modo “Formatado”, vivido sem objetivos, pode causar doenças mentais, pois que que desliga o sistema de produção, mobilidade e interação humanas.
Este primeiro semestre de 2020 vai entrar para a história. Na idade moderna, é a primeira vez que toda uma população entra em quarentena, e volta à toca.
Creio que tirando as sequelas econômicas, que serão enormes, haverá um aprendizado muito grande para a raça humana, quando sair do modo Formatado.
Que ela pode sobreviver, e bem, a um monte de coisas que foi se plugando ao estilo de vida do ser humano.
Aprenderemos muito nestes dias de toca, que ainda vivemos. O valor do outro, da empatia, da solidariedade, da ajuda de qualquer forma, para que pessoas sobrevivam a este momento Formatado, sem mais os vírus comportamentais e atitudinais que estavam apequenando a humanidade. Aprendemos o valor da simplicidade. Aprendemos a bater palmas para pessoas que mantém as coisas funcionando. Aprendemos o valor de um abraço, tão desejado, e tão difícil de ser dado em tempos de isolamento.  Aprendemos que as pessoas são mais importantes do que as coisas. Aprendemos o valor do agora, pois que sobre o amanhã não temos certeza alguma.
Aprendemos que não fazer nada também é bom. Que não ter uma agenda estressante e cheia de coisinhas pra fazer, lá fora, também é bom. Aprendemos que muito do trabalho já pode ser executado de casa mesmo, o que pode revolucionar o modo de concebê-lo.
Aprendemos a nos reinventar, a focar nas solucionáticas, e buscar inovações para operar neste novo mundo que se descortina.
Aprendemos como era bom quando a campainha tocava, ou quando alguém dizia que vinha nos ver, ou nos chamava para algo.
Não é o que estamos vendo em todo lugar? O melhor da raça humana acontece na toca.
Jovens se oferecendo para ajudar idosos. Filhos descobrindo que ainda têm pais. Profissionais e empresas, de todos os setores, oferecendo seus serviços gratuitamente, no ambiente web, ou tocando músicas das varandas de seus lares, para animar os demais.
Gente se mobilizando para cantar parabéns bem alto, para que aniversariantes escutem do outro lado do corredor. Gente se curando da síndrome da intolerância a Humanos. Gente perdendo a arrogância, orgulho e vaidade, e se aquebrantando em sabedoria e humildade, diante da insegurança com o que ocorre.
Gente se achando, se escutando, se avaliando sobre as escolhas e decisões que fará, ao sair da toca. O modo “Formatar” pode ter sido bruto, mas que levará toda uma geração a se reinventar, tenho certeza disso. E para melhor.
Aquilo que antes importava, pelo qual perdíamos noites de sono, ou que dávamos a vida para conseguir, aprendemos que podemos sobreviver a sua perda.
São os relatos das tocas, mundo afora.
Quando a Terra nos reinicializar ela estará mais limpa, de nossos lixos, e nós estaremos mais limpos, de nossos lixos também, os emocionais.
Acreditem nisto!
E, quando dela sairmos, uma lufada de Brisa Aracati vai restaurar e refrescar o nosso ânimo, fazendo renascer uma profunda vontade de amar e de viver, que ativará mais uma vez a imensa capacidade da humanidade de se reinventar.
Ao redor da fogueira do wifi, dentro da toca, tem uma placa escrita com letras de esperança, com os dizeres:
“Sobreviveremos: isto também passará, e amanhã seremos melhores”.


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Foto: A Caverna das Mãos, na Patagônia Argentina, datação de 9.000 anos. A ‘Cueva de las Manos’ é um Patrimônio Mundial da UNESCO.

Não basta álcool em gel nas mãos, é preciso esperança na alma. (Por Ricardo de Faria Barros)

Estamos vivendo um dos momentos disruptivos da história da Humanidade, no qual a pandemia do Coronavírus virou tudo de cabeça para o ar.

No meu entender, seremos testemunhas, e atingidos,  por uma grande transformação sócio-econômica pela qual passará a sociedade,  assim que começarmos a juntar os cacos deixados por este vírus, mundo afora.

Uma destas coisas que podem nos atingir, são as sequelas emocionais de longos períodos de isolamento social, ou de distanciamento de relações amistosas e afetivas com os outros.

Quando o abraço murcha, a noção de civilidade apodrece, virando uma espécie de um por um, e nenhum por todos.

Então, é preciso que vozes do mundo todo se unam numa corrente de esperança. Como digo no título deste texto, não basta lavar as mãos com álcool em gel, para conter o avanço da pandemia, é preciso lavar a alma com esperança.


ASPECTOS PSICOSSOCIAIS DOS ISOLAMENTOS - (Para se entender melhor) 

Uma das principais tarefas cidadãs, no momento, é não circular pela cidade.
Ficando em casa e evitando uma propagação mais veloz deste vírus.
Mas, as pessoas foram pegas da noite para o dia com esta diretriz de saúde pública.
E, para muitos não está sendo fácil viver este auto-isolamento, na gruta em que habita, seja o nome que se dê a mesma: casa, apartamento, barco, chácara, lote...

1. O Desejo da Falta

Vive-se neste isolamento a sofrência do desejo o ir e vir.  É que a mãe de todo o desejo se chama Falta. O desejo expande na falta. Quando não se tinha o sentido da falta, não importava a calçadinha da praia existir, a poucos metros de nossa casa. Ela estaria sempre ali. E, ficaria para um dia depois ir passear por lá.   Agora, com os Decretos Estaduais que impõe o isolamento, ela não pode mais ser acessada. E, se antes mal nela passávamos, agora sentimos uma vontade danada de andar por aquela calçadinha, seja a de Copacabana, seja a de Tambaú.  Então a primeira sofrência que o auto-isolamento faz brotar é daquelas coisas que estavam pertinho de nós, e que nem sempre as valorizávamos, e que por agora não podermos mais degustá-las, sentimos uma falta danada delas.

2.  A Ausência do Outro

Não fomos feitos para viver trancados. Precisamos da dinâmica da vida, dos sons de humanos, de dar e receber afetos, e do cheiro e toque de gente para nos sentirmos vivos. Não sem motivo, uma ida à feira-livre é terapêutica. Sentimos falta do happy hour, do papo com colegas de trabalho, da ida a shows, noitadas, e partidas esportivas, além da missa-culto, da academia, de sair para viajar, ou de churrasquear para os amigos no final de semana.  O outro importa.  O sentimento de não achar a turma, de se sentir só, mexe com a psiquê humana.  Não estamos preparados, emocionalmente falando, para viver numa ilha.  Por melhor que ela seja, caso sozinhos, após alguns dias, vamos nos enfadando. Queremos alguém para dividir as coisas da vida, que ocorrem nesta ilha.

3.  A Sabotagem da Paz 

Este processo de exílio  no enfrentamento de uma doença que circula invisível, pelo ar, sem muita previsibilidade de quem será o próximo atingido, aumenta a sensação de aperreio. por melhor que seja a rede social, nada se compara a uma visita de uma amigo que nos acalma o coração. Então é um momento de muita angústia, ansiedade, medo e preocupações, afinal não o planejamos, nem foi uma escolha. E a incerteza com o amanhã açoita o pensar, e produz noites insones.

4. Os Desestabilizadores do Agora 

Nesta categoria de aperreio existem dois elementos cruciais. A questão da execução da agenda cotidiana que foi rompida. E a pessoa se sente perdida. Ela acordava todos os dias com uma agenda a cumprir. Seja escola, seja trabalho, seja sair para resolver pendências, ou coisas da vida pessoal. E, de repente, cadê aquele ônibus que pegava todos os dias? Cadê o menino pra deixar no colégio? Cadê aquela busca por vaga no estacionamento? Ou aquela agenda que as 24 horas eram poucas pra cumprir? Agora, parece que o dia tem 48 horas. E a falta de marcações habituais na agenda, cria uma sensação de vazio existencial.  O outro elemento é o cancelamento de coisas que marcamos para ocorrerem logo ali, dobrando a esquina do futuro. Um casamento que iríamos, uma viagem cobiçada e duramente comprada, que tiveram os vôos e hotéis cancelados,  seja coisas prosaicas como uma noite cultural, um festival de cerveja, um congresso, um evento da igreja, ou até o dia de uma entrevista de emprego, realização de concurso, ou de visita a parentes distantes. Toda a agenda futura, para os próximos meses, ficou adiada, para um dia qualquer, ou sempre cancelada. Isto mexe com o agora, tira o chão dos pés.


