O Risco Social das Autoverdades. (Por Ricardo de Faria Barros)


Imagine que uma pessoa, tua amiga, está no centro cirúrgico de um hospital, submetendo-se a uma operação, e você tem acesso a esta foto do texto, postada pelo médico-cirurgião dela, no exato momento que a opera.
Não. Não é fake. O médico existe, e deixou entrar uma quentinha no centro cirúrgico, saboreando-a, na boquinha, ao lado de um infeliz com o corpo aberto.
Perguntado sobre o surrealismo da cena, ele assim se explicou:
“Quando você está no auge da profissão, atendendo pacientes que vêm de fora do país para operar o nariz com você... Dai vem Deus, e com a fome lhe mostra que você é igual a todos...” Dr. Marcos Harter, cirurgia em 18.03.2019.

Isto é o reino da autoverdade. Autoverdades são sentenças que declaramos sobre nós mesmos, sobre os outros ou sobre a realidade, que não se deixam submeter ao crivo dos conhecimentos, em sua complexidade multirreferencial.

Você define que comer numa UTI, operando um paciente, é se mostrar um ser humilde e normal, e que não há risco algum da entrada de alimentos no campo cirúrgico, e pronto.
Vale a tua verdade.
Não importa centenas de tratados sobre o risco de infecções hospitalares, nem normas de conduta, nem tampouco as aulas sobre a ética médica.
E, os profetas das autoverdades têm seus seguidores.
Se você se der ao luxo de pesquisar os comentários sobre esta “singela” foto, verá que muitas pessoas defendem a atitude deste médico:
“Afinal, ele estava com fome!”
“Afinal, ele é gente como nós!”
“Afinal, não tem bactéria em comida que foi pra o micro-ondas”. (SIC!)

Na era das autoverdades, voltamos à idade média e perdemos capital intelectual de análise - sistêmica, vertical e holística.
E aí qualquer pessoa cria sua própria verdade, posta, e arruma um monte de seguidores que a compartilham, conseguindo novos seguidores.
A Humanidade está perdendo o senso crítico e a capacidade de avaliação, de algo que lhe ocorre, sub as luzes do conhecimento científico.
Os gurus da autoverdade dizem e fazem, o que pensam e o que querem, sem nenhum dilema, ou pudor ético, afinal eles têm seus seguidores, que autoalimentam em posts de reconhecimento às insanidades que afirmam.
Vejamos algumas, dos tempos atuais:
 Funcionário público é ineficiente.
 A terra é plana.
 Não houve o holocausto.
 Os negros têm menos capacidade cognitiva que os brancos.
 As mulheres são mais frágeis que os homens.
 Nordestinos tomam empregos de paulistas.
 Presos não se ressocializam.
 Índios são preguiçosos.
 Brasileiros nos EUA não têm boas intenções.
 O carnaval é um bacanal.
 Falar em camisinha aumenta a precocidade sexual.
 A gestão da diversidade aumenta os conflitos.
 Não há assédio moral, nem sexual, no trabalho, isto é invenção da ideologia de classes.

Então, caros amigas e amigas, como reverter esta cultura tão perniciosa das autoverdades?
Só tem um jeito. Fazer como o Iluminismo fez: visitando as enciclopédias. Ou seja, lendo, estudando, questionando e se abrindo a outras interpretações de mundo, fruto do acúmulo de conhecimento da humanidade.
Rompendo a bolha da autoverdade em que se insere.
Se você está numa bolha de autoverdade ela se auto-alimenta, protege-se, e cria as condições para que o mais absurdo dos julgamentos, das avaliações sobre algo, sejam de fato percebidas como verdadeiras.
Você só consegue crescer, em autonomia, justiça e ética, rebelando-se contra chavões simplistas de explicação da realidade, do tipo de uma lógica 0 e 1.

Comece perguntando-se assim: Não haveria como aquele médico ter comido antes da cirurgia? Não havia como deter o instinto da fome, diante de um trabalho que está fazendo? Não havia uma área mais apropriada para um lanche? Objetos não esterilizados que ingressam no centro cirúrgicos são portadores de bactérias?

Quando não tenho todas as respostas, desconfio de afirmações excludentes, totalitárias, que colocam todos no mesmo padrão de julgamento.
Então, faço perguntas. E vou em busca de outras fontes de conhecimento sobre o tema.
Isto vale também para as horríveis fake-news. Que viraram uma espécie de autoverdade digital.
Como a foto de um cachorro em meio a lama, associada à Brumadinho, e que nunca foi de fato tirada lá. Mas, queremos acreditar nela, e passamos a decretá-la verdadeira, pois ela atendia aos nossos desejos mais íntimos de solidariedade.
E, para finalizar, cuidado com tudo que começa com “Segundo pesquisas”, usado para defender uma autoverdade. Não esqueça que as pesquisas, dos cientistas contratados por Hitler, terem afirmardo que o tipo de curvatura do crânio e nariz determinavam a pureza da raça.
E olhe no que deu!

O termo "Autoverdade "fui cunhado e definido, do jeito que este texto lhe apresenta, pelo filósofo Zygmunt Bauman (+2017), no livro Vida Líquida, no qual ele denuncia comportamentos que estão arruinando com o sentido de coletividade e de humanidade, na pós-modernidade.

Não. Não é fácil ser mulher! (Autor Ricardo de Faria Barros)


Não. Não é fácil ser mulher! E é preciso ter muita coragem.

Coragem de andar em ônibus e metrô sem ser molestada.
Coragem de chorar em reunião da firma, frente a decisões que impactarão a vida de muitos.
Coragem de brincar com os meninos, sem ser tida como masculina.
Coragem para arrumar o quarto de um filho que se foi
Coragem de vestir azul, ou não gostar de rosa.
Coragem em não querer assumir qualquer dos papeis esperados dela pela sociedade machista e patriarcal, inclusive o de ser mãe.
Coragem de se reinventar, após romances nos quais se entregou de corpo e alma, terem ido para o brejo.
Coragem em chamar atenção para os aspectos subjetivos da gestão, em meio à tanta racionalidade fria e desumana no gerenciamento.
Coragem de criar os filhotes, e tocar  lida do lar, sem a justa divisão de tarefas com o cônjuge.
Coragem de trabalhar em funções similares, porém ganhando menos.
Coragem para dizer que às vezes cansa ser mãe, e que ela precisa de seu próprio espaço.
Coragem em levar o carro na oficina, e não ser ludibriada.
Coragem em tirar "a burca" e reivindicar direitos civis, sofrendo ameaças de morte.
Coragem de receber em seu apartamento e não ser tida como fácil.
Coragem de sair na noite sem perseguida como caça sexual.
Coragem de discutir a relação sem ser agredida.
Coragem em continuar sendo sensível num mundo de tanta insensibilidade.Coragem de denunciar todo tipo de violência ou exploração que sofre.
Coragem de lutar por melhores condições de trabalho nas senzalas urbanas, com seus minúsculos quartos de empregadas.
Coragem de se erguer após ser violentada, muitas das vezes por pessoas que gravitam perto do ecossistema familiar.
Coragem de buscar a ascensão profissional, sem ser assediada pelos detentores do poder.
Coragem de usar a roupa que quer, a maquiagem que quer, sem se importunar com gente que a quer encarcerar em suas próprias prisões comportamentais. 
Coragem em estimular e apoiar os filhos, quando todos já negaram-lhes o apoio.
Coragem de dizer que o não é não. 
Coragem de soprar uma brisa azul refrescante e rejuvenescedora, em meio ao deserto emocional dos tempos atuais. 
Coragem em teimar amar, teimar ter esperança, teimar perdoar, teimar ter gratidão e delicadeza, olhando a vida com um olhar de poesia, em meio à aridez de valores atuais da contemporaneidade.
Coragem de ser feminina e vaidosa, mesmo cansada após uma manhã de trabalho, ao pedir para repetir a foto: "Agora sem os óculos, para eu parecer mais bonita".  Como falou a Carla, a da foto, que nos atende tão bem no estacionamento do Deck Sul, na QI 11 em Brasília-DF, ao nos brindar com sua visão positiva, otimista e bem-humorada da vida.  Ela vende mais que café, vende esperança!

E são assim as mulheres avós, mães, filhas, tias, parceiras afetivas e trabalhadoras, são portais da coragem e com esperança elas estão na batalha ousando subverter a ordem reinante!

Cartas ao JG – Na vida, aprenda a se curvar, escutar, ver e agir. (Por Ricardo de Faria Barros, pai do JG de 9 anos)

Sabe filho meu, nesta noite de uma quarta-feira de cinzas evoco uma canção para escrever a ti:

“Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais
Brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas
Foi o que restou...”

