Cartas ao JG - Busque Flores

Querido filho, quando você for maior programe o GPS do seu carro para as coordenadas: Latitude 15 44\`32.9´´ S Longitude 47 52\`51.8´´W e siga pra lá nos meses de setembro ou outubro. Seja paciente. A qualquer momento um espetáculo da natureza acontecerá.

Trata-se de uma árvore rara por essas bandas, que vive enroscada numa outra enorme. Ela tem nome científico de MACFADYENA UNGUIS CATI.

É uma trepadeira que chama muita atenção por suas lindíssimas flores amarelas e perfumadas. Originária do México até a Argentina, tem o nome comum de unha-de-gato devido ao seu hábito de agarrar-se as coisas.

Hoje o dia estava difícil no trabalho. Daqueles dias pesados, com pendências aflorando aos borbotões e muitos leões pra matar (termo que usamos para desafios a vencer).

Na equipe que papai gerencia, um desfalque de 40% de pessoal. Além disso, estávamos lançado processo seletivo para o RJ e SP e sempre os momentos que o antecedem são tensos.

De onde papai trabalha, na Diretoria de Tecnologia do BB, para essas Coordenadas são 3 Km. Perto do almoço, chamei meus funcionários para despacharmos em trânsito. Eles não entenderam nada.

Disse-lhes: "Vamos ali, em 15 minutos voltaremos." Os levei para verem essa árvore trepadeira e seus cachos amarelos.

Alguns travaram a voz.

Outros ficaram sem reação.

Falei para eles que temos que ter espaço para a poesia, dentro do caos do dia a dia, e mesmo diante das maiores dificuldades, encontrar momentos para silenciar e contemplar o belo.

Isto nos tornará melhores e mais fecundos.

No caminho de volta, todos estavam silenciosos, a experiência os tocou profundamente.

Durante o resto do expediente o astral era outro, algo tinha acontecido, eles estavam renovados e cheios de ideias e forças para enfrentarem os desafios. Aquelas flores, e a parada contemplativa, os energizaram.

Encontre seu infinito particular. Um lugar para onde possa ir contemplar a vida. Louvar ao Criador e se unir ao Cosmos, em sua beleza estonteante.

Temos fome de pão e de beleza, precisamos de utopias, de sonhos, de fantasias, de dança, de música, de aromas.

Descobri mais tarde que essa planta tem valor medicinal como afrodisíaco, depurativo (limpar o sangue) e digestivo (colesterol).

Agora entendi o porquê voltamos melhores para a labuta.

Precisamos de afrodisíacos para continuar encontrando a tesão pela vida e o viver. a vida que vale a pena por ela ser vivida, a vida pela qual trabalhamos, estudamos, namoramos, brincamos e lutamos.

Não se perca dos afrodisíacos. Tenha-lhes sempre por perto. Vai ter dias em seu viver que você vai se sentir um bola murcha. Sem pique, gás, cansado, descrente, impotente, apático. Ou seja, um já morreu, um sem futuro. Aí, nesses dias, tome um chá das flores amarelas, caso encontre.

Caso não as encontre leia os Evangelhos e os Salmos. São maravilhosos estimulantes.

Outra maneira de "afrodisicar" tua vida é ajudar alguém. Nos dias que papai mais cansado fica, paradoxalmente, são os dias que mais potente e cheio de tesão pela vida ele volta pra casa. é que consegui ser útil e servi à alguém.

Outro elemento que essa planta possui tem efeito depurativo: "limpa o sangue". Não deixe seu sangue sujar com as mazelas da vida. Preserve o que você tem de mais sagrado, sua chama de viver. Não entupa seu sangue de toxinas emocionais, de tudo que não presta. Não tome transfusões de ódio, inveja, mágoas, culpas. Deixe-as do lado da cabeceira. No máximo, processe as mesmas no seu estômago. Mas, repito-lhe, não deixe que entrem no seu sangue. Purifique-se das impurezas com as quais irá cruzar e conviver. Para isso, chore, chorar é bom, lava. Conversar e orar são purificadores naturais. Cantar e dançar, praticar uma corridinha, um esporte, idem. Encontrar um tempinho antes de dormir e rezar, fazer uma revisão de vida melhora a circulação sanguínea emocional e purifica o coração. Senão achar as cascas dessa planta para se purificar, encontre a você mesmo. Como? Exercitando o autoconhecimento e o "Semancol". Pra que continuar a sentir ódio, culpa ou mágoa após o acontecido? Para que levar para tua cama todas as coisas que deram errado durante o dia. Deixe-as na cabeceira. Amanhã, você cuidará delas, se for o caso. Algumas delas, esqueça. Nada que fará vai alterar o dito, agido, sentido. Altere-se a si mesmo, caso não possa voltar a fita e mudá-las, ou resolvê-las mais adiante. Aprenda com elas, mas não fique escravo delas. São toxinas, vão te matando aos poucos.

Por último, essa planta ajuda a combater o colesterol ruim, diminui as gorduras que absorvermos. Quanta coisa vamos acumulando que só nos pesam a caminhada, pense nisso!. São as gorduras desnecessárias. Uma das maiores gorduras que vai ter que enfrentar é o consumismo, o materialismo. Pessoas que ficam escravas do ter, das coisas. Da moda, da vaidade, do poder. Precisam comprar para existirem.  E, a cada acúmulo, outros se sucederão, numa espiral doentia. Contudo, nunca  estarão satisfeitas. Ficam viciadas nas gorduras do ter, então, cuidado com o colesterol das posses. Tenha um estilo de vida simples. Adequado ao seu padrão. Cuidado, mais uma vez, com a gordura das posses.
Coisas que vamos incorporando ao nosso jeito de ser e que nos torna ofegantes, lerdos, gordos emocionais, que dificultam nossa mudança de trajetória, ou nosso repensar de atitudes. As gorduras entopem os vasos do coração, comprometem a oxigenação dos tecidos. Na nossa vida, represento-lhes pela ganância, pela ambição sem medidas, pela inveja, pela falta de generosidade, afeto e paz. Sabe qual é o maior dissolvedor de gorduras emocionais? O perdão. Sabe qual alimento tem menos gorduras interiores; a esperança. Não se perca da esperança. Não adie uma razão para recomeçar, voltar atrás, dialogar e perdoar. Pessoas vão pisar na bola para contigo, não as guarde no coração como triglicérides, em safenas debilitadas. Processe o luto do que não foi legal. Dissolva ódios, destile impurezas e seja feliz. Carregando menos pesos, menos outros reais ou imaginários que se juntarão a ti para te oprimir, sufocar e entupir as veias de teu viver. Liberte-se de tudo que te faz mal e te oprime. Aquilo que te engordará, mas que não te fará crescer.

Será que um dia me entenderá? Busque as flores, elas te ensinarão.

Eu Professor

Sou professor com muito orgulho. 
Não conheço outro ofício que mais me realize. 
Agora, o bacana é nos chamarem de educadores. 
Que seja.
Nunca fui o professor que o termo educador deseduca chamar. Assim, para mim tanto faz.
É que nunca me vi professando nada a uma pessoa considerada sem luz própria, ou seja, um A-Luno (sem luz)
A sala de aula transforma corações e mentes. 
Liberta, planta autonomias, respira mudanças. 

Desde o jovem Aristocles, que foi guiado no aprendizado por um professor perguntador, a educação mostrou o quão longe pode subverter realidades e corações. 
O que eles tinham em comum, o mestre e o aprendiz? 
O gosto pelas descobertas, a cada pergunta geradora proferida. Aristocles era Platão, seu mestre Sócrates. 

Creio que educar é provocar o sabor pelo objeto do conhecimento. E, juntos contemplá-lo, numa postura de humildade e sinergia. Exige amorosidade, temperatura afetiva sem a qual o ato pedagógico fica sem vibração cognitiva. 
Exige tesão pelo conteúdo, e, sobretudo,
fazer conexões do mesmo com a realidade, problematizando-a.
Exige paciência e respeito por diferentes ritmos e contribuições.
Exige empatia e comprometimento com os processos de ensino e aprendizagem.
A sala de aula pode ser um fecundo espaço de descobertas, 
de "despreconceituamentos", de politização e consciência crítica. Pode ser emancipadora.

A educação não é uma panaceia salvífica. 
Não resolve sozinha, nada. 
Mas, suscita condições para que o novo seja parido, e o velho, naquilo que amordaça, seja veementemente negado. 

Comecei a lecionar aos 16 anos. 

Desde então, sempre me vi como educador, formal ou informal. Nas salas de aula, ou nas catequeses das paróquias, ou nas estações de trabalho, ou ainda melhor, nas mesas de bares. 

Os autores que mais me marcaram foram Rubem Alves, Paulo Freire, Leonardo Boff, Monteiro Lobato e Edgan Morin. Mas, foram as pessoas que me educaram, as que de fato deixaram marcas em mim, esculpindo em minha rocha tosca e bruta, um educador melhor. A elas agradeço nessa noite!

