Miraculina (Autor Ricardo de Faria Barros)

Hoje estou degustando uma Miraculina na alma.
É que no dia de amanhã será o chá de revelação do sexo de meu primeiro neto (a), filho(a) da Priscila.
E um maravilhoso e fervilhante sentimento Miraculina invade meu ser.
Você deve estar se perguntando o que é Miraculina.
Miraculina é uma fruta, nativa da África Ocidental, de nome científico Sideroxylon dulcificum.
Ela tem um poder miraculoso, por isso também é conhecida como a Fruta do Milagre.
Após comê-la, a mucosa das papilas gustativas fica protegidas por uma molécula formada por 191 aminoácidos de glicoproteínas.
Esta molécula converte o sabor do ácido e do amargo no mais doces dos manjares.
Enquanto a molécula está agindo o limão mais azedo se torna uma laranja mimo do céu. E o vinagre de fel mais amargo, é percebido como um delicioso licor de jabuticaba, por exemplo.
O legal é que ela não altera os níveis de acidez dos alimentos, ou sua adstringência, ela altera as lentes gustativas para protegê-las da percepção ácida e amarga dos alimentos, e por até duas horas, após masca-las.
Para mim, a Miraculina é Sentido na Vida.
E em todas as suas expressões, intensidade e complexas orquestrações de significado e de propósitos.
Quando saboreamos algo, antecipando o prazer que sentiremos, como o meu do dia de amanhã, estamos comendo a Miraculina.
Não há azedo que se intrometa nesta degustação, não há amargo que impere.
É como se a psiquê fechasse as gavetas do ácido e do amargo, para apreciar de forma mais intensa e verdadeira, a docilidade e ternura do momento presente.
Existem muitas variedades de Miraculinas emocionais.

O Amor de Afetos é uma delas. Quem ama passa a ver a vida de forma mais doce, mesmo que enfrente dias amargos e até de alguma forma ácidos. Quem ama está sempre com um mascar de miraculina na boca, vendo a vida com um olhar sorridente e poético. E como diz a canção Cheiro de Amor, interpretada por Maria Bethânia: “De repente fico rindo à tôa, sem saber o porquê...”. O Amor de afetos pode ocorrer entre pessoas que se reconhecem como parceiras na vida, do ponto de vista carnal. Pode se dar entre amigos e familiares. O amor de afeto ocorre quando a doçura do outro invade nosso viver, dando a ele um novo significado. Em instantes mágicos e especiais. 

A Esperança de Esperançar é outra variedade da Miraculina. Esperança de esperançar, e não de esperar. Quem tem esperança de concluir um projeto, se submete a quase todo e qualquer esforço para o alcance deste desafio. “Aquele que tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como...” (Nietzsche). E o que é a esperança senão um monte de porquês para o viver?

Quantas pessoas vocês conhecem que após o recebimento de uma trágica notícia, que os abalou profundamente, ainda assim conseguem reinventarem-se em suas vidas, e encontrarem um sentido na forma pela qual reagem às adversidades a que estão expostos.

Outra espécie de Miraculina é a Solidariedade da Compaixão.
Por mais que tua vida esteja ácida e amarga, após ajudar alguém é como se uma outra dimensão se estabelecesse em teu ser.
Os problemas não acabaram, as aflições ainda estão ali, o amargo e ácido estão presentes ainda, contudo já não ditam comportamentos.
Já não operam nas lentes do pensamento e emoções negativas, tornando-as mais positivas e otimistas. E, porque não dizer, resilientes.
Quando prestamos qualquer tipo de solidariedade de compaixão, quando nos doamos aos outros e a uma causa, esquecemo-nos de nós mesmos e nova criatura ficamos. Voltamos para casa, após aquela ação solidária, com a doçura da compaixão impregnada nas papilas gustativas de nosso viver.

Existem muitas espécies de Miraculinas emocionais, que bom!

Você deve ter as suas próprias.

Uma delas, ainda não citada, e que em meu viver sempre esteve muito presente é a coragem dos sobreviventes.
A Coragem dos Sobreviventes é aquela Miraculina que diminui a percepção de amargor e de acidez, de uma determinada situação que precisa ser enfrentada.
Em todas as odisseias humanas, nas quais houve sobreviventes, esteve presente este tipo de postura diante de uma fatalidade. E aquela coragem que incendeia a alma, que aquece o coração, que alivia toda a carga de sofrer, ao se focar no que precisa ser feito, em determinada situação concreta que se vive.
E a pessoa mete os peitos, e com uma força descomunal, mesmo operando em ambientes insalubres, pobres de respeito e de valores, a pessoa não se deixa contaminar, ou influenciar-se por este meio, sendo uma sobrevivente.
E atua com coragem. De mudar situações. De se mudar de situações. Ou de aprender a conviver com situações, digamos que imutáveis.
É preciso muita coragem dos sobreviventes para não se deixar aniquilar pelos valores que imperam nos tempos presentes.
É preciso muita coragem para ser diferente, ético e autêntico, em meio a tantas pessoas narcisistas, egoístas e autômatas dos dias atuais. A coragem dos sobreviventes é aquela coragem que nos faz continuar caminhando, em busca de dias melhores, quando todos ao lado já esmoreceram, já desanimaram.
E a coragem dá um sabor especial à vida. O sabor de “não ir por ali...”: para onde todos estão indo. O sabor de sobreviver, um dia de cada vez, um passo de cada vez. O sabor de deitar a cabeça no travesseiro e poder dormir sem lembrar-se que machucou alguém, que sonegou direitos, que violentou corações. Que doçura maior do que ter este tipo de coragem ao continuar defendendo a agenda de direitos civis e sociais, mesmo que todos digam que é tempo perdido?

Então, que bom que Deus nos deixou esta plantinha para fazermos esta analogia com nosso viver.
Se nossa vida anda um tanto amarga, ácida e de sabor insuportável talvez seja a hora de comer as Miraculinas: do Amor de Afetos, da Coragem dos Sobreviventes, da Esperança de Esperançar e da Solidariedade da Compaixão.
Agora vou ali no pomar da vida, colher umas Miraculinas, e para continuar percebendo seletivamente e valorizando a doçura da vida e do viver. Mesmo sabendo, convivendo e tendo que se adaptar às situações de amargor e acidez da vida, e da realidade, elas não serão eixo de viver. Não me tornarei uma pessoa azeda, ácida, rabugenta e cultivadora de infelicidades.

Pessoas-Russélia (Autor Ricardo de Faria Barros)

Caminhando pela feira de Sobradinho, deparei-me com uma bancas de plantas, e nela tinha uma muda de uma plantinha que os beija-flores adoram, chamada de Russélia. Na casa de meu irmão, por exemplo, tem muitas destas plantinhas e eles fazem a festa.
A flor da Russélia, vermelha e atraente, tem um pequeno canudo na sua estrutura, que parece ter sido feito sob medida para o bico do beija-flor, encaixe perfeito, o côncavo e o convexo.
Não contei conversa e comprei uma muda pra mim. Mesmo o jarro pesando horrores, e a vendedora não tirando nem um real, dos R$ 35,00 que cobrou.
Eu precisava de um Plano B, para os beijas-flores voltarem à minha janela. Pois, numa das partes dela, justamente a que tive que fechar para colocar um ar-condicionado, era onde eles iam se alimentar de água de frutose que boto todas as manhãs, naqueles bebedouros plásticos. Assim sendo, após a interdição daquela banda de janela, perdi minha vista matinal deles.
Apostei então que o jarro de Russélia, com flores abundantes e viçosas, iria atraí-los.
Cheguei em casa, e arfando bicas com o jarro, consegui levá-lo até a jardineira de metal, que margeia a banda da janela que ainda abre. Fui me limpar no chuveiro, e ao voltar, já tinha um freguês de flores de Russélia, para meu espanto, era um canário da terra.
A foto desta crônica flagra este momento.
Logo depois chegaram os beija-flores e fizeram a alegria do final de tarde deste domingo.
Lembrei que na noite do sábado para o domingo minha irmã fez o aniversário da sobrinha Bianca, que fez 9 anos, comemorados de forma diferente. No lugar de uma festinha, ela proporcionou às crianças amigas da Bianca uma noitada de pijama, com direito à excussão noturna pelo condomínio, às 23h, seguida de uma algazarra maravilhosa de 19 crianças em suas barracas de acampamento, devidamente armadas no salão de festas, animadas com a sessão de karaokê que rolou, até 1 da manhã.
A mana foi flor de Russélia, para sua filha, e para aquelas crianças, inclusive o meu JG, de 9 anos.
Atraiu coisa boa, atraiu luz, bênção e felicidade. E, a atitude Russélia dela fez com que ninguém quisesse ficar de fora daquela animação de festa. Uma experiência inesquecível para aqueles pequenos.

Podemos ser flor de Russélia, emocional e comportamental, para muitos.
Têm muitas pessoas que andam se sentindo cansadas e desanimadas com a vida e o viver, e podemos alimentá-las em nossa Russélia.
E, quando elas se abastecerem de nosso entusiamo, esperança e vontade de viver, deixarão a nossa presença mais fortes.
Pense nisso!
Se queremos atrair coisas boas, atrair pessoas, cultivar amizades verdadeiras, nos destacar em qualquer profissão em que atuemos, é preciso cultivar nossa Russélia interior.
Muita gente anda reclamando de que ninguém é mais amigo de ninguém. Tem até uma música famosa que fala esta estrofe.
Eu acho que não é bem assim.
Têm muitas Pessoas-Russélias por aí. Pessoas que você tem um prazer danado em conviver com elas, visitá-las, em ficar na sua presença e em ser abraçado por elas.
Pessoas que quando saímos da presença delas não temos como disfarçar o sorriso no rosto, a paz no coração e a energização de nossa alma.
Elas são como aqueles dispositivos que fornecem carga adicional ao nosso celular.

Lembram aquele guardador de carros que fez um ponte com engradados plásticos para uma senhora atravessar a enchente no Rio de Janeiro? Ele foi Russélia.

Então, quando nossa janela estiver sem vida, sem nada que nos faça nos sentir bem, quando nossa auto-estima estiver fraquinha, fraquinha, e sentirmos que as pessoas estão se afastando de nós, quem sabe não seja porque andamos muito rabugentos, reclamões e pessimistas?
Quem sabe não é hora de voltar a florescer!
Polinizando em nossos corações as emoções positivas: paz, esperança, amor, perdão, bondade, ternura e empatia; E os pensamentos positivos: amanhã será melhor, isto também passa, eu sou grato, eu tenho valor, vou conseguir, é só uma fase...
Quem tem um jardim dentro de si costuma ver jardins em todo lugar e atrair coisas boas que retroalimentam o processo.

Dinheiro Achado em Calçada (Autor Ricardo de Faria Barros)

- Bom dia Dona Expedita, guarde meu bolo de macaxeira viu? Na volta do mercado pego e quem sabe pago. rsrs.

Com esta frase, saudei pela manhã a Dona Expedita que comercializa seus bolos na calçada do Carrefour, na quadra 402-403, Asa Sul, aqui em Brasília.