Escuto esta canção do Vinicius e lembro que nesta tarde, ao dizer-lhe que precisava ir deixá-lo de volta na casa de tua mamãe, já que ficara o feriado de Carnaval todo contigo, tu me abraçaste, todo choroso, e resmungando falou:
- Ah! Não!
Aí, tentei te consolar dizendo que o próximo dia de nos veros está logo ali, na outra semana, e faremos tudo outra vez.
Queria te confessar que estou reaprendendo a ser pai contigo, e após separado de tua mãe.
E tem sido uma experiência incrível e cheia de novas descobertas, de mil possibilidades de afetos, a cada reencontro nosso.
Lógico que as pessoas não precisam se separarem para aprenderem a ser pais, ou mães.
Mas, o desafio de cuidar de você, por 5 dias seguidos, sem uma mãe por perto a me socorrer, fez-me correr atrás e aprender a maternidade da paternidade. Um materno-pai estou me tornando.
Este carnaval, como diz a canção, deixou muitas saudades. Fecho os olhos e escuto tuas risadas, com os yuotubers que assistia.
Tapo os ouvidos e olho tu chutando bola, num campo deserto. De longe tu avistas eu me aproximar de ti. E, todo sorridente, grita:
- Papai, você veio jogar comigo, mesmo com a perna inflamada?
Vim filhote, fico agarrando. Tu chutas bola e eu tento pegar.
E foi uma festa.
Este carnaval teus irmãos estavam fora do DF, ou noutros programas. A casa do tio Guga e tia Patrícia, lugar de encontros aconchegantes, também estava fechada, pois eles foram para João Pessoa.
Então, era eu e tu. Tu e eu.
E como foram dias bons. Cada um deles tinha sua própria rotina. Acordar cedo. Sim, eu e tu acordamos cedo.
Preparar teu café: pão com queijo derretido, iogurtes e uma fruta.
Depois saíamos, cada dia para explorar um lugar e algo diferente.
Pedalamos pelas quadras desertas da Asa Sul.
Fomos ao Carreira, pra tu correr no Kart, depois brincar de autorama e no simulador de F1.
Também pedalamos no Eixão, Parque da Cidade e no Parque da Asa Delta.
Nadamos, fizemos churrasco e jogamos bola, no campinho de grama sintética, na AABB.
Cozinhamos em casa, uma deliciosa bisteca de porco com acompanhamentos.
Vimos filmes juntos. Daqueles com efeitos especiais dignos de um óscar.
E rimos muito, ao sincronizar o celular, que acessava o youtube, com o som do carro, ouvindo e vendo os candidatos do Programa Ídolos desafinarem e levarem bomba. Cada bomba mais engraçada que outra. E tu dobrava de rir.
Era entrar no carro e começar nossa risadagem.
A bicicleta ia sempre no porta-malas, cujos banco de trás eu deitei para que ela coubesse sem aperreio.
Mas, a cada pedalada tu reclamava do barulho que dela vinha. Eu não entendo nada de bicicleta. Um ciclista, vendo que estávamos parados olhando para ela, com um olhar de sei que lá, sei que lá, sei que lá, assumiu o comando dos trabalhos.
E, com expressão profissional, condenou a corrente. Segundo ele, tinha sido soldada e fazia o barulho. Mas que tu podias andar nela. E que nada ocorreria, até ela torar de vez. (Sic!)
No Parque da Cidade tu levou uma queda, ao frear dentro de uma poça de água. E, ao voltar a andar, o barulho cessou completamente. Milagre da queda, pensamos!
Mas, tão logo parávamos em algum lugar, e voltávamos a andar, o barulho voltava. Teco, teco, teco, teco, a cada volta que o pedal dava.
Eu condenei o cubo, dizendo que podia tá danificado. Tu, condenava o “médico da bicicleta” para o qual tua mãe já tinha levado ela, com este barulho, e umas três vezes. “Na última, ele nem cobrou”, dizia tu, em expressão tristonha. Não por não ter cobrado. Mas, por não ter consertado.
Aí, fiz algo diferente. Abaixei-me para ver e ouvir de onde vinha o barulho. Girei a manivela da bicicleta, que tava de pernas para o ar, e fiquei com olhos e ouvidos atentos.
E pensei:
- Achei onde é o problema.
- É a face interna do pedal que está batendo na haste do descanso da bicicleta.
De pronto, tu saltaste de onde estava, e, assumindo o controle da situação, empurrou a haste mais para dentro do pneu.
Montou na bicicleta e pedalou. E abriu um sorrisão tão lindo, como a tanto tempo não via vindo de ti.
- “Papai, achou o problema!”
E achei mesmo. O descanso estava mal afixado, então, dependendo de como ele retornava da posição para tu pedalar, ele tocava no pedal, e fazia o som chato de teco, teco, teco.
Não era a corrente, não era o cubo, não era nada que justificasse 3 idas ao “médico de bicicleta”. Era um prosaico roçar de peças, mal alinhadas, entre si.
Sabe filho meu, na tua vida que apenas começa, haverá muitas situações como esta.
Situações que para enfrentar um problema terás que se ajoelhar, ouvir e ver o que de fato está ocorrendo ao teu viver.
Ao se ajoelhar tu se permites colocar-se numa posição de humildade, frente ao não saber. Além de se conectar com o sagrado.
Ao ouvir, tu emancipas teus pensamentos, permitindo que outros sons, que não sejam os de tua própria mente, bem estressada e confusa, adentrem em teu coração.
Ao ver, tu expandes a consciência para além daquilo que teimava ver, dentro de um modelo mental modelado pela força de hábitos e emoções limitantes: as correntes barulhentas.
Quando o problema estava no descanso e pedal.
Esta situação que ocorreu conosco, neste inesquecível e saudoso carnaval, nos ensinou muito.
Nada mais triste ao desenvolvimento humano do que a arrogância do saber. Uma pessoa arrogante não muda. Não se coloca numa posição de ouvir os outros, sobre seus próprios comportamentos e os impactos dele em si mesmo, na realidade e em quem convive.
A arrogância do saber, e seu irmão gêmeo, o orgulho do proceder, limitam o crescimento do ser humano.
O segundo ensinamento é do ouvir. Ouvir com todo o ser. Para dos sons escutados e interpretados, fazer conexões de sentido. Foi ouvindo de onde vinha o som que se descobriu ser do choque do pedal com o descanso. Saber ouvir é uma atitude que rareia, nesta sociedade tão falante, numa babel de monólogos individualistas em que vivemos.
Ah! Como é bom ter quem nos escute. E, melhor ainda, como é bom dispormos de tempo e coragem, para nos ouvir, a nós próprios.
O terceiro ensinamento, para o crescimento dos ser, é a capacidade de ver para além de onde achamos que está o foco do problema. É aquele olhar inovador, sem se deixar aprisionar pela armadilha das certezas, ou dogmas, e expandir o raio de visão, melhorando a compreensão do todo que nos rodeia, e de uma forma holística.
Num abaixar para ouvir e ver de onde provinha aquele ruído atemorizante, uma lição para nossas vidas!
Aparecerão pessoas em teu viver com este dom também. O de se abaixarem até teu mundo, te ouvirem e te olharem, e verem em ti, o que talvez nem tu enxergues mais, tua essência reluzente e destinada a ser mais. Eu tenho uma delas, "a tia" que te salvou neste dia.
É preciso ajoelhar, ouvir, ver, e por fim, aprumar o que está desalinhado em nosso viver, para voltar a pedalar de forma mais plena e feliz.
Acredite, filho meu, cada vez que isto ocorrerá em teu viver tu sairás para a vida com aquele mesmo sorriso gostoso no rosto, o sorriso dos sobreviventes!
Sobreviventes são todos aqueles que passam pelo teco teco teco, do atrito de coisas que tiram o movimento do viver, e as enfrentam. Tal qual você enfrentou aquela haste, de descanso de bicicleta, pondo-a no lugar onde deveria estar, e de onde nunca deveria ter saído.
Sabe filho, nunca se acostume com o que te faz infeliz, com os teco teco teco, sabe por que? Chamo a canção do Vinícius novamente para te responder:
“ Porque são tantas coisas azuis.
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe”.

Sim, quanto ao milagre da bicicleta, aquele da tua queda no Parque da Cidade, ele foi proporcionado pela posição que a bicicleta caiu, empurrando a haste do descanso para dentro do pneu, e acabando com o teco teco teco. Mas, não se iluda, também há outros milagres naquela queda. Mas, para vê-los, precisa ajoelhar, ouvir e olhar para dentro de si mesmo. E perceber que só estarmos vivos, após um baque que levamos da vida, já é em si um milagre. 

O segredo está no casco e na corrente. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Navio FRAM
Tenho acompanhado em vários espaços de meu viver: salas de aula, grupos de discussão temáticos, comunidades virtuais e até no seio da família, relatos sobre as condições atuais do mundo do trabalho, em muitos casos insalubres, do ponto de vista emocional.
Parece que a tal da modernidade, vida, amor e tempos líquidos, descritos como manifestações perversas da contemporaneidade, pelo filósofo polonês Zygmunt Bauman, também ocorrem no mundo do trabalho, e isto não me causa estranheza alguma.
Uma vez que o mundo do trabalho não é uma bolha, apartada da sociedade, e de sua cultura dominante.
Então, digo eu, vivemos também sob a égide do Trabalho Líquido.
Com pouco espaço para vinculação social, com relacionamentos voláteis, fragmentados, sem reconhecimento, criação de identidades e de senso de pertencimento. Relações laborais líquidas.
Então, esta falta de sentido no trabalho e de satisfação para com o mesmo, aumenta os riscos de adoecimento sofrimento mental.
Voltar das férias torna-se uma tortura. E o domingo à noite é carregado de melancolia.
Em alguns casos, escutar o simples tom de voz da chefia já faz aumentar o batimento cardíaco e a pressão sanguínea.
Em todo lugar você testemunha relatos de sofrimento psíquico no trabalho que são os efeitos colaterais de uma cultura de produtividade, eficiência, competitividade e ambição a qualquer preço e custo social. Alguns destes relatos beiram ao assédio moral.
Agrava a situação as incertezas do mercado, as equipes cada vez menores, a política de contenção de custos - na busca frenética por uma maior eficiência operacional - e a qualquer preço, precarizando mais ainda o ambiente laboral. Soma-se a este quadro as metas cada vez maiores, as pressões de todos os lados, inclusive dos reguladores, uma chefia despreparada para liderar pessoas, usando o chicote, no lugar da palavra. E, diga-se de passagem, pessoas não gostam de chicotes, "porque gado a gente tange, mas com gente é diferente". (Música disparada)
Nestas horas, nada melhor de que se inspirar em fatos históricos para criar couraças e sobreviver.
Vou contar para você que porventura está passando por uma situação assim no trabalho dois épicos da navegação mundial.
O primeiro deles foi a conquista do Polo Norte (Mar Ártico), por Fridtjof Nansen, usando para a missão o navio Fram, em 1896.
O segundo navegador fenomenal foi o Shackleton, com o navio Endurance, que tentou a conquista da Antártida (Pólo Sul).
Sobre o segundo navegador muito já se falou. Há livros e até um filme. Ele é descrito como um exímio líder e sua trajetória é épica, culminando com sua chegada e de seu grupo, em 1916, após dois anos de luta na Antártida.
Mas, este texto não é sobre navios. É sobre a capacidade de resistir a pressões e de como isto faz a diferença no sucesso de uma travessia, de uma jornada.

O Navio Fram, do comandante Nansen, foi projetado para boiar sobre o gelo. O casco foi meticulosamente arredondado, as quilhas erguidas e o leme adaptado. De modo que quando as massas de gelo o pressionassem, ele seria erguido sobre elas. Ficando ali, ancorado no gelo, esperando que ele derretesse, e voltasse a navegar. Esta técnica possibilitou que por longos cinco anos o Navio Fram resistisse a todo tipo de investida dos blocos de gelo, e pudesse voltar pra casa, trazendo toda a tripulação.

Já o navio Endurane, do comandante Shackleton, tinha o casco reto. Embora fosse um navio bem mais potente do que o Fram, tando em espessura do casco, como motor e quilhas, ele foi projetado para cortar e navegar pelo gelo solto, com casco reto. E não para ser aprisionado pelo gelo, com casco abaulado.
Então, quando uma grande nevasca empurrou o Endurance como um sanduíche, por entre duas placas de gelo, elas o espremeram, qual esprememos um limão pra caipirinha. E, o casco rompeu, e o Endurance naufragou. Obrigando sua tripulação a sobreviver puxando os botes salva-vidas pelo gelo, numa épica história.
Uma outra coisa também foi fundamental para o Nansen conseguir a proeza da conquista do Pólo Norte.
Ele teve uma sacada quando viu restos de um navio, que chegavam às praias da Groelândia. Era um navio norte-americano chamado de Jeanette. Ora, para aqueles restos estarem ali, ele só poderiam ter vindo ao contrário de onde todos estavam navegando. Ele intuiu que todos estavam navegando contra esta corrente submarina. E que o segredo do sucesso seria se deixar levar por esta corrente.
E ele estava certo. Embora escutou poucas e boas de todos, inclusive que era maluco
De fato, as correntes e ventos, achados por ele em determinada posição do Ártico, foram fundamentais para que pelo ritmo da própria natureza o navio, sem gastar um litro seque de combustível, cumprisse seu objetivo, apenas aproveitando as forças das correntes e ventos.
Então, caros amigos e amigas que enfrentam ambientes de muitas pressões, tensões e coisas chatas do mundo do trabalho, há duas posturas que aumentam a resistência, deste tipo de navegação que enfrenta.
Ambas, retiradas da epopeia do Nansen e de sua embarcação Fram.
A primeira delas, a de trabalhar o casco. A arredondando-o para que ele possa aproveitar as forças do meio, erguendo-se sobre elas, no lugar de ser esmagado, como o Endurance.
Arredondar o casco é cultivar a flexibilidade de pensar, sentir e agir, é buscar convergências, é se adaptar mais rápido e de forma melhor, ás mudanças de situações, contextos e cenários. É cuidar do tecido emocional. Buscar apoio na espiritualidade. Nos esportes, amigos, em algum hobbie, fazer yoga, tai chi, meditação, caminhadas contemplativas, o que seja que possa fortalecer o couro emocional, o casco, arredondando-o.
Cascos retos batem de frente. Cascos redondos desviam a violência do ataque, e com a força do próprio opositor se defendem, como nas milenares artes marciais orientais.

