Quanto tempo tem o tempo de uma espera? (Ricardo de Faria Barros)


Quanto tempo tem o tempo de uma espera?

Com esta pergunta, a mim proferida, convidei-lhe para sentar à minha mesa.

Era um domingo de sol, tinha levado a radiola portátil e uns vinis para ouvir no Libanus, tradicional bar aqui de Brasília, já com  30 anos de candango. O som baixinho de Martinho da Vila era suficiente para nós dois nos deliciarmos, e podermos conversar. 
Ele era um dos vendedores ambulantes, que frequentam os bares do DF, vendendo a revista Traços. Uma iniciativa super bacana, que divulga a vida de moradores de rua, e a arte contemporânea que rola na cidade, com parte da renda destinada ao custeio de projetos sociais junto a estes moradores, inclusive deles mesmos. 

Sentou-se e me fitou, esperando minha resposta.

Sorridente, disse-lhe que tempo algum. Aí, ele abriu um sorriso maroto, e disse: "Acertou!"

Bem ainda não sei se acertei, e ele só queria me agradar. Só sei que fez sentido para mim.

Tem como colocar nas métricas de um relógio o tempo da espera?

Jamais!

A mãe que espera o filho nascer, não espera nove meses. Espera por séculos aquele encontro.

O jovem que esperou por dois anos ser chamado para um concurso, esperou por dois anos?  Nada disso, foram duas décadas.

Um casal que vive os afetos de amores à distancia, quando se encontram, por míseras duas horas, são duas horas, ou dois segundos, a percepção da frugalidade e rapidez da eternidade do que ali ocorreu?

Bobinho somos nós de querer entender o tempo usando para isso relógios.

Relógios apenas marcam o tempo das coisas. Não medem o tempo das poesias, das buscas, das culpas, das esperas, das graças e desgraças. 

Na mesa ao lado, dois músicos se encontram. Um ainda se levantando da perfomance que fez durante a madrugada. Outro, preparando-se para mais tarde fazer a sua.

É um encontro atemporal. Nós os flagramos, enamorados pelos instrumentos que carregavam.

Do nada, começam a tocar baixinho. Não há musica no Libanus, e faz parte da tradição da casa não ter. Eles pediram autorização para cantarem só entre si, no local embaixo das árvores, no britão, e em profunda comunhão com o espaço-tempo. Seguem, um no Tam Tam, instrumento de percussão, outro no violão. 

Desligo a vitrola para prestigiá-los. Os músicos começam com Candeia, com uma de suas músicas imortalizada por Cartola, "Preciso me Encontrar".

"Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar 

Meu agora amigo, o Francisco, o que vendia as revistas Traços, diz que é a música da vida dele.
E que também se encontrou, mas que levou tempo, e que teve mutia gente que lhe ajudou, para as quais é eternamente grato. 
Pede que eu abra a revista, que tem uma reportagem com ele, feita por José Rezende.
Na caixa alta da matéria, um de seus relatos: "Minha história é um pouco triste. Teve coisas boas também, porque a gente não nasce só pra sofrer desgosto, mas também pra ter alguma felicidade na vida."

Hoje folheei a revista para ler a história do Chico.  E que história!  De uma vida que tinha tudo pra já ter sido abortada pela violência, pelo submundo do crime, pelo lugar social do risco social, que leva tudo e todos para lugar nenhum.

Mas, Chico sabia que podia subverter o pior dos tempos, o tempo predestinado. Poderia refazer-se, e buscar suas "algumas felicidades na vida".

E assim o fez, ajudado, como ele muito bem falou, por algumas pessoas-anjo que nele acreditaram.

Um dos maiores estudiosos da autoeficácia, capacidade que temos de acreditar que com nossos próprios recursos: materiais, emocionais, cognitivos podemos fazer acontecer, o Antonio Bandura (1977) é categórico ao afirmar que uma das formas de se incentivar a autoeficácia são as palavras que recebemos de alguém, um alguém que nos inspira, que diz a nós mesmos que nos podemos ser mais do que somos, fazer mais do que somos. e superar nossos próprios condicionantes.

Uauu!!

Volto ao tempo, ao Chico, aos músicos, ao Preciso me Encontrar, e celebro a importância das pessoas que nos fazem o tempo parar, para escutá-las e segui-las.

Pessoas que nós dizem: Vai lá e faz, você é capaz, eu confio em você!

Disseram isto para o Chico, e transformaram sua vida.

Podemos dizer isto aos nossos liderados, podemos dizer isto aos nossos filhos, aos nossos parceiros afetivos e amigos. 

Podemos ser estímulo, apoio, ponte, incentivo e orientação. 

Podemos, fazer o tempo parar, acolhendo o outro em nosso viver, motivando e mobilizando-o ao Ser +.   Talvez a maior atitude que possamos ter, em tempos de tanta pequenez emocional, seja dizer a alguém, Eu Acredito em Você!

Aproximo-me dos músicos, pego uma garrafa para acompanhá-los, Chico se despede e segue para outras mesas, precisa bater sua meta de vendas. 

Peço uma música para ele, para nós, Corre e Olhe o Céu, do mestre Cartola, que fala do tempo.

"Vida. Te sinto mais bela. 
E fico na espera. 
Me sinto tão só. 
Mas o tempo que passa.
Em dor maior. 
Bem maior.
Linda. No que se apresenta.
O triste se ausenta.
Fez-se a alegria. 
Corre e olha o céu. 
Que o sol vem trazer.
Bom dia."

O tempo que passa, em dó maior, um bem maior.  Grande Cartola, disse tudo.  

 


Na Bike do Gilmar (Autor Ricardo de Faria Barros)

Gilmar e Silvia
Desembarquei em Curitiba e um motorista da Copel (Companhia Paranaense de Energia) esperava-me para levar-me, 400 km adentro, para o local do evento no qual eu iria palestrar, em Faxinal do Céu-PR.
Cheguei cansado, após uma maratona na madrugada, pegando os "vôos do padeiro", e ainda recuperando-me de um forte gripe que assolava a metade da população do DF. 
Estava propenso a pedir desculpas ao motorista, e me dirigir ao banco de trás para tirar um cochilo. 
Avistando-lhe com uma placa indicativa, dirigi-me a ele e o saudei.
- Sou o Ricardo, o da palestra na Copel.
- Sou o Gilmar, teu motorista. 

Abrindo um sorriso sincero de quem gosta do que faz.  Antes que eu pudesse dizer algo, ele foi logo debulhando umas letrinhas.

- Sr. Ricardo, logo ali no início da BR poderemos parar para o senhor tomar um cafezinho e se recuperar da viagem.

Uauuuu. Como dormir depois desta delicadeza no trato?

Busquei o restim de gás que ainda tinha e fui fazer uma das coisas que mais me causam alegria, catar histórias de gente. Sou colecionador de pessoas inspiradoras.

- E aí Gilmar, há muito tempo na Copel?

Daí por diante, tive acesso a uma história de vida tão bela, tão bela, que não poderia deixar somente  nas minhas memórias.

Há dez anos Gilmar trabalhava como motorista, de um pool de montadoras de veículos que operava no Paraná. 

Mas, sua esposa, a Silvia, botou na cabeça pra ele fazer o concurso pra motorista da Copel. 
Quando ele retrucou que já tinha um bom emprego, ela disse que ele já estava inscrito no concurso, que ela fizera a inscrição dele, e que as provas seriam no próximo sábado.
Contrariado, e sem muita força pra retrucar a Silvia, ele ouviu dela que as vendas de veículos estavam em queda e que o emprego dele corria riscos.
Gilmar fez a prova e ficou entre os melhores colocados, no cadastro de reservas. Meses depois, ele estava na listagem de demitidos da montadora. 
Passou a fazer uns bicos, "carregando combustível para Petrobrás", como motorista terceirizado. Passou a ganhar bem menos, e a sonhar em ser chamado. 

Até que este dia aconteceu. Quando assumiu o posto, a Silvia o incentivou a fazer todos os cursos, a andar na linha, dirigir com eficácia e a ser o melhor motorista que pudesse ser, sem desmerecer ou pisar em ninguém.  Gilmar seguiu à risca os conselhos, e foi galgando degraus na carreira, até integrar o seleto grupo de motoristas que conduzem os Diretores e o Presidente da Copel, pelo estado do Paraná. 

Perguntei como ele conheceu a Silvia.  Não sei você, mas eu gosto de um romance.

Ele contou que o motivo foi um rio.  Caí na risada. 

Quando eles eram adolescentes estudavam na mesma escola primária.  Depois, já crescidos, ele passou a ser observado por ela, de uma casa na outra margem do rio. A casa dele era no final da rua, um beco sem saída, que tinha no rio sua barreira. A dela, era do mesmo jeito, contudo do outro lado do rio.

Enquanto ele exercitava seus bíceps, consertando ou lavando a bicicleta, na margem do rio. A Silvia da outra margem contemplava aquele "Bifão", apelido tempos depois revelado por ela, para descrevê-lo, nas desejadas manhãs de sábado, dia de lavar a bicicleta, e a alma dela. rsrs

Mas, tudo era muito platônico, e Gilmar nem sonhava que estava sendo paquerado. Concentrado que estava entre pneus, jantes e o polimento de sua magrela. 

Muitos anos depois, os dois se encontram trabalhando na mesma região de Curitiba. Ela fazendo faxina num prédio comercial, ele fazendo entregas num caminhão.

E o amor, antes suspirante em olhares lânguidos da outra margem do rio, agora se faz presente entre eles.

Juntos, passaram a formar família, e o Gilmar assumiu a paternidade do bebezinho da Silvia, de menos de dois anos.
Gilmar me conta que já se vão uns 25 anos de companheirismo. E que a Silvia é a sua parceira nas  trilhas turística de bicicleta que organiza.

Como assim, Gilmar?

- "É Sr. Ricardo. A  Silvia me incentivou a fazer de minha paixão por bicicleta um negócio. Então comecei a montar grupos para pedalar por Curitiba e imediações, primeiro no prédio onde morávamos, depois no trabalho, e depois no evangelismo da igreja Bola de Neve da qual faço parte.
O negócio prosperou e hoje tenho uma pequena empresa a Gil Simon Bike Tour. (Veja em https://www.facebook.com/ssimondiz/) . Eu monto grupos para conhecermos lugares especiais no Paraná, muitos deles só acessíveis de bike. Por falar em lugares especiais, quer parar no Mirante da Serra da Esperança, logo ali á frente na estrada?."

Acenei com a cabeça, e o que vi foi um pedacinho de paraíso. Escavado do alto da Serra da Esperança, entre Curitiba e Guarapuava, o belo mirante faz amansar vistas cansadas, deitando-as por cima de vales, morros e pedaços de névoas brincantes, que teimam em se anovelar nas copas das Araucárias, daquelas enormes, que ficam com braços erguidos para o alto, como que em gratidão.

