Selfiar a Vida



Na pose para a foto da vida,
há momentos em que você 
precisa se lançar, 
para nela sair. 
Não deixe que te diminuam, 
joguem você ao lado,
e excluam a tua possibilidade 
de nela vir a sair.

Projete-se na vida 
com amor e vigor, 
carregando a ti mesmo,
irradiando teus valores 
e acreditando no teu potencial. 
Nem que seja aquele que te faz saltar, buscando uma possibilidade 
remota, num infinito de um clique. 
Num instante mágico, 
que poderá durar uma eternidade,
a vida voltará a ter sentido para ti. 
Lance-se nela, 
plante o futuro que almeja.
Aí, num dia sem nada especial, 
como quem chega do vazio, 
o sopro da mãe vida trará 
consigo o orvalho da manhã vindoura, 
que alimentará tuas raízes sequiosas 
e te fará renascer da dor. 
E, num instante mágico, 
tal o clique desta foto, 
a vida voltara a ter sentido 
e acontecer para você.

Mas, repito, lance-se nela!
E, tenha esperança, 
mesmo contra toda desesperança que teima em habitar teu ser.

Cartas ao JG - A arte de contar os números da vida.

Meu filho, ontem cheguei em casa perto das 23hrs. Voltava de uma aula que lecionei na UNIP, cheguei em casa feliz. A aula rendeu. O tema foi sobre a capacidade que temos de fazer com o que a vida nos faz, uma ponte para novas descobertas, ou um muro de uma prisão.

Um dia você entenderá o que teu pai agora escreve. Costumo dizer que na mesma realidade há benção e maldição, há o bom e o ruim. Mas, que olhar o lado bom da vida é uma decisão, uma escolha, algo que fará toda a diferença. Somos treinados para o negativo, pessimismo e vitimização. Precisamos reprogramar nosso cérebro para que ele aprenda a filtrar melhor a realidade, destacando dela às coisas pelas quais somos gratos: um belo pôr do sol, uma amizade, um pássaro que canta, uma refeição prazerosa - e também reaprendermos a agradecer às pessoas que tornam nosso dia a dia um pouco melhor, reconhecê-las e elogiá-las, desde que seja um elogio verdadeiro.

Ensinei aos meus alunos o que agora te ensino nessa cata: chore e sofra com as coisas ruins que te acontecem, somente um dia e uma noite. Somente. Depois, bata a poeira, enxugue as lágrimas e siga sua jornada. Ontem foi um desses dias na vida de teu pai. Algo me decepcionou no mundo do trabalho, me fez profundamente infeliz, algo do tipo de uma fofoca. Chorei o dia de ontem e a noite. Hoje, as 6 da manhã, quando escrevo pra ti, já virei a página. Aprendi com o ocorrido, extraí preciosas lições e segui adiante. A vida não para, não dá uma pausa, para que você enxugue as lágrimas. E, fugir para a arquibancada dela, quando o jogo fica difícil, não é uma boa escolha.

Cheguei em casa e tinha um bilhete de tua mãe: “Amado, tem pizza no forno. Se sobrar guarda na geladeira por favor”.

Contei minas bênçãos novamente. É muito bom chegar em casa e ler um bilhete desses. Não sobrou pizza, estava deliciosa.

Aí escutei uns passos na escada. Pensei que seria tua mãe. Mas era você. Fui tomado de surpresa. Você nunca sai de perto dela, principalmente quando chora.

Tu manténs uma certa distância de teu pai nessas horas.

Você chegou até mim tossindo muito e chorando. Chorava que se engasgava a tosse com o choro, o choro coma tosse, aponto de vomitar o leite recém-tomado.

Quase que vomito junto.

Mas não era hora de teu pai dá chilique.

Te abracei. Perguntei-lhe o que ocorreu, e onde estava tua mãe.

Você contou que ela dormia. Então saquei que ao ver a luz da cozinha acesa você veio procurar ajuda com seu pai, então a coisa era séria.

Você, entre lágrimas e soluços, dizia que chorava por “não saber contar”. “Que era difícil”

Que a professora fizera um jogo na escola e que você “perdeu”.

Perdeu o jogo dos números, por não saber contar e que a tia ficou brava.

Disse-me chorando que “não iria aprender a contar” e que os outros ganharam o jogo.

Pediu pra não mais ir pra escola, hoje, e que queria ir comigo ao trabalho.

“Pois não sabia contar os números”.

Coloquei-te mais forte contra meu peito, abafando tua profusão de choro, e te ninei. Disse-lhe que sou professor e que iria te ensinar a contar os números. Todos os dias ao chegar em casa. Disse-lhe que você mal tinha feito 5 anos e que nem todos aprendem as coisas ao mesmo tempo.

Disse-lhe que perder faz parte do jogo da vida. Que nem sempre ganhamos. Que sempre haverá uma nova oportunidade, uma outra partida para tentar novamente.

Você foi se acalmando. Te levei para dormir comigo, na rede. Eu acarinhava seu cabelo e você soluçava baixinho.

Aquilo doeu em você.

Algo te magoara no ato pedagógico de tua “tia”.

Dias atrás, morreu no Brasil um grande filósofo e professor chamado Rubem Alves. Procure ler a obra dele e entenderá que só se faz uma boa pedagogia com afeto, com amor. Que o conhecimento deve ter sabor, que deve ser prazerosa a descoberta das coisas.

E que a escola tradicional destrói o espaço do prazer em aprender, com métodos ultrapassados e autoritários como o que te fez tão infeliz ontem.

Com certeza, quando você ler essas linhas já saberá contar. As pessoas têm ritmos diferentes de aprendizagem. E é isso que muitos pretensos educadores não sabem. Querem botar todo mundo na mesma “forma”, de formar, e que que dali saia “bolinho” pedagógicos em forma de gente, todos iguais e no mesmo estilo, tom e jeito de ser.

Uma pena. Uma escola que deseduca para a autonomia.
Hoje será um dia difícil emocionante pra ti. Você precisará dar uma resposta pra vida. Precisará enxugar as lágrimas e lutar para aprender a contar. Não vou passar a mão em tua cabeça. Dizer que não precisa aprender a contar. Aprender a contar faz parte do viver.
Hoje você vai ter que vencer a vergonha, superar os maus tratos de uma tia que te expôs - por não acertar o jogo de contar os números, superar o medo dela: “mas a tia é muito braba”.
Superar os gracejos de tua turminha, superar a inflamação em tua autoestima ainda tão jovem.
Não poderei fazer por ti. Gostaria muito. Essa é uma luta só tua. Você precisará encará-la e não correr pra arquibancada do jogo de tua vida, quando num dia infeliz, levar 4 gols em 6 minutos. (Veja o replay do jogo Brasil e Alemanha, Copa do Mundo Brasil 2014).
Vai precisar se fortalecer para enfrenta-la. Muitas desses pretensos professores vão passar pelo teu viver e te dizerem que você “é um perdedor”, um “fracassado”. Que você não sabe “contar os números”.
Não deixe que eles te diminuam. Ninguém é, está.
Não desista. Corra atrás e supere as dificuldades com mais dedicação e comprometimento ainda.
Na vida, 90% das cosias que nos acontecem vem da transpiração, da disciplina, da pegada no chifre do touro da vida e na sua doma.
Os outro 10% da inspiração, da sorte, do acaso, de tá na hora e lugar certos.
Os outros 100% vem da mística, da presença de Deus em nosso viver a nos animar e soprar em nós seu espírito.
Mas pai, aí deu 200%. É filho, Deus também não sabe contar, pra ele o menos pode ser mais, e o mais pode ser menos. Coisa que tua professora ainda não aprendeu.
A conta da vida sempre é credora, ela sempre tem mais a nos ofertar, mesmo que pensemos que dela já tiremos tudo, já saquemos tudo. Afinal, Deus não é bom em contar os números e nos medir com a rigidez de uma calculadora. Pra Deus tudo pode ser 7 x 70, o infinito.

Vá e viva esse dia 22/07, o dia que descobriu que precisará encarar a dor, o luto e o sofrer de frente. E tente mais uma vez aprender a contar os números.

Esse é teu cálice e é tu quem terá que bebê-lo hoje. Têm pais que querem beber pelos filhos, superprotegê-los, tomar satisfações de tudo, e produzem filhos indefesos e frágeis.

Vão sofrer pois não aprenderam a perder, a sofrer. Alguém fazia por eles.

Na primeira perda vão procurar ajuda nas drogas.

Você vai ter que aprender a lidar com essas pessoas – do tipo de tua professora nas cenas de ontem na escola.

Vai ter que desenvolver a casca grossa, a saber sair de situações desagradáveis a que foi submetido. Sem perder tua ternura, tua alegrai, teu otimismo e esperança em dias melhores.

Aprender a levar pancadas da mãe vida sem ficar bruto, sem devolver na mesma medida.

Caso contrário, aí sim eles ganharão de ti.

Você não precisa ganhar o jogo de contar os números. Para teu pai, só participar do jogo já é uma vitória. Nem sempre ganhamos os jogos, nem sempre perdemos, o importante é jogar.

Não vou te criar, assim como não criei teus irmãos, para o sucesso.

Vou te criar para ser o melhor para o mundo, e não pra ser o melhor o do mundo.

Aqui reside uma enorme diferença.

Não vou te criar para ser modelo, perfeição, para ser o primeirão em tudo.

Para excessos de competição, poder, vaidade e orgulho que vejo pelas famílias afora.

Teu pai não joga esse jogo! Aqui o sistema é mais simples, e, garanto-lhe, no final bem mais prazeroso do que essa luta ensandecida por sucesso, nem que seja numa disputa de um jogo de contar números.

Em nosso lar o quarto lugar está de bom tamanho, desde que você tenha lutado para ser o primeiro!