A segunda delas, e aproveitar a corrente. Nunca ficar de frente a ela. Aproveitar a corrente significa extrair o que ainda de bom tem na relação com o trabalho, e potencializar o olhar sobre isto.
Aproveitar a corrente é não dar murro em ponta de faca, é não passar recibo, é fazer uma terapia paliativa de convivência com pessoas más, colocando sempre, após o contato com elas, esparadrapos emocionais para não infecionar o ferimento na alma - tão próprio da lida diárias com pessoas pequenas, inclusive chefes tiranos. É saber usar a força da onda para nela surfar.
Aproveitar a corrente é redirecionar a raiva para algo produtivo. Para melhorar a relação com o cliente, e obter dele o sentido do trabalho que anda carente.
Aproveitar a corrente é encontrar o que ainda te seduz, te faz feliz e te inspira, no mundo do trabalho, e dizer pra si mesmo que quanto ao demais: isso também passará e amanhã será melhor.
Enquanto os mares andam bravos e ruins de navegar, que tal cuidarmos de arredondar o casco, e de melhor aproveitar as forças das correntes?

Aposentado sim! Inativo nunca! (Autor Ricardo de Faria Barros)


Você que me dá a honra de parar o que está fazendo para me ler poderia responder a uma pergunta?
Quais seus objetivos para realizar dos 70 aos 100 anos de idade? Podem ser pessoais, familiares, profissionais, culturais, acadêmicos, esportivos, sociais e até espirituais. O que seja. Se eu te fizesse esta pergunta há vinte anos atrás você diria que a pergunta era absurda.
Mas, eu aposto que você conhece alguém que já fez oitenta anos.
Estamos vivendo uma revolução dos modos de ser, fazer e acontecer da velhice. E é um fenômeno mundial. Só a título de exemplificação a PREVI, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, já tem em seus quadros 67 aposentados com mais de 100 anos. (jan. 2019). Tendo inclusive de atualizar suas tabelas atuariais prevendo este aumento da longevidade de sua base.
Este movimento de reinvenção do ser idoso tem sido chamado de Os Novos Velhos. E, da mesma forma que eles puxaram, do alto de seus 20 e pouco anos as revoluções culturais e civis, das décadas de 60-70, agora eles puxam a revolução da negação da inatividade.
Uauuu!!!
Passaram a estudar novamente, praticar esportes e hobbies, passear e produzir. E estão dando um show de longevidade ativa.
Lógico, que nem todos acompanham no mesmo ritmo, é mudança cultural, e ainda têm os que se consideram "aposentados", que desistiram de continuar assombrados e encantados com o viver.
Na mitologia grega tem um conto muito legal, sobre a esfinge de Tebas que costumo usar para ilustras esta revolução. A esfinge era um monstro alado com corpo de mulher e leão que afligia a cidade de Tebas. Ela ficava no portão de entrada da cidade. E apresentava aos viajantes o seguinte enigma: “Que animal anda pela manhã sobre quatro patas, a tarde sobre duas e a noite sobre três?”
Até Édipo, nenhum andarilho conseguiu escapar sobreviver à Esfinge, respondendo corretamente o enigma, e eram por ela estrangulados, daí o nome Esfinge. Édipo, contudo, acertou e foi poupado.
Ele respondeu assim:
É o Homem — que engatinha como bebê (manhã) , anda sobre dois pés na idade adulta (na tarde), e usa uma bengala quando é ancião (noite).
Nos tempos atuais, esta resposta está no mínimo incompleta. A bengala não pode mais ser caracterizada como a fase da velhice. Embora, seja muito útil em muitos casos. O que está ocorrendo é que esta bengala está se transformando num cajado. E, quem porta um cajado, conduz a si mesmo, e aos outros, em busca de um novo amanhã, de novos sonhos, objetivos e realizações a conquistar.
"Os Novos Velhos" estão saindo de uma posição de incapacidade, vítima, de finitude, e de adiamento de projetos de vida, erguendo suas bengalas, tal qual cajados, e partindo em busca de realizar algo, alcançar algo, sonhar com algo. Igual a quem porta um cajado e segue jornada adiante.
Portadores de cajados têm esperança, otimismo, vitalidade, ânimo e não se cansam em voltar a se encantarem com a vida, ao se assombrarem a cada amanhecer. Quem ergue um cajado tem um propósito, tem uma meta, um alvo e uma missão a perseguir. Não deixou-se adormecer.
As pessoas que ingressam hoje nos sessenta anos enguem suas bengalas ao alto. Fazem com elas cajados. 
Acreditam que não é tempo de se considerarem “inativas”, nem tampouco de retornarem aos aposentos para viver a vida “esperando a morte chegar”. Em todo mundo uma energia grisalha está impulsionando novos hábitos, comportamentos e práticas sociais da velhice. E redescobrem a juventude: de emoções, pensamentos e atitudes positivas diante da vida.
Junte-se a nós. Não é hora de se achar encostado. Há conhecimentos ainda a aprender. Pessoas a encontrar. Lugares pra visitar. Coisas pra fazer. Situações a experenciar. Realizações a oferecer. Propósitos pelos quais lutar. Nada de achar que está descendo a ladeira da vida. É o contrário, agora sobe-se ao cume, local onde só os grandes de alma chegarão. E que, lá de cima, tudo faz mais sentido.
Obs: Quem quiser comprar livro sobre o tema, visite meu post dos Escritores da Comunidade.

Inspiração (Autor Ricardo de Faria Barros)

Uma coisa comum nos tempos atuais são os youtubers.
Youtubers são geradores de conteúdo em mídia digital. Pessoas que possuem canais no Youtube e neles compartilham um monte de coisas.
Tem para todos os gostos.
Eu sigo três deles que me são muito inspiradores. São verdadeiros diamantes.
O objetivo deste texto é mostrar o quanto pessoas podem ser inspiradoras, só com seu jeito de viverem.
E, convenhamos, os tempos andam bicudos de pessoas que nos inspiram ao melhor de nós mesmos, não é verdade?
Eles são Marcelino Colantino, natural de Bom Conselho-PE, o Alexandre Lins, natural de Itamaracá-PE, e a Veridiana Heninguer, natural de Mafra-SC.

Mas, o que eles têm em comum?

Um altíssimo nível de capital psicológico positivo. E, toda vez que eu encontro alguém assim eu louvo a Deus.

Descobri que tenho vocação de colecionar pessoas inspiradoras. Admirá-las em seus belos vôos existenciais. Contemplar suas jornadas, e como reagem nas situações cotidianas, em vidas não editadas. Até hoje eu fazia isto de forma presencial. Mas, o estilo dos vídeos postados pela minha trinca de ouro permitiu eu acompanha-los em seu dia a dia. E, a cada vídeo deles, feito com tanta simplicidade e autenticidade, sem roteiro, armação, ou texto ensaiado e teatralizado, eu ia me inspirando mais e mais.
Você deve conhecer algumas destas pessoas também, não é? Pessoas autênticas e que tem o dom de saber degustar a vida por inteiro.
Sabe aquela pessoa que está sempre de bem com a vida, seja dia cinzento, seja manhã radiante? É uma pessoa inspiradora.
Sabe aquela outra que quando tudo está dando errado é a primeira que chama todo mundo para correr atrás do prejuízo e transformar alguns limões que restaram, numa deliciosa limonada? É uma pessoa inspiradora.
Sabe aquela que perto dela a paz reina. Que nos dias em que se sente mais agitado, ao cruzar o caminho com ela, você volta para casa que nem um monge budista? É uma pessoa inspiradora.
Sabe aquela pessoa que pega uns três ônibus para o trabalho, que ainda deixa filhos na escola, que faz uns bicos para complementar a renda, e que no trabalho é só motivação e qualidade em tudo que faz, e que ainda estuda à noite para subir na vida? É uma pessoa inspiradora.

Observar e se inspirar em pessoas inspiradoras nos faz crescer. Aprendemos muito com elas. Mas, exige de nós uma atitude apreciativa positiva para com o outro. Uma atitude de atenção e admiração do jeito dele ser. Exige que deixemos de lado a inveja, a cobiça, e a atitude de secar a felicidade alheia. Ou não vibrar com as conquistas e jeito exitoso do outro ser.
Exige humildade de querer aprender com ele, só observando-lhe nas situações rotineiras. E, digo-lhe uma coisa do fundo de meu coração. Meus melhores aprendizados na vida não foram nos livros. Foram com estas pessoas.
Quais são minhas novas pessoas inspiradoras? O que elas têm de especial?

Eles se chamam Marcelino Colatino, Veridiana Heninguer Alexandre. No final deste texto colocarei os links de seus canais no youtube. Em todos há uma forte incidência de pelo dois dos componentes do capital psicológico positivo: otimismo, esperança, auto-eficácia e resiliência.
Em comum entre eles, o fato de terem atitudes incomuns, que os diferenciam.

Que tal conhecê-las pelo meu olhar? E com elas se inspirar? Depois de ver mais de cem vídeos dos três, creio que já posso fazer uma descrição melhor do que aprendi com eles, e passar para vocês.