Dito isto, agora você já começa a se compreender melhor sobre coisas que pode estar sentindo. Eu tenho uma fórmula para lidar, e atenuar, os imprevistos negativos que me ocorreram. Como um cancelamento de um contrato de fornecimento de palestras, um vôo cancelado, ou um projeto adiado por falta de condições epidemiológicas para juntar pessoas em torno dele. Todos ocorridos comigo.

Como melhoro da cabeça?

Faço três perguntas a mim mesmo, e, caso a resposta a elas seja uma negativa, eu prescrevo uma dose de AAS.  Leia e entenderá.

Vamos às perguntas.

Fui culpado pela situação negativa ocorrida?
Posso alterar algo na situação negativa ocorrida?
Pensar na situação negativa que me ocorreu ajudará em algo, do ponto de vista de sua solução?

Se respondi: Não, Não e Não, passo para o AAS.

O que é o AAS?

A de Acolher o que ocorreu, já que não posso mudá-lo.
A de Aprender com o que ocorreu, e crescer diante da situação negativa vivida. Mudar a si mesmo.
S de seguir em adiante, parar de olhar para trás. Mudar-se da posição de vítima.


RISCOS DO ISOLAMENTO SOCIAL


1. Quebra da Arquitetura da Toca

Nossa toca, nossa gruta, tem um espaço socialmente demarcado. Com mais pessoas mais tempo coabitando este lugar as tensões e conflitos poderão eclodir. E precisarão de muita inteligência  emocional para serem harmonizadas. Coisas simples como uma ida ao WC pode criar fila, ou o acesso à cozinha  Também a parte do lazer pode ser afetada, com diferentes necessidades sendo colocadas em pauta. A Toca parece que não é programada para longas permanências dentro dela, sem sair para uma desparecida lá fora.

2. Busca de Atenuantes à Ansiedade

A pessoa começa a querer suprir a ansiedade do "confinamento" comendo tudo que vê pela frente. Ou bebendo qualquer coisa que tenha na adega. E ainda consumindo em sites virtuais. Então, o risco é sair um alcoólatra, obeso e endividado após um período de isolamento social.

3.  Perda de Referencial Temporal 

Aqui colhemos da experiência de quem ficou em solitárias, na qual não se sabia mais que dia era. A pessoa deixa de seguir uma agenda de cuidados, dorme muito, troca a noite pelo dia, não come nos horários costumeiros. E o dia vira noite. E a noite vira dia. Como se ele estivesse passando por uma espécie de Jet Lag.


O QUE EVITAR NO AUTO-ISOLAMENTO SOCIAL (Coronavírus)

1. Consumo excessivo de mídia negativa, alarmista e, muitas das vezes, sem consistência científica.

2. Acreditar em narrativas apocalípticas, como verdadeiros mantras auto-realizadores. "Nunca iremos nos recuperar disso".  "Vai faltar comida e água".

3. Participar de boicotes, crendices, e outros comportamentos sem amparo científico, alimentados pelo medo e ignorância sobre a doença.


SEIS FORMAS DE LIDAR COM O ISOLAMENTO SOCIAL

1. Não se prostre e se descuide de si mesmo.  Você não tirou férias de teu corpo.  Precisa manter a autoestima funcionando, ao tomar um belo banho, comer saudável, fazer o que der pra fazer pra se exercitar, nem que seja cantando no banheiro. E, não se desconecte dos horários dos remédios, nem dos amigos que pode acessar via rede social.

2.  Crie metas e agendas diárias para alcançar e fazer algo. O que vou aprender hoje? Que prato posso fazer na cozinha? Qual livro lerei? Que artista preferido vou pesquisar tudo sobre ele? Sobre que parte de minha vida farei uma crônica? Qual foto antiga merece uma repostagem, com a narrativa daquele momento gostoso que viveu. Mesmo sem ser numa quinta.

3. Engajamento (Flow).  O que te leva a se desconectar do tempo e das preocupações quando está fazendo? Eu coleciono vinis. Quando folheio as capas, e os escuto, esqueço do mundo. Ache aquilo que te dá esta sensação. Pode ser um trabalho que esteja produzindo no notebook. Pode ser uma jornada para leitura de livros sagrados. Pode ser a própria oração, ou meditação. Ache seu Flow, de deixar a vida fluir em si mesmo.

4. Solidariedade - Ninguém Solta a Mão de Ninguém Virtual. Uma das maiores fontes de bem-estar ocorre na relação empata e cooperação para com os outros. Coloque-se disponível para isto. Tem gente no teu prédio que pode estar precisando de tua luz. Seja cantando na varanda, seja se oferecendo para levar o cachorro para sair (caso tenha menos de 60 anos), ou fazer compras. Ou simplesmente ligar para a pessoa e tranquilizá-la, para que ela não se sinta desamparada, por não estar recebendo visitas.  Há um monte de coisas que podemos fazer para que este momento seja menos dolorido para muitas pessoas. Inclusive liberar nossas diaristas pagando-lhe o salário. Se tiver filho, uma boa ideia é contar histórias para ele, transmitindo-as pelo ZAP do prédio, ou condomínio, para outras crianças.       

5. Sabedoria espiritual. Desenvolva a temperança, a moderação e a fortaleza. Alimente pensamentos e emoções positivas que digam para si mesmo: amanhã será melhor, isto também passará. Busque a paz dentro de si, ou ao contemplar um amanhecer, anoitecer, ou uma criança sorrindo. Exercite a paciência e a tolerância. Reaprenda a dialogar, a chamar as pessoas para a refeição, na mesma mesa e horário. Sinta que este momento de isolamento pode ser fecundo para se autoconhecer, para exercitar o silêncio de si mesmo, sem a agitação da rotina da sobrevivência diária.  Tempo de descobertas, na gruta do lar, é o que estamos vivendo!

Longevidade Saudável e Amorosa (Por Ricardo de Faria Barros.)

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Muito dos valores de uma sociedade se refletem no seu comportamento numa fila.
Recentemente, observei pelo menos três deles. Tomando um café, bem próximo de um dos portões de embarque, pude contemplar de forma privilegiada parte da miséria humana que se revela numa fila.  Naquela sala de embarque havia quatro filas. Os sem bagagem de mão, os com bagagem, os com assentos das filas de 1 a 5, e os Preferenciais.

Observei os que entravam na menor das filas, aquela destinada a quem tinha comprado bilhetes para o setor vip daquela empresa de aviação (as de 1 a 5).
São poltronas nas quais qual podemos apanhar algo que caiu à nossa frente, ao nos curvar para tal.  Nas outras não dá, pois que nelas viramos sardinhas, e sardinhas não se curvam.
Muitos entravam naquela fila dando uma de espertos, já que não estavam nas poltronas das fileiras de 1 a 5, e quando passavam pela conferente, olhavam pra nós – os que estávamos na imensa fila dos sem-bagagens, com olhos vitória.
Um ou outro era barrado, pela outra conferente mais exigente, e voltava vociferando coisas, e olhando para nós com raiva. Como se os que na fila certa estavam, fossem seus inimigos, já que ele teria que ir lá para o fundo da fila.