E, voltando à minha aula de ontem à noite: mais do que saber contar os números, a contar teu saldo bancário, a contar teus bens, aprenda a contar tuas bênçãos, a contar teus amigos, a contar tuas superações, a contar e guardar em teu coração as coisas boas que todos os dias estão ali pertinho de nós e que nossos olhos opacos pela indiferença vão esquecendo de vê-las.

Isso é o que fará a diferença na contabilidade do jogo da vida e do viver.


Obs: Uma noite e um dia é uma expressão que uso para definir um certo tempo determinado. Parar de chorar, mais do que uma proposta emocional, é uma decisão racional. É uma escolha de fechar janelas, dá um Atl + F4 no Sistema Operacional Interior e permitir-se a abrir outras possibilidades. Mas, cada um tem o seu próprio tempo, a sua própria "noite e o seu próprio dia de luto". Só não pode virar meses, metaforicamente falando.

O dia do homem

Aquela guia para exame periódico de saúde jazia na minha mesa há dois meses. Nela, inscrito em letras miúdas, a palavra Urologista. No ano que farei 50 anos acho que é uma cidadã iniciativa em saúde, no mundo das organizações do trabalho, contudo um tanto delicada. rsrs
Desde 2007, aprendi que quem faz o exame de próstata é o urologista, não é no proctologista, como o sugestivo nome indica.
E, naquele ano aprendi da pior forma, indo aos dois. Uma segunda opinião é importante nesses casos.
Ontem, tomado de súbita coragem, após uma pane na CPU de minha estação de trabalho resolvi buscar nos classificados, de Brasília-DF, nomes de Urologistas.
Achei um tal de HU - Hospital Urológico de Brasília, ligo pra lá e acho um “encaixe” pra amanhã com um tal de “Alerrandro”. Um espanhol. Simpatizei de cara. Um médico espanhol pelo menos é de fora, não comentará nada om os brazucas locais.
Hoje, tomei banho caprichado e cu-i-dadoso. Coloquei a menos furada cueca.
E parti. No caminho, a lua deitava-se no horizonte, após uma noite de chamego com as estrelas. Estava linda, luão de julho 2014.
O céu, de um azul-Brasília, estupidamente belo. Como tem gente que ainda não o viu?
Ainda passei pelo trabalho, resolvi umas coisinhas corriqueiras. Na saída, avisei às minhas funcionárias que iria ao médico. Elas desejaram-me boa sorte.
Era visível a pontinha de riso em suas expressões. Sabiam do maldito periódico.
Como sou ansioso, cheguei com muita antecedência.
Entro na recepção dos Consultórios e escuto uma música bacana, daquelas que cantamos em barzinhos. Pois não é que tinha um cara solando num violão e soltando a voz na melhor MPB!
Pego a senha e aparece um número eroticamente cabalístico: 069.
Sento-me e contemplo, olhar lânguido, o banquinho e o violão.
Chega minha vez do credenciamento. Dirijo-me à atendente e ela me saúda, com um atendimento ímpar, querendo saber detalhes de minha pessoa: onde moro, o que tomo de remédios, quem me indicou. Ela queria conversa. Eu queria me esconder.
O cara tocando violão canta sussurrando, olhinhos fechados, dá quase pra tirar alguém para dançar. Só falta a meia luz e servirem um bom vinho.
Aguardo umas três horas, na porta do Consultório 3, e nada.
Já conheço o Alerrandro pela voz. Timidamente, olho de soslaio quando ele aparece novamente pra chamar outro infeliz.
O cara é bonitão. Passaria por um sufista espanhol indo ver a Copa no Brasil.
Lasquei-me novamente.
Agora toca o Rei. São muitas emoções. Pra complicar, sinto a barriga muito cheia, acho que estou com gases. Que merda!
Abro o “uotzapi” e tem um monte de gozações de meus amigos.
Lembraram-me que é o dia do Homem. Aproveito, e posto na minha página a senha e a situação.
Mais gozações. Pelo menos relaxei ao ler as brincadeiras.
No dia do homem, só um macho paraibano sairia de casa para encarar o dedão.
Angustiado com a espera, dirijo-me à sorridente atendente. Pergunto-lhe se meu nome tá na relação dos atendimentos pendentes.
Ela me fita com candura, e, falando baixinho diz: “tenha calma, o senhor é o próximo.”
Quem disse que estou nervoso? rsrs
Todos os companheiros de sina olham pra lugar nenhum. Caras de paisagem.
Não tem ninguém pra puxar assunto. Pego o jornal, o Correio Braziliense e faço uma leitura saltitante.
Paro no horóscopo e leio que me reserva, sou de Libra:
"Contatos abrirão portas que até agora estavam emperradas".
Vixe Maria, é hoje!
Nada ajuda, nem o horóscopo.
Eis que o bonitão me chama. Levanto-me com o restim de coragem que restou. No caminho, ele percebe um cliente antigo na espera. Deixa-me plantando, na soleira da porta de seu consultório, enquanto ele comenta com o cliente fiel os resultados da Copa, e o fiasco da Espanha. Sim, o cara é espanhol. Poderia ser pior, poderia ser Argentino, ou um alemão. Alemães batem um bolão.
Agora não tenho como disfarçar o vermelhão. Ali, e em pé, aguardando com um sorriso falso que as amenidades entre os dois acabem.
Chega o Alerrandro. Começa a me “interrogar”.
Respondo-lhe laconicamente. Espero o convite para os aposentos.
Ele pergunta das frequências das urinadas, se fica restinho a fazer. Aprendi as respostas corretas e falo com segurança. Não fica nada dentro.
Ele volta a carga com as perguntas: “Não fica a sensação de que ainda tem urina? Não vai ao WC umas 3 durante a noite? Não sente que a bexiga está cheia todo tempo? Não sente dificuldade em produzir o jorro? Não fica aguardando um tempão?”.
Não. Não. Não. Não. Não.
Resoluto respondo. Em 2007, descobri da pior maneira que se eu respondesse a um "Sim", um simples simzinho, eu ficaria em más lençóis. Após tantos "não", ele finalmente relaxa. Um perigo esse tipo de médico quando relaxa. Começa a puxar assunto de minha vida, o que faço, o que como, o que me estressa, coisas do tipo.
Imaginando o pior, digo-lhe que sou apenas mais um bancário latino-americano.
Nessas horas o mais é menos.
Não quero puxar assunto. Não falei do Bode com Farinha, dos livros, das aulas, dos filhos, em que trabalho.
Ele olha o exame PSA. Passa uns 10 segundos que mais pareceram uma eternidade avaliando.
E fustiga-me. O senhor aparenta estar bem. Mas, precisará fazer uma ecografia da próstata.
Pronto, lasquei-me novamente. Escapei do dedo e cai no tubo.
Ele se despede. Fala alguma coisa do time do Brasil que não prestei atenção.
Saio para marcar o exame cabisbaixo.
Se pudesse escolher preferiria o dedão.
A atendente me dá os parabéns.
Eu digo-lhe que nada.
Esse negócio deve incomodar, essa tal de eco pelas partes baixas.
Ela sorri, e diz que o doutor pediu pelo abdômen.
Que eu fique tranquilo.
Senti vontade de beijá-la. De pegar o cara do violão e sair dançar.
De abrir uma cerveja e pedir um tira-gosto.
Agora, esperemos os resultados das imagens.
Nada de cantar vitória antecipado.
Não é hora de perder a concentração. rsrs

Limpe os lixos emocionais de teu viver.


Desde sexta passada não voltava no cantinho que tinha preparado para ver o jogo Brasil e Alemanha.

Fiz um altarzinho especial, para ver o jogo do Brasil. Tudo bem planejado, figuras da copa, alemães de cabeça pra baixo, iluminação, sinal digital, freezer perto...

Preparei as cadeiras reclináveis, a bebida, o som plugado na TV, a pipoca, amendoins, e tudo que se pode comer sem tirar os olhos da TV. A torcida Brasil seria reduzida. Eu e o filhão de 5 anos, o João Gabriel e a Cristina. Dona patroa estava presente, mas ausente, trouxe a tábua de passar roupa para o nosso estádio e languidamente “engomava” roupa. Como alguém pode passar roupa em pleno jogo do Brasil? Nem Freud entenderia.

Depois da sexta feita passada, dia da emocionante decisão de uma das semifinais da Copa do Mundo de Futebol Brasil 2014, não voltei ao local em que assisti o jogo.

Sempre volto para arrumar a bagunça, no outro dia. É que a dona patroa é muito brava com sujeira.

Faz oito dias que fechei a porta que dá acesso à área de lazer e não aqui voltei. Nem no sábado seguinte, nem no domingo.

O local ficou em ruínas por exatos oito dias.

Trata-se de um lugar da casa integrado com a área de lazer, o pomar e o canil de Balu. Meu refúgio, o refúgio do guerreiro.

Hoje, amanheci disposto a abrir aquela porta novamente e fechar esse ciclo.

Resolvi assumir a limpeza, a limpeza de mim mesmo, de tudo que me desagradara e que deixara apodrecendo num canto qualquer de minha vida.

Ou encarava, ou aquilo iria virar um atentado à saúde emocional.

Entrei no local e os sons ainda estavam ali. Ao longe, escutei: gol, é gol, mas é gol, não é possível é gol novamente...

E, o JG gritando Flamengo!

As emoções voltaram à minha mente. Aquele pesadelo de 5 gols contra o Brasil, e em 29 minutos. Revisitei a cena do luto e sofri.

O lugar estava intacto, do jeito que eu deixara.

Sujamente intacto. Uns 4 pacotes de pipocas jaziam com a boca aberta pelo chão. Latinhas de cerveja, ainda cheias, denunciavam o abrupto corte da comemoração.

Amendoins espalhados pelo chão evocavam uma saída ríspida do local.

Fiquei matutando que todos temos um tempo para encarar a bagunça de algo que aconteceu conosco.

Um tempo para arregaçar as mangas e com vassoura, detergente e pá, retirar o lixo para bem longe, limpar o local e deixa-lo pronto para outras emoções.