Eu 50

Vou aproximando-me dos 50 anos, como quem adentra um templo sagrado: esperançoso, reverencioso e cheio de coisas a conversar com o Alto. E com nada a pedir, só muito o que agradecer.
Hoje gostaria de sentar-me ao lado Dele e ver as fitas de meus melhores momentos. Iríamos dar boas risadas.
As fitas dos momentos não legais, mofaram num canto de meu coração, não estão mais acessíveis.
Na retrospectiva ao lado Dele, começaria vendo a reação de minha mãe por eu ter chegado atrasado no Centenário de minha cidade - Campina Grande-PB. Era um 11/10/64, se eu nascesse naquele dia minha mãe ganharia uma cesta com fraldas, chupetas e outras "ferramentas" pra cuidar de um nenê. Traquino como já era, deixei para nascer dia 13/10. Logo, minha mãe foi buscar a consolação, pelas fraldas perdidas, (rs), na fé. Afinal, dia 13 era o dia da aparição de Nossa Senhora de Fátima.
E assim minha vida foi acontecendo. Nem sempre tive esse sorriso largo. Nem sempre tive essa preocupação ansiosa. Mas, sempre acreditei que o melhor sempre viria. A maior bênção que recebi Dele foi a de me tornar um ser de acreditações positivas. Agora teclo embaixo de uma árvore do Cerrado, escuto o som de pássaros e de crianças correndo atrás de uma bola, entre elas meu quarto filho, o JG, de cinco anos. O vento voltou a somprar no Planalto Central de meu Brasil. Hoje sopra forte também nos vales de meu coração, fecundando-os. Sinto o amor. Vejo o amor. Meus olhos fotografam o belo. Dão cliques imaginários, nas borboletas, brotos, flores, pessoas, nuvens. Tudo vou enquadrando nas lentes de meu viver. Tornei-me olhar, escuta. Aqui, sentando numa pedra, contemplo um tapete de folhas que ao morrerem produzem vida. Sinto a paz. Uma Sabiá encantada chega perto de mim. Vem saltitando pelas folhas. Atraio pássaros. Ou penso que sim. As cigarras anunciam chuvas serôdias, ardentemente desejadas pelas raízes retorcidas. Essa data que se aproxima pede um balanço. Pede retrospectivas.
Nesses 50 caminhados, nunca fui mais longe do que Buenos Aires, numa promoção que ganhei por um conto que escrevi: "A telefonista do 102."
Não aprendi inglês suficiente pra falar bonito.
Deixei pra depois aprender a dançar, e dancei.
Tenho um monte de livros que nem sei se lerei um dia, mas tê-los conforta-me.
A sábia Sabiá revira folhas procurando insetos. Ela deve ser mãe, e ter um ninho com jovens rebentos esperando o lanche da manhã. Escuto formigas brincando de passa passa umas com as outras.
Tenho um monte de coisas que não farei mais. Que deixei pra trás e desapeguei.
Não farei mais RPG. Não sei respirar direito e a moça é brava.
O parquinho do balanço tem o nome da menina que faleceu. Balancei o balanço, ele balançou por minutos. Pode ter sido, pode não ter sido. Que importa. Elevo minhas preces para a pequena Luíza, que ela esteja com Ele.
Por que esse tema invade minhas divagações? Porque esse sou eu, um zigue zague de pensamentos, e não me peçam para que eu fique muito tempo sentado.
E, por onde andei nos 50 passos que já dei? Siglas e nomes: moldaram em mim a pessoa que aqui chega. Sem o que esses passos não teriam tido sentido, emoção e prazer algum:
PAIS, IRMÃOS, FILHOS, AMADAS, AMADA, FAMÍLIA, AMIGOS, ENCONTRO CASAIS COM CRISTO, GAV, JORENAC, EJC, CRISMA, DAMAS, RUA ANTENOR NAVARRO 321, BANORTE, POÇÕES, REMÍGIO, PARÓQUIA DO ROSÁRIO, CRISMA, CAPELA DE SÃO SEBASTIÃO, COMUNIDADE METODISTA JARDIM BOTÂNICO, AMOBB, FEIRANTES DE SÃO SEBASTIÃO, CAMPINA GRANDE, JOÃO PESSOA, BRASÍLIA, SESI, NATAÇÃO, AABB POÇÕES, MOTO, HCB, SOBRE A VIDA E O VIVER, APANHADORES DE POSSIBILIDADES NOS CAMPOS DO INFINITO, DIPES, CONTROLADORIA, VAREJO, CAIEX, AQUIDABÃ, JUAZEIRINHO, SERRA NEGRA DO NORTE, SEMENTES DO AMANHÃ, CAPITAL HUMANO, DITEC, GOVERNANÇA DE TI, OTIMISTAS, PROGRID, PJ, IBMEC, UNIP, UEPB, UNB, USP, BB, INFRAERO, METODISTA, CATÓLICO... , NIKON, BODE COM FARINHA, BONITAO DAS TAPIOCAS, SERTÃO, MAR e CERRADO.

Negue

Meu filho, você nasceu no DF, na maternidade do hospital Santa Lúcia. Tenha orgulho de ser Brasiliense. 
Eu nasci em Campina Grande-PB, tenho orgulho dela.
Quando puder, vá visitar a terra de seu pai. 
Sua mãe, nasceu em Pirajuí-SP, migrando para Londrina-PR aos 6 anos.
Ela adotou o Paraná como sua casa e se diz paranaense. 
Só aqui, você já tem quatro estados de referência: DF; PR. SP e PB. Seus três irmãos, de meu primeiro casamento, são filhos de uma Recifense, pernambucana da gema, agora. junta-se à tua história, mais um estado o PE.
Na bandeira da Paraíba tem a expressão NEGO. 
É nego, do verbo negar. Na década de trinta, o então Presidente da Unidade da Federação Paraíba aliou-se ao Presidente da Unidade da Federação Rio Grande do Sul, o Getúlio Vargas, e negou que o próximo presidente do Brasil deveria continuar a vir dos estados de SP e MG, chamada à época de República Café com Leite. 
O nome dele era João Pessoa, e foi brutalmente assassinado, meses depois, na cidade do Recife. Por isso, o preto da bandeira de meu estado: o luto pela morte de João Pessoa, e o vermelho, pelo seu sangue derramado.
Ame sua terra, o DF, mas não seja besta. Há lugares e pessoas boas em todo o Brasil. conheço 26, de seus 27 Estados e Territórios. E, te digo, nosso país é lindo. E, o mais lindo, são suas pessoas.
Nós, paraibanos, somos o povo do NEGO.
Teu pai, é um pai do NEGO.
Nego que o papel da mulher seja atrás de um fogão. Nego que o homem possa bater numa mulher. Nego que homem não chora. Nego que pais não possam cuidar, brincar e amar seus filhos. Nego que não podemos dividir as tarefas domésticas.
Nego que uns possam ter acesso à educação e saúde, e outros não. Nego que o suborno seja norma para resolver pendências com o Estado. Nego o preconceito de qualquer forma e estilo. 
Nego que existam raças melhores do que outras. Nego, veementemente, qualquer tentativa de tornar os habitantes de Estados brasileiros, num bloco monolítico, de preconceitos de qualquer espécie. 
Nego que aja solução melhor do que o voto, para tornar nosso país melhor.
Eu nego!
Aprenda a negar. 
Negar num ambiente de mediocridade crescente é muito importante. Quando todo mundo estiver metendo o pau numa determinada ação, procure sua própria essência, sua própria reflexão, e, se for preciso, negue!
Cuidado com os extremos. Procure o centro. A humanidade está ficando mais reacionária, quando você vir a ler esse post a coisa deverá tá mais aguda ainda. Assim, aprenda a negar.
Negue o lugar comum. Você pode fazer seu jeito de ser diferente. Cuidado com o pensamento das massas. 
Cuidado.
Cuidado com toda crença extrema, com toda forma de convencimento que oprime, exclui e aliena. Cuidado com dogmas e verdades sagradas.
Cuidado com conceitos de quem nunca viveu o que prega, ou nunca experimentou o que diz que saboreia. Cuidado.
Negue. Negue o lugar comum. Negue as ideologias-ismos, ou istas, de qualquer tipo.
Ache suas próprias convicções. Leia, estude, ame a história, mas não seja besta. Aprenda a conviver com pessoas de outras tribos, pensares, agires.
Não. Ninguém sabe de nada.
O que realmente importa? Quem poderá dizer? Eu te digo: NEGUE!
Negue o desamor. Negue a falta de perdão, a falta de afeto. Negue a ausência de ternura, de justiça, de compaixão, de gratidão, de generosidade, de gentileza.
Ouse ser diferente, seja você mesmo e negue tudo que ofender tua dignidade, e não fizer sentido ao teu mundo de valores, mesmo que tenha um alto preço a pagar. Mas, repito, negue! E serás feliz, como sou.

Desfaça as malas!

Uma história de amor tão bela,
que vi no filme os 
Dois Filhos de Francisco,
por que precisa seguir esta 
trajetória de mágoas e ódios recíprocos?
Tá cheio de reportagens ensinando a separar,
dando valor a quem parte pra outra, ficou até na moda.
Vi outro dia que até festa de descasamento já existe.
Mas, amor mesmo pede paciência, 
pede recomeços,
perdão, aceitação, renúncias, 
pede reabrir o baú
de bons momentos vividos, 
revivê-los e ousar reinvestir afeto na relação.
Relações a dois parecem que viraram games,
é só trocar de fases, 
ou pegar dicas pra ganhar vidas
 - noutras personas, 
sem precisar se comprometer um com o outro.
Deixa-se de um admirar o outro,
e se morre por inanição.
Todos os dias desfaço minhas malas 
que teimam em querer partir.
Têm muitos casais que estão 
sempre de malas prontas, 
um para com o outro, malas emocionais.
Que se vive numa ansiedade a dois, 
prontos a explodirem.
Malas prontas, tal qual quem chega 
num destino por um curtíssimo
espaço de tempo, 
e que não compensará desfazer as malas no hotel.
Digo-lhe, desfaça as malas de sua relação a dois.
Lute por ela. 
Todos os dias desfaço as minhas.
Por isso, vibro com pessoas queridas que sei que estão nesse momento desfazendo as suas e acreditando em mais um recomeço.
E, se não der certo, pelo menos saberá que lutou o quanto pode para que o outro não fosse tido como um descartável, tal qual se faz com os brinquedos de infância, ao crescer.

Cartas ao JG – Gratidão


Filho, hoje mais uma vez voltamos juntos de sua escola. No caminho, viemos escutando a rádio Jovem Pan, Programa Missão Impossível. É um Programa que une pessoas, ao mediar uma ligação entre elas, de uma pessoa pra outra, proporcionando declarações de amor, ao vivo.
Hoje ligou um tal de Jean, de Fortaleza-CE, querendo mandar uma mensagem para sua patroa, dona de um restaurante. Ele queria agradecê-la por tudo que ela fez por sua vida: pessoal e profissional, quando migrou de Teresina-PI para Fortaleza-CE, sem dinheiro algum.
A patroa ouviu tudo emocionada. É tão difícil filho, ver agradecimentos de funcionários aos seus patrões. E, de patrões aos funcionários, é mais difícil ainda.
Achei a cena comovente, não só eu, os radialistas também ficaram hipnotizados e deram mais tempo que o costume ao quadro. É que eles nunca receberam esse tipo de ligação, expressando esse tipo de amor – um amor de gratidão.
Se eu pudesse deixar pra ti uma mensagem sobre o amor eu diria: sê grato.
Tenha um amor de gratidão. Nunca espere um amanhã qualquer para agradecer a quem te ajudou hoje. Aguce a percepção sobre as pessoas que contribuirão com o teu viver melhor, abrirão portas e aplainarão teus caminhos.
Você irá conviver com muitos ingratos, não aprenda a ser como eles.
Tem um monte de gente que acha que merece e pronto. Que se acha o centro e que todos deverão servi-los. Na hora dos aperreios, vão te procurar, pedir ajuda, uma forcinha. Depois que conseguirem o que precisavam de ti, simplesmente esquecerão, não serão capazes nem de te dizer um simples: Obrigado.
Não seja como eles. Não se nivele a eles. Agradeça e sempre!
E, blinde seu coração para não ficar resignado aos ingratos. Deixe de bobagem. Você não irá mudá-los, simplesmente eles não aprenderam a ser gratos. Foram educados para o desamor, para a competição e violência emocional que divide, que segrega, que afasta.
Portanto, seja generoso, bom, justo e manso de coração sem esperar nada em troca.
Só porque tu não saberias ser diferente, e isso é o que te faz melhor a cada dia. Simples assim.
Não queira ser bom para receber nada em troca. Esqueça isto.
Sê bom para deixar esse mundo melhor, em retribuição ao que você já recebeu.
Não espere um Programa de rádio para surpreender alguém com um gesto de agradecimento, uma atitude de reconhecimento, um mimo, um carinho.
Torne isso uma constante na sua vida. Esteja atento, pessoas boas estão em todos os lugares.
As ruins idem, mas quanto a elas, só você poderá permitir que elas adentrem, ou não, ao seu coração. Trata-se de uma decisão. Toda vez que levar para casa uma pessoa ruim, uma coisa ruim que fizeram a ti, essa pessoa viverá em ti. E, essa mágoa e ingratidão também.
Desapegue deles, dos ruins.
Pense nisso, guarde o bom. Cultive o bom. Faça o bem.
Não se domestique ou se brutalize como muitos homos-amebas-violentus por aí.
Sê revolucionário, revolucionário do amor.