O segundo comportamento, era o dos que insistiam em ficar com suas bagagens, na fila dos Sem Bagagem, já que era a terceira menor. Eles davam uma do famoso: “se colou, colou”, e ficavam ali, desconsiderando os avisos sonoros de despacharem antecipadamente suas bagagens, ou para se colocarem nas filas devidas.
Então, muitos acabavam passando pela triagem do embarque, mesmo estando fora de conformidade. O que irritava aqueles que estavam certos e aguardavam sua vez. E, assim como no exemplo anterior, eles saiam com um sorriso maroto no rosto, daquele de quem se acha superior aos outro, e de quem quer levar vantagem em tudo, independente dos meios que se utilize.

Mas, é o terceiro comportamento o que me causou muita estranheza. Os acima me causaram revolta e preocupações éticas.

Ele ocorreu na fila preferencial. Ali têm pessoas enfrentando doenças crônicas, pessoas com mobilidade reduzida, dificuldades visuais, gestantes, pessoas com autismo, têm crianças de colo, e seus responsáveis, e têm aqueles com mais de 80 anos.

Eis que chega bem próximo da ponta da fila Preferencial, um senhor de cabelos bem branquinhos, aparentando ser da geração dos idosos saradões.   
Aí faz uma avaliação do tamanho da fila Preferencial e segue decidido para o início dela.  
De porte altivo, todo empinado, durinho, bem vestido com roupa de roupa de quem cultua o corpo, ele se esgueira na frente, empurrado uma mãe com uma criança.
Aí o resto da fila protesta, e ele diz que é prioritário por lei, e que tem 80 anos.
Os protestos continuam, já que não existe a fila dos prioritários dos prioritários.
E, se acaso existisse, ela deveria ser dos doentes.
Todos vão se calando, ficando resignados, e o embarque começa.
E aquele ancião segue todo confiante pelo corredor adentro. Certo de que fez cumprir seu “direito”, ao dar uma carteirada de RG. Imagino-lhe chegando em casa e contando isto, todo orgulhoso, aos filhos e netos. Tadinho dele. Pois que está totalmente errado.
E não sabe o contra-exemplo que estará dando ao seu clã.
Não!
Mas, não acho que ele ficou assim por ser idoso. Acho que ele é o mesmo que um dia tentou entrar na fila dos Vips, ou que com mala de rodinha ficou na fila dos sem bagagem, e sem querer despachá-la antes, por mais que a moça anunciasse este benefício para agilizar o embarque.
Precisamos cuidar da nossa cuidar da salubridade social, comportamental e emocional de nossa jornada por esta vida. Caso contrário, ficaremos emocionalmente insustentáveis.
Pessoas que degradam o ambiente com a presença delas.
Outro dia li um artigo sobre os malefícios que um coração rabugento, cheio de murmuração e mágoas encardidas causam vários problemas ao sistema cardio-vascular.
E estes estados de humor na sua versão críticas são gatilhos pra o Desamparo Apendido, e este para a depressão.
Pesquisadores identificaram que os riscos de adoecimento do sistema cardio-vascular-respiratório são superiores ao tabagismo.
Será que também existe um risco para quem convive com esta pessoa de forma intensa e permanente, tal qual o risco dos fumantes passivos?
Creio que sim.

Quero envelhecer tendo muito cuidado para não me tornar um chato, um arrogante sabe-tudo, uma daquelas pessoas cheias de conselhos, na ponta da língua, e que se acham no direito de se meterem na vida de todo mundo.

Quero não!

Quero manter a cabeça boa, sem usar os anos de vida como carteirada pra ninguém. Nem pra furar a fila, nem pra bancar o sábio, desqualificando as vivências dos mais jovens.
Quero ser um velho cheio do sabor da juventude.
De bem com a vida, sem ficar empunhando minha verdade pra ninguém.
Quero continuar a desenvolver uma visão poética da vida e do viver.
Mesmo que possam me ter como tolo.
Quero continuar a acreditar na força do amor, na bondade, na solidariedade, nas coisas que nos elevam a alma, como aquelas que a cultura nos traz.
Quero continuar acreditando em coisas simples como o valor do aconchego da família, como a capacidade de sair de situações difíceis, como a revolucionária crença de que o amanhã poderá ser melhor.
Não quero ser nem ácido, nem azedo. Quero ser gente boa, tal qual uma compota de doces.  

Uma pergunta que não quer calar é de que vale queimar todo que é gordura, malhar muito todos os dias, ficar saradão, se não fizer isto também no cérebro. Se não cuidar da qualidade das emoções, dos pensamentos e dos comportamentos para consigo mesmo e para com os outros.

Que meus grisalhos cabelos não me afastem deste propósito, seja pelo acúmulo de notícias não legais, que observamos na rotina dos dias, e que turvam a lucidez de nosso ser.

Seja pela indiferença ao que se tem, e aonde já se chegou, fruto do costume de viver, que amansa e dopa a visão sobre nós mesmos, sobre os outros e acerca da realidade, contaminando-nos com o mais letal dos vírus, chamado de IAV, a Indiferença ao Assombro de Viver.

Doze Peixes e Um Gesto de Amor (Autor Ricardo de Faria Barros)