Voltando ao carro, ele disse que aprendeu sobre aquele lugar estudando. E que foi a Silvia quem o incentivou a estudar, assim como ela fez consigo mesma.  Ela fez auxiliar de enfermagem, técnica de enfermagem, enfermagem do trabalho e não satisfeita foi fazer Direito, agora já formada e atuando. 

Contou-me que como gostava muito de levar o pessoal para pedalar de bike por sítios históricos, e lugares bonitos da natureza, ela o incentivou a fazer Turismo. Gilmar já está quase concluindo o curso. E será o mais novo turismólogo do Brasil.  

Paramos para almoçar e perguntei como andava a vida do filhote e se tinha netos. 

Quando falou do filho, o Augusto, os olhos relampejaram de emoção. Quando falou do Joaquim, seu único neto, dos olhos saíram raios de felicidade. 

Contou a saga do Augusto, que após terminar um curso na área de tecnologia da informação, não vinha satisfeito com o rendimento do trabalho. Augusto conversou com os pais e disse que iria mudar de ramo. Que faria um curso de barbeiro. Os pais logo o apoiaram.
Mas, ao terminar o curso, quem disse que ele tinha dinheiro para investir nos equipamentos e aluguel de um ponto.

Então, a Sílvia lembrou que um antigo barbeiro do Sindicato dos Metalúrgicos não trabalhava mais, e quem sabe ele tinha ainda a cadeira.
O casal foi lá e conversando com o Sr. Joaquim, o antigo barbeiro do Sindicato, descobriram que não somente ele tinha a cadeira, como era uma daquelas de antigos salões, caríssimas, e que ele iria "vendê-la" para eles, envolvido de forma empática com a história do Augusto, por 10% do valor de mercado, quase uma doação, saindo por R$ 200,00.

O casal botou a cadeira no carro e colocaram-na na cozinha da casa onde moravam. Disseram então ao filho, que cadeira e local ele já tinha para cortar o cabelo e fazer a barba de seus clientes. 

E o Augusto, vibrando de alegria, começou a arregimentar cobaias na rua, entre amigos e familiares, e o povo da igreja Bola de Neve. Para ir treinando, na cabeça de amigos, só com e por Deus na causa. rsrs

E não é que deu certo!

O perfeito corte do Augusto foi passando de boca em boca, logo a cozinha ficara apertada e ele alugou, na raça e na fé, uma sala próxima a um shopping de Curitiba. Não deu outra, os clientes atravessavam a rua e iam cortar com ele, na sua primeira barbearia, a "Vonbarbarov". Veja em: (https://www.facebook.com/barbeariavonbarbarov/?tn-str=k*F

Hoje já são cinco Vons que existem em Curitiba, sendo local até de curso para novos barbeiros. Mas, o maior orgulho é do filho ser um evangelista e levar a palavra de Jesus a muitas pessoas que estão sem luz.

O Joaquim é seu xodó, tem 2 anos, e adora cantar com o avô.  

Quando comecei a palestra, cujo tema era empatia, falei que empatia é um profundo gesto de amor.  Pois é por amor que nos interessamos, nos conectamos, apoiamos e nos irmanamos ao outro. Conseguindo, tal qual milagre, perceber e sentir um pouco de sua vida, do lugar e forma com a qual  ele a nós se revela.

E agradeci ao Gilmar, que timidamente sentava-se numa das últimas filas, daquele auditório com mais de 170 pessoas.   

Encerrando a palestra, falei que em 1990 fora descoberto os neurônios-espelho. Áreas de nosso cérebro que se acendem em sinapses, quando temos acesso a histórias de vida dos outros - tristes ou alegres, desde que captadas de forma intensa e verdadeira. E que, este acendimento gera um hormônio chamado de oxitocina, que é o catalizador das relações sociais.

Ou seja, ter empatia não só nos torna melhores, como seres humanos, como ainda assim nos fornece, e "de grátis" uma farta dose do hormônio das vinculações sociais.

Encerrando a palestra, fizemos uma dinâmica com velas, pedindo que eles quando chegassem em casa, acendessem uma vela, ali entregue, para quem é luz para eles.

Agora à tarde, escrevendo esta crônica, recebo do Gilmar o momento em que ele acende a vela para a Silvia, quando retornou ao lar.

Para quem você acederá uma vela de gratidão hoje?  Quem é teu neurônio-espelho em forma de gente, aquela pessoa que quando aparece faz brilhar em ti a melhor luz?  

Tenho muitas pessoas-vela, que me fazem brilhar. Mas, a uma em especial eu dedico esta crônica, a minha Brisa Aracati. Aquela que mesmo quando tudo está um breu, lá pelos novelos de meu pensar, ou pesar, quando eu a vejo,  fagulhas de luz explodem e iluminam o meu existir. E, o dia amanhece novamente! 

Os Gerontolescentes. (Autor Ricardo de Faria Barros)


No tempo da internet das coisas também existem as febres, as febres digitais.
A da hora é o envelhecimento de fotos, quando um aplicativo projeta como será a pessoa, anos luz à frente.
E as reações são de toda ordem quando acessam a imagem que o tal do FaceApp produz. Umas pessoas ficam confortáveis, outras incomodadas, outras ainda pregam peças com os amigos tirando onda das rogas deles.

Umas até ficam tristes, ao se perceberem diferentes.  Tadinhas, sabem nada da vida!

Brincadeiras a parte, o que se abstrai da leitura dos comentários, tanto no Instagran quanto no Face, é  um estranhamento ao novo fenômeno da velhice, reforçando antigos esterótipos do ser velho.  Como se isto representasse o que vem ocorrendo no mundo todo, no que chamamos de revolução da longevidade, ou a gerotonlescência.

E não representa. Ufa!

Não tive a menor curiosidade de olhar para mim no futuro. Quero chegar lá como sou agora, e do ponto de vista de meus valores. Quanto à beleza física, de que lugar ela vai ser avaliada mesmo? E por quem? E com base em que padrão? O da indústria da beleza, da mídia que vende formas aceitáveis, ou dos corpos politicamente correto? Estou fora.

Se quanto às rugas biológicas não se pode fazer muita coisa, na luta implacável da pele contra o Senhor das Horas, o Tempo.  Mesmo muitos se esforçando, um estica dali, estica daqui, um botox aqui, um creminho ali, uma massagem, uma alimentação adequada, um cuidado com o sol...e por aí vai. Quanto as rugas emocionais pode-se fazer mutia coisa.

Prefiro me tornar um velhote todo enrugado, na face, mas com a pele interior lisinha, qual bunda de bebê.
De que adianta tanto esforço em manter a pele exterior jovem, quando a interior decai em intrigas, invejas, mágoas, falta de perdão, reclamações, rabugices, pessimismo, desesperança e chatice?

Inevitavelmente o tempo deixará em nós suas marcas evolutivas. Não só em nós, mas em todos os seres vivos. E, por mais esticada que nossa pele esteja, outros atributos denunciarão nossa idade.

E qual o problema?

Pelo que li, em alguns posts, parece que as pessoas temem a velhice, qual temem a morte.

Não sabem elas que este conceito mudou completamente. Não há mais uma cultura de "descer as escadas da vida para acessar os porões da morte", após passar dos 50.
Muito pelo contrário. A ideia agora é como se preparar melhor para chegar aos 100, no mínimo.

E, quanto mais cedo comece esta preparaão, melhor será.

Ela envolve o acúmulo de cinco capitais. A boa notícia é que se você tiver três deles, de forma bem consistente e intensa, já terá uma envelhescência maravilhosa. Os capitais da longevidade são:

1. Biológico - Cuidados com o corpo, promoção de uma cultura de fomento à saúde.

2. Financeiro - Adequação do estilo de vida á renda, garantindo o acesso aos alimentos, moradia, medicamentos e lazer.

3. Social - Participação e cultivo de laços e vínculos com os mais diversos grupos sociais: religiosos, esportivos, culturais...

4. Humano - Postura de "aprendente", não parar de desenvolver habildiades, conhecimentos e atitudes. Continuar conhecendo e tendo curiosidade e espanto em descobri algo novo.

5. Capital Psicológico Positivo - Formado pela combinação sinérgica de quatro competências sócio-emocionais: a esperança, o otimismo, a resiliência e a autoeficácia (crença de que com os recursos disponíveis irá entregar algum resultado).

As pesquisas com longevos felizes (The Grant Study, Okinawa, Rosseto, Louisiana)  mostraram que a ativação de apenas três capitais, dos relatados acima, com o seu investimento na vida longeva, torna a vida mais plena e feliz.
Por exemplo, alguns longevos que enfrentam déficits na saúde, mas mantém um forte espírito de vinculação social, esperança, e ainda continuam curiosos em aprender algo, compensam o pouco capital biológico, alterando a modulação da percepção geral do estado de ânimo, para a de um bem-estar subjetivo, apesar das doenças e limitações físicas que enfrenta.

Assim como verificado junto a longevos com pouco recursos financeiros, ou vivendo em condições de risco social. Mais uma vez, quando os outros capitais estão presentes, pelo menos três deles, o enfrentamento da situação financeira não compromete a saúde emocional.

Então, eu resumiria que o segredo de uma pele lisinha interior é manter a cabeça ocupada e o coração aquecido.  Vida ativa, participação social, vontade de aprender coisas novas, são a fonte da vitalidade.

Todo mundo conhece alguém com mais de 80, ou não?  Daqui a alguns anos você conhecerá alguém com 100, em cada esquina.

Então, a ideia que a placa de estacionamento reservado passa, nas vagas de idosos, como uma pessoa andando de bengala, tipo um "encostado da vida", é cada vez menos representativa do que vem ocorrendo, mundo afora.

Os gerotonlescentes estão fazendo com suas bengalas verdadeiros cajados.

E, eles não têm vergonha de seus rostos, amassados pelas prensas do tempo. Pelo contrário, consideram-nos troféus. Orgulhosos e classudos, estes "novos velhos" estão participando ativamente da vida, estudando, namorando, conhecendo novos lugares em suas próprias cidades, abrindo negócios, e sem medo de ser feliz, nem do espelho - até o pior deles, o que se revela no olhar estereotipados de pessoas que se acham dentro de uma piscina de formol.

Obs: O termo gerontolescente, ou gerontolescência, foi criado pelo geriatra, e especialista nas questões da revolução da longevidade, o médico brasileiro Alexandre Kalache.

