Longevidade, Envelhescência e os Novos Velhos (Ricardo F.Barros)

Palestra na ABRAPP, comemorativa do Dia dos Aposentados, realizada em SP.
Você que me dá a honra de parar o que está fazendo para me ler poderia responder a uma pergunta? 

Quais seus objetivos para realizar dos 80 aos 100 anos de idade?

Podem ser pessoais, familiares, profissionais, culturais, acadêmicos, esportivos, sociais e até espirituais. 
O que seja.

Se eu te fizesse esta pergunta há vinte anos atrás você diria que a pergunta era absurda. 

Mas, eu aposto que você conhece alguém que já fez oitenta anos. Por exemplo, o Papa Francisco e Martinho da Vila. 

Estamos vivendo uma revolução dos modos de ser, fazer e acontecer da velhice. E é um fenômeno mundial. 

Este movimento de reinvenção do ser idoso tem sido chamado de Os Novos Velhos.

E da mesma forma que eles puxaram, do alto de seus 20 e pouco anos as revoluções culturais e civis, das décadas de 60-70, agora eles puxam a revolução da negação da inatividade. 

Uauuu.

Passaram a estudar novamente, praticar esportes e hobbies, passear e produzir. E estão dando um show de longevidade ativa. 

Lógico, que nem todos acompanham no mesmo ritmo, é mudança cultural, e ainda têm os que se consideram "aposentados", que desistiram de continuar assombrados e encantados com o viver. 

Contudo, que bela energia grisalha está vindo. Aquela que transformará bengalas em cajados.

Abasteça seu bebedouro com néctar. (Por Ricardo de Faria Barros)

Há alguns dias voltei de merecidas férias e aos poucos restabeleci a desordem de meu apartamento. rsrs
Uma das primeiras coisas que fiz foi encher os bebedouros de meus pássaros de janela, que estavam sem reposição desde a virada do ano. Ou seja, há 20 dias. Coloco neles um pó violeta chamado de Néctar que compro em Pets Shops, misturo com água, e está feita a bebida deles que durará alguns dias. Vê-los alimentando-se rejuvenesce esperanças. É terapêutico e tem sido motivo de inspiração para mim. Já os conheço bem. Têm os Sanhaços, azuis, os Xexeus, laranja e preto, os Canários, amarelos, Beija-Flores, furta-cores.

Moro no sexto andar, e os janelões são margeados pelas copas das árvores, o que também favorece esta aproximação.
Acontece que ando órfão deles. Como deixei de alimentá-los, extingui neles o hábito, e eles cessaram de alegrarem meu lar com a sua presença, pelo menos por enquanto.

Mas, não desisto de repor a água do bebedouros, cujo calor inclemente que tem feito aqui pelas bandas do Planalto Central tem evaporado considerável quantia, todos os dias.

Não desistirei deles.

Creio que estes bebedouros são uma poderosa metáfora de nossas emoções e pensamentos positivos.
Já notou que nos sentimos bem perto de pessoas que expressam emoções do bem, do tipo da paz, do perdão, da misericórdia, da esperança, da gratidão e amor?
E que também nos sentimos muito bem perto de pessoas que colocam para nós seus pensamentos mais edificantes, que nos acolhem, nos incentivam, nos reconhecem, nos estimulam, em palavras tão cheias de ternura e fé, qual o néctar que coloco todos os dias.
Em tempos de grave epidemia mundial da Síndrome da Intolerância a Gente, doença por mim definida noutra crônica, precisamos cuidar de nossos bebedouros existenciais.
Precisamos renovar nosso néctar, diariamente, para que pessoas possam se aproximar de nós, se alimentar de nossos valores, sonhos, ideais, e deixarem a nossa presença melhores do que chegaram.
Tem muita gente reclamando que os tempos andam difíceis mais o que tem feito com seu próprio bebedouro?
Que tipo de energia anda atraindo? Ou nela se sintonizando?
Se eu não repor meus bebedouros, como posso reclamar de meus pássaros que me abandonaram?
Quantas pessoas se sentiram abandonadas por outras, mas que precisam fazer um exercício de autoconhecimento, bem doloroso, de ver se não foram as atitudes delas, expressas em emoções, pensamentos e comportamentos, o que de fato contribuiu para que elas se afastassem.

Somos muito bons em julgar os outros. Em reclamar que o mundo anda em pe de guerra, que todo mundo está muito egoísta, que ninguém quer mais compromisso com ninguém, ou nenhuma causa.

Tudo bem. As coisas estão por aí mesmo.

Mas, e quanto aos nossos néctares? Estamos repondo eles, todos os dias, apesar da seca inclemente que teima em fazê-los evaporar, ao final de um dia de pancadas que levamos da vida?

O grande perigo de se conviver em ambiente de emoções tóxicas e extramente negativas; ou naqueles cheios de pessoas rabugentas, negativas, reclamonas e chatas de galocha, é nos tornar tal qual elas.

Elas desistiram de atrair os beija-flores para seus pássaros.
E aí todos vão empobrecendo como humanidade. A ponto de quando recebemos um atendimento bom, um telefonema de alguém se preocupando conosco, um retorno de uma mensagem nossa, via rede social, ou um simples gesto de querer nos ajudar em algo, ficamos desconcertados.

Como diz a poetisa Verônica Shoffstall: "Plante seu jardim e decore sua alma, ao invés de esperar que alguém lhe traga flores." Este texto é erroneamente atribuído Shakespeare.

Plantar o jardim e decorar a alma é alimentar as nossas emoções e pensamentos com as coisas boas da vida e do viver.
É colocar sem moderação o néctar do amor em tudo que fazemos, do perdão, da empatia, da ética, do respeito, da consideração pelo outro.
E sem esperar que alguém faça isto para conosco.
Se ficarmos nessa de esperar receber para poder compartilhar, tenho uma má notícia. Teu bebedouro vai secar.
Precisamos urgentemente voltar a cuidar das entradas de nosso coração. Conforme um sábio escreveu no livro dos Provérbios: Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida. Provérbios 4,2.
E, não menos urgente, precisamos vigiar a qualidade dos pensamentos que invadem nossa mente. E nos reeducar sobre o que circula em nosso processamento cerebral. Como bem disse Paulo: Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai. Filipenses 4,8
Dando o melhor que temos aos outros, ao mundo, à realidade, estaremos trazendo pessoas para nossas jornadas de vida. E elas de nós se alimentarão, e cresceram com nosso exemplo inspirador.
Como disse no início da crônica eu estive de férias, e foi em João Pessoa. Num dia, pela manhã, vi um sobrinho levando a sua tia para conhecer o mar pela primeira vez, Dona Maria Dulce, a da foto, natural de Patos-PB. Ela tinha vindo à capital fazer exames cardíacos, e ficou hospedada na casa do sobrinho. Ele, após a bateria de exames a que ela se submeteu, a agraciou com esta visita ao mar. A cena era linda, ela mal se continha de emoção. Mas estava cansada. Sentado de meu posto de observação, percebi a aflição do sobrinho, em segurá-la perto do mar, do alto de seus 74 anos.
Então, corri com minha cadeira para melhor acomodá-la na beira-mar.
A água do mar lambia seus pés, e ela sorria. Falou que a vida dura no sertão nunca deu-lhe esta condição de passar uns dias na praia. E que ao se deparar com uma quase morte, pelo desmaio que teve, fruto de uma patologia no coração, ela decidiu que não morreria sem ver o mar.
Fiquei um tempão com ela, seu sobrinho, o Jarbas, e sua filha a Alice. Abasteci meu bebedouro com eles. Que gesto humano e solidário!
Perceberam como faço? São as pessoas boas as que melhor nos abastecem, inspiram e nos estimulam. Fico que nem meus pássaros à procura de beber do néctar delas e me fortalecer, e crescer.

No outro dia, no jornal local, aquele que passa na TV cedinho da manhã, a matéria destacava um voo de parapente para cadeirantes, organizado por voluntários.
Eu fiquei estatelado com a beleza da cena. Enchi muitos bebedouros de néctar com o que via. Consegui um trecho da mate´ria que um jornal local fez, vejam:

"Sessenta cadeirantes tiveram a oportunidade de voar gratuitamente de parapente na Praia do Sol, dias 19 e 20 de janeiro 2019, em João Pessoa, através do Projeto Não consigo andar, mas posso voar. Cláudio Cloudd, instrutor e piloto há mais de 18 anos, explicou que a ideia surgiu após um cadeirante falar que o sonho dele era voar. No mesmo momento, Cláudio o equipou e proporcionou o voo. Foram selecionados 30 cadeirantes de Pernambuco, 20 da Paraíba e 10 do Rio Grande do Norte.
Funcionando há dois anos, o projeto tem o apoio de uma faculdade Maurício de Nassau e o auxílio de mais 18 instrutores. Carolina Vieira, uma das selecionadas, perdeu o movimento das pernas após um acidente de moto. Já envolvida com o outros esportes e atividades antes do acidente, ela afirmou que foi a primeira vez que teve uma oportunidade como essa. “Antes do acidente, eu era professora de dança e fazia o curso de educação física, então já tinha essa coisa do esporte. Mas essa trip radical é a primeira vez, estou maravilhada com a sensação”, destacou. “Estamos desenvolvendo um projeto belíssimo que tem tirado as pessoas com deficiência de dentro de casa e feito com quem elas possam voar. No céu não existem muros, obstáculos e barreiras”, destacou Sérgio Murilo, coordenador do projeto."

E aí, encheu seus bebedouros também? Em todo lugar tem gente fazendo coisas assim. Aposto que aí pertinho de você. Ou até você mesmo faz um monte de coisas legais pelos outros.
Então, esta é a mensagem desta crônica. Não podemos desistir de nós mesmos, naquilo que temos de mais precioso: nossas emoções e pensamentos positivos. Serão eles quem capacitarão nossa percepção a também colher da realidade aspectos bacanas, esperançosos, otimistas, bons, legais e virtuosos da vida e do viver. Afinal, quem tem um jardim dentro de si, costuma ver jardins por todo lugar, inclusive nos outros.

Não espere pelos outros para dar o seu melhor na jornada do Ser. Pássaros sedentos dependem das gotas de seu néctar de esperança, amor, paz, apoio e inspiração em momentos dolorosos do existir.
E sabe onde é o melhor local para isto? No teu trabalho, na tua família, na tua escola, ou no teu condomínio. O melhor local para dar o nosso melhor é o que nele estamos.
Temos uma mania de não fazer a nossa parte, atribuindo apenas ao Governo, aos outros, ou até às circunstâncias, as justificativas para que eles façam.
E aí calamos a nossa consciência. Afinal, o problema não é meu. E por que serei uma pessoa justa, ética, boa e mansa, convivendo nesta selava humana?
Elementar meu caro amigo, para não se tornar como eles!

