Conectados, mas sós?










Era uma noite de céu incrivelmente límpido no centro de São Paulo. Na programação, iríamos conhecer o restaurante Terraço Itália, no 42. andar de um prédio no Centro da cidade, na Av. Ipiranga. O segundo edifício mais alto do Brasil, com 165 metros.

Ao chegarmos, um frisson nos acompanhou desde a entrada monumental do local. Era um lugar lindo. Em cada mesa uma vela e flores. Casais apaixonados conversavam pertinho. Um lugar que convidava ao enamoramento, charmoso, envolvente e romântico. Como chegamos na abertura da casa, às 20h30min, pegamos uma mesa bem posicionada, que nos dava uma ampla visão externa e um bom acesso à pista de dança.

Às 21hrs começou a tocar a banda do Elizeu Storion, um show à parte. Sua voz supera finda e rouca lembrava Rod Stewart.
Tudo perfeito.
Antes das 21h30min, todas as mesas já estavam ocupadas, em sua maioria por casais. 
Pedi um bom vinho para esposa e fiz a degustação de todas as cervejas da casa. Não gosto muito de vinho, desculpe se te magoei. 
Não nos cansávamos de olhar a noite de SP, os prédios iluminados, as grandes avenidas tomadas por carros num frenético vai e vem.
São Paulo exala vida e nunca dorme.
Vez por outra helicópteros passavam bem perto das janelas de vidro do lugar, como que a brindar seus ocupantes com a visão da banda e do local aconchegante.
Nossos vizinhos de mesa chamaram nossa atenção.
Todas as vezes que passávamos por eles, em direção à pista de dança, nos chamava atenção o fato de que em plena noite romântica cada um operava o seu iphone. 
Não, eles não estavam brigados. Sim, eram namorados, flagramos um beijo. 
O barato deles era teclar nas suas redes sociais, e vez por outra trocarem entre si os celulares, prova inconteste de confiança e amor. Amor em tempos de WEB. 
Aí, cada um deles via o que rolava na página do outro, davam risadas, e destrocavam os celulares.
Ainda bem que não sentaram perto da banda do Storian, ele teria infartado de desgosto. Indiferença mata.
Quem sou eu para julgá-los? Embora esta foto seja emblemática e ilustre o que víamos.
No outro dia fomos ao teatro, e até o final do primeiro ato, tinha gente à nossa frente “narrando” o espetáculo no seu face-celular. 
Poucos viram do ato em si, concentrados que estavam em expor algo, postar algo, comentar talvez o que estavam fazendo.
De cabeça baixa, perderam a cena da mulher que vestida de noiva relatava na abertura da peça as desventuras dela ao ter se casado com o “traste” do seu marido (Peça Casal TPM). 

No retorno ao trabalho relatei o fato e os amigos disseram-me ser cada vez mais comum este comportamento em todos os locais de ajuntamento humano: b
ares, igrejas, estádios de futebol...
Segundo um deles, um dia desses ficou ao lado de uma mesa com três moças e dois rapazes, todos conectados em suas redes sociais, um silêncio entre eles de dá dó, só cortado por uma ou outra “apresentação da tela do celular” e do que ali rolava para o restante do grupo.

Muita banda larga digital e pouca humana. Conectados, mas sós!
Não se apresse em me julgar quadrado, fora dos tempos modernos. Sou virtual e de muitos tempos atrás, desde os chats do ZAZ. Ou das RBS. 
O que me preocupa é se estamos perdendo a capacidade de conversar, sem ter que editar o texto. De expressar emoções, sem ter que retocar a cena.
De sermos nós mesmos, autênticos, sem virarmos co-dependentes digitais do que o outro acha de nosso post, foto, crônica (como esta), de nossa viagem, etc.!
Preocupa-me o desaprendizado em estabelecer vínculos afetivos reais, quando a presença real está tão próxima que daria para abraça-la, ou tocá-la com nossa mão estendida.
Vivemos o reinado do curtir, comentar, compartilhar, num narcisismo digital que Freud não imaginou que pudesse acontecer.

Haverá o dia que nascerá uma nova especialidade de psicologia, psicologia digital.
No link abaixo, a doutora Sherry Turkle analisa como os nossos dispositivos e personalidades online estão redefinindo conexão humana e comunicação -- e nos pede para pensar profundamente sobre os novos tipos de conexão que queremos. Depois de ler o texto clique abaixo para ver o vídeo, legendado:

Conectados, mas só?
Vale cuidar para que a banda não fique tocando sozinha, os casais dançando, e você vendo a vida passar pela tela de um aparelho qualquer.Descobrimos que nosso garçom é do Ceará, chamava-se Rocha. Descobrimos que gostamos de dançar, mesmo sem saber direito.
Descobrimos que o prato mais suculento é o menos pedido, um Carré de Cordeiro.
Descobrimos que estar juntos, ouvindo uma boa música, sem nada falar, pode ser a maior de todas as comunicações.
Descobrimos que uma vela acesa, dança, e o fogo nos hipnotiza com sua dança, chamando-nos à ternura do encontro.
Mais duas cervejas e um cálice de vinho, descobrimos que ainda podemos conversar de algo diferente do que nosso filho o JG.
Que podemos brincar de contar estrelas, aviões, casais de vermelho e preto, brincar de quem sabe a música...
Descobrimos tudo isto por deixarmos nossos celulares em casa, e nos conectarmos um ao outro.

A conversa face-a-face cura, liberta, transforma.
A conversa virtual cura, liberta, transforma.
As coisas podem ser E e E. Não preciso deixar meu celular em casa. 
Só preciso me abrir às possibilidades que uma vida sem edição pode oferecer. 
Abrir-me ao que acontece ao meu redor. 
Posso me conectar, checar e-mails, páginas pessoais e ainda assim estar presente. 
É tudo uma questão de dosar. Aliás, o face, via celular, traz à mesa a presença de tantos outros. Este relacionamento virtual é super legal e gera novas possibilidades, interações e bons vínculos - impensados anos atrás. Mas, se não cuidar, o outro real se desconectará do também outro real, por falta de banda larga humana. Como em tudo, a diferença entre a droga que mata e a que cura é a dose.

Quanto ao casal, saímos antes deles. Faço votos para que ao término de suas atualizações possam se despir de toda a tecnologia, e se vestirem um do outro para o enlace e dança do encontro.

O Amor Subverte a Ordem Reinante

Dia 31/03/2013, ele posava para foto com sua esposa. Ela 56 anos, ele 54. Ambos debulhando feijão, num ponto improvisado, sobre uma tábua, nas extremidades laterais de uma feira livre. Senti a falta deles por dois domingos. Pensava que ela gripara. Mas não. Ele, o seu maridão, sofreu um AVC dois dias depois desta foto. Agora, com um lado paralisado, luta para recuperar os movimentos, disse-me sua brava esposa. Do alto de sua pobreza e pequenez, tudo é tão difícil para este casal. Que Deus os guarde e os abençoe. Hoje sua esposa foi debulhar sozinha, com ajuda de um neto, o feijão. Foi garantir sua subsistência. Deixou seu amado na casa da filha e seguiu vida adiante. Quanta fortaleza! Os pobres não tem tempo para processar o luto. Estão sempre pelejando para sobreviverem. O Reino dos Céus é deles por pelejar. Não tenho dúvidas.