Um dia difícil (Autor Ricardo de Faria Barros)

Todo mundo tem aquele dia no qual uma sucessão de fatos negativos ocorrem, transformando-o em algo asfixiante e pesado.
Ontem vivi um destes dias.  Tudo começou ao ir buscar o notebook do JG, na assistência técnica, após receber ligação de que o mesmo estava consertado.  Ao recebê-lo, constatamos um sério equívoco. O micro consertado e nos entregue não era o nosso. Eles cometeram um erro. E, nos garantiram que iriam encontrar com quem estava o nosso.
Saindo dali, recebi uma notificação de que minha empresa, a Ânimo, tinha entrada na Dívida Ativa da União, por algum recolhimento de imposto não efetivado. Pensei comigo, vou matar meu contador, ahh se vou! 
No caminho para a aula, resolvi cortar o cabelo e aparar a barba. Entre uma navalha e outra, acabei discutindo com a namorada, e por besteira. 
Chegando ao IBMEC, local que dou aula, recebo uma mensagem no WhatsApp, do tipo "comida de rabo individual - CRI", de minha mãe. Ocorre que não gostou de uma foto que postei no Insta e Face e me deu uma regulada.
Já era pelas 18hrs, os pensamentos negativos de um dia difícil se encaracolavam, grudavam e atormentavam meu ser.
Eles ficavam em loop, sendo ruminados em nuvens de pensamentos cíclicos e sufocantes: notebook-impostos-love-mãe-notebook-impostos-love-mãe-notebook-impostos-love-mãe.
Então resolvi intervir.
Aprendi, com os fundamentos da psicologia positiva, que precisamos fazer intervenções em nosso processamento cerebral, na forma como as emoções e pensamentos operaram.
Então, como ainda faltava uma hora antes da aula, levei-me para distrair o meu pensar, afastando o fixar no pesar.
Isto é uma arte. Chamo de cuidados paliativos emocionais.  Eles não solucionam o problema. Mas, não agravam a ferida. Por isso são paliativos. Como se botássemos um esparadrapo numa ferida, para que ela não infecione e complique mais ainda.
Não resolverão o notebook e os impostos, pelo menos no momento. Mas, ajudarão a perceber outras coisas que podem existir ao lado dos problemas. Tirando o olhar deles, e reenergizando os ser.
Saí para caminhar, e logo na calçada percebi um belo pôr do sol que tingia tudo de vermelho, daqueles que só no DF tem.
Uaaauuu, que lindo.
Resolvi caminhar descendo a avenida, dobrando a esquerda, num trajeto diferente do que sempre faço.
Logo notei uma árvore, que tinha uma florada diferente. Uma flor laranja, avermelhada, que não conhecia ainda. Uma bela flor.
Passando à frente do jornal Correio Braziliense, no Setor de Indústrias Gráficas, resolvi parar numa barraquinha na calçada, e pedir um café com tapioca.
Descobri que a dona era chamada por todos de Tia. E ela foi logo se desculpando dizendo que levaria um pouco mais de tempo, pois estava sozinha.
E uma lágrima desceu pelas suas faces.
Perguntei-lhe o que ocorrera.
Então, ela me contou que nos últimos meses perdeu os dois ajudantes, o marido e o filho.
O marido, por se sentir enlutado em casa e sem condições de trabalhar.
O filho, por ter falecido.
Ele tinha 27 anos, era seu braço direito, o marido o esquerdo.
Faleceu de morte súbita, quando estavam na igreja. Disse-me que ele teve um "treco no coração".
Ela contou que não pode se deixar morrer também. Que está vindo trabalhar à força. Mas que precisa reerguer o marido, e continuar tocando a vida e o pequeno negócio deles.
Que, entre um pedido e outro, no estilo Delivery, quem ia deixar era o filho.
O fato havia ocorrido há 5 meses. E a dor ainda estava insuportável.  Contou-me que precisava falar com um psicólogo, mas não tinha tempo nem recursos para tal.
Então, coloquei-me a disposição e trocamos alguns dedos de prosa.
Terapêutica prosa, para ambos.
As pessoas queriam que ela não chorasse, não falasse mais do filho, não rememorasse. Queriam que ela fosse forte, virasse a página, e não a consideravam em sua dor e luto.
Eles não faziam por mal, queriam ajudá-la, mas ela se sentia pior ainda. Culpada por sofrer e ficar triste.
Então, disse-lhe que ela tinha direito ao luto. Ao sofrer, ao chorar, ao relembrar do filho e contar do quanto ele fazia-lhe falta.
Tia me disse que todos os dias ainda louvava a Deus por tudo. E que nos domingos visitava hospitais, levando a palavra. Que ela tinha acolhido a vontade Dele, em levar o filho dela, embora algumas vezes brigasse com Ele, disto ter ocorrido tão cedo.
Que santa mulher!
Sua meta de vida, no momento, era cuidar do marido, para que ele não adoeça de tristeza, ou adentre no álcool, como fuga da dor.
Sem nem perceber o tempo, despedi-me correndo, prometendo voltar na próxima semana, para mais um café terapêutico.  E pedi que ela convença o marido a tomar um café comigo.
Ela me abraçou, agradecendo a escuta, balbuciando que finalmente alguém tinha entendido a sua dor.
Achamos que temos problemas, que eles são insolúveis.  Até nos deparar com pessoas vivendo situações, para as quais não há dia após dia que possa resolvê-las, por sua característica terminativa.

Precisamos aprender a conter o rio de pensamentos negativos que ficam rodando em nosso ser. O que não significa se tornar um alienado, esquecer os problemas, ou não enfrentá-los.

Significa possibilitar um espaço de refrigério do ser, um refresco para alma, seja vendo um sol que se põe, uma flor que se abre, ou acolhendo a dor de uma mãe que enterrou seu filho - servindo!

Quando voltamos destes "passeios existenciais" estaremos mais fortes para enfrentar as situações, encontrar saídas inovadoras, e ser mais engajados em fazer acontecer o que de fato queremos que ocorra.

O desânimo nos deixa impotentes, o medo nos imobiliza, e o excesso de estresse nos tira o vigor.  Então, precisamos deste termômetro interior  pra saber a hora em que precisamos intervir, em nós mesmos, para não sermos tolhidos pelo pessimismo que rouba o que de mais sagrado existe no ser humano, a esperança!




Aos que Semeiam Esperança! (Por Ricardo de Faria Barros)

Era uma vez um povo que nas noites frias reunia-se ao redor das fogueiras,  feitas com os restos de  de suas vidas.
Muito ficavam horas ali, perfilados, sem murmurarem queixumes, sem falarem do tempo, sem comentarem sobre o último que partiu, ou repararem os que por ali chegavam.
Apenas se aqueciam, deixando seu ser perambular, entre as chamas brincantes que teimavam em  escapar da sina de queimar junto.
Numa grande panela, um caldeirão de sopa coletiva e rala fervia. Feita com as com raras e minguadas batatas, retiradas do que restou das plantações, baús e escombros.
Então, dirigiam-se até ela, enchiam seus pratos, sorviam aquele alimento, sem se falarem, pois não mais se reconheciam como iguais.
Eles viviam naquela rotina há meses, até que numa noite algo ocorreu.
Havia uma pessoa diferente, arrodeando o fogo, logo notada por todos.
Perceberam que ela não era dali, era forasteira.
Tinha um semblante altivo, embora esquálido pela fome. E, ela fazia coisas diferentes deles. Vez por outra ela botava uma lenha no fogo, para não deixar apagar. E ia em direção à panela mexer, atitude que muitos reprovavam, em expressões faciais, já que não mais se falavam.
Ora, para que mexer uma panela de sopa, feita com dez litros de água e uma única batata?
Não havia lógica.
Na outra noite, não satisfeita em atiçar o fogo e mexer o caldeirão, Carmina começou a cantar uma velha canção, para desaprovação de muitos.
Os pensamentos deles trocavam ideia entre si, no silêncio dos porões espirituais.
- Como pode esta senhora cantar, diante de tudo que estamos passando? Pensou o mais alto do grupo.
Ao que o outro pensamento, em diálogos espirituais, endossou dizendo.
- Só pode ser maluca, é preciso que tenhamos cuidado com ela. Poderá inclusive botar algo na sopa. é bom prestar atenção nela.
Contudo, entre os presentes alguns começaram a bater o pés, no ritmo da canção. Embora timidamente. Outros assumiram a tarefa de botar a lenha no fogo. Outros ainda, começaram a revezarem-se na mexida da sopa, que até passou a lançar delicioso perfume, daqueles que atiçam e dão sabor à fome.
Uma jovem órfã se aproximou de Carmina. Ela se chamava Maria, e passou a cantar baixinho com ela.
Ao voltarem para casa, as duas iam juntas parte do caminho, até se despedirem.
Passou uma semana e a rotina era sempre a mesma, fogo sendo atiçado até tarde, caldeirão mexido, e canções sendo cantadas pela Carmina, sempre acompanhada por algumas batidas de pés no chão.
Mas, eis que Carmina não foi naquela noite.
Eles se entreolharam, perguntando com seus toscos botões o que teria ocorrido.
Não sabiam em qual casa ela morava, ou quem ela era, pois nunca se importaram em perguntar.
E se sentiram culpados por isso.
Perguntaram então à Maria, mas ela falou que quando voltavam juntas, Carmina a deixava primeiro, e seguia caminho.
Fez um silêncio, daqueles que se dá para ouvir o crepitar das chamas.
De repente, um dos presentes, timidamente, começa a entoar a canção preferida da Carmina, ao que todos o acompanharam.
Outros, logo se animaram e assumiram o atiçar do fogo, e uns outros revezavam na mexida da panela.
Eles já tinham cantado por diversas vezes, e as labaredas do fogo estavam alta, quando ao longe um vulto aparece, trazendo algo nas mãos.
Era Carmina, e trazia uma placa com a inscrição: "Casa de Maria".
Todos olharam para ela, desconcertados, sem entenderem o gesto.
Então, ela fez sinal para que o grupo a acompanhasse. Após andarem por bairros destruídos,  chegaram a um resto de casa, na qual Carmina ficou na calçada a placa que fez.
Disse que a noite seria encerrada com Maria contando sobre a sua casa, seu mundo, sua família, amigos, conquistas, derrotas, medos, coragens, sonhos e desejos que ainda tinha e alguma coisa da dimensão da "estranhice" que ela gostava, colecionava, fazia.
E a noite seguiu pela madrugada adentro. Logo as pessoas foram buscar algum resto de fogueira, feita com escombros das casas destruídas, e se aqueciam enquanto sorviam a vida da Maria.
Ao raiar do dia, o mais alto do grupo, e outrora o mais resistente, disse que naquela noite gostaria de botar uma placa no que restou da casa dele, e que gostaria de contar sua história aos presentes.
E assim se sucedeu, dia à dia, pessoa à pessoa.
Ao acabarem as narrativas, Carmina propôs um mutirão para ajudar, um a um, a reconstruir o que restou de suas casas. E assim foi feito.
Existe um punhado de gente que inspira outros ao seu melhor, como Carmina Burana, cujo nome nesta ficção foi retirado de uma famosa ópera.
Existe gente que não desanima, mesmo que só possa, diante de uma situação limite, atiçar o fogo.
Ou mexer a panela. Ou ainda, cantarolar uma canção daquelas de aquecer corações cansados.
Este povo do bem, consegue devolver identidades perdidas, atiçar ânimos molengas, revitalizar práticas virtuosas esquecidas. Mesmo quando todos, tudo e a própria situação represente para eles uma barreira, quase que intransponível.
Mesmo assim, eles continuam, perseveram, e caso nada possam fazer de mais significativo, ainda assim fomentam o espaço da fala aos aflitos, para que estes possam se reconhecer nelas, recriando identidades, reinicializando-se em aberturas às novas possibilidades, nem que seja a de mexer uma panela, de uma sopa rala, ou a de não deixar um fogo apagar!
No limite, um dos bens mais preciosos que podemos conceder aos outros é o direito à fala, ao compartilhar de sua jornada, em espaços fecundos de escuta institucional de narrativas eivadas de subjetividades e valor.
Ninguém sairá igual dessa roda de conversa, sairá mais forte e esperançoso!
Obrigado pelo carinho dos reconhecimentos.
Às vezes, quando se nos faltarem os ventos, ainda poderemos ousar remar. Os remos podem ser uma vírgula: Aos que semeiam, esperança!