Voltando das comprinhas, parei para a costumeira prosa. Dona Expedita estava super feliz.

Era por volta das 10hrs e já tinha vendido todos os bolos. E começava o apurado para a prestação do próximo mês.

- Oxente, que prestação é esta?

Aí, ela toda sorridente, falou que foi das compras que fez para o aniversário de 15 anos de sua neta.

Ela entrou com o aluguel das mesas, o fotógrafo e os salgados, e que só faltam duas prestações para quitar a dívida.

E que tira as prestações da receita com a venda dos bolos.
Expedita estava radiante por ter conseguido pagar os 632 reais ontem, mesmo que tenha pedido emprestado ao seu genro, os 30 reais que faltavam.
Mas que, "logo que eu chegue em Samambaia, eu pagarei a ele, com o apurado que terei dos bolo de hoje".
Aí, disse-lhe, então me dá mais um, para ajudar nos 30.
Contou-me que quando veio de Recife-PE para Brasília, há três anos, viu que tudo aqui era muito caro e que teria que ajudar nas despesas com a casa de sua filha, para onde veio morar.
A renda de um salário mínimo precisava de complementação, e ela era jovem ainda 72 anos, e tinha muita disposição para o trabalho.
Então, sonhou com a antiga patroa de Recife ensinando-lhe a fazer bolos: de rolo, de macaxeira e de milho.
Ao acordar, suspirou baixinho, e uma nuvem de lástima invadiu seu viver.
Ela não tinha nenhum recurso, naquele dia, para comprar mantimentos e fazer bolos, e tentar vendê-los pelas calçadas da vida do DF.
Todo dinheiro tinha sido investido no plano de saúde, remédios, e na ajuda das despesas de onde mora.
Naquela manhã, havia uma prestação para pagar na Polyele, de uma sandália que comprara.
Ela saiu de casa com aquele dinheiro contado, preso num clips junto à conta.
No caminho, pediu orientação a Deus de como sair daquele atoleiro e aumentar a renda.
Então, ao descer do ônibus, largado entre o lixo da calçada, boiando numa poça de água na sarjeta, havia uma nota de 50 reais. Toda esbagaçada, suja e molhada.
Suspirou mais uma vez, agora de gratidão e esperança, iria recuperar aquela nota.
Agradeceu o recado de Deus e enxugou e limpou a nota com esmero.
Animada, após pagar as sandálias, correu para comprar os mantimentos para o bolo de seus primeiros bolos.
Iria fazer uma receita que aprendeu com sua patroa, quando ainda morava em Recife.
Um bolo de macaxeira com lascas de coco ralado.

[pausa] Pense num bolo bom, multiplique por dois!

E, assim se deu o início da carreira de dona Expedita de micro, infinitamente micro-empresária.
Ela não tem tabuleiro, não tem um carro onde coloque no porta-malas, vive ansiosa com medo do guarda do Carrefour a expulsar da calçada, ou dos "home do Governo".
Traz seus bolos num daqueles carrinhos de feira, com duas rodas e um cestinho. E, todos os dias, volta pra casa com uns 50 reais de apurado líquido. Após vender seus vinte e cinco bolos, por 5 reais cada. Ela está "tirando" um salário mínimo, com os bolos, e agora tem um dinheirinho para investir num carrinho "tipo de isopor", e com rodinhas, pra trazer uns pudins.
Disse-me que aprendeu a andar de metrô. Antes tinha medo de se atrapalhar. E que a vida ficou melhor ainda, pois pode está em casa pelas 13hrs, almoçar com a neta, e fazer os bolos na parte da tarde, sem varar mais as madrugadas.
São assim os sonhos de dona Expedita, simples, profundamente humanos, sonhos de uma mulher que não deixou o desânimo sobre ela se abater.
Sonhava com o deslumbre da neta, em seus 15 anos, e realizou com o que tinha. Sonhava em poder pagar as prestações do empréstimo que fez, e está pagando.
Sonha em poder pagar suas contas, todo fim de mês.
Sonha em ajudar mais a sua filha.
Sonha com um segundo carrinho, para oferecer outros produtos.
Sonha em ser menos importunada pelos homens da lei, para que possa anunciar seus bolos sem medo.
Nesta sociedade, tão individualista e agressiva na qual vivemos, cruzar com uma dona Expedita faz um bem danado à alma.
Esta sim, é uma guerreira.

Uma mulher que não terceirizou seu existir. Que segue, valente lugar-tenente, desfiando as dificuldades do tempo presente.
Que aprendeu a alegrar-se com o que tem. E ainda assim, mesmo com pouco, poder proporcionar uma alegria à sua neta, e ajudar nas despesas da filha.
Que não se limita a um carrinho de bolo, ao querer ter o segundo, perseguindo este novo objetivo com afinco, e a cada manhã,
Que cumprimenta os transeuntes, que passam pela calçada em direção ao mercado, com um sorrisão no rosto, e a cada um deles deseja uma excelente manhã.
E ela assim o faz, mesmo que muitos passem por ela apressados, e a tenha como invisível, mesmo após um sonoro bom dia.
Expedita dá o que tem de melhor a quem por ela passa.
Despedi-me com um "até a quarta".
Aí, ela me perguntou porque só na quarta. Expliquei que é quando venho às compras para abastecer a dispensa com coisinhas que o meu filho, o JG (9 anos), gosta.
Então, ela me falou que vai me ensinar a fazer um salgado de forno que as crianças amam.

Uauuu, que linda! Ah! Mas, aí já será outra crônica.

Andamos tão indiferentes com a vida, tão ingratos, que não damos valor ao que temos. Não sabemos o que é todos os dias ralar um monte de coco e macaxeira.
Trabalho pesado. E depois cozinhá-las e comercializá-las, no corpo-a-corpo, sem ter nem onde sentar. E, sempre com um sorriso nos lábios, e com uma ternura para com todos cuja descrição não cabe num amontoado de letrinhas.
Quantos cinquenta reais existem em nosso viver? Largados numa poça de água, ali onde nem mais damos conta que ele existe? Nem mais percebemos a bênção dele em nosso viver.
Estão à beira da calçada de nossa vida, e com ele podemos nos reinventar, resistir, ser mais resilientes e esperançosos, do verbo esperançar e não do verbo esperar, no sentido de procurar nossas melhoras.
E, se para Dona Expedita a chance de fazer uns bolos, e melhorar de vida, foi aquela nota, quem sabe nossas chances não estão pertinho de nós, escondidas na sarjeta de nossa vida, que não mais as reconhecemos como importantes, por as termos sempre a mão.

- Podem ser nossos pensamentos e emoções positivas, que nos dão ânimo para o viver.
- Pode ser nossa saúde.
- Pode ser nossa família.
- Podem ser nossos amigos.
- Pode ser nosso trabalho.
- Podem ser nossa fé e comunidade espiritual.
- Podem ser nossos estudos e conhecimentos.
- Pode ser nossa parceira (o) afetivo amoroso.
- Podem ser nossos filhos e pais.
- Pode ser nossa experiência de vida.
- Pode ser nosso lar.
- Pode ser nossa liberdade de ir e vir.

São as tuas, e as minhas, notas de cinquenta. Vamos aproveitá-las para evoluir e deixar este mundo melhor do que achamos. Sendo o melhor que possamos ser para ao mundo, e não do mundo.

Quantas capacidades temos que são extremamente importantes para empreendermos nossos projetos de melhoria, tanto no aspecto de vida pessoal, quanto no profissional?
Vamos lá, é hora de se reinventar com o que ainda lhe resta, e não ficar chorando, e sem reação, ao contabilizar somente o que lhe falta.

Expedita deixa aquela calçada iluminada, todas as manhãs.
Expedita encontrou seu jeito de fazer a diferença, enquanto trabalha, ao se interessar pela vida de seus clientes e ao desejar-lhes sempre, e de forma calorosa, um bom dia.
Expedita não tem tempo, nem intenção, de ficar catando tristezas, pelos cantos de sua "Vida Severina".
Expedita, vive o momento presente, sabendo dar valor e bem investir o dinheiro achado em calçada.

E, quanto de dinheiro achado em calçada nossa vida está cheia, só que não mais prestamos atenção a ele, nem o valorizamos como tal.
Até que um dia ele nos venha a ter em falta.
É tempo de não se deixar adoecer pela onda de desânimo, desencanto e desesperança reinante. É tempo de subverter a natureza das coisas, e ousar construir as pequenas e vadias felicidades: aquelas possíveis, urgentes, necessárias e conscientes.
É preciso, mais que nunca, estar presente e aberto, todos os dias, à mística, mágica e maravilhosa vontade de viver.
É ela que todos os dias sussurra em nossos ouvidos: coragem, prossiga, tende bom ânimo, afinal,  "longe é um lugar que não existe" quando se tem esperança e amor no coração. 

Quer melhor receita pra uma longevidade feliz?

Do que a de também fazer bolos, como os que deram sentido à vida de Dona Expedita, no sentido figurado?






A Força Transformadora de um Joinha (Autor Ricardo de Faria Barros)