Recordações (Por Ricardo de Faria Barros)

Chegando da virada do ano novo que passei em Campina Grande, e férias em João Pessoa-PB, abro meu apartamento de Brasília e sinto uma lufada de ninho invadindo meu ser. Não há lugar no mundo que desperte esta sensação ao dele se adentrar, que o nosso lar.

Tudo me é familiar e me fala.
Saúdo minhas plantas, que cansadas de tanta espera, apenas batem suas pétalas esturricadas. Mesmo deixando uma pessoa para molhá-las, nãos as molhou como quem se ama, com constância, atenção e zelo. Quem ama entende de que falo.
As orquídeas deram duas hastes, se a seca não as matou por dentro, teremos uma safra de belas flores.
O pobre do bambu está todo tristonho, e despenado, já que perdeu todas as folhas.
Na ânsia de sobreviver, sem fartura de água, optou por tentar salvar suas raízes, livrando-se das folhas. Como se vivera um outono precoce. Tadinho.
Os bebedouros de pássaros estão vazios. Eles devem ter passado por maus momentos, pois que já estavam viciados naquela aguinha de frutose, de uma cor violácea.
Para as bandas das praias as coisas andam estranhas.
O som da parada é de uma tal de Jenifer. Durante um dia de praia, ou boteco, você escutará esta música no mínimo dez vezes. Pense numa Jenifer famosa!
Um fenômeno deste verão são as aquelas caixinhas portáteis que mataram qualquer possibilidade de um papo na mesa de bar, ou onde quer que o cara a leve.
Se antes eram aqueles carros, com verdadeiras torres de som no porta-malas, agora são as insanas caixas de som portátil, que de portáteis não têm nada, uma vez que somos obrigado a ouvir mil ritmos diferentes, cada um embaixo de uma sobrinha de praia, ou mesa de bar.
Não basta que o cara escute com sua turma. Ele precisa mostrar para os vizinhos o que está ouvindo.
Algumas das músicas que ecoam destas caixas têm refrões impublicáveis, e olhe que estou longe de ser moralista.
Outro fenômeno são os celulares câmeras fotográficas. A beira-mar virou passarela, e em todo lugar tem gente fazendo mil piruetas, para registrar o melhor ângulo do corpo. Alguns mais empolgados na sensualização acabam levando um caldo do mar, o que gera mais motivo pra novas fotos. Tudo virou registro visual.
Tive pena de um monte de criancinhas, em seus barreiros de água, feitos com areia de mar, cujos pais estavam mais interessados nas redes sociais, do que em construir a última versão do castelo de areia com o seu filho. O cara-pai, a moça-mãe, levam o celular para dentro do barreiro de água e ficam conectados em mil coisas no mundo digital, perdendo em conexão com o filhote.
Antes que me esqueça, os bom-dias ao caminhar estão mais raros. O povo tudo relaxado, turistando e caminhando em área segura, e negando bom-dias.
Estamos criando muros coletivos. Todo mundo num espaço público, mas incapazes de interagir uns com os outros, em prosaicas respostas a um bom-dia.
Quem me dava mesmo um sonoro bom dia, em resposta ao meu, era a dona Fátima, catadora de papelão e latinhas de praia. A desta foto da crônica. Acorda com dona Fátima era muito bom. Todos os dias saia pra comprar o pão bem cedinho, após ver o sol nascer, que pelo Nordeste é pelas 5h30. Então, no caminho para a padaria, sempre cruzava com Dona Fátima vindo em sentido contrário. E aí aí era festa.
Comentava do apurado da catação até àquela hora, do sol, do tempo, dos netos dela, da vida desta septuagenária que sempre estava com um sorriso no rosto, mesmo na dura lida de completar a renda da família vendendo recicláveis. Sempre comprava algo pra ela e os netos na padaria. Mas, o pretexto não era doar algo pra ela. Era passar mais uns minutos ouvindo-a sobre a lida do bem viver, ouvi-la contando toda orgulhosa que quando chega em casa, pelo meio dia, os netos já fizeram o almoço pra ela.
E presta? Pergunto-lhe.
Ela me responde: "depende da fome".
E ambos caímos na risada.
O telefone toca, é mamãe lá da Paraíba preocupada com o que vou comer. Depois de acalmá-la mostrando a validade de uma comida congelada, papai pega o fone e pergunta se o vôo teve turbulência.
Deixo-vos com o coração bem saudoso, ele com seus 81 anos e ela com seus 80. Ainda fizemos bons passeios, nos dias que a perna de mamãe amanhecia melhor.
Ela ficava preocupava, nos dias que não ia, pois dizia que estava atrapalhando.
Atrapalhava nada de nada. Nestes dias eu e papai fazíamos um programa à frente de casa mesmo, numa praia próxima, de modo que todos nós estávamos juntos novamente no almoço, e a casa voltava a falar amor.
Não tenho mais nenhuma ansiedade de conhecer coisas novas, sair com amigos, participar de atividades culturais, quando estou curtindo meus pais.
Para mim, o maior programa ainda é colocá-los dentro do carro e sair buscando uma praia mansinha e acessível para que possamos nos divertir ao nosso modo. E voltando cedo.
Paro de teclar, olho para a sala, e percebo as coisas largadas. Restos de bagagem por todo canto, um garfo em cima da radiola, um copo perto das plantas. E o que faz aquela camisa largada no chão?
Abro um sorrisão e penso, amanhã, ou quem sabe depois, farei uma faxina.
Estou no meu lar, feliz 2019 Ricardim!

O que dizer a um coração enlutado? (Autor Ricardo de Faria Barros)


Chega uma mensagem no meu WhatsApp que me dessossega o coração:
"Um casal amigo perdeu seu primeiro filho, bem no final da gestação, o que digo a eles?" 
Sem pestanejar, disse-lhe: "Nada. Apenas os abrace, esteja presente, junto, sendo margem."
Como ser margem?
Navegadores experientes quando partem de Macapá (AP) até Ikitos (maior ilha da Amazônia Peruana), aproximam-se da margem sempre ao menor sinal de perigo. Seja neblina, sejam as tempestades. Navegando junto à margem, eles conseguem segurança e apoio para seguirem à frente sem perderem-se entrando em algum afluente.  

Seja margem para quem sofre com o coração enlutado. Seja terra firme. Esteja presente, como uma boa margem.  Deixe que aquele barco, chamado Pessoa Enlutada, em ti descanse da fatalidade da vida e do viver.
Não adiantará falar muita coisa, do tipo que falamos para consolar pessoas que perderam aqueles que amam.
A dor é tremenda, e é só deles. Por mais que sejamos solidários e empáticos, ainda assim não conseguiremos viver o que eles sentem. 
"Se ela me deixou. A dor é minha só. Não é de mais ninguém..."   Diz a canção, com sabedoria de um poeta.

Amigos enlutados precisam de cuidados paliativos emocionais.  
Faz parte destes cuidados ser margem para com eles.  

Como ser margem? 

Se oferecendo para assumir pequenas rotinas do lar. Coisas como botar água para os animas podem ser esquecidas nestes dias, ou o pagamento de contas a vencer. Ou até a própria alimentação do casal enlutado. São coisinhas que os amigos podem fazer nesta hora e que darão uma sensação aos enlutados de que pessoas se importam com eles. 

Seja, visitando-os com frequência, mesmo sem falar nada, só sendo ombro. Seja, convidando-lhes  para participarem de algum serviço religioso de apoio, caso creiam.  Ou até você mesmo conduzindo uma reza na casa deles, um terço, um Pai Nosso... ou uma noite de clamor.

Ser margem também é ouvi-los à exaustão, mesmo que repitam pela centésima vez que estavam com o enxoval pronto. 

É se oferecer pra ir junto tocar providências burocráticas, algumas bem dolorosas para o enfrentamento sozinho.

É mobilizar uma vaquinha entre amigos, caso exista necessidade de cobertura financeira de despesas de última hora.

É oferecer a própria casa para eles passarem uns dias.

É permitir que eles chorem bastante. E que perto dos amigos eles não precisem botar uma máscara de "está tudo ok, nós estamos bem", podendo ficar tristes, calados e num cantinho da sala; mas mesmo assim amados e valorizados por terem ido ao evento para o qual foram chamados. 

Não se deve apressar o processamento do luto. Cada um tem seu tempo próprio. Cada um voltará para o leito do "Rio Amazônia, em direção à Ikitos", de seu próprio jeito, e no momento que a alma sequiosa, após uma madrugada orvalhada de esperança, amanhecer brotando rebentos de uma nova vida, após o choque da dor. 
Eu desconfio destes lutos fast-food que vemos na mídia.  Desconfio de quem uma semana depois já toca a vida como se nada lhe ocorrera. Para mim, é uma forma de negar a dor, de se desconectar de si mesmo, e que mais à frente vai explodir em sequelas emocionais.  
Este vale de lágrimas, este cálice de fel, precisa ser atravessado e tomado. 
Então, evite perguntar-lhes assim: "Como vocês estão?".  Nunca faça este tipo de pergunta.  
Nem tampouco compare o que ocorreu com outros casos similares. 
Ou, tente velhas fórmulas que meio que justificam a perda dessa forma: "Quem sabe ele não foi livrado de coisas ruins no futuro?".  Horrível!
Nada disso vai gerar algum tipo de consolo.
Agora, se quiser falar de seus próprios lutos, da dor que sentiu também, quando contigo ocorreu algo similar, aí está certo. 
Isto ajudará a criar um ambiente de confiança. E a pessoas saberão que não estão sozinhas. 
Mas, mesmo assim, nem tudo que funcionou para você, funcionará para eles. 

Portanto, seja margem. E, já será muito, numa época que todo mundo só quer ser rio caudaloso, cada um cuidando de seu fluir em turbulentas águas. 