Chegamos à praia da Barra do Jucu, 40 KM de Vitória-ES, um tanto frustrados com a estada na praia anterior, na badalada Guarapari, chama de Praia do Morro.
 Naquela praia apinhavam-se umas mil pessoas que disputavam com os guardadores de guarda-sol, cada pedacinho de areia para se alojarem.
Não gostamos daquilo, daquele monte de gente dentro de uma lata de sardinha de faixa de areia de praia, e logo decidimos explorar alguma outra praia na volta.
Lembrei-me que tinha passado por uma placa que indicava a praia da Barra do Jucu. Gosto de praias de barras, geralmente formadas do encontro de um rio com o mar, produzindo um cenário muito bonito.
Pedi ao navegador, DJ e fotógrafo, o JG, que aprumasse o Waze em direção da praia, já que ficava na estrada de volta para Vitória mesmo.
Chegamos na praia e foi amor à primeira vista.  Aquela montanha rochosa que se projetava mar adentro, tornava aquele pedaço de praia quase uma rua sem saída.
Na praia, havia um monte de barquinhos de pesca, redes penduradas, crianças correndo livres, nenhum vendedor “de sombra” (ufa), e ainda ocorria um surreal leilão de peixes, à céu aberto. Fruto de uma puxada de rede, que recém houvera ocorrido.
No acesso às duas únicas barraquinhas, uma placa com um monte de latas penduradas nelas, saudava os visitantes com a expressão:  “Lixeirinhas compartilhadas. Chegou? Pegue! Já vai? Devolva!”
A ideia é que os próprios frequentadores coloquem seus lixos de praia nestas latinhas, devolvendo-as para coleta posterior. Genial!
Troquei umas ideias com os garçons que alternadamente nos atendiam, numa colaboração entre eles não tradicional, já que não dividiram a praia em setores. Quem estava disponível, e via o cliente erguendo as mãos, corria pra atender. Então fiquei sendo atendido pela Jamile, Weslei e o Baiano. Descobri com eles que se subíssemos pela encosta do morro chegaríamos uma praia só acessível de barco, e muito bonita, e que do alto do morro eu faria boas fotos. Descobri também que ainda haveria uma puxada de rede. Que consiste num barquinho que vai bem fundo, levando uma enorme rede, em cujas extremidades ficam longas cordas. O barquinho faz uma espécie de U, invertido, derrubando a rede no mar. Depois, da costa, dezenas de voluntários puxam a rede. Todos que ajudam ganham peixe e é uma festa só.
E fui ficando por ali, com olhos encantados e assombrados para a simplicidade e poesia do lugar, tão diferente da badalada praia anterior, que virou uma espécie de passarela e point comercial de beira mar.  
Tomamos nossa água de coco e fomos subir o Morro da Concha, como é chamado. De seu alto, avistamos a praia privativa, não de quem tem dinheiro, mas de quem escala o Concha, que mais parecia uma cena daquele filme a Lagoa Azul, e soltamos um Uauuu!!
Na subida, vimos o barquinho soltando a enorme rede no mar, e ficamos confiantes de que em breve veríamos a puxada da rede.
Voltamos para a barraca e pedi um peixe frito ao Baiano,  e um filé com fritas para o JG.
Quando Baiano já corria pra barraca, gritei pra ele voltar. Disse-lhe que não tinha visto arroz em nenhum prato do cardápio, mas se tivesse alguma pequena porção, que eles mesmos tinham trazido de casa, eu aceitaria um pouco dela para incrementar o almoço do JG.
 “Deixe comigo, em tentarei. E vou trazer também uma salada junto”.
Uns 30 minutos depois chega o Wesley com o peixe, e a Jamile com o filé com fritas e um arroz que de tão novinho ainda cheirava ao alho torrado junto .
Ela me diz que fez o arroz pra o JG. E meus olhos marejaram.
Com pouco chega o Baiano, com uma pequena caçarola, cheia de tomates cortadas rusticamente.
Era a salada que ele prometera. JG ama tomate, e eu também. E, aquela foi a melhor salada que comemos, embora só tivesse tomate, e o recipiente na qual foi servida, não se parecia muito com uma bandeja.
Não importa, ela tinha um sabor especial.  Entendedores entenderão.
Paguei um picolé pro JG, e pedi mais 3 picolés que levei para os simpáticos garçons. Era o mínimo que eu podia fazer, em retribuição.
Aí o espetáculo da puxada de rede começou. Um verdadeiro trabalho em equipe, com dois grupos de puxadores, cada um com umas 12 pessoas, que trabalhavam de forma sintonizada, fechando a rede e a puxando com força do mar.
Percebi que ficavam algumas pessoas em pé, próximo ao mar, e que elas iam reversando os que estavam localizados na ponta da corda, a que se conecta com a rede, dado que ali o esforço é muito grande pra um homem só aguentar por muito tempo.
A chegada da rede é uma cena indescritível de bela. E, ali mesmo, o pescado vai sendo dividido entre os trabalhadores da puxada, umas 24 pessoas, e com o dono da rede e barco, o pescador-capitalista.  Mas, todo mundo ganha seu peixe, quem puxa a corda, desde o início, leva peixe bom pra casa, e uns 5 quilos.
Mas, até pra quem só aparece na hora que o serviço fica mais fácil também ganha seu peixe. E até crianças e pessoas idosas catam os peixes de menor valor, tipo mini-sardinhas, que vão ficando espalhadas pela praia. Na puxada da rede todos são incluídos.  
O pescador Tiago, um dos líderes das equipes, aproximou-se de mim e explicou que aquela era a última do dia.  E que eles dão até 3 lances por dias, dependendo do vento e das marés.  Ele percebeu que éramos turista, talvez pelas fotos rsrs, e nos deu mais dicas do lugar. Nos convidando pra Descida do Mastro, festa de Samba de Congo, em louvor a São Benedito, que ocorrerá no domingo. Na despedida, ofereceu a hospitalidade da casa dele, para o caso de queremos pernoitar no domingo, após a festa.
Volto pra barraca, e JG para o mar. A esta altura ele já tinha se enturmado com um monte de filhos de pescadores, que juntos pegavam jacaré. A tarde vem caindo, tomamos uma gostosa ducha, daqueles chuveirões gratuitos de beira mar civilizada, e pedimos a conta.
Pedi que Wesley bote numa quentinha o resto do filé com fritas. Dará uma boa janta.
Logo depois, ele chega com as iguarias acondicionadas num saco plástico. E diz, na maior simplicidade e serenidade, que eles não têm quentinhas de isopor, mas que improvisou naquele saquinho.
Pensei comigo, e qual o problema? Tiras de filé fritas e batatas não vão estragar em mais 60 minutos de direção.  E valeu demais o gesto dele, solucionando meu problema.
Aí chega o Baiano com uma sacola plástica e diz assim: “É para o senhor levar, são doze peixes, do tipo pescadinha”.
Marejei novamente as pupilas da alma. Agradeci o gesto, pedi uma foto pra documentar a cena, disse-lhe que estava em hotel e não havia como levá-las para Brasília.  
E dirigi 60 minutos com o sabor daquele gesto que emoldurava meu ser de tanto amor que recebi, daqueles simples garçons, que sabem fazer a diferença, sendo o melhor para o mundo que possam ser, e não querendo ser os melhores do mundo.
Eles foram gratos com o que tinham. Ganharam picolés, devolveram com peixes.
Peixinho fresco, pescado na frente do estabelecimento deles.  Coisa boa.  
Mas, eles me deram mais que peixes. Eles deram uma aula de gratidão.  Uma aula de humanidade.
E de cuidado com o próximo e empatia com um pai querendo dá almoço pra um filho.
Quais doze peixes ofereceremos ao nosso próximo?
Como senti e expressar de forma mais concreta a gratidão? 
O que faremos para surpreender pessoas, para ir além do combinado, do convencional, encantando-as?
Como demonstraremos melhor o nosso respeito amor para com o outro?
Wesley, Baiano e Jamile sabem estas respostas, e as fornecem com os frutos de seu próprio trabalho.

Ps. Eles não cobraram pelo arroz e salada de tomates. 

Olhai as Tartarugas (Autor Ricardo de Faria Barros)

Este texto não é sobre tartarugas.

É sobre um monte de coisas que existem no oceano de nosso viver, coisas do tipo bacanas, que não as vemos, por não saber que existem, ou por ter esquecido de olhá-lhas. Até que alguém nos desperta para isto, e voltamos a ver o que nem nós sabíamos que existia de tão bom em nossa vida.

Frequento uma praia em João Pessoa-PB, há pelo menos 50 anos.
Eu e ela crescemos juntos. Posso até dar nome aos coqueiros e a cada reentrância da praia que se amolda ao mar. Nós a chamamos da Praia do Iate, em referência a um Clube Náutico que por ali existe, embora seja a Praia do Bessa I.
Mas, algo só me ocorreu neste veraneio. Acontece que minha irmã veio nos visitar e disse que uma tartaruga estava nadando bem perto dos banhistas, inclusive passando próximo ao meu sobrinho e cunhado, na praia do Iate.
Sempre soube que elas usam este trecho de praia para desovar, mas nunca tinha me passado a ideia de que elas ficassem na área, dando uma nadada boa. Enquanto esperam a hora, nas luas cheias de janeiro, fevereiro e março.

Depois do almoço com a mana, fui até mar, com o firme propósito de nadar com elas. Mas, não as encontrei.
No outro dia, fui ver o sol nascer da praia, e eis que uma tartaruga emerge para respirar, bem na prumada do sol que eu via nascer.
A partir daí, transformei-me em observador de tartarugas. Sei até o melhor horário para vê-las, das 5h às 7h. Até criei minha própria técnica para ter sucesso na observação de tartaruga. Nada de ficar passeando a vista no imenso mar à minha frente. Isto só diminuirão as chances.

É preciso se concentrar num único ponto. E esperar, esperar e esperar. Como elas passam um bom tempo nas profundezas, flagrá-las emergindo, e acertar o local, torna-se quase uma loteria. Então, é preciso acreditar que naquela faixa do enquadramento do olhar, mais cedo ou mais tarde, ela aparecerá.

Confesso-lhes que estas férias têm tido este sabor especial.

Então, algo mudou em meu ser. E, foi uma mudança profunda, estrutural. Todos os dias, bem cedo, aprumo a vista para vê-las nadando. Não é coisa fácil, exige paciência, foco, disciplina e até sorte. Hoje um banhista, apanhador de nascer do sol, quis até me acompanhar, mas logo desistiu. Disse que elas não apareceriam. Eu lhe falei:

- Senhor, elas estão ali naquele mar, têm muitas tomando o café da manhã neste momento. E não é o fato de não as vermos que elas não estão lá.