Desembarquei em Fortaleza pelas 18hrs. Aquele sobrevoo pelo litoral foi de tirar o fôlego, de tanta beleza, ao testemunhar os mil tons do sol, refletidos no oceano, para eles todo oferecido.
Dez anos depois, eu voltaria em Fortaleza, agora não mais a trabalho no BB, mas com a missão de palestrar no encontro de aposentados da Teleceará.
Ainda no Uber, já fui logo pesquisando opções de caranguejo, embora fosse uma terça-feira. É que reza a tradição de que são nas quintas-feiras que o bicho pega. Que é quando, em tudo que é barraca de beira-mar, o caranguejo de fato impera.
Fiz o check-in no hotel, e dirigi-me ao quarto para trocar de roupa e sair.
Mas, a porta não abria. Botava aquele cartão magnético, e nada.
Então, usei o velho truque, de friccioná-lo no cabelo. E pimba, como um passe de mágica funcionou.
Ufa.
Saindo do quarto, vejo um casal com cara de desamparo, também tentando entrar no quarto deles. Ofereço meus cabelos pra ajudar. E funcionou.
Cabelos magnéticos. rsrs
No outro dia, voltando do café da manhã, o mesmo aperreio. Não funcionou. Nem usando o truque do cabelo.
Deve ter desmagnetizado com a dormida. rsrs
Dirijo-me à recepção e conto meus traumas com a porta do quarto.
O moço, todo ouvidos, pergunta-me como estou usando o cartão.
- De que lado da seta o sr. está colocando?
Achei a pergunta bastante óbvia, mas logo respondi: "para baixo".
Aí ele falou, sorrindo, está errado, é com a seta para cima. E nas vezes que usou o cabelo deve ter acertado a posição, sem querer, e por isso funcionou.
Prestei atenção ao cartão e fez sentido, embora a seta deveria acompanhar o movimento de entrada no buraco da maçaneta da porta, que é pra baixo.
Mas, não era hora de discutir gestão de processos com a recepção, pois estava perto do início de minha palestra.
Fiquei pensando com meus botões o quanto de portas em nosso viver não estão se abrindo por estarmos inserindo o cartão de forma errada.
Lembre que esta seta, do cartão de acesso ao quarto, é como o polegar, aquele com o qual fazemos o gesto do "Joinha".
E, o polegar para cima, abre portas. De relacionamentos, de inovação, de produtividade e sentidos do trabalho.
Abre os portais do Capital Psicológico Positivo, nas suas quatro dimensões: resiliência, esperança, otimismo e autoeficácia.
O joinha pra cima é como o cartão de acesso ao quarto do hotel, colocado corretamente, ele destrava a maçaneta, permitindo nele se adentrar.
Quantas das vezes nossa postura interior, nossas atitudes e comportamentos expressam pessimismo, negatividade e excesso de rabugice e reclamação: os joinhas pra baixo.
E, no caldo da negatividade o desânimo toma conta de nós. E não mais conseguimos abrir as portas de novas possibilidades, alternativas ou cursos de ação, diante de algo que nos ocorreu, por ficarmos incapacitados de pensar saídas, presos numa teia de negatividade opressiva e doentia.
A postura positiva diante da vida nos habilita à sentir e expressar gratidão. A enxergar o que ainda nos sobra, no lugar do que nos falta. A enxergar o que ainda de bom ocorreu, no lugar de destacar o que de ruim aconteceu.
A postura positiva emancipa, expande e constrói a autonomia de viver, o protagonismo diante das situações.
Liberando energia transformacional para o enfrentamento de situações desgastantes e conflituosas.
Então, para nossa reflexão, será que algumas portas não estão se abrindo em nossa vida pela nossa postura diante delas, de nós mesmos, dos outros e até diante das circunstâncias?
Com certeza você já trabalhou, ou conviveu, com uma pessoa extremamente pessimista, ou não?
Daquelas que na reunião de trabalho, diante da proposta de um novo objetivo a ser alcançado, é a primeira que diz que não haverá como oferecer aquele resultado.
Ou que, quando algo sai fora do planejando, numa viagem de turismo, fica remoendo o acontecido, no lugar de procurar outras opções para ainda aproveitar o passeio.
O pensamento negativo é limitador da consciência. Ele derruba a energia emocional para enfrentar problemas ou encontrar outras soluções, ainda não pensadas.
O pensamento negativo, expresso nesta crônica como a setinha para baixo do cartão de acesso ao quarto, ou o não-joinha, fecha o campo de visão para destacar o que de ruim ocorreu, incapacitando uma abertura ao novo, ao que resta, ao que de bom ainda ocorre, apesar dos pesares.
Ter um bom capital psicológico positivo não nos torna alienados, nem tampouco bobos diante de situações difíceis pelas quais passamos.
Nem se cria um mundo cor de rosa artificiar para nele se habitar.
Nada disso. Os elementos deste Capital: esperança, otimismo, resiliência e autoeficacia são de onde vem a força e a coragem do bem viver.
Não se nega os problemas, doenças, aperreios, ao se fazer um joinha diante deles.
Mas, assume-se uma postura emancipatória de enfrentamento, vivendo a vida possível, e pela qual se vale a pena viver, mesmo apesar deles.
Destacando, valorizando e agradecendo o que de bom, belo e virtuoso ainda se tem.

O Risco Social das Autoverdades. (Por Ricardo de Faria Barros)


Imagine que uma pessoa, tua amiga, está no centro cirúrgico de um hospital, submetendo-se a uma operação, e você tem acesso a esta foto do texto, postada pelo médico-cirurgião dela, no exato momento que a opera.
Não. Não é fake. O médico existe, e deixou entrar uma quentinha no centro cirúrgico, saboreando-a, na boquinha, ao lado de um infeliz com o corpo aberto.
Perguntado sobre o surrealismo da cena, ele assim se explicou:
“Quando você está no auge da profissão, atendendo pacientes que vêm de fora do país para operar o nariz com você... Dai vem Deus, e com a fome lhe mostra que você é igual a todos...” Dr. Marcos Harter, cirurgia em 18.03.2019.

Isto é o reino da autoverdade. Autoverdades são sentenças que declaramos sobre nós mesmos, sobre os outros ou sobre a realidade, que não se deixam submeter ao crivo dos conhecimentos, em sua complexidade multirreferencial.

Você define que comer numa UTI, operando um paciente, é se mostrar um ser humilde e normal, e que não há risco algum da entrada de alimentos no campo cirúrgico, e pronto.
Vale a tua verdade.
Não importa centenas de tratados sobre o risco de infecções hospitalares, nem normas de conduta, nem tampouco as aulas sobre a ética médica.
E, os profetas das autoverdades têm seus seguidores.
Se você se der ao luxo de pesquisar os comentários sobre esta “singela” foto, verá que muitas pessoas defendem a atitude deste médico:
“Afinal, ele estava com fome!”
“Afinal, ele é gente como nós!”
“Afinal, não tem bactéria em comida que foi pra o micro-ondas”. (SIC!)

Na era das autoverdades, voltamos à idade média e perdemos capital intelectual de análise - sistêmica, vertical e holística.
E aí qualquer pessoa cria sua própria verdade, posta, e arruma um monte de seguidores que a compartilham, conseguindo novos seguidores.
A Humanidade está perdendo o senso crítico e a capacidade de avaliação, de algo que lhe ocorre, sub as luzes do conhecimento científico.
Os gurus da autoverdade dizem e fazem, o que pensam e o que querem, sem nenhum dilema, ou pudor ético, afinal eles têm seus seguidores, que autoalimentam em posts de reconhecimento às insanidades que afirmam.
Vejamos algumas, dos tempos atuais:
 Funcionário público é ineficiente.
 A terra é plana.
 Não houve o holocausto.
 Os negros têm menos capacidade cognitiva que os brancos.
 As mulheres são mais frágeis que os homens.
 Nordestinos tomam empregos de paulistas.
 Presos não se ressocializam.
 Índios são preguiçosos.
 Brasileiros nos EUA não têm boas intenções.
 O carnaval é um bacanal.
 Falar em camisinha aumenta a precocidade sexual.
 A gestão da diversidade aumenta os conflitos.
 Não há assédio moral, nem sexual, no trabalho, isto é invenção da ideologia de classes.

Então, caros amigas e amigas, como reverter esta cultura tão perniciosa das autoverdades?
Só tem um jeito. Fazer como o Iluminismo fez: visitando as enciclopédias. Ou seja, lendo, estudando, questionando e se abrindo a outras interpretações de mundo, fruto do acúmulo de conhecimento da humanidade.
Rompendo a bolha da autoverdade em que se insere.
Se você está numa bolha de autoverdade ela se auto-alimenta, protege-se, e cria as condições para que o mais absurdo dos julgamentos, das avaliações sobre algo, sejam de fato percebidas como verdadeiras.
Você só consegue crescer, em autonomia, justiça e ética, rebelando-se contra chavões simplistas de explicação da realidade, do tipo de uma lógica 0 e 1.

Comece perguntando-se assim: Não haveria como aquele médico ter comido antes da cirurgia? Não havia como deter o instinto da fome, diante de um trabalho que está fazendo? Não havia uma área mais apropriada para um lanche? Objetos não esterilizados que ingressam no centro cirúrgicos são portadores de bactérias?

Quando não tenho todas as respostas, desconfio de afirmações excludentes, totalitárias, que colocam todos no mesmo padrão de julgamento.
Então, faço perguntas. E vou em busca de outras fontes de conhecimento sobre o tema.
Isto vale também para as horríveis fake-news. Que viraram uma espécie de autoverdade digital.
Como a foto de um cachorro em meio a lama, associada à Brumadinho, e que nunca foi de fato tirada lá. Mas, queremos acreditar nela, e passamos a decretá-la verdadeira, pois ela atendia aos nossos desejos mais íntimos de solidariedade.
E, para finalizar, cuidado com tudo que começa com “Segundo pesquisas”, usado para defender uma autoverdade. Não esqueça que as pesquisas, dos cientistas contratados por Hitler, terem afirmardo que o tipo de curvatura do crânio e nariz determinavam a pureza da raça.
E olhe no que deu!

O termo "Autoverdade "fui cunhado e definido, do jeito que este texto lhe apresenta, pelo filósofo Zygmunt Bauman (+2017), no livro Vida Líquida, no qual ele denuncia comportamentos que estão arruinando com o sentido de coletividade e de humanidade, na pós-modernidade.

Não. Não é fácil ser mulher! (Autor Ricardo de Faria Barros)


Não. Não é fácil ser mulher! E é preciso ter muita coragem.

Coragem de andar em ônibus e metrô sem ser molestada.
Coragem de chorar em reunião da firma, frente a decisões que impactarão a vida de muitos.
Coragem de brincar com os meninos, sem ser tida como masculina.
Coragem para arrumar o quarto de um filho que se foi
Coragem de vestir azul, ou não gostar de rosa.
Coragem em não querer assumir qualquer dos papeis esperados dela pela sociedade machista e patriarcal, inclusive o de ser mãe.
Coragem de se reinventar, após romances nos quais se entregou de corpo e alma, terem ido para o brejo.
Coragem em chamar atenção para os aspectos subjetivos da gestão, em meio à tanta racionalidade fria e desumana no gerenciamento.
Coragem de criar os filhotes, e tocar  lida do lar, sem a justa divisão de tarefas com o cônjuge.
Coragem de trabalhar em funções similares, porém ganhando menos.
Coragem para dizer que às vezes cansa ser mãe, e que ela precisa de seu próprio espaço.
Coragem em levar o carro na oficina, e não ser ludibriada.
Coragem em tirar "a burca" e reivindicar direitos civis, sofrendo ameaças de morte.
Coragem de receber em seu apartamento e não ser tida como fácil.
Coragem de sair na noite sem perseguida como caça sexual.
Coragem de discutir a relação sem ser agredida.
Coragem em continuar sendo sensível num mundo de tanta insensibilidade.Coragem de denunciar todo tipo de violência ou exploração que sofre.
Coragem de lutar por melhores condições de trabalho nas senzalas urbanas, com seus minúsculos quartos de empregadas.
Coragem de se erguer após ser violentada, muitas das vezes por pessoas que gravitam perto do ecossistema familiar.
Coragem de buscar a ascensão profissional, sem ser assediada pelos detentores do poder.
Coragem de usar a roupa que quer, a maquiagem que quer, sem se importunar com gente que a quer encarcerar em suas próprias prisões comportamentais. 
Coragem em estimular e apoiar os filhos, quando todos já negaram-lhes o apoio.
Coragem de dizer que o não é não. 
Coragem de soprar uma brisa azul refrescante e rejuvenescedora, em meio ao deserto emocional dos tempos atuais. 
Coragem em teimar amar, teimar ter esperança, teimar perdoar, teimar ter gratidão e delicadeza, olhando a vida com um olhar de poesia, em meio à aridez de valores atuais da contemporaneidade.
Coragem de ser feminina e vaidosa, mesmo cansada após uma manhã de trabalho, ao pedir para repetir a foto: "Agora sem os óculos, para eu parecer mais bonita".  Como falou a Carla, a da foto, que nos atende tão bem no estacionamento do Deck Sul, na QI 11 em Brasília-DF, ao nos brindar com sua visão positiva, otimista e bem-humorada da vida.  Ela vende mais que café, vende esperança!