Cartas ao JG - Permita-se apreciar o caminho. (Por Ricardo de Faria Barros, pai do João GAbriel)

Era uma manhã de quarta e fomos passear de carro. Saímos de São Sebastião-DF, no sentido Unaí, em direção à Cristalina-GO. Nunca tínhamos entrado em Cristalina, embora sempre tivéssemos passado à sua margem, quando íamos de carro para Londrina-PR. Então decretamos, hoje vamos conhecê-la.
Rodamos uns 20 KM e logo à frente pegamos a rotatória no sentido da GO-436, em direção à Cristalina. A GO-436 é umas das mais bonitas rodovias estaduais do Goiás.
Ela cruza campos e mais campos, tem pouco movimento e está bem conservada.
Os campos cultivados praticamente chegam ao acostamento, gerando uma sensação de conexão com a natureza. Dependendo da época do ano eles podem ser de soja, algodão, milho ou girassol. Sabe filho, continue passeando por esta estrada e ainda verás os de algodão e girassol, numa profusão de pluma e flores.
O dia estava lindo, de um céu azul intenso, daqueles que são recortados por texturas de nuvens esvoaçantes.
Ao passar por um dos trechos da estrada, percebemos à nossa frente um casal de emas. Reduzimos a velocidade, para dar tempo deles voltarem para o sojal.
E, eis que vimos de relance umas espécies de galinhas acompanhando-os.
Ficamos invocados com o que seria aquilo, já que pela velocidade, mesmo tendo reduzido, não tivemos como definir bem o que era.
Andamos mais uns metros e decidimos voltar para ver o que era aquilo.
Sabe filho meu, sempre volte para ver algo melhor, experimentar o que saiu querendo experimentar e não fez, ou se permitir descobrir algo. A felicidade está no caminho, e não no destino.
E. a estrada não só vai à frente. Podemos fazer um retorno, observar o que ficou pra trás, e voltarmos ao nosso caminho.
Pasmem! Sabe o que eram as galinhas? Uns dez filhotes de ema que seguiam seus papais.
Uma cena que por si só já tinha valido nosso passeio.
Até quisemos fotografá-los mais de perto. Mas, a ema-mãe olhou-nos incisivamente. Decidimos que não era dia para levar carreira de ema, e desistimos do close-up.
Na rádio, ia botando tuas músicas "pop". "Pai, eu sou pop", é o que tu me dizias, e tome Cartoon - On & On.
É nois!
Entramos em Cristalina e a fome apertou. Paramos logo num posto pra comer empadão goiano e pastel, com uma farta jarra de laranjada.
Delícia.
Andando pela cidade, avistamos uma placa daquelas turísticas, sob fundo marrom, indicando "Balneário Praia das Lajes".
Então, tu assumiste a posição de navegador e seguimos, nos perdendo e nos achando, rumo ao nosso objetivo, as Lajes.
Depois de uns 6 km numa estradinha de barro e adentramos para o local da tal das lajes em piscinas.
Chegando ao lugar tocamos na campainha do portão de acesso, havia uma placa com esta orientação, "Toque pra chamar". Tocamos, tocamos, buzinamos e buzinamos, mas, nenhuma presença de viva alma, nem de cachorro latindo. Denunciantes de gente.
Tu querias desistir.
Eu ouvia o som das águas, e não era hora de desistir. Não sou de desistir fácil. Aprenda comigo.
Apitei mais uma dúzia de vezes, e eis que lá dos matos aparece uma veste vermelha vindo em nossa direção.
Era o caseiro, o João, como tu.
Falou-nos que o restaurante estava fechado, mas que poderíamos entrar e conhecer o rio e cachoeira e as piscinas de laje.
Pagamos a taxa de ingresso e nos sentimos os donos do pedaço.
Éramos só nós dois, e o João, que ficou na área coberta do restaurante.
O joão abriu o bar e comprei uma água e um salgado pra ti. E uma cerveja pra mim.
Aí, saímos para explorar o local. Só nós dois.
O silêncio só era cortado pelo borbulhar das águas e por vôos rasantes de pássaros brincantes.
Aquela água nos chamava. Mas, estávamos sem calções apropriados.
Olhei para um lado, para o outro, e transformei minha cueca num calção de praia.
Tu dizia: Papai!!!
Eu dizia, deixa de abestagem, tira tua calça e vem também.
"E se chegar alguém". Tu dizia, em tuas preocupações lógico pudicas.
Eu respondi: "aí rastejamos até as roupas", como na guerra.
E caímos os dois na gargalhada.
Logo descobri que as pedras eram lisinhas, pedras amigas, tipo sem arestas.
Tentei fazer uma hidromassagem, mas o rio estava forte e me levou, pedras abaixo.
Levantei os braços e me deliciei com aquilo. O máximo que podia ocorrer era me machucar numa pedra descomportada. Mas que nada. Tudo pedras gente boa. São lajes, lisinhas, não machucam.
E, que delícia de escorregador. Tu me fitavas das margens. Gritando: "Papai, cuidado!"
Desci uma vez, duas, três. Aí, tu tomaste coragem e deixou de apenas me filmar.
Entrou no rio e desceu também, morrendo de feliz. Ao chegar lá embaixo tomou um caldo, mas daqueles caldos de alegria, que sabemos que está tudo ok.
Passamos um bom tempo curtindo aquilo, éramos os Tarzans do pedaço.
Depois, seguimos rio acima, em direção ao nada. Gosto disso. De sair assim, sem destino de achar algo.
Mas, eis que do nada ela estava ali. uma linda cachoeira que caia numa espécie de poço encantado. Logo fomos tomar banho junto a ela.
Que gostosura.
Tomar banho em cachoeira é se conectar com uma das mais belas forças da natureza.
E ela jorrava gostoso, o rio estava com muita água.
Perto das 14hrs, já era hora de nos despedirmos, almoçar em algum lugar e voltarmos para Brasília.
Deixamos um caixinha com o João, notei o nome dele do whats, pra outras vezes, e seguimos caminho.
Após o almoço, num posto de gasolina, paramos pra comprar artesanato em pedras. Lapidadas de cristais da região, todas muito belas.
E, voltamos contemplando o sol se pondo, em mil tons de vermelho e carmim.
Não sabíamos dos filhotes das emas, não sabíamos das lajes, não sabíamos se escorregava nelas, não sabíamos nem como chegar...
Apenas seguimos caminho, sem preocupação de chegar em algo ou um naquilo qualquer.
Apenas degustando a jornada e apreciando o que tinha à beira do caminho, ou em placas desbotadas à nossa frente, quase nunca devidamente valorizadas, pelos olhos opacos da indiferença, ou por vidas agitadas em si mesmas, envenenadas pelo estresse das preocupações com o amanhã, que lhes turva a alma.
Sabe filho meu, agora que fez teus 9 anos, é preciso treinar mais ainda o olhar.  Um bom olhar tem melhores condições de ser treinado até os 15.
Então, exercite-se bem no olhar. Depoi,s a adultice costuma botar remelas nas vistas, tornando-as opacas e sem mais brilhos com as aventuras do aventurar de viver.
Treine ao permitir-se a novos olhares sobre a mesmas e cotidianos coisas de todos os dias.
Verás coisas surpreendentes, que sempre estiveram ali. Então, treine o olhar para perceber o belo, o bom e o virtuoso.
E, nunca se esqueça de agradecer aos João das Lajes (+55 03891861452) que cruzarem teu caminho.
Seja grato a eles. O João poderia ter ficado no meio do mato sem abrir a cancela.
Afinal, "o restaurante estava fechado" naquele dia.
E, possivelmente era o dia de folga dele.
Mas, ele veio nos receber.
O que fica mesmo destes passeios são as pessoas, inesquecíveis pessoas, que existem em todo lugar. É só treinar o olhar também para percebê-las, aprender a reconhecer e valorizar o trabalho delas.
João das Lajes, voltaremos!

Educação para Aposentadoria

Recentemente, a Secretaria de Gestão de Pessoas, do Serviço Público Federal, lançou a Portaria n.12 que regula, orienta, estimula e monitora ações de promoção à educação para uma melhor adaptação à aposentadoria. Show!
Destaco, a título de uma provinha, partes deste documento tão importante à responsabilidade e cidadania empresarial:

Diretrizes:

I, Instituir programas, projetos e ações de gestão de pessoas que contemplem os objetivos e metas institucionais, que promovam a gestão do conhecimento, a saúde e a qualidade de vida do servidor público federal; [...]

VI. possibilitar aos servidores a identificação dos seus recursos pessoais, familiares, institucionais e
sociais de modo a facilitar a tomada de decisão consciente e segura sobre o melhor momento para se aposentar; [...]

VII. promover o autoconhecimento dos servidores, ou seja, permitir que eles conheçam os comportamentos que devem ser mantidos e aqueles que devem ser modificados em prol de um envelhecimento ativo e de uma transição saudável à aposentadoria.

Vale a pena conhecer este documento como um todo. Super bem escrito e alinhado ás boas práticas do tema longevidade. E é bem por aí que podemos fazer algo diferente .
Este ano tive a honra de palestrar em eventos neste sentido capitaneados pela ABRAPP (Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar). E pela Sistel (Fundação Sistel de Seguridade Social).
Foram experiências maravilhosas que vivi. E esta discussão precisa ingressar também na agenda da instituições privadas e sociais. Há algo de novo ocorrendo e que não podemos nos omitir.

Quem de vocês que me leem conhece alguém com mais de 80 anos?
Acredito que muitos. E, quando acessarem este blog (http://www.bodecomfarinha.blogspot.com.br), lá pelos anos 2038, a pergunta será:

Quem de vocês que me leem conhece alguém com mais de 80 anos?
E, a resposta, a mesma: "conheço muitos".

A expectativa de vida para quem nascia na década de 40 era de 45 anos.
Hoje, saltou para 76 anos, e subindo a cada ano.
A ideia de uma terceira idade fadada à inatividade, ao "retorno aos aposentos", cada vez encontra menos eco, nos valores vivenciais e comportamentais dos envelhescentes.
Sim, envelhescentes. Pessoas que assumem esta etapa da vida como mais uma etapa, com seus ônus e bônus, assim como na adolescência. Mas, não mais como uma etapa do tipo "descendo a ladeira para a morte..."
Uma verdadeira revolução está ocorrendo em todo mundo, a dos Novos Velhos.

Engraçado que foram eles mesmos quem puxaram a revolução social do final dos anos 60 e início dos anos 70, com bandeiras contra o preconceito e por igualdade de direitos civis: voto, trabalho, educação, transporte e saúde.

Agora, eles estão nas ruas novamente.

Hoje, do alto de seus 70-80 anos puxam, pela segunda vez, esta tão significativa mudança dialética no paradigma cultural da velhice.

Não querem mais ser vistos como "encostados", "malas sem alças", "gente rabugenta e sem energia".

Pelo contrário, este povo revolucionário está subvertendo a ordem reinante, ao negá-la em suas representações sociais da velhice, e agora voltam a trabalhar, estudar, namorar, se divertir, praticar esportes, socializar, assumir bandeiras sociais e buscar novas aventuras e aprenderes da vida e do viver.

Então, venha conosco para esta revolução. É hora de se despir das velhas roupas dos preconceitos sobre a tal da terceira idade, aquelas que já não nos cabem mais, e de começar a pensá-la como uma época de renascimento: necessários, satisfatórios, possíveis e urgentes.

Quais meus objetivos de vida para a etapa dos 80 anos aos 100 anos?
Esta pergunta não é mais uma doce utopia, ou obra de ficção.

Assim sendo, cuidemos já de começar a construir, tijolo a tijolo, um projeto de vida para atingi-lo até o nosso centenário.
Quanto mais cedo pensarmos nas questões da longevidade, com melhores condições chegaremos nela, para usufrui-la em todo o seu potencial de autonomia e gozo. 