Com nosso coração é assim, ao vivermos estados de luto.

Um dia chega o tempo, um belo tempo, de abrir o quarto escuro, encarar os medos, revisitar as cenas doloridas e processá-las de outra forma em nossas vidas, ou seja: recomeçar.

Tem um tempo de arrumar a bagunça e começar.

As imagens daquele dia agora não mais me assombravam. Passou, vida que segue.

JG teimava em querem me ajudar. E, vez por outra, ele me perguntava se iríamos ver um outro jogo. Sim, veríamos a muitos outros jogos.

O luto pede dormências, pede silêncios, pede portas fechadas.

Pede cinco ciclos cuidadosos, para ser processado, como um bom vinho.

São eles: O ciclo da negação: ‘não é possível que isso esteja acontecendo.” É pegadinha”.

O ciclo da raiva: “bando de filhos da puta, fizeram uma nação se envergonhar perante ao mundo ao levar de 7 a 1.”

O ciclo da barganha: "Não ganhamos a copa, mas fizemos a melhor das Copas.”

O ciclo da resignação: "Chegamos tão perto...”

O ciclo da aceitação: “Temos coisas mais importantes para nos preocupar. Copa tem de quatro em quatro anos.”

Vivi em 8 dias todos esses ciclos.

Saber a hora de descer as escadas, ao porão de seu viver, e encarar as coisas sujas que te fizeram sofrer – limpando-as de tua existência, é fundamental para o bem viver.

Parar de ficar remoendo, de ficar resmungando, de ficar se vitimizando.

Parar de viver o personagem: O Sofredor.

Pronto, passou, já deu...

Aquele luto incapacitante por um ente que faleceu, pronto tá na hora de passar, na hora da limpeza.

Aquele luto amoroso por um amor desfeito, pronto tá na hora de passar, na hora da limpeza.

Aquele luto afetivo por uma ingratidão sofrida, pronto tá na hora de passar, na hora da limpeza.

Tenha coragem.

Volte ao lugar da dor, revisite-o, e cresça com a experiência de se perdoar, perdoar a quem te fez sofrer e com isso rejuvenescer sentimentos adormecidos, num entulho de tranqueiras emocionais guardados em teu coração.

Limpe-se de tantas toxinas que os lutos foram produzindo em teu ser.

Encare de frente a vida que segue, sinta-se como criança - aberta a outras possibilidades e relativizando as situações acontecidas; procurando extrair delas ensinamentos e aprenderes.

É urgente e fundamental ser feliz. E, ser feliz é decisão. Nem que seja a decisão de limpar o lixo emocional que se acumula em teu ser, vez por outra.

Agora tá tudo limpo. Até cheirando ficou. Boto um samba pra tocar. Ligo a churrasqueira. Telefono para pessoas que amo.

E sinto a vida entrando em meu ser novamente.

Limpando tudo que estava morrendo e mofando pela culpa, dor e sofrer.

Mudam-se os jogos, as estratégias..., na vida tudo é mudança.



“A Holanda começou a prorrogação com uma postura diferente,
tomando a iniciativa. O técnico Louis van Gaal trocou Van Persie por
Huntelaar, apostando em sangue novo no ataque. Eu teria feito a
mudança (dos goleiros), mas já tinha usado minhas três
substituições, então não pude", declarou Van Gaal após a partida.”

Com essa decisão – a de substituir um atacante cansado por um inteiro, queimava-se a última substituição, das três possíveis que o time da Holanda fez contra a Argentina, nas Semifinais da Copa do Mundo Brasil 2014.
Quando Persie chegou ao Banco de reservas, deu um tapinha no goleiro reserva, para consolá-lo, não seria naquele dia que ele novamente entraria em campo e poderia vir-a-ser mais uma vez o herói da partida, a exemplo da anterior contra a costa rica, na qual ele pegou dois pênaltis.
Vi a cena e fiquei pasmo. Nunca imaginei que a estratégia vencedora iria ser abandonada por outra, no mesmo contexto e cenário.
Se você estivesse numa prorrogação de uma partida de futebol, cujo empate levaria aos pênaltis, e se no jogo anterior foi justamente por ter tirado do banco e botado para pegar os pênaltis o II reserva de goleiro, queimaria sua última substituição com um atacante?
Tirando de você a possibilidade de repetir a estratégia do goleiro reserva, caso houvesse pênaltis?
O que Van Gaal fez foi desconsiderar o trunfo que tinha no banco, a arma agora não mais secreta, que tinha encantado a todos que amam o futebol.
Desconsiderou um talento, no enfrentamento de uma estratégia similar, mudando o posicionamento tático em relação ao iminente fim de jogo.
Ele quis matar logo o jogo, sem ir aos pênaltis. Mas, ao fazê-lo substituindo o seu atacante, por um mais inteiro, matou a si mesmo na outra substituição possível.
E o pior, deixou o goleiro “que não tem bom fundamentos em pegar pênaltis” em campo, num momento difícil.
Passei a admirar mais ainda o Van Gaal. Pelo menos ele decide. Gestor é quem decide. Ele decidiu por uma nova estratégia: a troca de um atacante, e seguiu sua intuição de que poderia matar o jogo fora dos pênaltis.
Arriscou-se muito, mas ser gestor é se arriscar
Em toda decisão há risco. Só não há risco na indecisão.
Na indecisão reina a mediocridade, a monotonia, a burrice. Amigas da fatalidade como o oportuno álibi do apagão, como diria nossa Comissão Técnica.
Virei fã do Van Gaal. Um gestor que um dia acerta, noutro erra, mas que faz acontecer.
Não terceiriza culpas, não adia responsabilidades, faz acontecer.
Pode ser amado, ou odiado, mas é presença.
Tenho dó dos gestores do tipo Comissão Técnica Brasileira que não mudam esquemas táticos, que não se arriscam, que não valorizam outros talentos no banco de reservas.
Gestores que se escondem atrás de processos, normas e padrões de comportamentos para não decidirem.
Omissos. Eminências pardas. Querem ficar bem com todo mundo e protegem sua imagem, mais que suas equipes e interesses de trabalho.
Pavões.
Van Gaal não é pavão.
Ele sabia que estava apostando. Poderia ter continuado na mesma estratégia do jogo com a Costa Rica, mas resolveu agir diferentemente.
Apostar em novas fichas.
Ele viu o invisível, sentiu o não sentido, tocou um lugar que só líderes ousam tocar, um lugar chamado risco, num futuro incerto.
Contra a Argentina não deu certo. O atacante entrou, e o jogo não alterou o placar.
Tudo bem. Faz parte. Quem garantiria que o goleiro reservas pegaria os pênaltis? Na incerteza do futuro, o gestor Van Gaal apostou todas as fichas no presente.
Van Gaal nos ensina que estratégias podem ser troadas, que não existe uma única fórmula, do tipo Neymar, para se ganhar uma partida.
Mostrou fibra, conhecimento das capacidades de seus integrantes e, sobretudo, inovação.
Inovação, até em não repetir a fórmula de sucesso anterior, sob condições bem parecidas, sacando da cartola uma outra possibilidade.
Van Gral é um apanhador de possibilidades nos campos do infinito.
Não ganhou o jogo, mas ensinou um monte de gente que o lugar que ele ocupa, o cargo, o papel, é um lugar de decisão. Não de omissão, ou terceirização de culpas e responsabilidades.
Não é um lugar para contemplar pernas correndo, bola e grama, apenas.
A Disciplina Van Gaal deveria ser ensinada nas pós-graduações para gestores. Nela seria ensinado a tomar decisões, a alterar trajetórias, a mudar, a valorizar os talentos, a romper paradigmas e a aprender com os erros. A sair da protegida posição de aversão ao risco e decidir. A sair da posição de concordar com tudo que o padrão Fifa oferecia e botar a boca no trombone, sem medo de se expor. Com ética, segurança e consistência profissional. Van Gaal reclamou de um monte de coisas da Fifa e sua organização.
Para um monte delas tinha razão. Os outros técnicos calaram. Falar pegaria mal.
O estilo Van Gaal é quem muda os processos, produtos e serviços e os normativos interno das Corporações.
É o de quem se abre ao novo, quem experimenta, quem não teme o ridículo.
De quem não compactua com esquemas políticos, mediocridades técnicas, status-quo quase místico, tão presentes nos gestores das organizações de trabalho.
Naqueles que fazem e tudo para manterem-se no poder e na pose do cargo.
Valeu Van Gaal, de agora em diante tu farás parte das minhas aulas.
Pensar que eu teria repetido a estratégia anterior.
Você ensinou-me a manter minha essência, a continuar a apostando no insight, intuição, a decidir, mesmo quando todos ao lado já se calaram, ou as condições não recomendarem.
Todos os dias tenho decisões Van Gaal a tomar. Daquelas em cuja três opções são possíveis.
Mudar a realidade. Adaptar-me à realidade. Abandonar a realidade.
Em todas estará presente a decisão. Só não posso fingir que não existe uma realidade que pede decisões. Mudar, adaptar-se ou abandonar são as escolhas possíveis. As outras são enganação, procrastinação e alienação
.

Carta ao JG - A Copa das Copas – Brasil 2014

Querido JG, escrevo-lhe dia 09/07/2014, com um misto de alegria e pesar. Alegria por ser o aniversário de teu irmão mais velho, o Tiago. Ele faz 29 anos.

A data de seu aniversário não poderia cair em dia mais significativo, no qual uma nação inteira chora, inclusive teu pai.

O aniversário de teu irmão trouxe luz num dia de trevas, de vergonha, tristeza e decepção com nosso time de futebol. Trouxe-me um pouco de paz e felicidade. Um bálsamo pra mim.

Hoje acordei cedo para te deixar com tua irmã Priscila e ir trabalhar. Ontem você “trabalhou” comigo, picando papéis no setor, enquanto esperávamos a hora do jogo.