Retribua



À minha frente, no caixa do supermercado, uma jovenzinha magrinha e com cabelos bem tosados. 
Sua aparência era frágil. De quem está assustada com algo. Magrinha, qual um pavio, daquelas que se der um vento forte leva.
Odeio fila de supermercado e o próximo à minha frente é sempre alvo de observação. 
Temo sempre aqueles que vão arrumando sua feira lentamente, classificando-a e depositando-a, pacote a pacote, saquinho à saquinho, como se o caixa e o tempo  fosse só deles.
Temos os que chegam com poucas coisas, "marcando o lugar", e logo aparece um tantão de novas mercadorias.
Temo os que esquecem a senha. 
Temo os que teimam em teimar com a caixa de que o produto que ela passou está com o preço errado, não confiando no desconto ao pé da nota.
Na verdade, temo filas. Tenho fobia às filas.   
Só isso.
Eu sou daqueles que ao entrar numa fila pensa: algo vai acontecer e a fila vai demorar. O famoso: "só comigo".
A mocinha foi tirando as coisas do carro, colocando-as na esteira do caixa. Notei que eram tomates, cenouras, cebolas e um jogo de pilhas. Os legumes, ela ia  espalhando-os na esteira, sem os fieis escudeiros saquinhos plásticos. Ela lhes tirava do carro como quem os retira da terra, e estavam nus. Sem as "raízes" dos saquinhos plásticos. Juntei uma tatuagem ali, uma bolsa surrada acolá e os "não-sacos-plásticos"... bingo! É da tribo dos natureba, pensei.
Pronto, acabei de criar uma ponte com aquele serzinho minúsculo.
Então, ela ia fazendo pequenos conjuntos sortidos de legumes e pesando-os no caixa. E, ia acompanhando apreensiva o crescimento de sua fatura. a caixa olhava sem paciência. Eu, falei internamente o meu famoso: "só comigo". 
Dei um tempo na minha intolerância e rabugice e cultivei um pouco de empatia. Afinal, o que estaria acontecendo ali?
Ela retirava um legume de cada e ia pesando. Garantindo que fosse passando um de cada tipo. Embasbaquei. A cena era de um realismo fantástico. 
Esqueci minha pressa, minha agonia, minha ansiedade-filesca.
Fui observando os conflitos dela, nos tamanhos que levaria à classificação, antes da  pesagem. 
Ela abriu a carteira e restava 2 reais. Não deu para não ver.
Ela não tinha cartão.
A caixa estava nervosa.
Ela ia fazendo combinações, pesando a mercadoria na balança e retirando as que ultrapassavam seu pouco orçamento. Fiquei pensando: "se minha mulher visse eu fazendo isto...botar os legumes direto na esteira sem estarem em saquinhos plásticos"...
Cortei de minha mulher e falei pra caixa, quase num sussurro:
"Ponha tudo que eu pago".
A caixa estragou a delicadeza do gesto e esbravejou. "Como assim o senhor paga?" Ela estava sem paciência. 
Repeti-lhe com ternura, sem olhar para a jovem, que àquela altura já estava rubra. 
"Senhora, ponha a mercadoria que falta na minha conta, feche a conta da cliente com o que ela tem, o resto eu pago".
Dessa vez a cliente ergueu a vista e dirigiu a palavra para mim. O corpo dela falava como quem me pedisse desculpas. Ela estava confusa, envergonhada. Falei que eu só estava fazendo o que já fizeram por mim, que sou muito grato a Deus por tudo que já recebi. Só devolvo. 
Ela me disse: "Isso está acontecendo mesmo? Diga-me que é brincadeira, não acredito que ainda exista isso, eu já ia deixar o restante..."
Disse-lhe para acalmar o coração e que coisas do tipo acontecem, e que amanhã poderia ser comigo. Ela me disse: "mas tem que doar com amor, um amor como o que senti, obrigado". 
A caixa olhou para mim como se eu fora um ET.  Não se conteve e me disse: 
"Acho que ela empacotou algo do senhor". 
Disse-lhe, "deve ter sido um dos Kinder-Ovo, não tem importância, comprei muitos". 
Ela ficou mais embasbacada ainda. 
Aí lhe falei: "não foi um jogo de pilhas?".
Ela sorrindo nervosa, com um sorriso desumano de quem foi pega numa maldade que desejou ao outro, disse-me: "foi!".
Olhei para ela com compaixão e disse-lhe: "O jogo de pilhas era dela mesmo. Ela não tirou nada de mim de que eu não já tivesse doado ".  
cri cri cri cri cri.

Projete sua Sombra Sobre Flores




Leve sua sombra para passear sobre um chão de flores amarelas.

Contemple-as.

Fique um pouco, vendo do sol sobre teu ser, projetarem-se formas no eterno.

E, leve-a para se deitar num colchão macio de pétalas.

Não. Não é hora de adormecer teus sonhos.

Projete tua sombra nos jardins do infinito. Não é hora de adormecer tua vida.

Quantas sombras do divino até hoje habitam em ti?

Teimaram fazer morada no teu interior. Em corporificarem tua existência, dando sentido ao indescritível, ao que não se pega, ao que não se materializa.

Ao que em ti se projeta e de ti se projeta, que se chama de amor.

Um amor que pode ser como uma sombra, uma sombra que se deita numa calçada de flores, que desafiam a dureza da realidade. que subvertem a ordem reinante e teimam em acreditar que dias melhores virão. Isto é o amor.

Quantas sombras de amor habitam teu interior?

Lembro que minha vó Dulce deixava que nos refrescássemos num tanque de lavar roupas que ela tinha no quintal.

Nós pegávamos um buzão vindo da praia, em João Pessoa, até o Bairro do Jaguaribe, uns 20KM. No corpo, resto de sal, moleza, cabelos desgrenhados, cansaço, fome e muita... muita areia.

Ela nos recebia com um feijão cheiroso na cozinha, de babar. E, sem nem botar a mesa, abria a porta da cozinha que dava para o quintal.

Ali habitava o amor. Era um pequeno reservatório de água, de um metro por um metro, e uns 50cm de fundura. Eis que aquilo virava um piscinão, na imaginação e tamanho de nossa tenra idade.

Depois, íamos almoçar, felizes da vida. Nunca mais entrei em piscina tão prazerosa. Nunca.

Aquela sombra de minha vó Dulce, vó materna, acompanha-me até hoje. A sombra do amor.

No quintal de Vó Maria não havia tempo ruim. Quantas vezes fui em busca da sombra do amor que dela irradiava naquele quintal. Quantas!

Início de carreira, salário apertado, dívidas aos montes. Nunca cheguei na sua casa, que era ao lado da minha num conjunto popular de campina grande e sai do mesmo jeito.

Conversar com Vó Maria era conversar com a alegria e tocar na esperança.

Sempre arrumada, batom nos trinques, vaidosa de dá gosto, ela gostava da vida.

E nunca faltava, nos fins de tarde, um cafezinho e umas broas na cozinha.

Eu morava ao lado, era só abrir o portão e ir sorrir ao seu lado. Sorrir das galinhas que tiraram ninhada, dos gatos que comeram os pintos, das coisas simples e bobas da vida.

Conversar com vovó era melhor do que teclar no Facebook. Ela era falante, tinha uma opinião sobre tudo. Uma vez levei uma revista de humor que postou uma montagem do então candidato à presidente, Collor, com a bunda de fora. Acho que era a Casseta e Planeta. Ela desistiu de votar nele. Cacaca




Perdoe-me vovó, a causa era justa.

Na cozinha de sua humilde casinha de conjunto, morava o eterno. Ali, nas sextas á noite levava os filhos pequenos, botava uma dose pra mim, de uma velha cachaça encardida, e enquanto ela brincava com eles eu me inteirava da vida de meus familiares, por parte de pai.

Tio Naldo, que morava no lote de atrás de sua casa, ouvia o barulho, abria o portão dos fundos e juntava-se a nós. E a festa aumentava. Eu dizia: “Titio, trouxe um Whisky Drury's de Remígio-PB”. Ele, com água na boca, pedia para eu ir buscá-lo, pois queria uma dose.

Eu trazia escondido e abria na frente dele: um Drury's. “Isso? Isto não é uísque, e é pior do que cachaça”. Cacaca.

Gargalhávamos. Era o que dava para eu comprar.

Sorríamos os dois, e botávamos umas pedras de gelo para encarar aquele troço ruim.

A sombra amorosa de minha vó, que ficava num canto nos olhando embevecida e orgulhosa de sua família – qual galinha que põe as crias embaixo de suas asas, não me sai da cabeça e me acompanha até hoje.

Quem ama em vida, não morre. Sua sombra é qual a sombra dessa foto, é sombra se eterniza, qual a sombra sobre um tapete de flores.

Fica em nós sua presença, suas atitudes, seus valores, suas melhores peraltices.

Hoje me pergunto: que tipo de sombra quero deixar?

Como quero ser lembrado?

Já vi muitas pessoas escrevendo isso ou aquilo quando cruzam a barreira dos cinquenta, setenta, noventa...

Eu só escrevo uma única coisa. Preste atenção.

Sabe aquela “tanque-piscina” no quintal da casa de vó Dulce?