Ele, deu de ombros, sem entender muita coisa, e continuou sua corrida matinal.
O que houve em mim, do ponto de vista cerebral, com a nova perspectiva das tartarugas?
Eu remodulei os pensamentos, emoções e comportamentos, em função delas.
E tornei-me mais presente, criando as condições para que minha percepção selecione qualquer mudança de tonalidade, ou agitação, na lâmina d’água que possa facilitar nosso encontro.
Engraçado que a competência de observar as tartarugas, a partir de um toque que minha irmã me deu, ocorre com um montão de coisas que estão passando no oceano em nosso viver.
Às vezes só precisa que alguém nos apoie na remodulação de nosso olhar, sobre o oceano de nosso viver.
É uma escolha. Quantas coisas bacanas estão ocorrendo lá no interior de nosso mar, e que não as reconhecemos?
Mas, esta escolha exige mudança de modelo mental. Exige uma mudança de perspectiva, de enquadre.
É preciso que tomemos consciência, fruto do autoconhecimento, e que passemos a nos tornar observadores de coisas boas.
Imagine que nossa vida seja como este trecho de mar da Praia do Iate. Imagine que avistar uma tartaruga nadando é uma coisa que causa bem-estar.
O desafio que se faz presente, nos tempos atuais, é encontrar nas profundezas de nosso oceano interior as tartarugas.
Isto exigirá paciência, foco, determinação e muita constância de propósitos, mas valerá a pena.
Há muitas pessoas na humanidade fazendo este caminho. Pessoas que se cansaram com o vazio existencial da coletividade, com uma sociedade escrava do consumo e da agitação.
Pessoas que aprenderam a observar tartarugas.

Ter pais vivos podem ser boas tartarugas a observar. Ter um lar, uma família. Ter filhos, um trabalho, ter saúde, ter um animal de estimação, ou um amor pra chamar de seu. A lista é grande de “tartarugas”.

Que estão ali, mas que deixamos de vê-las por ignorância, mágoas, ressentimentos, falta de perdão, ou até mesmo de percepção do bem que nos fazem.
São coisas que para serem apreciadas, valorizadas e reconhecidas precisarão ser libertas das correntes da indiferença, rotina ou da falta de gratidão.
Por 50 anos eu via aquele mar, com olhos normais. E, olhos normais não acham coisas especiais. É preciso olhos encantados e assombrados, com o dom de viver, para achar o belo, o bom, o virtuoso escondido em meio ao caos e a perplexidade dos tempos atuais.

Mas, é uma escolha. E racional. Podemos passar o dia reclamando do que não temos, sendo rabugento com quem nos aborda. Fazendo aquele tipo de achar que “nada está tão ruim, que não possa piorar”. Ou o tipo que vive agitado, pilhado, cheio de ansiedade e que busca o sentido na vida, ao contrário do sentido da vida.

Mas, também podemos começar a cultivar uma vida mais simples, mais desapegada, com menos tralhas emocionais a carregar. Uma vida mais empática, solidária e mais coletiva. Uma vida mais leve, de mais amorosidade, autoconhecimento, de busca pelo crescimento interior, de um maior cuidado com o outro, e o consequente respeito.

São estas pessoas que observam as tartarugas.

E, eu quero treinar minha modulação cerebral para ser como elas.
Há coisas boas ocorrendo no oceano de teu ser.
Preste mais atenção, esteja mais presente, e não desista de si mesmo só porque ainda não achou as tartarugas. Calma, tenha foco, persistência e fé. Logo as verá em vários lugares de teu viver. Acredite.
Mas, é uma escolha. E racional.

Este texto não foi sobre tartarugas.

Foi sobre tanta coisa boa que existe no oceano de nosso viver que não mais as percebemos, valorizamos e nos satisfazemos com elas. Até sentir sua falta, num dia comum, daqueles que andamos cegos e indiferentes, ofuscados pela rotina cotidiana, no qual algo nos ocorre e as perdemos. Aí sentimos sua falta. Afinal, como disse Freud, o desejo é o alvo da falta.

Abra o cofre de teu viver ao simples! (Autor Ricardo de Faria Barros)

Era uma manhã de domingo, e o dia prometia uns bons passeios na cidade de Vermilion, em Alberta no Canadá. Naquele dia, um turista resolveu visitar o museu da cidade, no qual havia um velho cofre, fechado há 40 anos.
Ocorre que o cofre pertencia a um luxuoso hotel da região, e o único funcionário que sabia o segredo de abri-lo faleceu, subitamente, sem compartilhar esta informação.
Então, o cofre, junto com o mobiliário antigo do hotel, passou a integrar o acervo do museu. E, todos que o visitavam faziam fila par tentar abri-lo. O que se tornou uma atração à parte daquele museu.
Um cofre daquele modelo possui um mecanismo que geralmente pode ter até de 2 a 6 combinações numéricas de giros à direita e à esquerda. O que, na melhor das hipóteses, fornece uma probabilidade de 1 em 8.000 tentativas.
E, aquele turista acidental foi o predestinado da vez. Ele aproximou-se do cofre, entrou na fila dos que tentavam abri-lo, e, com uma combinação surreal de tão simples: 3 – 2 – 1 (três direita, 2 esquerda, 1 direita), ouviu o estalo do mecanismo se abrindo.
Todos ficaram espantados com o feito, e o assunto virou matéria do jornal local.
Dentro do cofre, havia uma “caderneta de fiado”, com as comandas dos pedidos dos hóspedes feito ao restaurante, para anotar em seus apartamentos, e um contracheque de um dos funcionários do hotel.

A reportagem disse que não havia tesouro algum naqueles documentos, o que eu discordo.
Creio que há belas mensagens na solução deste enigma.

A primeira delas diz respeito à simplicidade, ao retorno às coisas mais puras, serenas e amorosas. Tem algo melhor que conversar na calçada? Ou receber amigos em casa? Ou caminhar pela beira mar? Ou sentir a Brisa Aracati te abraçando e arejando, numa sufocante manhã?

Tem algo melhor que ninar um filho? Ou cuidar de uma pessoa? Ou regar uma planta? Ou passear com um animal e estimação?
Tem algo melhor do que ouvir as histórias de nossos pais, repetidas mil vezes, e com a mesma intensidade amorosa que nos contam?
Tem algo melhor do que receber alta num hospital? Ou saber que o salário deu pra pagar as contas do mês?
Tem algo melhor que dormir em paz, por não ter feito ninguém infeliz no dia?
Tem algo melhor que a sensação de ter ajudado alguém?
Tem algo melhor do que se sentir amado?
Tem algo melhor do que amar?
Tem algo melhor que uma comida caseira? Ou prosear na cozinha?
Tem algo melhor que sentir que as pequenas metas que estabelecemos para nós próprios estão sendo alcançadas?
Todos estes pequenos prazeres são o 3-2-1.
O 3-2-1 é o complexo do simples. É onde mora nossos afetos positivos. O 3-2-1 é libertador. De toda aparência que precisamos usar para nos sentir aceitos. De toda arrogância de qualquer saber que precisamos destilar para nos sentir importantes. Ou de todo poder que precisamos expressar para nos sentir aquele cara.
Andamos procurando a felicidade em lugares complexos, em desejos e ambições enormes, em expectativas superdimensionadas.
Creio que a felicidade é um 3-2-1, que significa resgatar os prazeres das coisas simples, humildes, despretensiosas, como tomar banho de chuva, ou participar de um grupo de amigos que se reúnem para uma determinada causa, ou até do Terço dos Homens.
Não importa o que seja, cada vez me convenço mais que a felicidade mora ao lado, contudo nem sempre é vista, acolhida e saboreada.
Precisamos com urgência voltar a cultivar o simples. Eu falei que havia outras mensagens no cofre, não percebidas pelos matéria do jornal.
No cofre tem dois documentos que expressam a saga da humanidade. Tem um holerite, ou contracheque, e tem um bloco de pedidos de um restaurante.

Creio que aí temos a metáfora do Pão e da Beleza. O Pão do trabalho nosso de cada dia, do valor de nosso esforço, que nos permite ao final de um mês receber os proventos.