Mas, leva-lo novamente seria abusar dos colegas. Você não para quieto e não há mais papeis a serem fragmentados, você catou todos ontem e fez um bom trabalho, operando a fragmentadora de papel, sob supervisão dócil e atenta da Carol.

Depois, você entrava na caixa de papel picado e brincava.

No caminho seguiu triste. Os carros silenciosos. Ontem, nossa Seleção Brasileira de Futebol tomou uma goleada da Alemanha, na Copa do Mundo 2014, aqui no Brasil. O jogo valia pelas quartas de final.

Em 29 minutos, de primeiro tempo, já tínhamos levado cinco gols. Um fato inédito na história do futebol. Vexatório.

No caminho pra casa do Tio Hugo perguntei-lhe:

- Qual time você torce: flamengo ou fluminense?

Você perguntou-me em que país nasceu. Achei uma pergunta muito fora de propósito e um tanto avançada para seus agora, cinco anos e três dias.

Respondi-lhe que você nasceu no Brasil.

Então você me respondeu que torce pelo Brasil.

Aí fiz a pergunta matadora.

E por que ontem você torceu por aquele time de vermelho e preto, mas parecendo com o Flamengo?

- Por que o Brasil não estava jogando, ué! ´!

Levei uns minutos atônito com tua resposta. De todas as tuas tiradas, aquela fora a mais sincera.

No teu mundo infantil, ainda tão jovem não era o Brasil que tomava aqueles gols todos.

Era um outro time.

Nasci em 1964, e já são 64 anos que nos separam da fatídica derrota de 1950, na Copa do Mundo no Brasil, daquela vez contra o Uruguai. A derrota de ontem, pelo inusitado e vergonha da goleada, frente a um time que não reagia, que mal disfarçava a vontade de que o jogo acabasse logo, foi um trauma nacional de igual proporção, reação agora que reverberou nas mídias sociais.

Vimos bons jogos juntos na Copa. Lembra-se de EUA e Bélgica? Lembra de Argentina e Irã? As torcidas, as comunidades que hospedavam as Seleções, vimos uma energia linda tomando conta do Brasil. O humor do brasileiro mudou, virou uma fanfest. E na hora de nosso hino nacional, todo mundo cantando à capela. Que cenas marcantes.

Fizemos uma bela dupla de torcedores, mais dois que se juntou aos 200 milhões de brasileiros.

Vimos uma abertura da Copa fuleira. Sem graça. Sem o vigor de nossa dança e som. Sem arte tupiniquim. Vimos um mascote da Copa, o boneco inspirado no tatu-bola, chamado Fuleco que não vimos. Um mascote que foi vetado, que não apareceu em nada. Um esquecido num canto qualquer.

Vimos um monte de gente saindo de casa para trocar as figurinhas do álbum da Copa. Entre eles nós. Na página do Brasil, ainda falta a figurinha do Neymar. Sempre o Neymar. Colecionar figurinhas da copa virou uma febre aqui em Brasília. Chegávamos da escola e trabalho e íamos, eu, você e sua mãe, pregar no álbum as novas aquisições do dia.

Vimos um povo alegre indo aos estádios e uma corrente que jogo a jogo foi se fazendo para torcer. A Copa pegou mesmo na segunda rodada. Um povo que preparava a casa com o cuidado de que quem prepara uma celebração religiosa, tudo para que o momento de ver os jogos fosse uma verdadeira festa.

Vimos a mordida de Suarez. Um jogador que meses antes tinha operado o joelho e que seu fisioterapeuta descobriu um câncer nas vésperas de embarcar pra Copa e que ainda assim veio para ajudar ao jogador a se recuperar da operação. Ele virou noites fazendo fisioterapia, aplicando compressas, recebendo massagens e conseguiu brilhar na copa. Foi afastado por uma reação indevida à ira, à frustação. Ele perdeu o controle e mordeu o adversário. Em sua trajetória futebolística foi a terceira mordida. Como punição saiu da Copa.

Vimos nosso time perder o artilheiro Neymar, e o melhor defensor, o Thiago Sylva, vítimas de falta e cartão, respectivamente. O país entrou em êxtase pelo afastamento do Neymar. Ele teve direito a uma overdose de matérias das grandes TVs brasileiras. Só dava Neymar. Até psicóloga levaram para trabalhar a perda do Neymar junto à Seleção. Dramatizaram mais da conta. Só se falava nisso. Fiquei chateado. Achei que aquilo tiraria o foco e objetividade da partida. Que seria um emocionalismo inútil, que poderia contaminar o time todo, aumentando ainda mais a tensão da partida. Quando nosso time chegou para jogar com aquele boné (saudando o Neymar), e num falso break para a mídia, demorou a sair do ônibus cantando.

Lá dentro a Delegação Brasileira sambava “É dia de sol, mas o tempo pode fechar” (Tá Escrito. Ao ver aquelas cenas ficamos, eu e você, ainda mais desconfiados. Ninguém chega pra uma quarta de final tão relaxado. A adrenalina nos capacita à reação. A NEYMAR fixação estava demais. Todos mundo queria jogar pelo Neymar, e esqueceram de jogar por eles mesmos. Para eles mesmos. Um vexame o de ontem dia 08/07/2014, o dia que o Brasil dormiu em campo.

Vimos o técnico holandês Louis trocar o goleiro, pelo 2 goleiro reserva, minutos antes de iniciarem os pênaltis após uma prorrogação sem gols, entre em Holanda e Costa Rica. Na hora, eu esbravejei ao teu lado, lembra? Fiquei achando que ele estava humilhando o goleiro titular. Depois vi que ele estava dando uma aula de gestão ele foi ousado, inovador e conhecia a fundo as melhores características de sua equipe. Uma pintura de decisão. Passará para a história e poderá criar uma nova forma de pegar pênaltis em prorrogação.

Vimos o técnico da Bélgica, Wilmots, após mais de 20 bolas que seu time chutava e que o goleiro Tim Howard dos EUA pegava, se aproximar da área na qual o técnico americano orientava o seu grupo, o Klinsmann, e saudá-lo. Quem veria técnicos combatentes entre si, numa partida emocionante e tensa, pararem uns segundos e juntos conversarem sobre a beleza do espetáculo que estavam testemunhando? Quem veria? Nós vimos.

E vimos a forma elegante com a qual os Alemães reagiram ao nosso fiasco. Não chutaram o Brasil caído e ferido.

Essa foi uma copa especial. Foi nossa primeira Copa juntos. Você não perdia um jogo ao meu lado. Esqueceu até dos jogos de celular.

Ontem, voltando do trabalho, você ia pontuando sobre o engarrafamento. Estava louco para chegar em casa, botar sua camisa do Neymar e ver o jogo.

Sua irmã nos chamou para ver na casa dela, e o vizinho na casa de uns amigos, papai recusou. Tinha medo do trânsito louco e bêbados pós-jogo.

Ficamos sozinhos. E, você e sua mamãe. Mamãe Cristina passava roupas, um olho na tábua de passar outro na Televisão.

E, todas as vezes que ela subia para buscar uma peça de roupa, ou algo na dispensa, o placar era outro. Que coisa!!!




Gostei de ver a Copa em meu país. Foi a minha primeira. Gostei da emoção a cada jogo, do ajuntamento de amigos e família. Lembra o que fizemos na casa de Tio Guga? Papai, ao término da inesquecível e suada partida com o Chile teve perda total, apaguei no colchonete, sendo ninado por Priscila, tua irmã. Naquele dia juntamos toda nossa família, e seus irmãos em peso: Rodrigo, Priscila e Tiago.




Essa energia que nos move como Nação é que quero que nunca se esqueça.

O pano da bandeira de uma Nação também se tece com esportes, cinema, livros, teatro, música e dança.

E, cada coisa no seu lugar. Você pode ser o mais aguerrido crítico político do Brasil. Pode lutar pela saúde, educação, emprego, moradia, saneamento e ainda assim gostar de forró, de uma partida de futebol, de celebrar as mais variadas e ricas expressões da cultura popular de nosso povo. Falo-te isso pelo mimimi (gente que resmunga) que ouvi e li sobre a Copa do Mundo no Brasil.

Ela acontece em ano eleitoral, e muitas agendas ficam confusas. Muita gente se aproveitando para tirar uma casquinha.

Tenha discernimento para separar o joio do trigo.

Muitos protestaram, e no seu legítimo direito de assim o fazerem, negam-se a si mesmos como povo.

Quando acabarem as festas, as danças, os esportes, acaba junto o senso de pertencimento, de coletivo, o elo que nos une e que faz cada um se sentir irmão um do outro pelo simples fato de ver em seu carro a mesma bandeira que nos une e eu tremula.

Não seja um intelectual chato. Aliás, não seja um intelectual.

Goste das coisas simples, como ver uma partida de futebol pela TV junto aos vizinhos.

Ou comer pastel de feira livre.

Não tenho vergonha de sofrer. Eu, sofro uma noite e um dia. Amanhã já estarei bom e desejando que a Copa da Rússia chegue logo.

Quanto a você, vou doutriná-lo melhor para torcer pelo Fluminense.

Torcemos na Paraíba pelo Campinense, mas temos que ter um segundo time, de expressão nacional.

Como o hino do Fluminense é lindo, uma marcha canção, vale a pena torcer por ele.

Acho que teu tio e meu irmão, o Guga, está te botando no mau caminho do Flamengo.

Por último, não tenho nada contra os Argentinos. Lá têm uns filhos da puta, mas aqui também!

Cuidado em preconceitos. Estamos nutrindo um distanciamento com aquele país que excede o campo de futebol. O que era para ser uma pura sacanagem, entre os dois países que amam o futebol, está virando um muro de intolerâncias e agressividade, de ambas as partes, que não é legal.