E são assim as mulheres avós, mães, filhas, tias, parceiras afetivas e trabalhadoras, são portais da coragem e com esperança elas estão na batalha ousando subverter a ordem reinante!

Cartas ao JG – Na vida, aprenda a se curvar, escutar, ver e agir. (Por Ricardo de Faria Barros, pai do JG de 9 anos)

Sabe filho meu, nesta noite de uma quarta-feira de cinzas evoco uma canção para escrever a ti:

“Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais
Brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas
Foi o que restou...”

Escuto esta canção do Vinicius e lembro que nesta tarde, ao dizer-lhe que precisava ir deixá-lo de volta na casa de tua mamãe, já que ficara o feriado de Carnaval todo contigo, tu me abraçaste, todo choroso, e resmungando falou:
- Ah! Não!
Aí, tentei te consolar dizendo que o próximo dia de nos veros está logo ali, na outra semana, e faremos tudo outra vez.
Queria te confessar que estou reaprendendo a ser pai contigo, e após separado de tua mãe.
E tem sido uma experiência incrível e cheia de novas descobertas, de mil possibilidades de afetos, a cada reencontro nosso.
Lógico que as pessoas não precisam se separarem para aprenderem a ser pais, ou mães.
Mas, o desafio de cuidar de você, por 5 dias seguidos, sem uma mãe por perto a me socorrer, fez-me correr atrás e aprender a maternidade da paternidade. Um materno-pai estou me tornando.
Este carnaval, como diz a canção, deixou muitas saudades. Fecho os olhos e escuto tuas risadas, com os yuotubers que assistia.
Tapo os ouvidos e olho tu chutando bola, num campo deserto. De longe tu avistas eu me aproximar de ti. E, todo sorridente, grita:
- Papai, você veio jogar comigo, mesmo com a perna inflamada?
Vim filhote, fico agarrando. Tu chutas bola e eu tento pegar.
E foi uma festa.
Este carnaval teus irmãos estavam fora do DF, ou noutros programas. A casa do tio Guga e tia Patrícia, lugar de encontros aconchegantes, também estava fechada, pois eles foram para João Pessoa.
Então, era eu e tu. Tu e eu.
E como foram dias bons. Cada um deles tinha sua própria rotina. Acordar cedo. Sim, eu e tu acordamos cedo.
Preparar teu café: pão com queijo derretido, iogurtes e uma fruta.
Depois saíamos, cada dia para explorar um lugar e algo diferente.
Pedalamos pelas quadras desertas da Asa Sul.
Fomos ao Carreira, pra tu correr no Kart, depois brincar de autorama e no simulador de F1.
Também pedalamos no Eixão, Parque da Cidade e no Parque da Asa Delta.
Nadamos, fizemos churrasco e jogamos bola, no campinho de grama sintética, na AABB.
Cozinhamos em casa, uma deliciosa bisteca de porco com acompanhamentos.
Vimos filmes juntos. Daqueles com efeitos especiais dignos de um óscar.
E rimos muito, ao sincronizar o celular, que acessava o youtube, com o som do carro, ouvindo e vendo os candidatos do Programa Ídolos desafinarem e levarem bomba. Cada bomba mais engraçada que outra. E tu dobrava de rir.
Era entrar no carro e começar nossa risadagem.
A bicicleta ia sempre no porta-malas, cujos banco de trás eu deitei para que ela coubesse sem aperreio.
Mas, a cada pedalada tu reclamava do barulho que dela vinha. Eu não entendo nada de bicicleta. Um ciclista, vendo que estávamos parados olhando para ela, com um olhar de sei que lá, sei que lá, sei que lá, assumiu o comando dos trabalhos.
E, com expressão profissional, condenou a corrente. Segundo ele, tinha sido soldada e fazia o barulho. Mas que tu podias andar nela. E que nada ocorreria, até ela torar de vez. (Sic!)
No Parque da Cidade tu levou uma queda, ao frear dentro de uma poça de água. E, ao voltar a andar, o barulho cessou completamente. Milagre da queda, pensamos!
Mas, tão logo parávamos em algum lugar, e voltávamos a andar, o barulho voltava. Teco, teco, teco, teco, a cada volta que o pedal dava.
Eu condenei o cubo, dizendo que podia tá danificado. Tu, condenava o “médico da bicicleta” para o qual tua mãe já tinha levado ela, com este barulho, e umas três vezes. “Na última, ele nem cobrou”, dizia tu, em expressão tristonha. Não por não ter cobrado. Mas, por não ter consertado.
Aí, fiz algo diferente. Abaixei-me para ver e ouvir de onde vinha o barulho. Girei a manivela da bicicleta, que tava de pernas para o ar, e fiquei com olhos e ouvidos atentos.
E pensei:
- Achei onde é o problema.
- É a face interna do pedal que está batendo na haste do descanso da bicicleta.
De pronto, tu saltaste de onde estava, e, assumindo o controle da situação, empurrou a haste mais para dentro do pneu.
Montou na bicicleta e pedalou. E abriu um sorrisão tão lindo, como a tanto tempo não via vindo de ti.
- “Papai, achou o problema!”
E achei mesmo. O descanso estava mal afixado, então, dependendo de como ele retornava da posição para tu pedalar, ele tocava no pedal, e fazia o som chato de teco, teco, teco.
Não era a corrente, não era o cubo, não era nada que justificasse 3 idas ao “médico de bicicleta”. Era um prosaico roçar de peças, mal alinhadas, entre si.
Sabe filho meu, na tua vida que apenas começa, haverá muitas situações como esta.
Situações que para enfrentar um problema terás que se ajoelhar, ouvir e ver o que de fato está ocorrendo ao teu viver.
Ao se ajoelhar tu se permites colocar-se numa posição de humildade, frente ao não saber. Além de se conectar com o sagrado.
Ao ouvir, tu emancipas teus pensamentos, permitindo que outros sons, que não sejam os de tua própria mente, bem estressada e confusa, adentrem em teu coração.
Ao ver, tu expandes a consciência para além daquilo que teimava ver, dentro de um modelo mental modelado pela força de hábitos e emoções limitantes: as correntes barulhentas.
Quando o problema estava no descanso e pedal.
Esta situação que ocorreu conosco, neste inesquecível e saudoso carnaval, nos ensinou muito.
Nada mais triste ao desenvolvimento humano do que a arrogância do saber. Uma pessoa arrogante não muda. Não se coloca numa posição de ouvir os outros, sobre seus próprios comportamentos e os impactos dele em si mesmo, na realidade e em quem convive.
A arrogância do saber, e seu irmão gêmeo, o orgulho do proceder, limitam o crescimento do ser humano.
O segundo ensinamento é do ouvir. Ouvir com todo o ser. Para dos sons escutados e interpretados, fazer conexões de sentido. Foi ouvindo de onde vinha o som que se descobriu ser do choque do pedal com o descanso. Saber ouvir é uma atitude que rareia, nesta sociedade tão falante, numa babel de monólogos individualistas em que vivemos.
Ah! Como é bom ter quem nos escute. E, melhor ainda, como é bom dispormos de tempo e coragem, para nos ouvir, a nós próprios.
O terceiro ensinamento, para o crescimento dos ser, é a capacidade de ver para além de onde achamos que está o foco do problema. É aquele olhar inovador, sem se deixar aprisionar pela armadilha das certezas, ou dogmas, e expandir o raio de visão, melhorando a compreensão do todo que nos rodeia, e de uma forma holística.
Num abaixar para ouvir e ver de onde provinha aquele ruído atemorizante, uma lição para nossas vidas!
Aparecerão pessoas em teu viver com este dom também. O de se abaixarem até teu mundo, te ouvirem e te olharem, e verem em ti, o que talvez nem tu enxergues mais, tua essência reluzente e destinada a ser mais. Eu tenho uma delas, "a tia" que te salvou neste dia.
É preciso ajoelhar, ouvir, ver, e por fim, aprumar o que está desalinhado em nosso viver, para voltar a pedalar de forma mais plena e feliz.
Acredite, filho meu, cada vez que isto ocorrerá em teu viver tu sairás para a vida com aquele mesmo sorriso gostoso no rosto, o sorriso dos sobreviventes!
Sobreviventes são todos aqueles que passam pelo teco teco teco, do atrito de coisas que tiram o movimento do viver, e as enfrentam. Tal qual você enfrentou aquela haste, de descanso de bicicleta, pondo-a no lugar onde deveria estar, e de onde nunca deveria ter saído.
Sabe filho, nunca se acostume com o que te faz infeliz, com os teco teco teco, sabe por que? Chamo a canção do Vinícius novamente para te responder:
“ Porque são tantas coisas azuis.
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe”.

Sim, quanto ao milagre da bicicleta, aquele da tua queda no Parque da Cidade, ele foi proporcionado pela posição que a bicicleta caiu, empurrando a haste do descanso para dentro do pneu, e acabando com o teco teco teco. Mas, não se iluda, também há outros milagres naquela queda. Mas, para vê-los, precisa ajoelhar, ouvir e olhar para dentro de si mesmo. E perceber que só estarmos vivos, após um baque que levamos da vida, já é em si um milagre. 

O segredo está no casco e na corrente. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Navio FRAM
Tenho acompanhado em vários espaços de meu viver: salas de aula, grupos de discussão temáticos, comunidades virtuais e até no seio da família, relatos sobre as condições atuais do mundo do trabalho, em muitos casos insalubres, do ponto de vista emocional.
Parece que a tal da modernidade, vida, amor e tempos líquidos, descritos como manifestações perversas da contemporaneidade, pelo filósofo polonês Zygmunt Bauman, também ocorrem no mundo do trabalho, e isto não me causa estranheza alguma.
Uma vez que o mundo do trabalho não é uma bolha, apartada da sociedade, e de sua cultura dominante.
Então, digo eu, vivemos também sob a égide do Trabalho Líquido.
Com pouco espaço para vinculação social, com relacionamentos voláteis, fragmentados, sem reconhecimento, criação de identidades e de senso de pertencimento. Relações laborais líquidas.
Então, esta falta de sentido no trabalho e de satisfação para com o mesmo, aumenta os riscos de adoecimento sofrimento mental.
Voltar das férias torna-se uma tortura. E o domingo à noite é carregado de melancolia.
Em alguns casos, escutar o simples tom de voz da chefia já faz aumentar o batimento cardíaco e a pressão sanguínea.
Em todo lugar você testemunha relatos de sofrimento psíquico no trabalho que são os efeitos colaterais de uma cultura de produtividade, eficiência, competitividade e ambição a qualquer preço e custo social. Alguns destes relatos beiram ao assédio moral.
Agrava a situação as incertezas do mercado, as equipes cada vez menores, a política de contenção de custos - na busca frenética por uma maior eficiência operacional - e a qualquer preço, precarizando mais ainda o ambiente laboral. Soma-se a este quadro as metas cada vez maiores, as pressões de todos os lados, inclusive dos reguladores, uma chefia despreparada para liderar pessoas, usando o chicote, no lugar da palavra. E, diga-se de passagem, pessoas não gostam de chicotes, "porque gado a gente tange, mas com gente é diferente". (Música disparada)
Nestas horas, nada melhor de que se inspirar em fatos históricos para criar couraças e sobreviver.
Vou contar para você que porventura está passando por uma situação assim no trabalho dois épicos da navegação mundial.
O primeiro deles foi a conquista do Polo Norte (Mar Ártico), por Fridtjof Nansen, usando para a missão o navio Fram, em 1896.
O segundo navegador fenomenal foi o Shackleton, com o navio Endurance, que tentou a conquista da Antártida (Pólo Sul).
Sobre o segundo navegador muito já se falou. Há livros e até um filme. Ele é descrito como um exímio líder e sua trajetória é épica, culminando com sua chegada e de seu grupo, em 1916, após dois anos de luta na Antártida.
Mas, este texto não é sobre navios. É sobre a capacidade de resistir a pressões e de como isto faz a diferença no sucesso de uma travessia, de uma jornada.