Termômetro Emocional (Autor Ricardo de Faria Barros)



Um dos indicativos de que as coisas não vão bem com o organismo é a febre. Quem já criou crianças sabe do aperreio de uma febre alta. E tome banho frio, tome remédio, tome preocupação que cavalga noite adentro. O termômetro indica como as coisas estão se passando dentro do organismo.  Já se passaram uns bons 400 anos da invenção do termômetro, feita por Galileo Galilei (1592), e a descoberta de seu uso médico, feita pelo fisiologista Sanctorius de Pádua, em 1612.  Quantas vidas se salvaram graças a este aparelhinho tão simples?
Seria muito bom se algo do tipo fosse descoberto para medir o grau de nossas emoções.
Já imaginaram se houvesse um termômetro que nos alertasse sobre a nossa temperatura emocional interna?
Os marcadores deste termômetro poderiam ser estes: Desanimado -> Desmotivado -> Apático -> Ressentido -> Desiludido -> Desamparado -> Prostrado -> Culpado -> Frustrado -> Chateado -> Triste -> Irado  -> Decepcionado -> Ácido -> Descrente -> Ranzinza -> Crítico -> Pessimista  
Para cada um dos humores acima, haveria um nível aceitável e um nível doentio, que recomendaria uma intervenção imediata, para controlar o processo de infecção da alma.
Aí, poderíamos parar o que estávamos fazendo, e entrando em contato conosco mesmos, escanear nossas emoções, pensamentos e acontecimentos que provocaram este elevar da temperatura emocional.  Uma vez identificada a fonte de nossa febre emocional, poderíamos sobre ela atuar. Em processos de autoconhecimento, autoconsciência e autonomia do ser.
Em muitas das situações, o que elevou esta temperatura foi o foco perceptivo seletivo negativo do que nos ocorreu.  Expressos em narrativas cheias de coisas ruins, filtradas de forma doentia da realidade.
Imagine a seguinte cena:
Quando começou a narrar a semana o Sr. Amaro (60), visivelmente chateado, disse que a tinha perdido, pois ficara de “molho” em casa. Contou que houvera comido algo que lhe fez mal, e foi parar numa emergência de hospital que atendia seu plano de saúde.  Após triagem, colocaram-no numa enfermaria, para tomar soro e fazer exames.  Umas longas três horas depois, o médico plantonista deu-lhe alta, dizendo que a infecção intestinal ainda estava no início, e que ele poderia se tratar em casa, tomando antibiótico por 7 dias, e “nada de álcool e comidas gordurosas” durante o tratamento, recomendou-lhe o doutor. Amaro falou que ficou triste, pois perdeu de aproveitar a festa do batizado da sobrinha, regada a muita bebida e churrasco.
Se colocássemos o termômetro em Amaro o que revelaria? Quais emoções negativas estão com os valores alterados, e para cima, causando-lhe infelicidade?
Imagine agora que o Amaro aprendeu a identificar a subida da temperatura emocional e passou a intervir nela, alterando a polaridade das cenas que são captadas na realidade – do negativo para o positivo.  Ele vai contar a semana, abaixo, com a polaridade positiva:
Quando começou a narrar a semana o Sr. Amaro (60), visivelmente em paz, disse que a tinha ganhado, pois ficara de “boa” em casa, convivendo mais intensamente com a família. Contou que houvera comido algo que lhe fez mal, e foi parar numa emergência de hospital que felizmente atendia seu plano de saúde.  Seu atendimento foi perfeito, o reidrataram, pediram exames, e todo mundo estava querendo que ele logo melhorasse.  E que pouco tempo depois, umas 3 horas, o médico deu-lhe alta. Já que graças a Deus a infecção intestinal não evoluiu, podendo ser debelada em casa mesmo. E que havia uma boa opção de antibiótico pra o tipo de bichinho que apareceu na cultura.  Ele seria o motorista da vez, na festa do batizado da sobrinha, liberando a esposa para tomar uns champagne, coisa que ele nunca fazia, pois ela era quem voltava dirigindo. E que assumiria a churrasqueira, para colocar legumes e frutas para grelhar, já que não podia comer nada gorduroso, enquanto se recuperava do piriri.
Percebem a temperatura do segundo Amaro?
A situação e realidade são as mesmas.  O que mudou?
A narrativa, a leitura que ele vai fazendo, minuto a minuto, sobre tudo que lhe ocorre. Mudou a polaridade da alma, de negativa, para positiva. Vejamos:
Na segunda narrativa, Amaro extrai e colore o seu existir com aspectos positivos. Ele vai preenchendo o que poderia ser negativo, com fortes doses de gratidão, bondade, compaixão e acolhimento.
Tem que ficar em casa de repouso? Então ele se propôs a melhorar a intimidade no lar.
Não pode comer carnes gordurosas? Então ele vai grelhar frutas e legumes.
Não pode tomar álcool? Então, ele será o motorista da vez, liberando a esposa para os brindes.
Adoeceu?  Mas pelo menos tem plano de saúde, foi prontamente atendido, não ficou internado, e existe medicação para debelar a infecção, ele pode comprá-la.
É preciso fazer este escaneamento de nossos pensamentos e emoções toda as horas.
Para identificar quando estamos ficando com febre emocional. Quanto de nossa leitura da realidade está sendo contaminada apenas pela polaridade negativa.
Com narrativas da mesma repletas de ódio, desejo de vingança, medo, desconfiança, pessimismo e rabugice. 
É preciso aprender a nos conhecer, a nos ler por inteiro, identificando o que nos ocorre, quais vulcões estão querendo entrar em ebulição, quais áreas estão em polvorosa, para sobre elas atuar - mudando a ênfase e a valorização que lhes estamos dando.
Ser mais feliz passa, necessariamente, pela reescrita de nossas narrativas, particularmente sobre aquilo que saiu fora do planejado, controle ou nos causou algum tipo de aborrecimento.
Assim como dar um banho frio é uma dica que contribui em baixar a febre, eu tenho umas que melhoram a temperatura emocional positiva. Use-as sem moderação.

          1. Cultive a gratidão sobre tudo que lhe ocorre.
2. Seja menos perfeccionista e exigente consigo mesmo.
3. Aprenda que o maior perdão que a vida lhe pede, talvez seja para consigo mesmo.
4. Seja mais empático às necessidades dos outros.
5. Seja mais generoso e menos individualista.
6. Pare de achar que o mundo gira em torno de você.
7. Tenha menos expectativa sobre os outros.
8. Mude a si mesmo, diante de uma situação ruim e imutável.
9. Acolha algumas situações e vire a página. No mínimo, desenvolverão aprendizados.
10. Para cada ruminação de coisas chatas pelas quais passa, traga à mente coisas boas, legais e virtuosas que ainda lhes resta. Muitas delas, esquecidas, desvalorizadas, e à margem de teu viver.



Cuidadores de Pessoas Sem Necessidades Especiais (Autor Ricardo de Faria Barros)

O motivador desta crônica foi o relato de Sr. Valdecir (76 anos).  De quando na sua casa cheguei, no momento em que regava seu jardim, em frente à sua casa (ver foto).
Após saudá-lo, fomos tomar um café na cozinha.
Hoje ele estava meio agitado. Contou-me um monte de coisas que andam preocupando a cabeça dele, tirando-lhe o sono, a vontade de comer e que o deixam infeliz: "Ricardo, ando com a vida cheia de tubulações (atribulações)...".
Todas elas, girando em torno de algumas situações-problema de pessoas da família. E, nenhuma delas, dizendo respeito exclusivamente a ele.  Então, contei-lhe a história de Dona Januária, a que embasará esta crônica, veja a seguir. 

Dona Januária, aparentando um certo nervosismo, lentamente ergueu as mãos, inscrevendo-se para compartilhar sua resposta à minha pergunta: "Qual a receita para uma vida feliz na envelhescência?"

Lentamente, um tanto vacilante, ela dirigiu-se à frente. Mas, ao tomar o microfone, já era outra pessoa.  Serena e confiante, ela foi irradiando luz em forma de letrinhas debulhadas ao vento.

Contou-nos que há 15 anos tinha sofrido um AVC, cuja recuperação de parte dos movimentos foi quase um milagre.

E que uma enfermeira de UTI ensinou-lhe uma receita para diminuir o risco de vir a ter um outro:

"Dona Januária, a senhora precisa parar de se preocupar tanto com os outros. Esvazie sua cabeça dos problemas dos filhos, noras, genros, netos e demais familiares, para que dentro dela possa caber sua própria vida. Deixe de viver sua vida pela ida dos outros, eles já estão crescidos."

Uauuu!!!

Ela falava com uma paz que contagiava a todos nós. E, sem rancor, sem mágoa, ou qualquer falsidade, ela disse que fez um propósito de vida, ali naquela UTI, de parar de deixar que a vida dela fosse a expressão da vida dos outros, nas suas alegrias, frustrações, e situações que lhes causava alguma dose de aflição.  Finalmente, aos 62, ela enxergou que passava todo o dia gravitando na vida de todos da família e amigos, e que não pensava nela mesma.

Se um filho tinha algum problemas aquilo era suficiente para acabar com toda a graça de seu dia.
Se um filho pedia para usar o cartão de crédito dela, e não pagava, ela não tinha coragem de cobrá-lo, provando-se de suas poucas economias para socorrer o filho.
Que, tempo depois, o filho comprava mais coisas, ou ia se divertir com os amigos, gastando tudo outra vez, e recorrendo mais uma vez a ela.
Que alguns chegavam na casa - sem combinarem, e só iam embora no domingo, tirando a liberdade dela de também fazer o que queria, para aquele final de semana. E fazendo-a ter que correr atrás de coisas para alimentá-los, corroendo a pouca renda mensal que tinha.  