Não embarque nessa. A Argentina tem um povo lindo e com excelente autoestima, coisa em falta no nosso povo que tem síndrome de vira-latas. Precisamos de mais orgulho de ser brasileiros e, isso eles nos ensinam em relação ao seu país, e talvez seja o que mais nos incomode.

Eles perdem e ainda continuam dizendo: As Ilhas Malvinas são nossa! Que cidadania santa...

Eles só não sabem jogar futebol.

Sim meu filho, foi a Copa das Copas, mesmo que nos dramas que vivemos.


Sem Neymar e Thiago Silva, e agora?


Ontem o pequeno JG foi dormir triste. Na sua tenra idade, não entendia o porquê de Neymar, seu ídolo, não jogar mais essa Copa.
Achava que ele iria amanhecer bem, que só estava "dodói".
Que a mamãe dele iria cuidar dele.
Bela inocência.

Hoje pela manhã, vendo comigo aos jornais matutinos, descobriu que a Seleção Brasileira de Futebol jogará também sem seu melhor jogador da defesa, o Thiago Silva. Aí ele me perguntou:

"Pai, e agora como fica? Sem Neymar e sem o Thiago... "

Falei que ficará melhor ainda. Que as boas equipes de trabalho quando passam por problemas, ficam mais fortes ainda, e que seus integrantes juntam forças para superarem as dificuldades. Equipes de alto desempenho não possuem reservas.

Ele não entendeu. Só se acalmou, vendo minha calma.

No meu dia a dia como gestor, aprendi que ninguém é insubstituível. Pode fazer falta, mas o grupo se auto-organizará para aprender a viver sem o talento. Desde que o espaço laboral seja fecundo em formar novas lideranças, outros "Neymares e Thiagos" aparecerão para continuar a missão.

No time que gerencio tenho meu Neymar e meu Thiago Silva.
Atacante de excepcional qualidade, cuja meta dada, será meta cumprida. Tenho defensor exímio, para o qual, por maior que seja a pressão mais forte e consistente é sua reação à ela, não esmorece jamais, fica mais forte ainda com o estresse do trabalho.
Muitas das vezes já aconteceu de meu Neymar e meu Thiago Silva estarem fora do jogo, e ao mesmo tempo. Seja por férias, por cursos, transferências, ou por ausências não previstas.
O que faço?
Junto o time e conversamos sobre como poderemos suprir a ausência dos talentos.
O que acontece em seguida é mágico. O time fica muito mais forte, cada um cobre a área descoberta do outro. Se desdobra em comprometimento, inovação e produtividade.
Ao final do dia, circula uma energia mística no grupo, uma energia que só sobreviventes de grandes batalhas sentem. O grupo vibra e celebra terem se superado e oferecido os mesmos resultados, mesmo com a ausência de importantes "jogadores".
Se você que me lê é um gestor, e têm seus Neymares e Thiago Silvas na equipe, cuidado com a tentação de não formar outros. A tentação de não cuidar da sucessão, da formação de outros talentos e lideranças é grande. Um pecado mortal nas organizações de trabalho.
Nenhuma equipe de sucesso pode se basear apenas nos seus maiores potenciais, do ataque e da defesa.
Vejo gestores prendendo seus "Neymares e Thiagos" nas equipes, impedindo-os de fazerem cursos, serem transferidos, e, em alguns casos, até dificultando a liberação de suas licenças, folgas e férias.
Estão perdidos. Equipes que dependam de um profissional apenas, que não compartilham conhecimentos, que não formam outras pessoas em processos críticos e complexos, mais cedo ou mais tarde vai fracassar.
Em equipes de sucesso não há reservas no banco. Há talentos que podem dali sair, e atuarem em campo, a qualquer momento quando as condições, características e contexto do jogo exigirem.
Invista tempo e forme sua equipe de trabalho. Lembre-se de periodicamente botar alguém pra fazer dupla com seu Neymar ou Thiago.
Se ele tiver forte dose de comprometimento e atitude, e um pouco de conhecimento e habilidade, ele se desenvolverá e acabará aprendendo o estilo e processo de trabalho de seus craques.
E, caso seu Neymar ou Thiago não seja do tipo que compartilhe conhecimentos, que ensine, você estará com um problemão gerencial pra resolver.
Que seja então você que comece logo a treinar alguém para substituí-los.
Deixar processos, críticos e estratégicos de trabalho, sob condução de apenas uma "estrela" profissional é assinar uma Nota Promissória com o risco.
Grupos de trabalho excessivamente dependentes de um craque profissional são grupos de baixa performance.
Pense nisso. Embora sofra, sou um gestor feliz, pois tenho quem colocar no lugar de meu Neymar ou Thiago quando estão fora da partida.
Olhei novamente para o JG, e disse-lhe.
Tenha calma filho, temos outros Neymares e Thiagos na seleção.

Ele não entendeu nada, mas confiou!

Sobre Ipês e o Choro




Um Ipê, destaca-se no luscofusco de um fim de tarde
no Setor Comercial do Jardim Botânico-DF, 
e provoca-me sobre o choro. 
Afinal, como disse o poetinha maior: 
"Ai de quem não rasga o coração."
Chorar não pode ser associado à descontrole emocional. 
Descontrole emocional é mordida, é negar-se a ocupar sua posição de Capitão, 
quando o momento pede... 
Quem chora pode ser muito mais controlado emocionalmente de que quem não chora. 
Controle emocional não significa não expor estados emocionais. 
Significa saber lidar com os sentimentos, em momentos de estresse ou de calmaria, 
usando-o a favor do grupo, e de si próprio. 
E, muitas das vezes, as lágrimas estarão a favor de quem as verte,
numa expressão final - justa e ética, do controle emocional. 
Deixarão mais fortes os que lavam a alma, seja de raiva, 
seja de dor, seja de alegria, seja de saudade, capacitando-os a novos embates. 
Chorar, sorrir, cantar, dançar, abraçar são expressões profundamente humanas, 
desde as cavernas. Negá-las, seria será negar o que temos de mais belo.
Chore meu filho, mas não deixe de apresentar resultados.
Ou seja, chore com os dentes cerrados, lutando!

E o Ipê? O Ipê está dentro de ti, e tuas eventuais 
lágrimas fortificam suas raízes e fazem sua florada, 
a cada nascer do sol da vida, ainda mais belas em teu ser. 
E, quem não chora em profundos momentos da vida, que atire a primeira lágrima. 
E eu a recolherei em meu coração, com ela irrigarei minha alma, 
pois cada lágrima carrega em si a história de nós todos.

Cartas ao JG - Sua ida ao Trabalho do Papai.

Hoje você passou o dia comigo, no trabalho.
Foi sua segunda vez, na primeira tinha uns 6 meses, agora quase cinco anos.
Como cresceu rápido.
Ah, se os pais soubessem o que sei: como os bebês crescem rápido demais!
Como o hoje vira ontem num pisar de olhos, e aí lá se foram tantas possibilidades de fazer festa, mágica, celebrar e registrar os bons momentos para a eternidade. Enquanto eles ainda privilegiam a nossa companhia.
Hoje, por um acidente de percurso, sua escola deu feriado, nossa nova babá ainda não foi contratada, e todos os seus familiares estavam trabalhando. Chegando ao trabalho, após sua fase Modo Tímido passar, saiu de colega em colega, pedindo afago e roubando a atenção. São 16 mulheres e dois homens, na área. Então, tome paparico. Não ficou uma bateria de celular carregada.

Você saiu por todas as estações de trabalho pegando os celulares disponíveis e procurando jogos neles instalados. Além daquelas coisinhas que botamos pra decorar nossas estações de trabalho (baias).

Nada ficava parado. Tudo era motivo de festa e da mística do brincar. Você não é de ficar parado, puxou ao papai. Corria pelos corredores, entrava nos banheiros, inclusive femininos, ia tomar água sozinho. Por mais que eu te ameaçasse com os vigilantes.

Explorou cada corredor, com alegria e disposição, como se fosse o melhor dos parquinhos infantis. Na hora do almoço, levei-te num pé sujo que costumo frequentar. Ali, você quase me endoida, mais uma vez sem querer comer e aprontando. Levou uns cascudos. Você é muito rebelde às minhas instruções, tira-me do sério. Uso a terapia do cascudo.

Na volta, desenhou e procurou o colo da tia Raquel e da Lili. Nalis ficou chateada, você disse que gostava mais da Lili, depois elas descobriram que o celular da Lili tinha jogos. Estava explicado a preferência. Durante parte da tarde, viu filme no computador, pintou e bordou. Na volta pra casa disparou por entre aqueles imensos corredores, escondendo-se de mim pelas "baias".

O pessoal sorria e vibrava contigo. E eu, feito um tonto, corria atrás de você e gritava teu nome feito um bode rouco. Voltamos pra casa felizes. Você disse que gostou de "trabalhar" com o papai. Mas, te dei aviso prévio do cargo de trainee. Benditas babás. Voltei pra casa sorrindo na alma.

Lembrei de quando meu pai levava-me no Senai de Campina Grande-PB. Eu corria por entre as oficinas. Descobri esconderijos, passagens secretas. E todos ao me verem diziam: é o filho do Evandy. Pegava restos de madeiras nos lixões da escola de marcenaria e construía torres de castelos imaginários.

Ficava escondido perto da máquina de serrar, contemplando aquele mistério da tecnologia, o corte. Depois, algum dos funcionários do papai chegava com a missão de me levar para o escritório.
Papai era o Diretor da Unidade Móvel, e eu sentia orgulho do orgulho dele em gostar tanto do que fazia, ali no Senai. Aposentou-se com mais de 45 anos de dedicação ao trabalho e nunca lhe vi sem ânimo, desgostoso, revoltado.

Ele não só creu no trabalho, como significado e propósito, ele criou o propósito do trabalho, agradecendo todos os dias o fato de ter chegado longe demais - para um filho de humildes e pobres sertanejos. Ir ao Senai era motivo de festa para mim. Assim como foi pra ti hoje, meu filho JG. Meus pais amavam o trabalho.