Cadê Seu Jonas? (Autor Ricardo de Faria Barros)


"Cadê Seu Jonas?", perguntou o jovem Lucas de 13 anos. Sua mãe, a Paula, respondeu que não sabia.
Lucas insistiu com a mãe para que ela descobrisse o paradeiro dele, que há um mês não mais tinha ido vender pipocas na calçada da escola.
A mãe, valendo-se de seus contatos como Agente de saúde do bairro da Liberdade, no qual funciona a escola Petrônio Figueiredo, em Campina Grande-PB, acabou localizando o pipoqueiro, sentado numa praça, com olhos perdidos ao horizonte.
Aproximando-se dele, ela descobriu o porquê daquele semblante tristonho. Seu carrinho de pipoca quebrou, após 20 anos de uso, e sempre na calçada daquela escola.
Ele não tinha recursos para comprar um novo. Embora já tivesse batido à porta de muita gente, solicitando ajuda, todo mundo alegava aperto financeiro e negava-lhe qualquer contribuição.
Paula informou ao pequeno Lucas o que ocorrera. A partir daí o Lucas mobilizou toda a escola para fazer uma vaquinha e amealhar R$ 1.000,00 o valor de uma pipoqueira novinha em folha, a qual seria presenteada em festa surpresa para Sr. Jonas.
Pronto, o que se viu a partir daí foi um mutirão de solidariedade que mobilizou crianças dos 10 aos 15 anos, daquele pequeno educandário, a quebraram seus "miaeiros", passarem um sacolinha de coleta junto aos seus pais e comunidade acadêmica, até conseguirem a quantia.
A força da liderança do Lucas era tão grande, que já no primeiro dia, ele e os coleguinhas, amealharam quase 20% da meta.
Depois daquele dia, toda a comunidade escolar embarcou na proposta e fizeram do momento que viviam uma verdadeira aula de inclusão social pelo trabalho, de cidadania, de respeito e apoio, se falar na consideração aos mais simples que nos servem.
Precisamos de mais Lucas, e em todo lugar. Lucas chamou o pipoqueiro pelo nome: Sr. Jonas.
Não era um pipoqueiro, era uma pessoa, tinha identidade própria: Jonas.
Lucas sentiu falta dele, só sente falta de alguém, ou de algo, quem o reconhece - e para além dos olhos opacos da indiferença, tão comuns à rotina de dias ansiosos, agressivos e sem tempo nos quais vivemos.
Para reconhecer a falta de alguém é preciso considerar esta pessoa, valorizá-la, tê-la como importante, e Lucas assim o fez, ao expressar sua angustiante e inquieta pergunta: "Mãe, cadê Sr. Jonas?"
Lucas foi líder. Liderança não é algo atribuído a um cargo, idade ou um dom de poucos. Liderança é fazer acontecer novas realidades, a partir de nosso próprio lugar e agir no mundo e na vida de pessoas.
Sem o grito por Sr. Jonas, que mobilizou sua mãe à sua cata, ainda hoje aquele senhor estaria sentado na pracinha, próximo à escola, tendo como certo o seu destino de parar sua atividade, por não ter renda, nem poupança suficiente, para o investimento necessário ao seu reestabelecimento.
Lucas prestou atenção ao ambiente no qual estava inserido. Notou mudanças. Não gostou do que viu. E foi atrás, buscar realizar o futuro que almejava.
Não se conformou com a informação que recebeu da mãe. E ele poderia.
Não disse que aquilo não era com ele. E ele poderia.
Não reclamou do alto valor que precisaria juntar, para uma criança de dez anos. E ele poderia ter reclamado.
Simplesmente acreditou que seria possível, retornar o Sr. Jonas ao posto de trabalho.
A partir daí, ativou a força nele o capital psicológico positivo formado pela: esperança, resiliência, otimismo e auto-eficácia, que impulsionou sua liderança positiva em busca daquele sonho.
Lucas esteve presente à maravilha do viver.
Quantos mais sentiram a ausência do Sr. Jonas? Aposto que não muitos.
Mas, Lucas fez a diferença. Ele prestou atenção, e ao notar algo estranho, com a sua liderança alterou destinos, realidades e pessoas.
Uma simples pergunta foi suficiente para ativar a ação que movera o carrossel do destino: "Cadê o Sr. Jonas, o pipoqueiro?"
Eu acredito que em nosso Brasil existam muitos Lucas, pessoas com sentido na vida e propósito, que tornam o mundo um lugar melhor do que achou, só com sua liderança, deixando legados positivos por onde passam. Acredito também nas coisas abaixo:
  • Acredito que para cada dez "Malas Sem Alças do Mal" que existem soltas por aí, acredito que outras cem pessoas boas também operam nesta mesma realidade.
  • Acredito que para cada dez pessoas que pregam o ódio, existem cem Lucas que pregam o amor.
  • Acredito que para dez pessoas que se fecham no egoísmo, existam outras cem que se abrem em doação de tempo e recursos aos mais necessitados.
  • Acredito que para cada dez desavenças e conflitos entre pessoas, existam outros cem pedidos de perdão e recomeço.
  • Acredito que para cada dez pessoa que não lideram nem a si mesmo, existam outras cem pessoas que alteram suas próprias vidas, destinos e transformam vidas de quem a elas se aprochega, e pra melhor. 
  • Acredito que para cada dez gerentes truculentos, existam outros cem gestores formadores, compreensivos e humanos.
  • Acredito que para cada dez pregadores de Deus que não pratica o que falam, existam outros cem que o fazem.
  • Acredito que para cada dez pessoas violentas, existam cem pessoas pacíficas.
  • Acredito que para cada dez pessoas que destroem o ambiente, existam cem pessoas que o protegem.
  • Acredito que para cada dez pessoas preconceituosas, existam cem pessoas que respeitam a diversidade.
  • Acredito que para cada dez profissionais desmotivados na sua vocação de servir, existam outros cem que fazem de seu trabalho serviço.
  • Acredito que para cada dez lágrimas de dor choradas sozinha, existam outras cem amparadas por lenços humanos, ofertados por pessoas mansas e boas que à pessoa sofrida se juntou naquele momento.
  • Acredito que para cada dez pessoas ingratas, existam outras cem gratas.  
  • Acredito que para cada dez pessoas sem ética e injustas, existam outras cem pessoas éticas e justas.
  • Acredito que para cada dez pessoas desumanizadas, existam outras cem humanizadas.
  • Acredito que para cada dez pessoas que não se importam contigo, existam outras cem que se importam.
Sabe por que acredito? Porque existia um Lucas que nem eu nem tu sabia do gesto dele, até alguém encontrar espaço na pauta da mídia, de natureza extremamente ruim e negativa, e divulgá-lo. 
Com certeza muitas outras ações deste tipo por aí. Mas, que recebem o devido destaque nas capas de revistas, sites e jornais.

O convite que Lucas nos faz é para que em cada situação na vida, achemos um sentido e um propósito na mesma. Assim, transformaremos ambientes, negócios, pessoas, e a nós mesmos, e para melhor!

Lucas, sem saber que seria impossível, foi lá e fez. Porque se deixou conduzir pela força do Sentido-Propósito.

E, nos inspira a fazer o mesmo, em várias situações que vivemos no mundo do trabalho, da família e da sociedade como um todo. 

Você pode ver o vídeo da entrega da pipoqueira, clicando nesta matéria abaixo: 

A Sindrome da Intolerância à Gente (Autor Ricardo de Faria Barros)

Faz parte das conquistas do Século XXI a identificação, cada vez mais precoce, de pessoas com problemas de saúde relacionados à intolerância: ao glúten, ou à lactose.
A partir daí, uma série de condutas preventivas surgiu, com impacto nos hábitos alimentares, no consumo, comercialização e na própria indústria de alimentos.
Também faz parte do legado deste século que mal se inicia, a convivência cada vez mais precoce com pessoas adoecidas pela Síndrome da Intolerância à Gente.
Sim meus caros, é uma síndrome, e é das piores, é de intolerância à gente.
Os principais sintomas desta doença social:

1. Agressividade banal e cotidiana;
2. Dificuldade de cultivar empatia e solidariedade social;
3. Incapacidade de sentir e expressar gratidão;
4. Mal estar generalizado junto a pessoas de etnias, fé, sotaques e expressão da sexualidade diferentes;
5. Apatia na harmonização de conflitos;
6. Culto excessivo ao eu, ao consumismo e ao individualismo;
7. Descarte, sem culpa ou pesar, do outro que não mais lhe interessa;
8. Anemia de pensamentos e emoções positivas;
9. Baixa resiliência aos choques relacionais;
10. Aversão à busca de outras verdades e conhecimentos, diferentes daqueles que aceita;
11. Xenofobia atitudinal, culto ao igual;
12. Idolatria para com algumas pessoas ou grupos, vis a vis, satanização de outros grupos e pessoas;
13. Coisificação dos outros que lhes servem, tornando-os invisíveis ao seu convívio;
14. Inabilidade em construir, manter e renovar relacionamentos saudáveis;
15. Alergia a gente humilde.

Se para as inadequações alimentares, à lactose e ao glúten, já encontramos formas de lidar com elas, para com a Síndrome da Intolerância à Gente ainda temos muito o que aprender.

Os ensinamentos para re-humanização da coletividade, e combate à expansão da Síndrome da Intolerância à Gente pede ações concretas, exemplos cotidianos, e práticas sociais em instituições formadoras do caráter como a família e a escola.

Precisamos urgentemente dar nossa parcela de contribuição para restaurar o tecido social da sociedade, tão esgarçado nestes tempos de ódio digital.




Sobre cuidar e admirar. (Autor Ricardo de Faria Barros)


Naquele domingo, a missa das 18hrs, na tricentenária Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem, em Recife-PE, estava lotada.
Com esforço achei uma vaga pra mamãe, num dos bancos de madeira.
Papai e JG subiram para o "puleiro" do coro da esquerda, onde tinha duas vagas.
Eu subi para o da direita, e achei uma para mim também.
Do banco à minha frente, saia uma fragrância de amor.
Não, caros amigos e amigas, não era perfume, nem alguma coisa do reino do erótico que à minha frente rolava.
Era amor, somente amor.
Tratava-se de um casal, na faixa dos cinquenta, que prestavam atenção à missa.
Mas, de minha vista privilegiada, atrás do banco deles, eu percebia que ela fazia pequenos carinhos nas costas dele, sobre a qual oceanava o seu braço, enlaçando-a ternamente.
Cada vez que o padre mandava sentar, ela recomeçava a expressar amor por ele.
E ele retribuía.
Timidamente, mas de forma segura, ele apalpava os ombros dela, como que a dizê-la: eu também estou aqui, te amo, conte comigo!

Tem coisa mais bonita que ver um casal expressando amor, um para com o outro?

Tenho sido privilegiado nestes meses por ver isto todos os dias e me inspirar.