Bem emocionada, com a voz embargada, ela contou ainda que descobriu que não tinha a vida dela mesma, que viúva que era,  poderia viajar, passear com as amigas da igreja, ou aprender algo novo de que gostasse de fazer.

Ela virou a provedora dos filhos, a dona da pensão, a cuidadora de jovens-velhos que não querem mais sair de casa, pela comodidade de que a casa dos pais lhes oferecem.

Encerrou dizendo que há uns dez anos passou a colocar barreiras, exigindo que respeitassem o espaço dela, suas economias, sua privacidade e desejos, e que nunca mais fez a rota de telefonemas diários que fazia antes, ligando pra umas oito pessoas da família, para absorver deles as preocupações, ou responsabilidades, que cabe a eles mesmos resolverem, ou com elas lidarem.

Fiquei tão mexido com aquele depoimento que só consegui expressá-lo nesta crônica, meses depois,  no dia de hoje.

Sou pai de quatro filhos e em breve terei neto. E não quero isto para mim. Não quero gravitar minha vida em função da vida deles. Quero ser que nem Dona Januária, e não preciso de um AVC para sacar que é chegada a minha hora de cuidar de mim.
O que não significa que não lhes amem, de montão, ou que não esteja disposto a ser um apoio, quando de mim necessitarem.

Mas, não podemos fazer isto com nossa vida. Viver nossa vida em função da vida dos outros. Ser permeável a todo problema que ocorre na vida deles, e que serão eles, com autonomia e responsabilidade quem deverá resolvê-los e beber daquele cálice.

Tenho visto um monte de jovens-velhos que não saem mais da casa de seus pais, e ainda exigem que seus pais sejam uma espécie de cuidadores deles. Roupa lavada, comida pronta, e - eventualmente, socorra-nos com empréstimos e compras no cartão - nunca devidamente ressarcidas.

Os "Novos Velhos" - expressão que caracteriza um movimento pela busca da qualidade de vida e plenitude na longevidade,  não podem renunciar à sua própria existência realizada, condicionando-a à existência realizada dos outros.

Isto não é empatia, isto é co-dependência afetiva, e do tipo asfixiante.  "Dai a César o que é de César". Pois, este negócio de achar ocupação na vida se ocupando da vida dos outros é muito pobre, enquanto realização pessoal na longevidade, esta vida é de "César". 
Sem falar nos aborrecimentos que podem causar, na própria dinâmica de vida dos outros, que passa a ser vigiada e cobrada, por esta pessoa que deixa de focar nas suas próprias necessidades e desejos, deslocando-os  para os outros.

Valeu Dona Januária, é preciso impor limites sobre todo aquele que quiser transferir sua própria vida para a nossa. 

Isto será educativo até para eles. E, fazendo assim, passaremos a perguntar-nos - com mais frequencia, o que de fato queremos para nós mesmos, do reino da plenitude, felicidade e satisfação.

Sem querer viver como cuidador familiar, de pessoas que não necessitam de cuidados especiais algum, só precisam assumir suas próprias escolhas, decisões e responsabilidades sobre a vida e o viver.


A juventude é uma consquista da alma. (Por Ricardo de Faria Barros)


Comecei a trabalhar com aposentados na Fundação Telepar (Telecomunicações do Paraná) em 1997, em Curitiba, Londrina, Cascavel, entre outras cidades do Paraná.
Os convites para minha participação eram custeados pela Sistel. Instituição que ainda hoje faz a gestão do plano de previdência das Teles.
Confesso-lhe que o namoro com o tema longevidade, encarnado em forma de grisalhas expressões, foi paixão à primeira vista. Desde então, não larguei mais os estudos e práticas com o pessoal desta  área.
Àquela época, eu tinha acabado de me formar na clínica psicológica, e como os encontros eram nos finais de semana, eu conseguia ali exercer alguns conhecimentos da Logoterapia (Terapia do Sentido na Vida), sem prejuízo de minha atividade principal como bancário.
Naqueles eventos, eu ficava impressionado com a garra e vitalidade de muitos sessentões, que não mais aceitavam a visão da velhice como incapacitante, como uma espécie de doença, e que de forma profética eram os arautos de uma revolução social que estava ocorrendo mundo afora, derivada do aumento da expectativa de vida.
Uauu!!!
Afinal, Viktor Frankl, pai da Logoterapia, dizia: "Pode-se tirar tudo de um Homem exceto uma coisa: a última das liberdades humanas - escolher a própria atitude em qualquer circunstância, escolher o próprio caminho".

Escolher a atitude diante de situações. Quanta sabedoria de Frankl.

O mesmo Frankl que à luz de sua experiência como prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz (1942-1944) escreveu: "Quando a situação for boa, desfrute-a. Quando a situação for ruim, transforme-a. E, quando a situação não puder ser transformada, transforme-se!."

Corta a cena, e mais de 20 anos depois sou convidado pela mesma Sistel para proferir um ciclo de palestras para os aposentados das teles, país afora. Missão que venho assumindo desde 2018, e com muita honra e satisfação Desde então, já estive com o pessoal da Telerj, Telesp, Telemig, Telern, Telce, Telpe e Telepará. Em agosto, encontrarei-me novamente com o pessoal da Telepar, e será muita a emoção, vinte anos depois.

Naqueles idos de 1997, nos eventos com os sessentões da Telepar, eu os encerrava afirmando que precisávamos chegar com qualidade de vida aos 80 anos.
Nos eventos que agora conduzo, encerro convidando o grupo a chegar com qualidade de vida a pelo menos s 100 anos. Lógico, se Deus assim permitir!

De cada evento, saio muito mais rico do que cheguei. Em determinada parte da palestra eu peço que uns cinco voluntários, compartilhem testemunhos de como tornaram a vida algo pelo qual vale a pena se viver.

No último evento, o do Pará. uma senhorinha, de uns 90 anos, disse que o que faz - pelo o qual vale a pena viver é ensinar as tarefas para netas e bisnetas. Ela falou com uma altivez de iluminar pálidos  candeeiros emocionais.

Já o outro disse que se dedica às pastorais da igreja, assim não tem tempo para ser infeliz, relembrando as coisas que lhe fez sofrer e os lutos que já tivera.  "Afinal, tem mita gente precisando de minha ajuda."

Uma outra, tão linda, disse que era uma pessoa muito agitada, muito estressada e com tudo, e que descobriu que a vida pode ser melhor diminuindo a intensidade, as cobranças e controle sobre ela mesma,  e sobre todos da família, inclusive a mania de absorver os problemas deles, como se dela fossem.

Já uma outra, dirigiu-se a mim, após o encerramento, e disse que o valor da vida estava nos cuidados que prestava à mãezinha, que sofria da doença do Alemão. E que, no inicio, enxergava aquilo como um exaustivo fardo e sofria bastante, Mas que, de uns anos pra cá ela tinha entendido que era uma oportunidade que Deus tinha houvera dado. A de ser melhor, cuidando da mãe. E que se sentia mais jovem a cada dia, após ter alterado a forma que percebia aquele servir ao próximo.

Este pessoal que conserva a vontade de viver nunca se perderá nos abismos e guetos sombrios da vida. Sem a vontade de viver não se chega a lugar algum.
Eles aprenderam a lutar pela maior causa da jornada da vida e do viver,  e pelo maior de todos os tesouros: aqueles advindos da conquista da juventude da alma.

Se eu tivesse que resumir todos os aprendizados que já obtive com este grupo, eles caberiam nesta frase que criei e uso nas palestras: A juventude é uma conquista da alma.

E é mesmo. E isto não tem relação com idade. Existem jovens cheios de juventude. Existem jovens velhos. Existem velhos cheios de juventude. Existem velhos velhos. Aliás, já existem crianças velhas também.
A juventude é um estado de espírito, uma postura disposicional e intencional do ser, frente às circunstâncias a que são expostos, e a forma pela qual reagem aos limites que se apresentam.
Cultivando vários espaços de sentido na vida, seja cuidando do jardim, seja cantando para crianças que residem em abrigos, seja cuidando da mãe, ou apoiando causas sociais. E até que seja sobrevivendo mais um dia, a situações difíceis, sem desistir de viver!

Não vejo a hora de encontrar os velhos amigos e amigas, aposentados das Telecomunicações do Paraná, e dizer-lhe o quanto eles foram proféticos, nos idos de 1997, ao enfatizarem que não estavam prontos ainda para adentrarem aos aposentos e esperarem o dia da morte chegar, pois tinham aprendido que a juventude é uma escolha pessoal, revolucionaria, intransferível e inadiável.

Falaram tudo!

Afinal, como também mais uma vez tao bem disse o fundador da logoterapia Viktor Frankl:

"Nada proporciona melhor capacidade de superação e resistência aos problemas, e dificuldades em geral, do que a consciência de ter uma missão a cumprir na vida!"
Meus pais, uns oitentões que sabem fazer a vida valer a pena de ser vivida!

Para ser + feliz, também é preciso saber "festar". (Autor Ricardo de Faria Barros)