Hoje, dia 01/05/2013, fomos à tardinha levar uma palavra de esperança ao Sr. Jair e esposa, casal amigo que nos acostumamos em tomar café ao lado de sua banquinha de feijão verde, ovos, limão e algumas poucas verduras, na feira de São Sebastião. Casal simples e amoroso. Ele sofreu um AVC tem 15 dias. Perdeu movimentos de um dos lados. Desde o acontecido o casal está na casa da filha, na cidade, onde é mais fácil o acesso de profissionais de saúde e para irem fazer exames. Ontem seu genro os levou para dormirem na chácara e os buscou hoje. Ele falou que nunca tinha dormido tão bem nestes 15 dias. Ela me disse que ele falara, é só botar o pé na chácara que volto a andar. Não voltou. E voltou. Andou em pensamento, em emoção, em caminhadas místicas na terra que é sua há 20 anos. Ele e sua esposa se fortalecem mutuamente, são 32 anos de um casamento feito de luta, coragem e sobrevivência para criar os três filhos. Amor e esperança traduzem a história deste casal. Não é fácil perder a mobilidade, e em nosso país mais difícil ainda. Mas, eles não reclamam. Aliás, fomos lhes dar uma palavra de ânimo, baseada no Salmo 23,1: "O Senhor é meu Pastor e nada me faltará." E no Evangelho de João 14,1: "Não se pertube o vosso coração." E quem saiu revigorado fomos nós. Perguntei o que ele queria de nós de SP, já que viajaremos amanhã para lá. Ele nos falou, "que vão e voltem em paz." Perguntei-lhe como ele viu a chácara. Ele falou com olhos brilhando de cada muda de planta, criação e do seu poço de água "quase mineral". Falou das galinhas, que lhe conhecem pelo "cheiro" e correm pra perto dele, como fizeram ontem. Disse-me que notou que morreram umas 12, das 30 que tinha. Acha que foi de saudade. Nessa hora, enchemos os olhos. A chácara não tem quem cuide, só eles, então já viu né! O principal eles tem. Amor. E o amor faz milagres. Abençoado casal que se ama e que juntos enfrentam, do alto de sua pobreza, as dificuldades de uma reabilitação de um AVC.


Utopia e Realidade

Sou um realista utópico. Não acho que utópicos são necessariamente não-realistas. Movo-me na realidade, embora nade para a utopia. Sou um otimista, vez por outra pessimista. Aliás, sou um pouco de tudo. Estes conceitos, este dicionário, não cabe no ser. Não cabe definir uma atitude dentro de uma planilha excel para acompanhá-la diariamente. Nunca gostei de coisas E ou E. Somos paradoxos. Somos E e E. O que nos define são nossa realizações, nossos agir no mundo, e é nesse cotidiano que se revela nossa face maior, somos quem quer um mundo melhor, sem desanimar do que vê por aí, influenciando o bem ao redor, ou somos dos que desanimaram com o que viram e ficaram sentados à beira do caminho, só reclamando e numa postura de vítima? Do sistema, da empresa, do gerente, de tudo?
 Para mim, uma postura positiva, uma psicologia cotidiana positiva, ajuda. Mas, ela não significa que não sejamos realistas, racionais, lógicos. Somos homos sapiens demiens. E o real, de que real falamos mesmo? Sobre que perspectiva? Não percebemos o real em sua completude, percebemos, o que nossa historicidade e valores filtram. O espaço do sonho, da fantasia, dos desejos, da esperança, são a subversão da ordem reinante. Eles significam que apesar das condições insalubres, da dureza do dia a dia, crê-se que se avança na compreensão de novos patamares de realidade. Sendo duro, sem perder a ternura, como falou um cara famoso, ou semeando entre lágrimas, como falou um menos famoso. Somos o que somos e o que define nossa postura no mundo é o espelho do outro.  No final, será ele quem julgará o que de fato somos. Agora vou pigar meu gardenal.

Esquecer para lembrar.

Já esqueci de lembrar. 
Agora sou coletivo de lapsos, desencontros.
Um saco de lembranças, adormecidas num porão sujo qualquer, não me faz recordar.
Ou fujo de minhas hipocrísias num jogo de máscaras e espelhos? 
Quem fui, ao longe me acena.
Quem sou, de perto me assusta ou seduz. 
E vivo para contar e inventar a melhor fórmula possível.
E tragá-la, como se desse gole, dependesse te ver:
amada esperança.

Não se acostume com o que te faz infeliz!