Sabe aquele cafezinho e o uísque Druyrs de pior qualidade, na casa de vó Maria?

Sabe aqueles momentos em que tua sombra descansa sobre flores, momentos de paz, de eternidade, de alegria, de amorosidade, de comunhão...

Sabe?

Eles passam rápido demais. Tire muitas fotos. Faça vídeos. Não perca a noção do quanto eles são importantes. Não os desqualifique. Não deixe para amanhã, voltar naquele tanquinho para se refrescar.

Mesmo se chegou cansado, após 300 autenticações, visite sua vó que mora ao lado, e vá tomar um cafezinho com ela antes de dormir.

Será que tu me entendes nessa noite?

Procure tapetes de flores e estenda sua sombra. Outros vão se deitar sobre ela e se refrescaram, animando-se a viver mais um dia, a serem mais esperançosos.

E, se sente que alguém pra ti é essa sombra rejuvenescedora, que te faz melhor, diga-lhe nesse dia o quanto essa pessoa é pra ti preciosa.

E, faça isto com gestos.

Feliz primavera.

Cartas ao JG. Aprenda a seguir!









Filho, vimos um vídeo com alguém que perdeu um gol. E quis pedir uma falta que não ocorreu. É gente que perde o gol e usa de artimanhas para tentar novamente. Gente que vai querer te passar a perna, usando de meios ilícitos.
Na vida tu vai fazer gols de letra. Vai levar frangos, mesmo quando alguém especial torce por ti. Vai ter de tudo.
O que te recomendo?
A mesma postura desse teu primeiro treino.
A de não desistir. A do otimismo insano e do pensar positivo.
Pois, as coisas sempre poderão melhorar.
A de não buscar culpados. A de não ficar chorando à margem do campo, apelando para injustiças que sofreu.

Lembra que cada um só podia bater um pênalti?
E que você pegou o primeiro?
Lembra que o amiguinho protestou e convenceu o técnico a bater mais um, e você não conseguiu agarrar?
Lembra que não desistiu, fez birra, ou protestou?
Apenas acreditou que quando chutasse poderia virar o jogo, em 2 x 1, lembra?

Assim é a vida.
Nela, nem sempre ganhamos, nem sempre perdemos, mas podemos aprender a jogar... como diz a poesia. Mas, precisará ser sábio o suficiente para nutrir esperanças boba e novas, e a cada momento. Como fez hoje e me emocionou. Você só queria jogar. Ganhar ou perder não importaria. Você só queria participar, brincar, se envolver com algo que te desse um sentido maior.
Não sem razão teu técnico vibrou com teu gol, Ele sacou que pisou na bola ao permitir que o outro jogador batesse dois pênaltis contra ti.
Quarenta e cinco anos nos separam nesse 2014.
Mas, vejo em ti tanto de mim. Corra filho... corra que te aguardo ao lado do campo e sempre. Para te apoiar, animar e vibrar.

Contigo Aprendi...

Acordei com uma sensação estranha: não triste, melancólica ou asfixiante, apenas estranha.
Estou a uma lua cheia de meu jubileu de ouro.
Datas podem ser marcações na partitura da vida, pontos de reflexão.
Para mim, essa será uma data especial.
Nem acredito que nela cheguei.
Refiz minha vida algumas vezes nessa jornada.
Retomei cursos de meu viver que estavam saindo do controle.
Desapeguei de tanta coisa que pra mim um dia fizeram sentido.
Perdi fotos maravilhosas, e crônicas de tirar o fôlego.
Esqueci um monte de coisas.
Outras ficam me atazanando, qual fantasmas em noites carregadas.
Sinto-me tão jovem.
Agora estou recolhendo meus bons momentos, pedaços de mim mesmo valiosos que fui deixando por aí.
É o tempo dos recolhimentos.
Lembro-me de situações vividas, tal qual retrata um trecho da poesia Cântico Negro:

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces. Estendendo-me os braços..."

A estas situações, respondi com minha vida, e na mesma verve poética:

"Não, não vou por aí! Só vou por onde me levam meus próprios passos...Se, ao que busco saber nenhum de vós responde, porque me repetis: "vem por aqui!"?"

Agora, vou comprar terra macia para deitar meu pé de Cagaita. Mais tarde, celebrarei minha vida plantando uma árvore. Realizando um sonho, um simples sonho de ter uma Cagaita no jardim.
Creio que por isso eu sinto-me um estranho.
Muitos atravessam a barreira dos 50 despedaçados. arentes de sonhos. Eu tenho um monte deles ainda a realizar. Um tesouro. Muitos carregam seus fardos de viver e chegam aos 50 exaustos. Fragmentados e perdidos de si mesmo. Eu dividi meu fardo com quem fui amando ao longo da vida. Ficou bem melhor a travessia. Aprendi a praticar o perdão, o desapego, a generosidade e a gratidão. Elixires da vida eterna.
Nos embates da vida, alguns acabam por perder a capacidade de voltar e juntar os bons cacos caídos, e reconstituírem-se como pessoa, a cada luta, a cada luto.
Vão deixando-se tomar por atitudes excessivamente individualistas, narcisistas e materialistas, perdem o encanto de viver, depositando este nas coisas que o pó corrói.
Deixam de lutar, crescer como pessoa é lutar.

Eu luto contra a resignação, as rabugices, a descrença, as verdades pétreas, a chatice, o mal humor, o "já vi esse filme". Luto diariamente. Os anos rodados podem nos deixar muito bestas. Temo.
Temo, e travo uma luta diária para não envelhecer meu ser interior.
Sou contradição e recomeços, sempre. E, aprendi que a única pessoa que precisa ficar de bem para comigo mesmo, sou eu. Simples assim. No final, somos nós e o espelho. Assim, se tiver vontade de tomar sorvete com sopa, eu tomo. Vomito etiquetas e padrões socialmente estabelecidos, caso não me façam sentido.
Luto para que criança que habita em meu ser, saia de onde se escondeu
- nas coxias do palco de meu viver, e atue em mim trazendo-me um pouco de sua ousadia, paixão, alegrias simples, recomeços, intrepidez e as suas mágicas brincadeiras com o nada.

Essa criança ferida, amedrontada, tímida e quase sem voz ainda é a minha melhor porção, meu mais potente anticorpos contra a doença do século: a falta de sentido na vida.

Um sentido que vem me ensinando, que o que realmente importa na vida é o respirar amor; e o exalar esperança para todos que lhe rodeiam e para si mesmo. Esperança que tudo vai ser melhor.

O resto, são só folhinhas num calendário encardido que o tempo teima em virar, ano a ano.

Somos Ipês


Andar por Brasília nos meses de agosto,setembro e outubro é como andar num jardim de belas flores, e a céu aberto. Logo cedo dá pra sentir o orvalho da esperança anunciando mais um dia azul anil. As florezinhas do Cerrado, alegres e sapecas, vão se vestindo para nos receber na ante  sala da vida.

É terapêutico passear pelas suas largas avenidas, olhando as diversas espécies que aqui foram plantadas, quando de sua instalação. Cagaita, Cambuí, Pau de Rosas, Canafístula,Cássia, Quaresmeira, Sapucaia, e os estonteantes Ipês.

Os Ipês são quase um patrimônio do Distrito Federal. Quem mora aqui, pode regular o ciclo de sua vida pelas suas floradas. No auge da seca, e da baixa umidade, quando respirar em Brasília fica doentio, eles chegam para nos ajudar a suportar as adversidades do tempo. Primeiro, chegam os Rosas. Depois, os Amarelos. E,agora, os fugidios Brancos. Os brancos passam somente 15 dias de florada. São geniosos. Quem não os fotografou ainda, que se cuide, amanhã poderá ser tarde demais. Acho que os Ipês, nas suas várias espécies e tonalidades, falam de amor.

Os que vão de rosa à lilases brotam no final de julho, inicio de agosto. Eles nos remetem ao amor das paixões, das tesões, da buscas infinitas por algo que nos tornem imortais. Falam de uma vida cor de rosa,uma vida boa,prometida, alegre, uma vida que emerge no "tom de rosa choque". Falam da delicadeza, dos encontros com amigos e das primeiras descobertas afetivas. Eles falam de uma amor ao eu. Um amor de autoestima. Um amor de saber o que nos faz bem e feliz. Um amor de encontros consigo mesmo, de formação de identidades.

Os de flores amarelas revelam sua magnifica do final de agosto para o setembro. Para mim, eles representam os aprendizados com as experiências vividas. O amarelo da sabedoria, do discernimento, do sentido da vida que vamos pulsionando nosso ser. O amarelo das escolhas, escolhas que nos amarelam pelo medo de assumi-las. O amarelo nos encanta, pois sedimenta as paixões, acalma o coração. Eles falam de um amor ao outro. Aos filhos, parceira(o) afetiva(o), aos amigos mais próximos. Um amor de criação de vínculos. Agora eu sei com quem sou feliz. E, quero ficar perto deles, na sombra de ipês amarelos.

Agora, em pleno setembro, chegam as arredias flores dos Ipês Brancos. Eles conseguem manter suas pétalas brancas, mesmo com altas doses de fumaça e poeira no ar. Pessoas sobem os acostamentos para os contemplarem. Outros, divulgam em suas redes os pontos melhores para sua observação. Eles trazem o branco da harmonia, da tolerância, da paz. Eles nos remetem às nuvens, aqui na terra, "venha a nós o Vosso Reino". Eles falam de um amor de nós, um amor à humanidade, a todos os povos e culturas. Um amor de pertencimento a uma causa maior: a causa da coletividade. Um amor de cidadania. Já não somos eu, tu... agora viramos nós - nos vários grupos que nos afiliamos e nos representam.

No dia do Cerrado(11/09), o ciclo das flores dos Ipês nos ensinam a não parar o nosso crescimento interior.

A semear mais ipês rosas onde faltar a paixão. E, nos lugares em que nos perdemos de nós mesmos, achando que somos pequenos demais para existir: rosa neles!

A cultivar mais ipês amarelos, a nos alertar que sem os outros não somos pessoa. Quem sem os amados nossa vida fica sem sabor e encanto. Somos os elos que criamos com aqueles, para os quais, viver vale a pena.

Por último, as floradas dos ipês no Distrito Federal, na exuberância dos ipês brancos, grita a cada esquina que a vida é breve. Que precisamos de tempo para delicadezas, afetos e subjetividades do ser. Tempo para as coisas do Alto. Tempo para o autoconhecimento, tempo para nos afiliarmos a uma causa. Eles nos convidam à contribuição, para edificarmos um outro mundo possível. Melhor do que o encontramos. Impossível ficar ao lado de flores tão frágeis, que desafiam o mês mais seco do DF, sem sentir seu sutil perfume que anuncia profeticamente que a Primavera vem logo ali, e inundará de esperança os corações dos Homens de boa vontade.