A beleza de poder usufruir dos frutos de nosso trabalho, seja numa comanda de um pedido de um prato, comido fora.
Comer fora é a expressão mais popular de lazer. Lembro das vezes que eu saia pelos bairros de Campina Grande-PB, aqueles mais populares, procurando locais que servisse uma comida a preço justo, saborosa e farta.
Os meninos faziam festa. Lembro da Pizzaria La Júlia, no bairro do St. Antônio, que servia uma pizza gigante a uns módicos 20 reais, com direito a um refri de 2 litros. E aquilo fazia a festa de minha filharada de 3 rebentos.
Lembro também de meu primeiro contracheque, do BANORTE, um Banco de Pernambuco.
Olhei fixamente para aquele papel. Tinha um monte de informações, até então desconhecidas por mim.
Ao retornar pra casa, com aquele papel no bolso, senti-me o mais importante ser do mundo. Era o meu salário, fruto de meu esforço, e que não era pouco como compensador no turno da madrugada.
Passei numa loja de eletrodomésticos, comprei uma radiola, um jogo de cadeiras de terraço, assinei umas promissórias, dando como garantia o contracheque, e segui altivo caminhando para casa.
No sábado, meus primeiros bens, adquiridos com meu próprio dinheiro, chegaram em minha casa. Casei às pressas, aos 20 anos, e quem montou meu cafofo foram meus pais, com a suada poupança que fizeram ao longo de mais de 40 anos de trabalho no Senai.
Então, ver aquela Kombi chegando com minhas cadeiras e radiola, deu-me a sensação de que eu estava progredindo. E tem coisa melhor do que esta sensação?
É pessoal, este cofre tem três mensagens para nossa vida.

O valor da simplicidade, o valor do trabalho e o valor de tudo aquilo que podemos fazer com os seus frutos, até comer fora, nem que seja uma vez por ano. Ou comprar um conjunto de cadeiras de terraço.
Nesta sociedade tão materialista, individualista e ambiciosa, que sempre quer mais e mais, parece que os encontros verdadeiros conosco mesmo, os que nos darão uma satisfação mais duradoura e melhor, habitam nas coisas cotidianas: na simplicidade dos afetos do existir, no trabalho e no poder usufruir de seus fritos – e também na simplicidade deles.
Que tal usar uma 3-2-1 e abrir teu cofre e passar a perceber o que tem dentro dele de forma mais intensa e melhor?
Podem ser teus filhos. Teus amigos. Tuas conquistas. Teu parceiro (a) afetivo. Teus pais. Tua empresa.
E tua vida...

Sim, 321 também é o número da casa de meus pais, lugar de afetos quentinhos, de presença de Deus, de simplicidade do aconchego, de quintal de encontros, de encontros fraternos e de cozinha amorosa. Lugar de amor, que acostumamos a chamar de Lar.


Para uma vida mais feliz, precisamos diariamente tomar um AAS. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Na noite anterior, eu e o JG (João Gabriel) fizemos os preparativos para uma viagem até Goiânia-GO. Eu iria palestrar no Hospital das Clínicas da UFC, e aproveitaria para passear com o JG que está de férias.
Malas arrumadas, check-list feito, material da palestra conferido, power-point na nuvem e no pendrive. Agora era a hora de dormir.
No outro dia, acionamos o WAZE e o JG assumiu a navegação.
Pegamos a BR 060, com trânsito intenso de ambos os lados, contudo no sentido de Brasília a intensidade era dobrada.
Aos poucos, conseguimos atravessar os trechos mais lentos e galgamos os piores 20 km do trajeto, agora restavam 180.
Mentalmente começo a conferir o check-list.
Escovas, pente, desodorante? Ok. Material palestra, cartões e livros? OK.
Paletó? Xiiii, esqueci!
Esqueci a mala do paletó, e na que levava, só havia bermudas e camisetas. Pegamos o primeiro retorno, e voltamos, agora enfrentando um verdadeiro caos que é a chegada da BR 060 para Brasília.
JG mangava e sorria de meu esquecimento. Eu, nem tempo pra ficar bravo tinha. Dado a atenção que precisava focar no trânsito.
Chegamos em Goiânia esbaforidos de calor, já pelo meio dia e tanto. Ao entrar na cidade nos perdemos, mesmo com o WAZE, e o JG morria de rir com a voz dizendo: “Recalculando Rota”.
Finalmente chegamos ao Hotel, que fica na movimentada Avenida Anhanguera. Desfizemos as tralhas, pedimos um UBER, melhor assim, e nos dirigimos para um clube antigo da cidade, que tem um monte de atrações e piscinas, o Jaó. Eu tinha tempo, a palestra seria no dia seguinte.
Chegamos no JAÓ e fomos barrados na entrada. Ocorre que eles não têm mais o serviço de day-use. Aquele que pagamos uma taxa pra usufruir determinado local, por um dia. A informação que acessei num site de turismo estava desatualizada.
Eu e o JG nos entreolhamos, suados e decepcionados. Então, da portaria mesmo, decidimos ir almoçar numa das maravilhosas churrascarias de Goiânia. Chamamos o Uber e quando ele perguntou pra onde, botamos o nome Churrascaria, aparecendo as mais próximas primeiro. Escolhemos uma com nome estiloso, a La Pampas.
Após dois cancelamentos, finalmente o terceiro Uber aceitou a corrida e nos resgatou, uma meia hora depois. Esperada na calçada e no mormaço.
Silenciosos, cansados e com fome esperávamos ansiosos desembarcar na La Pampas.
E isto ocorreu. Só que ao nos dirigirmos à porta de entrada, percebemos que a mesma estava fechada. E, pela poeira e papeis jogados por baixo da porta, já fazia uns meses.
Seguimos para o hotel, e já era perto das 15 horas. Perguntamos à atendente se tinha almoço, e ela nos falou que como hotel era pequeno, o serviço de restaurante já estava fechado, só estando disponíveis o de lanches rápidos.
Aí, olhei para JG e apontei para a pequena piscina, de águas azuis convidativas, e sem pestanejar mergulhamos nela. Primeiro iriamos matar o calor e o suor, depois ver o que iriamos afina comer.
Nem 5 minutos se passaram, e eis que nuvens carregadas se aproximam, trovões espocam ao longe. Aí começa a pingar e saímos de dentro d´agua, por precaução. JG gargalhando dizia: “Que dia, heim pai!”
Eu respondia, pelo menos estamos no hotel. Poderíamos ter pago caro no JAÓ e estarmos agora tendo que sair das piscinas.
Nos enxugamos, e quando preparávamos para ir ao quarto, uma senhora se aproxima. Ela pergunta se queremos almoçar. Alegres, respondemos que sim.
Ela disse que é a cozinheira e que soube de nossa fome. Que poderia fazer uns bifes com arroz e uma salada para nós, e em menos de 30 minutos. Topamos na hora. E ficamos emocionados com o gesto dela. E, foi o melhor bife com arroz que comi na vida. E o JG idem. Aliás, nunca vi o JG com tanto apetite, nestes dez anos que já fez. Vagando em mil pensamentos, processando o dia, saquei que na vida, para ser mais feliz, muitas das vezes, é preciso aceitar, acolher e seguir caminho, sempre que algo não ocorre conforme planejamos.
Fiquei com aquilo matutando por muito tempo. Aceitar. Acolher. Seguir. Lembrei que as iniciais destes verbos formam o acrônimo do AAS, santo remédio infantil. Um AAS curava tudo. Chamávamos, à época, de Melhoral infantil.
Acho que ela está muito certa. Precisamos de um AAS diário para ter uma vida de mais harmonia, bem-estar, paz e felicidade. Vejamos mais um pouco do que se constitui este AAS existencial:
A de Aceitar. E este é o primeiro Portal da transformação do ser, em sua jornada de crescimento. Aceitar nosso corpo. Aceitar que não ganhamos todas. Aceitar que as pessoas nem sempre são o que esperávamos que fossem. Aceitar nossa família. Aceitar que os filhos não nossos bens. Aceitar nosso trabalho. Aceitar uma doença crônica que nos sobreveio. Aceitar que amores se vão. Aceitar nossa posição social. Aceitar que dias ruins ocorrem. Aceitar que não temos controle sobre tudo. E que algo, mais cedo ou mais tarde, poderá sair diferente do que esperávamos.
A de Acolher. E este é o segundo Portal, que se só se chega a ele após atravessar o do Aceitar. Acolher a dias cinzentos. Acolher momentos de luto. Acolher partidas e despedidas. Acolher o que pensa diferente. Acolher o outro em sua essência, para além das aparências. Acolher aquilo que em nosso colo cai, sobre e o que nada podemos fazer, nada podemos mudar, a não ser a nós mesmos, diante daquilo que nos ocorreu. Acolher é uma postura contemplativa diante da vida. Não é de acomodação, nem alienação. É de gratidão. Gratidão por dias bons, por dias ruins. Gratidão, apenas por viver. Quem acolhe se abre à gratidão.
S de Seguir. E aqui temos o terceiro Portal, que na verdade é um caminho. Que só se chega até ele depois dos anteriores: Aceitar e Acolher. Seguir caminho. Refazer-se juntando os mil cacos. Fazer germinar novos sonhos, semeados em terreno irrigado com as mil lágrimas choradas. Seguir é fechar as janelas de mágoa, culpa, ressentimento e sofrer e não olhar ais para trás. Perder o vício de ficar sempre olhando pelo retrovisor da vida, lamentando-se do que deixou pra trás, do que perdeu, do que não viveu. Seguir é postura dos sobreviventes. Dos fortes e corajosos. É preciso muita força de espírito, muito ânimo, para ousar seguir um novo caminho. Mas, seguir preciso. Não é possível crescer ficando na posição de vítima, desilusão ou decepção com o viver. É preciso fornecer respostas à vida, no lugar de ficar apenas esperando respostas dela, e a isto chamamos de seguir o caminho.
Aceitar, Acolher e Seguir, são nosso Melhoral existencial. Uma vida mais feliz e prazerosa passa por estes verbos de posturas ativas tão sábias. Aprendendo eficazmente, e com inteligência emocional positiva, a lidar melhor com situações adversas, a enfrentar momentos tensos e a se relacionar com as quebras de expectativas, imprevistos e fatalidades, como um paletó esquecido, um clube para nós fechado, uma churrascaria falida e trovejadas que nos expulsam da piscina.