É dia de jogo em Brasília, da seleção de futebol do Brasil.  À noite, Brasil e Qatar vão se encontrar às 21h30 , no Estádio Mané Garrincha.
A última vez que fui ao campo ver um jogo de futebol, o clássico da Paraíba: Campinense x Treze, foi pelos anos 80, do século passado.
Também não me lembro de ter levado meus três primeiros filhos, o Tiago (33), a Priscila (31) e o Rodrigo (29) num campo de futebol. 
Creio que a renda apertada de minha primeira família foi um dos principais motivos que me levou a não vivenciar qualquer tipo de lazer, que multiplicado por 5 – éramos 5, tornava-se muito caro para quem ganhava salário de escriturário do BB.
Então, optávamos pelo investimento do tempo no lazer em família, ou nas coisas da igreja, ou em viagens - para usar as diárias do título de que pagava mensalmente, da Bancorbrás.
A verba era tão curta, mesmo para estes passeios, que a opção de fazer uma farofada na praia não era charme, era estratégia de multiplicação dos reais.
Assim como, a estratégia de prorrogar ao máximo o horário em que levava os meninos para tomarem o café da manhã, pois economizava fome para o almoço, postergando-o par ao fim da tarde, numa espécie de almoço-janta.
Mas, depois consegui uns cobres a mais, e mesmo assim continuei bicho do mato. Os filhos vieram para Brasília, o JG nasceu, e mesmo assim eu continuava sem ir no campo, ou fazer alguma viagem para o exterior com eles.
Não vou me deter fazendo grandes análises do que ocorreu comigo que me levou a não mais ir a um estádio., ou me tornar uma espécie de ermitão para vários tipos de turismo de lazer-entretenimento, do tipo Disney.
Quantas coisas vão passando por nossa vida e não as aproveitamos?
Não estamos ali, presente a elas, vivendo aquela experiência.  Seja por comodismo, seja por apatia, seja por medo do desconhecido. Sei lá.
O fato é que tomei consciência disso recentemente. De que é importante ser testemunha da história, viver experiências únicas, que não se repetem. Poder dizer, eu estive ali!
Acho que entrei no modo sobrevivência, com uma vida muito corrida, adaptando-me a grana curta para qualquer tipo de lazer que custasse mais que 50 dólares.
 Ou fiz outras escolhas de preenchimento do tempo livre. Ou me adaptei ao estilo de vida da parceria. Ou, tudo isto junto e misturado.
Outro dia pensei comigo: “Daqui a duas semanas o Brasil vai jogar aqui contra o Qatar, que tal você levar o JG?”
Assustado de ter que enfrentar meus medos e mudar, ainda tentei argumentar dizendo que eu iria ver se ele estaria comigo no dia do jogo, uma vez que tenho a guarda compartilhada dele.
Tipo, vou adiar o assunto e ela vai esquecer.  Mas, esperta e conhecedora de meu estilo ermitão, soltou um: “Será na quarta à noite. E toda quarta ele fica contigo”.  Eita!
Então, resoluto e decidido, respondi que nós iríamos ao jogo.
Comecei a fuçar e descobri o site pra comprar os ingressos. A primeira aventura foi entender o sistema deles.
Os dois ingressos, a meia e a inteira, saíram em meu nome. E não havia opção de escolher as cadeiras, portanto saíram em poltronas diferentes, embora no mesmo portão 17.
Aiaiai pensei! Só comigo.
Mandei mensagens para a Fanpass, e-mail, tentei os fones, WhatsApp, bati bombo, soltei fumaça e ninguém respondia.
No dia do jogo, após mandar um último help pelo Zap, eles enfim responderam que não havia cadeiras marcadas e que a meia entrada, também com o meu nome impresso nela, não seria problema. (Sic!) Não entendi nada, mas lhes confesso que fiquei com o “chu” na mão. É que tenho fobia com acesso a prédios, ter que passar por guardinhas. Além da de achar que o meu lugar de sentar estará com outra pessoa nele. Bem, pelo menos a segunda fobia não seria alimentada, já que o assento era livre. O problema, na cabeça de um fóbico, é que criamos um cenário no qual nenhuma dupla de cadeira estaria disponível, lado a lado, para mim e o JG. Coisa de louco, ao pensar um estádio com mais de 70.000 lugares. Mas, quem não tem também suas próprias bizarrices que me atire a primeira pedra.

Na manhã da quarta saio feito doido pelo setor comercial sul procurando o povo das bandeiras e camisas. Nada. Eles não fizeram o ponto. Dou uma voltinha pelo estádio e por lá eles ainda não houveram chegado.  Disse-lhe que iríamos “normal”, mas que iríamos.
Pelo meio dia, ela vem aqui em casa e me salva com uma bela camisa canarinha para o JG.  Quem ama cuida!
Fiquei emocionado com o gesto inesquecível dela, e fui logo tratar de achar as minhas camisas amarelas. Tinha dito a ela que eu tinha uma da seleção, mas me enganara. Logo decidi por uma camisa de um evento do BB, bem estilosa e amarela.
Fui buscar o JG no colégio, e no caminho de volta disse-lhe que à noite iríamos ver o jogo do Brasil. Ele, entretido com o celular, respondeu com um protocolar: “ok, papai”.
 Aí continuei dizendo que ele precisaria provar a camisa que ganhou, e que tinha que fazer todas as tarefas na parte da tarde, para que fossemos ao estádio.
A cena que ocorreu a partir desta minha frase não cabe em palavras. Caíram todas as fichas ao mesmo tempo. JG ama futebol. Ele treina todos os sábados. E, ele perguntava, nós vamos ver o Brasil? Eu dizia, sim. Ele continuava, no estádio? Eu dizia, sorrindo, siiimmm!!! E ele vibrava de felicidade, esquecendo o celular.  Aí foi me falando que o Gabriel Jesus jogará, que o Neymar – o pegador, jogará.  E que talvez o Brasil consiga fazer um gol de falta. E que tem tempo que não faz. Eu não sabia de nada disso.
O jogo começava 21h30, mas saímos de casa 17hrs. Estacionamos perto da Torre de TV e fomos eletricamente esfuziantes em direção ao Estádio. No caminho bandeiras, camisas, e adereços marcavam o momento: é dia de jogo do Brasil. Fomos dos primeiros a acessar as catracas de fiscalização do acesso.  Elas nem estavam abertas ainda, visto que era 17h30, mas nos juntamos a outros 50 ansiosos que nem nós. E tudo era festa. 18h40 elas abriram e fomos para a revista. E, pimba, o só comigo ocorreu. Fomos barrados.
Não autorizaram meu ingresso com a câmera fotográfica. JG ficou desolado, olhos cheios de lágrimas. Disse-lhe, filho bora correr até o carro. Se eu tivesse ido de Uber o problema seria mais sério. Corremos uns 1,2 km, deixamos a máquina, e voltamos arfando, mas felizes. Já não havia filas na segurança e passamos legais pela vistoria.
Nos dirigimos à segunda barreira, agora a da conferência do ingresso. Com o chu na mão, a moça só passou no leitor de código de barras, que deu ok nos dois ingressos.
Mas, tinha uma terceira barreira, que pegava um outro papel para checar a validação do ingresso, e logo o cara nos liberou.
Entramos naquele mostro de concreto, feito com mais de 40 esguias colunas gregas de uns 100 metros de altura. A primeira sensação foi de retorno à minha juventude. Aquele frisson no ar, ao subir para a superior, entremeado de enormes colunas, aquela primeira visão do campo, uauuu, as pessoas alegres, famílias e mais famílias. Logo descobrimos um lugar bacana, na arquibancada superior, a primeira de suas fileiras, a mais próxima da inferior. Estávamos protegidos à frente por um vidro, e ficamos sentados ao lado de uma das escadas de acesso ao wc, e com uma segurança nela fazendo guarda.  JG bem que tentou ainda ler o resumo de história e geografia da prova que faria nesta quinta.
Mas, era impossível. O clima de jogo do Brasil é indescritível. E muitas coisas vão ocorrendo, mesmo a 2 horas do início. Tem jogo de bolas e camisas pra torcida, o que JG reclamou pois não alcançavam as superiores. Tem música, tem a batucada chegando com festa. Tem fogos a escalação anunciada nos telões. Tem o povo levando banho dos jatos de água do campo, e todo mundo sorrindo. Tem treino dos goleiros, tem os doidinhos dos reservas. Tem a entrada dos titulares para aquecimento e primeira saudação pra torcida.
Então, a prova de Geografia e História que nos perdoe, mas dela existe recuperação. De uma vivência como aquela não! E, liberei o JG da leitura. Ele não podia perder nada daquilo, nem eu. Acho que éramos os mais animados do pedaço onde estávamos.
E foi uma comilança, graças a Deus levei dinheiro trocado. Era um tanto de gente passando vendendo churros, pipoca, cachorro-quente, batatas e amendoins, água e cerveja sem álcool.
Uma festa de sabores. Tudo embalado pelo animado do estádio que não deixava ninguém parado, ensaiando as famosas Olas.  JG logo se aclimatou e já estava indo sozinho ao WC e repor comidas, direto no bar. Sempre eu ficava apreensivo, mas como a lotação estava em 50% da capacidade do estádio, eu o deixei treinar autonomia e protagonismo. E ele se saiu super bem.
Aí veio a entrada dos times, a emoção dos canhões de ar que lançam as fitas amarelas na torcida, as torres de fumaça branca, e o hino. Ahh, o Hino Nacional Brasileiro, o povo todo cantando à capela, como não encher os olhos de água?
Acho que só viver a cantata coletiva do Hino já teria valido à noite.  Mas teve dois gols, dois momentos que eu e o JG parecíamos enlouquecidos, abraçados, pulando e em pé festejando.
Faltando 15 minutos pra terminar resolvi sair para poder pegar menos trânsito e chegar mais rápido em casa. JG vinha esfuziante no carro. Comentando cada lance, inclusive o bendito gol de falta que anda rareando na canarinha.
Uma tímida lua nova nos acompanhava, até em casa. No meu coração só gratidão. À namorada por ter me possibilitado viver esta experiência.
E a Deus por ter dado tudo certo. Chegamos em casa, nos abraçamos emocionados com o que vivemos, e, antes de dormir, dissemos um a outro: voltaremos a fazer isto! 
É preciso mesmo. Para estas e tantas outras coisas que ocorrem, ali pertinho de nós, e nem sempre as valorizamos e delas participamos como deveríamos fazer.
Não posso consertar meu passado, nem devo me julgar com severidade e culpa, contudo posso reescrever meu presente!
Chega de ser ermitão, um monte de coisas ocorre todos os dias mundo afora, dignas de serem saboreadas – com a família, amor, amigos ou sozinho.
E, muitas delas, ocorrem a custo zero.
Como, por exemplo, ver nos primeiros domingos de cada mês a troca da bandeira do Pavilhão Nacional, na Praça dos Três Poderes, aqui em Brasília.  Espetáculo belíssimo, para o qual em 20 anos por aqui, só fui uma vez.  Este tempo acabou, está decretado, lavrado e passado em cartório!

Por uma Maior Ecologia Humana (Por Ricardo de Faria Barros)

Fui deixar o meu filho na escola, o JG de quase 10 anos, e no caminho aproveitávamos para revisar a matéria da prova de Ciências.
Num determinado momento, após atravessar o Protocolo de Kioto (PDK), ele começou a definir os 5Rs da sustentabilidade, e em voz alta.
Eu intervi, achando que ele se enganara:
- Cinco, não são três? Perguntei espantado.
Não pai, são 5 Rs: Reduzir, Reciclar, Reutilizar, Repensar, Recusar.


Fiz cara de admiração e babei com a novidade. Que legal o repensar e o recusar, adicionados recentemente.
Fiz mestrado no tema sustentabilidade, em 2007, e testemunhar uma criança estudando sobre o PDK, e os 5Rs, é muito prazeroso. Estamos criando uma nova geração que terá mais cuidado com o nosso futuro comum.
Engraçado que redefine minha linha de estudos para a Ecologia Emocional. Assim como o ambiente físico, o ambiente emocional também pode ser poluente.
Podemos largar por aí, nos ambientes em que estamos inseridos, as chuvas ácidas atitudinais, ter a camada de Ozônio do coração perfurada, pelos insensíveis de plantão, ou até sofrermos com o efeito estufa labora, dos ambientes carregados nos quais trabalhamos.


Precisamos urgente de uma campanha pelos 5 Rs para melhorar a convivência social, humanizando ambientes, relações e serviços.