O Navio Fram, do comandante Nansen, foi projetado para boiar sobre o gelo. O casco foi meticulosamente arredondado, as quilhas erguidas e o leme adaptado. De modo que quando as massas de gelo o pressionassem, ele seria erguido sobre elas. Ficando ali, ancorado no gelo, esperando que ele derretesse, e voltasse a navegar. Esta técnica possibilitou que por longos cinco anos o Navio Fram resistisse a todo tipo de investida dos blocos de gelo, e pudesse voltar pra casa, trazendo toda a tripulação.

Já o navio Endurane, do comandante Shackleton, tinha o casco reto. Embora fosse um navio bem mais potente do que o Fram, tando em espessura do casco, como motor e quilhas, ele foi projetado para cortar e navegar pelo gelo solto, com casco reto. E não para ser aprisionado pelo gelo, com casco abaulado.
Então, quando uma grande nevasca empurrou o Endurance como um sanduíche, por entre duas placas de gelo, elas o espremeram, qual esprememos um limão pra caipirinha. E, o casco rompeu, e o Endurance naufragou. Obrigando sua tripulação a sobreviver puxando os botes salva-vidas pelo gelo, numa épica história.
Uma outra coisa também foi fundamental para o Nansen conseguir a proeza da conquista do Pólo Norte.
Ele teve uma sacada quando viu restos de um navio, que chegavam às praias da Groelândia. Era um navio norte-americano chamado de Jeanette. Ora, para aqueles restos estarem ali, ele só poderiam ter vindo ao contrário de onde todos estavam navegando. Ele intuiu que todos estavam navegando contra esta corrente submarina. E que o segredo do sucesso seria se deixar levar por esta corrente.
E ele estava certo. Embora escutou poucas e boas de todos, inclusive que era maluco
De fato, as correntes e ventos, achados por ele em determinada posição do Ártico, foram fundamentais para que pelo ritmo da própria natureza o navio, sem gastar um litro seque de combustível, cumprisse seu objetivo, apenas aproveitando as forças das correntes e ventos.
Então, caros amigos e amigas que enfrentam ambientes de muitas pressões, tensões e coisas chatas do mundo do trabalho, há duas posturas que aumentam a resistência, deste tipo de navegação que enfrenta.
Ambas, retiradas da epopeia do Nansen e de sua embarcação Fram.
A primeira delas, a de trabalhar o casco. A arredondando-o para que ele possa aproveitar as forças do meio, erguendo-se sobre elas, no lugar de ser esmagado, como o Endurance.
Arredondar o casco é cultivar a flexibilidade de pensar, sentir e agir, é buscar convergências, é se adaptar mais rápido e de forma melhor, ás mudanças de situações, contextos e cenários. É cuidar do tecido emocional. Buscar apoio na espiritualidade. Nos esportes, amigos, em algum hobbie, fazer yoga, tai chi, meditação, caminhadas contemplativas, o que seja que possa fortalecer o couro emocional, o casco, arredondando-o.
Cascos retos batem de frente. Cascos redondos desviam a violência do ataque, e com a força do próprio opositor se defendem, como nas milenares artes marciais orientais.

A segunda delas, e aproveitar a corrente. Nunca ficar de frente a ela. Aproveitar a corrente significa extrair o que ainda de bom tem na relação com o trabalho, e potencializar o olhar sobre isto.
Aproveitar a corrente é não dar murro em ponta de faca, é não passar recibo, é fazer uma terapia paliativa de convivência com pessoas más, colocando sempre, após o contato com elas, esparadrapos emocionais para não infecionar o ferimento na alma - tão próprio da lida diárias com pessoas pequenas, inclusive chefes tiranos. É saber usar a força da onda para nela surfar.
Aproveitar a corrente é redirecionar a raiva para algo produtivo. Para melhorar a relação com o cliente, e obter dele o sentido do trabalho que anda carente.
Aproveitar a corrente é encontrar o que ainda te seduz, te faz feliz e te inspira, no mundo do trabalho, e dizer pra si mesmo que quanto ao demais: isso também passará e amanhã será melhor.
Enquanto os mares andam bravos e ruins de navegar, que tal cuidarmos de arredondar o casco, e de melhor aproveitar as forças das correntes?

Aposentado sim! Inativo nunca! (Autor Ricardo de Faria Barros)


Você que me dá a honra de parar o que está fazendo para me ler poderia responder a uma pergunta?
Quais seus objetivos para realizar dos 70 aos 100 anos de idade? Podem ser pessoais, familiares, profissionais, culturais, acadêmicos, esportivos, sociais e até espirituais. O que seja. Se eu te fizesse esta pergunta há vinte anos atrás você diria que a pergunta era absurda.
Mas, eu aposto que você conhece alguém que já fez oitenta anos.
Estamos vivendo uma revolução dos modos de ser, fazer e acontecer da velhice. E é um fenômeno mundial. Só a título de exemplificação a PREVI, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, já tem em seus quadros 67 aposentados com mais de 100 anos. (jan. 2019). Tendo inclusive de atualizar suas tabelas atuariais prevendo este aumento da longevidade de sua base.
Este movimento de reinvenção do ser idoso tem sido chamado de Os Novos Velhos. E, da mesma forma que eles puxaram, do alto de seus 20 e pouco anos as revoluções culturais e civis, das décadas de 60-70, agora eles puxam a revolução da negação da inatividade.
Uauuu!!!
Passaram a estudar novamente, praticar esportes e hobbies, passear e produzir. E estão dando um show de longevidade ativa.
Lógico, que nem todos acompanham no mesmo ritmo, é mudança cultural, e ainda têm os que se consideram "aposentados", que desistiram de continuar assombrados e encantados com o viver.
Na mitologia grega tem um conto muito legal, sobre a esfinge de Tebas que costumo usar para ilustras esta revolução. A esfinge era um monstro alado com corpo de mulher e leão que afligia a cidade de Tebas. Ela ficava no portão de entrada da cidade. E apresentava aos viajantes o seguinte enigma: “Que animal anda pela manhã sobre quatro patas, a tarde sobre duas e a noite sobre três?”
Até Édipo, nenhum andarilho conseguiu escapar sobreviver à Esfinge, respondendo corretamente o enigma, e eram por ela estrangulados, daí o nome Esfinge. Édipo, contudo, acertou e foi poupado.
Ele respondeu assim:
É o Homem — que engatinha como bebê (manhã) , anda sobre dois pés na idade adulta (na tarde), e usa uma bengala quando é ancião (noite).
Nos tempos atuais, esta resposta está no mínimo incompleta. A bengala não pode mais ser caracterizada como a fase da velhice. Embora, seja muito útil em muitos casos. O que está ocorrendo é que esta bengala está se transformando num cajado. E, quem porta um cajado, conduz a si mesmo, e aos outros, em busca de um novo amanhã, de novos sonhos, objetivos e realizações a conquistar.
"Os Novos Velhos" estão saindo de uma posição de incapacidade, vítima, de finitude, e de adiamento de projetos de vida, erguendo suas bengalas, tal qual cajados, e partindo em busca de realizar algo, alcançar algo, sonhar com algo. Igual a quem porta um cajado e segue jornada adiante.
Portadores de cajados têm esperança, otimismo, vitalidade, ânimo e não se cansam em voltar a se encantarem com a vida, ao se assombrarem a cada amanhecer. Quem ergue um cajado tem um propósito, tem uma meta, um alvo e uma missão a perseguir. Não deixou-se adormecer.
As pessoas que ingressam hoje nos sessenta anos enguem suas bengalas ao alto. Fazem com elas cajados. 
Acreditam que não é tempo de se considerarem “inativas”, nem tampouco de retornarem aos aposentos para viver a vida “esperando a morte chegar”. Em todo mundo uma energia grisalha está impulsionando novos hábitos, comportamentos e práticas sociais da velhice. E redescobrem a juventude: de emoções, pensamentos e atitudes positivas diante da vida.
Junte-se a nós. Não é hora de se achar encostado. Há conhecimentos ainda a aprender. Pessoas a encontrar. Lugares pra visitar. Coisas pra fazer. Situações a experenciar. Realizações a oferecer. Propósitos pelos quais lutar. Nada de achar que está descendo a ladeira da vida. É o contrário, agora sobe-se ao cume, local onde só os grandes de alma chegarão. E que, lá de cima, tudo faz mais sentido.
Obs: Quem quiser comprar livro sobre o tema, visite meu post dos Escritores da Comunidade.

Inspiração (Autor Ricardo de Faria Barros)

Uma coisa comum nos tempos atuais são os youtubers.
Youtubers são geradores de conteúdo em mídia digital. Pessoas que possuem canais no Youtube e neles compartilham um monte de coisas.
Tem para todos os gostos.
Eu sigo três deles que me são muito inspiradores. São verdadeiros diamantes.
O objetivo deste texto é mostrar o quanto pessoas podem ser inspiradoras, só com seu jeito de viverem.
E, convenhamos, os tempos andam bicudos de pessoas que nos inspiram ao melhor de nós mesmos, não é verdade?
Eles são Marcelino Colantino, natural de Bom Conselho-PE, o Alexandre Lins, natural de Itamaracá-PE, e a Veridiana Heninguer, natural de Mafra-SC.

Mas, o que eles têm em comum?

Um altíssimo nível de capital psicológico positivo. E, toda vez que eu encontro alguém assim eu louvo a Deus.