CANAL MARCELINO COLATINO - Auto Eficácia e Resiliência

Marcelino, o agricultor e piscicultor, tem como ponte forte dois elementos do capital psicológico, a auto-eficácia e a resiliência.
Auto-eficácia é aquela crença, ou disposição de ânimo, que nos faz acreditar que somos capazes de com nossas próprias capacidades fazer algo, cumprir uma meta, correr atrás de um objetivo. Esta virtude, a auto-eficácia, nos motiva e mobiliza a ser inovadores, criativos, curiosos e eternos aprendizes da vida e do viver.
A lida do Marcelino é assim. Ele está sempre aprendendo e ensinando algo. Na sua roça é quase um Professor Pardal. De dois carreteis plásticos, daqueles de enrolar fios de energia ou telefone, ele constrói uma moenda de caldo decana. De um resto de máquina de lavar, ele faz as pás de um cata-vento de puxar água para oxigenar os tanques de tilápia. Sim, o cata-vento também foi ele quem fez.
Além de fabricar tudo, o Marcelino é pura paz. Vê-lo é como entrar escola da vida, na disciplina paz e mansidão.
E, não é uma paz passiva, é uma paz que passa segurança em acreditar que as coisas podem mudar, que se pode fazer algo de uma forma melhor.
Marcelino também tem a resiliência como marca pessoal. Ele não desiste. Testa uma vez um invento, testa duas, testa três. Matuta, pensa, observa, conversa com um, com outro, e pimba, acha a solução do invento. Correndo por fora, e nos inspirando muito, tem a relação dele com a Jeane, sua esposa já com 24 anos de casado. A Jeane é inspiradora também. Ela dá uma verdadeira aula de como ser companheira. E acompanha o Marcelino em tudo. Aliás, este casal tem a receita da felicidade a dois: admiração, apoio, interesse e cuidado um para com o outro.
Marcelino não reclama da vida. Ele procura razões para ser feliz, em cada lugar de sua chácara e família e amigos. Se o peixe não está de bom tamanho, por falta de oxigenação, ele fala: “vou fabricar um novo oxigenador, na próxima vez eles crescerão mais”.
Se a safra não foi como esperava, ele fala: “Da próxima vez vou cuidar melhor”. Sua marca é a crença que o amanhã será melhor. Ele não é de desanimar. Se algo quebra, ele pensa uma forma de consertar. Mesmo que não existam as peças. Ele as fabrica. Marcolino, de seu jeito, quando não tem caminho, ele o cria. E de seu jeito.
Quando vejo os vídeos do Marcelino sinto uma paz tremenda. Sua voz é meiga, calma, quase um cantar. E, saio mais forte para também acreditar que com meus próprios recursos posso entregar resultados, é só não desanimar, ousar, inovar e influenciar na rodada do carrossel do destino da vida. Marcelino encontrou um jeito de fazer a diferença ao existir: a mansidão.  Veja um dos vídeos do canal aqui:
Marcelino, em suas invenções.  

CANAL PAKITA BR15 (Veridiana Heninguer) - Otimismo e Resiliência

Veridiana é caminhoneira. Ela faz longos percursos, levando mercadorias do Sul para o Norte e Nordeste. Ela tem como tem como ponte forte dois elementos do capital psicológico, o Otimismo e a Resiliência.
Mesmo depois de enfrentar 3.000 KM de estrada, dirigindo uma pesado caminhão de Norte a Sul do Brasil, a Veridiana, conhecida no seu canal como a Pakita, não perde o otimismo. E, na Pakita o otimismo tem nome e sobrenome: Sorriso Grátis. Ela está sempre sorrindo e desejando a todos a proteção de Deus.
Não tem tempo ruim, buraco, trânsito, ou demoras nos postos fiscais que a tirem do sorriso.
O ponto alto de seu otimismo é quando no posto onde para tem chuveiro. Engraçado que as pessoas inspiradoras conseguem extrair de coisas simples, do cotidiano, verdadeiros oásis de felicidade. A Pakita é assim. Ela extrai bênçãos e alegria do simples fato de ter um lugar para tomar banho. E fica radiante. Mas, quando não tem, ela não entristece. Ela pensa assim: “no próximo posto credenciado tomarei banho”.
Mesmo que ele esteja a 400 KM de distância.
Aqui, revela-se outra característica nela que é oriunda do capital psicológico positivo, que é a da resiliência. Esta capacidade de não desanimar diante das dificuldades que aparecem no trabalho, e mesmo com elas, ou apesar delas, continuar entregando resultados.
A Veridiana está sempre procurando razões para ser feliz. E sorri abundantemente com elas. Seja nos dias que passa com sua filha, que faz medicina em Buenos Aires, e que só a vê anualmente. Seja ter conseguido achar uma borracharia que trabalhe com os enormes pneus de seu caminhão Scania. Seja indo com amigos caminhoneiros almoçar numa das cidades em que descarregam. Não importa, tudo é motivo de otimismo, traduzido em fartas doses de sorriso sincero. Vê-la fazendo o checklist antes de partir, batendo os pneus, checando as conexões, e parte elétrica é rejuvenescedor para quem trabalha. Pois destes simples gestos exalam o sentido do trabalho e o amor pelo que se faz. Se nos vídeos do Em Marcelino corre o DNA da paz. Em Pakita é a felicidade. De ser quem é, de fazer o que faz, sendo o melhor para o mundo, e não do mundo. Pakita encontrou um jeito de fazer a diferença ao existir: o de sorrir.
E olha que ela é trabalhadora de uma das profissões mais estressantes do mundo, além de perigosa e sujeita a desgastes físicos e longas ausências de casa, e dos seus.
Mas, ela não reclama em nada. Pelo contrário, faz da lida no caminhão um espaço de diversão. Sorri até com ela mesma. Ela acorda e decide, com o seu bom dia, que será um bom dia.
E tudo se transforma em bom, belo e virtuoso, com a força do pensamento e emoções positivas dela.
Veja um dos vídeos do canal aqui:
Veridiana, no caminhão.

CANAL MAMUTE ALEXANDRE LINS – O PESCADOR CANTOR (Esperança e Resiliência)

Alexandre, o pescador-cantor, tem como apelido Mamute. E possui como ponte forte dois elementos do capital psicológico, a esperança e a resiliência.
Acordando todos os dias nas madrugadas, mas madrugadas mesmo, ele e seu inseparável parceiro de pescaria, o Juruba, partem numa jangada bem simples, a Nayhara, para a imensidão do mar sem fim.
Durante horas, impulsionados por um pequeno motor de popa, e uma modesta hélice, eles adentram até alto-mar, para resgatar seus covos.
Covos são uma espécie de caixotes cujo interior tem uma armadilha para peixes. Alexandre é quem fabrica os deles.
Para o Mamute não tem dia ruim. Não tem dia de chuva, de ventania, de sol inclemente, ou até de falta de peixes nos covos.
Para ele, tudo é gratidão em existir.
Mamute exala esperança. Ele nãos e cansa de dizer que pescador vive de esperança. E, naqueles dias em que não pesca nada, solta um refrão impagável: “também não coloquei nenhum...”
Ou seja, tudo é de graça, dado por Deus. É assim que ele pensa.
Sempre que um covo vem vazio, ele acredita que no próximo vai melhorar, e dá para pagar a “lambaca”. Que seria as despesas e algum lucro no dia.
No próprio barco, já cansado e voltando, após mais de 5 horas mar adentro, ele cozinha seu almoço-jantar, num tosco fogão de lenha, improvisado numa lata de tinta, e numa caçarola.
Ali, ele faz o que chama de atoleiro. O atoleiro é uma caldeirada de peixe, depositada sobre uma massa grossa de pirão, feito com seu caldo.
Mamute tem esperança. Esperança de conseguir uma jangada maior e melhor equipada, que chamará de Mina Minha. Esperança de uma vida melhor, e a cada dia ele se alimenta disto.
Usa sempre uma expressão: “Chama na Calanga”. Que, segundo ele mesmo me ensinou, significa: “Fé. Nunca desistir, mesmo nas dificuldades. E, sempre seguir em frente com positividade.” São palavras do próprio Mamute. Para mim, esta frase dita por ele, é a pura expressão da esperança.
E, ele fez isto com sua própria vida. Ele disse para si mesmo: “Chama na Calanga, Mamute”, quando tragicamente perdeu um filho de 21 anos, que se sentiu mal mergulhando e veio a óbito.
Ver os Mamutes pescando é fazer uma amizade com a esperança. Outro dia, percebi também que além da esperança ele tem muita resiliência.
Não sem razão, a resiliência perpassa a história de vida das três pessoas inspiradoras que lhes apresento.
O barco dele quebrou, distando uns dez quilômetros da costa. Aí, ele pulou na água e passou a nadar, em direção à praia, numa cena de impressionante coragem e determinação de vencer aquela dificuldade. Nadou um bocado, até conseguir chegar mais próximo da costa, onde chegou o sinal de celular. O barquinho do Mamute não tem rádio comunicador. Aliás, mal tem um barco ali. rsrs
A pobre da Nayara é muito acanhada, como embarcação.
Mas, Mamute a ama. E a trata com muito respeito. Todos os dias ele carrega 90 quilos, para deixa-la mais bonita e formosa. É o motor e a haste com a hélice que ele tira e bota, todos os dias. E aí Nayara fica turbinada. Mas parecendo uma voadeira.
Outro dia ele ficou sem sua rabeca, a haste que liga o motor à hélice.
Ainda bem que ele ainda conseguiu chegar na costa, mesmo que a hélice sem conseguir muita transmissão com a rabeca, ele veio navegando de volta e chegou.
Na praia, avaliou as avarias e em nenhum momento ele passou desesperança de consertar seu barco.
Pensou que talvez devesse levar a um soldador, ou que conseguiria uma outra, a um preço dividido.
Quem tem esperança age assim. No lugar de ficar chorando o azar, a pessoa esperançosa vai atrás da sorte.
Acho lindo quando ele diz assim: “Mamute não chora, nem choraminga. Mamute é guerreiro...”
É ou não é uma declaração de que “isto também passa”. E o amanhã será melhor?
Mamute também tem esperança de ser um cantor reconhecido. Já gravou um CD, e embalado por suas canções, vamos vendo suas desventuras e aventuras no mar.
Ele tem esperança de estourar numa rádio. E, com as vendas dos CDs conseguir mais alguma melhora para sua família.
São assim os sonhos de vida do Mamute Alexandre Lins – O pescador cantor. Cheios de esperança, mas de uma esperança ativa. Daquelas das boas. Daquela de quem madruga pra fazê-la acontecer!
Gosto de ver também, e me inspira, a gratidão do Mamute com as coisas de Deus.
Com o sol que nasce, com o sol que “vai para o Japão”. Com os peixes que pesca, com os peixes que solta no mar. Com o Juruba. Com os seus expectadores. Nunca esqueci quando ele parou tudo que estava fazendo, e por mais de duas horas puxou uma rede à deriva em alto mar. A rede não lhe pertencia. Mas, ele sabia que ela estava fazendo falta a algum pescador. E que podia devolve-la. A luta dele, sozinho neste dia, para puxar tamanho peso, já cheia de sargaço, foi digna de uma crônica só para isto. E conseguiu. A pobre da Nayara ficou cheia com a rede, que na verdade eram duas.
Dias depois, o proprietário da rede apareceu na casa dele, e resgatou seu bem valioso.
E Mamute faz isso sem pedir nada em troca. Ele é bom por ser bom.
Ele é esperançoso em tudo que faz. Ele me ensina muito, todos os dias quando sai para o mar.
Ensina que a vida é a arte do encontro, embora existam tantos desencontros. Encontro do homem com o mar, com o trabalho, com a disposição de querer ser mais e oferecer algo de melhor a sua família.
Ensina a ter esperança.
E, se for o caso, quando tudo negar ser esperançoso, saber agir para que dias melhores apareçam, nem que seja carregando a esperança pelo dorso, como quem puxa uma jangada de volta pra casa.
Mamute é ou não é uma pessoa inspiradora?
Veja um dos vídeos do canal aqui:

São três brasileiros comuns, com atitudes incomuns. Atitudes de quem aprendeu com o mais importante da vida, o valor do trabalho, o valor de quem se é, o valor do outro, tudo isto embalado com otimismo, esperança e auto-eficácia, tendo a resiliência como disposição e ânimo diária.