Reduzir - Reduzir a falta de empatia com o outro, que mesmo trabalhando ao lado, se nos passa como invisível. Reduzir a ingestão de ódio, inveja e desrespeito para com os tidos como diferentes. Reduzir a falatória de monólogos narcisistas, todos em busca de palco e poder, para ampliar os espaços da escutatória de pessoas que se doam e acolhem-se mutuamente.
Reduzir a falta de tesão pela vida, falta de disciplina, coragem e foco no que precisa ser feito, para se chegar a algum lugar. Reduzir as terceirizações de culpas e responsabilidades, para uma entidade, ou um alguém qualquer. Reduzir alimentar tudo que nos apequena, aprisiona ou tiram-nos a luz.

Reciclar – Reciclar lembranças e vivências. Ir buscar no fundo da alma aquelas cenas de carinho, de apoio, de superação pelas quais já passamos. Ressignificá-las para delas extrair mais força de viver. Reciclar as emoções que tivemos e que nos fizeram sentir e expressar gratidão. Reciclar sentimentos, pensamentos, oxigenando a alma. Ter a disposição para abrir o baú das memórias e valorizar aquelas que nos tornaram melhores como pessoa. Reciclar algo que aparentemente nos tornou um lixo, em algo de valor, fruto do aprendizado que tivemos. Reciclar os sofreres, extraindo deles a coragem dos sobreviventes.

Reutilizar – Reutilizar tudo aquilo que já utilizamos e deixamos de lado, esquecido num canto qualquer de nossa alma. Reutilizar as manhãs nas quais acordávamos tão esperançosos para a maravilha da vida e do viver. Reutilizar potenciais adormecidos, reutilizar elementos de nossa história de vida, capacidades e competências, atualizando-as para o enfrentamento dos tempos presentes. Reutilizar os valores que sempre nos fizeram tão bem, e que por não recebê-los dos outros, fomos deixando largados, mofados e empoeirados nas estantes de nosso ser, tais como o perdão, o reconhecimento do outro, a ajuda despretensiosa, a vontade de crescer, a esperança de que amanhça será melhor, e de que isto, qualquer isto que doa, também passará.

Repensar – Repensar nosso estilo de vida, cada vez mais consumista, materialista, individualista e ganancioso. Fazer escolhas mais saudáveis mantendo o corpo são. Carregar menos malas dos outros e de nós mesmos, em forma de emoções, culpas, lutos e pensamentos que pesam na alma. Repensar caminhos, permitir-se a escolhas diferentes, que levam a novos lugares. Repensar as peles dos outros encrustadas à nossa, se de fato elas estão nos fazendo bem. Repensar a jornada, os alvos e metas da vida e do viver. Focando no que realmente importa, interessa e faz bem. Repensar se não estamos reproduzindo hábitos nocivos, comportamentos tiranos e emoções doentias, fruto da convivência com pessoas e lugares nocivos ao bem-estar emocional.

Recusar – Recusar tudo que nos fará apequenar a alma. Recusar promessas fáceis de se chegar à janelinha. Recusar a ideologia de que nós merecemos tudo, mesmo sem esforço algum para seu alcance. Recusar viver a vida dos outros, em invejas mórbidas. Recusar acompanhar projetos de vida que não se sustentam em si mesmos. Recusar toda falta de ética, respeito e consideração para com o próximo. Recusar aos preconceitos e aos extremos totalizantes de todas as crenças: religiosas, políticos, regionais... Recusar toda linha de produção que nos quer iguais, sem identidade, objetos do sistema, pessoas sem autonomia e liberdade de refazer caminhos. Recusar fazer parte dos grupos de ódio, de negação de toda forma de vida e de tirania. Recusar caminhos que não são os nossos, pensado e trilhado com nossos próprios pés. Recusar tornar-se coisa, mesmo se coisificado for.

Assim, entendo que a Ecologia Emocional estaria mais preservada e cada um de nós contribuiria em deixar mais saudável ao ecossistema humano no qual habita.

Ao Uzbequistão de Nós Mesmos (Autor Ricardo de Faria Barros)

Era noite de sexta, aula de Comunicação, e a Marta conduzia sua sessão de narrativas de vida.
Animada, usava seus 5 minutos, para narrar algo marcante.
Ela contou-nos que no ano passado fora passar 15 dias no Uzbequistão, para fazer a Rota da Seda e conhecer a cidade de Boukhara.
Seus olhos brilhavam ao relatar sobre as bonitas edificações e paisagens que por lá conheceu, e das aventuras dos deslocamentos, entre vários aeroportos, estações ferroviárias e rodoviárias, até chegar aos destinos finais.
E, do quanto aprendeu com a viagem, de como é possível conhecer lugares legais sem levar muitas malas, gastando pouco, e ainda fazendo um monte de amizades pelo caminho, inclusive com pessoas do Brasil que estavam fazendo experiências sabáticas no exterior.
Que consistem em dar uma pausa no trabalho e se permitir a uma viagem em busca de si mesmo, de preferência enfrentando o desconhecido noutro país.
A lição aprendida, que encerrou sua apresentação, foi a de que o segredo da felicidade está na simplicidade de viver: seja no vestir, no conviver, no comer, se hospedar ou se deslocar.
De fato, se é uma coisa que esta geração nos ensina é a de fazer no hoje, e com o possível, algo muito legal.
Eles não têm medo de saírem por aí mochilando, conhecendo lugares únicos, e desafiando seus próprios limites. Desde que valha a pena a jornada, eles irão para lá.
Não se importam com luxo, restaurantes badalados, ou malas abarrotadas de roupas bonitas, daquelas para visitar lugares estilosos. Se tiver alguma coisa legal para conhecerem, está valendo o sacrifício. Eles curtem a experiência da viagem.
Eles não se obrigam a vestir uma roupa que não lhes cabem mais. Show!
Quantas coisas em nossa vida este jeito mochilar de ser nos ensina! Com menos malas, mais leve, mais livre, com mais autonomia e coragem de ser quem se é, não tentando ser o que querem que sejamos.
É preciso fazer a jornada da vida como quem mochila para o Uzbequistão.
É preciso peregrinar em busca de nosso Uzbequistão interior, trilhando a jornada da alma.
Ousar, com a mesma coragem da jovem Marta, acessar áreas desconhecidas de nossa existir, acessar nossos medos, nossas vivências difíceis, extraindo desta viagem ao interior do Ser aprendizados essenciais para uma vida plena, com sentido e feliz.
É preciso conhecer nosso Uzbequistão, para melhor valorizar e aproveitar todo o potencial humano de nossa existência. Deixando de lado, ou pra trás, ou até não mais priorizando ou destacando, aquilo, ou quem, nos faz mal.
Para chegar ao Uzbequistão da alma é preciso coragem de recomeçar, quantas vezes necessários seja. Coragem de se reconectar, reinicializar, quantas vezes preciso for.
Coragem de romper com prisões reais ou imaginárias, saltando no vazio de infinito à frente.
Coragem de dobrar aquela curva, permitindo-se ao mirar de novos horizontes.
Esta coragem exige uma atitude Marta de ser. Daquelas de mente e coração abertos para a novidade de viver, e de assombro com os encantamentos de cada estação, nas paradas da vida.
Atitude receptiva e acolhedora frente a novas culturas e pessoas
Carregando menos tranqueiras emocionais em nossas malas interiores.
Carregando menos problemas das outras pessoas. Carregando menos as próprias outras pessoas em nosso viver.
Deixando de querer ser uma unanimidade.
Deixando para esta viagem de levar as culpas eternas. ou as mágoas encardidas, daquelas que tiram o gosto de tudo, causando desgosto.
A vida anda pedindo um pouco mais de leveza e simplicidade.
Anda pedindo menos tempo-pixel e mais tempo-pele.
Inspirado pela Marta, voltei pra casa lembrando-me uma experiência legal que que vivi, recentemente, e a custo zero.
Outro dia, peguei o carro e fui em direção a uma das raras produtoras de vinho do Cerrado, para as bandas de Cocalzinho de Goiais. O objetivo era conhecer a vinícola Girassol, com sua cachoeira do mesmo nome. A ida a este local exige o estilo Marta-Mochileira. Parte do acesso não é asfaltado. E, ao lá se chegar, será preciso descer uns 200 degraus até acessar a queda d´água, descendo pela escarpa de uma montanha rochosa. Antes de descer, parei no prosaico restaurante rural do local para encomendar um dos três tipos de almoço: galinha, peixe ou vaca. E tudo precisa ser pedido com tempo, para poder ser feito, exclusivamente para você.
É ou não é uma experiência? Trouxe na bagagem, além da bela queda d´água, flores e uma borboleta azul, o papo gostoso com a cozinheira que fez o delicioso pirão de galinha, e o que tive com o marido dela, que explicou as propriedades dos licores que vende: Cagaita, Jenipapo e Uva. Comprei um de cada, afinal de contas, são raríssimos (rsrsrs), e com o selo do vinhedo Girassol.
Este texto não é sobre o Uzbequistão, ou a Girassol, embora falei deles como uma metáfora sobre viagens na jornada de nós mesmos.
É preciso parar para contemplar o presente, ousando enamorar-se com encanto, e novamente, tal qual quando éramos tão jovens, das coisas simples, possíveis e acessíveis em nosso viver, que nem sempre são mais valorizadas, por estarmos envenenados de ansiedades mil, preocupações dois mil, e pensamentos e emoções negativas, três ml.
É preciso tirar das malas tudo que não nos pertence mais e que dificultará nossa caminhada.
Tirar toda forma de orgulho ou arrogância do ser.
Tirar pra fora todo tipo de preconceito e desrespeito no conviver com o outro.
Tirar toda as peles que em nós foram se moldando e que não se constituem a nossa melhor essência, nem dizem respeito ao nosso Eu Maior.
Na intransferível viagem à jornada da alma, vale mais levar na bagagem a humildade, a compaixão, a empatia, a amorosidade, a ternura, a coragem, a tolerância, a simplicidade, o otimismo e a esperança. Do que, o orgulho, a prepotência, o medo, a mesquinhez, a brutalidade, a autossuficiência, o desamor, a desesperança, a apatia, a inveja e a opressão.
É urgente carregar menos malas, em forma de gente, ou de emoções-comportamentos tóxicos, para uma vida de mais autonomia e feliz!

O valor de uma ida ao salão (Por Ricardo de Faria Barros)

Voltando da caminhada, arfando que nem cachorro criado em casa de açougueiro, dei-me conta de que não levara a chave da portaria.
Dirijo-me então à recepção, e, ao dela me aproximar, vejo conversando com o porteiro Antonio uma vistosa senhorinha, de uns 1,85 de altura, cabelos bem branquinhos, toda elegante e altiva.
Ela fala em voz alta, e toda sorridente, que não vai esperar ficar boa da saúde para ir ao salão, cortar o cabelo, e que aguarda o Uber.
Abestalhado com o que escutei, a cumprimento emocionado, e peço para Antonio abrir a portaria.
Despeço-me deles com um leve sabor de vida impregnado até os confins de meu ser.

Você já cruzou com alguém e saiu com a alma perfumada?
Aquela senhorinha aromatizou meu viver.