Sexta acabei indo almoçar na feira dos importados, para devolver uma gentileza que um amigo fizera e resolver uma pendência dele por lá. Ele trocou seu celular por outro mais moderno, porém da mesma marca. Qual não foi sua surpresa ao perceber que a versão modernosa tinha um encaixe do chip menor do que a anterior. Ou seja, tinham uma incompatibilidade geracional. Coisa comum em humanos, porém em máquinas de gerações tão recentes, não deveria acontecer.
Ou ele perderia todos os dados, ou teria que passá-los via programas especiais para isto, ou manualmente. Alguém lhe disse que na feira dos importados o pessoal tinha um jeito de resolver, uma espécie de adaptador. Ofereci-me para ir lá, e retribuir a gentileza que ele fizera comigo numa outra pendência que eu tinha e ele mediara. Chegando lá, expliquei ao moço que o celular novo tinha "um buraco do chip" menor e que não cabia o chip velho. Ele olhou para o celular, para o chip, abriu a tampa. Sem pestanejar, disse, aqui eu resolvo. Não deu tempo nem perguntar o preço. Ele sacou de um estilete, um prosaico estilete, e foi raspando as extremidades do chip antigo. Tirando aparas, com uma destreza que pensei, "se ele errar o corte vai dá em merda"... De primeira, inseriu o chip na máquina modernosa e pimba, ela o reconheceu e acordou para a vida. Pelos serviços ia "cobrar" R$ 5,00. Mas, como comprei uma capa ele fez "de grátis". Almocei com aquilo remoendo em meu ser. Como precisamos de um estilete daquele em nossa vida pessoal e profissional.
Como tem coisa que acontece conosco e que não nos cabe mais. Que nos desloca. Nos estranha. Que para continuar "operando" da mesma forma, já que não queremos largar o chip velho, precisamos ao menos desapegar um pouco dele, e nos permitir aparar arestas interiores, para nos adaptar a novas realidades. Fiquei pensando como tem coisa em nossa vida que para mudá-las não é difícil. Só precisa do estilete, de quem o manuseie com sabedoria e habilidade e de nossa própria vontade de nos renovar sem perder os valores fundamentais (o chip). Deixando de lado tudo aquilo que está nos impedindo de atualizar nosso "sistema operacional", tornando-o mais eficiente. Gostei muito de vários insights do estilete do chip de celular. Mudar não é nada fácil. Sempre haverá cortes na alma, no nosso mais profundo. Fácil é trocar. Trocar de esposa, de filhos, de chefe, de equipe, de empresa, de curso superior, de lazer, de cinema. Trocar é fácil. Simplesmente deixamos de lado a roupa velha e pegamos a nova. Mas, quando a troca trás consigo nossa história, aí o bicho pega. Não é mais uma simples questão de escolha, do verde para o amarelo, do carro de marca tal, para tal. De ir pra praia ou para ou mercado. Estas são escolhas do tipo, pega o celular novo com seu chip pronto. Não dói tanto. Agora, fazer escolhas, adaptações, sem nos perder pelo caminho. Preservando nossa essência interior e mundo de valores, sem nos corromper ao chamado do novo pelo novo, aí sim, aí dói. Creio que amadurecer como ser humano é permanentemente raspar nossas arestas em busca de um sentido, de um encaixe melhor, num mundo cada vez mais opressivo. O cuidado na raspagem é para que ela não atinja nossos sistemas vitais de suporte à vida. Nossa psiquê, nossa auto-estima. Nessa hora precisamos de autoconhecimento para ponderar se vale o preço a raspagem, ou se não será muito grande o risco de atingir nosso ser de forma irreparável. Vale a máxima que escuto de um amigo um amigo, "pra toda escolha uma renúncia...". Ou seja, será que vale a pena raspar mais uma vez as arestas e recomeçar? Será que não é hora de romper com o modelo antigo, mesmo que seja um choque, um baque, uma perda profunda?
A resposta a esta questão não é simples e é pessoal. Mudar não é simples. Mudar comportamentos, atitudes pior ainda. Mudar relacionamentos, papéis vividos nestes relacionamentos, aí nem me fale. Sabe aquela coisa que carregamos conosco, pode ser uma mágoa, um perdão não dado, ou pedido, aquela postura excessivamente crítica, negativa ou desconfiada. Será que ela não está sobrando em nosso viver? Será que não é isso que está nos fazendo infelizes, deslocados conosco mesmo? Forasteiros de nosso lugar no mundo. Como se a atualização de nosso ser interior, a permanente atualização do "sistema operacional da mãe vida", reclamasse de nós um outro jeito de ser, sem nos perder nesta mudança, apenas aparando nossas arestas interiores para melhor conviver com a situação, aprender com ela, e mudar.
Nessas horas, como faz bem um amigo, um amor, um Deus, até um choque que levamos na vida! Tudo isso pode funcionar como o estilete. Nos fazer tomar coragem e usá-lo para raspar nosso orgulho, vaidade, acomodação, na luta pela nossa felicidade.
Nosso piloto automático que ligamos: não sabemos quando e, por conforto e facilidade, deixamos o mesmo nos guiar, pode estar nos levando a lugar nenhum. Mudar é bom. Não mudar por mudar, mas mudar para contribuir com em tornar este mundo um melhor lugar para se viver: nem que seja na sua família, ou equipe de trabalho. Como bem disse Camões: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o Mundo é composto de mudança". Mudar, sem perder nossa essência, mudar para melhor, faz bem a humanidade. Mas, não é nada fácil.
Passamos muito tempo acreditando que "as coisas são como são, e são o que são. ". E, não queremos pagar o preço do vir-a-ser. Mudar é arriscoso. Poderemos perder o status, posição social, salário, consideração e até as migalhas afetivas que recebemos e que nos dão uma falsa sensação de alimentação existencial. "As coisas são o que são". Outro dia ouvi um grande amigo dizer: "amar é decisão". Não à tôa, um Deus feito carne nos disse que precisamos amar o outro como a nós mesmos. Raspar nosso chip existencial é prova de amor para conosco. Habilita a conexão. Dá vida ao celular novo, como o acontecido quando o rapaz inseriu o chip velho no celular novo. Optar por o chip novo, e desapegar-se do velho, também pode ser uma opção, uma escolha. Tem coisa que não funciona mais. Tal qual "botar remendo novo em pano velho". Quem decide se é hora de raspar, ou trocar de chip, somos nós. Em qualquer decisão, um fato estará presente, estaremos sendo protagonistas de nosso viver, autores e atores, exercitando a autonomia do ser e crescendo, mesmo que indo para trás. Neste domingo ensolarado, lembro as arestas de meu coração que precisam ser raspadas. Coisas que fui aprendendo ao longo da vida e que não fazem mais sentido. Estão desajustadas. Que precisam de minha ação para novamente encaixarem-se no meu viver. Precisam de uma raspagem. "Não se acostume com o não o faz feliz"...

Qual fogo alimenta teus propósitos?