Cave um pouco mais, em busca de si mesmo.


Sr. Daniel é o Tio Barnabé do sítio de meu amigo Catão. Catão veio visitar sua filha e trouxe o Daniel. Uma figura rara. De prosa alegre, sempre de bem com a vida, sr. Daniel conhecia cada manha das plantas e bichos que cuidava. Falava deles com orgulho.
Aproveitei sua estada e pedi que ele cavasse uma cova para minha Cagaita, uma planta que adquiri por telefone de um viveiro de Goiânia, e que ainda não chegou. Tem que ter fé.
Ele cavou um buraco decente. Disse ele que em terra ruim tem que cavar profundo, ir além das dificuldades e aprofundar o solo.
Retirar de seu interior o cascalho velho, pedregoso, sem nutrientes e substituir o solo por uma terra adubada.

Ele poderia ter parado aos 40 cm. Até ali a terra era macia, sem maiores dificuldades.

Mas, ao aprofundar o buraco, para chegar ao 1 metro de fundura, ele encontrou um leito compactado, rochoso, de difícil penetração.

Não desanimou, lugar que só trator cava, Sr. Daniel encarou e abriu o solo, terra abaixo, centímetro a centímetro.
"Lasquei-me, o lugar era difícil, era solo ruim...”
Mas, Sr. Daniel não é homem de entregar serviço mal feito, pela metade.
Ele sabia que as raízes dali não passariam e que só aquela cobertura de solo não seria suficiente para o crescimento da planta.
Avançou, sol a pino, lentamente. Mas não desistiu.
Se você olhar atentamente a foto verá a diferença de solo, pelas cores. O mais fofo é mais vermelho, o mais compactado é mais pra bege.
Serviço feito, agora é preencher o buraco com a terra boa e jogar o cascalho estéril fora, só serve de aterro.
Quem gostou do buraco foi o João Gabriel que encontrou logo um esconderijo ideal para suas peraltices.
Sr. Daniel, ou Tia Barnabé dos contos do Monteiro Lobato, são pessoas que amam o que fazem e fazem bem. São quase instituições nos locais em que habitam.
Catão, ao contratá-lo em 2010 não sabia que estava ganhando mais que um empregado rural. Estava ganhando um amigo, um sábio tio Barnabé.
Mas, Catão também é especial e acho que pessoa especiais atraem.
A pouco mais de um ano faleceu Eusa, a esposa do Catão. Eusa era a vida em pessoa. Ocupava todos os recantos daquele pequeno sitio. Uma grande amiga, senti muito sua partida.
Sempre disposta, arranjava mil atividades para Catão e Sr. Daniel. Cada cantinho daquele sitio virava uma espécie de Sítio do Picapau amarelo coma presença de Dona Eusa, uma espécie de Dona Benta, para manter a analogia.

Ela era a bondade e o afeto em pessoa. Rimos muitos das nossas doidices.

Catão e Sr. Daniel sentiram muito a morte fulminante de Eusa, acometida por um câncer no pulmão.
A partir daí eles firmaram mais ainda a amizade. Um cura o outro, e ambos se fazem companhia. Coisa de Deus.

Olhando o buraco pensei no processo de autoconhecimento.
Creio que o autoconhecimento é um buraco que nos permitimos abrir em nosso ser, em nossa autoestima, em nosso orgulho, em nosso mundo de valores.
O autoconhecimento permite que nos aprofundemos em nós mesmos: naquilo que nos faz felizes, nos faz mal, nos amedronta, nos entristece, ou nos torna mais corajosos.

Agora tem que ter muito vigor e determinação para encarar a si mesmo. Não pode parar aos 40 cm.

Tem que se permitir ao mergulho, num processo que não acabará nunca mais.
Quando aprendemos a técnica nunca mais a largamos.
Não é uma técnica de difícil prática, exige apenas não parar à primeira resistência interna. Continuar, centímetro a centímetro a se descobrir.
A identificar as nossas forças, aquilo que nos faz diferentes. E a identificar também os cascalhos em nosso viver.
Capacitando-nos a retirá-los, expurga-los de nosso meio, possibilitando que nosso ser volte a se desenvolver.
O autoconhecimento abre espaço para que nosso interior possa suportar e alimentar o crescimento existencial.
Abre espaço para a renovação, para o descarte do que não faz mais sentido, a convivência com o que não se pode mudar, ou a mudança do que se pode operar e sob o qual temos controle.
Cavemos mais um bocadinho em nossos ser interior. Será que o que incomoda no outro não é o que em nós faz falta?
Será que o que nos entristece não é justamente o que guardamos em nosso interior, tal qual um cascalho sem nutrientes que tudo em que nele se planta é condenado à morte.
Vinga alguma coisa de um solo-coração cheio de cascalho-emoções pobres em ternura, afeto, perdão, esperança, aceitação e gratidão?
Crescer como pessoa é um tanto “arriscoso”. Exige esforço. Disciplina, resiliência e sabedoria. Crescer é dolorido. Precisa disposição para o desapego, para o abandono, para a renúncia, para recomeços, para a liberação de choros contidos e lágrimas represadas, implorando há séculos em nosso ser a sua mais bela expressão.
Crescer é complicado. Melhor reproduzir o ambiente.
Tornar-se mais um.
Melhor fingir que não é conosco, aumentar o som do carro, evitar ficar sozinho, ter aversão ao silêncio, medo de espaços de autoconhecimento, fugindo de qualquer possibilidade de escuta de si mesmo.


E, caso alguma terra boa tenha saído da sua cova interior, junto com a ruim, com o cascalho pobre em nutrientes, devolva-lhe com carinho ao seu interior. São suas forças e virtudes. O que te faz melhor a cada dia. Cuidado, para que no autoconhecimento, no cavocar de si mesmo, não jogue coisas boas de você junto com o cascalho. Entendeu? 


Na vida, existem as ferramentas do Sr. Daniel, avançando em nossos ser, solo adentro, na busca de nossa melhor essência. Elas são: a renovação de nossos valores, a disposição de pautar a vida pela ética e dignidade da vida, os valores, os bons amigos, os relacionamentos de confiança entre parceiros, os feedbacks que vamos recebendo nas instituições que frequentamos, verbais ou não-verbais, a fé, a educação, a meditação, e, não menos importante: a revisão de consciência diária.

Uma bela planta vingará de ti, dando fruto, sombra, flores para abelhas e casais apaixonados, madeiras para mourões como a Cagaita que plantarei.
Cagaita que de tão bela e preciosa, árvore rara do Cerrado, ensina-nos que no outono de nossa vida não precisamos perder todas nossas folhas e ficarmos com galhos expostos.
Podemos fazer como elas, que a cada folha velha e sem pique que cai de sua copa - no outono, faz vingar brotos carmins-avermelhados, dando lugar a tenras e esperançosas folhinhas em seu lugar.
Dispostas a enfrentar mais um ciclo de vida: primavera, verão, inverno, outono.
Assim devemos ser. Trocar folhas velhas por novas, e não nos contentarmos com o mundo que nos rodeia, mas fazer nossa parte para sua renovação.
Algumas folhas precisarão cair em nossa vida para que novos rebentos viguem.
Algum cascalho velho, e sem sentido, deverá ser cavado e descartado, sendo substituído por terra boa.
Para que nunca nos cansemos de viver, de renovar nossos propósitos, sonhos, projetos e fé.

Valeu Sr. Daniel, preciso cavar mais um pouco... e sempre!

Guarde seu lixo emocional na lixeira



Todos os dias passo por essa calçada indo almoçar.
Todos os dias incomodava-me o lixo jogado nela.
Cada um que via a pilha lixo, aproveitava a ocasião, e jogava mais coisas sobre ela.
Lixo atrai lixo. É a Teoria das Janelas Quebradas:
 “O vidro quebrado num automóvel abandonado transmite a ideia de deterioração, desinteresse e despreocupação, como se não houvesse regras ou normas de convivência, como se alguém dissesse: “aqui vale tudo”. E a cada novo ataque ao automóvel, reafirma-se e multiplica-se essa ideia, até que a escalada de atos cada vez piores se torna incontrolável, desembocando numa violência irracional.”

Então, que seja, a cada dia a montanha de lixo estava ali. Fétida, atrapalhando a vida de quem trafegava naquelas calçadas. Enfeiando a paisagem.

Ontem fiquei serelepe de alegria. Num é que a calçada estava limpinha, limpinha.
Intrigado achei o motivo. Acho que um dos moradores dos prédios à frente saiu da posição da crítica, do lugar de observador, e agiu.
Fez o que nem sempre faço. Ponto pra ele.
Com um simples cartaz, ele(a) estimulou a população a depositar seu lixo no lugar correto: “Na lixeira, próximo a faixa de pedestre”.
Hoje, passei novamente e ela continuava limpinha. Até cheirando estava.
Por anos a fio aquele lugar foi associado culturalmente a um depósito de lixo.
Quando eu reclamava, alguns amigos me diziam, é da cultura do povo, não muda.
Mudou. Mudou por uma reeducação postural.
Tenho atendido a muitas pessoas que estão com lixo em suas calçadas interiores. Pessoas aflitas, desanimadas com a vida, tristes, e com indícios de depressão leve à moderada.
Mais preocupante ainda é o alerta de que até 2020, a depressão poderá ser a 2ª causa de doenças incapacitantes no mundo, alerta a Organização Mundial de Saúde (OMS).
Quem me lê e sente-se cansado, sem ânimo, triste, abatido sabe o que é uma calçada interior cheio de lixo emocional.