Horas depois, perguntei ao Antônio quem era ela. Ele disse-me que se trata e Dona Terezinha, 92 anos, moradora do ap 401.
Fiquei mais admirado ainda, e, porque não dizer, perfumado.
92 anos e com aquela jovialidade!
Dona Terezinha disse que não tinha tempo para aguardar ficar boa, e botou sua melhor roupa, fez maquiagem, estampou um sorriso no rosto, e foi renovar sua auto-estima.
Que atitude bonita dela, diante dos limites da vida.

Lembrei-me de Luzia, aquela da marchinha de carnaval de João de Barros (Braguinha):
"Anda, Luzia, pega o pandeiro e cai no carnaval.
Anda, Luzia, essa tristeza lhe faz muito mal.
Apronta a tua fantasia, alegra o teu olhar profundo,
A vida só dura um dia, Luzia.
E não se leva nada deste mundo..."

Foi como se eu visse a Terezinha com o seu pandeiro na mão, enfeitiçando as horas da vida, ao transformá-las em vidas das horas.
Lembro de mamãe, Dona Denise, 80 anos, que também anda tocando o seu pandeiro e não deixa de participar ativamente das pastorais da Igreja do Rosário.
Lembro de papai, Sr. Evandy, que prestes a chegar aos 82 anos ainda se alegra com tudo, e transmite muita paz, mesmo que esteja chupando dindin (sacolé), e de água.
Creio que estes "novos velhos" têm muito a ensinar aos velhos jovens de hoje em dia, em qualquer idade que estejam.

Ensinar a persistir, quando tudo ao lado já desistiu.
Ensinar a gratidar a vida. Verbo que criei para conceituar a capacidade ativa de sentir e expressar gratidão.
Ensinar a ter foco e disciplina, para correr atrás dos objetivos.
Ensinar a não desanimar, diante dos inevitáveis aperreios da vida, e continuar respirando, mais um dia, mais um dia, mais um dia...
Ensinar a dar valor às pequenas alegrias, reconhecendo-as como verdadeiras dádivas restauradoras da esperança de viver.

Precisamos urgente de muitos pandeiros na humanidade, de muitas Luzias, Denises, Evandys e Terezinhas.
Precisamos inspirar pessoas a enfrentarem seus monstros, a superar seus muros, reais ou imaginários, a expressarem o seu melhor potencial humano, dentro dos limites e possibilidades que a vida lhes impõe.

Dona Terezinha está certa. Não há tempo disponível para esperar ficar curada. Melhor, enquanto isto não chega, ir cuidar do cabelo.
A humanidade vive hoje uma epidemia de vazio existencial. Há falta de Terezinhas no "mercado".
Isto deriva tanto de uma educação infantil que não fixa limites, e não responsabiliza o jovem para ele mesmo correr atrás de seus próprios progressos.
Como do aumento da individualidade, consumismo e narcisismo digital, like-me please!
As pessoas estão virando produtos de consumo, coisas, e os relacionamentos ficando mais voláteis. E, sem o outro, um outro para confiar, nós murchamos como coletividade.
Assim, germinam-se em todo lugar pessoas que não estão sendo devidamente educadas para o enfrentamento da vida. Que acham que existe almoço grátis, ou que podem chegar nas janelinhas em esforço algum, só porque merecem.
Os brotos humanos que germinam deste ambiente, de baixíssima resiliência, são frágeis para aguentar os trancos e sopapos da vida.
Resiliência não se aprende em cursos e livros. Se aprende com a própria experiência humana. Então, se estamos criando pessoas super-protegidas, ou não estamos cortando os cordões umbilicais deles, estamos sabotando as suas próprias vivencias de frustração, medo, angústia, triunfo e realização
E, quando algo sai errado, este imenso grupamento humano - frágil e carente de sentido na vida, aprende a colecionar suas dores, viram colecionaDORES. Não basta ter uma dor, é preciso que ela seja compartilhada, distribuída, valorizada, como figurinhas premiadas de um álbum.
Pessoas que não processam suas dores, não a dissolvem, destilam, ou delas se livram. tornam-se escravos de suas coleções de dores, numa postura de vítima sufocante.

E, vamos enchendo as narrativas de nossas vidas com cenas dolorosas passadas, para justificar ainda não termos desabrochado, no presente.

Outra categoria muito comum, na atualidade, são os PortaDORES. Pessoas que quando chegamos perto delas saímos doentes de sua presença. Porque elas só falam coisas pesadas, ruins, sofrimentos, aperreios e aflições. Elas têm uma atração por divulgarem isto em suas redes sociais e para todos que delas se aproximam. Precisam despertar afago, atenção e cuidado, revelando o quão suas dores são grandes e vistosas. Como em porta-estandartes.

Por último, têm os ativaDores. Pessoas que possuem um prazer sarcástico de não se alegrar com quem se alegra, de nutrir inveja má, de machucar pessoas que pensam, ou agem, diferentes delas. Este tipo anda muito presente nas redes sociais. A pessoa não se basta em discordar de algo, ela precisa se sentir humilhando o outro, vencendo-o ao sobre elas jorrar um monte de palavras-armas, no qual qualquer espécie de diálogo cai por terra, cambaleante.

Terezinha nos deu uma tremenda lição. Com autonomia, com coragem e ânimo ela foi buscar o seu pedaço de bem-estar emocional positivo, conceito bem maior do que o da própria felicidade. Não ficando à mercê das circunstâncias, nem numa asfixiante postura de vítima.

Anda, Luzia, pegue o pandeiro e vem pro carnaval!

Não é sobre a Praia de Cumbuco-CE (Autor Ricardo de Faria Barros)

Li estarrecido que uma determinada ponte, em Natal-RN, tem sido usada para prática de suicídio. Com o aumento dos casos, voluntários passaram a se revezar naquele local, na tentativa de estabelecerem um diálogo com estas pessoas, demovendo-as desta decisão, tão trágica e sem retorno.

Para compreender melhor este fenômeno, não só do suicídio, mas também o aumento de episódios de automutilação, ansiedade, depressão e Síndrome de Burnout (exaustão emocional no trabalho) recorro a dois documentos, bem atuais.
No primeiro, o World Hapiness Report-2019, relatório publicado pela ONU, registrou o aumento de emoções negativas no mundo. Um dos indicadores deste estudo é a pesquisa sobre a propensão para a generosidade que caiu drasticamente.
No segundo, o Global Policy Report, também deste ano, recomenda-se aos governos que desenvolvam políticas para enfrentamento da depressão, além de investimentos em atividades que promovam uma educação emocional positiva.
Uma das causas-raiz, revelada nos estudos, é um aumento de episódios de adição e compulsão, inclusive em idades mais jovens, criando as condições ideais para uma epidemia de vazio existencial, que são:

- Adição: álcool, drogas e alimentos não-saudáveis.
- Compulsão: games, sexo volátil, trabalho, consumo e tecnologia.

Também faz parte destes estudos algo no mínimo interessante, uma associação do tempo dedicado ao mundo digital: games e redes sociais, com o aumento da depressão, prejuízo das interações sociais presenciais e a baixa qualidade do sono.
Diante deste cenário, o que podemos fazer?
Que respostas precisamos dar à vida, para não sermos tolhidos pelo quarteto fantástico do descontentamento:
Suicídio-automutilação; depressão; ansiedade e Burnout.
Como podemos ajudar aos nossos familiares, amigos e colegas de trabalho, ou de estudos?
Creio que qualquer que seja a resposta ela passará por uma melhor percepção seletiva positiva de nós mesmos, dos outros e da realidade.
E, precisamos resgatar a generosidade, empatia e amorosidade para com estes três entes relacionais: O Eu – O Tu – E a Vida.
Parar de correr atrás de um sentido da vida, e procurar os sentidos na vida. Em tudo que se faz, vendo-se a si mesmo, e onde está inserido, como parte de um coletivo maior.
Não podemos terceirizar a educação emocional positiva para a escola.
É urgente ampliar as fronteiras dos pensamentos e emoções, para além do caudaloso rio da negatividade no qual estamos nos afogando.
É preciso desenvolver uma maior força de vontade para com a vida e o viver. Desenvolver camadas de resiliência.
Não podemos aceitar impassíveis que todos os dias alguém se dirija à uma ponte, almejando pular para a morte.
Este assunto é nosso. Meu, teu e deles.
E é preciso reeducar as lentes do pensamento e das emoções desde a mais tenra idade.

Não esqueço o comentário de uma mocinha, proferido pra sua mãe, ao tomar um café da manhã num hotel em Fortaleza.
Eu estava na mesa ao lado, bem próximo, aguardando a hora de ministrar uma palestra, sobre longevidade feliz, e não tive como não a escutar.
A mocinha, de uns 13 anos, dizia que achou a visita do dia anterior, à praia de Cumbuco, horrorosa. E que uma amiga dela, que indicou o local, estava errada. Não havia nada de bonito ali.
E, passou uns bons minutos enumerando tudo de ruim que por lá viu.
Animada, disse a sua mãe que no dia anterior já tinha saído do hotel querendo mostrar que a amiga estava errada. E que conseguiu. (Pasmem!)
E a mãe tudo ouvia sorrindo, e até de certo modo apoiando as observações da mocinha.
Nada, nada e exclusivamente nada de bom podia se extrair daquela narrativa.
Depois de Cumbuco, animada, a jovenzinha passou a discorrer sobre o quanto Fortaleza a tinha decepcionado. A calçadinha, a chuva, o povo e até a comida do café da manhã do hotel.

Corta a cena e voltemos para nossa análise.

O que você encontrará na vida se saiu de casa querendo achar somente coisas ruins nela?
Que tipo de educação emocional aquela mamãe está passando para sua filhota? A de não ser grato. De não ser generoso na forma de olhar a vida, aos outros, e até a si mesma.
A de procurar defeitos em tudo, e de sair colecionando razões para ser infeliz: Coleciona Dores.
Pois bem, na idade adulta esta jovenzinha vai estar exposta a um monte de outas situações, até no mundo do trabalho, na qual ela precisará enfrentar.
E, se em cada uma delas, ela olhar para a vida como olhou para a praia de Cumbuco, e assemelhados, ela não vai achar sentido na vida.
E, vidas que se percebem como sem sentido são mais fáceis de serem atraídas pelo desejo de por um fim em tudo.
Então, precisamos reeducar o olhar sobre a vida e o viver. Aprender a lidar melhor com as frustrações, as perdas e os limites. Aprender que não ganharemos todas. Aprender que o mundo não gira em torno de nosso umbigo, e que ninguém na calçada vai prestar atenção quando você passar.
Excitar a doação, a mansidão, a gratidão e o perdão: portais de acesso ao sentido na vida.
Fomentando em nós um senso de pertencimento a um coletivo maior, do qual fazemos parte, e no qual podemos fazer a diferença.
Não concebendo o outro como deletável e descartável, ou apto a ser colocado na caixa de spam da indiferença.

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