Era uma noite fria, madrugada adentro.  Participava de uma vigília de oração, no alto de um monte gelado. Chovera um pouco antes e tudo ficara encharcado. Encontramos alguns restos de madeiras e fizemos uma pilha para "ligarmos" uma fogueira, para ao seu lado rezar. Logo, logo apareceram fósforos, um galão de gasolina. Encharcamos a madeira e tocamos fogo. As labaredas que dali saiam eram lindas, mas breves. Duravam uns 10 minutos, enquanto o líquido queimava a "derme" da madeira molhada. Quando toda gasolina virou fumaça, o fogo apagou. Olhávamos-nos, frustrados e descrentes com o acontecido.
Mas como?
Como esta gasolina toda, vertida sobre pedaços de madeira, não fora suficiente para que elas por si só ganhassem vida e a autocombustão desejada e duradoura acontecesse.
Alguém soprou baixinho: ainda se tivéssemos uma estopa, uns gravetos. Mas nada daquilo. Estava escuro e não achávamos nada para voltar a acender o fogo. Havia agora só um restinho de gasolina. E já tínhamos percebido que o fogo da gasolina só queimava a periferia, logo logo apagava. Fiquei matutando e lembrei-me que tinha vestido uma camiseta velhinha, sob camisa de manga comprida de flanela, sobre a qual estava um gibão de couro. Fui tirando uma a uma. Despi-me da camiseta velhinha e a doei. Logo a embeberam na gasolina e por dentro espetaram uma estaca, como que uma tocha. Botaram-na no centro da pilha, na parte debaixo. Acenderam-na e pronto. Não bastaram uns 10 minutos e aquela tocha contagiou a todas as madeiras vizinhas, mesmo encharcadas, e o fogo adquiriu vida própria; Era a autocombustão esperada, não mais precisando de "muletas" como a gasolina ou a tocha. Fique pensativo, sobre os propósitos que dão sentido ao nosso viver. Será que alguns deles não mais parecem com aquele primeiro fogo: apático, anêmico, sem sustentabilidade. Fogo falso, fogo que basta um vento para apagar, ou basta que seu combustível superficial seja consumido para que ele feneça.  Creio que os líderes movem-se por aquele outro fogo, o interior, o que uma vez aquecido, tal qual aquela tocha de camiseta velha, ele passa a autogerir seu próprio destino, sua própria motivação, assumindo as escolhas que faz e preparando-se para novas possibilidades que aparecerão.
Quem alimenta seus propósitos?
Gasolina que dá um fogaréu no início, tal qual fogo de palha, e depois apaga por não conseguir penetras nas entranhas da madeira interior de nosso existir, gélida, fria e fechada?
Ou uma tocha interior que não se cansa em impulsionar-nos à frente, que nos faz perseverar nos nossos objetivos. Que rompe tibieza, apatia e incendeia-nos por uma causa, uma vida, um propósito, algo que dê sentido ao nosso vir-a-ser no mundo.
De que motivação você está sendo feito?
De que objetivo seu acontecer neste mundo está sendo aquecido?
Daquele interior, que arde por dentro, que nos toca e eleva remetendo-nos a algo melhor todos os dias.
Os só das exterioridades, das fachadas, das aparências, da mentira, de um vir-a-ser que não é sustentável, que não se garante?
Já me envolvi com muita coisa tal qual o fogo da gasolina em lenha molhada. Queima a gasolina e o fogo apaga.
Quantos projetos comecei a tocar e fui parando pelo meio do caminho, faltou perseverança, faltou convicção.
Faltou coerência. Queira chegar logo na janelinha, mas não queria pagar o preço.
Investir tempo e dedicação na busca dele.
Hoje, alimento o fogo interior. Alimento as coisas que realmente fazem a diferença e que me dão um sentido, uma vocação de ser o melhor para a humanidade e não o melhor da humanidade.
Não uma vocação de santo, puro, bam bam bam.
Tenho um monte de coisa a melhorar.
Só procuro naquilo que dá que tenho alçada de decidir, ser diferente. De romper a cadeia de agressão, frieza, indiferença procurando fazer a minha parte para que o mundo seja melhor.
Todos podem ser diferentes, evitando reproduzir um modelo de sociedade baseado apenas no acúmulo de bens, desumanidade, vaidade e disputa por poder.
Alimento meu fogo de camiseta velha que arde no meu interior. Aproveito enquanto ele arde para acender outras chamas, mais perenes: as chamas dos valores.
Se você tiver algo que lhe acenda por dentro, que lhe dê alegria e esperança, curta de montão.
Aproveite esta chama, mais perene, para que ela molde seu ser e te incendeie por conta própria.
Um dia ela também poderá fenecer, mas já cumpriu a missão: produziu em ti um fogo duradouro.
Bem aventuradas todas as causas e pessoas que nos tocam de uma forma tão profunda, que incendeiam e iluminam as profundezas de nosso interior, fazendo novas todas as coisas.
Bem aventuradas as camisetas velhas, embebidas em gasolina, que viram tochas e aquecem nossa lenha interior.
E só terminam sua missão quando percebem que por nós mesmos, já caminhamos sozinhos.
Já gerimos nossa autocombustão, em prol de objetivos pessoais ou coletivos.
Acho que todos os pais e mães são como aquela camisa embebida em gasolina. Alguns amigos e familiares também.
Para eles, o meu obrigado por ter em algum momento ajudando a acender o meu ser. Em mim ficaram as suas labaredas, a de vocês que me amaram primeiro sem esperar nada em troca.
Não falei ainda da importância do fósforo que acendeu a tocha. Em meu viver, em diferentes ocasiões, este fósforo foi o Espírito Santo.
Que Ele esteja presente no acender de sua chama também.







Encante seu cliente!

Há uns dois anos frequento o mesmo ponto na feira livre de São Sebastião-DF. Fico na esquina de um estabelecimento que vende pastel, caldo de cana e outras guloseimas. Pego sua única mesa, e contemplo extasiado o movimento de feira livre, belo por humano que é. Ao ouvir aquele burburinho de feira livre, acalmo-me e sinto-me parte de algo maior. Já conheço todos do ponto. Ao lado de onde sento, fica a vendedora de feijão verde. À frente, o de frango abatido; ao seu lado, o de queijo. Mais à direita, as vendedoras de CDs piratas. Sempre que chego espero uns minutos e a "nossa mesa" vaga. Enquanto isso, os feirantes me cumprimentam, falam de como está a feira, perguntam da Paraíba, ou de minha máquina fotográfica. O JG vai entrando sem cerimônia nas bancas, recebe afagos..., já é de casa. Ao vagar a mesa, nos sentamos, eu e o JG, enquanto a Cristina vai trazendo as verduras e colocando embaixo dela. Conheço todos os feirantes daquele ponto, já são amigos de eras priscas. Sei quem é avô, avó, quem tem pressão alta, onde eles moram e conheço até seus netos. Na vovó do pastel, implico por brincadeira, com seu café muito doce. Digo, eita que está mel. Ela pacientemente vai tentando, todo domingo, chegar no meu ponto de açúcar. Hoje fui surpreendido. Não é que a matriarca do estabelecimento aproximou-se de mim e deixou uma garrafa. Com um sorriso, ela me disse: esta é especialmente para você se servir. E está sem açucar. Você vai colocando até chegar no seu ponto. Perguntei-lhe, e como a senhora saberá quantos eu tomei? Ela me olhou com ternura e disse, você me dirá. Só isso. Simples, como a abelha confia na flor. Fiquei estupefato com o gesto de tão tamanha fidelização e atenção para com seu cliente.

"Aprendi que são os pequenos acontecimentos diários que tornam a vida espetacular." William Shakespeare