São pessoas assim que a vida manda para nos ensinar algo e nos fazer crescer. 

O Ciclo das Flores e da Vida (Autor Ricardo de Faria Barros)

Jovem Espartódea, de perto aqui de casa, Brasília-DF.
Quem anda pelo Plano Piloto de Brasília, nome que damos ao formato do avião da Cidade, deve ter notado que as flores da vez são as vermelhas-alaranjadas e as rosas-brancas.
As primeiras são das Espartódeas, a segunda da Paineira-Rosa.
Por aqui é assim. É só prestar atenção que têm flores todos os meses.
Recentemente, foi a vez era dos Cambuís e das Canafístulas, com suas copas amarelas tão lindas. Existem mais de 800 deles por aqui, tem uma época que tudo vira amarelo-ouro.
Já houve a época das flores violáceas dos Jacarandás e das Quaresmeiras.
E têm as árvores que suas folhas ficam coloridas de um rosa-carmim, são as Sapucaias. Estas, são de babar e parar o carro para fotografá-las, bem comuns no Eixão Norte, e aqui na varanda de meu apartamento também.
Têm as flores delicadas e branquinhas-carmim das Cagaitas. As da cagaita são um mimo só. Considero-as as cerejeiras do cerrado.
Têm os gramados repletos de plumas de painas branca, convidativos para um repousar sobre eles.
Tem o vermelho fogo das flores dos flamboyants.
E, como que a emoldurar isto tudo, têm os ipês branco, rosa e amarelo, que alternadamente começam a florir, pelo meio do ano.
As flores e seus ciclos nos ensinam muito. Já pensou se todos florescessem ao mesmo tempo? E não é assim. Há flores para todas as épocas do ano.
Basta capacitar o olhar para achá-las.
Basta não modelar a mente apenas para procurar os famosos ipês.
E verás flores por todo lugar.

Assim como as estações das flores, nós também temos nossas próprias estações - só que as existenciais.
Estes estados de florescimento e murchamento do ser fazem parte do existir,
O que precisamos tomar cuidado é quando estamos num estado de pouco florescimento.
Tomar cuidado para não generalizar. Mais ou menos assim, esta época do ano Brasília fica sem flores, agora é esperar os ipês.
Cuidado, você não está vendo outras flores, porque teu olhar estava acostumado com as copas amarelas dos Cambuís, e com as floradas estonteantes dos Ipês.
Então, tua vista não percebe mil e uma outas espécies de flores, que passam ao largo de teu viver.
Pois, quando achamos que nosso canteiro de flores murchou, tendemos a olhar apenas para elas, as flores que já se foram.
E aí perdemos capacidade emocional de perceber as outras, que ainda nos restam.
Talvez não tão exuberante, mas, mesmo assim, belas e bênçãos.
Quem mexeu na flor de meu emprego? Cadê aquele buquê tão lindo de minha carreira?
Quem pisou na flor de meu relacionamento? Onde está aquele viço de antes?
São exemplos de flores existenciais que murcharam. Que cumpriram seu papel, seu ciclo vital, e que já não mais exibem a exuberância de antes.
Outros podem dizer, e cadê a flor de minha saúde, antes tão vistosa?
Outros ainda, podem se sentirem incomodados com as marcas da idade, e perguntarem sobre a flor de sua beleza física.

Acolher que algumas flores de nosso viver já não são as mesmas é sinal de inteligência emocional.
E, aprender a olhar as outras flores que brotam noutros canteiros é sinal de sabedoria.

Quando lhes faltarem os ipês, preste atenção nas cagaitas. Quando lhes faltarem as cagaitas, preste atenção nas quaresmeiras.
Quando estamos muito mexidos, pelas aflições e preocupações, é preciso levar nossos pensamentos e emoções para os canteiros floridos da alma.
E, quais são as flores deste canteiro, cujas sementes podemos plantar em nossos pensamentos?
A verdade. A nobreza de caráter. A justiça. A pureza interior, com sua capacidade de continuar a se assombrar com a poesia de cada amanhecer. A amabilidade, ou amorosidade, para com os outros - sem distinção e preconceito. Tudo aquilo que for do reinado do bondoso, do generoso, da solidariedade. E, aquelas coisas pelas coisas nos sentimos gratos por existirem e louvamos a presença delas. bom, e despertar bons sentimentos. e o que seja digno de louvor. (Filipenses 4,8).

Digo-lhe que, por mais arrasados que estejam os canteiros floridos de teu coração, mesmo assim, se prestar atenção direitinho, verá ainda belas flores Maria Sem Vergonha, teimando em florescer à margem de teu viver.
Pode ser presença dos amigos que não te faltaram.
Pode ser um parceiro de jornada.
Pode ser estar empregado.
Pode ser ter conseguido se aposentar.Pode ser o acesso médicos e medicamentos para enfrentar doenças severas.
Pode ser os filhos vivos ainda.
Pode ser os pais vivos.
Pode ser a dor ter passado, o remédio ter funcionado.
Pode ser que o chefe se transferiu.
Pode ser ter um gerente bacana.
Pode ser ter um lugar para voltar.
Pode ser poder dormir a cabeça num lugar pra chamar de seu.
Pode ser poder pagar o aluguel.
Pode ser ter gás pra cozinhar.
Pode ser ter ainda uma sardinha para comer.
Pode ser ver, ouvir, sentir, andar, respirar e estar vivo.
E, por que não?
Há flores mais floridas do que o simples fato de existir?
E, quantas existências de sentido só começam mesmo, após terem perdido muitas flores, de seus canteiros centrais.
Aí, passam a cultivar as flores aonde podem ainda, com as sementes que lhes sobrou, e não é que são mais belas ainda?
Fica a dica, não ponha toda tua esperança, vigor e ânimo apenas num canteiro florido de teu viver.
Uma das receitas do bom viver é diversificar os canteiros.

Dias de lama! (autor Ricardo de Faria Barros)

Todo mundo tem aquele dia que na primeira hora da manhã tudo ocorre de errado. Aquele dia em que nos sentimos encalhados numa praia, tal qual este veleiro da foto.

Quem não teve um dia destes que pare de ler este texto.

É a filha que amanhece doente, é a diarista que falta, é a mãe do outro lado da linha que acorda rabugenta e resolve te ligar para rabujar. É o teu celular que insiste em mandar mensagens de help, para teu amado, e ele não abre as mensagens, como se estivesse lhe evitando.

É o carro com o tanque na reserva, precisando abastecer, e recebe um zap do chefe, convocando a equipe para uma reunião logo cedo. E, pra complicar mais ainda, na pauta consta o "status-report" daquele teu projeto que não está andando, por razões maiores do que você mesmo, mas que para o chefe, isto é problema teu.

Então, nestas horas o rio dos pensamentos negativos descem com fúria, pelos vales da mente e coração, e tudo fica enlameado. Tal qual um tsunami de lama, leia sobre a tragédia de Brumadinho (Brasil), a onda de coisas ruins que ocorrem ao mesmo tempo é asfixiante, paralisante e tira o ânimo.

A movimentação da psiquê fica difícil. Qual um animal, atolado no lamaçal, a pessoa que recebe uma sobrecarga de notícias não consegue se mover, e entra em colapso emocional, em parafuso.

Por isso precisamos compreender o funcionamento de nosso aparelho mental para nos ler melhor e saber acolher estes momentos, sem atolar mais ainda o corpo na lama, ao tentar sair dela de qualquer jeito.

Têm dias em que é melhor acolher o sofrer que vem em cenas fartas e de naturezas variadas.

Acolher é uma estratégia sábia. Não significa se acomodar à dor. Não significa ser passivo, subserviente com o que te causa tristeza.

Significa que não temos controle de tudo.  E que em alguns dias de nossa existência, a barragem pode ceder, e vamos ser pegos por uma onda de coisinhas chatas, sob as quais não temos muito o que fazer, a não ser esperar que elas passem.

E passarão.

Logo virão dias melhores que vão dissolvendo esta lama negativa e vamos saindo de dentro dela.

Um abraço que recebemos de alguém especial, dissolve parte da lama.
Uma pessoa que nos oferece uma oração de intercessão, dissolve parte da lama.
Uma música edificadora que ouvimos, dissolve parte da lama.
Uma ajuda fraterna que prestamo, mesmo ainda presos na lama, ajudará também a dissolvê-la.
Um dia após o outro, deixando-nos guiar pelo Compositor do Tempo, e sua partitura da canção de  um Amanhã Melhor, dissolve parte da lama.

Em dias de prisão emocional apenas respire. Mantenha-se vivo. Acolha o que lhe ocorre como espaço de aprendizado, como mais um conjunto de lições da escola da vida.  Não se desespere, não desanime, não pare de acreditar que passará e que amanhã será melhor.

Verás que devagarinho, no tempo das coisas e dos "gnomos",  tudo vai se encaixando novamente. Ou, alguns desencaixes são para ficar desencaixados mesmo.
E, nos adaptamos a isto - a este desequilíbrio, com flexibilidade de pensamentos e comportamentos.

Contudo, existem quatro posturas que ajudam muito a velejar sobre o mar de lama de dias não tão bons. 

A esperança ativa - Que é aquela emoção de que "nada está tão ruim que não possa melhorar". E que é preciso continuar lançando as sementes, mesmo que o berço da terra esteja desconfortável para elas. É acreditar que amanhã pode chover, e as sementes vingarão. Mas, é a esperança ativa, tem que continuar lançando as sementes. Sementes de paz, de bondade, de doação ao próximo, de justiça, de amor e perdão. Um dias elas germinarão, e vão contribuir para sair do atoleiro existencial . Na metáfora com um veleiro, a esperança é o leme. Ela nos dá um Norte, um sentido. El nos guia, definindo e orientando novos rumos e cursos de ação.

O otimismo realista - Ser otimista não é ser bobo, nem alienado. Nem uma pessoa que não expressa dor, choro, raiva e desânimo. Daquelas que vivem sorrindo pra todos, e que sempre diz que tudo está bem. Isto não é ser otimista. Isto é ser sem noção. Otimismo e esperança são valores, ou emoções positivas, de espécie similar, mas de resultados diferentes. O otimismo é uma lente pela qual a vida vai sendo filtrada.   Ele nos ajuda a sempre buscar o lado bom das situações, ou o que nos sobra, apesar dela. Ele é um substantivo quase verbo. Um otimista move o destino a seu favor. Numa analogia com um veleiro, o otimismo são as velas. As velas da alma. O otimista aproveita as forças do vento, seja em que direção sopre, alterando suas perspectivas de pensar e atuar, para aproveitar melhor de onde sopra o vento. 