Acho que o que sinto em relação ao meu trabalho aprendi por osmose com meus pais. Impregnou-se no meu DNA afetivo o respeito e comprometimento que sempre escutei deles em relação ao SENAI. Assim, sinto que amo meu trabalho muito em função do que meus pais me ensinaram com suas próprias vidas.

Eles nunca falaram de seus trabalhos como peso, dor, punição. Tinham prazer em falar do Senai, em nos levar para conhecer o Senai.
Se nesse dia você puder gravar algo em sua memória afetiva, guarde o amor. Naqueles corredores por onde correu, naquelas estações de trabalho em que se escondeu, habita pessoas que se realizam com o que fazem, que amam. Mais que um emprego, ali encontramos parte do sentido de nossas vidas. Então, JG, um dia leve seu filho para conhecer o seu trabalho... Coisas boas disso poderá advir.

Nação Black Blocs.

1. Em todo político que esquece seu mandato e atua em prol de seus próprio interesses, chegando até a esconder o rosto para receber subornos, há um Black Bloc.

2. Na gestão ineficiente dos serviços públicos, sem rostos, há um Black Bloc.

3. Em todo líder religioso que esconde o rosto para maquinar estratégias espiritual-fraudulentas de captação de doações de seus fiéis, há um Black Bloc.

4. Em todo cidadão sem rosto, que vende o voto, ou vota por votar - no artista global da hora, ou em um "Chico dos Bodes Castrados" qualquer, há um Black Bloc.

5. Em toda organização comercial que lesa seus clientes com serviços e produtos de duvidosa qualidade, e pratica lucros que beiram a usura, há um Black Bloc.

6. No Estado Brasileiro que fracassa na saúde, educação e cobra impostos alvitrantes, há um Black Bloc.

7. Em toda empresa que desvaloriza seus profissionais, não cumpre com os direitos trabalhistas, ou oferece condições adequadas de trabalho, há um Black Bloc.

8. Em toda família que cria seus filhos sem limite, sem noção de coletivo social, há um Black Bloc.
9. Em cada instituição que se veste com pele de cordeiro para disfarçar sua tirana, imoral e predadora forma de atuação, há um Black Bloc.

10. Em toda pessoa que ultrapassa pelo acostamento, que depreda patrimônio público, que finge ser cadeirante para conseguir ingresso barato, que sai sem pagar de estabelecimentos, que fura a fila, que bate em crianças, que nutre qualquer tipo de preconceito, que agride todo aquele que lhe "soar" diferente, que se usa do "jeitinho brasileiro" para se dar bem, em detrimento dos outros, que acha que seu dinheiro pode comprar tudo, que bate em mulher, que se alcooliza, ou se droga, e passa a fazer tudo que não presta, há um Black Bloc.

Estamos nos tornando Nação de Black Blocs, em maior ou menor grau.

E, esses que agora aparecem na TV, são fichinha perto dos que estamos criando nas coxias das instituições político-sociais brasileiras.

Infelizmente!

No caminho ao bem viver, adentre pelas avenidas do contorno.


Era um domingo de muito frio em Brasília. Acordo cedo, tinha que fazer “tarefa para casa”. 
Durante toda a sexta, pesquisei e salvei arquivos num pendrive, para que no domingo eu trabalhasse numa apresentação. 
Cada um deles encontrado era uma vitória e um alívio. Um trabalho minucioso que consumiu toda a sexta. O material contava parte da história da governança de TI do BB, desde 2008.
Eis que ao me preparar para o trabalho, e inserir o pendrive no notebook, aparece a mensagem:

“Formate o disco na unidade E: para poder usá-lo.
Deseja fazê-lo?”

Não acreditei no que lia.
Pânico, raiva, desespero, frustração... um misto de emoções aqueceu o meu corpo, realçando mais ainda o frio do dia.
Tentei noutro notebook e nada.
Fiquei por um tempo imobilizado. 
Depois, comecei a contabilizar as perdas. A segunda seria um dia difícil, já vi tudo. Teria que tirar tempo, entre o atendimento aos clientes internos, providências rotineiras e reuniões, para criar algo do zero. E, acho que não é só tempo. A criação pede um concentrar maior. 
Nem sempre consigo focar num ambiente cheio de pessoas e e-mails reclamando atenção.

Paciência.

Aprendi que se não posso mudar uma situação, posso mudar a mim mesmo.
Mudar a forma pela qual ela me tira do sério, já que nada posso fazer.

Os sentimentos de raiva, pânico, desespero e frustração só farão morada em mim se eu assim permitir.

Posso convertê-los numa maravilhosa odisseia. 
Numa saga em busca de resistir, apesar das circunstâncias.
Provarei a mim mesmo que amanhã a tarefa sairá ainda melhor, pois terá o gostinho da superação.

Posso escolher. Passar o domingo chateado, irritado com o que aconteceu. Secretamente punindo-me por não ter testado a migração dos arquivos.
Ou, posso acumular energias internas para enfrentar a situação, com os recursos que me sobraram.

Fico chateado, mas saio da posição de imobilismo, de vítima das circunstâncias e vejo o que ainda posso fazer com o que sobrou, com o que tenho.

Ontem à noite vivi essa cena.

Fomos convidados para uma festinha. Com direito até a fazendinha rural, pescaria, barraquinhas, trio de forró pé de serra.

Durante à tarde coisas chatas foram nos acontecendo. Nossa empregada doméstica pediu as contas. 

Dona patroa já queria dispensá-la mesmo, mas foi pega de surpresa. Não esperava que a decisão saísse da moça. Feriu seu orgulho de patrão.

Perto das 18hrs tomo banho para a festinha. Não queria perder nada. E o João Gabriel adora.

Eis que quando minha esposa vai tomar banho, acaba a água da casa. A caixa d´água não aguentou uma semana inteira sem abastecimento da rua. É que houve uma pane na estação elevatória e atingiu nosso bairro nessa semana.

Ela saiu do banho e veio até mim muito triste. 

Perguntei-lhe se não iríamos mais à festa.

Ela disse que sem banho não iria.

Que situação!

Ai fui treiná-la, emergencialmente, nessa filosofia de bem viver.

‘Você pode fazer chegar água? Bota um perfume, uma roupa bonita e vamos. Aliás, o cheiro da fumaça da fogueira em minutos tirará qualquer banho que alguém tenha tomado. Deixe de ser boba, vamos.”

Aí ela começou a falar da ex-empregada.

Perguntei-lhe:

“Mas não era você mesma quem me disse que iria dispensá-la? E que já tem outra querendo vir trabalhar aqui em casa? ”

Então, ela foi melhorando, botou um perfume e fomos pra festa. E foi super legal, um festão.

Chamo a isso de reprogramação mental. Nosso aparelho mental pode ser reprogramado para aprender a sair de loops de negação de sentido existenciais, de impotência, dor e culpa diante de situações paras as quais nada, nada mesmo, podemos fazer para alterá-las.

Aprender a mudar a nós mesmos diante delas.

Com certeza meu trabalho de amanhã não sairá uma Brastemp.

Não farei animações no PowerPoint. Não cruzarei as informações do jeito que queria. Mas, o que sair será melhor do que nada.

Suspeito até que o que sairá será a essência.

Parece que a criatividade precisa de uma certa dose de pressão para acontecer, então que venha segunda feira, vou te usar todinha, em cada minuto.

No outro dia, após acordarmos da noitada, o João Gabriel aparece no quarto com o seu peixe que pescou na pescaria. Sim, os peixinhos eram de verdade. As crianças ficavam malucas de frenesi. Eles viam em pequenos sacos plásticos, com água.
Ele  pediu-me que tirasse o peixinho do saquinho e colocasse em algo maior para ele brincar.
Aquilo me comoveu. 
Essa cena só foi possível porquê superamos um impasse negativo na noite anterior. 

A festa da vida, naquela noite, aconteceria de qualquer maneira.

Sem “migo”, ou comigo. Sem “nosco”, ou conosco.

Sempre que algo lhe acontecer e que não pode mudar, dou a dica, junte os cacos do que sobrou, contabilize as perdas, e veja o que ainda assim poderá fazer com a situação.

Não fique naquela posição existencial de vítima, tal qual criança quando derrama sorvete no chão. 

Têm tantas outras possibilidades que esperam de ti uma atitude, uma postura de sobrevivente.

Garanto-lhes, no outro dia uma criança te procurará para que de teu gesto um peixinho vá brincar com ela.

Esse peixinho só existiu porque influenciei na realidade ao meu redor, agindo como protagonista e não como vítima.

Ele estava lá, aguardando por séculos a fio ser "pescado" pelo JG.

Mas, se não fosse o JG, seria outra criança. A vida não pede licença, acontece.

E não tem replay.

Portanto, saia da posição de resmungão, de ficar procurando uma coisa pra ser infeliz e dê valor às que têm.

Desaprenda a ficar buscando coisas para se frustrar, a esperar demais da vida e dos outros. Eles, simplesmente, não te esperarão.

Simples assim.

Bota um perfume. Formate o pendrive.

Encerre os eventos de culpa, mágoas e ira em teu viver. Eventos incapacitantes de teu emocional.
Formate-se e reprograme seu modelo mental para novas possibilidades que ao cegar de emoções ruins você não conseguirá vê-las.

Se faltou água para o banho, ainda tem uma roupa limpa que pode botar por cima.

Prepare-se para o novo, que pode até não ser o que queira, contudo será o que é possível, dado as condições que você tem para agir. 

Carregue menos fardos emocionais produzidos pela forma retilínea, exigente, perfeccionista que encara a vida. 

Viver não é preciso, de precisão, das coisas milimetricamente medidas, ou grama à grama pesadas. A vida não cabe numa tabela de Excel. Sempre nos surpreenderá. Sempre!