Lares Útero


Andando pelo jardim vi no meu limoeiro esta cena insólita. Uma reunião de lagartas numa folha de limão. Saquei logo da máquina e documentei o encontro, mais parecido com uma procissão. Elas estavam paradas, pensativas. Umas poucas levantavam o focinho em minha direção, como que a dizer: sai daí rapá! Fiquei matutanto o porquê delas terem escolhido aquela folha. O que aquela folha teria de tão especial? Sim, é verdade. Dei uma batida no limoeiro e em nenhuma outra folha havia aqueles espécimes. Só naquela, e frente e verso. Umas 20 em cada face. Estariam com frio? Sentiriam-se protegidas? Fora sua mamãe quem as mandou ficarem ali? O que tinha aquela folha de tão especial? O que a distinguia das outras? Engana-se quem pensou que elas estavam degustando a folha. Não, nem um pedacinho sequer. Estavam apenas sentindo-se amparadas. Fiquei lembrando que também somos assim. Escolhemos nossas folhas-útero dentre várias que se nos achegam. Existem lares-folha-útero-de-limoeiro. Lares que de tão acolhedores aproximam, unem, celebram a vida e são locais de ajuntamento. Conheço alguns. O de minha cunhada e irmão, o de minha ginecologista (é o casal quem engravida), e outros Brasil afora. Eles são como esta folha, locais de encontro, de harmonia, de delicadeza. São lugares para onde vamos e nos sentimos bem, amados, reconhecidos e valorizados. Ali, nos juntamos com tribos das mais diversas, e naqueles lares parece que há uma mágica, uma mística que consegue tudo juntar e nele ser presença, sem destoar, mesmo que sob sua face-folha frequentem tribos das mais diversas estirpes. Mistérios, mistérios da mãe natureza que nos falam. Sempre que receber alguém aqui em casa vou lembrar que posso ser folha-útero. Proteção, carinho, aconhego para quem chega. Qual o destino daquelas lagartas, que por medo do desconhecido juntam-se umas às outras para enfrentá-lo? A vida, a vida é o seu destino. Viver é juntar-se. Viver é comungar valores, criar solidariedades, buscar empatias, tecer uma tribo comum, que nos faça sentido. Quem se junta, até na dor, sofre menos. Ou sofre com, e quem sofre com, dilui o sofrer. Esta foto é uma homenagem aos amigos que de tão acolhedores representam ponto de encontro e mutação em nosso viver. Bem aventurados vocês o são! Obrigado por nos abrigarem em suas vidas.

Hospedeiros Tóxicos

Hoje sai em busca de meus beija-flores do final da tarde. Esperei, esperei e nada. Notei que a sua árvore predileta estava quase sem flores. Cheia de galhos secos e sem folhas. Senti falta deles que me acompanham nos finais de tarde, há uns dois anos.

Aproximei-me mais da plantinha para ver o que ocorria.

Qual seria o motivo de tantos galhos depenados, sem folhas e flores. Descobri.

Para meu alívio, descobri.
Um bicho, um tanto estranho, tornara-se hospedeiro da planta, mais conhecido por Bicho-galho. Aparentemente inofensivo, até já o fotografei nesta mesma planta, noutras ocasiões, notei que ele come todos os rebentos de folhas e flores, devem ser as mais docinhas e macias.
Se você olhar no alto do galho seco desta foto verá um deles.
Mas tem que olhar com vontade. Seu disfarce é perfeito. Ele parece um galho seco. Finge ser um pedaço da própria planta, assim passa despercebido e vai ficando nela, sem sofrer ameaças.
Fiquei com dó de meus beija-flores, que perderam suas florezinhas, e da própria planta que não tinha para quem pedir socorro e acabaria toda pelada de folhas e morreria.
Um a um fui tirando os Bicho-galho; colocando-os noutra parte do jardim, com outros tipos de árvores, mais resistentes à sua fome.
Agora, creio que a arvorezinha se recuperará e os beija-flores voltarão para polinizá-la, todas as tardinhas.
Fiquei matutando se a mesma coisa não acontece conosco. De repente, aqueles sentimentos melhores que tínhamos, aqueles valores legais tais como: bondade, mansidão, solidariedade e compaixão vão indo embora de nosso interior. Tal quais os beija-flores foram embora. É que eles não encontram mais alimento, florezinhas vermelhas para polemizar, nosso coração ficou árido.
Ou os beija-flores amigos que nos visitavam vão deixando de fazê-lo. Sempre estamos tão ácidos, negativos, rancorosos, vingativos que os afastamos de nós.
Tem muito Bicho-galho que pode habitar nosso coração e ali fazer morada por anos a fio, sem causar grandes impactos, quase que numa relação simbiótica, porém altamente perigosa.
Eles são sutis, dissimulados, confundem-se com a gente mesmo.
Mas, não fazem parte de nossa essência.

São sugadores de nossa energia vital. São tóxicos.

Carregamos-lhes, pois não nos incomodam, vão ficando dentro da gente.
Até que, de flor e folha; de flor e folha; de flor e folha que as comem, secam nosso coração.
Sugam nossa vitalidade, nossa esperança, nossa vontade de recomeçar. Sugam nossa autoestima, nosso ânima interior.
Descobri-los é necessário para o bem viver.
O Bicho-galho que habita em mim pode ser a preguiça. O egoísmo, a inveja, a falta de paciência, o orgulho.
O desamor, a mágoa encrustada, a fofoca e mentira.
Pode ser a falta de perdão, de gentileza.
Pode ser a falta de gratidão, de humildade, de empatia.
Noutros casos, pode ser a falta de ternura, de afeto, de amizade.
Pode ser até o descuido com a saúde.
Estes acima no campo dos valores.

No campo das pessoas, podem ser os encostos que vamos arranjando vida afora e que só nos fazem mal, embora em pequenas pitadas – não suficientes para serem expulsos de nosso viver.
Pessoas más, ciumentas, invejosas ou agressivas, ou de tudo isso um pouco.

Pessoas que conosco habitam e que vão, lentamente, nos transformando naquilo que elas são.

Pela convivência.

Vão roubando nossas folhas e flores interiores, afastando de nosso viver tudo que o torna aprazível e atraente.
Descobrir os Bicho-galho interiores e exteriores que portamos não é tarefa fácil.

Nem sempre temos um jardineiro de plantão, com olhos atentos, para descobri-lo disfarçado de nós mesmos, e habitando em nós mesmos.

Por isso é tão importante pararmos, vez por outra, e fazemos nosso ato de contrição em busca do autoconhecimento. E mudar.

Levarmo-nos para passear e meditar sobre nossa vida, o que está nos incomodando, o que fomos deixando pra trás e que nos fazia bem. E renascer.

De nosso ser sempre flui a boa seiva interior.
Ela nos conduz e faz brotar a vida.
Tal qual aquele galho seco, após ter sido depenado pelo Bicho-pau, dele brotará novas folhinhas e flores, assim é nosso existir.

É só deixar a seiva interior fluir, somos portadores do amor.

E o amor cura, resgata, acredita, rejuvenesce e supera.
Descobrir o que foi destruído de nosso ser, e em que fomos nos transformando ao conviver em ambientes insalubres é uma tarefa diária.

Tudo ao nosso redor convida-nos à violência, ao egoísmo, à falta de paz e tolerância.

É preciso ficar atento. Pedir ajuda. Têm muitos “jardineiros-amigos” que poderão nos dá um toque, um conselho, uma palavra de sabedoria, um puxão de orelhas.
Eles conseguem ver o que nem nós estamos vendo.
Perceber o que para nós passa despercebido.
Um Jardineiro que recorro sempre é o Senhor Jesus. Ao colocar-me na sua presença, quando deito a cabeça pra dormir, vejo o quanto de Bicho-galho deixei habitar em mim e me fez menos gente, ou que eu mesmo fui e pelo perdão.