A resiliência  - Este sentimento nos faz mais fortes, diante das dificuldades. É como se nosso ferro existencial estivesse sendo malhado. A resiliência é expressa na coragem, a coragem dos sobreviventes. Coragem de continuar, no lugar em que todos já desistiram. Coragem de acreditar, no lugar em que todos desconfiam. Coragem de investir, no lugar em que todos já sacaram suas reservas emocionais. Coragem de ser tudo, no lugar em habitado por seres-nada.  A coragem de acolher os dias ruins, mantendo-se vivo e confiante. A coragem de encarar aquela reunião, no qual vai ser avaliado de forma negativa.  A coragem de superar distanciamentos dos conflitos e indiferença e conflito, usando as pontes das ternas palavras e os gestos de amorosidade proximal. A resiliência se desenvolve nos embates da vida. Aprendendo com eles, resistindo a eles, sobrevivendo a eles, se adaptando a eles, mudando com eles ou transformando-lhes.  Num barco à vela, a resiliência é o contra-peso que fazemos, para tensionar melhor as velas, aproveitando toda a força do vento. Este contra-peso pode ser feito com o próprio corpo humano, com cordas que puxam as velas. Ou, nas  jangadas mais simples, lançando água sobre as velas para torná-las menos permeáveis ao vento, aumento sua eficácia. 

Auto-eficácia - É o quarto componente do capital psicológico positivo. Sabe aquela sensação de que com nossas próprias capacidades podemos entregar algum resultado? Isto se chama autoeficácia. É aquela vozinha interior que nos diz que somos capazes. "Ser saber que era impossível, ele foi lá e fez". É bem isso. É aquela autoestima que nos coloca pra cima, pra frente. Que nos dá uma sensação de potência, de vigor, de que podemos conquistar aquele objetivo, ou realizar aquele sonho.  A auto-eficácia nos faz ver a nós mesmos com compaixão. Faz-nos julgar nossa vida com menos severidade e perfeccionismo.  Faz-nos nos acetar naquilo que, sob as condições em que estamos inseridos, ainda assim podemos entregar de melhor. Então, na analogia do barco, a auto-eficácia seriam os remos. E, quando lhes faltarem os ventos, remem! Esta era a filosofia dos maiores navegadores de todos os tempos, os Vikings. Seus barcos tinham velas e remos. Os remos representam bem a auto-eficácia. Quem rema, acredita que chegará em algum lugar, e com seu próprio esforço. Melhor analogia com a auto-eficácia impossível.

Velas, leme, contra-peso e remos tornam a navegação - mesmo em mares bravios, ou em calmarias sufocantes, muito mais eficaz.  Mas, tem que saber esperar a maré virar novamente. A maré subir e o teu barco flutuar. Teu barco desencalhar do banco de areia, ou atoleiro em que se meteu.  Enquanto isto, faça cuidados paliativos emocionais. Medite, ore, caminhe, cace flores com a retina.

Então, para você que acordou num dia ruim, acredite na força das marés. Logo, você entrará no veleiro existencial e usando da esperança, do otimismo, da resiliência e da auto-eficácia recomeçará de novo, sem ser novamente.

E, saindo velejando pela vida afora, verá que vai cortar a lama que lhe rodeia, e até navegará sobre ela mesma.

Tempos de Descartáveis {Autor Ricardo de Faria Barros}

Acessando os portais de notícias li que um casamento foi desfeito em minutos, após terem assinado o contrato nupcial. O fato ocorreu na Ásia, no Kuwait, no início deste mês.
O motivo foi que ao descerem as escadas do cartório, já casados, o marido a chamou de estúpida, por ela ter tropeçado e caído no chão.
Aí, ela ficou brava, retornou pelas escadas de onde acabara de descer, e pediu ao juiz a anulação do casamento, por ter se sentido injuriada. Ao que ele procedeu; três minutos após o casamento ter sido oficializado.
Talvez seja o recorde de temo de casamento desfeito. Não vou defender de maneira alguma a atitude do cara que a classificou de estúpida. Classificar quem leva um tombo de estúpida é ser, no mínimo, um bruto de um insensível. Mas, o que me chama a atenção é o pouco limite para deixar as coisas se acalmarem, para contar até dez antes de tomar uma decisão importante.
Como julgar uma pessoa, para a qual se entregará uma jornada de vida futura, por uma cena apenas?
Mesmo que seja uma cena que tenha tirado o outro do sério, machucado e feito infeliz?
Como se julga algo de ruim em um relacionamento por uma cena?
E não pelo filme do conjunto da obra entre eles?

Se fosse filha minha eu perguntaria assim:

Filha, ele é sempre assim? Violento e sem noção?
Filha, ele está com algum problema?
Filha, ele te pediu desculpas, assumindo a pisada na bola que fez?
Filha, você o ama?
Filha, desde que conheceu este cara, até a decisão de casar com ele, você se sentiu respeitada, cuidada, admirada?
Tirando este infeliz xingamento, ele te admira, demonstra interesse por tuas coisas, tu sente que ele te faz especial, e a mais feliz das mulheres, quando ao lado dele está?

Da avaliação das respostas às questões acima é que eu diria para ela decidir, mas não na hora.
Tem um filósofo polonês, falecido em 2017, chamado Zygmunt Bauman que escreveu um livro chamado Amor Líquido.
Neste livro, Bauman nos alerta para a banalização dos relacionamentos, que viraram objeto de consumo, e como tal podem ser comprados e descartados, na velocidade de um clique, ou de uma subida das escadarias para anular um casamento, recém-homologado.
A banalização das relações acompanha o mesmo ritmo da internet das coisas, transformando tudo numa velocidade imensa, em supérfluo, desnecessário, tão logo apareçam novas demandas, expectativas e necessidades, muitas das vezes idealizadas.
Perde-se capital psicológico positivo, no seu componente da resiliência, otimismo e esperança, e na ausência deste capital, nada compensa o esforço e investimento para o seu aprimoramento.
Melhor jogar fora, e comprar outro.
Correndo por fora das relações de consumo, que adentram perigosamente nos relacionamentos sociais, está o aumento da individualidade e egoismo.
E este excessivo culto ao EU, muitas das vezes reforçado em postagens sedentas de desejosas de likes acaba por criar um ambiente de pouca tolerância e empatia, e até uma certa dose de flexibilidade, ao outro EU, que também está inflado.


E, dois EUs inflados, quando se juntam, explodem.
Como um coração inflado de si mesmo acomodará parte do outro dentro de si?
Como uma pessoa que aprende que pode tudo, que compra tudo, que todas as suas necessidades-expectativas precisam ser atendidas, com exclusividade e prioridade, pode ser generosa ao outro, doando-se a ele?

Então, vivemos sob o império de um tripé: consumismo, individualismo e egoísmo.
E, neste tripé, falar em perdoar, aceitar o outro, ou acolher o que ocorreu quando as coisas lhe entristeceram, soa tão distante.
Tudo mundo cheio de razões e armado. Pronto ao menor deslize que o outro cometa a sacar-lhe as armas das palavras.
Aí, antes de dormir, a pessoa ainda entra nas redes sociais, posta o ocorrido, e encontra um monte de apoiadores, "likedores", e incendiadores. Gente que vai dar-lhe razão, mimá-la, enchê-la com um monte de conselhos, do tipo, "você está mais que certa em largar este cara".
E aí vamos ficando craques em cobiçar os gramados dos vizinhos, mas não sabemos o quanto de esforço eles levam para mantê-lo daquele jeito.
O quanto de sujeira eles precisam processar. O quanto de esperança, na força das sementes, eles precisam cultivar. E o quanto de otimismo eles precisam ter para com aquele gramado, infestado de tiriricas e caracóis, de que com o uso das ferramentas e cuidados certos, logo ele estará bonito novamente.

Cinco Chaves e Três Portais para Felicidade (Autor Ricardo de Faria Barros)


Tem uma música do Grupo Revelação que gosto muito, ela se chama Tá Escrito.
Nela, o cantor Xande de Pilares começa provocando todos com a chamada:
"Na palma da mão, na palma da mão".  Estamos no mês dedicado aos cuidados com a aúde mental e o bem-estar emocional. Então, gostaria de compartilhar algo que venho falando em cursos e palestras, e que cabem na palma da mão.
São ensinamentos extraídos do Ikigai (Conjuntos de práticas de bem viver orientais), da Psicologia Positiva, da Logoterapia, e de meus encontros com pessoas inspiradoras.  Procurei resumir numa metáfora bem simples, para que nunca esqueça e que de vez em quando a revisite, aprimorando o processo de reeducação emocional positiva para o bem viver.
Imagine suas mãos. É com elas que apresentarei as chaves da felicidade e as práticas mantenedoras das mesmas, que as chamo dos Portais.  Vamos la.


I Chave, o dedo mindinho  -  Alimentação e Atividades Físicas Saudáveis   
Nos contos Os Sete Corvos dos Irmãos Grimm o dedo mindinho foi fundamental para passar pelo buraco da fechadura e salvar a todos.  Então, este dedo representa nosso biológico e o físico. Precisamos nos alimentar de forma saudável, e praticar atividades  físicas.   De muito tempo já se estabeleceu o nexo entre o corpo são e a mente sã. A sabedoria oriental do Ikigai nos ensina a deixar sempre 20% da fome sem saciá-la. E a fazer atividades físicas em grupo, ou de forma contemplativa, apreciativa. É o caminhar prestando atenção nas coisas belas que estão pelo caminho.

II Chave, o dedo anelar   - Convivências Significativas
É o dedo usualmente utilizado para colocar as alianças. Mas, pense apenas nele como uma metáfora dos relacionamentos e grupos sociais de que participa. Quem tem relacionamento com amigos e participa de grupos sociais, tem para com eles alianças. São valores compartilhados, são espaços de coletivização, fecundos para trocas de afetos e busca de almofadas sociais para deitar a alam, naqueles dias mais cansados e aflitos. O outro importa. E muito. E é esta a descoberta da II Chave para uma melhor saúde mental e bem-estar emocional.  Amigos e grupos sociais são terapêuticos.

III Chave, o dedão   - Escolhas Positivas 
Este dedo costuma ser usado em expressões nada amigáveis. Você leva um trancão no trânsito e logo passa pela sua cabeça baixar o vidro do carro e colocá-lo em riste contra o outro. Mas, este dedo pode fazer parceria com o dedo vizinho, e ser um símbolos o de paz, de vitória, ou, invertidos, de quem está caminhando.
Aqui esta chave tem muito poder. Pois fala de nossos escolhas e reações frente ao ruim, ao revés, naquela hora que as coisas saem do planejado, que sofremos baques e perdas na vida. As escolhas e  e reações farão toda a diferença no modo como iremos superá-las.  Escolher a cultura da paz, no lugar da de guerra. E escolher contabilizar as sobras, após uma determinada situação difícil que enfrentou ou enfrenta, no lugar de ficar colecionando as dores e faltas que passou a ter, é fundamental para sobreviver e superar a situação, até aprendendo com ela.