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Em tempo: Tudo que tentei dizer-lhe essa jovem o faz com melhor propriedade. Tire uns minutinhos e veja esse vídeo.


https://www.youtube.com/watch?v=4-P4aclFGeg

Os Portais do Bem Viver

Algumas pessoas maravilhosas com as quais me deparei, vida afora, ainda hoje inspiram-me a viver melhor.
Cabrera é uma delas. Conheci o Marcos Cabrera em Londrina-PR, em 1996.
Lá se vão 18 anos de uma bela amizade.
Cabrera era um dos profissionais que atendia aos idosos da Fundação Telepar, no Programa Bem Viver, coordenado pela minha esposa – então assistente social daquela instituição à época.
Ao ver a forma que ele falava aos idosos, dialogava com minha esposa sobre os limites da alma, o amei à primeira vista.
De minha parte, eu trabalhava com portadores do vírus da Aids. Eu falava pra eles o que tinha aprendido com os bravos soropositivos.
Do quanto percebia o valor de um abraço, por exemplo, no aumento da imunidade.
Do quanto a postura deles, diante da terrível doença – àquela época com poucas opções de enfrentamento, fazia toda a diferença na evolução da mesma.
Ele ouvia com olhos brilhando.
Encontram-se ali um psicólogo e um médico que acreditavam em coisas ainda pouco pesquisadas, como o valor do afeto, e que eles sabiam que vinham a fazer toda a diferença para um melhor viver.
Falava para ele o quanto o luto pode ser incapacitante, e como pode ser transformador, dependendo de que perspectiva a psique é mobilizada para enfrentá-lo.
Ele babava, ouvindo-me com renovada atenção, caso a caso.
Depois, ele me contava o quanto via nos seus pacientes sede de afeto, de sentido, de paz, de se sentirem especiais para alguém.
Via que muitos a ele chegavam trazendo chagas emocionais de difícil tratamento: mágoas, culpas, rancores, resignações e até inveja.
Ele me contava o quanto essa postura na vida inviabilizava outras conquistas que a saúde, esportes, alimentação estavam trazendo à terceira idade: “muitas academias do corpo. Poucas do ser. Muita queima de calorias e celulites no físico, poucas na alma”.
Depois daqueles primeiros contatos sempre que eu ia à Londrina passava pelo seu consultório para tomar um cafezinho e conversar um dedinho de prosa.
Hoje, Cabrera é um renomado palestrante, geriatra famoso – projeção internacional e autor de inúmeras pesquisas sobre a importância das emoções para o bem viver.
Mas, continua o mesmo: profeta, manso, humilde e simples como todo sábio.
Outro dia, pesquisando para uma palestra sobre aposentadoria, achei um vídeo dele no youtube que indico a todos. É um vídeo para todas as idades.
Embora ele fale do processo de aposentadoria, vale para todas as idades as dicas que ele dissemina.
Fiquei emocionado, Cabrera amadureceu nestes 18 anos como um bom uísque ou vinho.
http://www.youtube.com/watch?v=o4d75Jzeu8g

APOSENTADORIA É PROJETO DE GANHO PESSOAL.
Todo ser humano, de qualquer orientação ideológica deveria ver três minutos especiais desse vídeo, no qual ele divulga recentes pesquisas de Harvard sobre o bem viver, dos 5min20seg aos 8min20seg do vídeo.
Ele fala de oito valores, que prefiro chamar de Portais, que dão acesso a áreas de maior desenvolvimento pessoal e profissional. Posturas e atitudes que farão toda a diferença no processo de bem viver. Os VIII Portais são:
a. Capacidade de perdoar
b. Generosidade
c. Solidariedade
d. Gratidão
e. Não se sentir doente, apesar de...
f. Não parar de produzir
g. Conjugalidade (harmonia na vida a dois)
h. Espiritualidade
Não me deterei sobre cada um dos Portais acima. Não há necessidade.
Eles são autoexplicativos. As pessoas especiais com as quais convivi, de todas as idades, tinham nela um ou mais desses Portais.
Camila, por exemplo, com seus 12 anos, ao chegar em casa e responder á pergunta do seu pai ativou um deles:
- Camila, qual será seu papel na peça de final e ano da escola?
- Multidão.
Multidão... multidão... multidão. Camila acabou de entrar no Portal da Generosidade consigo mesma, com o grupo e com a peça. Ingressou pelo Portal B, não se considerou num papel menor. Foi lá, desceu da arquibancada e jogou o jogo, no jogo da vida.
Foi rememorando cada um deles. Lembro-me de X, que tem Aids há 15 anos, e que a cada aniversário comemora com humor o último ano que lhe deram. Nunca o vi se lastimando com os efeitos colaterais, ou com as infecções oportunistas. Ele entrou pelo Portal E.
E, não deixou que o vírus HIV tirasse dele a única coisa que de fato o matará, e a todos nós, a esperança.
Você já percebeu como tem gente que nunca está feliz? Que perdeu a esperança?
Sempre murmurando, reclamando... Se vai jantar fora, reclama do serviço.
Se de férias, reclama dos locais que visita.
Se trabalha, reclama da empresa, dos colegas, do chefe e até do trabalho.
Você chega perto dessa pessoa e diz:
- Que dia lindo.
Ela te olha e fala:
- Lindo para quem?
Hoje amanheci querendo pregar às multidões.
Para que elas não se deixem adoecer, por tanto aprendizado a serem perfeccionistas, ranzinzas, de baixa flexibilidade e adaptabilidade, resmungonas e chatas para com a vida e consigo mesmas.
A chamar atenção para o que na vida lhes falta.
Não. Não fixe seu olhar sobre o que lhe falta, isto te imobilizará.
Somos o que pensamos. Nossas crenças geram nossos comportamentos. Se deixarmos em nós habitar esse ser resmungão, pessimista, negativista, sempre descrente de tudo e todos; para o qual tudo está em dívida, como nele serão ativados alguns dos VIII Portais do Ser?
Em cada mágoa nutrida, em cada ódio adormecido, em cada culpa ressentida e a cada dor revivida, um pouco de nós morre junto.
Pense nisso e mude!
Para uma boa relação consigo mesmo, e com os que te rodeiam,
adentre os VIII Portais do bem viver, tão bem descritos pelo Cabrera.

Faça cócegas nas almas.

Tem dias em que você se sente
indo de 4ºC para 26ºC. 
Essa foi a história de um tubarão
branco de 3 metros que ao mergulhar
nas profundezas do oceano, 
na Austrália, gerou um registro nos instrumentos de monitoramento - nele afixados, indicando um aumento brutal 
em sua temperatura externa. 
Ela subiu de 4ºC para 26ºC, sugerindo que ele foi literalmente engolido por uma fera descomunal. Se eu, ou você, estivesse no lugar do bicho engolido, e a presa fosse os dissabores eventuais de um cotidiano difícil, é bom lembrar de fazer cócegas no estomago da presa. Quem sabe ele nos cuspirá. 
Feche as torneiras por onde escapa sua felicidade. 
Não se leve tão a sério, nem aos outros predadores que cruzam o seu caminho. 
Respire, respire, respire. 
Amanhã pode se o dia da caça, mas que seja uma caça de amor. 
Nunca na mesma moeda. 
Nessa corrida para existir, não pague o ódio com o ódio. 
O desamor com o desamor. 
A indiferença com a indiferença. 
Seja diferente! 
 Tenho minhas explosões - idem descomunais... depois vejo que minha esperança e felicidade estão vazando, qual descarga com defeito, enchendo a fossa de meu viver. 
Aí me toco, fecho direito a descarga, 
protejo as saídas de meu coração. 
Respiro, e acredito novamente. 
No interior, divirto-me e me fortifico na fé. Sim, na fé. 
Não, não serei como eles. Ahh, não! minha melhor parte é a loucura de continuar sendo gente, mesmo habitando, 
vez por outra, interiores em fúria.

De que prumada?




90% do que afeta nossa felicidade,
ou otimismo, não é função do que acontece conosco
- é o produto de como percebemos e processamos
o que acontece conosco, em nosso modelo mental.
As situações, e a realidade circundante,
podem ser vistas como bênção ou maldição.
Até as portas que se lhes fecham.
Na verdade, numa mesma situação,dependendo de que ângulo você se proponha a ver, há os dois trevas e luzes.
O que você fará com as trevas é quem fará toda a diferença no teu bem viver.
Eu, com elas, choro uma noite e um dia.
Depois, bato a poeira e pergunto-me,
o que poderei aprender com a situação?
Em que ainda saí no lucro.
E, sigo sem olhar no retrovisor, abrindo novos caminhos.
Use as lágrimas para irrigar seu jardim interior,
e doe-se em frutas doces e suculentas para quem de ti fizer morada.

Frutos


Uma árvore exposta, 
cheia de frutos, 
será de natal?
Órfãos de desejo, 
vocações interrompidas. Frutos esperam.
Convite ao amor. 
Qual seu sabor?
Quem provará do esmo?
Aventureiros de todos os tipos apresentai-vos!
Ocos transeuntes não percebem sua graça.
Loucos viajantes apressam o sinal ao seu lado, agoniam o tempo, correm.
Quem provará de teu sabor?
Entre todas, amigas em fila, só tu preciosa expõe-se desejosa e carnuda de sentimentos.
As outras, fecham-se em folhas: protegendo-se da indiferença de quem as vê e não as toca.
Fechadas, protegem-se do desamor, de quem as deixa virarem lama.
Senti por ti frutos silvestres. Não te conheço, sei de teu nome, sabor, aroma.
Senti por ti, frutos ávidos por cumprirem sua missão.
És nós, em cada gomo.
Seres desejantes de em cada momento revelarem-se em lampejos de luz.
Peregrinos em busca de missões que por elas valha a pena viver.
Ah árvore ousada, a única que se despiu das folhas e revelou-se toda em frutos, toda em bênção. Aposto que os passarinhos te amam.
Como tu nos ensina, seres difíceis que somos de nos fazermos frutos para os que de nós procurarem abrigo.
Que ano a ano minha folhas caiam.
E que de meus troncos e galhos retorcidos só fique expostos os frutos - fartos frutos, para animar a jornada de pessoas com fome de sentido, fome delas mesmas.
Uma pessoa exposta, cheia de frutos, será natal?