Tem muita gente sofrendo e precisando de ajuda. A psiquiatria moderna não consegue mais do que aliviar os sintomas, as psicoterapias são lentas e caras.
E o cidadão comum, educado para vencer, ao se deparar com perdas, frustrações, negações de expectativas vai definhando.
As pessoas acometidas desse profundo estado de desânimo não encontram forças para dele saírem.
O desânimo invade todas as áreas. O sol brilha menos, o céu fica turvo, a comida insossa, a libido desaparece.
E os amigos parecem distantes.
Olhos vazios, focam um infinito sombrio.
Deprimidos sofrem. Sofrem consigo mesmos, por não se aceitarem na condição de apatia.
Sofrem ao perceberem que foram notados.
Sofrem ao negarem participar de eventos que antes eram tão prazerosos.
Deprimidos aprendem a depositar o lixo interior, aquele que lhe faz mal, em todas as áreas de suas vidas.
Vão se isolando, morrendo aos poucos ainda em vida.
Como morria aquela calçada.
A calçada é lugar de passeio, de fluidez e de travessias. Quando entulhamos nossa calçada interior com todo tipo de tranqueira emocional, todo tipo de lixo, tudo que não presta vai sendo depositado ali, acumulando-se sem processamento, ao léu em nosso coração.
Precisamos de uma área para depositar nosso lixo interior. Um lugar em nosso coração que o lixo emocional seja guardado, e aguarde o seu próprio tempo de decomposição, de processamento, de maturar a dor, a exemplo da “lixeira perto da faixa”.
Se você que me lê sente-se assim, lembre-se em afixar uma placa dessa da foto em seu coração.
Não digo-lhe que será fácil. Mas digo-lhe que é possível vencer a depressão com uma reeducação emocional. Com o uso de forças deliberadas da razão.
Assim como foi feita naquela calçada e seu lixo. Que com a força da educação transferiu-se para uma área determinada – a lixeira.
Tenho estudados três correntes da psicologia que vêm obtendo significativos avanços no tratamento da epidemia do século: A Logoterapia, a Terapia Cognitiva, e a Psicologia Positiva (ou do Bem-Estar/Florescer).
Comum a todas a firme decisão de sair do buraco. De recolher o lixo e levá-lo para um único canto do ser.
Ou seja, em comum há a razão combatendo a emoção negativa.
Uma das formas de resgatar-se de um processo depressivo é focar nas virtudes. Todos as têm.
Segundo a Psicologia Positiva temos um conjunto de forças que poderão ajudar no transporte do lixo. Martin Seligman & Christopher Peterson descrevem 24 virtudes, agrupadas em seis categorias.
Esse inventário de virtudes está disponível na rede para você fazer. Veja ao término desse texto.
Para os papas da psicologia positiva, transfere-se o lixo de nosso emocional para um canto compartimentado de nosso ser, quando conhecemos nossas principais forças e as usamos para renascer, ou florescer, como eles costumam dizer.
Veja as 24 forças, agrupadas em seis categorias de virtudes:

I. SABEDORIA E CONHECIMENTO

1. Curiosidade / Interesse pelo mundo
2. Gosto pela aprendizagem
3. Discernimento/Pensamento Crítico/Imparcialidade
4. Engenhosidade/ Originalidade/ Inteligência prática / Esperteza
5. Inteligência Social/ Inteligência Pessoal/ Inteligência Emocional
6. Perspectiva (forma de enxergar o mundo)

II. CORAGEM

7. Bravura/ Valentia
8. Perseverança/ Dinamismo/ Diligência
9. Integridade/ Autenticidade/ Honestidade

III. HUMANIDADE

10. Bondade/ Generosidade
11. Amor/ Capacidade de ser amado

IV. JUSTIÇA

12. Cidadania/ Dever/ Espírito de Equipe/ Lealdade
13. Imparcialidade/ Equidade
14. Liderança

V. TEMPERANÇA

15. Autocontrole
16. Prudência/ Discrição/ Cuidado
17. Humildade/ Modéstia

VI. TRANSCENDÊNCIA

18. Apreciação da beleza e da excelência
19. Gratidão
20. Esperança/ Otimismo/ Responsabilidade com o futuro
21. Espiritualidade/ Senso de Propósito/ Fé/ Religiosidade
22. Perdão/ Misericórdia
23. Bom humor/ Graça
24. Animação/ Paixão/ Entusiasmo

Essa abordagem, que foca em aspectos sadios de nosso ser, expandindo-os para outras áreas, tem dado muito certo em várias partes do planeta, em casos rigorosamente documentados.
Quem está cansado, mórbido e triste acaba se vendo assim em todas as áreas d a vida e perdendo o vigor.
Se você que me lê está assim, peço-lhe calma.
Você conseguirá atingir um outro estado do ser, o do bem-estar, a partir de exercícios simples que remodelaram sua forma de perceber o mundo, opaca pelas lentes da apatia.
São três exercícios:
1. Conte as coisas boas que acontece em seu dia, as suas bênçãos, e as anote num diário. Ao lado delas, tente registrar o porquê delas terem acontecido. No mínimo três por dia, durante 15 dias.
2. Pratique um gesto de bondade diário. Por 30 dias.
3. Faça três elogios verdadeiros, durante 1 semana – A Semana do Elogio.
4. Uma vez por semana, pratique a “visita da gratidão”. Encontre-se com alguém para com quem tem uma dívida de gratidão e revele o quanto a pessoa lhe foi importante, em determinado momento e circunstância da vida.
5. Faça cartas para quem ama (uma por semana). Pode ser e-mail, mas nada substitui recebê-las pelos Correios.
6. Diariamente tente fazer uma coisa que já gostou e que não gosta mais, mesmos em querer. Faça como se fosse um remédio que toma. Se gosta de cinema e não tem mais vontade. Uma vez por semana tome o remédio Cinema.
7. Durante cinco semanas pratique as cinco primeiras virtudes que lhe são mais fortes. Uma por semana, veja quais são seguindo o passo a passo abaixo.

http://www.viacharacter.org/Survey/Account/Register

1. Na área  Register To Get Started. Trocar o idioma para Portugal (Brasileiro)
2. Fazer o registro
3. Teclar "Registrer"
4. Marcar a caixa: "Eu quero preencher o questionário VIA-IS"
5. Faça o questionário
6. Envie
7. Não preencha nada em DEMOGRAPHIC DATA
8. Clique em Complet Survey
9. No rodapé da folha faça o download dos seus resultados.
10. Os resultados são apresentados por ordem de força das virtudes em você, das maiores às menores.

Lute, um dia de cada vez. Permita-se florescer. Use suas forças para renovar seu ânimo, encontre um sentido no próprio sentido de sobreviver, de lutar contra a aflição, o tédio e a tristeza que alguma vez possa assolar tua alma. Quero dizer-lhe que acredito em ti. Que você tem valor. que só está cansado das pancadas, mas que aprenderá a olhar o lado bom da vida, aquela que por ela vale a pena viver.

Tangendo a Boiada de Emoções Negativas


Existem sentimentos difíceis de serem processados: a mágoa, a calúnia,o rancor, a intriga, a culpa, a ingratidão e o amor não percebido. São os sete portais da dor emocional. Os livros de autoajuda ensinam, ensinam, ensinam, mas nada funciona. Os orantes idem. Psicólogos de todas as espécies entram em campo, e só tomam de goleada.
Esses tropeços emocionais arranham nosso disco de sentimental. E, por horas, dias, meses, ou até anos, ficamos tocando aquele pedaço só: empacados num trecho melodioso de dor, e em dó maior.
Já comeu algo que te deu indigestão?
Que te fez arrotar por dias?
Que só de lembrar a cabeça dói?
Pois bem, existem as indigestões da alma.
Coisas que entram atravessadas em nosso ser e nos abalam emocionalmente.
Em alguns casos, sugam de nós o viço e a motivação.
Processar esses sentimentos, convertendo-os em algo útil ao nosso crescimento é um desafio, digno de por ele ser vivido.
Mas, nada fácil.
Não é tão fácil virar a página, como os manuais e vídeos motivacionais apregoam.
Quem já foi vítima de uma injustiça sabe bem de que falo, de uma calúnia, de uma armação ou intriga.
Quem foi vítima da vaidade e invejas da corte, quem teve que engolir sapos para sobreviver, idem.
A verdade é que protegemos demais nossa autoimagem. Nos levamos a sério demais, E, não somos capacitados para sobreviver à frustração.
Sempre sofri muito com isso tudo.
Sofro de má digestão emocional.
Tenho azias homéricas de sentimentos mal digeridos.
Nos últimos anos tenho melhorado. Não curei. Ainda sofro mais do que devia com coisas sobre as quais não tenho controle. Mas noto em mim progressos.
Queria compartilhar contigo o que faço e vem dando bons resultados.
Eu virei um aboiador de sentimentos ruins.
Quando percebo que eles estão chegando os tanjo, qual tange-se uma boiada.
Luto contra a baixa autoestima com a razão.
Se vai chegando em mim aquela frequencia de desamor, mudo a estação imediatamente.
Se vai chegando em mim aquela frequencia de uma mágoa, troco a estação.
Como?
Penso racionalmente em outra coisas.
Falo com minha voz interior que está me azucrinando que ela pare. Que tenho mais o que fazer. E boto outros pensamentos pra rodar no meu HD.
Somos o que pensamos.
Não me curo pela emoção, pelo sentimental. Curo-me pela razão. Torno-me presente quando o sentimento ruim vem chegando. Identifico-lhe e, em cima dele, trabalho outros temas. Não querendo mudá-lo. Quem já sofreu, sabe que não adianta nada fingir que não dói. Dói. E a dor invade várias área de nosso ser. Chupa nossa essência. Tira nosso brilho, nos faz definhar.
Então eu luto, não contra a dor, mas desviando sua força para ela mesma. Qual artes marciais.
Luto, remodelando meus pensamentos para áreas que estão legais e que me sinto bem. Se não posso mudar uma situação, posso mudar a forma como por ela me deixo abater. Pense nisso! Aprenda com o acontecido, e, reprograme seus pensamentos para calar a voz interior que fica arranhada nessa cena de dor e melancolia. Salte a faixa arranhada do disco de seu viver. Como? Conscientemente. Coloque outros pensares para processar, assim virão outros agires.