Na foto, o JG pulando na piscina, antes do temporal chegar.

Cuidado com o que em ti se enlaça. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Arfando entre um passo e outro, já chegando na metade de minha meta de 4 km dia, sinto um aroma gostoso que se mistura ao do orvalho da manhã.
Ele vem de um Manacá de Cheiro (ou de jardim), cheio de suas florezinhas brancas e lilás.
Dirijo-me a ele, para respirar aquele perfume e me animar para terminar os quilômetros que faltam da matutina caminhada. Eis que vejo que algo ocorre com aquela arvorezinha tão bela e florida.
Sua copa está completamente tomada por uma trepadeira, chamada de Erva de Passarinho. A infestação é tão grande que mal sobram espaços para as folhas tomarem sol e as flores florescerem livremente.
Começo a tirar, manualmente, aqueles cipós que se enramam no Manacá. A tarefa é difícil, eles crescem rápido, e basta que fique um deles apenas, e novo invasor se propagará.
As raízes da de Erva de Passarinho se alimentam da seiva dos galhos e folhas, não precisando de terra para se nutrirem.
Um jardineiro do prédio passa a máquina na grama, indiferente ao sofrer do Manacá.
Estabeleço contato com ele e o mesmo me diz que só mata com veneno.
Na minha terra o nome disso é preguiça, pensei...
Retiro mais alguns raminhos invasores e sigo para os quilômetros que faltam.
E tem sido assim, nossa amizade, a minha e a daquele Manacá, e a cada manhã ela se renova.
Ele me dá o perfume de suas flores, eu paro uns minutinhos e retiro, a mão mesmo, as Erva de Passarinho mais visíveis e acessíveis.
Podemos até não vencer esta guerra contra elas, e o jardineiro estar certo, mas eu e o Manacá sabemos que as de Ervas de Passarinho não estão aumentando de tamanho, e já deixas suas folhas, galhos e flores respirarem melhor e tomarem chuva e sol nas faces.
Quanto ensinamento deste Manacá de Cheiro, sufocado pela de Erva de Passarinho, nos inspira.
Quais são as de Ervas de Passarinho que andam se fixando em nossas folhas, flores e galhos?
Roubando de nós a seiva de viver? Tirando-nos potencial de florescer, ao nos asfixiar e nos usar para seus próprios interesses.
Quais pássaros humanos pousam em nosso viver e depositam em nós coisas ruins, que poderão germinar, crescer e tirar a nossa força vital?
Então, este belo e cheiroso Manacá, na sua relação de amizade comigo, tem algo a nos ensinar.
Às vezes alguém em nossa vida, um amigo, um parente, um filho, um cônjuge, pode fazer este papel que eu tenho feito, a cada manhã.
Estas pessoas podem nos ajudar a tirar de nós as Ervas de Passarinhos que nos fazem mal.
Elas podem nos reconhecer, no lugar de nos criticarem.
Elas podem nos estimular ao nosso melhor, no lugar de dizer que de nós mesmos nunca sairá nada de bom.
Sabe gente, às vezes de tanto levar pancada da vida vamos achando que não somos amados, ficando ressentidos, ou resignados, e murchando. Aí, um belo dia, alguém de nós se aproxima e diz que nos ama, que acredita em nós, que nos protege e admira. Uauu, é como se de nós tirassem um monte de Ervas de Passarinho que se enroscaram nosso ser. E uma brisa Aracati muda nossa vida, faz-nos florir e perfumar novamente. Não é assim que funciona?
Têm pessoas que ao entrarem em nossas vidas, deixam-nas melhores até do que nós mesmos ainda acreditávamos ser.
Elas podem ver flores e perfume que ainda temos, e que por estarmos tão sufocados com os galhos invasores que sobre nós fizeram raízes, não percebemos mais.
Estas pessoas poderão nos ajudar a voltar pra casa, a nos reencontrarmos conosco mesmos. A resgatar valores esquecidos e a voltar a acreditar em nosso potencial de florescimento.
Precisamos destas pessoas para nos ajudar a tomar decisões, a enxergar o que não vemos mais, por estarmos tão envolvidos com a situação.
Precisamos de pessoas nas quais confiamos para arrancar coisas que nos oprimem, para cuidar de nós, par nos proteger, para não deixar sermos usados, assediados ou oprimidos por Ervas de Passarinho em forma de gente má e perversa.
Também temos estas pessoas, arrancadoras de Ervas de Passarinho sufocantes, dentro de nós mesmos.
Embora a voz delas nem sempre apareça, ou quando aparece, nem sempre a demos ouvidos, elas estão lá, no mais profundo de nossos pensamentos, consciência e emoções.
É quando dizemos a nós mesmos que chega de nutrir aquela mágoa antiga, aquela inveja mórbida, ou aquele ódio insano, que viraram Ervas de Passarinho e tiram nosso perfume e vigor.
É quando dizemos a nós mesmos que somos melhores do que isto tudo que está aí. Inclusive daquilo que dizem de nós.
É quando dizemos a nós mesmos que é chegada a hora de mandar partir quem já não nos faz bem, mesmo que nos dê uma falsa segurança, a do conforto de gaiolas.
É quando damos um grau na nossa autoestima e não permitimos mais que alguém a diminua. E nos aceitamos, como e quem somos, num pacote autêntico, sem precisar representar personagens para sermos aceitos.
É quando dizemos aos nossos filhos que eles precisam viver a vida deles, sem, contudo, esquecerem de nós, e nós deles.
É quando nos livramos de toda forma de amar codependente, exigente e asfixiante.
É fácil?
Não meus amigos e amigas. O Manacá nem percebe que está morrendo aos poucos. Ele não consegue se ver de onde o vi, todo enramado pela trepadeira assassina.
Também acabamos vivendo situações que vão chegando devagarinho, e nos acostumamos à pequenez delas. É aquele profissional que aceita ser tratado de forma desrespeitosa pelo seu gestor. É aquela pessoa que aceita migalhas de amor, com medo de ficar sozinha. É aquele indivíduo que acreditou que nunca seria alguém na vida, e não mais se esforça pra galgar suas melhoras.
Não é fácil crescer sem as ervas daninhas que se colam ao nosso existir e roubam-nos a força.
Mas, é possível e será uma luta até o fim.
Como disse o jogador do Flamengo, o Bruno, ao comentar uma bela e importante vitória, na qual o time perdia e faltava uns 8 minutos para encerrar a partida: “No vestiário dissemos, vamos até o fim”.
E é uma bela analogia para a luta pelo nosso crescimento existencial, ir até o fim. Sempre haverá coisas a trabalhar em nosso amadurecimento, e aprendizagem, na escola da vida.
Sempre haverá uma voz da consciência, em forma de angústia, dizendo-nos que algo não vai bem e que precisamos sobre aquilo atuar.
Sempre haverá um amigo, uma pessoa em quem confiar, que por amor chegará até nós e nos ajudará a sermos melhores, depois da passagem dela em nosso viver.
Querido Manacá, resista ao sufoco e anemia, pela seiva que lhe é roubada!
Amanhã tirarei mais invasoras de seus galhos, folhas e flores, e não estarei só. Estarei com cada um que chegou até aqui nesta minha crônica.
Agora vou ali, tirar novas Ervas de Passarinho de minha alma.
Vem comigo, pode até doer na hora, mas depois ficaremos bem melhores.