IV Chave, o indicador  - Participação Ativa 
Quem não já usou este dedo ao responder na aula à chamada do professor!  Com ele dizemos: Presente. E com ele também apontamos caminhos. Vá por ali à frente, ou dobre aqui. Um dedo que pode ser perverso, ao só apontar as falhas nos outros. Mas, um dedo que também nos lembra duas grandes lições do bem viver. Estar presente ao aqui e agora. Atento a tudo que de bom, belo, virtuoso nos rodeia. Desenvolver a percepção seletiva positiva, de si mesmo, do outro e da realidade, é urgente e fundamental a saúde mental e bem estar emocional, nos tempos de tanta degradação e violência do que circula na mídia e redes sociais.  Têm pessoas que trabalham ao lado de uma janela que todas as tardes oferece um espetáculo de pôr do sol. Mas, elas não prestam mais atenção a ele, não mais se assombram e se encantam com mesmo. Caiu na indiferença, pela cruel rotina de estar sempre ali, todos os dias. O outro ensinamento do indicador é de participar, de se fazer ativo na vida familiar, profissional e social.  Quem participa de algo se engaja, e quem se engaja  em algo com prazer desenvolve os hormônios do quarteto da felicidade: endorfinas, serotoninas, dopaminas e oxitocinas.

V Chave, o polegar  -  O que se sente e o que se pensa 
Eita chave perigosa e poderosa. Somos seres de emoções e pensamentos. Contudo, desde das cavernas eles foram projetados para aprisionar, amplificar e destacar as emoções negativas e os pensamentos da mesma natureza. Erguer o polegar na famosa expressão de "joinha" tem sido uma prática cada vez mais difícil.  Pesquisadores descobriram que nossos neurônios agem como velcro, para as coisas negativas, retendo-as e ruminando-as por muito tempo. Já as coisas boas que nos acontecem são voláteis, dificilmente armazenadas nos bancos de memória do hipocampo, pois escorrem pela mente, tal qual o óleo nas panelas de Terflon.  Este fato se dá pelo modo operante do nosso cérebro cérebro reptiliano, formado pelas amígdalas, hipotálamo e hipocampo. Esta estrutura está sempre pronta a reagir, conjugando no outro os verbos: atacar, defender, correr ou se esconder.  Fazer a faxina nas emoções ruins e pensamentos é necessário, mas exige um constante vigiar sobre eles mesmos, e processos de auto-conhecimento. Só nosso cérebro pode atuar nele mesmo, criando uma voz dissonante, com emoções e pensamentos de outra natureza, mais otimistas, positivos e esperançosos. Precisamos cultivar nossos joinhas, nossa auto-estima, nossa paz interior e acolhimento  de situações que sobre as quais nada podemos fazer, a não ser mudar a nós mesmos sobre o modo como a deixamos em nos atuar.

As cinco Chaves, da metáfora dos cinco dedos, abrem os três  portais abaixo, feitos em gestos com as mãos.

Primeiro Portal, pare!  - O que parar de ser e fazer
Pare. Não há crescimento em saúde mental e bem-estar emocional sem mudanças no estilo de vida, e nos hábitos comportamentais, atitudinais e sociais nocivos que fomos aprendendo ao longo de nossa existência.  Parar de ser tão rabugento. Tão pessimista. Tão egoísta. Tão descrente de si mesmo, dos outros e da realidade.  Parar de criar mágoas de estimação no canil da alma.   Parar de adiar aquele perdão, de adiar aquela decisão. Parar de desenvolver um estilo de vida insustentável, repleto de ganância, individualismo, consumo,  ou das pseudos-alegrias, derivadas do ter, do poder e do prazer pelo prazer.

Segundo Portal, elevar as mãos!  - Sentir e expressar gratidão. 
Quando paramos de sentir gratidão e de expressá-la algo de ruim está se desenvolvendo em nossa psiquê. A gratidão é um portal que nos liberta de achar que sempre merecemos tudo. Que nos faz mais humildes e misericordiosos. A gratidão rejuvenesce a presença do outro em nosso viver. Andamos muito carentes de sentir e expressar a gratidão. Parece que tudo nos é devido, nos é de direito e nada mais em nós causa este sentimento tão libertador.  Aquela diarista que deixou nosso lar habitável novamente, não é por nós percebida como algo do reino da gratidão. Nossa racionalidade converte isto numa relação entre quem paga e quem entrega serviços. E, esta comparação vale pra um monte de coisas, situações e pessoas, para as quais deveríamos sentir e expressar gratidão, mas não o fazemos.

Terceiro Portal, oferecer algo - Doação
Quem oferece algo a alguém torna-se melhor.  Quem me lê e tem algum trabalho de voluntário sabe bem do que falo. Mas, não precisa oferecer o seu melhor  apenas sendo voluntário de causas sociais. No seu trabalho você pode fazer isto, na relação com seus clientes, externos e internos. Ou na relação com seus colegas de empresa. Na sua família e comunidade também. Você pode se doar e servir. E, muitas das vezes a melhor doação não necessitará de recursos materiais, trata-se de tempo para escutar alguém, de interesse na vida das pessoas, e até mesmo um abraço gostoso, em quem se sente aflito e desanimado.  Quem se doa abre um infinito de eternidade dentro de si. Cheio de emoções e pensamentos positivos. Não sem razão, muitas pessoas buscam cuidados paliativos para seus lutos ajudando alguém. E funciona, até melhor do que os tarja-preta, não tenham dúvida.


São estas cinco Chaves e os três Portais o que fará a diferença na qualidade de vida emocional da humanidade. E que funcionarão como um antidoto à epidemia de infelicidade pela qual estamos passando, com o avanço de casos de depressão e suicídios.

Finalizo com a bela letra da música que abre esta crônica:

Tá Escrito (Grupo Revelação)

Na palma da mão, na palma da mão...
Quem cultiva a semente do amor
Segue em frente e não se apavora
Se na vida encontrar dissabor
Vai saber esperar a sua hora
Às vezes a felicidade demora a chegar
Aí é que a gente não pode deixar de sonhar
Guerreiro não foge da luta e não pode correr
Ninguém vai poder atrasar quem nasceu pra vencer
É dia de sol, mas o tempo pode fechar
A chuva só vem quando tem que molhar
Na vida é preciso aprender
Se colhe o bem que plantar
É Deus quem aponta a estrela que tem que brilhar
Erga essa cabeça, mete o pé e vai na fé
Manda essa tristeza embora
Basta acreditar que um novo dia vai raiar
Sua hora vai chegar.

Longevidade, Envelhescência e os Novos Velhos (Ricardo F.Barros)

Palestra na ABRAPP, comemorativa do Dia dos Aposentados, realizada em SP.
Você que me dá a honra de parar o que está fazendo para me ler poderia responder a uma pergunta? 

Quais seus objetivos para realizar dos 80 aos 100 anos de idade?

Podem ser pessoais, familiares, profissionais, culturais, acadêmicos, esportivos, sociais e até espirituais. 
O que seja.

Se eu te fizesse esta pergunta há vinte anos atrás você diria que a pergunta era absurda. 

Mas, eu aposto que você conhece alguém que já fez oitenta anos. Por exemplo, o Papa Francisco e Martinho da Vila. 

Estamos vivendo uma revolução dos modos de ser, fazer e acontecer da velhice. E é um fenômeno mundial. 

Este movimento de reinvenção do ser idoso tem sido chamado de Os Novos Velhos.

E da mesma forma que eles puxaram, do alto de seus 20 e pouco anos as revoluções culturais e civis, das décadas de 60-70, agora eles puxam a revolução da negação da inatividade. 

Uauuu.

Passaram a estudar novamente, praticar esportes e hobbies, passear e produzir. E estão dando um show de longevidade ativa. 

Lógico, que nem todos acompanham no mesmo ritmo, é mudança cultural, e ainda têm os que se consideram "aposentados", que desistiram de continuar assombrados e encantados com o viver. 

Contudo, que bela energia grisalha está vindo. Aquela que transformará bengalas em cajados.

Abasteça seu bebedouro com néctar. (Por Ricardo de Faria Barros)

Há alguns dias voltei de merecidas férias e aos poucos restabeleci a desordem de meu apartamento. rsrs
Uma das primeiras coisas que fiz foi encher os bebedouros de meus pássaros de janela, que estavam sem reposição desde a virada do ano. Ou seja, há 20 dias. Coloco neles um pó violeta chamado de Néctar que compro em Pets Shops, misturo com água, e está feita a bebida deles que durará alguns dias. Vê-los alimentando-se rejuvenesce esperanças. É terapêutico e tem sido motivo de inspiração para mim. Já os conheço bem. Têm os Sanhaços, azuis, os Xexeus, laranja e preto, os Canários, amarelos, Beija-Flores, furta-cores.

Moro no sexto andar, e os janelões são margeados pelas copas das árvores, o que também favorece esta aproximação.
Acontece que ando órfão deles. Como deixei de alimentá-los, extingui neles o hábito, e eles cessaram de alegrarem meu lar com a sua presença, pelo menos por enquanto.

Mas, não desisto de repor a água do bebedouros, cujo calor inclemente que tem feito aqui pelas bandas do Planalto Central tem evaporado considerável quantia, todos os dias.

Não desistirei deles.

Creio que estes bebedouros são uma poderosa metáfora de nossas emoções e pensamentos positivos.
Já notou que nos sentimos bem perto de pessoas que expressam emoções do bem, do tipo da paz, do perdão, da misericórdia, da esperança, da gratidão e amor?
E que também nos sentimos muito bem perto de pessoas que colocam para nós seus pensamentos mais edificantes, que nos acolhem, nos incentivam, nos reconhecem, nos estimulam, em palavras tão cheias de ternura e fé, qual o néctar que coloco todos os dias.
Em tempos de grave epidemia mundial da Síndrome da Intolerância a Gente, doença por mim definida noutra crônica, precisamos cuidar de nossos bebedouros existenciais.
Precisamos renovar nosso néctar, diariamente, para que pessoas possam se aproximar de nós, se alimentar de nossos valores, sonhos, ideais, e deixarem a nossa presença melhores do que chegaram.
Tem muita gente reclamando que os tempos andam difíceis mais o que tem feito com seu próprio bebedouro?
Que tipo de energia anda atraindo? Ou nela se sintonizando?
Se eu não repor meus bebedouros, como posso reclamar de meus pássaros que me abandonaram?
Quantas pessoas se sentiram abandonadas por outras, mas que precisam fazer um exercício de autoconhecimento, bem doloroso, de ver se não foram as atitudes delas, expressas em emoções, pensamentos e comportamentos, o que de fato contribuiu para que elas se afastassem.

Somos muito bons em julgar os outros. Em reclamar que o mundo anda em pe de guerra, que todo mundo está muito egoísta, que ninguém quer mais compromisso com ninguém, ou nenhuma causa.

Tudo bem. As coisas estão por aí mesmo.

Mas, e quanto aos nossos néctares? Estamos repondo eles, todos os dias, apesar da seca inclemente que teima em fazê-los evaporar, ao final de um dia de pancadas que levamos da vida?

O grande perigo de se conviver em ambiente de emoções tóxicas e extramente negativas; ou naqueles cheios de pessoas rabugentas, negativas, reclamonas e chatas de galocha, é nos tornar tal qual elas.

Elas desistiram de atrair os beija-flores para seus pássaros.
E aí todos vão empobrecendo como humanidade. A ponto de quando recebemos um atendimento bom, um telefonema de alguém se preocupando conosco, um retorno de uma mensagem nossa, via rede social, ou um simples gesto de querer nos ajudar em algo, ficamos desconcertados.