Nas ondas do amor


Volto cansado após mais uma aula. Cada vez temos que nos esforçar mais para despertar a atenção de nossos alunos. Entro no carro e imagino que ainda estou a 30 km de casa. Os carros voam, passam por mim jogando-me para além da faixa dos lerdos. Todos querem chegar logo em casa. Pensativo, dirijo devagarinho, procurando me concentrar nas voz dos locutores de rádio. Vou zapeando, procurando propagandas, programas de auditório, comentaristas e postais sonoro. Gosto de programas de rádio bem populares. Sinto vida neles. Mas, gosto mesmo é de zapear pelas emissoras, até em AMs.
Ontem não conseguir tirar de uma rádio que achei. Fiquei hipnotizado. Não tive coragem de mudar o seletor. Passava um programa interessante. De um lado da linha, um pastor. Do outro, pessoas que queriam mandar uma mensagem para os apenados da Papuda, maior Complexo Penitenciário destas bandas.
Não havia comunicação com os apenados. Imagino-os coladinhos no rádio, ansiosos por receberem uma mensagem dos seus. O pastor cronometrava o tempo rigidamente, como quem sabe o valor daquelas mensagens para quem teve a liberdade cerceada por sua culpa, sua tão grande culpa. Ele queria otmizar a participação. Tá certo.
Eram filhos, mães, mulheres, irmãs... Cada um deles tinha uns 15 segundos. E, naquele 1/4 de minuto sempre saia algo belo. Algo especial a dizerem. Durante uns 20 minutos fiquei chorando sozinho, a cada telefonema que tocava no celular do pastor, e que ele botava o áudio ao vivo no ar. Imagino o frisson nas celas, com muitos apenados sintonizados na emissora e ouvindo aqueles acalantos.
As mensagens começavam tímidas, depois iam criando emoção. O pastor incentivava a produção, conduzindo para preces. O povo o desobedecia. rsrs Confesso que não ouvi muitas preces. Mas, ouvi muitas preces, as preces maiores, as do amor, da esperança, da confiança no outro.
Escute comigo algumas das frases que não me deixaram dormir ao chegar da aula.
"Baby, eu te amo, não desista!".
"A casa está ok".
"Nossos filhos mandam lembranças".
"Escute aqui, ele aqui falando: diz alô para o papai, vai...".
"Aqui quem fala é sua mãe, tenha força e fé meu filho."
"Estive com o advogado e ele vai pedir nova audiência".
"Avisa ao José que a Fátima está boa."
"Aqui está faltando de um tudo, mas o pessoal tem ajudado."
"Não se preocupe conosco. Cuide de você."
"Estou com saudades...não tenho podido faltar o trabalho pra te ver nas quartas".


São, ou não são, verdadeira preces? Feliz de quem sente o amor.
Feliz de quem se sente amado. Não tenho dúvidas de que cada um daqueles apenados, mesmo sem poderem interagir com as ligações, sentiram-se amados, abraçados, e naquela noite, estimulados a mudarem - nem que seja pela fração do tempo em que sentiram-se privilegiados de ouvirem seus nomes, em súplicas de desejantes.


O amor pede expressões, gestos, atitudes concretas. Pede telefonemas esperançosos para um pastor numa rádio qualquer, torcendo para que um radinho de pilhas esteja encostado no ouvido de quem se ama, e sintonizado naquela emissora.


Aquelas mulheres são a expressão do amor. Chorei com elas pelos seus amados.


A humanidade está carente de demonstrações de afeto, de amor, de cuidado, de interesse genuíno pelo outro. Mas, é só prover as condições que o amor brota e se revela em formas mil.


Com licença, nessa noite o amor pede passagem! Vou ali fazer meu gesto.

Moradas


Nesse domingo curto a casa

da árvore do JG. 
Ele diverte-se com lançamentos
de brinquedo no pai. 
Diverte-se mais ainda pulando
a janela e me deixando preso no interior. 
A tramela da porta da frente fecha por fora.
Uma questão de segurança que não pensou na traquinice de meu filho ao prender o pai. 
Depois de alguns apelos infrutíferos, ele vem me soltar. Rimos os dois. 

Aquela cena compensou a frustração de ter rodado 80 km, até Sobradinho-DF - ida e volta, e não ter visto o filho caçula. 

É que hoje saímos de casa cedinho com o firme propósito de visitar o jovem casal, na sua morada nova. Contudo, Rodrigo e Carol não estavam em casa. 

Tinham ido comprar pratos e talheres. Pensei, sou mesmo nordestino que cisma em visitar as pessoas queridas sem se anunciar antes, só pelo prazer da surpresa. Na semana que passou, assinei mais dois contratos de morada dos filhos. O do Tiago & Carol e o da Priscila & Hugo. 

Todos agora possuem um CEP alugado e pra chamar de seu aqui no DF. 

Agora todos os meus filhos possuem suas próprias tocas. Agora eles começam de fato suas construções interiores. 
Seus voos para um lugar no infinito, tão perto, tão longe.

Fico pensando no quanto somos caverna, toca, buraco, tenda, oca, gruta, cabana, casa, apartamento e , árvore e catedral. Somos morada. Um ethos que se faz sentido no nós. 
No fundo, queremos um lugar pra acender a fogueira, pintar as paredes, nos proteger, alimentar, orar, repousar e celebrar o desafio e a beleza de viver.
Estou lendo um livro do Seligman que me remete à beleza das moradas. Chama-se Florescer. Ele fala do que realmente importa para o bem estar: Emoções positivas, engajamento, relacionamentos saudáveis, sentido de propósito e realizações.
A busca da primeira morada, longe do ninho dos pais, tem dos cinco elementos do bem-estar um pouquinho de cada, por isso tão gostosa a sensação. 

A noite se aproxima. Vem ofegante abocanhando os mais tenros raios de luz, então vou na cozinha e preparo um capuccino, está frio.
Aproveito pra ligar para meus pais. Quem atende é Celina, que mora com eles há 20 anos. 
Celina pergunta-me se eu tava vendo na TV as cenas do enterro do Eduardo Campos.
Respondi-lhe que não, que optei por não ligar a televisão nesse domingo.
Mas, que como o tema do que estava escrevendo era sobre morada, aproveito para dizer:lhe: Celina, não se entristeça teu coração: "na casa do Pai há muitas moradas".
E, com certeza ele será recebido por lá. 
Todas as outras moradas acabarão um dia virando pó.
A única morada que ficará de pé, 
quando tudo for caos, é a de um espírito órfão que todos os dias chora e suplica em nosso peito com saudades do regaço de seu Pai.
Mas, só Ele saberá a hora e dia do encontro.
Podemos até estar tomando cafezinho num lugar em que um avião cairá, em poucos minutos, e de lá ter saído a tempo de não ter acontecido nada, e, ao orar agradecendo, uma porta passar voando por cima, motivada pela explosão do querosene do avião que jaz no quintal. Não era o dia.
Aí escuto um sussurro dizendo-me: "bota umas linhas Minhas aí na tua crônica". 

Obedeço.

"Ei, enquanto não Te chamo, contribua em tornar esse mundo melhor do que encontrou. Este é o valor do bilhete para a eternidade, um lugar em que cada lágrima tua, de choro ou riso, fez germinar frutos de um banquete de vida plena que tu ainda irás prová-lo."

Pequenas mudanças, grandes resultados.


Era um sábado de noite bela.
Meu irmão convidou-nos a inaugurar seu forno de pizza.
Adoro inaugurações, comemorações, celebrações de qualquer natureza. A vida pede pausas e marcações no tempo, feitas para eternizar momentos.
Botamos a lenha no fogo.
Nem ele nem eu tínhamos a mínima ideia do quanto precisaria de lenha. Fomos aos pucos. e, acompanhando no termômetro. entrei no Pai Google e vi que o forno tinha que chegar a uns 200 graus. Chegou a 100 e nada de passar daí. Tomávamos uns drinques, sempre botando mais lenha e olhando o termômetro.
Aí o Guga teve uma sacada. A lenha estava sendo colocada errada, em montinhos e no sentido vertical, uma por cima da outra.
Só queimava a extremidade interna.
Só uma das pontas.
O certo seria colocá-la no sentido horizontal, por cima das tenras brasas, para que toda sua extensão pegasse fogo.
Aumentando em 100%, no mínimo, a área de combustão.
Não deu dois minutos e o termômetro foi para 250...
E tome brindes. Ficamos alegres qual crianças que ganham sorvete.
Pronto, o forno estava aquecido.
Na bancada, minha sobrinha preparava a massa com a base de molho de tomates e os ingredientes. A que inauguraria o forno seria a do JG. ele recebeu essa honraria do tio. E foi uma calabresa. Dez minutos de forno foram suficientes
Dez minutos depois, saia uma pizza suculenta, tostadinha por fora e macia por dentro. Uma delícia. Se o JG não corre não sobrava nada pra ele. A noite era de comunhão familiar.
Umas cinco pizzas à frente fiquei pensativo. Minha caraminhola começara a processar o apreendido.
A diferença entre queimar só uma parte de si mesmo, quando nos envolvemos com algo, e o entregar-se totalmente. doar-se totalmente, mergulhar com paixão dando o melhor de si naquilo que faz ou sente.
Todos somos omo esse pedaço de lenha de madeira. As coisas com as quais nos vinculamos geram fogo, aquecem nosso coração.
Dão motivos, propósitos, e porquês viver.
O problema é quando não colocamos todo nosso potencial, ou pior, quando as pessoas que nos cercam não têm o dom de sacar nosso potencial e melhor aproveitá-lo. .
Não têm a sacada que meu irmão teve, ao perceber que o potencial daquela lenha, para a combustão, estava sendo parcialmente atendido.
Quantas famílias castram o potencial de seus filhos, super protegendo-os.
Quantos gestores castram o potencial de seus funcionários, repreendendo-os à menor falha.
Quantos relacionamentos afetivos são fogo baixo. Um deles, ou os dois, em jogos dramáticos, passa a diminuir a labareda do outro, anulá-la. O que antes era admiração agora é ódio velado. Chiste, rancor, ironias nada finas. Foca-se no que dá errado e deixa-se de admirar o outro.
Um parceiro anula o potencial do outro. Deixando de incentivá-lo, estimulá-lo a crescer, de acreditar que ele é capaz de superar e vencer as dificuldades.
Sê inteiro em tudo que tocas. Coloque mais disciplina, mais vigor, mais paixão na tua vida. Identifique áreas nais quais um simples girar da lenha seca poderá fazê-las funcionar melhor.
Entendeu a metáfora?
Mude comportamentos, ou se mude de comportamentos, mas não se anule, ou deixe que outros anulem a beleza da chama que aguarda sua vocação. Há séculos adormecida em teu peito.
Fomos feitos para ser luz. Não adormeça teus sonhos. Construa-os, chama à chama, lenha á lenha.
Quem sabe não é a tua posição perante a vida que está adormecendo potenciais em teu ser? Assim como a madeira na vertical, citada no início desse texto.
Pense nisso, e não se acostume com o que faz infeliz, com a mediocridade. Antes de culpar os outros, renove esperanças e lute pelo seu espaço da chama, no forno vital de teu coração.
Sinta o crepitar de teus sonhos aquecendo teu coração.
Verás que logo logo muitos procurarão morada em teu peito, nos dias friorentos pelos quais passa a humanidade. Um frio de valores.

Efeitos da marcas dos outros em nós.


O sábado era frio em Brasília-DF, uns 12 graus, um frio desses é algo incomum por estas bandas.

Na cozinha da casa do Ricardo e Cristiane, deliciávamos-nos com um cafezinho recém passado, acompanhando por biscoito de queijo, além de uma prosa revigorante.