Amanhã recomeçarei o dia sabendo que a luta não está ganha. Outros virão, interiores ou exteriores, e a saga continuará. A velha saga do bem contra o mal.

Ao limpar meu coração, ao depurar tudo que pode me tornar mais bicho e menos pessoa, liberto meu ser para uma maior compreensão do outro, nas suas necessidades e idiossincrasias.

Fico pensando nas vezes que posso ter sido Bicho-galho para alguém.

E a matado um pouquinho, mesmo de forma dissimulada, sem muito alarde.

Não deve ter sido poucas vezes.
De agora em diante, lembrarei-me de meus beija-flores; de sua arvorezinha pelada de folhas e flores; e de seu hospedeiro sútil.

Ficarei mais atento aos meus bons valores em erosão, procurarei por eles na seiva vital que flui de meu ser e os renovarei.

Mais atento à como pessoas-gafanhotos podem estar moldando meus comportamentos, e eu me transformando nelas. Procurarei manter meu prumo interior, sem copiar seu jeito de ser, ou assimilar posturas desumanas. Não as deixarei mobilizar tantas energias interiores em meu ser.

E, para comigo mesmo, procurarei ficar mais atento ao impacto que causo nos outros, se estou sendo vida ou morte para eles.

Se estou sendo Bicho-galho, que suga sua esperança e alegria.
Ou se estou sendo beija-flor que se alegra com eles e leva deles o que possuem de melhor, criando uma corrente do bem – a tribo do amor, harmonizando e energizando ambientes.

Quero ser vida e não morte, para mim mesmo e para os que me rodeiam.

Jardineiros-amigos de plantão, ajudem-me por favor!

Velejando Sonhos




Na última segunda-feira, aproveitei uma manhã chuvosa no hotel e antecipamos o check-in para ir conhecer esta praia. Peguei a balsa na praia de Maria Farinha (PE), em direção à cidadezinha de Nova Cruz, que por si só já é uma aventura. Encosta-se o carro na área de atracação, pisca-se o farol, e eles vêm nos buscarem, por R$ 13,00.
Pegamos a BR 101 e quase chegando à Goiânia-PE, sentido João Pessoa, entramos à direita.
Seguimos por mais 30 km e descortina-se o paraíso.
Uma praia linda, coqueirais, mansinha, barquinhos coloridos atracados, e de águas mornas.
A praia fica na cidadezinha de Carne de Vaca, uns 2.000 habitantes, quase todos vivendo da pesca. Descobri que o nome Carne de Vaca foi de um navio do “estrangeiro” que ali naufragou, há 150 anos, e o nome os nativos não sabiam pronunciar, algo como “Carnnievakal”.
Gostei de tudo que fui vendo ao chegar. O Salão de beleza: Deus é Fiel. Adorei o nome, para mulheres tementes a Deus e com medo do estrago que possam fazem em seus cabelos o nome acalma.
Seguindo a diante, cruzei com uma simpática placa com a expressão: Abatedouro de Aves, Atendimento ao Cliente. Gostei, pra quem nunca matou uma galinha, como este que vos escreve, em minutos teria uma galinha pronta para à cabidela na panela.
Parei par atirar foto da simpática igrejinha de Santana. Depois estacionei nos fundos de um barzinho e admirei a parede da casa vizinha, toda revestida de conchinhas.
Até então, só tinha visto o mar lá do alto do morro, que antecede à cidadezinha praiana. Num local onde parei para fotográ-lo, de tão belo que era.
Caminhei em direção às mesas frente à praia e fiquei estupefato. Barquinhos ancorados, redes de pesca, pescadores jogando dominó, outros tomando uma cerveja.
Um local no qual a paz escolheu pra tirar férias.
Resolvi circular e conversar com os moradores que ali estavam almoçando. Parei na mesa de dominó e ali conheci o Leno.
Leno é uma daquelas pessoas que você só encontra nos livros de Jorge Amado. Do alto dos seus 61 anos, organiza periodicamente as corridas de Caícos. Caícos é um tipo de jangada à vela.
Todo orgulhoso me falou que das 50 que já houve ele ganhou 12.
Falou-me que a turma queria impedir os concorrentes de Cabedelo-PB participarem. Os barcos deles estavam ganhando as últimas corridas. O de nome Tentação já tinha faturado três corridas, outros dali chegavam em segundo e terceiro. Eles eram mais modernos e melhor construídos. Além de contarem com navegadores experientes nos esportes à vela. Diferente dos pescadores que a vela para eles era o que possibilitava o barco ir e vir, nunca um esporte. Ele disse-me que bateu o pé discordando. Disse a os outros citadinos: “Qual a graça do futebol do Brasil sem a Argentina?” No seu jeito risonho e manso de ser, uma profunda sabedoria!
As corridas subiram a autoestima local que agora objetivava ganhar dos paraibanos que vinham competir com eles.
Ele me contava e seus olhos brilhavam. Ele me disse que falou aos outros jangadeiros: “Aprenderemos com eles, e um dia os venceremos!”
É que os paraibanos vinham de uma série de corridas vencidas.
Pronto, pegou fogo. Todo mundo passou a torcer por todo mundo, desde que fosse um jangadeiro de Carne de Vaca, e não é que a corrida de 2012 ele ganhou, o próprio Leno. Ele, todo orgulhoso, presenteou-me com um DVD que registra o feito.
Na sua simplicidade, aprendeu uma máxima da gestão que é o observar dos movimentos do mercado e concorrência e se antecipar, ou se aproveitar deles. O macroambiente tem muita energia circulante que nos impulsiona e motiva a inovar e melhorar a competitividade, para continuar bem posicionado junto aos nossos consumidores, e até cidadãos, no caso da gestão pública. 
Leno aprendeu o tipo de vela mais apropriado ao tipo de vento. Aprendeu a construir Caícos mais ágeis e formosos. Aprimorou seu aprendizado das artes da navegação à vela, olhando como os paraibanos faziam. E inovou, para aquela comunidade de pescadores-jangadeiros, ao ensinar-lhes a fazer o contra-peso com seus próprios corpos, durante a navegação, no lugar de ficarem apenas jogando água nas velas, para aumentar a tensão sobre as mesmas. Era essa a tecnologia que os paraibanos usavam e que sucessivamente os venciam. Leno galgou dialeticamente sua condição social, de jangadeiro para exímio velejador, mesmo que em jangadas. Compreende?
Contou-me que fez de tudo ali, e que sua mãe ainda é viva com seus 90 anos.
A luta pela sobrevivência o fez trabalhar desde os 12 anos. Na lavoura, construção civil, pesca, no comércio. Mas, o que sempre fazia era navegar com seus barcos que toscamente o construía, desde pequeno.
Todo orgulhoso, até ser convidado para ser o administrador do vilarejo já houvera sido, por dois mandatos.
Falava com orgulho de sua terra, de sua história e de seus valores. Dizia, com justa razão, que as crianças agora só querem brincar de videogame e que estão perdendo o “jeito” de brincar com as coisas da natureza.
À exceção eram uns poucos filhos de pescadores que brincavam com minibarcos de velas, “treinando” para um dia pilotarem seus Caícos, ali mesmo na praia.
Olhei mais fixamente para a praia, no sentido onde brincavam, e fiquei paralisado com o que vi, tamanha boniteza. A cena era pungente. Pedi-lhe licença e corri em direção ao local no qual uns cinco jovens “disputavam” com seus minibarcos de vela. A alegria deles em ver seu esporte documentado era tamanha. Improvisaram para mim uma corrida de barquinhos, acompanhados por eles ao lado.
Senti a presença de Deus ali naqueles meninos e sua alegria tão humilde.
Voltei para o barzinho, recebi o DVD do Leno, o presenteei com um CD alternativo de Forró que comprei de um compositor de Olinda, coisa boa.
Trocamos um aperto de mão e a certeza de que um dia nos reencontraremos, quem sabe numa corrida de Caícos.
Como seria bom se em cada pequena comunidade tivéssemos um Leno e plantão. Um incentivador e divulgador dos folguedos, esportes e cultura local.
Não tem coisa que mais uma um povo, e ajude na composição e seu tecido social e autoestima do que os valores culturais.
Imagino o frisson naquela cidadezinha dias antes da corrida. O capricho no polir, pintar e preparar as pequenas embarcações para a prova. Os treinamentos das equipes e o corre-corre para ultimar preparativos. Fecho os olhos e imagino-lhes falando dos competidores paraibanos, temendo-lhes, porém sem lhes curvar a cabeça e a motivação de vencê-los.
Depois da corrida, vejo as premiações, os comentários dos mais experientes, as celebrações e o quanto de material simbólico e cultural ficam sendo processados; criando identidades.
Ao serem contadas e narradas, as histórias das equipes competidoras, viravam lenda, trajetórias locais, despertando o sentido de comunidade e tecendo uma rede social e cultural em torno dos feitos. Inclusive com seus heróis, mitos ( o barco Tentação e o ), ícones, dignos de qualquer estudo antropológico.
Leno, com a sua prosaica corrida de barquinhos à vela, deu um propósito àquele povo para se orgulhar, e um por que viver.
Sua liderança, mobilização e esperança em tempos melhores, materializados no aprendizado e treinamento de novas técnicas, para derrotar os paraibanos de Cabedelo-PB na próxima corrida, são estimulantes. Até na coleta das premiações, de liquidificadores à TVs o Leno é uma figura. Sai de porta em porta, buscando patrocínios, públicos ou privados, e até de turistas que ele cativou e que do Brasil e exterior mandam contribuições para as premiações. Vou doar um prêmio para a próxima. Quero de alguma forma fazer parte disso.
Obrigado Leno por deixar os paraibanos concorrerem na sua corrida, não a enclausurando numa redoma corporativista cultural.
Você ensinou-me muito. Um dia estarei na torcida pelo seu barco e sua equipe.
Para arrematar, ele falou da importância do trabalho em equipe, dos três a cinco que vão no Caíco. “Um olha o vento, outro a vela, outro apruma o leme em direção às marcações, outros se movem pelo barco contrabalançando-o com seu peso...” tudo em sintonia e sinergia, como nem sempre existe em equipes de trabalho por aí afora.
Valeu Leno, você encontrou a sua maneira de fazer a diferença, de criar uma obra, de ser o melhor para a humanidade e não o melhor da humanidade.