Sequestradores Digitais da Atenção (SDA), por Ricardo de Faria Barros


Na caminhada matinal, uma babá se distrai ao celular, enquanto gêmeas, de uns 4 anos, brincavam sozinhas no cercadinho da quadra de esportes.
Mais à frente, a situação se repetiu: seja com um gari, que entre uma vassourada e outra acessava suas Redes Sociais, e até com uma passeadora de cachorros, que languidamente parou o serviço, sentou-se num banco, e foi acessar o celular.
Os Sequestradores Digitais da Atenção (SDA) são um fenômeno mundial e seus impactos comprometem à produtividade, os estudos e até o desenvolvimento da socialização e empatia.
Cada vez mais sofisticadas, as Redes Sociais operam na mesma perspectiva das drogas e podem viciar.
A pessoa sente uma ansiedade enorme de checar as curtidas, de ver o que ocorre na vida dos outros, ou até mesmo de expor seu dia a dia, nutrindo as expectativas de seus seguidores, e recebendo reforços positivos às postagens.
Facebook, Instagram, WhatsApp podem ser classificados como líderes no negócio dos SDA, e correndo ao lado temos os GAMES.
Enquanto digito esta crônica, escrita na mesa de um dos bares mais famosos de Brasília, o Libanus, que já tem 30 anos de casa. Percebo que à minha frente quatro pessoas acessam suas redes sociais. É uma sexta-feira, perto do meio dia.
Nenhuma delas está prestando atenção ao redor. Nem fizeram algo que era tão comum em bares, que era cumprimentar as mesas vizinhas, socializar.
Está cada uma delas em seu mundo virtual, enquanto o mundo real ocorre ao lado.
Role a tela do Facebook e você terá diversão para umas horas. Role a tela do Instagram, idem. Tente ler, e responder, as mensagens de seus contatos do Whats e terá mais uns bons minutos de entretenimento.
E a vida vai se tornando algo digital.
Os SDA sabotam a percepção do que ocorre ao nosso redor. Um pássaro que gorjeia, que pelo canto deve ser um João de Barro. Um caminhão de cerveja que tomba na rotatória, derrubando uns 4 engradados no chão. Crianças que tentam tirar uma bola que ficou em cima do toldo do Libanus. Um pai que volta com os filhos da escola, trazendo-os na cadeirinha da bike, cena mágica.
Nada disto foi percebido pelo pessoal da foto.
Quantos livros estamos deixando de ler para acessar o Instagram? Quantos filmes? Quantos diálogos? Quantas caminhadas, aventuras e experiências presenciais?
Quanta vida lá fora, no mundo não digital, estamos deixando de viver, por termos deixado nos seduzir por migalhas digitais de afeto? Nos tornando escravos de curtidas, checagem de postagens, e presença online no ZAP.
A coisa anda tão séria, que uma pessoa manda uma mensagem urgente pra você no ZAP e é como exigisse que você a respondesse logo, e na mesma velocidade, como se tivesse o dever de estar conectado com ele. Ninguém telefona mais pra ninguém, perceberam?
Vivo isto em casa. Meu JG, dez anos, está acessando demais os games de celular.
Tenho me esforçado para incluir outras áreas de prazer na vida dele, mas é uma luta desigual.
Os games são produzidos para gerar dependência. São troféus recebidos, são fases conquistadas, bônus, vidas, disputas, moedas virtuais e até pessoas que jogam junto, on-line, e que reforçam a dependência.
Outro dia o chamei para ver um dos lançamentos de filmes de Natal da NETFLIX, chamado KLAUS, e foi difícil mantê-lo atento.
A ansiedade que a consulta às redes sociais e games provoca, gerando hormônios da oxitocina e dopaminas, acaba por provocar um estado de completa apatia, a tudo que não opere na mesma velocidade, e na pegada das “rodadas de tela”.
E estamos adoecendo de atenção sequestrada digital. Perdemos o interesse em nos conectar em tudo que não seja digital.
E a vida vai passando, e sem replay, e nós vamos ficando com sequelas na cervical e dedos das mãos, de tanto reclinar o pescoço para tela e de tanto digitar.
Mas, a maior sequela não será esta. Será a de uma vida que passa ao largo, sem ser percebida, como o canto de um pássaro, a música que toca, a brisa que alisa a pele, o trovão que ecoa ao longe, o burburinho de um bar, ou a fisionomia sorridente de um garçom que te atende. E, sem falar na comida que comeu, que de tão ligado nas Redes Sociais, amanhã nem lembrará o que foi.
Como podemos nos ajudar?
Primeiro, partindo de uma autoconsciência da qualidade do investimento do capital tempo em nossas vidas.
Depois, tomando medidas preventivas ao vício digital, como as sugestões abaixo:

a. Retirar todas as notificações automáticas de mensagens, inclusive dos Games.

b. Criar rotinas, mais espaçadas de tempo, para checar o que ocorre no mundo virtual.

c. Ressignificar outros prazeres para distrair, ou ocupar o tempo.

d. Reaprender a fazer conexões reais: com o porteiro do prédio, com o vizinho, com os amigos, com a família, deixando de lado nestes momentos a ansiedade de teclar.
Estando inteiro e presente ao encontro.

e. Experimentar ligar para as pessoas ao invés de mandar mensagem. 
Tire um dia para isto. Escute a voz dela, perceba que em uma mensagem de texto você não sente a sua a voz, e melhor ainda é se puder visitá-la.
O texto não tem tonalidade, gesto, expressão... e não se sabe a ênfase de uma frase.  Só a voz acalma e liberta. Como é bom ouvir a voz de minha Brisa Aracati...

Uso as próprias redes sociais, com um sorriso maroto no rosto, para divulgar este texto. Sabotando-as, ao desafiá-las para que não dominem o nosso viver, ao criarem um mundo Matrix para habitarmos, repletos de youtubers, curtidas, seguidores, Zaps, Instas e Faces, carentes de um clique sequer.

Nas promessas para o ano novo, inclua um detox digital. E verás o quanto de coisas bacanas ocorrem, no mundo real, enquanto tu estavas fixado na rolagem das telas de um celular de última geração.

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