Um casal de pássaros, da espécie Burguesa (um tipo de pomba), veio me dar a honra de fazer um ninho na jardineira da janela de meu quarto.
Acompanhei tudinho de perto, na vida deste casal que se ama.
Desde a escolha do melhor local para o ninho.
Ao ter que mudá-lo, por ter sido levado pela chuva e vento inclemente.
Bonito foi vê-los chegando com os gravetos, um a um, e irem moldando-o no leito de um vaso de suculentas.
Sentia o esforço deles, o dia da postura estava perto, e eles já tinham perdido outros dois ninhos, feitos em locais mais expostos ao vento.
Aí veio o dia da postura, e a mamãe ficou toda feliz, chocando-o pacientemente.
Uns quinze dias se passaram, e agora um filhotinho depende deles para crescer e voar, tal qual  nosso filhos.
Hoje vi uma cena linda, que está na sequencia de fotos que ilustra esta crônica.
Era pelas 7 da manhã, e o macho chegou para assumir o lugar nos cuidados do pequeno filhote.
UAUU!!!   Que exemplo inspirador para tantos homens que não dividem as responsabilidades pela criação dos filhos.
Ele chegou, ela olhou pra ele como que a dizer, olha como nosso filhote está belo.
Ela estava encharcada da chuva da madrugada, o ninho não é protegido de galhos e folhas, é exposto. Suas penas estavam eriçadas de frio, chovera e ventara muito.
Ela estava exausta. Ele então chega, assume a guarda, e dá o direito ao descanso de sua amada.
Não sem antes olharem-se, como que a despedirem-se. Agora, ela vai procurar local seco para se enxugar, vai comer, e mais tarde volta para o plantão.
Acho que a melhor expressão do amor é a ternura do cuidar e do admirar.
Aquele casal se admira.
Pois, na expressão de tanto carinho, um pelo outro, ali não havia espaço para disputas de egos, egoísmos, para solidão a dois.
As aves sabem expressar cuidado. Compreendem o limite do outro, assumem de forma compartilhada a missão de criar e educar para os vôos.
Creio que andamos precisando reaprender a cuidar do outro que amamos. Deixar de ficar só na postura de quem espera receber, para aí sim doar. Isto não é amar, isto é comercializar.
Quem ama o faz sem pré-condições, sem listas de avaliação de desempenho, ou testes de perfis psicológicos - como quem procede a um processos seletivo. Simplesmente ama.
Quem ama cuida e, admira. E, é capaz de renovar isto tudo, todas as vezes que ventaval levou o ninho, não se perdendo deles mesmos, a cada tremor de cotidianos que possa abalar a esperança.

Gire seu Dial e Sintonize-se nas Estações da Vida (Autor Ricardo de Faria Barros)

Acordo pensando na tarde anterior, na qual nossa família que chegou à Recife, para o casamento d e meu filho Tiago com a Carol, curtiu um fim de tarde daqueles “pés na areia”, bem rejuvenescedor, registrado numa das fotos desta crônica.
Como é bom cultivar famílias.
Precisamos aproveitar outros ajuntamentos familiares, ou criá-los, para além dos enterros.
Chamo a isto de celebrar o nada. Como o fato de todos terem chegado bem à Recife, no dia anterior ao casório.
Degusto estas lembranças enquanto pego uma barraca de praia: guarda-sol gigante, cadeiras, mesinha, papai e JG, e paz, muita paz.
O trecho da praia de Boa Viagem já está apinhado de banhistas, que querem aproveitar o feriado ao máximo. Certo eles.
À minha frente, passa uma senhora com uma panela de caranguejos na cabeça, vendidos na beira-mar, numa espécie de delivery tupiniquim. Alguns estão com as patas de fora, gerando desejos salivantes nos banhistas, entre eles eu.
A fisionomia da vendedora está cansada, não é mole caminhar com algo na cabeça, sob sol escaldante e areia fofa.
Comprei-lhes alguns, para deliciar-me deles com o JG, mesmo sem prato e martelinho, nós comemos foi com os dentes mesmo, numa arte milenar de quebrar ossos para deles tirar a sustança do viver. E essa carninha de caranguejo é uma das maravilhas de Deus.
A senhora segue mais feliz, e até sorriu com as presepadas do JG, pegando receoso os caranguejos com medo de estarem vivos.

Na barraca ao lado vai chegando família grande.
Eles estão com roupas sociais, todos becados, parecem que vão a algum evento. São em dez: Três crianças (um menino e duas mocinhas), 5 jovens (dois rapazes e três jovens) e o patriarca e a matriarca, presumo.
Contemplo-lhes olhando o mar. As crianças correm até perto das ondas e voltam assustadas e risonhas. Para logo em seguida retornarem à farra das idas e vindas das ondas que chegam e voltam.
O menino molha a bermuda e leva um cocorote. Mas, logo pai amoroso volta atrás, tira-lhe a bermuda e o deixa tomar banho de cuequinha.
Uma das senhoras enche uma garrafinha de água mineral com a água do mar e um pouco da areia.  Vai levar de recordação, com certeza!
Ela terá um tesouro em casa. Que ainda não tenho. Uauu! Meus olhos acostumaram-se com aquilo. Os dela não, ainda sao virgens ao assombro do acontecer.
Próxima vez trarei uma.
Os outros da família miram o mar, sem tempo para selfs.
Estão boquiabertos, com expressão de admiração. Depois fiquei sabendo, pelo patriarca, que só os mais velhos conheciam o mar.
JG aproxima-se deles para brincar.
Crianças são brincantes, e logo fazem amizade, não têm as tralhas emocionais e traumas dos adultos, cheios de reservas e desconfiança social.
Vendo a alegria deles, rolando na areia molhada, pensei em como é bom brincar.
As meninas, duas irmãs, vestidas com longos vestidos verdes, olhavam desejosas. Mas, de calcinha num pode. Diz as convenções.
Elas vestem vestidos da mesma cor e modelagem, e não estão nem aí. Daqueles de metro de tecido que aproveitamos, nas coisas simples da vida do interior, e com ele vestimos toda a família.
O chefe do clã tenta tirar uma self, mas num cabe todos, afinal são dez e a areia está muito fofa para pose melhor.
Vejo o aperreio dele e me ofereço para documentá-los, mandando as fotos em seguida pelo zap.
Fiz amizade com ele, chama-se Gelson. Descobri que vieram a um encontro de pastores e que moram no interior, do interior, do interior, do Maranhão, em São Domingos do Maranhão, 430 km de São Luís. Fiquei uma boa hora admirando aquela alegria genuína do clã do Gelson, inclusive a dele. Alegria dos simples, com as coisas boas da vida, cujo olha ainda permite vê-las.
As mulheres brigam com o vento nos cabelos, e riem com gosto, lá se foi o penteado, mas não se importam, não querem perder o momento único.
Então é hora deles partirem. E, cada um deles, como á moda antiga, passa pela nossa barraca, cumprimentam-nos e seguem, deixando-nos melhores naquela manhã.

Cem metros ao meu lado, observo movimentação estranha na praia de Boa Viagem, e não é tubarão chegando. (SIC!)
São grandes cadeiras amarelas que descem em direção ao mar, alegremente pilotadas por voluntários com camisa da mesma cor.
Aproximo-me e vejo uma das cenas mais lindas de minha vida. São cadeirantes que nela estão sentados, que são levados pelos voluntários da UNINASSAU, um projeto social em parceria com o Estado e a Prefeitura, para tomarem um belo banho, e em total segurança, protegidos pelos arrecifes, dos tubarões. E, por dispostos voluntários, segurando suas cadeiras, de algumas ondas mais rebeldes.
A alegria do grupo é contagiante. São umas seis cadeiras que estão na água. Cada um tem muitas histórias de superação pra contar, e sinto que estarem ali é algo muito especial naquele dia.
Sr. Josué é um deles. E só alegria e paz. JG pede pra ajudar a segurar a cadeira dele, numa das alças. Aí é só festa, babei com o gesto do pequeno JG.
Sr. Josué perdeu os movimentos das pernas após um severo AVC que teve, e, desde a criação do projeto, há seis anos, é um dos usuários mais entusiasmados do banho de mar aos finais de semana.

Volto pra minha barraca, e papai aponta para um pai enchendo a piscina do filho, baldinho a baldinho. Certamente não pode alugar aquelas que passam oferecendo, a 20,00 reais o dia, e cheia.
Mas, baldinho a baldinho, ele faz a sua, e demonstra tanto amor por aquele filhote, que ver aquela cena restaura vidas cansadas.
Perto de nós, um cheiro de frango assado invade os olfatos, aguçando nossa fome. Uma quentinha está sendo servida, e a garotada faz a festa com direito a boca melada de farinha.
Na praia, perto do mar, o Gordo da Salada arenga com o Zé da Geladinha, adivinhem o que discutiam?
Vou salvar o dia deles, encomendando algo pra o JG que ele nunca comera. E a discussão deles se encerra, então despedem-se, não sem antes alguns descontraídos xingamentos do 13 x 17.
E lá vai o Gordo da Salada seguindo o caminho. Adorei o marketing da camiseta dele.
Agora, o Severino do Gelada prepara duas pra nós, uma de coco para mim e uma de morango, para o JG, delícia.
Ao nosso lado, um jovenzinho brinca de cambalhotar na areia, um verdadeiro às olímpico.
JG quer imitá-lo, mas é admoestado para priorizar a gelada. Foco JG!
Terminando a gelada, ele corre pra bater bola com os meninos próximos.
Um deles, filho do dono do guarda-sol, é um amor de criança. Tadinho, após a lida de ajudar seu pai com as cadeiras e guarda-sóis, agora quer brincar. Criança é pra brincar.
Passa picolé, e ofereço uma rodada a todos.
De longe, observo que ele deixa o dele cair na areia. Mas, ele não é de desanimar. Pega o que restou, corre pra banhar com água, e senta-se para terminá-lo, junto aos demais meninos, que sorriem numa algazarra das boas.
Telefone toca e é a amada. Quer saber das novidades, interessa-se, mostra admiração, cuidado com meus filhos, e em especial com o JG (olhe o filtro solar, não deixe ele ir fundo, têm tubarões, dê água pra ele, cuidado pra ele não se perder...” Coisas que diz só quem ama)
Então, devagarinho, faço-lhe o relato acima, que não seria justo deixar só com ela.
Afinal, em tempos que se prega e se vende tanto ódio, de tudo e de todos, poder ver o que vi faz uma renovação toda especial nos tecidos da alma.
Há tanta coisa boa na Humanidade. E, para cada 10 razões para nela não mais acreditar, ainda existirão outras 1.000 que nos provarão, todos os dias, o contrário.
É só ajustar o dial do Ser para se sintonizar nas boas estações da vida e do viver.
Pense nisso!
Cure-se a si mesmo, nestes tempos de tanta pequenez social.