Descobri que tenho vocação de colecionar pessoas inspiradoras. Admirá-las em seus belos vôos existenciais. Contemplar suas jornadas, e como reagem nas situações cotidianas, em vidas não editadas. Até hoje eu fazia isto de forma presencial. Mas, o estilo dos vídeos postados pela minha trinca de ouro permitiu eu acompanha-los em seu dia a dia. E, a cada vídeo deles, feito com tanta simplicidade e autenticidade, sem roteiro, armação, ou texto ensaiado e teatralizado, eu ia me inspirando mais e mais.
Você deve conhecer algumas destas pessoas também, não é? Pessoas autênticas e que tem o dom de saber degustar a vida por inteiro.
Sabe aquela pessoa que está sempre de bem com a vida, seja dia cinzento, seja manhã radiante? É uma pessoa inspiradora.
Sabe aquela outra que quando tudo está dando errado é a primeira que chama todo mundo para correr atrás do prejuízo e transformar alguns limões que restaram, numa deliciosa limonada? É uma pessoa inspiradora.
Sabe aquela que perto dela a paz reina. Que nos dias em que se sente mais agitado, ao cruzar o caminho com ela, você volta para casa que nem um monge budista? É uma pessoa inspiradora.
Sabe aquela pessoa que pega uns três ônibus para o trabalho, que ainda deixa filhos na escola, que faz uns bicos para complementar a renda, e que no trabalho é só motivação e qualidade em tudo que faz, e que ainda estuda à noite para subir na vida? É uma pessoa inspiradora.

Observar e se inspirar em pessoas inspiradoras nos faz crescer. Aprendemos muito com elas. Mas, exige de nós uma atitude apreciativa positiva para com o outro. Uma atitude de atenção e admiração do jeito dele ser. Exige que deixemos de lado a inveja, a cobiça, e a atitude de secar a felicidade alheia. Ou não vibrar com as conquistas e jeito exitoso do outro ser.
Exige humildade de querer aprender com ele, só observando-lhe nas situações rotineiras. E, digo-lhe uma coisa do fundo de meu coração. Meus melhores aprendizados na vida não foram nos livros. Foram com estas pessoas.
Quais são minhas novas pessoas inspiradoras? O que elas têm de especial?

Eles se chamam Marcelino Colatino, Veridiana Heninguer Alexandre. No final deste texto colocarei os links de seus canais no youtube. Em todos há uma forte incidência de pelo dois dos componentes do capital psicológico positivo: otimismo, esperança, auto-eficácia e resiliência.
Em comum entre eles, o fato de terem atitudes incomuns, que os diferenciam.

Que tal conhecê-las pelo meu olhar? E com elas se inspirar? Depois de ver mais de cem vídeos dos três, creio que já posso fazer uma descrição melhor do que aprendi com eles, e passar para vocês.

CANAL MARCELINO COLATINO - Auto Eficácia e Resiliência

Marcelino, o agricultor e piscicultor, tem como ponte forte dois elementos do capital psicológico, a auto-eficácia e a resiliência.
Auto-eficácia é aquela crença, ou disposição de ânimo, que nos faz acreditar que somos capazes de com nossas próprias capacidades fazer algo, cumprir uma meta, correr atrás de um objetivo. Esta virtude, a auto-eficácia, nos motiva e mobiliza a ser inovadores, criativos, curiosos e eternos aprendizes da vida e do viver.
A lida do Marcelino é assim. Ele está sempre aprendendo e ensinando algo. Na sua roça é quase um Professor Pardal. De dois carreteis plásticos, daqueles de enrolar fios de energia ou telefone, ele constrói uma moenda de caldo decana. De um resto de máquina de lavar, ele faz as pás de um cata-vento de puxar água para oxigenar os tanques de tilápia. Sim, o cata-vento também foi ele quem fez.
Além de fabricar tudo, o Marcelino é pura paz. Vê-lo é como entrar escola da vida, na disciplina paz e mansidão.
E, não é uma paz passiva, é uma paz que passa segurança em acreditar que as coisas podem mudar, que se pode fazer algo de uma forma melhor.
Marcelino também tem a resiliência como marca pessoal. Ele não desiste. Testa uma vez um invento, testa duas, testa três. Matuta, pensa, observa, conversa com um, com outro, e pimba, acha a solução do invento. Correndo por fora, e nos inspirando muito, tem a relação dele com a Jeane, sua esposa já com 24 anos de casado. A Jeane é inspiradora também. Ela dá uma verdadeira aula de como ser companheira. E acompanha o Marcelino em tudo. Aliás, este casal tem a receita da felicidade a dois: admiração, apoio, interesse e cuidado um para com o outro.
Marcelino não reclama da vida. Ele procura razões para ser feliz, em cada lugar de sua chácara e família e amigos. Se o peixe não está de bom tamanho, por falta de oxigenação, ele fala: “vou fabricar um novo oxigenador, na próxima vez eles crescerão mais”.
Se a safra não foi como esperava, ele fala: “Da próxima vez vou cuidar melhor”. Sua marca é a crença que o amanhã será melhor. Ele não é de desanimar. Se algo quebra, ele pensa uma forma de consertar. Mesmo que não existam as peças. Ele as fabrica. Marcolino, de seu jeito, quando não tem caminho, ele o cria. E de seu jeito.
Quando vejo os vídeos do Marcelino sinto uma paz tremenda. Sua voz é meiga, calma, quase um cantar. E, saio mais forte para também acreditar que com meus próprios recursos posso entregar resultados, é só não desanimar, ousar, inovar e influenciar na rodada do carrossel do destino da vida. Marcelino encontrou um jeito de fazer a diferença ao existir: a mansidão.  Veja um dos vídeos do canal aqui:
Marcelino, em suas invenções.  

CANAL PAKITA BR15 (Veridiana Heninguer) - Otimismo e Resiliência

Veridiana é caminhoneira. Ela faz longos percursos, levando mercadorias do Sul para o Norte e Nordeste. Ela tem como tem como ponte forte dois elementos do capital psicológico, o Otimismo e a Resiliência.
Mesmo depois de enfrentar 3.000 KM de estrada, dirigindo uma pesado caminhão de Norte a Sul do Brasil, a Veridiana, conhecida no seu canal como a Pakita, não perde o otimismo. E, na Pakita o otimismo tem nome e sobrenome: Sorriso Grátis. Ela está sempre sorrindo e desejando a todos a proteção de Deus.
Não tem tempo ruim, buraco, trânsito, ou demoras nos postos fiscais que a tirem do sorriso.
O ponto alto de seu otimismo é quando no posto onde para tem chuveiro. Engraçado que as pessoas inspiradoras conseguem extrair de coisas simples, do cotidiano, verdadeiros oásis de felicidade. A Pakita é assim. Ela extrai bênçãos e alegria do simples fato de ter um lugar para tomar banho. E fica radiante. Mas, quando não tem, ela não entristece. Ela pensa assim: “no próximo posto credenciado tomarei banho”.
Mesmo que ele esteja a 400 KM de distância.
Aqui, revela-se outra característica nela que é oriunda do capital psicológico positivo, que é a da resiliência. Esta capacidade de não desanimar diante das dificuldades que aparecem no trabalho, e mesmo com elas, ou apesar delas, continuar entregando resultados.
A Veridiana está sempre procurando razões para ser feliz. E sorri abundantemente com elas. Seja nos dias que passa com sua filha, que faz medicina em Buenos Aires, e que só a vê anualmente. Seja ter conseguido achar uma borracharia que trabalhe com os enormes pneus de seu caminhão Scania. Seja indo com amigos caminhoneiros almoçar numa das cidades em que descarregam. Não importa, tudo é motivo de otimismo, traduzido em fartas doses de sorriso sincero. Vê-la fazendo o checklist antes de partir, batendo os pneus, checando as conexões, e parte elétrica é rejuvenescedor para quem trabalha. Pois destes simples gestos exalam o sentido do trabalho e o amor pelo que se faz. Se nos vídeos do Em Marcelino corre o DNA da paz. Em Pakita é a felicidade. De ser quem é, de fazer o que faz, sendo o melhor para o mundo, e não do mundo. Pakita encontrou um jeito de fazer a diferença ao existir: o de sorrir.
E olha que ela é trabalhadora de uma das profissões mais estressantes do mundo, além de perigosa e sujeita a desgastes físicos e longas ausências de casa, e dos seus.
Mas, ela não reclama em nada. Pelo contrário, faz da lida no caminhão um espaço de diversão. Sorri até com ela mesma. Ela acorda e decide, com o seu bom dia, que será um bom dia.
E tudo se transforma em bom, belo e virtuoso, com a força do pensamento e emoções positivas dela.
Veja um dos vídeos do canal aqui:
Veridiana, no caminhão.

CANAL MAMUTE ALEXANDRE LINS – O PESCADOR CANTOR (Esperança e Resiliência)