Uma bênção poder frequentar a cozinha de amigos.

Entre um pão de queijo e outro, o Ricardo me convida para conhecer seu Atelier, de arte em concreto, localizado no terreno aos fundos de sua casa.

Fui logo vendo a limpeza da oficina: cimentos, ferro, prensa, tinas para cura, formas, tintas e pinceis, troncos de árvores, tudo numa ordem e limpeza impecáveis.

Mais à frente algumas peças prontas, aguardando a entrega e outras curando em água.

Engulo em seco quando as vejo. Sempre admirei peças de madeira velhas, tipo dormentes, portais, roletes de tronco, madeira de demolição.

Creio que elas carregam uma história, quase falam.

Com o boom de sua utilização, encontrar madeiras de demolições a preço acessível tem se tornado uma luta inglória. Tem até gente que dá um jeito para envelhecer umas madeiras e enganar os clientes.

As peças em concreto que o Ricardo produz são imitações fieis das que sempre procurei comprar. Até as marcas de pregos retorcidos nelas estão presentes.

Falhas nas madeiras, sulcos que o tempo esculpiu, vales, grutas, fendas e montanhas na madeira existente, nada escapa à arte.

Fiquei embevecido e encomendei 5 dormentes. Sempre quis ter dormentes em casa, e esse que comprei agora é mais sustentável.

E a um preço 200% inferior ao tradicional, hoje vendido em lojas de decoração.

Muitas árvores velhas estão sendo abatidas para que delas se extraiam lascas dos troncos que deem tábuas decorativas, uma pena.

Queria um milhão de “atelieres” do Ricardo, de arte em concreto, para que essas irmãs-árvores centenárias pudessem viver em paz.

Ele consegue reproduzir tudo, até uma tábua de tronco do cerrado, cheio de gomos que mais parecem uma cortiça, está à venda.

Ele me diz que é um garimpeiro de troncos velhos, procurando-os como tesouros pelas marcenarias, restos de demolição, derrubadas, ou até nas casas de amigos.

Ao encontrá-los, os imita numa arte que embevece os olhos.

Primeiro, ele prepara a peça de concreto, sempre com hastes de ferro em seu interior para reforçarem a estrutura. Depois, com o concreto moldado, e ainda macio na forma, ele molda o tronco escolhido na mesma, usando a força de uma prensa hidráulica.

Em seguida, começa a arte, propriamente dita, que é a reprodução fidedigna das cores – no produto recém moldado, utilizando-se como modelo as tábuas escolhidas para tal finalidade, retirando da prensa as tábuas que serviram de modelo.

Após sua limpeza, elas “posam” de modelo para que sobre peças ainda monocromáticas, sem graça e formosura, vá depositando uma variedade enorme de tons sobre tons, tornando-as, agora, coloridas que ficaram bem parecidas com aquelas peças que em si fizeram morada por um tempo, nem que seja no útero de uma prensa hidráulica.

As cores são os sorrisos da vida.

Aquele velho tronco, aquela velha tábua, agora toda formosa se embeleza e numa altivez impressionante posa para que nas mãos do artista um quadro dela própria seja pintado no frio e distante cimento duro.

No final, de tão perfeito que fica, só se descobre o que é madeira, e o que é concreto, se tocarmos nas peças.

Cada deck com elas feitas, cada revestimento, cada piso, semeia um pouco de esperança na preservação e sustentabilidade de nossas madeiras de lei: Castanheira-do-Pará, Copaíba, Cerejeira, Pau Brasil, Ipê- amarelo, Carnaúba, Angelim-Pedra, Cedro, Andiroba, Aroeira, Jequitibá, etc...

Ricardo sorridente diz que guarda os moldes, ao final de cada prensagem. Eles são tesouros. Um molde bom transmite para umas 1000 peças adiante suas marcas, suas cores, ou seja sua forma.

Podem ser diferentes, o modelo e a pintura final, contudo entre si guardam semelhanças profundas, tal qual a modelo secreta da Monalisa de Michelangelo.

Com certeza tinha um sorriso discreto e que sorria com o ser.

Notando que eu estava embevecido, ele convida-me para seguir terreno abaixo, mostrando as aplicações de sua arte no jardim, pomar e horta.

Fiquei profundamente tocado naquele dia. Voltei pra casa pensando em quantas pessoas deixaram suas marcas em mim.

Meus pais, irmãos, amigos, afetos, filhos, mulheres amadas, namoradas, ficadas, os amigos da Ong GAV, do EJC, do ECC, dos grupos jovens e das pastorais da Paróquia do Rosário, do Banorte, das Damas, do BB.

Outros amigos, mais recentes, continuam a esculpir a obra de Deus em meu ser. Esculpem em mim seus talentos tais como os amigos Metodistas, os da UniBB, os da Ditec, os meus alunos e professores da Unip, Católica e Ibmec, os do Facebook e tantos outros que tive a felicidade de conviver nos cursos e palestras que ministrei.

Carregamos as marcas de tantas pessoas com as quais convivemos ou tenhamos cruzado pela vida afora.

Também podemos deixar marcas nos outros.

Marcas podem ser boas, nos elevarem, esculpirem em nós novas criaturas.

Por isso é fundamental, pela vida afora, encontrar bons troncos para conviver. Árvores boas, mansas, sábias que com certeza, pelo exemplo, lhe tornará uma pessoa melhor ao conviver com elas.

E, caso tenha convivido com gente má, infeliz, pessimista e medíocre – cuidado para não ter ficado com os seus sulcos, suas marcas, impressas em teu ser, mesmo que seja em teu inconsciente.

Um famoso estudioso da aprendizagem, Piaget, descobriu que uma das formas mais utilizadas pelo nosso cérebro para aprender é a imitação.

Esse é o perigo de se conviver com troncos podres, eles podem moldar em nós suas piores características.

Outro perigo são os sepulcros caiados. Pessoas que por fora aparentam uma coisa e que na verdade, em sua essência, são outra. Ardilosos, manipuladores, enganadores de toda natureza, fingem a mais correta atitude: perigo, tudo fachada.

Na metáfora com o atelier de arte em concreto, são os troncos falsos. Que por fora são belos, íntegros, fortes... mas em seu interior habita famílias de cupins. A madeira então, aquele belo exemplar cujas característica irão ser imitadas, não aguenta a pressão e rompe-se ao menor esforço da prensa hidráulica. Sua estrutura desmorona, cede ao teste da força.

Outras madeiras hipócritas são aquelas que madeireiros sem escrúpulo a envelhecem na marra, enterrando-as em terreno úmido por um ano. Após o que, as mesmas ficam com aparência de velhos dormentes, tábuas e portais antigos. Muito valiosos. Pura enganação. Na verdade, esse processo mentiroso de envelhecimento afeta a estrutura interior da madeira apodrecendo-a internamente. Então, ao ser prensada ela rompe-se facilmente.

Meu amigo Ricardo, contou-me que esse é o maior problema: distinguir troncos-modelo verdadeiros dos falsos, e aí só no dia a dia mesmo. Lembra aquelas pessoas que no mundo lá fora são uns cordeirinhos, uns anjos de retidão. Contudo, entre quatro paredes revelam-se lobos predadores de toda autoestima existente, de toda boniteza da alma que encontre.

São feras sanguinárias da família e de quem lhe rodeia mais de perto.

Fariseus que pregam uma coisa e fazem outra.

Fiquei matutando como isso é parecido conosco. Quantos tidos como exemplos, como baraúnas sagradas, quando se encontram sob pressão, seja da ambição, do dinheiro, do poder, da fama, revelam quem de fato são: troncos carcomidos, almas corroídas, espíritos de porco.

Como distinguir então? Procure os frutos de líder-exemplo. Frutos são gestos concretos de compaixão, de solidariedade, de amor, de perdão, de ética, de honestidade, de justiça, de gentileza, de misericórdia, de educação e de respeito aos seres humanos.

Simulacros de exemplos, sepulcros caiados, não frutificam...

Essa recomendação é muito útil em tempos de eleição também.

A boa notícia é que a fé, o autoconhecimento, a educação e a consciência crítica funcionam como o atelier do Ricardo. Produzem mudanças, transformações significativas usando a força da poesia, da arte, do amor. Conseguem até revitalizar madeiras podres por dentro ou cheias de cupins na alma.

A educação, aliada ao autoconhecimento e amor, criam condições para que a autonomia do ser, seu eterno vir a ser, aconteça e transforme realidades, tidas antes como imitáveis..., perdidas.

Essa tríade mágica: amor, educação e autoconhecimento, pode transformar a pior forma impregnada em nossos ser, em algo belo, e pelo de sentido da vida.

Ela transforma velhos seres, em novas criaturas. Agem como o atelier do Ricardo.

A força da tríade processa para melhor os preconceitos, traumas e mágoas; além de lavar os corações encanecidos pela dor, culpa e luto.

Tornando novas, as velhas criaturas moldadas ao longo da vida e do viver pelos troncos feios e podres com os quais conviveram.

Prepare sua estrutura do ser para deixar-se novamente moldar, leve-se á prensa hidráulica da mudança, procure exemplos que em si carreguem o que realmente importa: a paz, a gratidão, a ética, a justiça, a bondade...

Leve-se ao “Atelier de Concreto do Ricardo”, procure um bom modelo para aprender com ele novas maneiras de agir e ser.

Caso ainda assim esteja difícil mudar, quem sabe não é a hora de ajoelhar e pedir ao bom Deus que interceda.

O Espírito Santo tem a força de milhares de prensas hidráulicas alterando seres já petrificados, formados, e endurecidos pela força do concreto e ferro da realidade do viver.

Peças já moldadas e secas, paras as quais o Atelier do Ricardo não conseguiria mais nelas imprimir novas peças. E que só restaria destruí-las para aproveitar a ferragem interior.

Mesmos essas peças, já prontas, Deus não as destrói. Ele converte água em vinho no coração delas, transmutando-as numa vontade de sentido em novas criaturas.

Mesmo que a madeira de lei de seu ser interior esteja cheio de sulcos, marcas, cicatrizes de pessoas ruins, sempre é tempo.

Desaprenda velhas lições e comportamentos e permita-se a um outro ser possível.

Os bons exemplos, a educação, o amor e a fé libertadora podem transformar pessoas e a própria humanidade.

Criando espaço fecundos em autonomia, valores, consciência crítica e agir político-cidadão, que nos libertarão de condicionamentos emocionais, ou os sócios históricos, que já não fazem mais sentido e nos empobrecem como coletividade.

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Quem quiser visitar a obra do Ricardo é só acessar: 

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