Como diz a poetisa Verônica Shoffstall: "Plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores." Este texto é erroneamente atribuído Shakespeare.

Plantar o jardim e decorar a alma é alimentar as nossas emoções e pensamentos com as coisas boas da vida e do viver.
É colocar sem moderação o néctar do amor em tudo que fazemos, do perdão, da empatia, da ética, do respeito, da consideração pelo outro.
E sem esperar que alguém faça isto para conosco.
Se ficarmos nessa de esperar receber para poder compartilhar, tenho uma má notícia. Teu bebedouro vai secar.
Precisamos urgentemente voltar a cuidar das entradas de nosso coração. Conforme um sábio escreveu no livro dos Provérbios: Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida. Provérbios 4,2.
E, não menos urgente, precisamos vigiar a qualidade dos pensamentos que invadem nossa mente. E nos reeducar sobre o que circula em nosso processamento cerebral. Como bem disse Paulo: Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. Filipenses 4,8
Dando o melhor que temos aos outros, ao mundo, à realidade, estaremos trazendo pessoas para nossas jornadas de vida. E elas de nós se alimentarão, e cresceram com nosso exemplo inspirador.
Como disse no início da crônica eu estive de férias, e foi em João Pessoa. Num dia, pela manhã, vi um sobrinho levando a sua tia para conhecer o mar pela primeira vez, Dona Maria Dulce, a da foto, natural de Patos-PB. Ela tinha vindo à capital fazer exames cardíacos, e ficou hospedada na casa do sobrinho. Ele, após a bateria de exames a que ela se submeteu, a agraciou com esta visita ao mar. A cena era linda, ela mal se continha de emoção. Mas estava cansada. Sentado de meu posto de observação, percebi a aflição do sobrinho, em segurá-la perto do mar, do alto de seus 74 anos.
Então, corri com minha cadeira para melhor acomodá-la na beira-mar.
A água do mar lambia seus pés, e ela sorria. Falou que a vida dura no sertão nunca deu-lhe esta condição de passar uns dias na praia. E que ao se deparar com uma quase morte, pelo desmaio que teve, fruto de uma patologia no coração, ela decidiu que não morreria sem ver o mar.
Fiquei um tempão com ela, seu sobrinho, o Jarbas, e sua filha a Alice. Abasteci meu bebedouro com eles. Que gesto humano e solidário!
Perceberam como faço? São as pessoas boas as que melhor nos abastecem, inspiram e nos estimulam. Fico que nem meus pássaros à procura de beber do néctar delas e me fortalecer, e crescer.

No outro dia, no jornal local, aquele que passa na TV cedinho da manhã, a matéria destacava um voo de parapente para cadeirantes, organizado por voluntários.
Eu fiquei estatelado com a beleza da cena. Enchi muitos bebedouros de néctar com o que via. Consegui um trecho da mate´ria que um jornal local fez, vejam:

"Sessenta cadeirantes tiveram a oportunidade de voar gratuitamente de parapente na Praia do Sol, dias 19 e 20 de janeiro 2019, em João Pessoa, através do Projeto Não consigo andar, mas posso voar. Cláudio Cloudd, instrutor e piloto há mais de 18 anos, explicou que a ideia surgiu após um cadeirante falar que o sonho dele era voar. No mesmo momento, Cláudio o equipou e proporcionou o voo. Foram selecionados 30 cadeirantes de Pernambuco, 20 da Paraíba e 10 do Rio Grande do Norte.
Funcionando há dois anos, o projeto tem o apoio de uma faculdade Maurício de Nassau e o auxílio de mais 18 instrutores. Carolina Vieira, uma das selecionadas, perdeu o movimento das pernas após um acidente de moto. Já envolvida com o outros esportes e atividades antes do acidente, ela afirmou que foi a primeira vez que teve uma oportunidade como essa. “Antes do acidente, eu era professora de dança e fazia o curso de educação física, então já tinha essa coisa do esporte. Mas essa trip radical é a primeira vez, estou maravilhada com a sensação”, destacou. “Estamos desenvolvendo um projeto belíssimo que tem tirado as pessoas com deficiência de dentro de casa e feito com quem elas possam voar. No céu não existem muros, obstáculos e barreiras”, destacou Sérgio Murilo, coordenador do projeto."

E aí, encheu seus bebedouros também? Em todo lugar tem gente fazendo coisas assim. Aposto que aí pertinho de você. Ou até você mesmo faz um monte de coisas legais pelos outros.
Então, esta é a mensagem desta crônica. Não podemos desistir de nós mesmos, naquilo que temos de mais precioso: nossas emoções e pensamentos positivos. Serão eles quem capacitarão nossa percepção a também colher da realidade aspectos bacanas, esperançosos, otimistas, bons, legais e virtuosos da vida e do viver. Afinal, quem tem um jardim dentro de si, costuma ver jardins por todo lugar, inclusive nos outros.

Não espere pelos outros para dar o seu melhor na jornada do Ser. Pássaros sedentos dependem das gotas de seu néctar de esperança, amor, paz, apoio e inspiração em momentos dolorosos do existir.
E sabe onde é o melhor local para isto? No teu trabalho, na tua família, na tua escola, ou no teu condomínio. O melhor local para dar o nosso melhor é o que nele estamos.
Temos uma mania de não fazer a nossa parte, atribuindo apenas ao Governo, aos outros, ou até às circunstâncias, as justificativas para que eles façam.
E aí calamos a nossa consciência. Afinal, o problema não é meu. E por que serei uma pessoa justa, ética, boa e mansa, convivendo nesta selava humana?
Elementar meu caro amigo, para não se tornar como eles!

Recordações (Por Ricardo de Faria Barros)

Chegando da virada do ano novo que passei em Campina Grande, e férias em João Pessoa-PB, abro meu apartamento de Brasília e sinto uma lufada de ninho invadindo meu ser. Não há lugar no mundo que desperte esta sensação ao dele se adentrar, que o nosso lar.

Tudo me é familiar e me fala.
Saúdo minhas plantas, que cansadas de tanta espera, apenas batem suas pétalas esturricadas. Mesmo deixando uma pessoa para molhá-las, nãos as molhou como quem se ama, com constância, atenção e zelo. Quem ama entende de que falo.
As orquídeas deram duas hastes, se a seca não as matou por dentro, teremos uma safra de belas flores.
O pobre do bambu está todo tristonho, e despenado, já que perdeu todas as folhas.
Na ânsia de sobreviver, sem fartura de água, optou por tentar salvar suas raízes, livrando-se das folhas. Como se vivera um outono precoce. Tadinho.
Os bebedouros de pássaros estão vazios. Eles devem ter passado por maus momentos, pois que já estavam viciados naquela aguinha de frutose, de uma cor violácea.
Para as bandas das praias as coisas andam estranhas.
O som da parada é de uma tal de Jenifer. Durante um dia de praia, ou boteco, você escutará esta música no mínimo dez vezes. Pense numa Jenifer famosa!
Um fenômeno deste verão são as aquelas caixinhas portáteis que mataram qualquer possibilidade de um papo na mesa de bar, ou onde quer que o cara a leve.
Se antes eram aqueles carros, com verdadeiras torres de som no porta-malas, agora são as insanas caixas de som portátil, que de portáteis não têm nada, uma vez que somos obrigado a ouvir mil ritmos diferentes, cada um embaixo de uma sobrinha de praia, ou mesa de bar.
Não basta que o cara escute com sua turma. Ele precisa mostrar para os vizinhos o que está ouvindo.
Algumas das músicas que ecoam destas caixas têm refrões impublicáveis, e olhe que estou longe de ser moralista.
Outro fenômeno são os celulares câmeras fotográficas. A beira-mar virou passarela, e em todo lugar tem gente fazendo mil piruetas, para registrar o melhor ângulo do corpo. Alguns mais empolgados na sensualização acabam levando um caldo do mar, o que gera mais motivo pra novas fotos. Tudo virou registro visual.
Tive pena de um monte de criancinhas, em seus barreiros de água, feitos com areia de mar, cujos pais estavam mais interessados nas redes sociais, do que em construir a última versão do castelo de areia com o seu filho. O cara-pai, a moça-mãe, levam o celular para dentro do barreiro de água e ficam conectados em mil coisas no mundo digital, perdendo em conexão com o filhote.
Antes que me esqueça, os bom-dias ao caminhar estão mais raros. O povo tudo relaxado, turistando e caminhando em área segura, e negando bom-dias.
Estamos criando muros coletivos. Todo mundo num espaço público, mas incapazes de interagir uns com os outros, em prosaicas respostas a um bom-dia.
Quem me dava mesmo um sonoro bom dia, em resposta ao meu, era a dona Fátima, catadora de papelão e latinhas de praia. A desta foto da crônica. Acorda com dona Fátima era muito bom. Todos os dias saia pra comprar o pão bem cedinho, após ver o sol nascer, que pelo Nordeste é pelas 5h30. Então, no caminho para a padaria, sempre cruzava com Dona Fátima vindo em sentido contrário. E aí aí era festa.
Comentava do apurado da catação até àquela hora, do sol, do tempo, dos netos dela, da vida desta septuagenária que sempre estava com um sorriso no rosto, mesmo na dura lida de completar a renda da família vendendo recicláveis. Sempre comprava algo pra ela e os netos na padaria. Mas, o pretexto não era doar algo pra ela. Era passar mais uns minutos ouvindo-a sobre a lida do bem viver, ouvi-la contando toda orgulhosa que quando chega em casa, pelo meio dia, os netos já fizeram o almoço pra ela.
E presta? Pergunto-lhe.
Ela me responde: "depende da fome".
E ambos caímos na risada.
O telefone toca, é mamãe lá da Paraíba preocupada com o que vou comer. Depois de acalmá-la mostrando a validade de uma comida congelada, papai pega o fone e pergunta se o vôo teve turbulência.
Deixo-vos com o coração bem saudoso, ele com seus 81 anos e ela com seus 80. Ainda fizemos bons passeios, nos dias que a perna de mamãe amanhecia melhor.
Ela ficava preocupava, nos dias que não ia, pois dizia que estava atrapalhando.
Atrapalhava nada de nada. Nestes dias eu e papai fazíamos um programa à frente de casa mesmo, numa praia próxima, de modo que todos nós estávamos juntos novamente no almoço, e a casa voltava a falar amor.
Não tenho mais nenhuma ansiedade de conhecer coisas novas, sair com amigos, participar de atividades culturais, quando estou curtindo meus pais.
Para mim, o maior programa ainda é colocá-los dentro do carro e sair buscando uma praia mansinha e acessível para que possamos nos divertir ao nosso modo. E voltando cedo.
Paro de teclar, olho para a sala, e percebo as coisas largadas. Restos de bagagem por todo canto, um garfo em cima da radiola, um copo perto das plantas. E o que faz aquela camisa largada no chão?
Abro um sorrisão e penso, amanhã, ou quem sabe depois, farei uma faxina.
Estou no meu lar, feliz 2019 Ricardim!

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