Alexandre, o pescador-cantor, tem como apelido Mamute. E possui como ponte forte dois elementos do capital psicológico, a esperança e a resiliência.
Acordando todos os dias nas madrugadas, mas madrugadas mesmo, ele e seu inseparável parceiro de pescaria, o Juruba, partem numa jangada bem simples, a Nayhara, para a imensidão do mar sem fim.
Durante horas, impulsionados por um pequeno motor de popa, e uma modesta hélice, eles adentram até alto-mar, para resgatar seus covos.
Covos são uma espécie de caixotes cujo interior tem uma armadilha para peixes. Alexandre é quem fabrica os deles.
Para o Mamute não tem dia ruim. Não tem dia de chuva, de ventania, de sol inclemente, ou até de falta de peixes nos covos.
Para ele, tudo é gratidão em existir.
Mamute exala esperança. Ele nãos e cansa de dizer que pescador vive de esperança. E, naqueles dias em que não pesca nada, solta um refrão impagável: “também não coloquei nenhum...”
Ou seja, tudo é de graça, dado por Deus. É assim que ele pensa.
Sempre que um covo vem vazio, ele acredita que no próximo vai melhorar, e dá para pagar a “lambaca”. Que seria as despesas e algum lucro no dia.
No próprio barco, já cansado e voltando, após mais de 5 horas mar adentro, ele cozinha seu almoço-jantar, num tosco fogão de lenha, improvisado numa lata de tinta, e numa caçarola.
Ali, ele faz o que chama de atoleiro. O atoleiro é uma caldeirada de peixe, depositada sobre uma massa grossa de pirão, feito com seu caldo.
Mamute tem esperança. Esperança de conseguir uma jangada maior e melhor equipada, que chamará de Mina Minha. Esperança de uma vida melhor, e a cada dia ele se alimenta disto.
Usa sempre uma expressão: “Chama na Calanga”. Que, segundo ele mesmo me ensinou, significa: “Fé. Nunca desistir, mesmo nas dificuldades. E, sempre seguir em frente com positividade.” São palavras do próprio Mamute. Para mim, esta frase dita por ele, é a pura expressão da esperança.
E, ele fez isto com sua própria vida. Ele disse para si mesmo: “Chama na Calanga, Mamute”, quando tragicamente perdeu um filho de 21 anos, que se sentiu mal mergulhando e veio a óbito.
Ver os Mamutes pescando é fazer uma amizade com a esperança. Outro dia, percebi também que além da esperança ele tem muita resiliência.
Não sem razão, a resiliência perpassa a história de vida das três pessoas inspiradoras que lhes apresento.
O barco dele quebrou, distando uns dez quilômetros da costa. Aí, ele pulou na água e passou a nadar, em direção à praia, numa cena de impressionante coragem e determinação de vencer aquela dificuldade. Nadou um bocado, até conseguir chegar mais próximo da costa, onde chegou o sinal de celular. O barquinho do Mamute não tem rádio comunicador. Aliás, mal tem um barco ali. rsrs
A pobre da Nayara é muito acanhada, como embarcação.
Mas, Mamute a ama. E a trata com muito respeito. Todos os dias ele carrega 90 quilos, para deixa-la mais bonita e formosa. É o motor e a haste com a hélice que ele tira e bota, todos os dias. E aí Nayara fica turbinada. Mas parecendo uma voadeira.
Outro dia ele ficou sem sua rabeca, a haste que liga o motor à hélice.
Ainda bem que ele ainda conseguiu chegar na costa, mesmo que a hélice sem conseguir muita transmissão com a rabeca, ele veio navegando de volta e chegou.
Na praia, avaliou as avarias e em nenhum momento ele passou desesperança de consertar seu barco.
Pensou que talvez devesse levar a um soldador, ou que conseguiria uma outra, a um preço dividido.
Quem tem esperança age assim. No lugar de ficar chorando o azar, a pessoa esperançosa vai atrás da sorte.
Acho lindo quando ele diz assim: “Mamute não chora, nem choraminga. Mamute é guerreiro...”
É ou não é uma declaração de que “isto também passa”. E o amanhã será melhor?
Mamute também tem esperança de ser um cantor reconhecido. Já gravou um CD, e embalado por suas canções, vamos vendo suas desventuras e aventuras no mar.
Ele tem esperança de estourar numa rádio. E, com as vendas dos CDs conseguir mais alguma melhora para sua família.
São assim os sonhos de vida do Mamute Alexandre Lins – O pescador cantor. Cheios de esperança, mas de uma esperança ativa. Daquelas das boas. Daquela de quem madruga pra fazê-la acontecer!
Gosto de ver também, e me inspira, a gratidão do Mamute com as coisas de Deus.
Com o sol que nasce, com o sol que “vai para o Japão”. Com os peixes que pesca, com os peixes que solta no mar. Com o Juruba. Com os seus expectadores. Nunca esqueci quando ele parou tudo que estava fazendo, e por mais de duas horas puxou uma rede à deriva em alto mar. A rede não lhe pertencia. Mas, ele sabia que ela estava fazendo falta a algum pescador. E que podia devolve-la. A luta dele, sozinho neste dia, para puxar tamanho peso, já cheia de sargaço, foi digna de uma crônica só para isto. E conseguiu. A pobre da Nayara ficou cheia com a rede, que na verdade eram duas.
Dias depois, o proprietário da rede apareceu na casa dele, e resgatou seu bem valioso.
E Mamute faz isso sem pedir nada em troca. Ele é bom por ser bom.
Ele é esperançoso em tudo que faz. Ele me ensina muito, todos os dias quando sai para o mar.
Ensina que a vida é a arte do encontro, embora existam tantos desencontros. Encontro do homem com o mar, com o trabalho, com a disposição de querer ser mais e oferecer algo de melhor a sua família.
Ensina a ter esperança.
E, se for o caso, quando tudo negar ser esperançoso, saber agir para que dias melhores apareçam, nem que seja carregando a esperança pelo dorso, como quem puxa uma jangada de volta pra casa.
Mamute é ou não é uma pessoa inspiradora?
Veja um dos vídeos do canal aqui:

São três brasileiros comuns, com atitudes incomuns. Atitudes de quem aprendeu com o mais importante da vida, o valor do trabalho, o valor de quem se é, o valor do outro, tudo isto embalado com otimismo, esperança e auto-eficácia, tendo a resiliência como disposição e ânimo diária.

São pessoas assim que a vida manda para nos ensinar algo e nos fazer crescer. 

O Ciclo das Flores e da Vida (Autor Ricardo de Faria Barros)

Jovem Espartódea, de perto aqui de casa, Brasília-DF.
Quem anda pelo Plano Piloto de Brasília, nome que damos ao formato do avião da Cidade, deve ter notado que as flores da vez são as vermelhas-alaranjadas e as rosas-brancas.
As primeiras são das Espartódeas, a segunda da Paineira-Rosa.
Por aqui é assim. É só prestar atenção que têm flores todos os meses.
Recentemente, foi a vez era dos Cambuís e das Canafístulas, com suas copas amarelas tão lindas. Existem mais de 800 deles por aqui, tem uma época que tudo vira amarelo-ouro.
Já houve a época das flores violáceas dos Jacarandás e das Quaresmeiras.
E têm as árvores que suas folhas ficam coloridas de um rosa-carmim, são as Sapucaias. Estas, são de babar e parar o carro para fotografá-las, bem comuns no Eixão Norte, e aqui na varanda de meu apartamento também.
Têm as flores delicadas e branquinhas-carmim das Cagaitas. As da cagaita são um mimo só. Considero-as as cerejeiras do cerrado.
Têm os gramados repletos de plumas de painas branca, convidativos para um repousar sobre eles.
Tem o vermelho fogo das flores dos flamboyants.
E, como que a emoldurar isto tudo, têm os ipês branco, rosa e amarelo, que alternadamente começam a florir, pelo meio do ano.
As flores e seus ciclos nos ensinam muito. Já pensou se todos florescessem ao mesmo tempo? E não é assim. Há flores para todas as épocas do ano.
Basta capacitar o olhar para achá-las.
Basta não modelar a mente apenas para procurar os famosos ipês.
E verás flores por todo lugar.

Assim como as estações das flores, nós também temos nossas próprias estações - só que as existenciais.
Estes estados de florescimento e murchamento do ser fazem parte do existir,
O que precisamos tomar cuidado é quando estamos num estado de pouco florescimento.
Tomar cuidado para não generalizar. Mais ou menos assim, esta época do ano Brasília fica sem flores, agora é esperar os ipês.
Cuidado, você não está vendo outras flores, porque teu olhar estava acostumado com as copas amarelas dos Cambuís, e com as floradas estonteantes dos Ipês.
Então, tua vista não percebe mil e uma outas espécies de flores, que passam ao largo de teu viver.
Pois, quando achamos que nosso canteiro de flores murchou, tendemos a olhar apenas para elas, as flores que já se foram.
E aí perdemos capacidade emocional de perceber as outras, que ainda nos restam.
Talvez não tão exuberante, mas, mesmo assim, belas e bênçãos.
Quem mexeu na flor de meu emprego? Cadê aquele buquê tão lindo de minha carreira?
Quem pisou na flor de meu relacionamento? Onde está aquele viço de antes?
São exemplos de flores existenciais que murcharam. Que cumpriram seu papel, seu ciclo vital, e que já não mais exibem a exuberância de antes.
Outros podem dizer, e cadê a flor de minha saúde, antes tão vistosa?
Outros ainda, podem se sentirem incomodados com as marcas da idade, e perguntarem sobre a flor de sua beleza física.

Acolher que algumas flores de nosso viver já não são as mesmas é sinal de inteligência emocional.
E, aprender a olhar as outras flores que brotam noutros canteiros é sinal de sabedoria.

Quando lhes faltarem os ipês, preste atenção nas cagaitas. Quando lhes faltarem as cagaitas, preste atenção nas quaresmeiras.
Quando estamos muito mexidos, pelas aflições e preocupações, é preciso levar nossos pensamentos e emoções para os canteiros floridos da alma.
E, quais são as flores deste canteiro, cujas sementes podemos plantar em nossos pensamentos?
A verdade. A nobreza de caráter. A justiça. A pureza interior, com sua capacidade de continuar a se assombrar com a poesia de cada amanhecer. A amabilidade, ou amorosidade, para com os outros - sem distinção e preconceito. Tudo aquilo que for do reinado do bondoso, do generoso, da solidariedade. E, aquelas coisas pelas coisas nos sentimos gratos por existirem e louvamos a presença delas. bom, e despertar bons sentimentos. e o que seja digno de louvor. (Filipenses 4,8).

Digo-lhe que, por mais arrasados que estejam os canteiros floridos de teu coração, mesmo assim, se prestar atenção direitinho, verá ainda belas flores Maria Sem Vergonha, teimando em florescer à margem de teu viver.
Pode ser presença dos amigos que não te faltaram.
Pode ser um parceiro de jornada.
Pode ser estar empregado.
Pode ser ter conseguido se aposentar.Pode ser o acesso médicos e medicamentos para enfrentar doenças severas.
Pode ser os filhos vivos ainda.
Pode ser os pais vivos.
Pode ser a dor ter passado, o remédio ter funcionado.
Pode ser que o chefe se transferiu.
Pode ser ter um gerente bacana.
Pode ser ter um lugar para voltar.
Pode ser poder dormir a cabeça num lugar pra chamar de seu.
Pode ser poder pagar o aluguel.
Pode ser ter gás pra cozinhar.
Pode ser ter ainda uma sardinha para comer.
Pode ser ver, ouvir, sentir, andar, respirar e estar vivo.
E, por que não?
Há flores mais floridas do que o simples fato de existir?
E, quantas existências de sentido só começam mesmo, após terem perdido muitas flores, de seus canteiros centrais.
Aí, passam a cultivar as flores aonde podem ainda, com as sementes que lhes sobrou, e não é que são mais belas ainda?
Fica a dica, não ponha toda tua esperança, vigor e ânimo apenas num canteiro florido de teu viver.
Uma das receitas do bom viver é diversificar os canteiros.

Dias de lama! (autor Ricardo de Faria Barros)

Todo mundo tem aquele dia que na primeira hora da manhã tudo ocorre de errado. Aquele dia em que nos sentimos encalhados numa praia, tal qual este veleiro da foto.

Quem não teve um dia destes que pare de ler este texto.

É a filha que amanhece doente, é a diarista que falta, é a mãe do outro lado da linha que acorda rabugenta e resolve te ligar para rabujar. É o teu celular que insiste em mandar mensagens de help, para teu amado, e ele não abre as mensagens, como se estivesse lhe evitando.

É o carro com o tanque na reserva, precisando abastecer, e recebe um zap do chefe, convocando a equipe para uma reunião logo cedo. E, pra complicar mais ainda, na pauta consta o "status-report" daquele teu projeto que não está andando, por razões maiores do que você mesmo, mas que para o chefe, isto é problema teu.

Então, nestas horas o rio dos pensamentos negativos descem com fúria, pelos vales da mente e coração, e tudo fica enlameado. Tal qual um tsunami de lama, leia sobre a tragédia de Brumadinho (Brasil), a onda de coisas ruins que ocorrem ao mesmo tempo é asfixiante, paralisante e tira o ânimo.

A movimentação da psiquê fica difícil. Qual um animal, atolado no lamaçal, a pessoa que recebe uma sobrecarga de notícias não consegue se mover, e entra em colapso emocional, em parafuso.

Por isso precisamos compreender o funcionamento de nosso aparelho mental para nos ler melhor e saber acolher estes momentos, sem atolar mais ainda o corpo na lama, ao tentar sair dela de qualquer jeito.