Cartas ao JG – Não Renegue teus Outonos (Autor Ricardo de Faria Barros)


Nesta tarde, após te pegar no colégio, você vinha eufórico para casa de teu pai. Acabara de fazer as provas de Ciências e História, que estavam reservadas para aquela quarta feira.
Você me diz que gosta destas disciplinas. Falou-me que uma das perguntas era sobre as quatro estações do ano: Outono, Verão, Inverno e Primavera.
Disse-me que aprendeu que o Outono é a mais “triste” das estações. E que ele, o Outono, deixa tudo sem cores, sem folhas, fazendo um monte de sujeira nas cidades.
Engoli em seco, olhei-te com olhos de compaixão, de misericórdia, e agora vou te ensinar o que é o Outono. Quando tiveres idade para entender esta carta compreenderá.
Sabe filho, eu sinto pelo preconceito que tiveram sobre o Outono. De fato, ele não tem as flores da primavera, nem os frutos do verão, nem os tentos brotinhos que nascem no inverno.
Mas, sem ele não haveria crescimento algum das plantinhas. A natureza precisa do Outono, como nós humanos precisamos de momentos de recolhimento, de reflexão e busca de um maior autoconhecimento.
No outono as árvores entram no modo esperança. Neste modo, elas largam fora tudo aquilo que está sugando sua essência, pois a pouca água que ainda existe no solo, deverá ser priorizada para mantê-la viva, por dentro do tronco e galhos, em fletes de seiva salvadores.
Então elas se despedem das folhas, dos frutos, das flores, para poder sobreviver.
Se ela não fizer isto, já no outono, preparando-se antecipadamente, quando chegar a próxima estação, ela não aguentará passar por ele.
Ela precisa perder para poder crescer. E, filho meu, crescer além de ser muito arriscoso, dói.
Quantas das vezes em teu viver tu terás que abrir mão de coisas, para manter tua essência viva?
Quantas tralhas tu vais carregando, sugando teu melhor existir, que em algum momento tu vai ter que tomar a coragem de delas se livrar. Para poder cuidar de ti, e atravessar dias mais áridos.

Filho, sabe qual é o sentido em Latim da palavra Outono?
- Aumento ou crescimento;
- Acrescentar ou fortalecer

Não é bacana? Então filho meu, inspire-se no Outono para crescer e para se fortalecer.
As folhas de teu viver que deixará cair, por já estarem secas, sem flores e frutos, já cumpriram seu papel em tua vida, e hora de deixá-las partir.
Tem gente que quer carregar tudo pela vida, e a mala existencial fica pesada. Carrega pessoas que lhes fazem mal, carrega emoções negativas: inveja, mágoa, ressentimentos e ódio. Carrega a falta de perdão, de recomeços, carrega o pessimismo de si mesma, do outro e da vida.
Carrega um monte de “Se” que são as culpas encardidas: Se eu tivesse feito Isto..., Ou Aquilo
Ou carrega um outro monte de “Quando”: Quando acontecer Isto...ou Aquilo...
Têm pessoas que queimam as Estações do Viver. Não querem passar pelo Outono. Não querem se esvaziar de suas certezas e dogmas sagrados, de seu estilo de vida sufocante, de sua postura escravizante sobre os outros. Ou de vidas de aparências, ou manipuladas pelos outros.
É desafiador ser Outono.
No Outono não temos nada que chame a atenção e que nos faça receber migalhas de afeto ou reconhecimento.
Nunca vi pessoas encherem suas redes sociais com fotos de árvores sem flores, folhas ou frutos.
O Outono não desperta a estética do olhar.
Todo mundo só quer ser Verão, com seus dias brilhantes. Ou Primavera, com seu florescer vibrante. Ou Inverno, com a abundância da natureza em doação: em sementes, frutos e legumes.
E Outono, aos olhos pouco avisados, só é estação de Perda. Perda das flores e folhas.
Mas, sem ele não haverá crescimento, nem fortalecimento.
Sabe filho, as vidas editadas das redes sociais não mostram seus Outonos.
Então, ficamos pensando que só se vive sorrindo, viajando, sendo promovido, em lua de mel, ou naquele show ou local digno de um cartão postal.
Mas, muitas dessas pessoas só estão usufruindo de uma vida que realmente faça-lhes sentido porque passaram pela etapa da muda.
Aceitaram e acolheram a dor da perda, deixaram ir o que não lhes fazia mais sentido.
E, despedidas de si mesmas, sem nada que causasse aração: beleza exterior, fama, poder, dinheiro, elas descobriram-se a si mesmas, e quem de fato gosta delas, em sua essência.
Quem já passou por períodos de luto, por crises na saúde, por aperreios sabe do que falo.
Eu amo as árvores de galhos e troncos desnudos, amo o Outono com suas folhas secas.
Aqui no Cerrado, do Distrito Federal do Brasil, elas são aulas vivas de esperança.
Os desavisados pensam que estão mortas. Tolinhos
Elas estão vivinhas por dentro. Só estão recolhidas, aprendendo com a natureza dos dias, buscando forças para manter a seiva interior, até que um tempo melhor lhes apareçam.
Pois, são nos Outonos, nos desertos dos Outonos, que podemos ter o privilégio de nos ouvir a nós mesmos, como em nenhuma outra estação existencial do Ser.
Filho meu, não tema perder suas folhas secas. Não tema períodos de reflexão, de introversão, períodos de silêncio e sofrimento existencial, daqueles que angustiam o peito.
Nesta sociedade consumista e narcisista, além de extremamente individualista, só aparece na mídia as pessoas realizadas, alegres, bonitas e de sucesso. E, e em selfs de cenas variadas de si mesma.
Então, por isso o Outono incomoda.
Pois parece que passar dias mais triste é uma doença. Não é filho meu!
Você precisará de dias assim para crescer, para amadurecer, para se fortalecer e fazer escolhas. E, não há escolhas sem renúncias. E, para cada renúncia uma folha seca que deixa que ela siga o caminho.
Só não ache que será para sempre. Um belo dia, de teus troncos secos, dos galhos sem vida, um brotinho nascerá, e um novo ciclo começará.
Aí tu se sentirás mais forte, mais belo, mais humano e valoroso, pois enfrentou a angústia de si mesmo, em noites de insônia e vazio.
Lembre-se sempre:
“É no Outono que a gente descobre que tem muita vida dentro da gente”, como diz a Brisa Azul.

Competências Essenciais ao Mundo do Trabalho do Séc XXI (Autor Ricardo de Faria Barros)

Recentemente fui convidado para falar sobre as competências essenciais às carreiras profissionais, em ambiente de incerteza e intensa mudança do mundo do trabalho. As descrevo abaixo:

1. Solucionar problemas locais. Visão de dono no processo em que atua. 

2. Aromatizar de ambientes. Postura de catalizador de emoções positivas no ambiente de trabalho, cada vez mais tenso, estressante e insalubre, emocionalmente falando.

3. Navegar no waze corporativo. Orientar pessoas, processos e serviços em função da navegação pelo mapa estratégico. Contudo, tendo capacidade de alterar rotas, redefinir prioridades, cursos e canais de ação, quando mudarem-se cenários, ou contextos de atuação.

4. Operar e fuçar nas tecnologias digitais. Saber aproveitar as potencialidades da tecnologia da informação e comunicação. 

5. Disseminar Conhecimentos Gourmets.  (Ser promotor de processos de ensino e aprendizagem saborosos, significativos, feitos com o melhor de si mesmo, o melhor que consiga de recursos, com muito zelo e cuidado, e com foco no aprendente)

6. Engajar pensamento e ação com foco na experiencia do cliente. Estar sensível, aberto e com as lentes perceptivas aguçadas para melhorar a experiência do cliente.

7. Inovar para fora da caixa da tradição. E porque não?


8. Pensar global, agir local. Pensar local, agir global.

9. Desenvolver capital psicológico positivo: esperança, otimismo, resiliência e auto-eficácia.

10. Cultivar parcerias: internas e externas.

Não Desanime! (Autor Ricardo de Faria Barros)


Seja debaixo de sol inclemente,
do medo quando infelizmente preciso abrir a janela para molhar sequiosas plantinhas, ou dar água aos beija flores, seja no vento forte, como o que ontem virou o jarro de orquídea,
ou no frio que assolou esta madrugada, esta mãe-ave não desiste de gerar uma vida.

Acordar todos os dias ao lado desta lição da natureza tem elevado e inspirado meu viver.

Andamos precisando deste otimismo, resiliência e esperança no manejo de nossos sonhos, projetos, metas e objetivos mais nobres.

Não podemos desistir de nós mesmos, dos outros e de parir tempos melhores, com nossa presença e atuação na realidade na qual vivemos.

Tem muito potencial humano, em forma de pessoas, esperando pela nossa ação e liderança para se desenvolverem e eclodirem no seu melhor existir.

Obrigado Pomba Burguesa, pela lição de tenacidade ativa.

A Reinvenção da Velhice

Acabei de conduzir um ciclo de palestras, promovido pela Fundação Sistel de Seguridade Social, juntos aos seus associados da base SP, RJ e MG.
Estiveram presentes aos eventos mais de 1.000 aposentados, da TELESP, CTBC, TELERJ, TELEMIG, entre outras.
Voltei para casa com o coração repleto de alegria, vivenciando em meu ser o que o célebre Guimarães Rosa falou: "Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende".
E aprendi muito com este grupo de novos velhos, com os quais trabalhei o tema: Felicidade não tem Idade. Sim, eles são "Os Novos Velhos".
Afinal, este pessoal na faixa dos 60 aos 95, presentes às palestras, está reinventando a velhice. Eles fazem parte de um fenômeno mundial da busca de uma longevidade mais plena de sentido, a Envelhescência.
A velhice vem deixando de ser vista como a última parada, na estação da evolução humana, ou como uma espécie de antessala da morte, na qual ficava-se ali sentado, sem mais sentido algum pelo qual viver.
Os novos velhos, os envelhescentes, estão socializando, estudando, engajando-se em projetos pessoais, causas sociais, esportes e cultura. E andam saindo por aí, aventurando-se em busca de seus próprios ideais e autonomia. Que maravilha!