Faça sua parte na transformação que espera.

Turista em João Pessoa-PB, fazendo sua parte, já que os garis não recolhem todo o lixo que rastelam.
Garis da Barra de Cunhaú-RN, um exemplo de profissionalismo.

Ontem vi este turista catando lixo da praia do Bessa I, 
aqui em João Pessoa. Ele faz a diferença. Cata todas as 
manhãs o lixo na praia. 
Ele caminha uns 4 Km, do hotel onde hospedado até o Iate,
local onde tomo meu banho. Conversei com ele. 
Ele me disse que sempre sai do hotel com 4 sacos 
plásticos, dois pra ida, e dois pra vinda. E que os
enche por inteiro, depois os deposita em lixeiras na rua. 

Perguntei se ele não achava que isso não teria fim. 
Ou seja, de que adiantaria aquelas pequenas sacolas 
de lixo?

Ele, serenamente, disse-me que faz sua parte para 
melhorar o planeta. Fiquei envergonhado com meu
questionamento. Ele tem uma atitude digna. Diferente 
da dos garis de praia que hoje testemunhei, aqui de 
frente ao bar do Golfinho na praia do Bessa, perto 
do Iate de João Pessoa-PB.
O que vi me deixou revoltado. 
Um dos garis ia à frente, rastelando o lixo com
um rastelo. Fazia pequenos montinhos. Os demais
iam atrás, catando os montes e colocando-os em sacos.
Era um grupo de 5 garis. Até aqui tudo bem. 
Atitude bacana da prefeitura. 
Porém, vi que havia o mal da humanidade:
esperteza e falta de caráter se fazia tambpem presente.
É que ao encherem uns 5 sacos, simplesmente deram
no pé. À minha volta ficaram vários montinhos
de lixo. Os vi subirem em direção ao caminhão, 
na rua lateral ao Golfinho Bar, e não acreditei que 
não voltariam. 
E não voltaram mesmoi para recolher os montinhos. 
Isto é, voltaram, mas caminharam bem por cima 
da praia, fingindo que terminaram o trabalho. 
O que ia à frente, encontrou-se com eles mais adiante, 
e foram embora, deixando uns 30 montinhos de lixo, 
pelo menos. 
Montinhos que serão tragados pelo mar e que meu
amigo-cidadão-turista os recolherá amanhã, ao serem
devolvidos pelas ondas às areias brancas.
Uma vergonha. 
Fiquei indignado, mas não tive coragem de chamá-los à responsabilidade. 
Faltou-me o que sobra neste senhor, atitude.
Sempre será ela quem fará a diferença,
entre agir e o não agir, 
o ser e o não ser.

Decidi denuciá-los.
Hoje vou enviar pra prefeitura este relato. 

Este trabalhio pode ser feito de forma diferente.
Vi outros garis de praia em Barra de Cunhaú-RN 
(foto acima) fazendo um trabalho magnífico, 
com gosto e prazer. Eles compreenderam a importância
do que faziam. Fui também conversar com eles. 
Falaram-me que a ação deles foi uma promessa da 
prefeita de lá, e eles estavam desempregados. 
E que trabalhavam com gosto. Passei quatro dias 
por lá, em todos vi aquelas equipes trabalhando. 
Exemplo para as prefeituras de lugares turísticos.  
Turistas conscientes, serviços públicos de limpeza eficazes,
e operadores turísticos e pessoal da própria cidade 
também fazendo sua parte, teremos então uma corrente do
bem, para salvar o planeta de tanto lixo.
Nosso bisnetos agradecerão.