Têm dias em que é melhor acolher o sofrer que vem em cenas fartas e de naturezas variadas.

Acolher é uma estratégia sábia. Não significa se acomodar à dor. Não significa ser passivo, subserviente com o que te causa tristeza.

Significa que não temos controle de tudo.  E que em alguns dias de nossa existência, a barragem pode ceder, e vamos ser pegos por uma onda de coisinhas chatas, sob as quais não temos muito o que fazer, a não ser esperar que elas passem.

E passarão.

Logo virão dias melhores que vão dissolvendo esta lama negativa e vamos saindo de dentro dela.

Um abraço que recebemos de alguém especial, dissolve parte da lama.
Uma pessoa que nos oferece uma oração de intercessão, dissolve parte da lama.
Uma música edificadora que ouvimos, dissolve parte da lama.
Uma ajuda fraterna que prestamo, mesmo ainda presos na lama, ajudará também a dissolvê-la.
Um dia após o outro, deixando-nos guiar pelo Compositor do Tempo, e sua partitura da canção de  um Amanhã Melhor, dissolve parte da lama.

Em dias de prisão emocional apenas respire. Mantenha-se vivo. Acolha o que lhe ocorre como espaço de aprendizado, como mais um conjunto de lições da escola da vida.  Não se desespere, não desanime, não pare de acreditar que passará e que amanhã será melhor.

Verás que devagarinho, no tempo das coisas e dos "gnomos",  tudo vai se encaixando novamente. Ou, alguns desencaixes são para ficar desencaixados mesmo.
E, nos adaptamos a isto - a este desequilíbrio, com flexibilidade de pensamentos e comportamentos.

Contudo, existem quatro posturas que ajudam muito a velejar sobre o mar de lama de dias não tão bons. 

A esperança ativa - Que é aquela emoção de que "nada está tão ruim que não possa melhorar". E que é preciso continuar lançando as sementes, mesmo que o berço da terra esteja desconfortável para elas. É acreditar que amanhã pode chover, e as sementes vingarão. Mas, é a esperança ativa, tem que continuar lançando as sementes. Sementes de paz, de bondade, de doação ao próximo, de justiça, de amor e perdão. Um dias elas germinarão, e vão contribuir para sair do atoleiro existencial . Na metáfora com um veleiro, a esperança é o leme. Ela nos dá um Norte, um sentido. El nos guia, definindo e orientando novos rumos e cursos de ação.

O otimismo realista - Ser otimista não é ser bobo, nem alienado. Nem uma pessoa que não expressa dor, choro, raiva e desânimo. Daquelas que vivem sorrindo pra todos, e que sempre diz que tudo está bem. Isto não é ser otimista. Isto é ser sem noção. Otimismo e esperança são valores, ou emoções positivas, de espécie similar, mas de resultados diferentes. O otimismo é uma lente pela qual a vida vai sendo filtrada.   Ele nos ajuda a sempre buscar o lado bom das situações, ou o que nos sobra, apesar dela. Ele é um substantivo quase verbo. Um otimista move o destino a seu favor. Numa analogia com um veleiro, o otimismo são as velas. As velas da alma. O otimista aproveita as forças do vento, seja em que direção sopre, alterando suas perspectivas de pensar e atuar, para aproveitar melhor de onde sopra o vento. 


A resiliência  - Este sentimento nos faz mais fortes, diante das dificuldades. É como se nosso ferro existencial estivesse sendo malhado. A resiliência é expressa na coragem, a coragem dos sobreviventes. Coragem de continuar, no lugar em que todos já desistiram. Coragem de acreditar, no lugar em que todos desconfiam. Coragem de investir, no lugar em que todos já sacaram suas reservas emocionais. Coragem de ser tudo, no lugar em habitado por seres-nada.  A coragem de acolher os dias ruins, mantendo-se vivo e confiante. A coragem de encarar aquela reunião, no qual vai ser avaliado de forma negativa.  A coragem de superar distanciamentos dos conflitos e indiferença e conflito, usando as pontes das ternas palavras e os gestos de amorosidade proximal. A resiliência se desenvolve nos embates da vida. Aprendendo com eles, resistindo a eles, sobrevivendo a eles, se adaptando a eles, mudando com eles ou transformando-lhes.  Num barco à vela, a resiliência é o contra-peso que fazemos, para tensionar melhor as velas, aproveitando toda a força do vento. Este contra-peso pode ser feito com o próprio corpo humano, com cordas que puxam as velas. Ou, nas  jangadas mais simples, lançando água sobre as velas para torná-las menos permeáveis ao vento, aumento sua eficácia. 

Auto-eficácia - É o quarto componente do capital psicológico positivo. Sabe aquela sensação de que com nossas próprias capacidades podemos entregar algum resultado? Isto se chama autoeficácia. É aquela vozinha interior que nos diz que somos capazes. "Ser saber que era impossível, ele foi lá e fez". É bem isso. É aquela autoestima que nos coloca pra cima, pra frente. Que nos dá uma sensação de potência, de vigor, de que podemos conquistar aquele objetivo, ou realizar aquele sonho.  A auto-eficácia nos faz ver a nós mesmos com compaixão. Faz-nos julgar nossa vida com menos severidade e perfeccionismo.  Faz-nos nos acetar naquilo que, sob as condições em que estamos inseridos, ainda assim podemos entregar de melhor. Então, na analogia do barco, a auto-eficácia seriam os remos. E, quando lhes faltarem os ventos, remem! Esta era a filosofia dos maiores navegadores de todos os tempos, os Vikings. Seus barcos tinham velas e remos. Os remos representam bem a auto-eficácia. Quem rema, acredita que chegará em algum lugar, e com seu próprio esforço. Melhor analogia com a auto-eficácia impossível.

Velas, leme, contra-peso e remos tornam a navegação - mesmo em mares bravios, ou em calmarias sufocantes, muito mais eficaz.  Mas, tem que saber esperar a maré virar novamente. A maré subir e o teu barco flutuar. Teu barco desencalhar do banco de areia, ou atoleiro em que se meteu.  Enquanto isto, faça cuidados paliativos emocionais. Medite, ore, caminhe, cace flores com a retina.

Então, para você que acordou num dia ruim, acredite na força das marés. Logo, você entrará no veleiro existencial e usando da esperança, do otimismo, da resiliência e da auto-eficácia recomeçará de novo, sem ser novamente.

E, saindo velejando pela vida afora, verá que vai cortar a lama que lhe rodeia, e até navegará sobre ela mesma.

Tempos de Descartáveis {Autor Ricardo de Faria Barros}

Acessando os portais de notícias li que um casamento foi desfeito em minutos, após terem assinado o contrato nupcial. O fato ocorreu na Ásia, no Kuwait, no início deste mês.
O motivo foi que ao descerem as escadas do cartório, já casados, o marido a chamou de estúpida, por ela ter tropeçado e caído no chão.
Aí, ela ficou brava, retornou pelas escadas de onde acabara de descer, e pediu ao juiz a anulação do casamento, por ter se sentido injuriada. Ao que ele procedeu; três minutos após o casamento ter sido oficializado.
Talvez seja o recorde de temo de casamento desfeito. Não vou defender de maneira alguma a atitude do cara que a classificou de estúpida. Classificar quem leva um tombo de estúpida é ser, no mínimo, um bruto de um insensível. Mas, o que me chama a atenção é o pouco limite para deixar as coisas se acalmarem, para contar até dez antes de tomar uma decisão importante.
Como julgar uma pessoa, para a qual se entregará uma jornada de vida futura, por uma cena apenas?
Mesmo que seja uma cena que tenha tirado o outro do sério, machucado e feito infeliz?
Como se julga algo de ruim em um relacionamento por uma cena?
E não pelo filme do conjunto da obra entre eles?

Se fosse filha minha eu perguntaria assim:

Filha, ele é sempre assim? Violento e sem noção?
Filha, ele está com algum problema?
Filha, ele te pediu desculpas, assumindo a pisada na bola que fez?
Filha, você o ama?
Filha, desde que conheceu este cara, até a decisão de casar com ele, você se sentiu respeitada, cuidada, admirada?
Tirando este infeliz xingamento, ele te admira, demonstra interesse por tuas coisas, tu sente que ele te faz especial, e a mais feliz das mulheres, quando ao lado dele está?

Da avaliação das respostas às questões acima é que eu diria para ela decidir, mas não na hora.
Tem um filósofo polonês, falecido em 2017, chamado Zygmunt Bauman que escreveu um livro chamado Amor Líquido.
Neste livro, Bauman nos alerta para a banalização dos relacionamentos, que viraram objeto de consumo, e como tal podem ser comprados e descartados, na velocidade de um clique, ou de uma subida das escadarias para anular um casamento, recém-homologado.
A banalização das relações acompanha o mesmo ritmo da internet das coisas, transformando tudo numa velocidade imensa, em supérfluo, desnecessário, tão logo apareçam novas demandas, expectativas e necessidades, muitas das vezes idealizadas.
Perde-se capital psicológico positivo, no seu componente da resiliência, otimismo e esperança, e na ausência deste capital, nada compensa o esforço e investimento para o seu aprimoramento.
Melhor jogar fora, e comprar outro.
Correndo por fora das relações de consumo, que adentram perigosamente nos relacionamentos sociais, está o aumento da individualidade e egoismo.
E este excessivo culto ao EU, muitas das vezes reforçado em postagens sedentas de desejosas de likes acaba por criar um ambiente de pouca tolerância e empatia, e até uma certa dose de flexibilidade, ao outro EU, que também está inflado.


E, dois EUs inflados, quando se juntam, explodem.
Como um coração inflado de si mesmo acomodará parte do outro dentro de si?
Como uma pessoa que aprende que pode tudo, que compra tudo, que todas as suas necessidades-expectativas precisam ser atendidas, com exclusividade e prioridade, pode ser generosa ao outro, doando-se a ele?

Então, vivemos sob o império de um tripé: consumismo, individualismo e egoísmo.
E, neste tripé, falar em perdoar, aceitar o outro, ou acolher o que ocorreu quando as coisas lhe entristeceram, soa tão distante.
Tudo mundo cheio de razões e armado. Pronto ao menor deslize que o outro cometa a sacar-lhe as armas das palavras.
Aí, antes de dormir, a pessoa ainda entra nas redes sociais, posta o ocorrido, e encontra um monte de apoiadores, "likedores", e incendiadores. Gente que vai dar-lhe razão, mimá-la, enchê-la com um monte de conselhos, do tipo, "você está mais que certa em largar este cara".
E aí vamos ficando craques em cobiçar os gramados dos vizinhos, mas não sabemos o quanto de esforço eles levam para mantê-lo daquele jeito.
O quanto de sujeira eles precisam processar. O quanto de esperança, na força das sementes, eles precisam cultivar. E o quanto de otimismo eles precisam ter para com aquele gramado, infestado de tiriricas e caracóis, de que com o uso das ferramentas e cuidados certos, logo ele estará bonito novamente.

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