A riqueza do simples (Autor Ricardo de Faria Barros)

A vida pede assombros complexos, vivenciado na natureza do simples.
Cheguei morto de cansado no Othon BH, o hotel no qual iria palestrar no dia seguinte. Vinha de um circuito de três palestras seguidas, sendo uma em SP e duas no RJ.
No trajeto ao hotel, fui agraciado em pegar um motorista de Uber, um verdadeiro filósofo da vida, que me ensinava, quilômetro a quilômetro, sobre a arte de ser feliz.
Aquilo me fez muito bem, e teve efeito restaurador, ele me contava que quebrou com o comércio de tecidos, há três anos, e que após pagar todas as dívidas, e ficar quase sem anda, resolveu investir na carreira de Uber. Tem dois anos que exerce esta profissão que, segundo ele, devolveu-lhe a vontade de viver. Contou-me que cada chamada que concretiza, cada avaliação positiva que recebe, é como um tijolinho a mais na obra de seu recomeço, após os 50 anos. Uauu!!
Eu reservei o hotel pelo Booking, escolhendo ficar no local do evento porque a diária estava boa, e em promoção. Não me afeiçoou a chiquezas.
Ao entrar no apartamento 1415, nem acreditei, era maior que o meu de Sobradinho. Detive-me uns minutos apreciando a bela vista do Parque Municipal de BH, e de suas montanhas ao longe. No parque casais enamorados remavam em prosaicos barquinhos, no lago central, dando ao final do dia um toque de romantismo. E aquilo me deu uma paz tremenda. Pensei comigo, vou remar ali.
Entrei no banheiro e soltei um Uauuu!!! Tem banheira. Preparei um banho morno e fiquei ali relaxando e feliz. Fiquei pensando em quantas banheiras de hotel, nas minhas viagens como educador do BB, eu não aproveitei? Ligava o chuveiro e tomava banho, sem me permitir àquele prazer. Tudo em mim era correria e ansiedade.
Depois daquele banho delicioso, subi para ver a vista lá do 25 andar, coisa que na minha vida apressada e desatenta, de outrora, eu não fazia, nem me dava ao direto de perceber que havia aquela possibilidade.
A percepção governa a realidade. Sem estar 100% presente, á maravilha de viver, as coisas boas acabam passando despercebidas, ou sem serem devidamente valorizadas.
Do 25 andar, pedi uma deliciosa caipirinha de frutas vermelhas, enquanto mirava o pôr do sol, trás dos morros de MG, um deleite para vistas cansadas.
À noite peguei um Uber para o Bar Aos Inconfidentes, que tinha rodízio de petiscos. No local, hoje funciona uma hamburgueria. Desisti dali e pedi outro Uber, agora para o Boteco da Savassi. A motorista que me pegou perguntou-me se eu estava mesmo indo para Macapá. rsrs
E, desfeito do susto, ela sugeriu que eu ficasse na pracinha da Savassi.
Desanimar jamais, não era noite ainda dia de voltar para hotel.
Ali chegando subi por uma rua que é uma profusão de bares, muitos com música ao vivo. Pedi como tira-gosto num deles umas costelas na lata, coisa boa demais. De comer ajoelhado, agradecendo a Deus.
De outro, uns 30 metros á frente, saia uma música da melhor qualidade, tipo O Grande Encontro, ou bons sambas das antigas.
Chamei o garçom, pedi que ele botasse minhas costelas numa quentinha, fechei a conta, e de quentinha em mão, estacionei à frente do músico, do outro boteco.
E a noite foi de boa música, com direito a comida mexicana, que era o tema do bar. Logo fiz amizade com o músico, aplaudindo-o e pedindo música. Senti no rosto dele a gratidão, pelo prestigio de sua arte, dado que os presentes lhe condenavam ao antônimo do amor, a indiferença, seja pelo papo entre eles, ou por terem ficados cegos de celular, com seus olhos e faces iluminados por aquela luz que desconecta tudo de todos, e todos de tudo, no mundo real.
No dia seguinte, escolhi ficar numa mesa ao ar livre, na varanda do local do café, mirando minha alma na borda infinita das árvores do Parque Municipal. 90% dos demais preferiram o salão fechado e climatizado. Mas, era 8hrs da manhã, e nada melhor do que o sol e ar frescos para nos reinicializar. Senti dós das mais de 8 mesas com guarda-sóis não ocupadas, e dos que se apinhavam no salão fechado, disputando cadeiras em mesas tão cheias de pessoas e tão sós de gente.
Como a palestra seria 10h30min fui passear no Parque, hoje habitado por moradores de rua que dele fazem ponto para dormirem. Mas, eles não mexem conosco. Eles não aprontam onde dormem, fique certo disso, e é dado da própria PM.
O local de locação dos barcos só abria 9hrs, e para mim já ficaria tarde. Então, aproveitei para caminhar entre árvores centenárias. No caminho encontrei o Mestre Gercínio, que conduziria ali umas Oficinas de Capoeira. Gercínio é Angoleiro, do grupo do mestre João.
Ele me explicava sobre os sons do berimbau, sobre a sabedoria da capoeira, com tanta amorosidade, que era como se de seu olhar pudesse contemplar um oceano azul de paz. Ele integra um projeto social que já tirou muita gente de vidas vazias, ou que estavam presos às drogas, ao lhes ensinarem a arte de jogar capoeira, e toda a filosofia e sabedoria que existe naquela arte. Deixei-lhe pesaroso, pois a hora da palestra estava próxima. Correndo para o hotel, ainda parei num lambe-lambe, e fiz uma foto. Afinal foto em lambe-lambe é para os poucos. O fotógrafo chama-se sr. Bento, 30 anos de parque, que também queria conversar sobre sua arte, mas meu tempo rugia.
No caminho ao hotel, passei pela pastelaria Pastelândia e vi um anúncio dizendo: Pastel de Arroz, Feijão, Carne, Queijo, Jiló e Couve, por R$ 6,00.
Uauu, pensei. Tenho que comer este pastel.
A palestra foi maravilha, e terminei pelas 13hrs, exausto. Subi ao quarto, pus uma bermuda, desci e segui em direção ao pastel.
E foi uma delícia aquela exótica, mas bote exótica nisso, iguaria em forma de pastel. Num é que estava muito bom!
As garçonetes disseram que foi invenção do dono, e que tem uns 2 anos que aquele pastel virou uma espécie de jantinha, e que é exclusividade da Pastelândia, da Afonso Pena, ao lado do Othon.
Devidamente alimentado, fui para o lago do Parque e paguei mais R$ 6,00 por 30 min de remada.
Senti-me o próprio navegador intrépido, ao remar por aquele belo lago.
Entre um remo e outro, vi ao longe o um construtor de barquinhos, trabalhando à margem do lago.
Ao descer dirigi-me a ele, para reconhece-lo pela qualidade dos barquinhos, sua a estabilidade e boa navegabilidade, pelo visto um dos que ele construíra.
E era.
Descobri que aquele senhor se chamava Ivanilton, que há 40 anos fabricava os barquinhos de remo, usados para locação no lago central do Parque Municipal de BH. Aí, ele me deu uma aula sobre o tipo de madeira, os ângulos necessários ao caldo dos barcos, e o capricho da etapa final de calafetagem e pintura. E de seu encanto ao ver os barquinhos, por ele fabricados, sendo navegado pelos clientes, e em perfeição. Contou-me que têm duas filhas que moram em Sidnei, e que é um apaixonado pela carpintaria naval.
Uauu, que delícia de prosa. O relógio aproximava-se das 14h30, era hora de fecha a conta e partir.
Quantas coisas boas e simples estão acessíveis ao nosso viver e por elas passamos despercebidos?
Quantas pessoas com histórias de vida lindas que por elas passamos em nem nos damos conta, ou a lançamos nossos preconceitos, como para com os jogadores de capoeira, por exemplo.
É preciso reeducar o olhar para apreciar o simples, para curtir o agora, em todo seu potencial de encanto que existe.
A ouvir o inaudível, a ver o invisível, a tocar no intocado, a sentir o silêncio contemplativo e belo da vida, ali presente em cada esquina
É preciso desaprender muita coisa, é preciso se desconectar de muita coisa, para que de fato exista espaço em nosso viver par o que realmente importa, delicia e dá sentido à vida e ao viver. E também é preciso carregar menos tralhas, pesos e pesares, em forma de gente, emoções e pensamentos.

Dois cajus e um quase tem. (Autor Ricardo de Faria Barros)

Ambulante Edvan
Naquela manhã, acordei com o firme propósito de usar o tempinho que tinha antes de pegar o vôo, João Pessoa - Brasília, para caminhar na calcadinha da praia.
Hospedei-me num hotel na paradisíaca praia de Cabo Branco e dali saí para caminhar na não menos paradisíaca praia de Tambaú. Com máquina a postos segui meu caminho, dando-me ao luxo de parar em cada cantinho tão bonito que mirava. Aí o ambulante passou por mim empurrando uma carrocinha de frutas: era seriguela, uvas, bananas, cajus e acerolas, que formavam uma textura picassiana no tabuleiro do carrinho.
Apressei o passo para não perder aquela foto. Quando estava mirando o foco, de forma discreta e atrás do vendedor, um dos guardadores de carro dele se aproxima e pede um caju.
Ele para, olha para o guardador de carro, pega dois cajus, e entrega para ele.
Eu emparelhei com ele e descobri o sr nome, Sr. Edvan. 
Reconheci o gesto de generosidade dele, e fitei para os cajus, vendo que não tinham muitos. 
Nesta época do ano eles ficam muito caros e são disputados por caipirinhas enamoradas.
Ele me contou que sempre tem alguns alimentos para os outros ambulantes, pois, "um ajuda o outro".
Uauu. Fiquei com o coração elevado com tanta inspiração que vinha da presença de Edvan no mundo.  Tem gente que deixa o mundo melhor quando passa. Edvan, e sua carrocinha de frutas é uma delas. E Edvan foi além do que lhe foi pedido. Ele sabia que um caju só não faz um verão, e deu-lhe dois. Quanta generosidade de ser!
Voltando para o Ambasador Flat, resolvi investir meus 40 minutos finais comendo um caranguejo na barraca do Corsário, em frente a ele. 
Sentei-me numa prosaica área sombreada por castanholas. Pedi cerveja uma estupidamente gelada, e dois caranguejos. 
O garçom olhou para mim com olhos mansos e cheios de ternura, e disse assim:
"Heim heim, quase tinha...".
Toda meu desgosto de não ter caranguejo, que amo, caiu por terra. Soltei uma gargalhada, perguntando-lhe o nome. Ele respondeu: Flávio.
Eu disse assim: "Flávio, nem quero mais o caranguejo, só me explica o porquê do "quase ter"."
Disse morrendo de rir, com dificuldade até de falar. Ele manteve a pose e solenemente declarou: 
- A Maria adoeceu hoje, e mandou sua filha para a cozinha, aí ela não pode fazer o que sempre faz, que é passar na Feira da Torre, e comprar os bichos de dez patas. Nem deu tempo de nós mesmos irmos comprar.  
Adorei a explicação, a empatia, o heim heim, e o "quase tem".
Sabe pessoal, o Flávio sem querer deu a melhor aula sobre considerar a experiência do cliente, no relacionamento negocial, que já tive na vida.
Eu nem cogitei ir para a barraca vizinha. Fui abraçado com uma explicação tão humana, tão empática, que até senti o sofrer dele ao ver que não ia poder me atender com o que eu desejava.
Edvan e Flávio tem em comum uma atitude que anda rareando, a empatia. Em recente visita ao Brasil ,o professor Tal Ben Sahar, do curso das Ciências da Felicidade de Harvard, revelou que recente pesquisa detectou que o nível de empatia dos Norte Americanos caiu 40% em vinte anos.
Este dado científico foi detectado na análise das respostas atreladas a esta afirmação:
“Eu às vezes tento entender meus amigos, melhor imaginando como as coisas são, pela perspectiva deles”.   40% dos respondentes assinalaram itens abaixo da linha de concordância. Há vinte anos atrás eram 20% quem assinalava abaixo da linha de concordância.
Em vinte anos a percepção das necessidade do outro caiu drasticamente. Os estudos de Harvard indicam como um dos fenômenos a criação de mundos essencialmente virtuais, sem mais se investir tempo em relacionamentos reais, presenciais, nos quais se exercita com mais força a empatia, pois se percebe melhor as necessidades do outros, ao caminhar com ele face a face.
Então, o que Edvan e Flávio fizeram deve ser ensinado nas famílias, escolas, igrejas e no mundo do trabalho, cultura e lazer, a perceber as necessidades dos outros, e tentar de alguma forma acolhê-las apreciativamente, nem que seja numa escuta, seguida de um "quase tem".
Mas, para que isso ocorra, é necessário estar presente ao mundo e sua beleza de viver. 
100% presente e dando de seu melhor, surpreendendo, surpreendo-se e mudando realidades com seu jeito diferente, de fazer as coisas iguais.
Edvan podia ter dado outra fruta, ou até nenhuma. Podia alegar que depois passaria, e daria se sobras. Podia alegar que tinha poucos cajus. Etecetera e tal. 
Para quem quer fazer todo do mesmo jeito, para quem quer ser só mais um, sempre haverá um monte de justificativas e explicações, todas plausíveis, para não alterar o carrossel do destino, mudando vidas, negócios e ambientes com sua presença no mundo. 
Flávio poderia ter oferecido outra coisa do cardápio, poderia ter simplesmente dito que naquele dia não tinha, ele não me devia explicações alguma. Mas, ele foi além.  Deixou de ser um garçom, passou a ser "O  Garçon!".  Só pelo respeito ao desejo frustrado de um cliente.  
Empatia, coisa que rareia nos tempos atuais de tantas brigas até por escolhas políticas. 
Por mais Flávios, mais Edvans no mundo!   Que nos inspiremos neste breve fragmento de suas histórias de vida.
Que possamos assinalar, na afirmação abaixo, um item que revele nossa concordância: 
"Eu sou alguém que tenta entender meus amigos, melhor imaginando como as coisas são, pela perspectiva deles."   (X)  Concordo 
Mas, para que isto seja verdade temos que exercitar a empatia nas pequenas coisas, aquelas mesmas que para nós pode ser besteira, mas que para o outro era tão importante que a acolhêssemos em nossa vida, tais como dois cajus e um "quase tem".