Um Conto de Amor

Eu lhe disse o quanto sua violeta corporativa estava bonita.
Daquelas que ganhamos ou levamos para nos fazer companhia no trabalho.
Mas a dela era especial. Tinha um porte atlético, esbelta, quase uma musa.
Aí perguntei-lhe o que fizera pra que ela ficasse tão exuberante, mais parecendo artificial.
Ela sorriu. Um sorriso amoroso.
Disse-me que sua violeta era mais uma das tantas vendidas nos supermercados, condenadas à ficarem esquecidas num cantinho qualquer, após sua florada.
Vítima de um tempo de esquecimentos.
E que a comprara para embelezar sua área de trabalho. Quando a colocou no local, perto de uma janela, viu que ela estava mal acomodada naquele vasinho apertado. Então, voltou ao supermercado e compro-lhe um vaso maior, terra e a trasplantou cuidadosamente.
Diariamente cuida de suas folhas, conversa com ela e não deixa que lhe encham com mais água do que o necessário.
O que era apenas uma violeta de supermercado agora era a sua violeta.
Em cada gesto um cuidado que a tornara especial. Luz, adubo, água, espaço, conversa e podas necessárias.
A violeta me pegou num dia muito emotivo.
Recebi um UOT falando de que ela o aceitara como namorado.
Ele não se continha em si de feliz. Dissera-me que após deixá-la no aeroporto, no seu retorno para casa, chorou de saudades.
Eles vivem amor distante. E dos bons. Creio que a violeta de minha amiga expressa o que cada um fez para que o amor acontecesse. Venceram medos. Destinos certos. Venceram dúvidas, temores, pré-conceitos. Ambos vinham das desventuras do coração. Era sobreviventes e não queriam mais "saber dessas coisas do coração". Sofreram muito e já não eram mais crianças. O amor "infecionou" primeiro nele. Ele pegou a violeta e a levou para sua vida. Cuidou dela. Transplantou-a de realidade vividas e doloridas. Depois a convidou para tomar sol. Para passearem e rirem juntos das coisas da vida e do viver. Todos os dias adubava o encanto do amor com horas de conversas digitais. São Paulo-SP à João Pessoa-PB ficou ali pertinho. Longe é um lugar que não existe para quem ama.
Ele viveu o abobalhamento do amor, em todas as suas formas. Um abobolhamento que nos faz conversar com uma violeta, tal faz minha amiga.
Do alto de seus cinquenta e poucos fora pego de surpresa pela lufada do amor.
Dizia-me que não acreditava nisso. Era um engenheiro, muito cartesiano, muito cheio de negócios e que estava feliz assim, solteirão.
Ela, dizia-me que após seu último relacionamento não estava preparada para doar-se novamente, para fazer muda num vaso novo. Fazer novas todas as coisas mesmo que já vividas. Sofreu muito no último encanto do amor. Quando estava perdidamente apaixonada, ele ligara pra ela terminado a relação: sem motivos; sem velas; sem perfumes... simples como quem diz que chegará mais tarde do trabalho. 
Por meses, vinha vivendo as dores das Mães da Praça de Maio que diariamente esperam a volta dos filhos.
Esperava dele um telefonema de reconciliação.
Ou um email restaurador, e até que ele irrompesse pelo seu ap. com um buquê de rosas. e, nada!
Assim, fechou-se em ás de ostras.
Quando o irmão mais velho dele a abordou, 
pronto, ela não seu irmão e um perdão. 
Ela não iria reviver aquilo novamente. Não. 
Recomeçar com seu irmão, de maneira alguma! 
Ela não estava louca. Ouvia os dois no meu divã digital. Um atônito pelas coisas que estava sentido e nunca sentira. A outra, desesperada de voltar a sentir e ser novamente esquecida como violeta de supermercado.
Aos poucos o vaso novo do amor foi se fazendo presente.
É que as sementes do amor pedem paciência e tempo para germinarem, mas se forem boas, se caírem num coração fecundo, elas vão criar raízes e germinarem.
Após o sim, do namoro, começou uma longa jornada de recuperação da confiança. perdida. Mais fácil achar uma agulha no paiol do que recuperar confiança, mesmo que o amigo não tivesse sido o responsável direto pela quebra dela. Sobrou para seu dna. E a história do amor avançou. E tome milhagem. e tome horas de UOT. e tome chás de cuidado, de delicadeza, de atenção. Quem poderá resistir à força do amor. De um amor verdadeiro. Lentamente, aquelas violetas em forma de pessoas: ele e ela, antes sem viço e sem esperança - descrentes de qualquer novo amor a dois; foi rejuvenescendo. Criando amálgamas de emoções. Dois corações perdidos num vaso de violeta, esquecidos num canto qualquer de suas vidas, agora renascidos. Assombrados pelos encantos do cuidar, do compartilhar, do conviver. Nenhum por do sol meu amigo viu mais do mesmo jeito. Canções passaram a encher suas retinas. Ficou atento à tudo que pudesse fazê-la feliz. Ela, tomou coragem e enfrentou sua família. Convenceu um a um, numa batalha épica, de que estava vivendo algo especial e que tinha direito e tentar novamente, sem ser de novo, entende? Ele, foi pedir bênção à sua mãe. Coisa linda de se ver em dois marmanjos. E assim a violeta do amor renasceu. Não há coração que se perca ao reencontrar o caminho do amor. Transplantes de membros amputados do amor, para novos jarros de sentido, adubados pela força do diálogo, aquele mesmo de minha amiga que diariamente conversa com sua violeta. Ahh se os casais soubessem a força de uma boa conversa, mesmo que seja sobre as novas aquisições parta o álbum da copa. Ahh se soubessem!
Se até violetas renovam-se com cuidados e conversa, imagine os relacionamentos. Vão amigos, permitam-se amarem-se, posto que é chama. E que seja infinito, sempre que durar a vontade e decisão de amarem-se de montão, sem medo de parecerem bobos, aos olhos de mal amados, de todos os naipes. E, muitas pipocas, passeios, confidências, músicas e bons filmes juntos, embaixo de edredons. Isto não tem preço e não se compra nas esquinas e nos templos do consumo. Ahh não!!!!

Ternurar


Dai livre expansão à vossa ternura. Fiquei maravilhado quando encontrei essa citação no Livro de Isaías. A palavra ternura é poucas vezes usada na Bíblia. Basta dizer que na tradução João F. Almeida Atualizada - uma das mais aceitas no mundo evangélico, ela só é citada uma vez, e nesse mesmo versículo que abriu o texto: Isaías 63,15, traduçao Bíblia Ave Maria, uma das mais aceitas do mundo Católico.

Fiquei de cara, como dizem os jovens. E, na única vez que é citada, o profeta Isaías faz um apelo ao Deus para que ele "dê expansão à ternura". Pense num profeta abusado e ousado, multiplique por dois.

O cabra tá dizendo ao Criador: "Ei, vem cá, deixe de ser frio, libere ternura para seu povo..."

Lembrei de quando fomos a uma reunião de pais e mestres na qual relataram que uma amiguinha do JG coça seu cabelo, quando estão no quartinho do sono. Um bota o outro pra dormir. Isto é ternura. Nunca foi tão atual o desabafo-protesto de Isaías: expanda sua ternura, liberte-a das amarras do racional. Exponha-se. Faça cartas de ternura. Pinte quadros com ternura. Troque bilhetes com ternas palavras. Seja a ternura que almeja. Expanda-se na capacidade de expressar carinho, afeto, cuidado pelo outro. As escolas deveriam ter lições de ternura. Incluir nos aprendizados corriqueiros o da ternura.

Hoje cada um foi se fechando, na falta sensação de se proteger, e, de tanto fechamento ao outro, ficamos sós e brutos.

Sedentos por nos sentirmos acarinhados e emancipados pela força de um gesto verdadeiro de ternura. "Há que ser forte, contudo sem perder a ternura." Diria ao seus liderados um outro abusado revolucionário, tal qual o Isaías disse ao Deus Pai. Ternura é o encontro com o intangível. É o caminhar pelas veredas das subjetividades. É se fazer bobo, despudoradamente um bobo em se doar em ternuras mil.

Essa semana será minha palavra de prática: ternura. Vou exercitar-me nela e perseguir metas de gestos e atitudes ternas, pelo menos uns três por dia. Ternura, aqui vamos nós. Vem comigo!

Faz um jardim em mim.



Um visita surpresa dos filhos e nora.

Uma surpresa de gostosura num self-service pé sujo - Paella e deliciosa.

Um sentir-se criança, ao colar figurinhas no álbum da copa.

Uma alegria compartilhada, com a reação de nossa empregada,

ao ver o resultado final de sua sessão de salão de beleza, que nos custou nada, nada, nada.

Um entardecer sereno.

Um acordar animado para mais uma semana de trabalho.

Uma ansiedade mística e fecunda por mais uma noite de oração.

Um buquê de violetas corporativas.

Esperançosas, resistentes e gratas: tal posturas diante da vida, de sobreviventes.

Sim, sobrevivi. E, já tive do outro lado do balcão o suficiente para saber o valor de um ocaso e sua paz,

num domingo qualquer.

E de um trabalho com sentido.

E da família. E de amigos.

E de filhos.

E de um cônjuge.

E das contas a pagar dentro do orçamento, remediadas, mas dentro.

E de um erguer-se como pessoa, sem querer novamente ir para o quarto,

e, escondido chorar no travesseiro.

Chorei as mil lágrimas, e elas possibilitaram que as sementes germinassem e criassem um pomar e jardim dentro de mim.

Pronto a ser alimento pra quem dele precisar.

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