Cavalos Alados

Ontem vivemos uma cena difernete. Um parque de diversões, instalado perto do shopinhg Manaíra, em João Pessoa, não sabia se abriria ou não, por falta de clientes. Esperamos das 17:45 às 19:00. Finalmente ele abriu. Havia juntado um punhado de uns 30 pirralhos, jovens casais de namorados e pais babões. Todos entraram no recinto como quem entra no paraíso. Luzes, brinquedos ligados, música, cheiro de pipoca, mocinha do algodão doce. E vazio, um vazio que adquiria vida ao toque de cada um de nós. Uma cena de filme. Não pude me conter e marejar os olhos, ao ver a alegria do pessoal, incluindo o meu JG. Eram coisa fantástica ter à disposição mais de 20 opções de brinquedos, incluindo uma montanha-russa, e sem filas. Pagaram vinte reais na entrada e tiveram direito a brincarem em todos os brinquedos, quantas vezes quisessem. As mães de pequerruchos podiam brincar com eles sem pagar nada...
Deveria existir uma vale-brincar para todos os brasileiros. Todos deveriam ter o direito de ao menos uma vez ao ano irem a um parquinho de diversões. Daqueles de cavalinho de carrrossel, de roda-gigante, de carrinho bate-bate.
Todos deveriam ter direito ao lazer.
Ao tempo que me alegrava com o JG embevecido, com tantas opções, entristecia-me com tantos brinquedos vazios, sem ninguém para animá-los. De que vale um brinquedo sem uma criança a tocá-lo. A criança dá vida ao brinquedo, sopra-lhe seu hálito de eros, e o anima.
Crianças dão vida ao inerte, ao sonho, à pedra dura de ser quem é.
Crianças brincam até com tampas vazias. Não precisam de sofisticação, de brinquedos caros. Só precisam de espaço para serem elas próprias e fantasiarem sua existência.

Este cavalo alado, correndo sozinho, esperava por muitos de nós.
Quanto de nós, com uma simples rodada de carrossel, daquelas que seguimos de pé ao lado dos pequenos, já se sentiria melhor naquela noite.

Rodem Cavalos de Carrossel! Mostrem-nos que a vida gira. Que tempos ruins passam. Tempos bons, idem. Que a doença passa. Que a saúde, idem. Que a tristeza passa. Que a alegria, idem.
Que a vida é breve, e que viver é terapêutico. Mesmo na dor. Para quem sofre.
Mostem-nos que a vida é uma roda-viva, como diz o poeta, mas que ao nos permitir nela rodar, não voltamos para o mesmo lugar. Só os cavalinhos de carrossel. Nós, seres eternos que somos, ao rodarmos nosso existir nos apropriamos de vivências, experiências, valores, história, amigos, que nos fortalecerão para encarar novos desafios e enfrentar outras batalhas.

Nossa roda-viva pode ir nos amadurecendo, nos tornando melhores como pessoas.
Também pode nos azedar por dentro, nos embrutecer, violentar nossa personalidade e mudar a percepção do que nos rodeia, só vendo as coisas ruins.

Nestas horas de azedume, alegrar-se com os outros pode ajudar a voltar a fluidificar o fluxo da vida em nosso ser. É só uma dica de quem já as viveu.

Por isso, brincar é bom. Brincar nos remete à criança adomercida que temos no coração e nois faz novamente acreditar.

Nem que sejam em fantasias como o pote ao final do arco-íris, ou o Cavalo de São Jorge que mora na lua.

Um jardim de fantasias, bem nutrido em nosso ser, e na justa medida da realidade, alimentará nosso cavalinho de carrosel interior. E nos habilitará a ser melhores, e bravos combatentes do bom combate que é o viver.

Cuide de seu cavalinho de carrosel interior. Alimente-o, vez por outra.
Ele é uma das melhores coisas que habita em ti, tirando o Espírito Santo.
Deixo-vos com uma canção e seiu vídeo no youtube belíssima, que fala de um carrossel a que todos, mas cedo ou mais tarde, vamos nele rodar, o do destino.


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http://www.youtube.com/watch?v=lOdnFlr-BPk
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Carrossel do Destino
Antonio Nóbrega

Deixo os versos que escrevi,
As cantigas que cantei,
Cinco ou seis coisas que eu sei
E um milhão que eu esqueci.
Deixo este mundo daqui,
Selva com lei de cassino;
Vou renascer num menino,
Num país além do mar...
Licença, que eu vou rodar
No carrossel do destino.

Enquanto eu puder viver
Tudo o que o coração sente,
O tempo estará presente
Passando sem resistir.
Na hora que eu for partir
Para as nuvens do divino,
Que a viola seja o sino
Tocando pra me guiar...
Licença,que eu vou rodar
No carrossel do destino.

Romances e epopéias
Me pedindo pra brotar
E eu tangendo devagar
A boiada das idéias.
Sempre em busca das colméias
Onde brota o mel mais fino,
E um só verso, pequenino,
Mas que mereça ficar...
Licença,que eu vou rodar
No carrossel do destino.

Toda forma de preconceito é insana!



Hoje no trabalho fui chamado a intervir num caso de preconceito racial, em pleno Séx. XXI.

Um colega cismou com o tom da pele do outro, com seu sotaque, com as suas feições e cabelo, e com seus traços ameríndios. Uma pena! Este colega, ao zoar por meses a fio com o outro, ainda encontrava platéia e eco em dois outros colegas que riam de suas ofensas, piadas, chistes e "brincadeiras". Por meses ele sentiu-se humilhado, chateado, mas não podia reagir, tinha medo. No limite de enlouquecer, e perder sua auto-estima totalmente, procurou ajuda. Pediu humildemente que o trocassem de setor. Não queria mal algum ao seu tirano. Mostrou uma dignidade, uma altivez, uma simplicidade de encarar os fatos, de encher os olhos.

Além de ser crime, o preconceito racial, ou de etnia, também - neste caso, configura-se assédio moral, do tipo Lateral. Toda forma de preoconceito é insana.

Revela mediocridade de quem a emite. Revela uma forma de ódio, de uma crueldade sem limites. Revela uma pequenez na alma, algo que precisa ser veementemente combatido.

Seja para quem for: índios, negros, mulheres, gays, nordestinos, judeus, etc.
Não existe raça pura. Não existe crença pura. Não existe sotaque puro. Não existe nada puro.

Puro só Deus. E, mesmo assim, mandou Jesus para os impuros.

Fiquei tão comovido com o relato que tive um pique de pressão. Relato grotesco, tosco, sem noção!

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