Gente - O Elixir da Longevidade (Autor Ricardo de Faria Barros)

Têm mensagens que pingam em nosso viver que são como bálsamos, verdadeiras fontes de água viva. E que nos ensinam muito.
Esta foto retrata o momento exato em que uma delas adentrou meu coração.
Quem mandou foi o Luís Cabrelli. Ele é um dos 1.000 colegas que ao logo de cinco anos, migraram de carreiras das agências para a área de Tecnologia de Informação do BB, ao serem selecionados para o Programa de Ingresso na Diretoria de Tecnologia (PROGRID).
A turma dele se autointitulou os Persas, e ele naquela noite dividia comigo a sua alegria em completar cinco anos na carreira de TI: Persas, Ano V. E, como Luís bem falou, rumo ao X.
Nestes dias, muita coisa encheu meu coração, e não foram só as magníficas flores do Cerrado que aparecem quando começamos a cansar do ano que se peleja, pelos meses de agosto-setembro, como a nos dizer: coragem, falta pouco para o natal.
Pelas bandas do Planalto Central elas se fazem presentes: Cagaitas, Ipês, Cambuís, Jacarandás e Paineiras Rosas, que nos convidam a deitar em seu regaço, nos tapetes de painas brancas que formam, estão em festa.
E é sobre festa que o Luís me falava. Imagino aquele grupo de mais de cem colegas se articulando para se reencontrarem, e celebrarem suas jornadas - mais que profissionais, jornadas de vida e entre amigos, ao se associarem numa placa: A Turma dos Persas.
Flores lembram-nos do valor da celebração. Mesmo sendo flores colocadas perto de quem se foi, ainda assim, queremos com elas desejar vida plena aos que ficam, e novas e melhores dimensões aos que se vão.
Gosto muito das flores, de qualquer tipo, elas nos ensinam o valor da poesia, aquela mesma que areja a realidade, fecunda a esperança, e revigora o ânimo e a coragem de se teimar em continuar, mesmo quando muitos já de desistiram. As flores são a celebração da natureza.
Precisamos celebrar. Neste mês tive a satisfação de participar mais de festas de aniversários do que de enterros. Estou aberto a convites deste tipo: aniversários, batizados, formaturas, casamentos, chá de bebê, entrega de TCC, comissionamento, descobrir que está grávido, receber as chaves do imóvel, comprar o primeiro carro zero, aprender a andar de bicicleta, o que seja. Foi pra celebrar algo, manda o convite.
Sr. Valdeci celebrou seus 75 anos, unindo o clã aqui do DF. Uma das melhores celebrações à vida que participei. Daquelas que não se contratou empresa pra organizar, nem precisava de pratos, copos e talheres estilosos, nem com buffets cheios de guloseimas espalhados aos 4 cantos. Era festa do abraço, da alegria genuína, de pessoas que iam vê-lo apenas para dizer: feliz aniversário meu amigo.
Mamãe fez 80 anos também por estes dias. Reunimos a parentada e fizemos uma festa bem legal para ela, com espaço para podermos conversar entre nós, sem música alta, sem distraidores pra entreter os presentes, sem nada que tirasse o foco, que era ela. Quem foi vê-la queria ficar perto dela, conversar, acarinhar, ouvi-la no seu discurso de agradecimento pela vida, ensaiado à exaustão aqui em casa.

Os Persas estabeleceram um rito de encontros anuais. Que bacana!

Todos os estudos sobre bem-estar emocional (florescimento/felicidade) e aqueles acerca da longevidade (enveslhescência), remetem à um mesmo achado científico: a importância da integração, sociabilização e senso de pertencimento que as pessoas nutrem ao participarem de encontros sociais com seus grupos de relacionamento.
Estudos como o The Men of the Harvard Grant Study (Harvard) que por mais de 75 anos acompanhou os ingressos naquela Universidade, ou o de Oklahoma, no Japão, sobre os centenários. Ou o de Roseto, nos EUA, sobre a ausência de mortes por alguns tipos de doença, chegam a mesma conclusão.
Quando periodicamente nos reunimos com amigos, seja para um dominó, um carteado, uma aventura em grupo, um evento religioso, esportivo, ou cultural, ou um passeio e até numa festa, estamos desenvolvendo os quatro hormônios da longevidade: endorfinas, serotoninas, dopaminas e oxitocinas.
Todo evento que junta pessoas que se gostam, que entre elas possuem algum tipo de afiliação, ou reconhecimento mútuo de valores compartilhados, é preventivo e até curativo de certas patologias da alma, originárias por palavras sozinhas, e em má digestão, loucas para serem expelidas para alguém, mas que não encontram quem as escutem, acolham, e as coloquem noutras perspectivas vivenciais.
Então, trate de organizar encontros entre seus amigos, aprender a celebrar o nada. Não falte mais a batizados, formaturas, eventos que celebrem algo importante para alguém de seu grupo social.
E Luís, junto com os demais Persas, comecem já organizar o VI Encontro, festa boa começa na véspera. E é de boas vésperas de que se faz uma vida plena!

E, caso tenha uma pessoa para deixá-lo(a) todas as noites com um: "Boa noite, dorme com Deus"; ou acordá-lo com um: "Bom dia, lindo dia". E que, ao lado dela(e), tu repete a mesma história, e ela(e) te ouve como se fosse a primeira vez, saiba que ela(e) te cura todos os dias. É como se ela(e) reinicializasse teu sistema, te tornando mais novo, animado e corajoso, sempre que sai de dentro do abraço dela(e). Então, valorize esta pessoa como se fosse um sacrário vivo.
Quem tem uma pessoa para esperar, uma pessoa para cuidar, uma pessoa para admirar, uma pessoa para com ela olhar o mesmo horizonte, tem uma brisa aracati ao seu lado, que o deixa melhor a cada pousar de seu olhar sobre nosso coração.
E, não é todo mundo que tem o dom de nos tornar melhores, só ao olhar para nós. Então, não deixe que este tesouro seja vítima do estresse, descuido, rotina e indiferença, tão comuns ao "amor em tempos líquidos" (Zygmunt Bauman).

Celebre agora mesmo, com um bom copo de água e um brinde, ao ler este texto, a presença desta pessoa em teu viver.
E, deguste também a presença em teu viver de todos os amigos e grupos, e de qualquer vocação positiva e ética, que ainda te convidam para com eles se congregar, para além dos inevitáveis e solidários enterros.
Costumamos fixar nossa atenção para coisas quando as perdemos, veja o Museu Nacional no RJ.
Então, não deixe que pegue fogo e se vá em cinzas, as coisas tão legais que moldaram tua história, entre elas as pessoas que te constituíram ser quem és.
Não se perca de seus grupos sociais. Persas, não se percam uns dos outros. E aprendam a cultivar novos grupos, em outras instituições de que fazem parte.
Não se chega a felicidade sozinho.

A felicidade é um efeito colateral da construção coletiva, e saudável, de toda cadeia de relacionamentos que ao longo da vida vamos estabelecendo e construindo.

Todos que saíram da festa de Sr. Valdecir, da de mamãe e da do Luís, saíram melhores.
Mas, não precisa ser aniversários, ou festas mais de logística mais trabalhada, como encontro de turmas.
Participe da vida comunitária. Proponha momentos para juntar pessoas e até ajudar pessoas.
Pode ser a quermesse da igreja, a festa de São João de seu prédio. Um encontro com pais dos amigos de seu filho. Um mutirão para uma causa social. Um torneio de frescobol. Uma caminhada em noite de lua. Uma seresta entre amigos.
Não importa. Teve gente de luz reunida, com propósitos edificantes, ali há muitas fontes de geração do quarteto do bem-estar emocional positivo: dopamina, oxitocina, endorfina e serotoninas.
E, valerão algumas idas ao terapeuta, ou podem atuar preventivamente ao processo de decisão pelo final da vida, por aquela pessoa ter encontrado quem a ouvisse, em seu momento de profunda comoção e confusão rácio-emocional.

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